Agenda

O combustível da vida

              “A felicidade é a compreensão lógica do mundo e da vida. ”

             “O homem livre não pensa em nada a não ser na morte; e a sua sabedoria é    uma meditação                      não sobre a morte, mas sobre a vida. ”

                                                                                     Spinoza

                                                                                                                        alegria

Baruch Spinoza foi, sem dúvida, um dos grandes filósofos da história e seu trabalho para quem procura entender melhor a si e ao mundo está mais atual que nunca. Mesmo tendo vivido pouco mais de quarenta anos, seu pensamento atingiu uma clareza impressionante. Incrivelmente, seu trabalho em relação a ética foi seu maior sucesso, mas sua visão do que é a vida, em meu entender, é superior. Seu “pecado” nesse aspecto é ter discordado da essência do pensamento de Platão, que ainda vigora como a visão “correta”, como se isso fosse possível em um mundo de pessoas diferentes. Talvez tenha começado aí, essa história de que existe um jeito “certo” de se viver, pensar e agir no mundo.

Spinoza era um pensador monista, isso quer significar que, para ele, só existe um mundo sensível e inteligível e que o homem é também um só, ou seja, o corpo que sente é o corpo que pensa. Platão diria que somos dois, um que sente e um “outro” que pensa. Assim, já podemos começar a entender, por exemplo, o motivo de termos pensamentos que não queremos ter. São pensamentos do corpo, como já citei em artigo anterior. Pensamos movidos pelos sentimentos e necessidades do nosso corpo, e ele dizia que “só podemos pensar o que somos a cada momento”. Mais tarde Nietzsche dirá uma de suas frases fortes: “Algo pensa em mim”.

 Dessa forma, Spinoza nos alerta que não temos muito controle sobre o que pensamos e poderemos, por que não, nos desculparmos por isso. Sabemos que viver em uma sociedade é abrir mão de desejos que não podemos ter e fazemos isso em troca de segurança. Mas nossos pensamentos buscam apenas nossa felicidade naquele instante. Assim, os pensamentos têm um problema em sua execução na busca de alegria; que isso seja permitido pelo mundo que vivemos.

Para ele, a vida é um conjunto de relações do corpo com os outros corpos e com o mundo, obviamente! Mas essa palavra “relação” precisa ser entendida em seu pensamento. Para nós relação tem mais a ver com trocas e negociações, mas ele dizia que relacionar-se é afetar e ser afetado, seja por alguém ou pelo mundo. Essa é uma visão mais complexa e que está vinculada a uma conclusão: Somos afetados pelo mundo e afetamos o mundo a todo momento e, essa troca, precisa trazer um resultado para que nos sintamos bem: alegria!

Spinoza diz que a alegria é como o combustível da vida. Quanto mais alegres somos, mais temos o que ele chama de “potência” e que, anos depois Freud chamou de “Libido”. No ramo da auto ajuda essa palavra chama-se “motivação” e por ser vista desse modo sempre tem um efeito curto. Estar motivado é estar alegre e é na relação com as pessoas e o mundo que essa alegria ou combustível vem, não o contrário. Por mais espetacular que seja uma palestra motivacional e fizer você rir e se imaginar capaz de tudo, será sempre uma dose de curta duração, pois a alegria que o manterá com potência ou força de viver vem dessa troca com o mundo e não de algo que alguém te dirá, sem uma compreensão profunda e uma mudança da visão da vida individual. Nada serve para todos, isso é partir do pressuposto que somos todos iguais e nos relacionamos de igual forma com o mundo e as pessoas.

Sua filosofia nos ensina, em outras palavras, que quanto mais alegria mais vivemos e a tristeza nos leva a morte. Dessa forma se nossas relações nos trazem alegria, vamos em frente com vigor, mas quando elas nos trazem mais tristezas e frustrações a vida se aproxima do fim.

Eu e você sabemos que essa é uma batalha perdida. Mesmo aqueles de nós que chegarem a uma idade avançada, pelas limitações do corpo e por tudo que teremos que parar de fazer, seja pela condição física, seja das restrições dos prazeres (que sempre fazem mal ou engordam), nossa alegria de viver vai diminuindo e a morte é sempre o fim. O próprio Spinoza, seguido depois por Freud, disseram a mesma frase:

 Morremos de tristeza.

Como se diz em postagens do facebook, “fato”!

Por isso a alegria é a maior resistência contra esse mundo agressor e opressor que vivemos, sempre nos dizendo “não” aos pensamentos que querem nos trazer alegria. Mas onde encontrar essa alegria?

Ela pode vir de relações, de objetivos, sonhos e de sabermos que estamos modificando o mundo para melhor. Essa modificação vem do nosso trabalho, do contato com outras pessoas e termos uma autoestima de sermos bons no que fazemos e somos, representando algo útil nesse mundo, ou como diria Aristóteles: Fazendo o que o universo espera que façamos.

Mas aí tem um problema que é cultural ou institucional, como queira. O mundo que vivemos nos aprisiona, nos rotulando e nos cobrando uma previsibilidade que, para Spinoza, não é possível. O motivo é simples; nunca nos repetimos, estamos sempre mudando e o mundo também, é claro! Tudo é inédito e não tem como querer, mesmo que você prometa ou faça mil juramentos que o que te dá alegria hoje, dará no futuro. Como saber, por exemplo, se tanto você como outra pessoa e a própria vida se modificam sem parar, que qualquer tipo de relacionamento pode ser para sempre motivo de alegria?

Dessa forma, mesmo que um dia a batalha seja vencida pela tristeza, por não termos mais forças para a luta, nosso compromisso é sempre entendermos essa mudança constante e buscarmos alegria no que fazemos. Cuidar dos relacionamentos, para que a rotina não tire aquela alegria do começo, que sempre ilusoriamente achamos que durará para sempre, e comece a trazer mais tristeza que o levará à morte. Mudar junto, aceitar que o mundo não se molda a nós e nem se importa conosco pode tirar o romantismo da vida, mas para isso sempre temos um bom filme para assistir.

No fim, nossa inteligência pode nos ajudar a encontrar outras maneiras de ver e lidar com as coisas. Com opções, fica mais fácil buscar uma visão mais alegre. Isso nos manterá, segundo Spinoza, com combustível suficiente para enfrentarmos aquelas situações inevitáveis que nos deixam tristes ou frustrados e que diminuem nossa potência de viver.

Se Spinoza influenciou Nietzsche, Freud e tantos outros podem também ser útil para você, afinal a filosofia só tem serventia se for aplicável a vida no seu dia a dia. A conta é simples: que a coluna da alegria nunca seja menor que a da tristeza e isso, depende de escolhas e um pouco de coragem.

Como já disse, um dia pereceremos nessa batalha, mas podemos tombar orgulhosos de termos vivido uma vida boa. Estamos aqui para isso (alegria). Sofrer e achar que isso é bom, só para os ignorantes, manipulados e explorados a séculos.

 

Cortina de fumaça

“É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.”   

                                                                  Clarice Lispector  –  Outros escritos

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber.”

                                                         Markus Zusak – A menina que roubava livros

 inconsciente

É comum dentro do processo da psicoterapia a pessoa conseguir resolver rapidamente o problema que a levou a procurar ajuda. Claro que isso não acontece sempre, afinal nada é mais imprevisível do que uma terapia, onde duas pessoas estão sempre em transformação (cliente e terapeuta). Existem obviamente situações que demandam mais tempo, mas quero me referir aqui a esse aspecto em particular.

A própria pessoa reconhece que o problema não é tão grave ou difícil (lembrando que todo problema é importante), mas tem dificuldade em entender o motivo de não conseguir resolvê-lo, ou conclui que a questão pode ser mais complexa e esse seja o motivo da demora.

Minha percepção mostra que essa “dificuldade” nada mais é que o problema em questão está sendo mantido ativo por atender a uma necessidade que está inconsciente (na maioria das vezes). Mas, afinal, qual o motivo de mantermos problemas que reconhecemos como simples no catálogo dos insolúveis em nossa vida?

A resposta é simples: os mantemos assim para não precisarmos enfrentar o verdadeiro problema, esse sim, mais difícil de resolver por sua solução, normalmente, afetar vários campos que estão estáveis na vida da pessoa e ser antevisto como muito sofrido.

Como diz o título desse artigo, é uma “cortina de fumaça” que esconde ou ajuda a nos entretermos com algo bem menos perigoso, enquanto esperamos duas coisas pouco prováveis de acontecer:

A primeira, é o dito problema se resolver sozinho, sem que seja necessário mover as montanhas que imaginamos que existem para sua solução, ou não precisemos sujar nossas mãos de sangue (é uma metáfora). Quando digo isso é por termos a ideia que nossa ação na mudança pretendida vai trazer sofrimento a outras pessoas e nos tirar alguns confortos. Além disso, sempre tem o medo da nova situação ser pior que a atual e que a mudança não teria sido um bom lance no jogo da vida. Como já frisei em outras oportunidades, dificilmente o que está ruim pode melhorar por si, enquanto a mudança traz a possibilidade de um quadro muito melhor no futuro.

Tudo que é vivo se caracteriza por ser instável, imprevisível e estar em risco, mas nossa mente detesta aventuras. Nunca esqueça que ela só gosta do “de sempre”, mesmo que esteja ruim ou esteja nos fazendo sofrer. O que se pensa nesse caso vem do ditado popular, que, como outros, estão no nosso subconsciente, como leis em nossa vida: “não se troca o certo pelo duvidoso”. Particularmente penso que se o que chamamos de “certo” é ruim, o “duvidoso”, pelo menos, abre algumas possibilidades.

Quando o caso é relacionamento tem o não menos famoso “ruim sem ele(a), pior sem”. Esse ditado afeta mais as mulheres, que na nossa cultura, infelizmente, só se explicam se estiverem acompanhadas. Parece que estar com alguém é um atestado de competência feminina, e esse “alguém” pode não ser tão bom assim. Se você é mulher e está me lendo, quero deixar claro que isso não a inclui, sei que isso não acontece com você e nem é assim que pensa, estou falando das outras…

Já no caso dos homens a palavra que comanda é a acomodação. Os homens, na sua maioria, lidam com o regular como sendo bom e mudar dá trabalho, despesas e um recomeço que, se o sofrimento não for insuportável, pode esperar uma outra oportunidade (que normalmente nunca chega).

A segunda maneira de não enfrentar diretamente o problema é uma pequena variação “mística” da primeira, só que mais absurda: entregar para “Deus” ou para o “Universo” a solução do imbróglio. Nesse modelo a situação fica risível, já que tudo fica resolvido de um jeito ou de outro.  Afinal, se a situação não muda (claro que não vai) é porque Deus não quer, e isso é um “sinal” de que se precisa continuar como está. Com certeza, tem a ver com “vidas passada” ou “carma” a ser resolvido e o sofrimento é uma purificação ou acerto de contas com a vida. Assim, meu sofrimento se torna algo útil que vai tornar minha próxima vida melhor, ou me encaminhar ao paraíso. Olha que inteligente: minha dor fica sendo uma maneira de me tornar uma pessoa melhor!

Você pode me perguntar: de que ditado vem essa abordagem confortável e de entregar para nosso deus a solução?

“Deus sabe o que faz”, ou, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mas, você pode preferir o inigualável: “Todo sofrimento é enviado por Deus para nos purificar e expiar nossas culpas”. Sofrer fica bom, traz vantagens e não preciso fazer nada para mudar!

Nossa inteligência não tem mesmo limites e a criatividade pode nos levar a lugares, realmente, inimagináveis!

Por isso, caso esteja acontecendo de você estar com um problema antigo, que você mesmo não consegue entender o motivo de persistir por tanto tempo, investigue se ele não está servindo para distrai-lo do que realmente seja o motivo da sua tristeza.

Isso é muito mais comum do que se possa imaginar e ninguém faz por mal ou covardia. Lembre que nossa mente não lida bem com nada que nos faça sofrer e isso sempre a deixa em estado de alerta. Nessa hora, mudar o foco e ficar olhando para “outro lado” é uma saída saudável do ponto de vista da mente.

Quando isso acontece no consultório, a pessoa sempre diz que não entende porque resolveu tão rápido essa questão que a incomodava a tanto tempo e tende a dar todo o mérito ao terapeuta. Por isso, sempre digo a meus alunos e futuros colegas que nem toda vitória da terapia é um mérito exclusivo do terapeuta, aliás,  nunca é.

Assim, uma solução rápida muito mais do que um resultado surpreendente pode ser apenas um aviso que o realmente importante e decisivo esteja por vir. O problema anterior foi removido e agora ficar-se-á cara a cara com o verdadeiro inimigo.

Como frisei, não é sempre assim e não são todos os casos, mas os consultórios, comumente, sempre tem um habitual cheiro de fumaça.

Imaginação

A felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação.”

Immanuel Kant

 

“A imaginação tem todos os poderes: ela faz a beleza, a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes do mundo.”

Blaise Pascal

 

“É a imaginação que governa os homens.”

Napoleão Bonaparte

 

imaginação

Em artigos anteriores procurei refletir sobre o fato de sermos seres com potenciais infinitos, habitando um corpo que, por ser de natureza animal, tende ao envelhecimento e a morte. Isso faz com que a inteligência do corpo seja baseada no medo, afinal, é isso que nos mantêm vivos.

Essa fricção entre o eterno e o que perece, transcendente e imanente, explica o que definimos por “humano”. Na parte mecânica desse humano está o cérebro, que também atende, de certa forma, a essa divisão. Duas das suas três partes, ligadas a manutenção da vida, cérebro reptiliano e límbico, e a outra, Neo Córtex, esconde nossa divindade possível.

No Neo Córtex, está a linguagem, o simbolismo e, principalmente, a nossa capacidade de imaginação. Quando usamos nossos atributos de criatura (capaz de criar) é a imaginação que nos permite visualizar o que poderá existir no mundo manifesto, depois que transformarmos o pensamento em matéria. Assim, tudo que hoje existe, produzido pelo homem e que podemos tocar e sentir foi, primeiramente, imaginado pelo seu criador ou, se preferir, inventor.

Portanto, imaginar é atributo exclusivo do bicho homem, e aí pode começar a surgir os problemas. Mas, antes deles, podemos definir o que é imaginar?

O poeta Victor Hugo disse que a imaginação é a inteligência em ereção. Menos erótico, eu a definiria como um pensamento que ganha vida. Pensamos a todo momento, mas só naqueles em que ficamos mais tempo vira uma imaginação, com imagens, roteiro e um final que pode ser alegre, triste ou simplesmente emocionante.

Podemos pensar, porque não, a imaginação como sendo uma energia, que, por fazer parte da nossa natureza está disponível e funcionando continuamente. Essa disponibilidade atende as duas forças que compartilham nosso corpo; a parte animal e a espiritual (ou o nome que você queira dar).

Quando estamos inconscientes a imaginação atende a nossa animalidade. Assim funciona o que a cultura popular costuma chamar de “oficina do diabo”. Sempre que estamos em atividades absolutamente rotineiras, cumprido mecanicamente nossas vidas e sem perceber a passagem do tempo, nossa imaginação funciona em sua parte negativa. Ficamos “pensando” nos problemas que poderemos ter no futuro, doenças, dificuldades de toda ordem, abandonos, etc.

Para quem acompanha o blog, já escrevi inúmeras vezes que essa negatividade tem por objetivo nos trazer uma inquietação para que evitemos que essas previsões aconteçam, pois o sofrimento que advirá delas poderá nos levar a morte. Eu e você já sabemos que isso quase nunca acontece. Mas as pessoas pensam (se é que posso dizer que isso é um pensamento), que essas “pré” ocupações da mente não acontecem justamente por termos nos preocupados com elas. Isso é uma bobagem sem fim, pois a vida é algo totalmente alheio e sem previsibilidade. Mesmo aquilo que esperamos que aconteça, quando ocorre, sempre foi de um jeito completamente diferente do que esperávamos.

Assim, a imaginação, quando não usada com direcionamento, atende ao animal que somos, e isso sempre será ruim. Todos que experimentam algum tempo sem uma ocupação ou têm sua vida muito rotinizada, sabem que a negatividade dos pensamentos só aumenta.

Aqueles que se dão o trabalho de perceberem nitidamente seus pensamentos se assustam com sua impossibilidade ou até  mesmo com a capacidade de transformarmos coisas pequenas em grandes tragédias e isso é a imaginação quem faz. O animal só imagina besteiras e isso explica porque alguns animais são usados em experimentos de comportamento humano e porque esses mesmo animais podem testar os remédios que iremos tomar.

De outro lado, quando usamos essa energia chamada de imaginação de forma focada e criativa somos testemunhas de onde podemos chegar e só observarmos toda a tecnologia disponível e novidades e criações que acontecem diariamente. Não há mesmo limite para isso.

Mas observe como precisamos dominar essa energia para conseguirmos usá-la de modo positivo. Sempre que não fazemos isso com frequência, ou abandonamos a criatividade, como temos dificuldade de foco e até de retermos o que lemos em uma página de um livro qualquer, por exemplo. A imaginação precisa ser “domesticada” e quando isso é feito, paramos de pensar em problemas e situações sofridas.

Parece que só podemos imaginar livremente quando somos crianças, depois só o que nos ensinam ou mandam. Toda a pessoa criativa se permite imaginar livremente, não aceitou nenhuma regra. Querer enquadrar a imaginação em certo e errado é um absurdo sem fim.

Evolutivamente precisamos entender que se a imaginação não for dominada e usada em seu lado positivo, ela se voltará contra nós. E o que temos visto? Cada vez mais gente com ansiedade, depressão e compulsões. Isso só acontece porque a imaginação saiu do controle e ao invés de servir a seu dono e encaminhá-lo à evolução, voltou-se contra ele e o adoeceu (possuiu).

Nossa imaginação é, na verdade, nosso maior obsessor e quando está de posse de nós, até pela sua natureza criativa, pode inventar um outro nome ou se dizer passar por um antepassado ou ficar nos trazendo pensamentos delirantes, paranoicos e tantas outras coisas.

Todas as energias que movem o cosmo não são positivas nem negativas, simplesmente se manifestam pela dualidade e podem ser usadas de igual forma por qualquer um desses aspectos.

O que quero dizer é que será o domínio da imaginação que fará diferença no processo evolutivo. Justamente por isso é que sempre estou repetindo que devemos nos esforçar para estarmos sempre conscientes do que fazemos a cada momento. É claro que isso é muito difícil, mas não tem outro jeito. Se a imaginação não for primeiramente entendida e depois dominada, a realidade que vivemos hoje, cada vez mais ampliada pela informação e pelo sistema econômico que nos cobra cada vez mais, não escaparemos dessa epidemia de doenças nervosas que atingem a maioria das pessoas. Olhe em volta, não é difícil perceber.

Em estado livre e sem domínio, apenas pensamentos ruins em relação ao futuro e ao passado, inevitavelmente, já que essa é a natureza do animal. Não repetir sofrimentos passados e evitar possíveis no futuro.

Na atenção consciente isso não acontece, pois a imaginação está controlada com a rédea curta da consciência e só vai para onde deixarmos e ali é ela que nos serve. Esse é nosso potencial e que realmente nos faz dominar o planeta. Do outro jeito, estamos doentes e destruindo tudo a nossa volta.

Precisaria mudar toda a estrutura que vivemos para que possamos evoluir como espécie, já que, por exemplo, na educação temos apenas a finalidade de formar mão de obras e pessoas competitivas. Toda a pessoa competitiva é movida pelo medo da derrota e de imaginar o que poderá lhe acontecer se não atingir o “sucesso”. Isso por si só é a utilização da imaginação de forma negativa, voltada apenas ao interesse da produção e do consumo.

Isso é tão “furado” que as classes mais abastadas apresentam índices altíssimos de doenças psiquiátricas e de consumo de entorpecentes. Esse medo pode realmente gerar grandes fortunas, mas a grande fortuna também significa desigualdade e miséria para muitos. O que surge dessa diferença? A violência.

A imaginação sempre é o primeiro passo da ação consciente, mas não podemos ficar só nela. Como o próprio nome diz:

                             imagem+ação = imaginação.

Domine sua imaginação, antes que ela o domine e apenas imagine o que  mandam aqueles que não estão preocupados com você.

 

 

 

Lá e cá

Praticar Yoga na fifth Avenue ou em outro lugar qualquer ao alcance do telefone é uma mentira espiritual.”

                                        Carl G. Jung – Psicologia e Religião Oriental  – 1963

                                                                                                                                                                         yoga executivo

O que fez Jung ir além de Freud, em minha opinião, foi sua busca pela cultura e religião oriental. Lá ele formulou toda sua teoria que, a cada dia que passa se mantém atual e estabelece os pontos de divergência e convergência entre o homem que habita os dois lados do planeta.

Ele defende a ideia de que o homem oriental é tipicamente um introvertido, já o ocidental extrovertido e, por aí, começa toda uma diferença cultural que, hoje em dia, por modismo tentamos equiparar. Essa diferença também torna-se importante quando falamos da religião onde diz: “ O ocidente cristão considera o homem inteiramente dependente da graça de Deus ou da Igreja, na sua qualidade de instrumento terreno exclusivo da obra da redenção sancionada por Deus. O Oriente, pelo contrário, sublinha o fato de que o homem é a única causa eficiente de sua evolução superior; o Oriente, com efeito, acredita na auto-redenção”.

Também é importante ressaltar que o ponto de vista religioso, via de regra, sempre representará a atitude psicológica do sujeito, mesmo para quem não pratica a religião, já que essa influência se dá na cultura e costumes. Assim, no ocidente somos cristãos, queiramos ou não.

Dessa forma, nosso jeito de viver nos tempos atuais está nos adoecendo cada vez mais, e como é normal oscilarmos de um extremo a outro, buscamos cada vez mais no outro lado (oriente) a solução para a nossa angústia. Buscamos na Yoga, medicina ou alimentação a calma que imaginamos no homem oriental. Também é verdade o fato de que, antes do processo de globalização, algumas doenças tipicamente ocidentais, principalmente psicológicas, eram desconhecidas no oriente. Por pensar a vida diferente, o resultado só pode ser outro.

Quando Jung percebeu essa busca, já na década de 60 avisou: “Se nos apropriarmos diretamente dessas coisas do Oriente, teremos de ceder nossa capacidade ocidental de conquista…teremos aprendido alguma coisa com o Oriente no dia em que entendermos que nossa alma possui em si riquezas suficientes que nos dispensam fecunda-la com elementos tomados de fora, e quando nos sentirmos capazes de desenvolver-nos por nossos próprios meios, com ou sem a graça de Deus.”

Assim, ele mostra essa diferença com a qual precisamos nos entender e chegar a um acordo; ou somos ocidentais, vivendo como tal e esperando a “graça divina” ou nos assumimos com uma autonomia evolutiva que nos foi negada desde a primeira missa.

Nosso modo de viver, social e competitivo não se adequam em nada à cultura oriental. Como ressalta Jung, para a medicina de cá, a introversão oriental é considerada até uma patologia.

Assim, não há nada de errado em introduzir toda uma prática oriental em nossa vida, desde que entendamos que o resultado nunca será o mesmo, pela diferença cultural. Como bem ressalta Kierkegaard, estamos sempre em dívida com Deus aqui no ocidente. Isso se dá pela impossibilidade de conseguirmos cumprir os mandamentos e os pecados capitais por sermos, simplesmente, humanos. Esse débito (culpa) nos impossibilita da vivência da experiência religiosa, e assim ficamos parados no mesmo lugar. Como temos algo em nós que nos pede essa evolução interior, estamos vendo no oriente nossa saída. Viajamos para a Índia e achamos tudo lindo, a cultura, a religiosidade, a sujeira das ruas e o caos do trânsito.

Junto com as fotos diante dos templos em postura de lótus, também está a preocupação com as contas a pagar quando voltarmos da viagem. Por aqui, convivemos com um tipo de religião que, como diz Jung: “A fé implica, potencialmente, um sacrificium intellectus, desde que o intelecto exista para ser sacrificado”. Assim, esse modo de viver traz um paradoxo que, se não for resolvido, impede que o que se busca na cultura oriental possa ser encontrado.

Tudo que importamos de lá está dentro de um contexto de milhares de anos. Aqui, somos educados, desde a infância, para sermos agressivos e competidores, enquanto a Índia, por exemplo, foi dominada por um povo que tinha tamanho e população infinitamente menor. Não estou julgando quem está certo ou errado, apenas mostrando que são diametralmente opostos e que o mais possível é uma aproximação, um meio termo, que inclua práticas sem a utopia de nos transformarmos em quem não temos como ser.

Quando buscamos a paz em um retiro de meditação, por exemplo, nos são oferecidas todas as condições como um lugar bonito em contato com a natureza, silêncio e uma alimentação saudável. Três dias depois, caímos na correria, na música alta do vizinho, no cheiro de fumaça e um fast food no almoço, pois estamos atrasados para um compromisso profissional.

Portanto, não há nada de errado em experimentarmos tudo isso, mas precisamos ter a consciência de saber o que podemos esperar como resultado. Somos bombardeados covardemente pela mídia para comprarmos coisas o tempo todo e a lutarmos pela sobrevivência nessa sociedade capitalista e extremamente competitiva. Dá para amar o concorrente à promoção na empresa?

Do lado de cá, jogamos tudo para fora, seja em Deus, no destino ou na boa ou má sorte. No oriente tudo está dentro de nós, nas ilusões das quais precisamos nos desvencilhar para enxergarmos a verdade. Diferenças como essas são irreconciliáveis e não será passando um mês se banhando no Ganges ou ficando de cabeça para baixo em um ásana que encontraremos esse equilíbrio.

Precisamos mudar o jeito não só como vivemos, mas como pensamos e colocando alguns pontos, como quem tempera uma comida, em nossas ações para podermos trazer um pouco do Oriente para nossa vida por aqui. Tudo dentro do que é possível, só isso, sem grandes expectativas.

Assim, Jung encerra o pensamento com uma sentença, atualíssima, mais de meio século depois; “Mas é impossível ser um bom cristão na fé, na moral e no desempenho intelectual e, ao mesmo tempo, praticar honestamente a Yoga…ou seja: o homem ocidental não é capaz de se desligar tão facilmente de sua história, com sua memória de pernas curtas. Ele possui a história como que no sangue. Não aconselharia ninguém a ocupar-se com a Yoga sem uma cuidadosa análise de suas reações inconscientes. Que sentido tem imitar um yogue, se o lado obscuro do homem continua tão cristão e medieval quanto antes?”

Um Buda, não é possível no Ocidente, mas um filósofo sim.

________________________________________________________________________
As partes em itálico são transcrições do livro.

A Yoga aqui é usada como uma metáfora da cultura oriental no ocidente e no sentido da sua prática mais profunda, como uma filosofia. Sou particularmente favorável a sua prática e a incentivo, enquanto essa busca de equilíbrio.

C.G. Jung Psicologia e Religião Oriental . ed. Círculo do Livro 1989.

O Ponto Certo

“Um homem foi procurar um Mestre Zen e perguntou:

– Como você fez para chegar a esse ponto?

O Mestre Zen respondeu:

– Como quando tenho fome. Não como quando não tenho fome. Falo quando tenho algo a dizer e nada falo quando não tenho algo a dizer. Assim para tudo.

O Homem disse:

– Mas isso todos fazem, é o caminho comum.

Ao que o Mestre responde:

– Você não faz isso. Se fizesse, não tinha vindo a mim.”

Caminho do meio

O equilíbrio e bem estar tem uma receita simples. Precisamos pensar porque ela é tão difícil de ser conseguida, afinal todos poderíamos fazer isso. Pessoas que frequentam o “caminho do meio” encontraram o que se pode chamar de felicidade, palavra tão falada e muito pouco definível.

Mas como tudo em nosso mundo é dual, poderemos dizer sem esforço que não sofrer é estar feliz, concorda?

Todo problema é que a mente funciona baseada em extremos, trabalha sempre com a pior e mais sofrida possibilidade. Imediatamente esse pensamento se manifesta em reações físicas de tensão que precisam ser amenizadas e esse é o caminho dos excessos; a busca de rápido fim para o sofrimento.

O que vejo é as pessoas indo de um extremo a outro e nunca conseguem sucesso porque a oscilação do pêndulo é constante. Se estiverem, por exemplo, acima do peso, entram em uma dieta agressiva abrindo totalmente mão das coisas que gostam e isso gera sofrimento. Depois de atingirem seu objetivo na balança, voltam a seus prazeres (isso é normal) e o peso volta. Sempre os extremos.

Se a pessoa gosta de fumar, por exemplo. Não fuma uma ou mais carteiras em um dia porque gosta, mas porque precisa da nicotina para abrandar sua ansiedade. Para de fumar, e aumenta de peso, já que o problema continua e só foi trocado de escape. Sofre anos de saudade do “cigarrinho”. Extremo.

A pessoa é um apreciador de cerveja. Quando bebe todos os dias “um pouco” e muito aos finais de semana ou em alguma festa não está presente o apreciador, o degustador, mas o alcoólatra. Ele precisa de algo que o relaxe da tensão física advinda dos seus pensamentos angustiantes e de lembra-lo dos problemas que não consegue resolver.

Poderia citar ainda os usuários de drogar ilegais (a maioria é usuário das drogas patrocinadas pelo Estado), as compulsões por compras e jogos. Mas penso ter sido compreendido na essência do problema.

Assim as pessoas vão sempre de um extremo a outro o tempo todo e isso sempre é sofrimento, seja pelo excesso ou pela ausência do que gosta.

Não conheço nenhum apreciador de bebidas, seja qual for, que tenha  se tornado alcoólatra. O alcoolismo é excesso ou necessidade. Dá na mesma. Nunca vi ninguém se tornar dependente químico tomando algumas doses por semana. A questão é sempre de CONSCIÊNCIA. Se a pessoa aprecia, percebe as nuances, ela nunca consegue ficar bêbada, simplesmente porque o estado de embriaguez é resultado de inconsciência, ou seja, bebo os meus pensamentos e angústias e não a bebida em si. O tratamento mais popular do alcoolismo (quero deixar claro que não sou contra) é baseado no medo. Assim, a pessoa que está há, por exemplo, dez anos sem beber se diz um alcoólatra. Isso é no mínimo uma mentira, afinal como que alguém que não bebe é alcoólatra. A pessoa se mantém longe pelo medo de voltar a beber do jeito que bebia e pelo sofrimento que isso trazia a ela e sua família, mas de novo foi de um extremo a outro, e se está em um extremos, sofre!

Vamos para o caso da alimentação que é o mais comum. A pessoa não ganha peso pelo que come, mas pela quantidade que come. Quem come o que precisa nunca engorda, afinal o corpo tem uma inteligência e não quer morrer. Agora, quando a caloria e o doce viram anestésico emocional, a quantidade precisa ser grande e o aumento de peso é questão de matemática e tempo. Nunca vi quem come uma “fileira” de pequenos quadradinhos de chocolate virar chocólatra ou engordar mesmo que faça isso com frequência. Quem gosta, aprecia, conscientemente sente o gosto e a qualidade e recebe o sinal de satisfação no mesmo tempo de quem está angustiado. A diferença é a seguinte: um apreciou um pedaço conscientemente (lentamente), o outro comeu a barra toda, inconsciente e rapidamente e nem importa que marca seja. Estava sofrendo e queria algum prazer. Isso também vale para as comidas calóricas.

Já em relação ao fumo eu pergunto: O leitor (a) já conheceu alguém que teve problemas de tabagismo por ser fumante exclusivo de cachimbo?

Imagino que a resposta seja “não” e é simples de entender. O cachimbo exige um certo ritual e dá algum trabalho fazer aquele artefato funcionar. Os bons fumos custam caro, o que faz o fumante apreciar seu investimento e isso é estar consciente. Seja pelo trabalho de fazer tudo de novo, mas tenho certeza que pela consciência de ter apreciado, depois de utilizá-lo uma vez o cachimbo é limpo e guardado. Ninguém terá enfisema pulmonar assim ou problemas cardíacos advindos do fumo. Agora, quem está ansioso, tenso e sofrendo precisará de inúmeros cigarros para ter os vinte minutos de paz que a nicotina fornece por peça. O fumante inveterado nem percebe que acendeu o cigarro de tão inconsciente que está mergulhado em seu sofrimento mental.

Assim, toda  a série de doenças advindas dos excessos alimentares, álcool e tabagismo que estão matando cada vez mais e serão responsáveis pelo aumento geométrico nos casos de câncer nos próximos anos, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) advém da falta de equilíbrio. O uso desses recursos para suprir problemas emocionais e não por cada uma das  substâncias em si.

Não sou usuário nem defendo o uso de entorpecentes, mas faça uma pesquisa e veja se a maconha não mata muito, mas muito menos que o álcool e o cigarro, por exemplo, no mundo. Muitos países já descriminalizaram seu uso por saberem que, como os demais entorpecentes legais, o que faz mal é a quantidade.

O Mestre Zen de nossa história, mostrou que tudo que é feito conscientemente não leva ao desequilíbrio, pelo contrário. A questão toda sempre termina no mesmo lugar: se estamos conscientes ou não do que fazemos. Nos extremos sempre está a ausência do outro polo e o pêndulo está ganhando força para voltar. Assim a oscilação nunca termina e o sofrimento é certo.

Como já escrevi anteriormente o caminho do meio contempla os dois e porque não termos o que se gosta? Seja um bom fumo, uma bebida de qualidade ou apreciar uma iguaria calórica nada vai lhe fazer mal desde que você saiba (esteja consciente) do que faz.

Já tive o privilégio de profissionalmente conhecer pessoas que encontraram seu “ponto certo” a partir de um vício ou compulsão. No começo, precisaram se afastar do excesso para encontrar o equilíbrio. Hoje, porém, voltaram a poder usufruir do que gostam, mas não precisam mais disso para se acalmarem. Isso é mais do que se chama de cura pelo afastamento, é evolução!

A natureza vive dando os seus sinais e só vê quem tem olhos, como diria Jesus a seus cegos seguidores. Assim, observe ou pesquise no Google quais os animais que tem a vida mais longa. Dê uma olhada na lista e veja se lá tem algum rápido ou que faça tudo velozmente. A receita é a lentidão ou seja consciência. Não estou dizendo que uma tartaruga marinha seja um sábio ou um molusco* que vive quatrocentos anos tenha a receita da iluminação.

Apenas digo que se você estiver consciente poderá ter tudo, mas sem excesso e isso contempla os dois extremos  do sofrimento que é ter e não ter.

Certa vez, Sidarta Gautama resumiu isso como só um Iluminado poderia:

“Tudo existe, é um dos extremos.

Nada existe é o outro extremo.

Afasta-te dos extremos.”

Só isso.

_______________________________________________________________

* O molusco Arctica islandica vive em média 400 anos. Há registro de um com 410 anos.