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Camus e o Absurdo

“O Homem absurdo não realiza esse nivelamento (do sacrifício pelo racional ou irracional). Ele reconhece a luta, não despreza em absoluto a razão e administra o irracional. Recobre assim com o olhar todos os dados da experiência e está pouco disposto a saltar*. Ele sabe que nessa consciência atenta, já não há lugar para a esperança.”                

                                                           Albert Camus – O mito de Sísifo

 

“Para dizer que a vida é absurda, a consciência tem a necessidade de estar viva.”

 

                                                            Albert Camus – O Homem revoltado

                                                                                                                                                                         Empurrar a pedra

Essa é a história do mito de Sísifo:

“Sísifo era um pastor de ovelhas e filho de Éolo, o deus dos ventos. Era tido como a pessoa mais ardilosa que já existiu. Morava num povoado chamado Éfira e, ao melhorar as condições do lugar, passou a chamá-lo de Corinto, que mais tarde se tornou uma grande cidade. Casou-se com Mérope, filha do deus Atlas e que compõe uma das plêiades.

Um dia, Sísifo percebeu que seu rebanho diminuíra. Estava sendo roubado. Então, marcou suas ovelhas, seguiu o rasto delas e foi dar na casa de Autólico. Arrolou testemunhas da ladroagem e enquanto os vizinhos discutiam sobre o roubo, rodeou a casa em busca de mais alguma ovelha e encontrou a filha do ladrão, Anticleia. Seduziu-a e a engravidou, vingando-se do malfeitor.

Voltando para casa, Sísifo, que andava sempre escondido, presenciou Zeus, o deus do Olimpo, raptando Egina, filha de Asopo. Não deu outra, aproveitando-se do fato, Sísifo, em troca da construção de um poço para sua cidade, entregou o deus sedutor. Claro que Zeus ficou sabendo que Sísifo o tinha dedurado, então pediu que seu irmão Efaístos o levasse para o Hades, mundo subterrâneo onde viviam as almas condenadas.

Pressentindo a fúria de Zeus, Sísifo pede à esposa que não o enterrasse após sua morte e, chegando ao Hades, arma uma cilada para Efaístos e o aprisiona. Conversa com Perséfone, a esposa do deus, e a persuade a deixá-lo voltar e organizar o seu funeral, além de punir os que negligenciaram seu enterro. Ela lhe concede a volta por apenas três dias. Mas, voltando à superfície, ele passa a viver normalmente com sua esposa, como se nada tivesse acontecido.

Vendo aquele absurdo, pois ninguém deveria enganar a morte, Zeus ordenou que Hermes o conduzisse novamente ao Hades e que lá recebesse um castigo exemplar. Deveria rolar uma enorme pedra morro acima, até o topo. Porém, chegando lá, o esforço despendido o deixaria tão exangue que a pedra se lhe soltaria e rolaria morro abaixo. No dia seguinte, o processo se daria novamente, e assim pela eternidade, como forma de envergonhá-lo pela sua esperteza em querer enganar os deuses e a morte.”

Nenhum de nós voltou do mundo dos mortos, pelo menos que possamos provar. Mas como Sísifo, rolamos nossa pedra todos os dias, repetindo rotinas, talvez para não nos depararmos com uma vida que não tenha sentido.

Albert Camus viveu pouco (1913-1960), apenas 46 anos. Não foi filósofo, mas fez muita filosofia com seus ensaios e livros. Aliás, ele mesmo dizia que para fazer filosofia bastava escrever um romance. Conviveu de perto com os horrores da segunda guerra e foi testemunha de milhões de mortes por conta de poder e riqueza, disfarçada de ideologia. Seus livros são fáceis de ler e renderam o prêmio Nobel. Questionam o sentido da vida, os valores e como abrimos mão de viver sem perceber.

Podemos até não lembrar, mas em algum momento, lá no começo da vida nos deparamos com um grande absurdo; um mundo hostil, incontrolável e que pode nos afetar de diversas formas sem que nada possamos fazer. Como já escrevi em artigos anteriores, é aí que surgem todas as espécies de deuses e superstições para nos dar duas coisas: Em primeiro, que tem “alguém” que faz isso tudo terminar bem, em segundo, que toda essa falta de lógica absurda está sob controle. Bom para crianças assustadas, mas incrivelmente funciona com adultos!

Camus chamava essa sensação de insegurança, de um certo exílio de “Absurdo”. Nossa mente precisa entender a lógica de tudo e o mundo a frustra com o caos. Encarar o Absurdo é no fim a única evolução possível e o salto* é a fuga que não resolve. O meio termo entre a razão e a fé, difícil de conseguir pois exige uma razão trabalhada pelo conhecimento e uma abertura para o transcendente, pode trazer uma quietude em meio a tudo que parece não fazer sentido, sempre fora de nós, nunca esqueça!

O mundo nunca poderá ter um sentido, já que só assim cada um de nós poderá ter sua identidade, ou seja, impor a vida seu sentido particular, que transforma o mundo. A vida então é a mistura de pessoas que encontram seu sentido e o vivem e daqueles que sofrem por não o encontrar. Para os que estão inquietos e insatisfeitos, resta rolar sua pedra todo dia, esperando pela superstição, que o sentido vá ser encontrado fora de si, em um outro mundo, talvez, já que esse tipo de vida é seu destino.

Diante do Absurdo, Camus diz que o homem só pode encontrar três caminhos; o suicídio, a esperança e a relação direta com o Absurdo.

É provável que o “aumento” do mundo via tecnologia tenha ajudado a crescer o número de pessoas que procuram abreviar a vida pela falta de sentido. Nas palavras do próprio Camus no ensaio sobre Sísifo: “…matar-se é confessar que fomos superados pela vida, que não a entendemos.” Suicidar-se é então vencer a própria natureza biológica, que luta para sobreviver, reconhecendo que não há finalidade para a vida, que o sofrimento é totalmente inútil, que não nos trará nenhum benefício. Deve ser por isso que as religiões cortam do suicida todos os benefícios do “paraíso”. Se quiser ir para lá, sofra acreditando que valerá a pena! Quando a pessoa desiste pela angústia, nem uma vida eterna vale a pena ser esperada.

A saída da “esperança”, vem de esperar, ou seja, confiar que as promessas de uma outra vida melhor, onde todos que foram purificados do sofrimento nesse mundo de dor que vivemos terão sua recompensa. Não é de estranhar que isso também ajuda a explicar a exploração do presente em troca de férias eternas. Todas as superstições oferecem um sentido para a vida antes da vida. Já nascemos sabendo o que podemos e não fazer para conseguir o prêmio da eternidade. Essa fórmula está fazendo cada vez mais vítimas, já que as empurra para essa inquietação, por impedir o crescimento ou evolução que só pode acontecer quando a pessoa encontra seu próprio sentido. O sentido da vida é encontrado somente na vida e nunca fora ou antes dela, muito menos depois! Colocar na vida seu sentido no “antes” (receita do que se deve fazer), ou no “depois” (paraísos) nada mais é que a negação da vida enquanto inédita, imprevisível e cheia de variantes. Fora da realidade, é uma ilusão para tentar não ver o mundo com sua imprevisibilidade.

Apostar na crença (sempre incerta) é uma espécie de auto abandono. Ficamos à deriva, confiando que dará tudo certo, já que tem algo maior, a esperança na sua pior tradução. Esse é o terreno fértil onde brotam todas as saídas místicas, poder fora do homem, que o apequena e o torna indefeso. Mas o pior é que as crenças sempre nos oferecem uma visão da vida restrita, com poucas possibilidades, limitada a seus códigos de conduta. Tudo que não consta neles é errado e do mal. Assim, a criança nunca cresce, já que vê a vida por uma pequena fresta, apenas.

Cada um é resultado do que a vida e seus encontros trouxeram. E é essa pessoa em constante mudança que encontra seu sentido, aquilo que os antigos gregos chamavam de “dom”, que, se vivenciado, dá sentido à vida e torna o mundo melhor. Penso que não temos apenas um dom, mas vários que vão surgindo à medida que existe o encontro da ação com quem está apto a executá-la.

É cada vez maior o número de pessoas que se descobrem infelizes, estando com os padrões de felicidade atendidos pela cultura. Mesmo que ganhem dinheiro e tenham tudo que querem ainda assim precisam se drogar de diversas formas e mesmo acabar com suas vidas. Falta o sentido, foram devoradas pelo Absurdo!

A relação com o Absurdo vem de entender que precisamos crescer continuamente. Aprender coisas novas, ter novos encontros com a vida que nos tragam novos pensamentos e tornar tudo isso algo concreto.  É isso que nos traz uma identidade, ser reconhecido por fazer diferença, ser alguém na multidão. Quando isso acontece, tudo se encaixa e o Absurdo não mais incomoda, já que se a vida está sendo “vivida”, com sentido, então morrer faz parte, tudo bem!

Revoltar-se diante do absurdo é compreendê-lo. E isso acontece quando colocamos um valor acima de nós mesmos. Não é isso que faz os mártires?

De todos os valores, a vida é o maior deles! Mas se a vida não tem sentido a priori, se o sentido é encontrado nela própria é preciso entender que isso nunca será uma política. O sentido quando encontrado traz a liberdade como ganho colateral. O mundo do jeito que é, e só vai piorar, precisa de pessoas que nunca encontrem sentido, para que rolem suas pedras todos dos dias, produzindo mercadorias que elas próprias consumirão em uma mecanicidade que afasta do ato de viver todo brilho e razão.

O que resta quando as forças fraquejam, quando a empurrar a pedra vai perdendo o sentido pelos flashes de razão que temos vez por outra, é mesmo esperar que exista outro lugar onde serei reconhecido por todo dia empurrar morro acima uma pedra que nunca estará lá e se estiver, não fará diferença. Por isso, é melhor mesmo que ela role para baixo todos os dias. Se um dia, conseguir vencer o cansaço e colocar a pedra lá em cima e descobrir que isso foi só para passar meu tempo (vida) será o pior que tudo.

Leia Camus, se revolte (no bom sentido), e deixe a pedra para quem acha que empurrá-la está certo.

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Para saber mais:

http://www.saberepreciso.com/2013/02/o-mito-de-sisifo.html

https://razaoinadequada.com/2018/01/24/camus-o-salto/

*Saltar – Escapar da vida, seja pela razão, seja pela superstição.

Albert Camus – O mito de Sísifo, ed. Bestbolso

Albert Camus – O Homem revoltado, ed. Record

Formigas que pensam

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Eles estavam lá. Lado a lado, eram mais de trinta.

Altos e imponentes, eucaliptos tem características próprias; os adultos, como esses que estavam à minha frente, tinham troncos altos e lisos. Só lá em cima, galhos e folhas. Pareciam um muro, uma cerca, de quarenta metros de altura demarcando limites, foi o pensamento que me ocorreu.

Foi quando começou a ventar. Vento e eucaliptos tem tudo a ver, apesar de não precisarem um do outro. Os galhos começam a se mover e fazer um som todo especial.

Fiquei observando.

Enquanto essa “dança” acontecia, percebi que não era uma ação de domingo, dia de descanso para contemplação. Dias da semana, horários, são coisas dessa gente pequena, como nós. Eles, os que vivem vendo no alto, devem ter conosco a mesma relação que temos com as formigas.

Eles estão acima disso, não precisam de nada, só da chuva vez por outra e do vento, para cantar e dançar. De vez em quando, o tronco se libera da roupa velha e eles ficam lisos e nus, para recomeçar. Ano a ano, décadas, sem pressa. Tudo vai acontecendo no instante, sem horário, sem nada que precise ser controlado, esperado ou necessário. Nós, humanos, somos seres que se pressupõem livres. Essa liberdade nos faz agir na natureza como se ela fosse nossa, que estivéssemos acima dela.

Dias, noites, calor, frio, vida e morte. Isso existe só para nós e só pode ser por não entendermos. Deve ser por isso que queremos controlar tudo; o medo que a ignorância traz.

O movimento era lento e os pássaros que também passam rapidamente pela vida, característica de corações acelerados, estavam mais preocupados em cantar seus solos e cada um vivia por si e dava certo no conjunto. Orquestra de estranhos, sem ensaio. Nada tinha a ver o vento com a árvore e os pássaros, tudo age por si, pois essa é a natureza de cada coisa.  Tudo ali estava certo e uma sensação de harmonia era possível, porque ela não era necessária. Quando precisamos de alguma coisa, a tensão e a falta de naturalidade são invitáveis.

Há quem diga que tudo ocorre por necessidade, mas se essa necessidade for natural o nome está errado. Para nós, aqui em baixo, a necessidade é uma espécie de urgência e toda urgência precisa ganhar espaço e prioridade. É quando somos mais importantes que tudo.

Pensei em contar aos eucaliptos sobre alguns pensamentos, coisas que poderiam ser diferentes do que são. Lá estava eu, de novo, querendo que tudo fosse do jeito que eu achava certo. Os eucaliptos talvez não rissem, já que devem saber como somos, mas ficariam impassíveis para que me desse conta que tudo isso é grande demais para ser entendido, ou que não há nada para ser entendido, tudo é como é e pronto. Tanto faz!

Tudo ficou pequeno naquele momento; minhas preocupações, a maldade, a bondade, as grandes e más ações, os crimes, a angústia de não saber isso ou aquilo, o futuro… Não estava acontecendo nada, só o vento de sempre, balançando os galhos, como sempre. Talvez o que não fosse o de sempre foi perceber que não há nada para ser mudado, descoberto ou decifrado.

Eu sei que os eucaliptos não pensam, não ambicionam ou desejam. Estão abaixo na hierarquia desse mundo. Talvez seja por isso que o resultado deles é melhor, assim como o dos pássaros, das formigas e de todo o resto. Somos muito melhores, mais capazes e criativos, mas isso não tem nos ajudado a vivermos melhor. Estamos destruindo a nós e ao mundo. Precisamos atender nossa necessidade, afinal.

Quando eu não estiver mais, seja do jeito que for, o vento vai passar por lá, naturalmente, movendo essas grandes árvores esguias fazendo esse barulho gostoso e poderá ter alguém como eu, esteja lá perdendo tempo pensando em vez de só ver, só ver.

A Ceia

Todos ainda estavam sentados em torno da mesa.

Como sempre, comida de sobra, com a velha desculpa que será consumida nos dias seguintes. Ao lado da mesa, papeis de presente rasgados depois da revelação do “amigo secreto” estavam amontados em um pequeno monte. Sentia-se um desconforto no ar.

Quando se come mais que o necessário, o corpo precisa se ajustar ao fastio. Uma sensação desagradável e um arrependimento obrigatório, como uma ressaca moral. O preço que o metabolismo cobra é uma certa tristeza, um ânimo rebaixado pelo prazer em excesso. Tudo tende ao equilíbrio, como um elástico, quando solto depois de esticado, fica menor por ter estado grande demais.

O rito já tinha sido cumprido. Oração, brincadeiras que se repetiam e, por fim, antes do jantar, a lembrança dos que já morreram. Alguém havia sugerido inverter a ordem, começando pela tristeza e depois rumar para a alegria. Voto vencido pela tradição que diz que a tristeza é mais importante, precisando, portanto, ficar para o final em respeito aos mortos. Fala-se como se estivessem ali, mas a reação é como se tivessem desaparecido para sempre. Primeiro a morte, depois a vida. Quanto encantamento por uma expectativa!

A matriarca passava os olhos em torno da mesa. Filhos já mais do que maduros, netos adolescentes contando os minutos para poderem ir para outro lugar. Percebia pelos olhares que trocavam. Como isso deve ser maçante para eles, pensava. Ela sabia que, quando morresse, tudo iria acabar. Nenhum dos seus filhos tinha sua determinação para manter a família unida, ou porque não gostavam desse tipo de encontro familiar. Na verdade, ela nunca havia permitido que escolhessem.

 O que a mantinha com força de continuar apesar do corpo cansado e dolorido era o próximo natal. Ver todos juntos, resultado de um encontro fortuito transformado em família ocorrido a sessenta anos atrás. Ninguém estaria ali, se ela não tivesse que se abrigar em uma loja durante um forte temporal. O rapaz simpático do balcão virou pai de seus filhos. Estaria tudo “escrito” ou um mero acaso causado por uma tempestade de verão? Pensou muito sobre isso, depois descobriu que era perda de tempo.

Chegou a pensar em perguntar se todos gostavam dessa reunião na noite do dia 24, mas desistiu. Sabia que diriam que sim, mas não estava com vontade de ver rostos com outras respostas. Melhor esperar estar enganada. Nunca conseguimos nos iludir completamente, mas existe a velha e imortal esperança de que o que está diante dos olhos e da razão seja mentira.

Faltavam crianças. Noite de natal sem elas não é a mesma coisa. O brilho nos olhos pelo esperado presente é um sinal de espanto com a vida que vamos perdendo com tempo. Crianças e velhos curtem mais esses momentos. Os pequenos estão descobrindo um mundo que vai ficando maior a cada dia. Poucas decepções, só as que os pais zelosos não conseguem evitar. Já os mais velhos, curtem tudo com ar de despedida, chegando cada vez mais perto da grande pergunta. Querendo evitar descobrir a resposta, esticando a vida, mesmo com limitações.

O filho mais velho cochilava. A esposa, ao lado, fazia bolinhas de papel com pedaços de guardanapos. Estavam todos esperando que ela levantasse para irem dormir enquanto os netos teclavam nos celulares.

Amanhã estaria sozinha de novo. Desde a morte do marido, percebeu, que a cada ano um dos filhos ficava com ela para o almoço do dia 25. Um revezamento, que a fazia sentir-se um estorvo. Como de costume, as sobras da noite ganhariam vida no almoço do dia seguinte, já em pratos do dia a dia.

No ano novo, um dos outros filhos viria buscá-la para a virada. Depois, uns dias na praia com o encarregado da vez.  Lembrou-se da Santa que passa três  dias em cada casa durante o mês, levando proteção e bênçãos, ficando, a cada visita, mais pesada na gaveta debaixo da minicapela, com mais moedas e menos notas. Sinal dos tempos.

Levantou-se da mesa com dificuldade. Todos “voltaram a vida” e fizeram os pequenos comentários habituais; “já é tarde”, “estava tudo ótimo mãe!” e o mais comum de todos: “Mais um natal se passou…”. Dias de preparativos e combinações para um jantar que misturava alegria, melancolia e constrangimento cada vez em doses mais desproporcionais. Teatro familiar obrigatório, determinado por uma data. Preferia cada vez mais comemorar seu aniversário, nesse dia ela tem certeza que estão felizes por ela ainda estar viva.

Enquanto todos se levantavam, a velha senhora desejou a todos um “Feliz natal” e saiu sem que percebessem seu nó na garganta.

Sentiu um alívio ao deitar e percebeu que estava cada vez mais cansada sem motivo, já que tudo que fazia era viver preocupada com todos e da saudade dos tempos que as crianças corriam pela casa.

As imagens dos seus cinco netos lhe vieram à cabeça e percebeu que chegará uma hora em que eles também estariam contando os dias para o próximo natal.

No ano seguinte, como a velha senhora imaginou, cada filho fez seu natal particular e a noite do dia 24 foi trocada por um almoço dias antes onde nem todos puderam participar.

 Final de ano é sempre tão corrido…

E se for só isso?

“Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”

                                                                Nietzsche –   Gaia, a ciência § 276

“É impossível enfrentar a realidade o tempo todo sem um mecanismo de fuga.”

                                                                 Freud

                                                                                                                                                 realidade virtual

Não existe crença sem dúvida.

Se, por um lado, temos a esperança de que o que acreditamos seja mesmo verdade, por outro, como toda esperança, existe um temor de que não seja. Crenças são necessárias até certo ponto. Precisamos delas como uma forma de entendermos o mundo e suas contradições. Aliás, as contradições do mundo sempre são um problema só nosso, já que o mundo é como é, e não somos tão relevantes assim para que ele mude por nós.

Independente se acreditamos em duendes, gnomos, fadas, anjos, querubins, alienígenas (de todos o de mais provável e até probabilística certeza de existência) ou qualquer divindade, é através deles que se atribui o saber que usamos para lidarmos com os acontecimentos incontroláveis da vida. Como já citei em artigos anteriores, quando nos deparamos com nossa falibilidade e de tudo que acontece a nossa volta, a sensação de desamparo é inevitável e uma “mão” amiga, mesmo que invisível e muito improvável, já nos dá alguma segurança para tocarmos em frente.

O interessante é que, quanto mais essa crença for cega e leve a pessoa ao radicalismo, mais ela tenta arregimentar seguidores e olha com certo dó quem não segue sua linha. Sempre penso que, quanto mais se precisa de novos seguidores, fora a questão financeira da manutenção da estrutura, está embutida a necessidade de que mais gente também acredite. Isso traz a ideia de que, realmente, as coisas são como creio, afinal, tanta gente acredita junto! Pode parecer impossível, mas se todo mundo também pensa assim…

A questão que coloco é simples: Por quê a vida não pode ser só o que vemos? Qual a necessidade de um grande significado por trás de tudo, seja do desabrochar da flor ou da maldade no mundo? Como disse acima, toda crença carrega o medo de ser falsa. E as mais importantes questões, como o significado da vida, o que virá depois, se teve algum antes e tantas outras só servem para aumentar a ansiedade. Perguntas demais e respostas impossíveis, já que fazem parte do âmbito do “acreditar”.

Quer queiramos ou não, uns mais outros menos, todos deixamos nossa marca no mundo. Estar vivo é fazer parte e nunca sabemos o quanto afetamos o que chamamos realidade. Alguns grandes pensadores nos convidam a aceitar o mundo tal como ele é e alguns outros revolucionários querem mudá-lo. Uns usando violência e poder para ter mais poder. Outros para impor suas ideias baseadas na crença (essa uma das mais absurdas) de que tem a receita correta para termos um mundo melhor que vale para todas as culturas e pessoas. Caso clássico do sistema educacional que ensina a mesma coisa para pessoas diferentes. Como se fôssemos todos iguais, revogando a biologia. Bom para manipular e matar as diferenças, bom para as farmácias, Capital e governos. Ruim para as pessoas. Mas quem mesmo se preocupa com aquilo que não rende poder ou dinheiro?

Com esse sistema de crenças vamos vivendo sem pensar, já que temos as respostas que as crenças nos dão. E a mais comum é a esperança que existe uma “inteligência” ou ‘Alguém”por trás de tudo, que comanda a vida para o bem de todos e aqueles que estão sofrendo é por merecimento ou aprendizagem, só pode! Se alguma coisa está errada, é por não entendermos um desígnio maior, falta de percepção ou burrice nossa. Figuras ilustres da religião nos remetem diretamente à ideia do sofrimento como forma de purificação para o que virá, ou de que, se não cumprirmos as regras seremos duramente punidos pela justiça divina. Aliás, pensando nisso, se houver mesmo outra vida, quando nossos ministros do Supremo morrerem, toda a bandidagem que habita os nove níveis do Inferno de Dante será solta com Habeas Corpus e tornozeleira e, com certeza, virão nos assombrar. Merecemos tudo isso, por termos nascido pecadores e impuros.

Mas aqui vai mais uma crença: tudo por ser só isso que vemos, simples assim!

Talvez a grande receita seja uma “dúvida razoável” e quem vê filmes ou série de advogados americanos sabem do que falo. Pode ser que a sua crença seja verdadeira ou uma grande bobagem. A do seu amigo também. Algumas, principalmente as mais famosas, precisam de um grande esforço imaginativo para serem levadas à sério. Como disse Kant, precisamos afastar a razão para arrumarmos um lugar para nossas crenças.

O que sugiro é duvidar, lembrar que pode não ser como pensamos/acreditamos/esperamos. Como a alternativa “E” das provas; nenhuma das respostas anteriores. Lembra?

O dia que ficarmos só com o que vemos, sem grandes leituras metafísicas, poderá nos bastar. Nesse mundo vivem e morrem pessoas boas e más, diferentes e indiferentes, inteligentes e nem tanto, preocupadas e desligadas, medrosas e os medrosos que enfrentam o medo porque tem medo de sentir medo. Às vezes dá tudo errado, em outras tudo certo, a justiça impera e em outras falha. Talvez atrás da flor tenha só um pássaro que polinizou assim como na enxurrada que mata não há nenhuma fúria, apenas o infeliz encontro de nuvens carregadas que não conseguiram desviar uma da outra.

Eu sei, seria simples demais!

Mas isso pode ser mais provável que muitas dessas histórias que ouvimos desde criança que nos metem medo; seja da bruxa que “pega” as crianças desobedientes, seja a ira de um deus qualquer por você ter repetido o bolo ou ter desejado o namorado da amiga.

Temos uma enorme necessidade de tornar a vida complexa, cheia de mensagens e significados, assim como de entidades a quem entregamos em forma de desejo a obtenção daquilo que não nos sentimos merecedores. Milagres, dádivas, bênçãos, linhas certeiras e outras um pouco tortas com o objetivo de dar um começo e fim lógico para a vida. Mas quem disse que a vida precisa mesmo de alguma lógica?

Qual o problema de ser somente sorte, azar ou a deusa Fortuna com suas manias? Queremos coisas, nos esforçamos para consegui-las e isso poderá vir ou não vir, quem sabe? Só virá se fizermos, mas tem gente que fica rico sem nem ter pensado nisso e as grandes biografias mostram que existem tantas coisas, ventos tão incertos. Angustia por um lado por estarmos de certa forma à deriva, mas por outro, traz um charme inigualável para a vida!

Precisamos e devemos ter sonhos e objetivos e é isso que nos move. Só convém lembrar que todos querem alguma coisa e às vezes precisamos saber esperar e entender que desejos colidem uns com os outros o tempo todo e são tantas variáveis em jogo que não podemos controlar.

A grande verdade, talvez a única que nos une é sermos seres movidos por interesse. Não fizemos nada gratuitamente, nem que seja sentirmo-nos bem por ter feito alguma coisa. Rezamos para um mundo melhor porque isso é bom para nós. Não fizemos o mal porque não queremos que façam conosco e por aí vai. Não há nisso nenhum problema! O problema é nos idealizarmos e ficarmos esperando que a perfeição que nos falta esteja em outro lugar, em um ser que nunca nasce e nem morre. Talvez seja por isso que Ele é tão perfeito, não morre nunca e nem precisa de nada, não tem corpo e nem desejos; enfim, não precisa lutar contra si mesmo como nós, reles mortais.

Somo cheios de defeitos (é isso que nos dizem desde o primeiro dia) e projetamos nossa melhor potencialidade em divindades como muitíssimo bem nos ensinou Feuerbach, livro* que deveria ser obrigatório em qualquer sistema de ensino que promete formar cidadãos críticos e nunca consegue, justamente por evitar que questionem, empurrando crenças da mesma forma que se produz Foie gras.

Uma dúvida consciente sobre todas essas grandes perguntas nos traria uma vida mais voltada ao bem-estar e a tranquilidade. Talvez um dia saibamos as respostas depois de morrer se estivermos percebendo alguma coisa, talvez nunca. Portanto, porque perder tempo com elas? Viver como se as crenças fossem uma verdade absoluta é como construir casas com areia da praia. Tudo baseado no medo de sermos punidos aqui ou em outro mundo, buscando controlar a vida ou simplesmente por não aceitarmos como verdade o que vemos a cada momento e, principalmente,  que somos mais livres e responsáveis do que gostaríamos.

Para aqueles que acompanham os textos do blog, sei que poderão estar pensando que, de certa forma, já falei um pouco sobre isso em reflexões anteriores (O último dia e Perguntas desnecessárias). Verdade, mais pode ser que hoje eu pegue você mais atendo e com disposição para deixar tudo mais simples e real.

realidade

Pode ser que só tenhamos essa vida e sei que isso é muito desanimador. Temos planos para as próximas existências, onde tudo dará certo no final. Mas por outro lado, se ficarmos só com o que temos de verdade nos dará um pouco mais de pressa e fundamentará escolhas e decisões conscientes de que precisamos para viver bem e sair dessa existência, sobre a qual ninguém pode duvidar, pela porta da frente.

Temos que dizer “sim” e “não” e isso nunca é fácil já que seria o que parte de nós gostaria, mas nem sempre é possível no mundo de verdade. Fazer escolhas e conviver com elas é outra maneira de sermos nosso próprio Deus.

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*Ludwig Feuerbach –  A essência do cristianismo

Tela vazia

Estava lendo Foucault e deu vontade de escrever.

Parado diante da tela, lembrei de um filme sobre Pelé que vi quando tinha 12 ou 13 anos.  Uma hora e meia de gols e jogadas geniais. Sai do cinema com muita vontade de jogar bola. Não lembro se joguei, mas mesmo que isso tenha acontecido, o resultado não foi tão bom que valesse a pena lembrar. Era jogador e plateia ao mesmo tempo e o esquecimento foi o veredito.

Mais tarde, já na fase adulta, vi um show de João Bosco. Ele levou apenas seu violão, parecia que aquele instrumento era uma extensão natural do corpo. Plateia hipnotizada pelo talento. Acontece sempre que vemos alguém viver sua vocação. Deu uma vontade louca de aprender a tocar. Depois de muitas aulas, sofrimento dos dedos que não foram feitos para acariciar cordas, ficou um violão para lá e para cá dentro de casa, sem cumprir sua função. Começou encostado na parede, esperando que a força de vontade vencesse a realidade. Tempos depois, foi parar em cima de um armário. Ficou anos dentro de uma capa como os gênios nas lamparinas nas histórias das mil e uma noites. Pelé e João Bosco mostraram que a natureza, como diziam os antigos gregos, não distribui dons com justiça.

Quando uma criança compra a chuteira do Neymar, sonha em jogar como ele e isso vale para o corte de cabelo da atriz ou da marca de roupa que a modelo mostra no outdoor. Aristóteles e seus seguidores diziam que a vida só vale a pena ser vivida se buscarmos melhorar os dons que trouxemos ao nascer. Mesmo com dons menos favorecidos deveríamos melhorá-los o máximo possível. Fazer o que viemos fazer, daria sentido a nossa vida e tornaria o mundo melhor, afinal, seríamos felizes e realizados dentro do possível. Enquanto não descobrimos o nosso, vamos vivendo vocações dos mais afortunados, buscando sem perceber no que somos realmente bons.

Enquanto o cursor pisca na minha frente não sei sobre o que escrever. Fico pensando se o próprio Foucault, Saramago, Érico Veríssimo e outros como eles também travavam diante da folha em branco. Se uns ganham mais facilidades que outros, com os sonhos isso não acontece. Sonhamos sem parar sobre tudo e um mundo diferente, que nos faria felizes por ser de outro jeito, é o mais comum a todos. Mas, se tem gente feliz sendo o mundo como é, o problema talvez não seja o mundo, mas não se sentir parte dele, fazendo alguma diferença.

O mundo no qual crescemos nos diz o que devemos fazer para ajudar a funcionar pelo bem de todos e é aí que nos perdemos dos gregos, para quem é a vida de cada um que conta. Do jeito que é não tem muito a ver com o fato de gostarmos disso ou não. Precisamos fazer dinheiro para financiar sonhos alternativos que substituem a alegria verdadeira. Deve ser por isso que altos salários e fortunas não são garantia de alegria por uma realização.

Por outro lado, nem todo talento que a natureza deu exageradamente para alguém é uma garantia de felicidade, Van Gogh que o diga. Quantos talentos se perdem em situações de famílias desestruturadas, de falta de condições mínimas? Temos “Neymares” que ficarão a vida no anonimato, por terem que ajudar em casa ao invés de terem a oportunidade de melhorar seus dons. Jogadores de fim de semana, que viverão sua alegria sem reconhecimento ou remuneração. Tudo para ser famoso no bairro e contar os feitos no bar, aos domingos à tarde.

Sonhamos o passado para tentar reescrever nossa história, buscando entender erros de forma que nos inocente um pouco e imaginamos o futuro para poder esperar que tudo dê certo no final. Sonhos que só existem por estarmos um tanto desconfortáveis com a falta de sentido, diria o velho Aristóteles.

Talvez se insistisse com o futebol e o violão?

O mundo valoriza os esforçados, maneira de tentar compensar a falta de dons exuberantes e de não nos deixar perder a esperança. Cafu e Dunga ergueram copas do mundo, assim como Pelé, Zidane e Maradona. Quem sabe ser coadjuvante não consegue atenuar a incapacidade para o protagonismo? Lembro sempre disso quando vejo um coral, a soma torna todos melhores do que individualmente, roupas iguais para ser um só; o todo é maior que a soma das partes, e assim a força de vontade vence a matemática.

Agora percebo porque falo disso, era o que Foucault estava dizendo; somos aprisionados de certa forma nesse jeito de pensar. Ao comparar escolas com presídios ele não deixa dúvidas e escancara sua ideia de forma inquestionável.

 Já não sei se a vontade era escrever sobre isso ou se foi como ele escreveu que me fez lembrar a emoção que Pelé e João Bosco produziram; que havia encontrado o que a natureza esperava de mim.

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