Agenda

A chance de sobreviver

            “É estupidez pedir aos deuses o que se pode conseguir sozinho.”

                                                         Epicuro – Filósofo Grego

                                                                                                                                                                reencarnacao (1)

E se a teoria da reencarnação que tanto nos consola não for bem como pensamos?

Vivemos no maior país católico do mundo e mais da metade dos que se dizem cristãos frequentam religiões (algumas abrigadas com o nome de filosofias) que dizem que nasceremos de novo. Essa incoerência só pode ser explicada pela nossa busca de saídas fáceis. De um lado o condicionamento cultural, de outro a esperança de uma nova oportunidade para ser feliz, finalmente!

E se existir uma terceira possibilidade entre as religiões orientais e ocidentais? As primeiras defendendo vidas seguidas e a segunda com apenas uma existência, onde depois da morte rumaremos para “outra” casa.

Penso que o ser humano não é algo definível, conforme já escrevi em artigos anteriores. De um lado nossa biologia Darwiniana, muito fácil de ser constada pelos nossos instintos e de outro nosso potencial para o divino, que também vemos diariamente em ações solidárias e fraternas por todos os lados. Vivemos essa constante oscilação entre um e outro, e nosso potencial está mesmo em desenvolvermos uma consciência, conforme escrevi no texto “O terceiro fator”. O despertar dessa consciência, isso sim nos definiria enquanto humanos, um ser entre o animal e o divino, com uma vida própria, no sentido do contexto e identidade evolutiva.

Se esse corpo biológico precisa de uma mente que o faça ter medo e preocupações para garantir que sobreviva o maior tempo possível, também necessita do “espírito”, ou seja, um impulso para o novo, desconhecido, onde realmente podemos evoluir, já que no conhecido não se aprende mais nada.

Essa fricção entre o medo o e impulso é o que leva o ser humano a avançar ou permanecer estagnado em suas crenças e condicionamentos limitantes, outro nome para a palavra “medo”. Como já disse, nossa parte espiritual não está muito preocupada com as coisas desse mundo e se só a ouvirmos os problemas serão tão grandes quanto as alegrias, fora o risco que esses lampejos de liberdade impensada podem nos trazer. Os dois são impulsos, não fazendo parte da individualidade, como equipamentos de um carro fabricado em série, ou seja, mente e espírito são itens de série, sem vida própria, ambos finalizando junto com o corpo no momento da morte.

O desenvolvimento da consciência, que media e une essa dualidade em uma trindade só pode ser dada por dois caminhos; o primeiro é saber que ela existe em potencial e que pode ser desenvolvida. E o segundo, é a determinação, somada aos esforços corretos para obtê-la. Esse “querer” nada mais é do que  outra definição para a palavra “vontade”, que em última análise é o que nos move a enfrentar o medo, matéria prima da mente.

Essa consciência, se for desenvolvida, adquirindo portanto uma identidade, poderá sim, reencarnar. Não é nossa parte espiritual que passaria a ocupar outros corpos no futuro, mas nossa consciência, essa sim uma identidade conquistada pelo mérito de pôr o saber em prática, como uma forma de viver e entender a existência. O espírito nada mais é que um impulso, necessário para fazer oposição à mente puramente animal. Mente e espírito são claramente antagônicos, conforme citei acima, não sendo, portanto, a verdade.

Dentro dessa abordagem, a reencarnação só seria possível se essa consciência for desenvolvida, caso contrário, no momento da morte nada se desprenderia, como uma semente, que por nunca ter germinado, não chegou a nascer no sentido evolutivo.

Como na natureza nada se perde, essa essência retornaria à sua origem, um potencial de vida, sem forma, sem nada! De onde veio esse potencial que não tenha frutificado, para lá voltaria, mas sem uma identidade, já que o potencial de consciência não se oportunizou e a identidade não foi atingida.

É muito cômodo e pouco lógico que todos, independentes ou não de esforço, evoluam em direção ao divino. Em um universo onde o movimento e a impermanência são a verdadeira Lei, como entender a estagnação? Essa recusa precisa de um preço ou reação.

Sei que você, caro leitor(a), poderá perguntar como que as pessoas que moram em lugares miseráveis, tanto materialmente como socialmente e encaixariam nessa ideia? Minha resposta é que mesmo nesses lugares, e a história está repleta de exemplos,  há muitas pessoas que avançam consciencialmente. Sempre com muito esforço, remando contra uma maré muito mais forte que a dos outros lugares privilegiados. Na verdade é mais fácil de desenvolver ali, onde o sofrimento é epidérmico e a busca por compreende-lo, dar-lhe um sentido é quase uma necessidade.

Já, quem tem melhores condições, sofre justamente por uma fácil acomodação e uma crença em um deus “papai” que nunca vai deixar nada acontecer a seu filho, aquela eterna criança. Mas mesmo o conforto não impediu Sidarta de se tornar um Buda nem Francisco de Assis de atingir a santidade e poderia trazer outros exemplos.

Assim, de um jeito ou de outro, sempre sofremos com uma força contrária, que nos empurra para a estagnação (medo), nos desafiando a buscar o outro lado e, finalmente, encontrar o meio termo, esse sim a Verdade, por incluir os opostos.

Conta a história que quando Sidarta Gautama chegou à iluminação, disse ter se lembrado das suas últimas mil vidas, ou seja, depois de ter despertado essa consciência (terceiro fator), esse foi o tempo que precisou para encerrar sua jornada reencarnatória. Da mesma forma poderíamos falar de Cristo, por que não?

Como diz Osho em “Destino, Liberdade e Alma”, o que sabemos de Jesus foi sua última encarnação. Assim como Sidarta, ele deve ter vivido muitas vidas antes do seu clímax. Sei que para os cristãos, Jesus só nasceu essa vez e voltará. Mas se você gosta da ideia da reencarnação, na medida em que vidas seguidas nos levam à evolução, a ideia de Jesus ter vivido vidas anteriores deveria ser óbvia e fazer todo sentido.

O que constato é que mais de dois mil anos se passaram e esse retorno esperado não aconteceu. O planeta está morrendo pela exploração desenfreada e inconsciente de uma humanidade  ainda primária no aspecto evolutivo, como também comentei no texto “Verdadeiramente órfãos”, e Ele ainda não apareceu.

Não virá, por não estar mais ligado a essa etapa evolutiva. Ele se “salvou”, tentou salvar a todos como fizeram outros grandes Mestres da história, sem sucesso. Não há salvação fora da consciência, mesmo que ela esteja estampada na frente da pessoa, ela não poderá reconhecer. Como ela poderá ver algo que não tenha em si?

Vejo o processo como individual, precisamos desse “despertar” para que através do pensamento racional, de uma observação atenta à realidade e práticas pessoais se busque uma nova abordagem que não seja a dos dois impulsos que conhecemos. Estar em um extremos é estar com apenas meia percepção.

Quando se diz que Deus está dentro de cada um, vejo como esse potencial que precisamos  buscar de uma consciência mais desenvolvida que nos faz operar o maior dos milagres;  mudar a realidade  que cada um experiencia sua existência. O mundo nunca muda, só o que pode ser alterado é nossa relação com ele e isso só vem se morrermos para inconsciência e ressuscitarmos mais lúcidos, no “caminho do meio”.

Nossa reencarnação pode não ser garantida, para muito menos o paraíso. Podemos, porque não, abrir o leque de possibilidades para algo que nos motive a ir adiante. Do jeito que pensamos como cristãos ou reencarnacionistas de um jeito ou de outro tudo se resolverá um dia, seja vivendo infinitamente, seja indo morar no “céu”. Esse pensamento acomodado carece de lógica e é no fim das contas muito cômodo.

Como tudo são teorias e sempre serão, fique com mais essa. Nesse primeiro post de 2016 porque não começar o ano pensando diferente?

Sei que ela tem um problema, um desconforto que nos responsabiliza diante da evolução.

Mas vai que essa seja mesmo a certa?

Verdadeiramente órfãos

“Ser agnóstico é como enfim tirar a venda, mas descobrir-se cego.”

                                                                                 Rodrigo Quito

Ograndepensador

Essa foi uma daquelas notícias que ninguém dá importância:

“O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, alertou que até 2030 quase metade da população global terá problema de abastecimento. Isso vai acontecer porque, daqui a 17 anos, a demanda por água vai superar a oferta em mais de 40%.”*

Poderia citar tantas outras sobre outros tipos de esgotamento do planeta, mas vou deixar apenas essa, já serve para nossa reflexão.

Em outros artigos desse blog já  falei que a ideia que temos de Deus, como sendo um “pai” ou uma figura quase humana nos mantêm infantis por toda uma vida, já que no nosso inconsciente (estou sendo otimista), temos a ideia de um Deus que está cuidando de nós; aquela história de crianças que não sabem o que fazem. Como tudo que é dito mil vezes…

Assim, vivemos achando que se algo bom acontece é “graças a Deus”, e se for sofrimento “Deus sabe o que faz”, ou a ótima: “cada um carrega uma cruz que suporta o peso”.

Interessante observar que isso nos coloca sempre na condição de uma vítima, sem autonomia, ou seja, sempre terá quem me cuide, seja Deus ou um Anjo da Guarda qualquer designado para esse fim. De forma coletiva pensamos da mesma forma, e isso pode estar por trás do nosso descaso ou falta de consciência ecológica.

Esse alerta da ONU é baseado em dados científicos e existem outros estudos que mostram que até 2040, mais da metade da população mundial poderá morrer por problemas ligados a exaustão do planeta. Esses dados não são ficção científica, estamos falando daqui a 25 anos e, se não fosse pela destruição, provavelmente todos nós poderíamos estar vivos nessa data.

Cabe lembrar que o ser humano não faz parte da cadeia alimentar. Alguns dizem que estamos no topo, mas na verdade somos a única espécie que, se deixasse de existir, garantiria que esse pequeno planeta azul duraria  muito mais. Somos desnecessários aqui e deve ser por isso que só fazemos mal.

Existe um equilíbrio na natureza que o Homem insiste por ignorância e ganância, que no fim é a mesma coisa, afetar com sua conduta destrutiva. Nenhuma espécie destrói seu habitat, só mesmo o humano.

O sonho do mundo é viver uma vida de consumo, como os EUA,  por exemplo. Só que  se isso ocorrer fará com que precisemos de outros planetas iguais ao nosso só para dar conta da demanda dos recursos necessários para gerar energia e matéria prima para produzir tudo que queremos comprar.

Fico pensando se tudo isso não está acontecendo por termos a ideia de que nenhuma tragédia acontecerá, que nada se esgotará porque “Papai do Céu” está cuidando e certamente intervirá de alguma forma para que seus filhos não morram pelas suas burradas. Vai que Deus é um daqueles pais que não colocou o filho no mundo para sofrer.

Penso que não seja.

A história da humanidade está repleta de erros que custaram milhões de vidas e não percebi nenhuma intervenção divina. E se o conceito que temos de Deus enquanto humanidade estiver errado? Afinal foram pessoas como eu e você, algumas que hoje em dia certamente estariam acompanhadas por um psiquiatra, inventoras dessa ideia de um pai protetor, que nos cuida como crianças, a quem pedimos ajuda para atender aquilo que não nos sentimos capazes de conseguir ou para termos a desculpa para os erros crassos em nome do desenvolvimento e da felicidade geral.

Estamos destruindo o planeta e não teremos ajuda “externa”, pois se ela existisse teria evitado muitas das bobagens que já fizemos, como duas guerras mundiais e tantas outras no decorrer da história, para dizer o mínimo.

Qualquer ecologista principiante sabe que não existe crescimento sustentável, isso é uma mentira. Todo o crescimento ou destruição não pode ser recomposto. Da atmosfera aos lençóis freáticos, estamos matando esse organismo vivo que é o planeta Terra e morreremos juntos, esperando uma redenção. Temos prognósticos nada animadores sobre doenças que estão por vir, justamente pelo desequilíbrio que estamos produzindo em larga escala.

Então, estive pensando e cheguei a uma conclusão que uma das saídas filosóficas para o problema seria mudar o conceito de Deus. Já que ninguém pode discutir crenças, lá vai mais uma:

E se Deus apenas seja um impulso de vida e que depois estamos cada um por nossa conta? A isso damos o nome de “livre arbítrio”. Seja individualmente, seja coletivamente, estamos fazendo coisas para atender nossos desejos de riqueza e poder,  gerando resultados que teremos que assumir. Se a lei do Carma existir, estamos ferrados!

Dessa forma, talvez a solução possa ser nos tornarmos todos Agnósticos**.

Sei que isso faria com que as Igrejas de todos os tipos perdessem finalidade e muita gente teria que arrumar outro programa para os domingos pela manhã. Alguns canais de televisão perderiam parte ou toda sua programação, além é claro de muita gente, mais muita mesmo teria que fazer outra coisa para sobreviver.

O agnosticismo é a visão que mais tem crescido ultimamente no mundo, principalmente nos países mais desenvolvidos onde o nível cultural é o mais elevado. Obviamente, isso não é uma coincidência; afinal quanto mais se estuda, mais se consegue pensar com alguma lucidez e observar que algumas histórias de ninar fazem parte do mundo da fantasia.

Reconhecer que a natureza como um todo  é movida por uma “inteligência “ superior e que a vida é algo tão magnifico que não poderia ser causada por nenhum acidente, é um conceito religioso em si mesmo. Mas saber que isso possa ser tão grandioso que não possamos entender é muito justo pela nossa insignificância. Vivemos em um planetinha minúsculo em uma galáxia pequena diante de milhões de outras em um Universo sem fim. É como querer que uma ameba entendesse  os textos de Kant.

Sei que isso nos deixaria desamparados em um primeiro momento, afinal estamos acostumados à ideia de sermos cuidados, mas em seguida começaremos a assumir nossa responsabilidade de forma totalmente diferente. Viraríamos adultos e rápido.

Isso poderia trazer uma nova visão ecológica, bem mais fatalista, já que tomaríamos consciência de que somos responsáveis e estamos caminhando para a autodestruição. Toda e qualquer prática que levasse ao esgotamento dos recursos seria rechaçada de pronto e teríamos um lugar para viver por mais tempo. Mas a condição é assumirmos que estamos por nossa conta, sem ajuda.

Tenho um filho de 5 anos e saber que ele poderá morrer jovem por falta de água e ar para respirar atesta que somos um fracasso enquanto humanidade. Muito da falta de consciência vem não só da ignorância, mas da ideia que nada nos acontecerá, que estamos protegidos por sermos a “imagem e semelhança” do criador.

Tudo que existe é assim, de certa forma entregue ao acaso e a grande maioria das espécies que já habitaram esse mundo desapareceram. As poucas que podem ser consideradas antigas não sobreviveram por serem fortes ou qualquer qualidade superior, mas pela sua capacidade de adaptação. Isso é uma forma de inteligência que precisamos aprender com os lagartos, tartarugas e moluscos. Se eles estão aqui há muito mais tempo do que nós, é por possuírem um tipo de inteligência que nos falta. É uma questão de lógica,  é só observarmos os fatos e não há como negar.

Nosso problema, como diz sabiamente o filósofo Mario Sérgio Cortella ***, é nos acharmos “grande coisa”, de estarmos acima das consequências da destruição que promovemos.

Esse tipo de pensamento tem fundo religioso, de nos acharmos quase deuses, quando na verdade somos só um pouco melhores do que os macacos, com bem nos mostrou e provou Darwin.

Assumir nossa ignorância mais essencial, que nada sabemos sobre esse Criador, levar em conta que tudo pode ser totalmente diferente do que esperamos confortavelmente, possa ser a alternativa mais rápida para não nos destruirmos.

Não somos crianças que não sabem o que fazem, somos autores e responsáveis por cada ato e nisso não há quem possa nos perdoar.

Quando o Papa Bento XVI esteve visitando os campos de concentração de Auschwitz saiu de lá abalado e perguntou em voz alta: Deus onde você estava que deixou isso acontecer? Via-se no seu rosto que ele estava em dúvida na sua ideia de Deus e teve seu momento agnóstico.

Essa Força criadora estava no lugar de sempre, aquele que não tenho noção de onde seja e que pode ser em todos os lugares, para o que entendemos por bem e mal. E não fez nada, porque mesmo que Ele exista, não é da conta dele. Só mesmo estando cego por alguma crença para não perceber. Observe a história e me diga que se o meteoro que dizimou os dinossauros, as pestes e nossa ganância que matou milhões e continua matando tem sido impedida por alguém.

Sinceramente, você acha mesmo que tem alguém cuidando do seu ou do nosso destino?

                                 homem com ursinho de pelúcia

______________________________________________________________________

*http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2013/03/22/quase-metade-do-mundo-pode-ficar-sem-agua-ate-2030-alerta-onu.htm

**Agnosticismo – doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica.

*** Palestra disponível em:

Imagem de Amostra do You Tube

Sobre a questão da história do planeta e dos seres mais adaptados sugiro a leitura do livro: “Uma breve história de quase tudo” de Bill Bryson editado pela Companhia das Letras.

Aceitação

“Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da aceitação. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceita-lo.”

Eckhart Tolle – O despertar de uma nova consciência

 

“ O sofrimento é a não compreensão da dor.”

Dulce Magalhães

aceitação

Qual o limite do sofrimento?

Essa resposta é difícil e por isso penso que seja interessante refletirmos sobre ela. Muitas vezes, o sofrimento termina por irmos até o seu final, esgotá-lo. Para isso o corpo tem seus mecanismos. Noto na prática da psicoterapia que a pessoa experimenta uma melhora súbita depois de um sofrimento intenso, normalmente passado alguns dias. Isso ocorre justamente por irmos tão fundo nele que não há como prosseguir, já que nosso próprio sistema tem uma limitação, afinal, precisamos continuar vivos.

Essa também é uma espécie de técnica terapêutica defendida por alguns que tem o objetivo de viver o sentimento intensamente por um tempo curto com esse fim; de esgotá-lo o mais rapidamente possível. Do jeito como somos, preferimos sofrer longamente, pois isso nos dá, inconscientemente, essa sensação de justificá-lo.

O âmbito do sofrimento normalmente está abaixo da nossa racionalidade, justamente porque, na maioria das vezes, seu simples entendimento poderia dirimi-lo. Mas como na nossa cultura sofrer é algo que entendemos que nos purifica ou nos faz evoluir a via longa parece ser a escolhida.

Vamos analisar algo extremo: a perda (morte) de uma pessoa muito querida.

É inevitável e muito normal sentir uma dor profunda. Mesmo os adeptos do reencarnacionismo não estão isentos a ela, afinal, essa pessoa sairá de nossa convivência e não a veremos mais, nem teremos a possibilidade de estar com ela pelo restante de nossa vida.

Aqui, entra o ditado popular: “ A dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional”.

Mas como colocar isso em prática? É muito difícil e precisamos entender o porquê.

Em primeiro lugar, o que acontece é que aprendemos que uma forma de demonstrar amor é pelo sofrimento. Esse conceito é levado muito a sério nos relacionamentos afetivos, por exemplo, onde tendemos a avaliar o quanto gostamos de alguém pelo sofrimento que essa pessoa é capaz de nos trazer. É como fossemos cobrados em sofrer para demonstrar o quanto gostamos da pessoa que partiu.

Sejamos racionais: A morte é definitiva para o corpo e, seja por uma doença, acidente ou qualquer outro motivo, não tem como voltar atrás. O sofrimento muitas vezes vem de procurarmos respostas para perguntas como:

Por que aconteceu com ele(a)?

Não merecia, pois era uma ótima pessoa.

Por que agora e dessa forma?

Por que alguém merece passar por isso?

Essas perguntas nunca serão respondidas, já que para isso a vida precisaria ter uma lógica, um sentido que não tem. Em artigos anteriores já discutimos esse assunto. Dessa forma, ficamos procurando um sentido onde não há e isso mantém o sofrimento por longo tempo, até que a pessoa chegue à conclusão que não terá essas respostas e vai recolocando sua vida nos trilhos. Essa forma, digamos, natural, demora muito. No caso de uma morte, por exemplo, é aceito que a pessoa enlutada tenha prejuízo na sua vida por até um ano depois da perda. Somente após desse período é que se considera a necessidade de procurar alguma espécie de tratamento.

O que podemos questionar é se precisa esperar tanto tempo, se esse sofrimento não poderia ser dirimido pela simples aceitação da infalibilidade da morte. Muitos procuram em si alguma responsabilidade, se poderiam ou deixaram de fazer alguma coisa que evitaria o ocorrido.

Nesse caso, já entramos em mais um aspecto, onde o sofrimento se encontra com a culpa. Sentir-se culpado ou ficar remoendo pensamentos de que algo poderia ter sido feito, nada mais é do que encontrar finalmente uma resposta para entender essa perda: Eu fui culpado, pois poderia ter percebido ou feito isso ou aquilo.

Se, por um lado a pessoa simplifica a situação ao se culpar, por outro essa solução traz o outro problema. Já que a culpa existe, é porque algo errado foi feito e isso exige uma punição. Para isso, não precisa de nenhum juiz ou tribunal; nós mesmos nos impomos algum tipo de pena. Mais tempo passa onde essa punição é cumprida para expiarmos nosso “erro”.

Quando não é uma morte, necessariamente, mas uma perda material onde precisaremos retroceder socialmente ou abrindo mão de algum conforto, sempre vem junto um abatimento do ego que, tem sua autoimagem afetada. Quantos já foram ao limite do suicídio por terem ficado repentinamente pobres e não suportaram lidar com essa nova realidade?

Em outros casos, algum segredo vem à tona e essa descoberta afeta a imagem que a pessoa luta por defender. Daí, acontece de pensar que a morte a eximirá de passar pela responsabilização do seu ato e da mudança que provocará em seu círculo de amizades com a perda do reconhecimento que viria.

Seja qual for o caso, e poderia citar outros tantos, a simples racionalização pura e simples já teria, em tese, a força de tornar o sofrimento sem sentido ou diminuí-lo. Seja para prestar contas à sociedade do nosso amor, seja para defender uma posição ou conceito que temos de nós mesmos, as perdas em geral nos remetem a um longo período de abatimento que pode nos levar a abandonarmos caminhos ou fazermos escolhas que mudarão nosso futuro.

É claro que a dor, seja pela perda que for, até mesmo de um emprego que gostamos e que jamais imaginaríamos que fossemos nos afastar, causa um baque inicial que devemos aceitar. Mas compreender e usar a racionalização poderá ajudar a diminuir o tempo do sofrimento.

Quem sofre pouco, pode parecer aos olhos comuns como alguém insensível, que não se importa ou que não gostava tanto assim da pessoa falecida, que não dava importância ao relacionamento, etc.

Será?

Pode ser simplesmente que essa pessoa tenha optado por não sofrer, desistiu de ficar procurando respostas lógicas para perguntas que nasceram para não serem respondidas.

Seja a perda que for, não tem como não doer, e isso é normal, faz parte e como diz  Eckhart Tolle pode ajudar a transcender, ou seja,  ir além do sofrimento.  Só que isso só será possível se simplesmente aceitarmos que, por exemplo, nada nunca está sólido, seguro ou garantido em qualquer aspecto da vida.

Isso, por um lado pode gerar angústia, por outro é justamente o oposto; se é assim, que seja;  já que sofrer não vai tornar nada mais seguro ou evitar que o inesperado aconteça.

O animal que somos necessita se sentir seguro, por isso lidamos mal com as mudanças, principalmente as inesperadas ou incompreensíveis, como sabemos. Mas entender o sofrimento e ir além nunca foi coisa de bicho.

Temos um cérebro emocional e é dele que vem tudo isso. Mas nunca é demais lembrar que desenvolvemos uma nova parte, chamada Néo Cortex, que nos permite entender, racionalizar e colocar uma compreensão mais profunda.

Só que esse novo cérebro precisa de consciência para ser utilizado e precisaremos ir além do nosso emocional, muito automático, reativo e programado desde o dia do nosso nascimento.

No final, aceitação é muito mais do que dobrar os joelhos diante do desconhecido, pode ser simplesmente aceitarmos que tem coisas que, simplesmente, não devemos saber.

Imaginação

A felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação.”

Immanuel Kant

 

“A imaginação tem todos os poderes: ela faz a beleza, a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes do mundo.”

Blaise Pascal

 

“É a imaginação que governa os homens.”

Napoleão Bonaparte

 

imaginação

Em artigos anteriores procurei refletir sobre o fato de sermos seres com potenciais infinitos, habitando um corpo que, por ser de natureza animal, tende ao envelhecimento e a morte. Isso faz com que a inteligência do corpo seja baseada no medo, afinal, é isso que nos mantêm vivos.

Essa fricção entre o eterno e o que perece, transcendente e imanente, explica o que definimos por “humano”. Na parte mecânica desse humano está o cérebro, que também atende, de certa forma, a essa divisão. Duas das suas três partes, ligadas a manutenção da vida, cérebro reptiliano e límbico, e a outra, Neo Córtex, esconde nossa divindade possível.

No Neo Córtex, está a linguagem, o simbolismo e, principalmente, a nossa capacidade de imaginação. Quando usamos nossos atributos de criatura (capaz de criar) é a imaginação que nos permite visualizar o que poderá existir no mundo manifesto, depois que transformarmos o pensamento em matéria. Assim, tudo que hoje existe, produzido pelo homem e que podemos tocar e sentir foi, primeiramente, imaginado pelo seu criador ou, se preferir, inventor.

Portanto, imaginar é atributo exclusivo do bicho homem, e aí pode começar a surgir os problemas. Mas, antes deles, podemos definir o que é imaginar?

O poeta Victor Hugo disse que a imaginação é a inteligência em ereção. Menos erótico, eu a definiria como um pensamento que ganha vida. Pensamos a todo momento, mas só naqueles em que ficamos mais tempo vira uma imaginação, com imagens, roteiro e um final que pode ser alegre, triste ou simplesmente emocionante.

Podemos pensar, porque não, a imaginação como sendo uma energia, que, por fazer parte da nossa natureza está disponível e funcionando continuamente. Essa disponibilidade atende as duas forças que compartilham nosso corpo; a parte animal e a espiritual (ou o nome que você queira dar).

Quando estamos inconscientes a imaginação atende a nossa animalidade. Assim funciona o que a cultura popular costuma chamar de “oficina do diabo”. Sempre que estamos em atividades absolutamente rotineiras, cumprido mecanicamente nossas vidas e sem perceber a passagem do tempo, nossa imaginação funciona em sua parte negativa. Ficamos “pensando” nos problemas que poderemos ter no futuro, doenças, dificuldades de toda ordem, abandonos, etc.

Para quem acompanha o blog, já escrevi inúmeras vezes que essa negatividade tem por objetivo nos trazer uma inquietação para que evitemos que essas previsões aconteçam, pois o sofrimento que advirá delas poderá nos levar a morte. Eu e você já sabemos que isso quase nunca acontece. Mas as pessoas pensam (se é que posso dizer que isso é um pensamento), que essas “pré” ocupações da mente não acontecem justamente por termos nos preocupados com elas. Isso é uma bobagem sem fim, pois a vida é algo totalmente alheio e sem previsibilidade. Mesmo aquilo que esperamos que aconteça, quando ocorre, sempre foi de um jeito completamente diferente do que esperávamos.

Assim, a imaginação, quando não usada com direcionamento, atende ao animal que somos, e isso sempre será ruim. Todos que experimentam algum tempo sem uma ocupação ou têm sua vida muito rotinizada, sabem que a negatividade dos pensamentos só aumenta.

Aqueles que se dão o trabalho de perceberem nitidamente seus pensamentos se assustam com sua impossibilidade ou até  mesmo com a capacidade de transformarmos coisas pequenas em grandes tragédias e isso é a imaginação quem faz. O animal só imagina besteiras e isso explica porque alguns animais são usados em experimentos de comportamento humano e porque esses mesmo animais podem testar os remédios que iremos tomar.

De outro lado, quando usamos essa energia chamada de imaginação de forma focada e criativa somos testemunhas de onde podemos chegar e só observarmos toda a tecnologia disponível e novidades e criações que acontecem diariamente. Não há mesmo limite para isso.

Mas observe como precisamos dominar essa energia para conseguirmos usá-la de modo positivo. Sempre que não fazemos isso com frequência, ou abandonamos a criatividade, como temos dificuldade de foco e até de retermos o que lemos em uma página de um livro qualquer, por exemplo. A imaginação precisa ser “domesticada” e quando isso é feito, paramos de pensar em problemas e situações sofridas.

Parece que só podemos imaginar livremente quando somos crianças, depois só o que nos ensinam ou mandam. Toda a pessoa criativa se permite imaginar livremente, não aceitou nenhuma regra. Querer enquadrar a imaginação em certo e errado é um absurdo sem fim.

Evolutivamente precisamos entender que se a imaginação não for dominada e usada em seu lado positivo, ela se voltará contra nós. E o que temos visto? Cada vez mais gente com ansiedade, depressão e compulsões. Isso só acontece porque a imaginação saiu do controle e ao invés de servir a seu dono e encaminhá-lo à evolução, voltou-se contra ele e o adoeceu (possuiu).

Nossa imaginação é, na verdade, nosso maior obsessor e quando está de posse de nós, até pela sua natureza criativa, pode inventar um outro nome ou se dizer passar por um antepassado ou ficar nos trazendo pensamentos delirantes, paranoicos e tantas outras coisas.

Todas as energias que movem o cosmo não são positivas nem negativas, simplesmente se manifestam pela dualidade e podem ser usadas de igual forma por qualquer um desses aspectos.

O que quero dizer é que será o domínio da imaginação que fará diferença no processo evolutivo. Justamente por isso é que sempre estou repetindo que devemos nos esforçar para estarmos sempre conscientes do que fazemos a cada momento. É claro que isso é muito difícil, mas não tem outro jeito. Se a imaginação não for primeiramente entendida e depois dominada, a realidade que vivemos hoje, cada vez mais ampliada pela informação e pelo sistema econômico que nos cobra cada vez mais, não escaparemos dessa epidemia de doenças nervosas que atingem a maioria das pessoas. Olhe em volta, não é difícil perceber.

Em estado livre e sem domínio, apenas pensamentos ruins em relação ao futuro e ao passado, inevitavelmente, já que essa é a natureza do animal. Não repetir sofrimentos passados e evitar possíveis no futuro.

Na atenção consciente isso não acontece, pois a imaginação está controlada com a rédea curta da consciência e só vai para onde deixarmos e ali é ela que nos serve. Esse é nosso potencial e que realmente nos faz dominar o planeta. Do outro jeito, estamos doentes e destruindo tudo a nossa volta.

Precisaria mudar toda a estrutura que vivemos para que possamos evoluir como espécie, já que, por exemplo, na educação temos apenas a finalidade de formar mão de obras e pessoas competitivas. Toda a pessoa competitiva é movida pelo medo da derrota e de imaginar o que poderá lhe acontecer se não atingir o “sucesso”. Isso por si só é a utilização da imaginação de forma negativa, voltada apenas ao interesse da produção e do consumo.

Isso é tão “furado” que as classes mais abastadas apresentam índices altíssimos de doenças psiquiátricas e de consumo de entorpecentes. Esse medo pode realmente gerar grandes fortunas, mas a grande fortuna também significa desigualdade e miséria para muitos. O que surge dessa diferença? A violência.

A imaginação sempre é o primeiro passo da ação consciente, mas não podemos ficar só nela. Como o próprio nome diz:

                             imagem+ação = imaginação.

Domine sua imaginação, antes que ela o domine e apenas imagine o que  mandam aqueles que não estão preocupados com você.

 

 

 

O gene do mal

” A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições que ela impõe […] É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.”

Freud

” É evidente que a maldade e a crueldade são inventos da razão humana, da sua capacidade para mentor, para destruir.”

                                                                   José Saramago

                                                                                                                                                                                          maldade

Thomas Hobbes (1588 – 1679) foi um dos filósofos que se debruçaram sobre o difícil tema da natureza humana. Segundo ele, o homem em seu estado natural está sempre em guerra, movido por dois objetivos; manter-se vivo e fugir da dor, indo sempre que possível na direção do prazer.

Diferente de outros, Hobbes defendia que em sua natureza o homem é solitário, na medida em que seu interesse individual sempre vem em primeiro lugar. Conviver, ou ser um ser “social” é apenas uma conveniência para atingir seus objetivos, que nunca são alcançados, afinal, depois da satisfação de um desejo vem outro, logo a seguir.

Instintivamente isso é bem fácil de observar, afinal a defesa da vida não pertence à esfera do pensamento, mas da ação imediata. Depois se pensa sobre o que ocorreu, e se for o caso, podemos nos arrepender de não ter sido solidário.

Ao observarmos o comportamento do homem primitivo, os estudiosos dizem que só se agrupavam com o objetivo de estarem aptos a enfrentar invasores de seus territórios, ou seja, juntos somos fortes; sós nem tanto.  Dessa forma, o convívio social que muitos defendem como natural, só ocorre para defender interesses.

O filósofo defende a ideia de que a violência humana não tem limites, desde que seja para defender o que lhe pertença ou conquistar algo que o torne mais poderoso e o ajude a viver por mais tempo. Como podemos observar, não só homens agem assim, mais políticas de governo se explicam pela teoria de Hobbes, afinal, o governante é a média da maioria do pensamento de seu povo.

Mas quando o “outro” é necessário?

Precisamos uns dos outros para não somente cumprir um instinto de sobrevivência,  mas também para validar nossa percepção de mundo. A realidade existe no convívio, na troca e nos ajustes que precisamos fazer para conviver. Justamente por isso os relacionamentos tendem ao desgaste.

Depois de quatro séculos, Freud também via o homem da mesma forma  e dizia que só um rígido sistema de punição nos permitia viver uns com os outros. Quantas vezes a lembrança do prejuízo que um ato pode trazer impediu que ele fosse cometido? A resposta é: muitas,  sempre que ocorre o ato impensado, dizemos que “perdemos a cabeça” ou que algo se apossou de nós. Na verdade é essa natureza má que nos “possuiu”  e os freios que a educação, religião  e sociedade nos impuseram não foram suficientes, naquele momento, para pensarmos nas consequências.

Desde pequenos, precisamos educar nossas crianças para aprenderem a compartilhar e respeitar o outro.  Muitas vezes é a punição ou castigo que as esperam que impedem de agirem como realmente querem.

Muito mais do que um pessimista sobre como realmente somos, Hobbes percebeu nossa natureza mais primitiva. Todo tempo decorrido de seus escritos não mudaram sua validade. Observem os países que invadem e destroem populações inteiras pelo domínio de riquezas naturais, ou em ataques de fúria movidas pelas crenças religiosas e políticas.

Precisamos de esforço para nos tornar bons, sociáveis e preocupados com o ser humano. Por mais que as religiões cumpram seu papel de nos afastar da animalidade é muitas vezes em seu nome que se mata e a história antiga e atual está recheada de exemplos.

Nossa humanidade é um potencial que precisa ser desenvolvido, tem a ver com evolução e não ocorre naturalmente.

No meio de tudo isso, as exceções que comprovam a regra buscam colocar peso no outro lado da balança. Mas se fossem pelo menos metade da população mundial nossa convivência seria outra e não veríamos do conforto dos nossos sofás milhares padecerem de fome diariamente enquanto se produz alimento para se jogar fora em grande quantidade, por exemplo.

Essa minoria de voluntários do bem, que dedica sua vida a minorar o sofrimento dos semelhantes, animais e natureza são sempre motivos de notícia, pois são espécimes raros de uma raça que destrói em nome de satisfazer seu ego.

A criminalidade avança e um dos motivos é a distância cada vez maior entre os que têm e nada tem. Esse abismo empurra os que ficam de fora para buscarem seu direito à sobrevivência e a violência é o caminho natural, como bem já nos avisaram Hobbes e Freud.

Cada ser humano que nasce tem um potencial infinito e uma pergunta a responder:

Tornar-se-á verdadeiramente humano, ou viverá para atender suas necessidades e desejos sem fim a custa do sofrimento e exclusão de muitos outros?

Tudo começa com a ideia, que precisa ser questionada, de um mundo  escasso, que precisamos ser competitivos, que não há para todos e a luz do sol é uma conquista a ser feita e não um direito.

Os jornais nos mostram diariamente que esse modelo faliu, mas o mais fácil é aumentarmos o tamanho das cercas e colocarmos alarmes por todos os lados, para nos avisar que tem um ser humano por perto.

 _____________________________________________________________

Crônica publicada no jornal Folha SC em 21 de Abril 2015