Agenda

Apenas uma saída

– De jeito nenhum Carlos Alberto!

Engoliu em seco. Ter nome composto só serve para saber quando a mãe, desde pequeno, e depois a esposa, estão bravas com ele. Pensou em algo que pudesse dizer para reverter a situação.

– Amor, você não me entende.

– Entender? Nem sua mãe entenderia, se bem que ela…

– Não fala da minha mãe! O assunto é somente entre nós. Estou me sentindo sufocado!

– Sufocado? Nenhuma mulher admitiria isso! Nem seja louco de sair por aquela porta!

O Carlos Alberto sentiu que suas chances estavam diminuindo, mas o tempo estava correndo contra ele.

– Amor…amor, não estou fazendo nada de errado. Todo homem tem seus direitos, mesmo casado.

– Direitos? Carlos Alberto, vivemos em uma cidade pequena. São onze e meia da noite de uma sexta-feira, o que as pessoas vão pensar de mim se te verem sozinho a essa hora na rua? Ainda mais onde você está pensando em ir.

– Então vem comigo amor, vamos juntos.

– Só me faltava mesmo isso Carlos Alberto! Não admito, não concordo e acho ridículo.

– Você prometeu quando casamos…

– Sai dessa Carlos Alberto! Tenho até vergonha.

– Mas vergonha do que?

– Disso, disso!

A situação tinha chegado no limite. Quando o silêncio chega, os argumentos acabaram e alguém vai ter que ceder. Ela estava irredutível. O Carlos Alberto sabia que não tinha muito mais tempo, alguém poderia chegar primeiro e de nada teria valido toda essa discussão. E o pior é que ela já estava quase chorando.

Resolveu jogar sua última cartada:

– Não me importei quando você foi no encontro da sua turma da faculdade, mesmo sabendo que seu “ex” também estaria lá.

Ela estava de costas. Quando virou o rosto, o estômago do Carlos Alberto gelou.

– O que você está querendo dizer com isso Carlos Alberto Souza?

Agora ferrou, pensou o Carlos Alberto. A inclusão do sobrenome não deixava dúvidas: sua última cartada não tinha dado resultado e ainda tinha piorado o que já estava ruim.

A voz do Carlos Alberto saiu fraquinha, quase balbuciando:

– Eu só quis mostrar que sou compreensivo, amor.

– Seu covarde! Como pode dizer uma coisa dessas! Eu já estou formada a mais de cinco anos e estou casada com você!

– Então amor, é isso que quero dizer. Eu confio em você cegamente. Qual problema de eu ir ali para…

– Chega!! Mais uma palavra Carlos Alberto e não sei o que eu posso fazer! Não vou deixar você ir naquele lugar, que essa hora deve estar cheio de gente. Que vergonha!

– Mas é um minuto…

Dessa vez ela gritou:

– NÃO!

A batalha terminou.

Abatido,  Carlos Alberto foi para o quarto. Estava sentindo-se incompreendido.

Olhou pela última vez o celular antes de desliga-lo. Agora, ainda teria que dar um jeito para não estragar todo final de semana.

Enquanto tirava a roupa para colocar o pijama, lamentou pela última vez e falou baixinho:

– Estava aqui pertinho. Tudo bem que era um bar…. Não custava nada, bem que ela podia ter compreendido. A essa hora, alguém já pegou aquele Pokemon.

Um chá com Espinosa

Fazia frio naquela tarde onde o céu era límpido e o sol não conseguia ser mais do que uma leve sensação agradável. Enquanto caminhava pelas ruas, a temperatura ia mudando, na medida em que as marquises e os prédios altos faziam sombra. Já era meio da tarde e o vento gelado parecia fazer das roupas e cachecóis uma tímida defesa.

Quando chegou na casa de chá que frequentava, surpreendentemente não encontrou fila. Era uma casa antiga, da metade do século XX, que um extremo bom gosto fez de suas salas ambientes agradáveis e muito bem decorados. De todos esses pequenos espaços, o que mais gostava tinha na parede dezenas de pequenas luminárias que, mesmo acesas, deixavam uma leve penumbra. As mesas e cadeiras misturavam estilos e até os pequenos rasgos no tecido de um sofá estilo rococó faziam parte de um charme proposital. Em outra sala, malas antigas cortadas na metade eram colocadas na parede e a sensação que tinha era que elas vomitavam o tempo. Ao fundo, jazz instrumental.

A jovem e bela atendente de olhos verdes brilhantes trouxe o cardápio em uma mão e um tablet na outra, e o lembrou de apertar um pequeno botão na mesa quando tivesse escolhido. A tecnologia combina bem com o estilo antigo do ambiente, já que esse botão acionava uma luz no relógio do garçom avisando a mesa que estava chamando.

Estava sem pressa e o próprio clima do lugar ajudava. Parecia que lá dentro o tempo nada tinha a ver com a velocidade da grande cidade, onde milhões de pessoas correm atrás da sobrevivência, em uma luta que também envolve  insegurança e  violência. Nada mais comum a todo lugar onde a riqueza e a miséria são a condição da existência uma da outra.

Na mesa ao lado, um casal de enamorados tinha seu mundo dentro daquele ambiente. Mãos dadas descansando sobre a mesa e olhos nos olhos. Um dia, esse mundo será aumentado quando descobrirem que essa perfeição foi uma imaginação, uma expectativa. Como é bom pensarmos que tem coisas que, conosco, nunca acontecerão. Tudo que outros seres humanos passaram foi só com eles e a desilusão sempre será o resultado de uma expectativa exagerada, de nos tornarmos um pouco como todo mundo.

Diferente das outras vezes, trouxe consigo o livro que estava lendo. Não foi proposital, como um ato consciente, apenas ao sair de casa levou-o junto, sem motivo. Devia ser por estar pensativo sobre o que estava lendo. Sempre gostou de filosofia, mas de uns tempos para cá, que resolveu ir mais a fundo, talvez por buscar uma nova maneira de entender a vida. Na verdade, o fato dos humanos terem consciência de um dia morrer, os obriga a que suas vidas tenham um sentido, algo que os faça ter certeza que sua passagem não foi em vão. Certa vez, o grande Saramago disse em um de seus romances que as lápides são essa última tentativa de não sermos esquecidos, quando a vida foi comum e o desejo de criança de sermos algum tipo de herói não se realizou.

Suspirou para trazer a atenção de volta ao cardápio. Escolheu um chá de frutas e especiarias. Para acompanhar, um brioche levemente doce. Depois de fazer seu pedido olhou para o livro. A capa azul era um resumo da Ética de Espinosa, comentada por seus discípulos contemporâneos.

O livro o impressionara desde o início, com a primeira de suas proposições:

“Uma única substância para todos os atributos”.

Se fosse verdade, e parecia ser se pensarmos bem, tudo que aprendera desde a infância ruíra. Recebemos uma maneira de pensar e ver o mundo e nem sequer a questionamos. Espinosa mostra com clareza o erro de Platão ao nos oferecer sua dualidade primeira; o mundo dos sentidos e o mundo das ideias ou dentro e fora da sua famosa caverna. Foi justamente por aí que as religiões criaram seus paraísos, uma ótima forma de aceitarmos pouco dessa vida e dela desviarmos atenção. Claro que Platão pensava em um Universo finito e perfeito, coisa que Espinosa, quando filosofou, já sabia não ser verdade, lá por 1650. O caos que já naquela época percebíamos no espaço era uma das faces de uma inteligência criadora que Espinosa percebeu muito além de uma ideia de como controlar as pessoas pelo medo e pela culpa.

De qualquer forma, o Deus que ele mostra seria mais factível e menos improvável do que aprendemos a imaginar. Tudo nessa imanência que vivemos é uma emanação da transcendência eterna. Morremos para que Deus possa continuar Sendo, e apenas mudamos de forma. Nossa finitude é o atestado da eternidade de Deus, na ausência de tempo. Tempo que nossa mente cria para separar o nascimento da morte.

Incrível como um homem que viveu menos de cinquenta anos, teve tamanha percepção da vida, quase sem nenhuma tecnologia.

Quando o chá foi servido, sua atenção se voltou para o bule de porcelana pintado à mão. Impossível não lembrar da casa da sua avó. A xícara seguia o conjunto e a colher pesada só podia ser de prata. Para adoçar, um pequeno pote de mel. Deixou que o aroma do chá invadisse suas narinas. Uma delícia!

“Aumento de potência”, diria Espinosa, quando algo no mundo nos dá alegria. Claro que a tristeza, seu oposto, um dia no levará a morte, mas a vida longa, como um combustível é movida por trocas que nos tragam essa alegria. A cada encontro com o mundo, com pessoas e situações afetamos e somos afetados. Sabemos que o mundo é grande demais para nós e um dia não suportaremos, mas esses encontros alegres, a mudança que se dá em cada relação com a vida é o que conta em uma contabilidade em que o bem-estar precisa estar em vantagem.

Enquanto degustava o primeiro gole, sua mente martelava: “Um só mundo, tudo uma só coisa”. Espinosa trouxe o prazer de descobrir. Para ele, a essência da mente é o conhecimento (como Aristóteles, de certa forma, também dizia). Quanto mais se conhece, mais se realiza a grande virtude, ou, como ele mesmo diz: “quando a mente contempla a si própria e sua potência de agir, alegra-se”.

Deus tem misteriosos fins, dizia o Filósofo. Queremos compreende-Lo, e isso não é possível. Vontade divina é apenas o nome que a imaginação encontra para buscar entender o que não podemos, e o medo que temos diante do incompreensível. Tudo que existe possui causa determinada e necessária para existir tal como é, e os encontros com a vida é que serão por fim, nossa liberdade de alegria ou tristeza. Tudo é esse Deus; tudo que existe. Isso inclui sua dupla expressão: o bem e mal, que nada mais são do que maneiras de entendermos e darmos um rosto para o que acontece.

Pensou o quanto isso mudaria sua maneira de viver.

Encheu novamente a xícara. Percebeu que até hoje correu atrás de desejos e o que queria, na verdade, era só entender-se. Nos relacionamentos, mais do que desejar o outro, na verdade, queria ser o desejo do outro. Ah, os desejos…

Aristóteles dizia que parar de desejar era adoecer, já para os estoicos, desejar é estar doente. Vai entender…

Espinosa caminha por outra percepção. Desejo é força criadora, energia de vir a ser outro, novo e evoluído, enfim. Não percebemos isso e transferimos para os objetos, pessoas e ideias essa responsabilidade, da mesma forma que fizemos ao médico quando não conseguimos dormir. Mais do que buscar o motivo da angústia que leva à insônia, pedimos um remédio que nos devolva o sono e mantenha a tristeza que nos afeta intacta. Espinosa sacudiria a cabeça, com desânimo.

Comeu seu brioche com o último gole de chá. Espinosa evoluiu no pensamento rebelde e complexo de Nietzsche e, a partir do final dos anos sessenta com Deleuze e sua Esquizoanálise.

Agora pode entender o motivo de Espinosa e seus seguidores estarem à margem da cultura, afinal eles nos mostram uma maneira de ver a vida que nunca imaginamos. Quase um clamor para que vivamos intensamente o que temos, sem futuro, já que o futuro nos fará diferente do que somos e seremos outro, portanto.

Enquanto pagava sua conta, pensou o que Espinosa poderia dizer-lhe depois desse encontro. Talvez ele apenas diria:

-Alegre-se pelo que tens. Que bom que podes vir nesse belo lugar e poder tomar esse chá quente em um dia frio. Mais do que pensar no que te falta, veja o que a vida te proporciona e valorize! Seus desejos serão amenizados. Sempre haverá uma insatisfação, mas o que esperar de quem tem apenas um tempo para viver? Esse espaço em aberto que chamamos desejo, é por onde nasce a criatividade, que nos empurra avante, para sermos o que ainda não somos.

Quando voltou para a rua a noite já chegara. No inverno os dias são menores e uma golfada de vento gelado crispou seu rosto. Mas por dentro estava quente, não só pelo chá, mas por ter percebido que há um mistério chamado vida para ser vivido e descoberto, até que mudemos de forma, como afirma Espinosa.

Lembrou de ligar o celular e a internet lhe avisou de mais um atentado com mortes na Europa. Resolveu não deixar a tristeza diminuir sua potência de viver. São os que matam em nome de um deus que querem empurrar goela abaixo, ou simplesmente serem heróis de alguma coisa e dar sentido a vidas medíocres.

O que virá depois?

Não importa, pois enquanto pensar nisso, a vida “agora” não é vivida. Pensou que Nietzsche lhe daria um tapa na cara se estivesse diante dele.

Seria mais que merecido!

Cinderela

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes os aflitos, porque serão consolados.

 Felizes os mansos, porque possuirão a terra.

 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

 Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.

 Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.

 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de Mim.

 Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.

                                                                                     Matheus 5, 3-12 Bíblia Pastoral

“ O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência”.

                                                                                 Friedrich Nietzsche

“Os poderes estabelecidos tem necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos”

                                                                                            Gilles Deleuze

cinderela

Essa é a história, resumidamente:

Era uma vez uma família feliz! Papai, mamãe e a filha viviam felizes em um lugar maravilhoso, onde, parece, apenas dias de sol aconteciam, nunca chovia ou fazia frio. A menina era adorada pelos serviçais e até, diziam, conversava com os animais. Obviamente, todos eram lindos, com olhos azuis e tudo mais.

Um dia a mãe de Cinderela adoece e, antes de morrer pede para filha que, aconteça o que acontecer, que ela nunca deve deixar de ser gentil. Claro que ela morre e o pai que era uma espécie de caixeiro viajante, em uma de suas andanças comerciais, conheceu uma viúva que tinha duas filhas. Como alguém deveria ser feio (fora os serviçais) as duas filhas eram feias e egoístas. A mãe até que tinha lá seus encantos, afinal até o mal precisa de alguma beleza, vez por outra.

O Pai então decide casar-se com a dita viúva e a leva, com as filhas, para morar junto dele e da filha, que agora está crescida e deslumbrantemente linda. Mas, como a nova esposa e suas filhas aumentam o custo, o pai sai em viagens mais frequentes e, em uma delas, contrai uma doença e morre. Ao saber da morte do seu segundo esposo, a agora madrasta de Cinderela põe as manguinhas de fora e assume de vez o comando. Coloca a menina sempre sorridente e gentil para dormir no sótão, um lugar sujo, escuro e com ratos (isso não é problema, afinal ela conversa com eles, não esqueça!), passando para suas filhas invejosas e cruéis o quarto que era de Cinderela.

O tempo passa e, como o dinheiro parou de entrar com a morte do pai, a terrível madrasta dispensa os empregados e adivinhem quem assumiu todas as tarefas da casa, trabalhando de manhã a noite, sem descanso?

Isso mesmo, a sorridente e gentil Cinderela!

Mesmo as agruras do trabalho doméstico não a desanimam e ela continua sempre gentil (ela prometeu) e cada vez mais bonita, mesmo dormindo pouco, alimentando-se com sobras e estar sempre com a roupa suja e, levemente escabelada.

Um dia, cansada de tanta humilhação, mas deixando o almoço na mesa, ela pega um cavalo e sai pelo bosque, agora sim chorando, mas sorrindo ao mesmo tempo. Nesse exato instante o “destino” faz com que ela se encontre com um príncipe que, obviamente, fica encantado com tamanha beleza e pureza. Mas ela volta aos afazeres e nosso príncipe não consegue parar de pensar nela e, para encontrá-la, promove uma festa/baile, onde, por estar com o pai adoentado e a beira da morte, encontrará, dentre as presentes sua futura esposa e rainha.

Já naquela época não era fácil um casamento com um “partidão” rico, bondoso, bonito e justo acima de tudo. Todas as mulheres do reino começam os preparativos e ajustes para o grande dia, assim como a madrasta que manda fazer belos vestidos para suas filhas.

Cinderela (dependendo da versão não sabe que o rapaz é príncipe), sonha em ir ao baile. Costura um vestido antigo de sua falecida mãe e quando desce as escadas, deixa as suas “irmãs” no chinelo de tão deslumbrante que estava. A Madrasta não admitirá essa concorrência e rasga o vestido de Cinderela e a deixa em casa, proibindo-a de ir ao baile.

Tanto sofrimento e injustiça…..

Cinderela confidencia sua dor aos animais do jardim (um ganso, duas lagartixas, dentre outros), se perguntando o motivo de passar por isso. Daqui a pouco, surge uma fada que transforma uma abóbora em carruagem, o ganso em cocheiro e as lagartixas em lacaios, além, é claro, de dar para Cinderela um vestido maravilhoso e sapatos de cristal. Como as mulheres não mudaram, o que mais encanta Cinderela são os sapatos. Avisa que ela deve sair do baile à meia noite quando o feitiço se desfará.

Claro que você já sabe o resto: Ela chega no baile, é disparado a mais bonita, o príncipe fica extasiado rejeitando uma princesa de um reino vizinho que era a melhor indicação política para ele e dança só com ela a noite toda. Esqueci: Cinderela dança maravilhosamente bem, mesmo sendo esse seu primeiro baile na vida.

Daí, o sino começa as doze badalas, ela sai correndo e perde um sapato (dizem que foi de propósito para ter motivas para voltar). A Madrasta desconfia dela e a prende no sótão, onde para espantar a dor ela canta, com sua também bela voz.

Daí o príncipe sai de sapatinho na mão de casa em casa e a de Cinderela é a última do reino. Todas experimentaram e o sapato não coube em nenhuma. Nesse ponto a história tem um problema, pois tudo se desfez a meia noite, até o vestido, mas os sapatos não…

Deixando de lado esse pequeno detalhe, quando ia desistir, os animais do sótão se juntam para abrir a janela, coisa que Cinderela não pensou em fazer para pedir socorro, ela só cantava….

O príncipe ouviu aquela voz meiga, suave e encantadora, colocou o sapato no pé, viu que serviu e finalmente achou sua esposa. Antes de deixar a casa e ir para o palácio, Cinderela olha com doçura para sua madrasta e a perdoa, de coração.

Claro que viveram felizes para sempre, tiveram muitos filhos e nunca brigaram.

O Livro ou filme termina, você seca as lágrimas e diz: No fim, o bem sempre vence!

 

Claro que não é assim na vida real.

A verdadeira mensagem dessa história não é a vitória do bem sobre o mal. A mensagem é outra:

Aceite a exploração com um sorriso, trate bem quem te subjuga e aceite o sofrimento com gentileza. Um dia, tudo será recompensado!

Não sei…

 Histórias como essa existem para transmitir para nosso inconsciente essa ideia de que o que é bom fica para o final, ou quem sabe, depois do final em uma outra vida ou paraíso. Essa mensagem é obra que quem explora, afinal a riqueza acumulada vive sempre de muitos e muitos pobres.

Vamos passando essa mensagem subliminar de geração em geração e o sofrimento que nos é imposto, em uma vida sem graça e sem atrativos para a esmagadora maioria é aceita com alegria, afinal, o céu será a recompensa de tanto sofrimento e abstinências.

Estarão lá todos os sofredores e explorados, além dos camelos que vão ocupar o lugar dos ricos, passando pelo buraco da agulha, lembram?

Nossa cultura, faz do divertimento algo supérfluo.  A “boa” conduta é abrir mão de tudo que a vida tem de melhor em nome dessa purificação ou passaporte para o sonho de Marx, que só existe no “outro mundo”: uma sociedade onde somos todos iguais, desfrutamos os bens do paraíso em igualdade, não precisamos nos preocupar com comida, dinheiro ou moradia, não faz frio nem calor (temperaturas altas só no inferno), trabalho para todos(se houver) e não teremos mais dor ou velhice, já que espíritos não tem corpo. É ou não é a utopia comunista?

O grande problema é que essa outra vida ou paraíso “all inclusive” não tem garantia de que realmente exista e que será desse jeito. Terminamos abrindo mão de um outro conselho da cultura popular que diz: “Não troque o certo pelo duvidoso”.

Todo sistema de moral vigente, com suas proibições e definições de certo, errado e pecado tem uma só finalidade: tornar iguais pessoas diferentes. Essa diferença ou individualidade comprovada pela biologia não pode ser expressa em termos de vida na medida em que pessoas essencialmente diferentes precisam apresentar comportamentos iguais. Isso, é claro, facilita o controle, com o estabelecimento das diversas penalizações para quem sai ou desobedece em busca de viver essa singularidade: A lei, a punição divina ou a fofoca como meio de controle social.

O único mecanismo de escape socialmente aceito é a expressão artística ou comportamental. Mas como o sistema é sábio, mesmo os “transgressores” são engolidos. Isso acontece quando esse padrão comportamental rebelde vira moda e para isso se criam roupas, músicas e acessórios que, ao serem comercializados, trazem ganhos financeiros para seus idealizadores. Assim, tudo vira moda, que, por ser moda, seja usada por todos como outra maneira de tirar proveito até da crítica.

O termo felicidade é muito subjetivo, como tudo que se refere a pessoas diferentes. Assim, ao existir um padrão do que seja “ser feliz”, anulamos a possibilidade de cada um encontrar a sua, para buscar o que é reconhecido por todos. O modelo de perfeição que a religião institucionalizou nada mais é do que oferecer um padrão único do que será aceito no futuro mundo ou reino. Está aí, anulada, toda a possibilidade da diferença ser aceita como forma de expressão. Sobra só a busca pela saída do exagero, por símbolos de poder (diferenciação) ou pela química que relaxa o espírito e o corpo da pressão de sua anulação.

Essa espécie de ascetismo pregado como sendo a conduta do santo, só pode existir se nos sentimos culpados pelo jeito que somos e a privação da vida vivida plenamente vira a purificação devida. Somos um corpo com todas as suas possibilidades e negá-lo também é negar a própria vida. Em nome de quê?

Essa vida aqui é certa, comprovável e tem muitas coisas para nos alegrar. É feita de encontros, desencontros e a eterna novidade de sermos seres mutantes, outra particularidade que define tudo que é vivo. Aqui também se celebra, compartilha e dá para se divertir muito, até com bem pouco dessa coisa que nos ensinaram suja (nunca esqueça: lave suas mãos se mexeu com ele) que nos impede de acessar o paraíso: dinheiro!

Cinderela não é parâmetro, já que sua beleza não é comum e não temos muito príncipes solteiros muito menos muitas fadas disponíveis. A nossa heroína com sangue de barata, meio “boca mole” tirou em uma mega sena sem comprar bilhete. Se deixou oprimir, explorar e humilhar e foi salva pela única coisa realmente dela: sua beleza. Mesmo a própria história, não conseguiu anular algo de individual.

O que existe, infelizmente, são muitas e muitas vidas (maioria) que começam e terminam mal. Olhe em volta e veja o que o sofrimento, a penúria e a miséria trazem? Só mais do mesmo. Mas essa passividade só existe pela recompensa, pelo sofrimento trazer algo de bom. Será no paraíso que os anulados e oprimidos se vingarão, lá eles serão reconhecidos e os ricos e exploradores sofrerão para sempre. Será?

Não faça desse tipo de história algo que te console, mas que, de preferência, leve a uma saudável e inteligente revolta, à desobediência dessa vida de contrição, tristeza e sofrimento. Pode comer mais uma fatia de bolo, sentir raiva é humano, pensar em sexo é normal nesse corpo que habitamos, etc. Qual o problema?

Todas essas histórias e livros sagrados foram escritos por gente como eu e você, movidos por desejos de poder e expectativas. Olhe em volta e veja como todos têm problemas, sejam ricos ou pobres. Viver é assim, uma eterna novidade e surpresa.

A vida é como na sua rua, cidade e país. Maldades e coisas legais acontecem a todo momento e é isso que temos. Se teremos outra vida, algum paraíso ou inferno só saberemos(?) depois. O que é real é seu dia de hoje, família, trabalho, amigos, amores e, é claro, problemas.

Não se deixe mais enganar com promessas de reinos futuros e cuide em como vai contar essa história para alguma criança. Diga simplesmente para ela no final:

-Deu sorte essa Cinderela, mas se acontecer com você de ser explorado, não aceite, não permita que anulem sua individualidade! Não conte com nenhuma ajuda acima de suas forças.

As fadas pararam de fazer milagres faz tempo. Uma vida boa é responsabilidade só sua, de mais ninguém!

 

A Receita de Epicuro (2a parte)

“Tu, que não és senhor do teu amanhã, não adies o momento de gozar o prazer possível! Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer”.

                                                                                                                 Epicuro

Epicuro

Epicuro é um daqueles filósofos que precisa de justiça. Não é difícil perceber que uma leitura apressada de suas ideias pudesse, inevitavelmente, trazer-lhe a fama de hedonista no pior sentido. Porém, seus ensinamentos aparentemente simples trazem uma grande subjetividade impressa na sua “farmácia” para alma nos seus quatro princípios do tetrapharmakon, que discutiremos a seguir.

Epicuro percebeu que nossos sofrimentos são, na maioria das vezes, uma expectativa ou pré-ocupação da mente que sempre nos mostra os piores quadros no horizonte. Parecido com Sêneca, sua ética buscava ensinar a evitar ou suportar a dor, o medo e o sofrimento que estão sempre à espreita. Dedicou seu pensamento procurando entender justamente desse temor que nos caracteriza, baseado em esperarmos sempre o pior, além, obviamente, do medo provocado pelo mistério da morte.

Ao definir felicidade (eudaimonia) como a ausência de sofrimento físico e perturbações da alma, Epicuro está longe de relacionar seu conceito de felicidade com alguma coisa que se aproxime do que conhecemos por êxtase ou euforia. Sua recomendação de que o autoconhecimento, no que se refere ao entendimento sobre nossa natureza, como funcionam os desejos e o que são realmente os prazeres, mostra que a filosofia enquanto reflexão sobre o ser humano nos explica porque acumulou durante séculos o trabalho que hoje está nos domínios da psicologia.

E, talvez pela psicologia ter virado uma ciência (formando padrões, querendo que só um jeito seja certo ou saudável), tenha criado a oportunidade da filosofia voltar a fazer parte das opções sobre a escolha de caminhos para mudanças ou entendimento sobre os sofrimentos, com sua nova roupagem de clínica.

Dessa forma, seja pelo exposto acima, seja pelo entendimento e vivência na vida prática dos seus quatro remédios, o homem veria seus problemas tornarem-se de fato o que eram, ou seja, nada além de pseudoproblemas, diante da ótica que Epicuro oferece.

Sua tetrapharmakon, ou seus quatro remédios são:

  • Não há nada a temer quanto aos deuses (ou, os deuses não devem ser temidos).

Aqui, passamos a entender o motivo de Epicursismo ter perdido força na idade média, com o fortalecimento do cristianismo, que prega o contrário. Passamos a ter um deus a quem devemos prestar contas e que pode nos punir durante se não seguimos seus mandamentos que enviou pelo seu representante na ocasião.

Você já pensou o que mudaria na sua vida, se soubesse que não tem um deus te vigiando?

A vida é aqui, vivida por humanos! Essa ideia de que exista algum deus, que nos cuida, pune e diz (?) o que devemos fazer para sermos bons e merecermos o paraíso, mais do que uma maneira de controle e dominação, mantém o homem em um estado de infantilidade, onde o pai humano, quando descoberto em sua limitação e fraqueza, precisa ser substituído por outro, onipotente e perfeito. Por trás, está a informação de não somos capazes de nada por nós, o bom que nos ocorre é sempre uma “graça”, que nos foi concedida pela benevolência divina. Se, quando estamos bem dizemos que isso é “graças a Deus”, imagino que quando estamos mal também tenha a mesma razão. Ou é ou não é!

Epicuro aqui, nos chama a responsabilidade de forma suave, para quem percebesse as entrelinhas, não foi tão direto quanto Nietzsche que, para não se deter em delongas, já matou deus de uma vez.  Epicuro admitia a existência dos deuses, mas dizia que eles viviam em um mundo distante, separado do mundo dos homens e que não deveríamos teme-los, já que isso dificultaria ou impediria a felicidade. Parecia prever os mandamentos que viriam logo depois.  Condutas que as várias religiões criaram que, se forem seguidas, tornar a vida sofrida, cheia de culpa, pela purificação como uma pré-condição de acesso a um paraíso futuro, quase como descrito por Marx; todos juntos, iguais, sem poder ser diferente em nada, sem meritocracia, eterno, etc. A vida pregada pelas religiões é de abstenção, contrição e penalizações constantes. Dizer que os deuses moram longe e que não se importam muito conosco, assim como nós que nos importamos pouco pelo mundo das formigas, foi politicamente correto e muito bem-humorado.

  • Não há necessidade de temer a morte (ou, a morte não deve causar apreensão).

A máxima atribuída a Epicuro “ Não devemos temer a morte, pois quando estou ela não está, e quando ela estiver eu não estarei mais”, mostra o motivo de sua filosofia estar atrelada aos sentidos. Afinal, ter medo da morte nada mais é do que outra falsa fonte de preocupações. Se tudo que existe é corpóreo e todas as dores são corpóreas, não temos que nos preocupar com a morte, que nos coloca em uma situação em que nosso corpo não reage, se deteriora, não nos possibilitando sentir prazer ou dor.

Racionalmente Epicuro está correto, mas falta-lhe aqui o que todas as pessoas buscam em uma religião: que tenha uma boa resposta para o mistério da morte, ou seja, o que vem depois e sua justificativa. Óbvio que o filósofo não tinha o interesse de criar uma religião, mas diante da insegurança, mesmo as pessoas mais inteligentes tendem a procurar uma “mão forte” ou algum consolo que lhe ofereça uma lógica mínima; que ofereça um “depois” para essa vida finita. O segundo remédio para ser aceito precisa dessa entrega diante do “não saber”. Precisaremos morrer para sabermos, mas os estados da mente sempre pedem segurança e alguma resposta. Introjetar o conceito, por outro lado, trará como consequência um aumento da responsabilidade de aceitar essa vida como única e buscar a eudaimonia para fazê-la valer à pena.

Epicuro percebeu claramente que precisamos viver bem aqui, o resto são especulações e, como diz o ditado popular: “Não se troca o certo pelo duvidoso”.

  • A felicidade é possível (ou, o bem é facilmente obtido)

Para Epicuro, a eudaimonia engloba em conceito maior do que simplesmente felicidade, já que inclui o desenvolvimento pessoal e a possibilidade de crescimento e progresso da alma e das virtudes. O conceito epicurista é também ético, já que para os antigos gregos isso incluía o respeito ao cultivo e uso das virtudes para caminhar rumo ao bem comum. Mas a grande percepção que teve foi a ligação do conceito de felicidade aos desejos.

Ora, desejar tem em si duas importantes questões a serem analisadas: o primeiro ponto é que só podemos desejar aquilo que não temos, e o segundo é o projetivo, afinal se desejo algo é por imaginar que esse algo me fará feliz, ou me trará alegria, ou diminuirá minha eventual dor ou insatisfação.

A partir do momento que passo a ter o objeto de desejo, imediatamente paro de deseja-lo e isso me fará em pouco tempo, buscar um novo desejo e assim indefinidamente. A classificação que Epicuro fez dos desejos traz um importante ensinamento, já que o que considera “natural e necessário” nada mais é do que o mínimo para a sobrevivência, como nutrição, sono proteção e abrigo.

Já os desejos ditos “naturais” são coisas simples, pequenas variações dos prazeres, busca do agradável, como simplesmente comer um pouco a mais. Fica claro que para Epicuro, ser feliz é estar em paz, sem as perturbações do espírito (ataraxia) e a ausência de dor corporal (aponia).

Quando classifica riqueza, glória, status e reconhecimento como desejos “frívolos e artificiais”, antecipa quase como um vidente nossa sociedade contemporânea, onde a mídia ensina que para ser atingida a felicidade torna-se necessário que os desejos frívolos e artificiais sejam obtidos, o que impulsiona o ciclo dos desejos para o infinito.

Oferece uma constatação que, apesar de óbvia, motiva a busca espiritual das pessoas que se filiam religiões institucionais. A imortalidade é considerada um desejo “frívolo e irrealizável”, justamente por não ser possível. Particularmente, gosto da visão estoica, onde a imortalidade é a nova estruturação dos nossos átomos depois da morte. Poderemos “reencarnar” em uma planta ou relva que nascerá do adubamento da terra pelos nossos restos mortais. A verdadeira e possível eternidade é o que deixamos no mundo, nas nossas relações. O homem não aceita morrer e desaparecer. Essa angústia parece não ter fim e  o que existe depois da morte nunca nos será permitido saber. Cada um escolhe a teoria que mais o conforta.

  • Podemos escapar da dor (ou, o terrível facilmente chegará ao fim).

          No seu quarto remédio, Epicuro nos fala de um conceito, em meu entender, importantíssimo, que é a impermanência. É fundamental entender que existe uma alternância entre bem e mal, e que um só é possível pela existência do outro. Quando essa alternância não ocorre, aquele que persiste se torna padrão. Em outras palavras: bons e maus momentos são normais e se alternam. Quando se está sempre mal, o problema é da pessoa, não da vida em si, e isso também vale para o bem estar prolongado.

             Assim, Epicuro mostra que tudo se alterna em ciclos naturais e que dentro do bem está potencialmente a existência do mal e vice-versa, como também disse Lao Tsé. Um só é possível pelo outro e os dois explicam a vida. Aqui, temos o encontro com Heráclito (sobre quem falei mais no livro “61824 palavras sobre o final feliz que ninguém achou”), a quem Aristóteles chamava de “estranho”. Se, para o pai da lógica “A” é uma coisa e “B” é outra, Heráclito dizia que “A” e “B” são manifestações de uma coisa única. Epicuro teve essa mesma compreensão e sua recomendação é nunca esquecer que bem e mal são como ondas que vem e vão. A compreensão profunda desse conceito é ataraxia, ou seja, elimina as perturbações da alma.

Assim, a filosofia de Epicuro é de grande importância, já que seus remédios são claros, racionais e, se bem compreendidos, trarão uma visão clara do que nos perturba e, por perturbar, precisam de um novo olhar que ele oferece para a diminuição e compreensão do sofrimento.

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Para saber mais:

GHIRALDELLI JUNIOR, P. Helenismo e o início da filosofia cristã. In:____. A aventura da filosofia de Parmênides a Nietzsche. Barueri: Manole, 2010.

 

OSHO. A Harmonia oculta. Discursos sobre os fragmentos de Heráclito. Cultrix, 2004.

 

POLESI, R. Era Helênica: epicurismo e estoicismo. In:_______. Ética antiga e medieval. Curitiba: Intersaberes 2014.

 

 

O Olhar

Hoje decidiu olhar atentamente para a estátua. Já tinha pensado nisso muitas vezes, mas a vantagem de querer encontrar uma estátua é saber que ela sempre estará lá. Mas, como tudo tem ressalvas, as que ficam são só as dos heróis. Os políticos, mesmo de pedra, são retirados quando descobrimos seus reais motivos. Quando Lênin caiu na praça vermelha, na Perestroika Russa, mostrou que nenhum político está seguro, mesmo depois de morto.

O movimento naquela hora era pequeno, todos estavam almoçando. Temia que seu encontro com a estátua fosse mal interpretado, mesmo que não fosse falar nada em voz alta. Seria demais esperar que não o achassem louco, conversando com uma figura de pedra.

Passou a mão no rosto dele, como se querendo fazer contato com a história, ou trazendo a figura inerte à vida, como fez Michelangelo com seu Moisés. Mas esse não era tão real, não parecia conter vida. Ficou pensando em como uma reprodução podia ser assim; sem significado. Afinal, esse era o rosto de um personagem famoso.

Ao observar melhor, viu que os olhos eram inexpressivos, não havia pupila neles, só um espaço em “branco” sob as sobrancelhas. Era por isso que não parecia uma pessoa!

Nos pés, o nome, as datas e seu mérito: herói de guerra.

As praças estão cheias deles e mostram nossa incapacidade enquanto civilização. O crescimento, os ideais e a história ainda se constroem sobre cadáveres. Parece que foi casado, era o que dizia a biografia na Wikipédia. Imaginando como era a vida dele, se perguntou: Será que chegava em casa, depois das batalhas vitoriosas, colocava os filhos no colo, dizia da saudade da esposa e se permitia descansar em cima da sua glória, feita de pais e filhos que nunca mais voltariam?

Barba espessa e longa, cenho franzido; cara de mau.

Não dava mesmo para decifrá-lo, saber o que pensava.

Que criança teria sido, o que era a vida para ele?

Vez por outra, passava um transeunte e olhava a cena com curiosidade. Alguns poderiam até estar pensando: o que tanto olha, será um parente distante, com mesmo sobrenome?

Já não se importava mais. Estava absorto em entender aquele homem.

Precisava dos olhos para decifrá-lo e eles não estavam lá.

Seja uma estátua, uma foto ou mesmo uma pessoa, ninguém consegue enganar com seu olhar. Podemos até ter algum controle da informação que queremos transmitir, como queremos que nos vejam, mas se alguém olhar nos nossos olhos seremos descobertos. Uns dizem que são as “janelas da alma” e se forem estão sempre abertas, mostrando todo o interior.

Deve ser por isso que, durante alguma discussão, ficamos irritados quando não nos olham nos olhos. Nosso interlocutor quer nos esconder a verdade, parece que não importam as palavras, queremos as janelas. Não queremos que nos contem o que há lá dentro, queremos ver!

Óculos de sol é a roupa dos olhos, esconde nosso pudor emocional, como faz o tecido com o corpo.

Esse homem de pedra não tem vida por não ter olhos. Esse vazio torna-o um cadáver.

Deve ser por isso que as estátuas não têm pupilas. Feitas por encomenda, o artista não conhecia a alma do homenageado, como poderia por vida nele, desnudá-lo em suas verdades interiores?

Resolveu ir embora. Sua visita não tinha sido bem sucedida. Continuaria curioso sobre aquele personagem. Até uma foto 3×4 nos fala mais que uma grande estátua ou busto, que é a valorização da cabeça, da razão sem emoção. Os olhos estão lá, sempre vazios.

Alguns poetas, eternizados em algumas cidades, como Mario Quintana em Porto Alegre ou Drummond no Rio de Janeiro estão lá de corpo inteiro, e sorrindo. Não me lembro de algum herói de guerra que sorri, não poderia mesmo, sua glória é a destruição e não há muita graça nisso.

Na época daquele homem, não havia fotografia, só o que sobrou daquela vida foi um nome e um par de olhos vazios em uma pedra.