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O sorriso do Padre Anselmo

É como se soubesse que um dia voltaria ali. Todos voltam e o que se diz nas conversas privadas é que, quem ainda não voltou, não escapará. Estar de volta, portanto, não parece ser um demérito ou fraqueza.

Seu superior já tinha notado que estava diferente a algum tempo. Seus sermões dominicais tinham perdido fôlego, como se falasse por que tinha que falar. Estava tão automático, sem ânimo, como se ele já não acreditasse mais. Parecia que esses anos em contato direto com a realidade haviam suprimido sua fé. Os argumentos a favor dos sonhos não eram mais suficientes nem para seu próprio consumo. O que tinha a oferecer para as queixas comuns das pessoas comuns lhe parecia vazio e carente de um sentido real. Difícil de passar uma confiança que tudo dará certo no final se essa data poderia ser amanhã ou na eternidade. Tempo demais para quem sofre as violências da vida e quer uma explicação ou reparação das injustiças. Pessoas que fazem tudo certo, esperando que isso resulte em algo bom e que, quando não acontece, precisam de uma explicação que as conforte. Fazer o que é “certo” precisa valer a pena e ninguém se sente bem enganado.

Quando chegou encontrou tudo igual. O mesmo cheiro, sons, sopas à noite e os mesmos quadros nas paredes de rostos sisudos, contraídos por uma vida, que agora conhecia, de muitas abstenções e rigidez. Faltava alegria ali.

Por coincidência ou não, foi-lhe dado o mesmo quarto que frequentou na sua formação. Cama de solteiro com colchão de palha, curta demais para seu tamanho. Nos invernos rigorosos forçava a cabeça contra a parede para tentar manter os pés aquecidos. Passados muitos anos, a pergunta era a mesma: Precisava ser assim? No que dormir mal em um lugar sem nenhum conforto aumentaria sua fé? Desapego não precisa rimar com sofrimento. Se é para se ter poucas posses, por que não serem as melhores possíveis?

Perguntas demais, respostas de menos e sempre tão vagas. Esse sempre fora o problema.

Passaria uns dias por lá ou o tempo que fosse necessário. A ideia era reavivar seus compromissos e também suas crenças, obviamente. Nos primeiros dias, fora instruído a ficar em silêncio, conversando consigo. Não achou uma boa opção e chegou a iniciar uma argumentação, mas desistiu. Recebeu um olhar fulminante, que dizia claramente que se ele não dava mais conta de si, precisava fazer exatamente o que lhe mandavam. Quem mandava, mandava porque sabia mais do que quem era mandado, pelo menos pensavam assim.

Deu de ombros, afinal, poderiam até ter razão.

 As horas e dias iam passando e sua ansiedade só aumentava. Ele não era um bom interlocutor para essa situação, já que foram seus próprios pensamentos que trouxeram as dúvidas. Nos corredores, passava por jovens que tinham o mesmo brilho no olhar que ele nessa fase. Aquela certeza que a sua revelação mudaria o mundo. Se via neles, tinha vontade de avisá-los, preveni-los. Engolia essa vontade com um suspiro.

Participava dos momentos de oração com os demais, mas sentia que não estava ali. Era como se testemunhasse a si e aos outros orando. Em outra situação, essa sensação poderia ser vista como algum problema psicológico, mas ali, só o entristecia e aumentava seus questionamentos sobre o futuro. Até bem pouco tempo não tinha dúvida sobre o que queria para sua vida, agora via-se diante de um entroncamento onde muitas estradas se encontravam.

Terminado o tempo do silêncio, notava que as conversas com os superiores não surtiam efeito. Sentia-se mal, traindo a si mesmo, pois quando perguntado sobre o que acreditava, não sabia se o que respondia era mesmo verdade. Duplicou seu tempo de oração e estudo como se quisesse se auto convencer de que o que sentia não era a perda da fé. Era uma fase, iria passar. Todos passaram por dúvidas e se questionaram, pelo menos é o que diziam as biografias.

Em uma tarde, percebeu que não sabia mais exatamente a quanto tempo estava ali, duas, três semanas talvez. Naquele lugar, exceção aos domingos, todos os dias são iguais. Tempo que se arrasta como as reticências que nos dão liberdade de preencher significados.

Quando a porta do seu quarto abriu levou um susto. Estava tão absorvido em seus pensamentos que chegou a sobressaltar. A visão do seu instrutor mais querido trouxe lágrimas aos olhos. Padre Anselmo fazia parte daquelas raras unanimidades positivas; sempre bem-humorado, afável e com uma incrível capacidade de entender, de se colocar no lugar do outro, só para sentir o que o outro sente. Nunca impôs verdades, pois falava de sentimentos, lugar onde elas não combinam. Devia ser por isso que nunca subiu na hierarquia, sorria demais para isso. Como em todas as empresas, os cargos mais disputados são poucos para tantos pretendentes e a luta era intensa e surda, como devia a quem precisa dizer-se o tempo todo humilde e desinteressado de alguma forma de poder.

Um longo abraço! Finalmente alguém com quem sentia que poderia se abrir sem medo, falar abertamente sobre perguntas e não sobre certezas.

Toca o sino para a hora da oração. Sem ainda trocarem palavra foram juntos para a pequena capela do outro lado do monastério. Ali, era o lugar das orações particulares e quem queria ter essa privacidade precisava se antecipar. Naquele dia, ela estava disponível para os dois.

Ajoelhou-se e começou sua prece. Sentindo algo estranho, notou que Padre Anselmo continuava sentado, de olhos fechados.

Ficaram ali, em silêncio, por muito tempo.

Pensou em perguntar ao antigo professor o motivo de não ter ajoelhado. Quando ia fazê-lo, deu-se conta que estava recebendo mais uma lição. A que precisava agora. Todas as peças se juntaram e muita coisa fez sentido naquele momento. Era isso, todo esse ritual o estava distanciando do que realmente acreditava por não fazer mais sentido.

Muitos dos seus momentos de desencanto aconteciam por querer entender essa lógica divina de resultados tão distantes e improváveis. Não via justiça nenhuma em os erros ou acertos terem um desfecho em outro lugar, assim como o sofrimento se transformar em fé. O que é humano nessas situações é só desencanto. Jó era um exemplo que não vingava mais; dores e sofrimentos pensados por um Deus sugestionado pelo mal. Não, não poderia ser assim! A rigidez dos rituais estava acabando com sua sensibilidade, criando uma barreira, queria dizer o que sentia não o que “deveria”.

Padre Anselmo parece que lia seus pensamentos. Esboçou um leve sorriso.

Era por isso que ele exalava uma verdade! Ele não se rendia ao que não acreditava. Tinha sua relação com Deus do jeito dele e isso nunca o faria sair dali. Não abria mão do que realmente acreditava em troca de poder ou prestígio. Só a admiração dos alunos o mantinha lá. Ele tentou ensiná-lo, mas na época não entendeu. O “pacote pronto” parecia fazer mais sentido que receitas individuais, maneira arriscada, punida com dureza por quem precisa que todos anulem suas diferenças. Mais fácil, mais seguro.

O Deus em que sempre acreditou tinha menos cerimônia, porta aberta para quem precisasse, dispensando intermediários. E muitas vezes, porque não, uma resposta de simplesmente não ter resposta, de aceitar que tudo pode ser somente o que é.

Na saída da pequena capela, mais um abraço e apenas um “obrigado”.

Arrumou suas coisas e quando estava saindo, voltou-se para ver a porta que se fechava as suas costas. Esteve em uma bolha de tempo e realidade. O ar da rua o trouxe de volta à vida, a que acontece, imprevisível a cada instante.

Tudo que se aprende como certo, serve apenas como uma maneira de chegarmos mais rápido ao nosso próprio jeito de pensar e fazer. Teorias, programas e técnicas servem para pessoas que não existem, que deveriam ser desse ou daquele jeito. A vida é tão móvel que tudo que a prende e engessa vai tirando-lhe a graça, porque afeta sua natureza.

Enquanto caminhava, lembrou que tinha voltado a sonhar, o único sonho que valia a pena ser sonhado; aquele do seu próprio jeito. Padre Anselmo tinha ensinado a difícil arte de responder perguntas complexas; não disse nada, apenas deixou que ele mesmo respondesse.

A dor é amarela

              “Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. ”

                                                                         Rubem Alves

                                                                                                                                                                 cvv

Estamos em setembro, que é amarelo por uma inspiração primaveril ou porque as outras cores já foram usadas nos outros meses, dedicado a alguma causa. No caso, o foco é o suicídio e sua prevenção, que, pelos números que crescem geometricamente, precisará de mais meses do ano ou de termos um ano todo amarelo, de janeiro a dezembro.

Sobre o assunto do suicídio, já tratei diretamente em um dos capítulos de “Céu e Inferno”, bem como uma reflexão sobre a morte, em texto aqui do blog, quando usei as ideias do filósofo Montaigne como inspiração (Montaigne e a morte), escrito em setembro de 2016.

Meu intuito agora é comentar sobre a importância do trabalho, voluntário ou não, das pessoas que se dedicam a escuta e de como simplesmente ouvir pode fazer a diferença para quem está pensando em abreviar sua vida.

A angústia quando aperta nos encolhe (muitos ficam em posição fetal quando sofrem desesperadamente, buscando inconscientemente uma lembrança de quando se sentiam protegidos), e parece até que dá falta de ar em outros. Só quem já passou por isso pode avaliar e é aí que os problemas começam.

Todos, sempre com a finalidade de ajudar no sofrimento do outro, cometem alguns erros primários como, por exemplo, tentar diminuir o problema comparando com outros que, em tese, são mais graves. Quem está sofrendo, sofre seu problema que nunca pode ser comparado com outro. A dor da perda de um relacionamento é sentida psicologicamente como uma morte de alguém querido. Comparar dizendo que “tem coisas bem piores” além de ser uma bobagem é um desrespeito. Jamais pode-se partir do ponto de que as pessoas são iguais, sendo a comparação uma verdade válida para todos. A morte de um animal de estimação, a perda de um emprego, seja qual for o problema, tem o sentir único de quem o vivencia e qualquer comparação é absurda. Não tente consolar seu amigo (a), por exemplo, oferecendo suas experiências tristes esperando que ele melhore ficando com pena de você.

O sofrimento, normalmente é um não entendimento da dor e falar sobre isso sempre ajuda. Quando a pessoa sente confiança para expressar seu sentimento, suas ideias se organizam no ato de explicar o que está sentindo. Mas isso exige uma atitude de respeito à capacidade que cada um tem de resolver seus próprios problemas. Outro erro grave é querer oferecer saídas ou dar conselhos. Os profissionais da área da psicoterapia, que possuem toda uma preparação para lidar com o sofrimento alheio, têm por norma não aconselhar, justamente por procurarem oferecer condições de entendimento. Quando tudo fica claro, quando as causas são conhecidas pode ficar a dor, mas o sofrimento acaba. Portanto, não dê conselhos!

Quer ajudar?

Apenas ouça, não julgue, não critique e não aconselhe.

A não ser que você seja alguém realizado como um Buda, que atingiu o clímax do potencial humano, acolher já está ótimo!

Se todos nós temos nossos problemas e sofrimentos, só podemos ensinar o que sabemos por experiência. O que isso quer dizer? Que só podemos ensinar a ter problemas e sofrimentos.

O ato de falar sem se sentir julgado, comparado ou criticado abre infinitas possibilidades, mas seu maior efeito é a diminuição da dor emocional que, quando atinge um patamar elevado faz a pessoa querer acabar com isso rapidamente e é aí que entra a ideia do suicídio. Em níveis mais baixos, acabamos com nossa angústia com uma barra de chocolate ou um copo de qualquer coisa. Somos todos suicidas em potencial e o que nos falta é a dor extrema aliada a um momento de fragilidade. Nossa natureza é a busca da alegria e a fuga da dor. A alegria é imaginada e vivida intensamente em momentos, já a dor emocional é também física, sendo, portanto, mais propícia a saídas rápidas e impensadas. Como já detalhei no artigo sobre o suicídio, a angústia, seja de que nível for, sempre é tão passageira quanto a felicidade que “dura pouco”, mas com um agravante; parece ser eterna enquanto dura, parafraseando Vinícius de Morais.

Por isso, trabalhos de escuta como o que o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece gratuitamente é de inestimável valor para a sociedade e merece todo nosso apoio. São pessoas que doam seu tempo e que são treinadas para essa escuta respeitosa, de ajudar a pessoa que está sofrendo a falar tudo que sente, anonimamente, sem cobranças, consolos ou saídas milagrosas. A fala, muitas vezes o choro que se deixa chorar, alivia em muito a angústia e nessa hora é o que importa. É como um pronto-socorro que não tem a função de curar, somente de manter o paciente vivo para que ele possa procurar com calma e sem dor a saída de seu problema.

Como é importante nesses momentos não oferecer crenças ou explicações metafísicas. Até porque, são saídas baseadas em expectativas de que o mundo ou a vida sejam desse ou daquele jeito. Muitas vezes não funcionando nem para quem os sugere. Quando alguém enfrenta o desespero isso também acontece pelas suas crenças se mostrarem sem efeito diante do problema. Oferecer outra? Por favor, não!

Portanto, se você está sem tempo de ouvir, ou acha que o problema que a pessoa está enfrentando poderia ser pior, que está faltando coragem ou fé, não diga nada. Sugira que procure uma ajuda profissional, reconhecendo sua limitação (o que é um ato de extrema inteligência e grandeza) ou então dê o número do CVV*.

O mundo está nos entristecendo cada vez mais e isso diminui nossa força e vontade de viver. Estamos cada vez com mais medo de não conseguirmos nos manter em um mundo que está mudando muito mais rápido do que nossa capacidade de assimilação. Tudo perde valor e validade rapidamente e manter-se, seja no emprego, nos relacionamentos e até de atender nossas necessidades é um risco diário. O mundo e nossa civilização perdeu consistência, ou ficou “líquido” como bem descreve Zygmunt Bauman em seus livros. Parece que só globalizamos a miséria, a violência e o medo. Precisaríamos de uns trezentos ou quatrocentos anos para nos adaptarmos sadiamente ao que aconteceu nos último trinta.

Os números do suicídio são verticais, afetam todas as classes sociais e econômicas e a dor que não respeita nada pode nos atacar dentro de um ônibus indo para o trabalho ou em um iate nas costas do mar Egeu.

Se alguém me perguntasse que cor daria para setembro, certamente não escolheria o amarelo de “cuidado” como nos semáforos. Usaria e vermelho de “pare”!

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 * CVV disque 141

Arrume seus armários

   “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.”

                                                            Fernando Pessoa

mudança

Mudanças são difíceis e, na maioria das vezes, ocorrem sem nossa concordância; são necessidades impostas pela vida. Portanto, a famosa frase “resistir a mudança” tem sua lógica. Nosso instinto de sobrevivência quer a manutenção do que nos mantêm vivos, afinal, estar vivo é uma pré-condição da almejada felicidade poder ser alcançada.

Uma mudança, seja ela imposta ou escolhida sempre será um processo de alguma dor, ou como dizia Nietzsche, de “rasgar a alma”. Isso porque, saímos do terreno conhecido em direção a essa nova etapa que não controlamos (por ainda não termos vivido algum tempo nela), com o receio que nossa máquina corporal nos impõe sempre que estamos diante do que não conseguimos prever; o medo.

É justamente aí que reside a origem e a necessidade de todos os deuses e superstições: uma mão forte diante do medo do desconhecido e de um mundo repleto de acasos e variáveis que escapam à nossa lógica e compreensão.

Assim, diante de uma mudança necessária (as desnecessárias adiamos até se tornarem imperativas), ficamos à espera de uma força que nos anime para adentrar nessa selva desconhecida. Vale fazer uma promessa, beijar a medalhinha do santo protetor e confiar no apoio do Grande Pai, que sempre sabe o que faz e quer o nosso bem. Então, munidos dessa “força”, respiramos fundo e vamos adiante, seja para uma cidade nova, um relacionamento, um novo projeto profissional, um regime ou abandonar velhas rotinas que já não servem mais.

Nossa realidade externa sempre é reflexo do nosso interior, da ordem e desordem emocional que estamos vivendo. Esse conceito não é novo, frequenta a filosofia de autoajuda faz tempo e nos serve muito, quando estamos falando de processos de mudança.

Como já tive a oportunidade de escrever em outros textos, ansiamos por estarmos emocionalmente aptos a enfrentar esse processo de ir em direção a uma nova realidade. Queremos estar animados para o novo começo e isso não é possível, como expliquei acima. O máximo que se consegue, quando a mudança pode representar o fim de uma longa agonia é uma alegria misturada com tensão, que é esse medo diante do novo. Dizemos a nós mesmos: “Vai dar certo, eu sei !”

Não, não sabe. Se soubesse não precisaria estar repetindo segurando a medalhinha. Lembrando que “fé” é acreditar no que não sabemos.

Voltando ao começo desse texto, digo que a saída é a seguinte: se não tem como termos essa alegria/força/ânimo puro, diante do que nos espera, então, como fazer?

A resposta é simples, faça “por fora”, ou seja, mesmo a confiança e a certeza estando ausentes, tome as atitudes (ações) que representem que essa mudança já está em curso e sendo bem-sucedida. Mudando nossa realidade externa, nosso interior acompanhará essa mudança.

Tudo que esperamos que venha de dentro nunca é algo que sentiremos antes, mas somente depois. A “confiança”, qualidade aspirada por muitos, sempre é resultado de atitudes que deram certo. As primeiras, normalmente acompanhadas do medo. Por isso, não tem como se sentir confiante sem ter feito ainda. Parece óbvio, mas está longe de ser.

A “alegria” é sempre depois, nunca antes. É resultado de algo que aconteceu e ninguém fica alegre por algo que acontecerá, visto que isso está no futuro, sujeito a variáveis que podem não resultar no que se espera. Nesse caso, chamamos de “esperança”, sempre acompanhada do medo de não se concretizar.

Portanto, qualidades são depois, resultado de ações que tomamos sentindo receio e cheio de dúvidas. Em toda história de sucesso, sempre encontraremos no começo do relato o momento em que um grande risco foi corrido. O orgulho de quem conta a história nem é do resultado em si, mas de ter vencido a angústia diante da possibilidade de naufragar.

Dificilmente quem está em desordem interna, seja pelo que for, estará com suas coisas pessoais arrumadas. Nós e o mundo somos uma só coisa, indivisível. Justamente por isso, como já disse, o mundo precisa ser um caos. Temos oito bilhões de “mundos” convivendo e para que cada um possa Ser, nenhuma ordem deve estar pré-estabelecida.

Mudamos a mente pelo corpo e o corpo pela mente. A Yoga traz calma a mente, justamente por tirar a tensão dos músculos pelo alongamento, e uma criança é flexível  por não ter uma mente repleta de medos e crenças. Não há corpo saudável em uma mente desordenada e vice-versa.

Dificilmente atraímos para qualquer tipo de relacionamento alguém que seja oposto. Um mau momento pressupõe um mau encontro e escolhas idem.

Assim, mudar o externo é uma maneira mais rápida de mudar internamente mas, como tudo, precisa de compreensão. Quem age sabendo o motivo de estar fazendo tem um resultado mais sólido. De nada adianta repetir mil vezes que se é confiante, por exemplo, se não temos atitudes de confiança. Você poderá dizer que estaríamos mentindo a nós mesmos fazendo isso. Pode ser, no começo. Mas nunca esqueça que tudo que repetimos vira uma verdade pessoal. Mas isso só vale para atitudes, nunca para frases.

Observe como é difícil manter nossa vida financeira em ordem quando estamos em desequilíbrio, assim como nossos armários estão tão desarrumados quanto nossos pensamentos e emoções.

Tudo é resultado de ações ou da falta delas em nosso universo particular.

Outros mundos colidem com o nosso a todo momento e esse entrechocar de vontades e ânimos torna os resultados sempre imprevisíveis. Mas o que nos compete é fazer o que nos cabe para termos o que desejamos.

Quem toma uma ação nova já é “outro”, mesmo que seja com algum receio. O tornar-se outro, maior do que se era, seja por escolha ou imposição das circunstâncias precisa de uma alma maior. A antiga rasga por não se caber mais nela.

Portanto, pare de esperar que a confiança e todos os bons ventos se façam presentes para sua travessia. O bom marinheiro veleja com todo tipo de vento e só é bom porque sabe para onde vai.

Só uma resposta

No começo, foi só o silêncio.

O terapeuta já estava acostumado. O primeiro encontro é feito de expectativas, mas além delas, o cliente precisa sentir que pode falar, se expor com segurança e para isso não tem regra ou método. Intimidade que na vida real leva muito tempo, se constrói em minutos.

Depois de um breve suspiro, o homem começou a falar sobre sua vida. Da infância sem sustos em uma família que, como todas as outras, atravessava boas e más fases que nada impediram que ele e a irmã pudessem chegar à idade adulta. Falou como conheceu sua esposa, da dificuldade de terminar a faculdade e do emprego onde estava desde sempre, agora, como nunca, cheio de perspectivas. Viagens ao exterior pela empresa, cargo de chefia e, quem sabe um dia, tornar-se um diretor.

Em casa, o casamento estava indo muito bem com o filho de três anos que surpreendia a cada dia com suas descobertas e da lógica de pensamento que só as crianças podem ter.

Silêncio.

De repente, uma dor de garganta que não passava. Médicos comuns, receitas comuns. Passado um tempo, uma investigação mais profunda encontra nódulos e uma doença comum, que só de dizer o nome dá medo, em uma manifestação rara.

Em um dia, tudo desaba; sonhos, medo de deixar de existir quando a vida parecia sorrir todos os dias.

O médico das más notícias disse que ele não deveria deixar de acreditar. Mal prognóstico. Sem olhar nos olhos disse que ele poderia ter vinte por cento de chance e que o tratamento precisava começar imediatamente.

Enquanto o médico falava ele só conseguia sentir saudade da esposa, do filho e dos pais. Como dizer para mãe, para a esposa? Imaginar não ver o filho crescer lhe tirava o ar.

As lágrimas, represadas pela coragem masculina finalmente encontraram um porto seguro. Soluçava em desespero.

O terapeuta sustentava o olhar. Era o que podia fazer. Todos os livros que lera viraram em nada diante da vida real, como ele já sabia, faz tempo.

Quando a emoção lavou o que podia, um novo suspiro.

– Meu amigo me disse que você poderia me ajudar. Eu só queria entender.

Silêncio.

Precisamos de respostas. Elas são uma espécie de consolo, afinal, tudo precisa ter uma razão! O problema é justamente esse; muitas vezes não existe uma razão. Nossa imaginação busca onde pode preencher os espaços vazios da compreensão como uma forma de encontrar alguma justiça ou justificativa. Palavras que não começam iguais por coincidência.

O terapeuta moveu lentamente a cabeça.

– Não tem como entender, não é? Nunca fumei. Não tem sentido!

Choro.

Comentou que o filho não queria mais ir para a escola. Dizia que queria ficar em casa com pai, apesar de nunca falarem do assunto na presença dele. Nunca se engana uma criança e é fácil de entender o motivo: se para ela não existe passado e muito menos futuro, toda sua percepção se concentra no que está acontecendo. A professora, informada da situação, relata que o filho já não brincava e mostrava abatimento.

A esposa apenas dizia que tudo isso era um pesadelo que iria terminar. Como uma pessoa boa passaria por isso? A mãe sofria silenciosamente e o pai estava ao lado nas sessões de quimioterapia, mas não conseguia falar. Nos olhos, o medo do absurdo que devasta a razão.

Em duas semanas tudo estava desabando e o tratamento intensivo já mostrava suas marcas.

– Agarre-se a seus vinte por cento. O mesmo absurdo pode ser a sua chance. Disse-lhe o terapeuta.

– E se os oitenta vencerem?

– Você fez sua parte. O que contarão a seu filho é que você lutou, fez o que pode. Se em algum momento da vida, ele superar dificuldades baseados na sua luta, pode ser que tudo isso ganhe o sentido que você procura. Mesmo não sendo uma garantia de nada, é como pode dar certo. O mistério da vida é não ter lógica.

– Mas e o motivo, tem algum para isso estar acontecendo?

– Não tem, é o que nos diz a razão. O resto nós nunca saberemos. Pode ser só o que sabemos; uma doença infelizmente comum em uma manifestação rara.

Olhando para o chão ele parecia absorver essa resposta. De algum modo o acaso o absolvia.

– Isso me dá um alívio, de certa forma. Pode não ter mesmo um motivo.

O terapeuta demorou alguns segundos para responder:

– Carregamos culpa demais. É assim que se mantêm as pessoas sob controle. Faça o que deve ser feito, use sua força e fé. Se às vezes não existe uma razão, porque não usar o que está fora dela? Lute por cada dia a mais. Os milagres sempre são feitos por nós, no final.

– Só sinto saudade. Saudade de quem vejo todo o dia, tenho saudade até de mim.

Choro.

Silêncio.

Quando se despediram, um aperto de mão. Nos olhos uma leveza de quem pode falar, só falar. O homem que procurava respostas e o que não as tinha apertaram as mãos.

– Interessante, vim procura-lo atrás de entender. Você não tinha a resposta, mas de alguma forma estou melhor. Obrigado por não responder, talvez se me dissesse alguma coisa que eu precisasse acreditar, poderia aumentar minha angústia. Como saber se sua teoria era a certa? Ser simplesmente como é, foi a melhor resposta que encontrei.

Do aperto de mão, veio um abraço, rejeitado pelos manuais. Bobagens que não respeitam o que acontece em um encontro, na vida.

Um sorriso mútuo encerrou esse único encontro, que mudou os dois, cada um a seu jeito.

 Quando a porta abriu, o próximo cliente já esperava.

O terapeuta tinha alguns minutos. Molhou o rosto enquanto imaginava a dor sem sentido.

Ao olhar-se no espelho, pensou em perguntar para a imagem refletida: Por quê?

A sabedoria de Zeus

Era uma vez, centenas e centenas de milhares de anos atrás…

– Preciso falar com o Senhor.

Zeus já era Deus antes dos outros deuses que conhecemos. Já nessa época, onde parece que só existia a Grécia, ele já era antigo. Sendo antigo, sabia que a paciência era o que separava os humanos dos semideuses e esses dos deuses, onde ele reinava absoluto.

Uma das duas outras qualidades como administrador do Olimpo, era justamente colocar as pessoas certas no lugar certo, exemplo que se segue por eras desde então. Alguns aprenderam essa lição, como Tite e outros não, como nossos últimos presidentes. A outra é saber lidar com as vaidades, condição para gerir tanta gente importante, seja por ser ou se achar.

 Hermes é seu ajudante de ordens, uma espécie de “faz tudo”. Adotado posteriormente como padroeiro dos embusteiros, seria hoje facilmente chamado de lobista. Hermes era bom de conchavos e fazia alguns acertos políticos quando as coisas pareciam perder-se por falta de bom senso. Zeus sabia que, quando Hermes estava com essa cara, o problema seja qual for, não tinha sido resolvido nas instâncias inferiores.

– Entra Hermes, pelo visto aconteceu alguma coisa…

– Na verdade sim Zeus. Temos um problema inesperado e um tanto estranho.

– Querido Hermes, os problemas normalmente são inesperados e estranhos. Mas me diga, o que ainda falta acontecer por aqui?

-Na verdade não é aqui, no Olimpo.

– É em Gaia então? Quando pedi para Prometeu criar os seres humanos, ele devia estar com a cabeça em outro lugar. O que foi que eles fizeram dessa vez?

– Também não é em Gaia.

Zeus olhou fixo para Hermes como não fazia a muito tempo. A última vez tinha sido quando Persófane fora raptada por Hades e Demeter secou todas as plantações de planeta.

 Mostrando agora impaciência, Zeus ficou com olhar parado, esperando que Hermes contasse.

– Na verdade Zeus, o problema é no céu.

– No céu? Como assim? No céu só tem as estrelas, o Sol e a Lua. Explica logo!

Hermes precisava escolher as palavras, afinal deixar Zeus irritado nunca é bom, ainda mais quando ele pensa que o erro é por falta de atenção.

-Bom Zeus, com as estrelas está tudo bem. São milhões delas e tudo vai indo sem problemas.

Zeus agora ficou com o cenho mais franzido como se não estivesse entendendo.

Hermes pigarreou com medo de gaguejar, o que seria fatal.

– Na verdade, temos um problema com a Lua e o Sol.

-Como assim Hermes? Como pode ter problema?  Um fica de dia e outro à noite, fiz isso com perfeição, aliás como tudo que faço!

– Claro Zeus, o senhor fez tudo perfeito!

– Então Hermes, conta logo!

– Na verdade eles pediram permissão para namorar, senhor.

– Como assim namorar? Eles têm uma função a cumprir, pelo menos por alguns milhões de anos! Dei  ao Sol a luz e o calor e a Lua o poder sobre a agricultura, as marés e tantas outras coisas. Não tem nem como terem um relacionamento, isso seria um desastre e tiraria tudo da ordem.  Me explica Hermes!

– Pois é Zeus, eles estão se olhando há milhares de anos, criou um clima. Me entende?

– Clima? Como assim?

– Eles ficam se olhando, a Lua vê o Sol todos os dias e quando é ela  que vai trabalhar, ele fica olhando também e, sei lá, eles devem ficar imaginando como seria.

Zeus agora, estava realmente bravo!

– Como seria o que?

– Se ficassem juntos, assim como um casal, entende? Essa coisa de só ficar olhando, decerto um fica imaginando o outro perfeito. Quem não tem tempo de ficar junto para saber a verdade, só imagina.  Também achava que Afrodite era perfeita por ser tão linda. Eu acho que é isso.

– Você “acha” Hermes?

Lá no Olimpo foi um grito, aqui embaixo ouviu-se um trovão.

– Calma Zeus, eu vim aqui porque não encontrei uma saída. O Senhor sabe que normalmente resolvo essas coisas, mas dessa vez fiquei sem saber o que fazer. É que a Lua já está apaixonada e como não pode ficar com o Sol, está já há quinze dias na minguante. Com isso as plantações em Gaia correm risco. Se ela não melhorar para vir a crescente e a cheia podemos ter muitos muito problemas.

– Mas você falou com ela Hermes?

– Falei e ela disse que sem o Sol não vive. Só chora.

– E o Sol, disse o que Hermes?

– O Sol também está abatido, mas sabe como são os masculinos. Ele trabalha normal, afinal uma coisa não tem a ver com outra.

– Menos mal, suspirou Zeus. Menos mal.

– Mas e a Lua? O que o senhor sugere?

 Zeus coçou a cabeça. Tinha pensado em um universo ordenado, que funcionasse em perfeita harmonia. Depois, mudou de ideia, afinal para que serviriam aquele monte de deuses? Ócio nunca é bom, seja onde for.

Depois de um tempo, abriu um sorriso. Quando viu Zeus sorrir Hermes sentiu um alívio. Já sabia que iria ouvir de novo de que ninguém servia para nada, que quando um problema estourava era só ele mesmo que resolvia.

– Sabe Hermes, não canso de gostar cada vez mais de mim. Tenho um monte de deuses, centenas de semideuses que não servem para nada. Quando alguma coisa acontece, que saia um pouco do dia a dia, ninguém dá conta.

Hermes sussurrou:

-Claro!  É por isso que o senhor é o chefe!

-Não ouvi, o que você disse Hermes?

-Nada Zeus, nada. Qual é a sua ideia?

Fazendo o charme habitual, quase teatral de quem vai mostrar toda sua sabedoria, Zeus ficou olhando para a imensidão do espaço da janela do seu escritório. Começou a falar lentamente, como que saboreando suas próprias palavras:

– Sabe Hermes, não sou quem sou por acaso. Pense comigo; seja aqui no Olimpo como em Gaia, já reparou o que tem em comum os casais que se separam?

Quando Hermes ia abrir a boca, Zeus ergueu o dedo indicador, isso quer significar que ele não quer ser interrompido.

– Eles deixam de se gostar Hermes. Mas isso até um humano sabe, você poderá pensar. Mas o que eu, Zeus, já percebi é que é o fato de estarem juntos com frequência que acaba com o amor.

Hermes estava entendendo, mas quando Zeus estava em momento criativo, era mesmo um espetáculo. Nem imaginou em interrompê-lo.

– Então Hermes querido, anote o decreto de Zeus!

Hermes imediatamente se preparou para anotar. Zeus impostou a voz e decretou:

– Anuncie que, devido a minha bondade infinita, maior que todo universo, autorizo Sol e Lua de manterem um relacionamento.

Hermes estava chocado! Não teve forças nem para balbuciar. Zeus tinha enlouquecido?

Zeus parecia que lia o pensamento de Hermes, sorrindo com o canto da boca. Continuou a falar:

– Porém, como na minha sabedoria, sei que a harmonia e o amor entre o Sol e a Lua são fundamentais para que Gaia prospere, mesmo no futuro quando se chamar Terra, eu os autorizo a se verem em ocasiões especiais, as quais chamarei de eclipse! Ocorrerão de tempos em tempos que serão devidamente marcados por Cronos, ministro celestial do tempo. Cumpra-se!

Zeus, se aproxima de Hermes e sussurra em seu ouvido:

– É assim que os manterei apaixonados para toda eternidade Hermes. Será sempre namoro, sempre namoro.