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A última desilusão

 

Ficou paralisada diante da tela do computador.

Nunca dá para dizer que algo é inacreditável, já que se acontece, torna-se necessário acreditar. Lutar contra a realidade não dá, é um romantismo placebo. A notícia teve o efeito de uma grande desilusão, mais uma.

Mais de cinquenta anos juntos! Como pode?

De uns tempos para cá, as uniões estão sofrendo um golpe atrás de outro. Isso não faz bem para as pessoas, nós precisamos acreditar que os compromissos podem durar para sempre. O amor precisa ser invencível! Precisa!

 Tem palavras que deveríamos tirar do dicionário; para começar, todo e qualquer juramento e “para sempre”. Jurar, no fim das contas, é prometer que nunca mudaremos, e o que é pior, independente das circunstâncias. Isso não é possível!

Talvez o problema seja mesmo falta de experiência. Quem pediu para jurar, algum dia jurou para alguém de carne e osso?

Tem juramentos que não tem graça. Sem conviver é fácil!

Isso de estarmos sempre mudando tem dois lados; não existe nenhuma condenação, por outro, sei lá quem vou ser e o que esse que serei pensara e irá querer da vida?

 Isso tira a tranquilidade, dá uma ansiedade de um futuro incerto. Por outro lado, que graça teria um futuro certo? Se nunca mudássemos, gostaríamos sempre da mesma coisa…chato por um lado, já que nunca conheceria coisas novas, seguro por outro.

Que confusão!

Melhor não pensar. Mas a cabeça não para de falar.

A vida não está mais nos dando os exemplos de que é possível, que dá para, mesmo mudando, gostar de estar sempre junto.

O Willian e a Fátima?

Tantos filhos, sucesso, dinheiro, fama. Mas o tempo, ou a previsão do tempo mudam tudo! Jamais se poderia imaginar!

Mesmo um homem sério pode se abalar e as esperanças das pessoas comuns sofreram um duro golpe.

Como ele pode deixar de gostar dela? Tão simpática, sempre sorrindo!

Será que ela pode tê-lo cansado? De tanto sorrir?

Mal tínhamos nos acostumado com esse duro golpe, quando de repente, a pá de cal: O Brad e a Angelina, e agora?

Ela que sempre é muito decidida, mais uma vez tirou da sua vida tudo que poderia, mesmo que somente um dia, vir a incomodá-la. Dos seios ao Brad, a mesma regra. Não teve dó.

Ele pediu para voltar e ela irredutível. Diz que não quer mais e até apareceu na internet que bloqueou o telefone para não receber chamadas dele.

Como uma mulher pode não gostar de receber ligações do Brad? É o sonho de todas, menos dela.

O que ela sabe que não sabemos?

Pode alguém tão perfeito ter defeitos? Seria a perfeição uma expectativa que nos mantém motivados?

 A realidade não ajuda. Por isso não vou a palestras motivacionais, pensou ela, fico toda empolgada e dois ou três dias depois, o mundo não percebeu meu entusiasmo e volta a ser como sempre foi. Dá até ressaca, que nem bebedeira.

Decepção, mais uma!

Mas mesmo o Willian e Fátima, o Brad e a Angelina não ficaram cinquenta anos juntos. Chega um tempo que, mesmo que esteja ruim, as pessoas ficam pela companhia. No fim sempre foi uma grande amizade, temperada com carinho e uma briga, vez por outra. Mas depois de mais de meio século, os laços deveriam ser tão fortes que não dá para imaginar um sem o outro. Dias atrás saiu a notícia que um casal que estavam juntos a mais de sessenta anos morreram com horas de diferença; um de doença e o outro, por não querer ficar nesse mundo sozinho.

Que lindo, o amor vencendo a morte!

Mas como eles foram se separar nessa hora? Será que não perceberam que o casamento está sofrendo duros golpes? O que custava pensar no quanto isso é importante para as pessoas continuarem a acreditar que pode dar certo, para sempre? Depois de cinquenta anos, recomeçar?

Agora não acredito em mais nada!

Levantou e foi fazer o almoço, secando as lágrimas com o avental.

Na tela do computador continuava estampada a notícia: Bob’s e Ovomaltine se separaram. Mal terminaram o e Ovomaltine anunciou que vai ser só do MacDonald’s.

Os relacionamentos não são mais os mesmos!

Que pena!

 

 

 

Montaigne e a morte

                   “Se eu fosse um fabricante de livros, faria um registro comentado das diversas mortes. Quem ensinasse os homens a morrer, ensiná-los-ia a viver. “

montaigne

Montaigne nasceu em 1533 e morreu em 1592, na França. É presença obrigatória em qualquer coletânea sobre filosofia e sua principal obra são os “Ensaios”, que manteve em constante revisão durante sua vida.

Dos considerados “Clássicos” seus escritos estão entre os mais acessíveis para o leitor. Sua linguagem é simples, direta e sem floreios gramaticais, comuns aqueles que querem fazer da filosofia um assunto somente para os “eleitos”. Montaigne fala sobre uma infinidade de assuntos, até alguns que poderão parecer estranhos para um filósofo famoso. Muitos temas se repetem aqui e ali durante seus textos, já que escreve de forma aberta, como se fosse uma conversa. Foi considerado o criador do gênero “ensaio”, que é uma escrita mais descomprometida com a rigidez, dando mais ênfase ao conteúdo do que a forma (a apresentação da obra). Não vou falar aqui sobre sua vida, mas sobre um dos muitos assuntos que fazem parte dos “Ensaios”: a morte. Se você se interessou em saber mais sobre esse cara simpático, que parece que bate um papo enquanto filosofa, no final tem um link para a primeira parte de um vídeo que fala sobre a sua trajetória. São três vídeos de menos de 10 minutos cada, onde sua vida e escolhas (algumas curiosas) poderão ser conhecidas.

Montaigne trata da morte em alguns textos que fazem parte dos “Ensaios”, principalmente: “Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou infelizes em vida”, “De como filosofar é aprender a morrer” e “De como julgar a morte”.

Quando cita Cícero afirma: “Filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e constitui como um aprendizado a vista dela. Ou então é porque de toda sabedoria e inteligência resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer”.  O interessante é que ao falar da importância de não termos medo de morrer, Montaigne na verdade fala da importância de viver. Como se, quanto mais você se torna inteligente existencialmente, mais viverá bem. Quem vive uma vida boa, não tem medo de morrer. Difícil é se perceber saindo da vida sem tê-la curtido. É como se fosse convidado a uma grande festa, tivesse pegado no sono e acordasse na hora de ir embora.

A vida sem a morte não teria sentido e tudo que somos e podemos ser deve-se a morte e da nossa duração efêmera. Um tempo médio de 75 anos, por exemplo, nos empurra para ações, buscas e realizações que precisam de pressa para que possamos delas usufruir. Nossa percepção de mundo está ligada a morte como acontecimento inevitável e até esperado a partir da velhice. Não nos assusta a morte de um idoso, mas nos choca e enche de angústia a morte de um jovem ou criança, não pela aparente injustiça de algo assim ocorrer, mas, principalmente, por nos lembrar de que essa falta de regra ou ordem para morte pode nos alijar a qualquer momento dos nossos sonhos e do contato com quem apreciamos estar. Afinal, tudo se baseia na fragilidade da vida, e, ao referir-se a isso Montaigne afirma: “ a instabilidade das coisas humanas que um pormenor basta para mudar inteiramente”. Tudo está sempre por um fio, nada está garantido ou certo. Um pouco de pressa, de lembrar que pode ser hoje o último dia, não fará mal a nenhum de nós.

Assim como Epicuro, que aconselhava a não nos preocuparmos com a morte, Montaigne nos aconselha a desprezá-la, mas nunca esquecendo que ela pode chegar a qualquer momento. Quando afirma: “O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. Mas quanta estupidez precisa para tal cegueira”. Desprezá-la para que não tenhamos medo, mas não esquecer que existe.  O bom e sempre saudável “meio termo”. De outro lado, mostra que a morte também tem sua utilidade, já que pode pôr fim a nossos males e sofrimentos, sendo, portanto, positiva e um atributo de Deus.

Ao citar Sêneca, lembra que “nenhum homem é mais frágil que outro e nenhum tem assegurado o dia seguinte”, fica o aviso que nada que possamos fazer ou ter garante-nos mais um dia de vida. Temos aqui, uma visão fatalista, que defende a ideia que temos um dia pré-determinado para morrer, onde nada podemos fazer para impedir. Isso se encaixa bem com o pensamento de Montaigne, que pede que façamos a vida ter valido à pena ser vivida a cada momento.

Também percebe a importância das sensações corporais e do nosso humor na nossa relação com o pensamento, a vida e a morte. Quando diz: “Quando não me sinto bem, as alegrias da vida me parecem menos valiosas, tanto mais quanto não estou em condições de usufruí-las a morte se me afigura menos temível”.

Essa importante reflexão mostra o quanto somos vulneráveis a muitas situações que podem nos fazer até pensar na morte como uma solução, como já dito anteriormente. Na verdade, não gostamos de sofrer, seja física ou emocionalmente; queremos fugir, terminar com o que nos angustia. O pensamento da morte como solução que acompanha o estado depressivo, tão comum em nossa época, já tinha sido percebido pelo filósofo. Montaigne pode ter tido um insight que mais tarde foi trabalhado por Espinosa; que nosso corpo “pensa” tanto quanto o que chamamos consciência, sendo, no fim, tudo uma só coisa. Se o caro leitor tem alguma dúvida, lembre-se da sua última gripe, por exemplo, e veja se com o corpo dolorido, a dor de cabeça e a coriza, dava para ser otimista e ver a vida com alegria…

Montaigne fala da vida como algo “neutro”, ou seja, nem bom nem mal em si. Sua filosofia nos remete a liberdade, a escolha livre de como viver. A liberdade é inseparável da responsabilidade para todo aquele que pensa racionalmente. Sua afirmação é contundente: “A vida em si não é um bem ou um mal. Torna-se bem ou mal segundo o que dela fazeis”.

Pode parecer uma incoerência com a visão fatalista já citada, mas não é. Afinal, podemos depreender que, independente de termos um dia certo para morrer, até esse momento, é nossa liberdade fazer da vida algo bom, que tenha valido à pena!

Essa responsabilidade sempre será um problema para quem acha que sua vida é conduzida por “alguém”. Nesse quesito, Montaigne disparou uma de suas máximas: “O homem não é capaz de criar sequer um verme, mas já inventou milhares de deuses”. É essa facilidade de criar deuses e seus atributos que estão no cerne dessa mania que temos de achar que tudo está traçado. Uma boa ideia para quem pensa que se deixar levar é ter fé.

Pedimos, equivocadamente, mais tempo de vida quando lamentamos os poucos anos disponíveis. Montaigne nos convida a imaginar como seria uma vida sem fim, nos fazendo pensar que tudo perderia a graça e que até nossos sofrimentos jamais acabariam. A morte é, sem dúvida, o tempero da vida e ao que a ela traz brilho; a intensidade das convivências agradáveis, as situações inéditas, ao entendimento do fim de qualquer mal, pela própria brevidade da vida. Saber que algo bom terminará aumenta sua intensidade e se Nietzsche leu os “Ensaios”, poderá ter ali se inspirado para o conceito do “eterno retorno”.

Os filósofos modernos têm por hábito tratar um tipo de literatura denominada de “autoajuda” com certo desdém, enfatizando sua falta de conteúdo e reflexão. Pode ser verdade para algumas e até, posso concordar, para a maioria. Todavia, muitos livros assim chamados são ótimos em meu entender. Se Montaigne estivesse vivo, certamente seus escritos seriam catalogados como uma “auto ajuda” de qualidade. Isso tiraria seu valor filosófico ou reflexivo? A citação que encerra esse texto mostra bem que existem “ajudas” que se forem aceitas e tornarem-se ações de vida são muito úteis:

“Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração ou no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante”.

A importância de Montaigne para a filosofia é inequívoca. Suas reflexões, não só sobre a morte, sobre a riqueza, a maneira de tratar as pessoas, de aceitarmos como somos e tantos outros conceitos são aplicáveis a um grande número de demandas que chegam aos consultórios de psicoterapia. Muitos o consideram o filósofo da “autoestima”, pela sua capacidade de relativizar e mostrar que de reis a plebeus a diferença não é tão grande assim.

Valeu muito para todos nós os anos que ele dedicou a meditar e escrever na torre de seu castelo, olhando para o teto lendo suas frases prediletas e observando a vida, seja em reclusão ou no seu tempo como magistrado. Com sabedoria, nivelou os principais problemas humanos tornando-os o que são; pequenos, diante de todas as possibilidades da vida pode oferecer.

Não há dúvida que a vida de Montaigne valeu a pena ser vivida e seus “Ensaios”, mais de cinco séculos depois são atuais, tendo lugar de destaque em qualquer biblioteca.

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Quer saber mais:

MONTAIGNE, M. Ensaios. Tradução Sergio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 1987, vol 1 (Os Pensadores).

Primeira Parte do vídeo sobre Montaige. Os outros dois estão no mesmo canal no You Tube:

Imagem de Amostra do You Tube

Cinderela

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes os aflitos, porque serão consolados.

 Felizes os mansos, porque possuirão a terra.

 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

 Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.

 Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.

 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de Mim.

 Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.

                                                                                     Matheus 5, 3-12 Bíblia Pastoral

“ O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência”.

                                                                                 Friedrich Nietzsche

“Os poderes estabelecidos tem necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos”

                                                                                            Gilles Deleuze

cinderela

Essa é a história, resumidamente:

Era uma vez uma família feliz! Papai, mamãe e a filha viviam felizes em um lugar maravilhoso, onde, parece, apenas dias de sol aconteciam, nunca chovia ou fazia frio. A menina era adorada pelos serviçais e até, diziam, conversava com os animais. Obviamente, todos eram lindos, com olhos azuis e tudo mais.

Um dia a mãe de Cinderela adoece e, antes de morrer pede para filha que, aconteça o que acontecer, que ela nunca deve deixar de ser gentil. Claro que ela morre e o pai que era uma espécie de caixeiro viajante, em uma de suas andanças comerciais, conheceu uma viúva que tinha duas filhas. Como alguém deveria ser feio (fora os serviçais) as duas filhas eram feias e egoístas. A mãe até que tinha lá seus encantos, afinal até o mal precisa de alguma beleza, vez por outra.

O Pai então decide casar-se com a dita viúva e a leva, com as filhas, para morar junto dele e da filha, que agora está crescida e deslumbrantemente linda. Mas, como a nova esposa e suas filhas aumentam o custo, o pai sai em viagens mais frequentes e, em uma delas, contrai uma doença e morre. Ao saber da morte do seu segundo esposo, a agora madrasta de Cinderela põe as manguinhas de fora e assume de vez o comando. Coloca a menina sempre sorridente e gentil para dormir no sótão, um lugar sujo, escuro e com ratos (isso não é problema, afinal ela conversa com eles, não esqueça!), passando para suas filhas invejosas e cruéis o quarto que era de Cinderela.

O tempo passa e, como o dinheiro parou de entrar com a morte do pai, a terrível madrasta dispensa os empregados e adivinhem quem assumiu todas as tarefas da casa, trabalhando de manhã a noite, sem descanso?

Isso mesmo, a sorridente e gentil Cinderela!

Mesmo as agruras do trabalho doméstico não a desanimam e ela continua sempre gentil (ela prometeu) e cada vez mais bonita, mesmo dormindo pouco, alimentando-se com sobras e estar sempre com a roupa suja e, levemente escabelada.

Um dia, cansada de tanta humilhação, mas deixando o almoço na mesa, ela pega um cavalo e sai pelo bosque, agora sim chorando, mas sorrindo ao mesmo tempo. Nesse exato instante o “destino” faz com que ela se encontre com um príncipe que, obviamente, fica encantado com tamanha beleza e pureza. Mas ela volta aos afazeres e nosso príncipe não consegue parar de pensar nela e, para encontrá-la, promove uma festa/baile, onde, por estar com o pai adoentado e a beira da morte, encontrará, dentre as presentes sua futura esposa e rainha.

Já naquela época não era fácil um casamento com um “partidão” rico, bondoso, bonito e justo acima de tudo. Todas as mulheres do reino começam os preparativos e ajustes para o grande dia, assim como a madrasta que manda fazer belos vestidos para suas filhas.

Cinderela (dependendo da versão não sabe que o rapaz é príncipe), sonha em ir ao baile. Costura um vestido antigo de sua falecida mãe e quando desce as escadas, deixa as suas “irmãs” no chinelo de tão deslumbrante que estava. A Madrasta não admitirá essa concorrência e rasga o vestido de Cinderela e a deixa em casa, proibindo-a de ir ao baile.

Tanto sofrimento e injustiça…..

Cinderela confidencia sua dor aos animais do jardim (um ganso, duas lagartixas, dentre outros), se perguntando o motivo de passar por isso. Daqui a pouco, surge uma fada que transforma uma abóbora em carruagem, o ganso em cocheiro e as lagartixas em lacaios, além, é claro, de dar para Cinderela um vestido maravilhoso e sapatos de cristal. Como as mulheres não mudaram, o que mais encanta Cinderela são os sapatos. Avisa que ela deve sair do baile à meia noite quando o feitiço se desfará.

Claro que você já sabe o resto: Ela chega no baile, é disparado a mais bonita, o príncipe fica extasiado rejeitando uma princesa de um reino vizinho que era a melhor indicação política para ele e dança só com ela a noite toda. Esqueci: Cinderela dança maravilhosamente bem, mesmo sendo esse seu primeiro baile na vida.

Daí, o sino começa as doze badalas, ela sai correndo e perde um sapato (dizem que foi de propósito para ter motivas para voltar). A Madrasta desconfia dela e a prende no sótão, onde para espantar a dor ela canta, com sua também bela voz.

Daí o príncipe sai de sapatinho na mão de casa em casa e a de Cinderela é a última do reino. Todas experimentaram e o sapato não coube em nenhuma. Nesse ponto a história tem um problema, pois tudo se desfez a meia noite, até o vestido, mas os sapatos não…

Deixando de lado esse pequeno detalhe, quando ia desistir, os animais do sótão se juntam para abrir a janela, coisa que Cinderela não pensou em fazer para pedir socorro, ela só cantava….

O príncipe ouviu aquela voz meiga, suave e encantadora, colocou o sapato no pé, viu que serviu e finalmente achou sua esposa. Antes de deixar a casa e ir para o palácio, Cinderela olha com doçura para sua madrasta e a perdoa, de coração.

Claro que viveram felizes para sempre, tiveram muitos filhos e nunca brigaram.

O Livro ou filme termina, você seca as lágrimas e diz: No fim, o bem sempre vence!

 

Claro que não é assim na vida real.

A verdadeira mensagem dessa história não é a vitória do bem sobre o mal. A mensagem é outra:

Aceite a exploração com um sorriso, trate bem quem te subjuga e aceite o sofrimento com gentileza. Um dia, tudo será recompensado!

Não sei…

 Histórias como essa existem para transmitir para nosso inconsciente essa ideia de que o que é bom fica para o final, ou quem sabe, depois do final em uma outra vida ou paraíso. Essa mensagem é obra que quem explora, afinal a riqueza acumulada vive sempre de muitos e muitos pobres.

Vamos passando essa mensagem subliminar de geração em geração e o sofrimento que nos é imposto, em uma vida sem graça e sem atrativos para a esmagadora maioria é aceita com alegria, afinal, o céu será a recompensa de tanto sofrimento e abstinências.

Estarão lá todos os sofredores e explorados, além dos camelos que vão ocupar o lugar dos ricos, passando pelo buraco da agulha, lembram?

Nossa cultura, faz do divertimento algo supérfluo.  A “boa” conduta é abrir mão de tudo que a vida tem de melhor em nome dessa purificação ou passaporte para o sonho de Marx, que só existe no “outro mundo”: uma sociedade onde somos todos iguais, desfrutamos os bens do paraíso em igualdade, não precisamos nos preocupar com comida, dinheiro ou moradia, não faz frio nem calor (temperaturas altas só no inferno), trabalho para todos(se houver) e não teremos mais dor ou velhice, já que espíritos não tem corpo. É ou não é a utopia comunista?

O grande problema é que essa outra vida ou paraíso “all inclusive” não tem garantia de que realmente exista e que será desse jeito. Terminamos abrindo mão de um outro conselho da cultura popular que diz: “Não troque o certo pelo duvidoso”.

Todo sistema de moral vigente, com suas proibições e definições de certo, errado e pecado tem uma só finalidade: tornar iguais pessoas diferentes. Essa diferença ou individualidade comprovada pela biologia não pode ser expressa em termos de vida na medida em que pessoas essencialmente diferentes precisam apresentar comportamentos iguais. Isso, é claro, facilita o controle, com o estabelecimento das diversas penalizações para quem sai ou desobedece em busca de viver essa singularidade: A lei, a punição divina ou a fofoca como meio de controle social.

O único mecanismo de escape socialmente aceito é a expressão artística ou comportamental. Mas como o sistema é sábio, mesmo os “transgressores” são engolidos. Isso acontece quando esse padrão comportamental rebelde vira moda e para isso se criam roupas, músicas e acessórios que, ao serem comercializados, trazem ganhos financeiros para seus idealizadores. Assim, tudo vira moda, que, por ser moda, seja usada por todos como outra maneira de tirar proveito até da crítica.

O termo felicidade é muito subjetivo, como tudo que se refere a pessoas diferentes. Assim, ao existir um padrão do que seja “ser feliz”, anulamos a possibilidade de cada um encontrar a sua, para buscar o que é reconhecido por todos. O modelo de perfeição que a religião institucionalizou nada mais é do que oferecer um padrão único do que será aceito no futuro mundo ou reino. Está aí, anulada, toda a possibilidade da diferença ser aceita como forma de expressão. Sobra só a busca pela saída do exagero, por símbolos de poder (diferenciação) ou pela química que relaxa o espírito e o corpo da pressão de sua anulação.

Essa espécie de ascetismo pregado como sendo a conduta do santo, só pode existir se nos sentimos culpados pelo jeito que somos e a privação da vida vivida plenamente vira a purificação devida. Somos um corpo com todas as suas possibilidades e negá-lo também é negar a própria vida. Em nome de quê?

Essa vida aqui é certa, comprovável e tem muitas coisas para nos alegrar. É feita de encontros, desencontros e a eterna novidade de sermos seres mutantes, outra particularidade que define tudo que é vivo. Aqui também se celebra, compartilha e dá para se divertir muito, até com bem pouco dessa coisa que nos ensinaram suja (nunca esqueça: lave suas mãos se mexeu com ele) que nos impede de acessar o paraíso: dinheiro!

Cinderela não é parâmetro, já que sua beleza não é comum e não temos muito príncipes solteiros muito menos muitas fadas disponíveis. A nossa heroína com sangue de barata, meio “boca mole” tirou em uma mega sena sem comprar bilhete. Se deixou oprimir, explorar e humilhar e foi salva pela única coisa realmente dela: sua beleza. Mesmo a própria história, não conseguiu anular algo de individual.

O que existe, infelizmente, são muitas e muitas vidas (maioria) que começam e terminam mal. Olhe em volta e veja o que o sofrimento, a penúria e a miséria trazem? Só mais do mesmo. Mas essa passividade só existe pela recompensa, pelo sofrimento trazer algo de bom. Será no paraíso que os anulados e oprimidos se vingarão, lá eles serão reconhecidos e os ricos e exploradores sofrerão para sempre. Será?

Não faça desse tipo de história algo que te console, mas que, de preferência, leve a uma saudável e inteligente revolta, à desobediência dessa vida de contrição, tristeza e sofrimento. Pode comer mais uma fatia de bolo, sentir raiva é humano, pensar em sexo é normal nesse corpo que habitamos, etc. Qual o problema?

Todas essas histórias e livros sagrados foram escritos por gente como eu e você, movidos por desejos de poder e expectativas. Olhe em volta e veja como todos têm problemas, sejam ricos ou pobres. Viver é assim, uma eterna novidade e surpresa.

A vida é como na sua rua, cidade e país. Maldades e coisas legais acontecem a todo momento e é isso que temos. Se teremos outra vida, algum paraíso ou inferno só saberemos(?) depois. O que é real é seu dia de hoje, família, trabalho, amigos, amores e, é claro, problemas.

Não se deixe mais enganar com promessas de reinos futuros e cuide em como vai contar essa história para alguma criança. Diga simplesmente para ela no final:

-Deu sorte essa Cinderela, mas se acontecer com você de ser explorado, não aceite, não permita que anulem sua individualidade! Não conte com nenhuma ajuda acima de suas forças.

As fadas pararam de fazer milagres faz tempo. Uma vida boa é responsabilidade só sua, de mais ninguém!

 

A Receita de Epicuro (2a parte)

“Tu, que não és senhor do teu amanhã, não adies o momento de gozar o prazer possível! Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer”.

                                                                                                                 Epicuro

Epicuro

Epicuro é um daqueles filósofos que precisa de justiça. Não é difícil perceber que uma leitura apressada de suas ideias pudesse, inevitavelmente, trazer-lhe a fama de hedonista no pior sentido. Porém, seus ensinamentos aparentemente simples trazem uma grande subjetividade impressa na sua “farmácia” para alma nos seus quatro princípios do tetrapharmakon, que discutiremos a seguir.

Epicuro percebeu que nossos sofrimentos são, na maioria das vezes, uma expectativa ou pré-ocupação da mente que sempre nos mostra os piores quadros no horizonte. Parecido com Sêneca, sua ética buscava ensinar a evitar ou suportar a dor, o medo e o sofrimento que estão sempre à espreita. Dedicou seu pensamento procurando entender justamente desse temor que nos caracteriza, baseado em esperarmos sempre o pior, além, obviamente, do medo provocado pelo mistério da morte.

Ao definir felicidade (eudaimonia) como a ausência de sofrimento físico e perturbações da alma, Epicuro está longe de relacionar seu conceito de felicidade com alguma coisa que se aproxime do que conhecemos por êxtase ou euforia. Sua recomendação de que o autoconhecimento, no que se refere ao entendimento sobre nossa natureza, como funcionam os desejos e o que são realmente os prazeres, mostra que a filosofia enquanto reflexão sobre o ser humano nos explica porque acumulou durante séculos o trabalho que hoje está nos domínios da psicologia.

E, talvez pela psicologia ter virado uma ciência (formando padrões, querendo que só um jeito seja certo ou saudável), tenha criado a oportunidade da filosofia voltar a fazer parte das opções sobre a escolha de caminhos para mudanças ou entendimento sobre os sofrimentos, com sua nova roupagem de clínica.

Dessa forma, seja pelo exposto acima, seja pelo entendimento e vivência na vida prática dos seus quatro remédios, o homem veria seus problemas tornarem-se de fato o que eram, ou seja, nada além de pseudoproblemas, diante da ótica que Epicuro oferece.

Sua tetrapharmakon, ou seus quatro remédios são:

  • Não há nada a temer quanto aos deuses (ou, os deuses não devem ser temidos).

Aqui, passamos a entender o motivo de Epicursismo ter perdido força na idade média, com o fortalecimento do cristianismo, que prega o contrário. Passamos a ter um deus a quem devemos prestar contas e que pode nos punir durante se não seguimos seus mandamentos que enviou pelo seu representante na ocasião.

Você já pensou o que mudaria na sua vida, se soubesse que não tem um deus te vigiando?

A vida é aqui, vivida por humanos! Essa ideia de que exista algum deus, que nos cuida, pune e diz (?) o que devemos fazer para sermos bons e merecermos o paraíso, mais do que uma maneira de controle e dominação, mantém o homem em um estado de infantilidade, onde o pai humano, quando descoberto em sua limitação e fraqueza, precisa ser substituído por outro, onipotente e perfeito. Por trás, está a informação de não somos capazes de nada por nós, o bom que nos ocorre é sempre uma “graça”, que nos foi concedida pela benevolência divina. Se, quando estamos bem dizemos que isso é “graças a Deus”, imagino que quando estamos mal também tenha a mesma razão. Ou é ou não é!

Epicuro aqui, nos chama a responsabilidade de forma suave, para quem percebesse as entrelinhas, não foi tão direto quanto Nietzsche que, para não se deter em delongas, já matou deus de uma vez.  Epicuro admitia a existência dos deuses, mas dizia que eles viviam em um mundo distante, separado do mundo dos homens e que não deveríamos teme-los, já que isso dificultaria ou impediria a felicidade. Parecia prever os mandamentos que viriam logo depois.  Condutas que as várias religiões criaram que, se forem seguidas, tornar a vida sofrida, cheia de culpa, pela purificação como uma pré-condição de acesso a um paraíso futuro, quase como descrito por Marx; todos juntos, iguais, sem poder ser diferente em nada, sem meritocracia, eterno, etc. A vida pregada pelas religiões é de abstenção, contrição e penalizações constantes. Dizer que os deuses moram longe e que não se importam muito conosco, assim como nós que nos importamos pouco pelo mundo das formigas, foi politicamente correto e muito bem-humorado.

  • Não há necessidade de temer a morte (ou, a morte não deve causar apreensão).

A máxima atribuída a Epicuro “ Não devemos temer a morte, pois quando estou ela não está, e quando ela estiver eu não estarei mais”, mostra o motivo de sua filosofia estar atrelada aos sentidos. Afinal, ter medo da morte nada mais é do que outra falsa fonte de preocupações. Se tudo que existe é corpóreo e todas as dores são corpóreas, não temos que nos preocupar com a morte, que nos coloca em uma situação em que nosso corpo não reage, se deteriora, não nos possibilitando sentir prazer ou dor.

Racionalmente Epicuro está correto, mas falta-lhe aqui o que todas as pessoas buscam em uma religião: que tenha uma boa resposta para o mistério da morte, ou seja, o que vem depois e sua justificativa. Óbvio que o filósofo não tinha o interesse de criar uma religião, mas diante da insegurança, mesmo as pessoas mais inteligentes tendem a procurar uma “mão forte” ou algum consolo que lhe ofereça uma lógica mínima; que ofereça um “depois” para essa vida finita. O segundo remédio para ser aceito precisa dessa entrega diante do “não saber”. Precisaremos morrer para sabermos, mas os estados da mente sempre pedem segurança e alguma resposta. Introjetar o conceito, por outro lado, trará como consequência um aumento da responsabilidade de aceitar essa vida como única e buscar a eudaimonia para fazê-la valer à pena.

Epicuro percebeu claramente que precisamos viver bem aqui, o resto são especulações e, como diz o ditado popular: “Não se troca o certo pelo duvidoso”.

  • A felicidade é possível (ou, o bem é facilmente obtido)

Para Epicuro, a eudaimonia engloba em conceito maior do que simplesmente felicidade, já que inclui o desenvolvimento pessoal e a possibilidade de crescimento e progresso da alma e das virtudes. O conceito epicurista é também ético, já que para os antigos gregos isso incluía o respeito ao cultivo e uso das virtudes para caminhar rumo ao bem comum. Mas a grande percepção que teve foi a ligação do conceito de felicidade aos desejos.

Ora, desejar tem em si duas importantes questões a serem analisadas: o primeiro ponto é que só podemos desejar aquilo que não temos, e o segundo é o projetivo, afinal se desejo algo é por imaginar que esse algo me fará feliz, ou me trará alegria, ou diminuirá minha eventual dor ou insatisfação.

A partir do momento que passo a ter o objeto de desejo, imediatamente paro de deseja-lo e isso me fará em pouco tempo, buscar um novo desejo e assim indefinidamente. A classificação que Epicuro fez dos desejos traz um importante ensinamento, já que o que considera “natural e necessário” nada mais é do que o mínimo para a sobrevivência, como nutrição, sono proteção e abrigo.

Já os desejos ditos “naturais” são coisas simples, pequenas variações dos prazeres, busca do agradável, como simplesmente comer um pouco a mais. Fica claro que para Epicuro, ser feliz é estar em paz, sem as perturbações do espírito (ataraxia) e a ausência de dor corporal (aponia).

Quando classifica riqueza, glória, status e reconhecimento como desejos “frívolos e artificiais”, antecipa quase como um vidente nossa sociedade contemporânea, onde a mídia ensina que para ser atingida a felicidade torna-se necessário que os desejos frívolos e artificiais sejam obtidos, o que impulsiona o ciclo dos desejos para o infinito.

Oferece uma constatação que, apesar de óbvia, motiva a busca espiritual das pessoas que se filiam religiões institucionais. A imortalidade é considerada um desejo “frívolo e irrealizável”, justamente por não ser possível. Particularmente, gosto da visão estoica, onde a imortalidade é a nova estruturação dos nossos átomos depois da morte. Poderemos “reencarnar” em uma planta ou relva que nascerá do adubamento da terra pelos nossos restos mortais. A verdadeira e possível eternidade é o que deixamos no mundo, nas nossas relações. O homem não aceita morrer e desaparecer. Essa angústia parece não ter fim e  o que existe depois da morte nunca nos será permitido saber. Cada um escolhe a teoria que mais o conforta.

  • Podemos escapar da dor (ou, o terrível facilmente chegará ao fim).

          No seu quarto remédio, Epicuro nos fala de um conceito, em meu entender, importantíssimo, que é a impermanência. É fundamental entender que existe uma alternância entre bem e mal, e que um só é possível pela existência do outro. Quando essa alternância não ocorre, aquele que persiste se torna padrão. Em outras palavras: bons e maus momentos são normais e se alternam. Quando se está sempre mal, o problema é da pessoa, não da vida em si, e isso também vale para o bem estar prolongado.

             Assim, Epicuro mostra que tudo se alterna em ciclos naturais e que dentro do bem está potencialmente a existência do mal e vice-versa, como também disse Lao Tsé. Um só é possível pelo outro e os dois explicam a vida. Aqui, temos o encontro com Heráclito (sobre quem falei mais no livro “61824 palavras sobre o final feliz que ninguém achou”), a quem Aristóteles chamava de “estranho”. Se, para o pai da lógica “A” é uma coisa e “B” é outra, Heráclito dizia que “A” e “B” são manifestações de uma coisa única. Epicuro teve essa mesma compreensão e sua recomendação é nunca esquecer que bem e mal são como ondas que vem e vão. A compreensão profunda desse conceito é ataraxia, ou seja, elimina as perturbações da alma.

Assim, a filosofia de Epicuro é de grande importância, já que seus remédios são claros, racionais e, se bem compreendidos, trarão uma visão clara do que nos perturba e, por perturbar, precisam de um novo olhar que ele oferece para a diminuição e compreensão do sofrimento.

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Para saber mais:

GHIRALDELLI JUNIOR, P. Helenismo e o início da filosofia cristã. In:____. A aventura da filosofia de Parmênides a Nietzsche. Barueri: Manole, 2010.

 

OSHO. A Harmonia oculta. Discursos sobre os fragmentos de Heráclito. Cultrix, 2004.

 

POLESI, R. Era Helênica: epicurismo e estoicismo. In:_______. Ética antiga e medieval. Curitiba: Intersaberes 2014.

 

 

A receita de Epicuro

Enquanto se barbeava para sair para o trabalho pensava no livro que acabara de ler. Sempre se interessara por filosofia, mas quando leu os ditos “ clássicos” tinha dificuldade de entender a linguagem rebuscada e difícil de alguns filósofos. Seus tradutores, muitas vezes, fiéis ao original não facilitavam em nada o entendimento desses caras complexos.

Um amigo, a quem confidenciava sua frustração, lhe fez uma indicação imediata:

– Cara, leia Epicuro! O que se tem são fragmentos do seu pensamento, mas é muito legal. Quem sabe se gostar poderemos morar junto um dia!

Com certeza fizera cara de assustado, já que o amigo caiu em uma sonora gargalhada e foi embora sem explicar a brincadeira, apesar dos seus pedidos. A única coisa que acrescentou foi a seguinte:

– O que os autores fazem é apenas comentar essas frases, fica bem mais fácil. Não se preocupe!

Ainda naquela semana comprou um livro sobre o tal Epicuro. Era pequeno, com poucas páginas e letras grandes, o que, à princípio, é tudo que um leitor amador busca.

Ficou surpreso com o que encontrou. O livro começava defendendo Epicuro de uma injustiça histórica; que era um hedonista, ou seja, que apenas defendia o prazer pelo prazer, como sendo o supremo bem da vida, o que ficou descartado pela leitura, mas a deixou-a ainda mais atrativa. Afinal, o que ele poderia ter sugerido para que o vissem dessa maneira?

O filósofo grego, que nasceu mais de trezentos anos antes de Cristo tinha uma maneira simples de viver e ser feliz, coisa que parece que conseguiu. Isso o fez o primeiro “cliente” da sua própria filosofia.

Toda sua tese de uma vida boa tinha apenas três únicas e singelas sugestões:

A primeira, é que a vida precisa ser examinada. Bom, isso parece fácil à primeira vista, pensou. Mas não é bem assim. Uma vida bem analisada para um filósofo parece ser uma reflexão profunda sobre seus atos, com uma lúcida compreensão do que se quer e onde chegar.

Por outro lado, isso pode ser atingido com prática. O problema é incluir esse tempo para se pensar em uma rotina tão apertada de compromissos. Lembrou que tinha feito um curso de final de semana de meditação, já fazia um ano e não tinha conseguido começar a praticar. Parece que fazer coisas para si estava na quarta ou quinta prioridade na própria vida. Talvez desde aquela época já devíamos estar ocupados, se fosse diferente, talvez Epicuro não precisasse aconselhar ninguém a fazer isso. Pode ser também que ele tenha percebido que pensamos o que nos mandam pensar. Isso tem a ver com quem nos educa ou pela mídia e religiões. Ele deve ter percebido que pensar por si mesmo exige grande esforço. Precisa pensar para pensar.

– Pelo visto, as coisas vão mal faz tempo! Disse em voz alta enquanto passava a loção pós barba e sentia aquela ardência gostosa e cheirosa.

Depois, a segunda sugestão era não ser dependente, seja da opinião dos outros ou financeiramente. Riu-se sozinho enquanto trocava a camisa. A primeira que tinha escolhido, parecia não combinar com a calça e percebeu que Epicuro o havia pego com a “boca na botija”. Acabava de mudar de ideia em relação a roupa que iria vestir, justamente para que o vissem de maneira melhor. Na hora, experimentou um certo aperto no peito. Pela sua vida inteira teve que fazer concessões para ser admirado, respeitado e sentir-se “fazendo parte”, seja de grupos de amigos, no trabalho e tudo mais.

Sussurrou enquanto amarrava os sapatos:

– Meu sonho de riqueza deve ser para poder não precisar mais me preocupar em agradar, poder fazer o que quero e não me submeter a nada e ninguém. Acho que, no fundo, todos ansiamos por isso.

Penteando o cabelo continuou a falar sozinho:

-O problema é que, quanto mais progrido, mais isso o que enriquece me amarra a compromissos e necessidade de concessões. É uma ironia mesmo essa vida. Esse Epicuro deve ter tido mesmo tempo para pensar. Também naquele tempo na Grécia ele não tinha uma fatura de cartão de crédito para pagar e nem aluguel. Bom, por outro lado, só sofrendo com a dependência, me vejo obrigado a buscar a independência como algo que me faça viver melhor.

Quando lembrou do amigo que havia indicado o livro, não pode conter uma gargalhada, afinal, a terceira recomendação para uma vida boa é estar sempre cercado de amigos. Dizia o livro, que Epicuro comprou uma casa grande e convidou seus amigos para viverem com ele. Para esse grego meio maluco, os amigos são as melhores pessoas para termos por perto, afinal elas gostam de nós sem nenhuma obrigação para isso. A vida com amigos é de alegria e companheirismo.

Parece que Epicuro imaginava o que viria pela frente, já que dizia a seus seguidores que não deveríamos nos sentir culpados por vivermos bem, afinal, isso era a verdadeira finalidade da vida. Deve ser por isso que alguém o chamou de hedonista. Incrível como viver uma boa vida aqui é errado desde aquela época. Tendemos a achar que viver mal ou sofrendo vai nos trazer vantagem em algum dia. Bobagem!

Muito antes da época do consumo, Epicuro afirmava que nada que comprássemos nos poderia fazer feliz. Um de seus discípulos, mandou fazer uma espécie de outdoor em pedra e colocou diante do mercado da cidade, onde dizia que todos deveriam comprar o necessário e que a felicidade não poderia ser comprada, a não ser seguindo os três princípios.

Quando chegou ao trabalho, passou um Whattsapp para seu amigo:

“Obrigado pela sugestão. Gostei de conhecer Epicuro, o cara é fera! Vá lá em casa hoje e vamos abrir um vinho e comemorar a amizade! Só não traga o travesseiro…”