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A sabedoria de Zeus

Era uma vez, centenas e centenas de milhares de anos atrás…

– Preciso falar com o Senhor.

Zeus já era Deus antes dos outros deuses que conhecemos. Já nessa época, onde parece que só existia a Grécia, ele já era antigo. Sendo antigo, sabia que a paciência era o que separava os humanos dos semideuses e esses dos deuses, onde ele reinava absoluto.

Uma das duas outras qualidades como administrador do Olimpo, era justamente colocar as pessoas certas no lugar certo, exemplo que se segue por eras desde então. Alguns aprenderam essa lição, como Tite e outros não, como nossos últimos presidentes. A outra é saber lidar com as vaidades, condição para gerir tanta gente importante, seja por ser ou se achar.

 Hermes é seu ajudante de ordens, uma espécie de “faz tudo”. Adotado posteriormente como padroeiro dos embusteiros, seria hoje facilmente chamado de lobista. Hermes era bom de conchavos e fazia alguns acertos políticos quando as coisas pareciam perder-se por falta de bom senso. Zeus sabia que, quando Hermes estava com essa cara, o problema seja qual for, não tinha sido resolvido nas instâncias inferiores.

– Entra Hermes, pelo visto aconteceu alguma coisa…

– Na verdade sim Zeus. Temos um problema inesperado e um tanto estranho.

– Querido Hermes, os problemas normalmente são inesperados e estranhos. Mas me diga, o que ainda falta acontecer por aqui?

-Na verdade não é aqui, no Olimpo.

– É em Gaia então? Quando pedi para Prometeu criar os seres humanos, ele devia estar com a cabeça em outro lugar. O que foi que eles fizeram dessa vez?

– Também não é em Gaia.

Zeus olhou fixo para Hermes como não fazia a muito tempo. A última vez tinha sido quando Persófane fora raptada por Hades e Demeter secou todas as plantações de planeta.

 Mostrando agora impaciência, Zeus ficou com olhar parado, esperando que Hermes contasse.

– Na verdade Zeus, o problema é no céu.

– No céu? Como assim? No céu só tem as estrelas, o Sol e a Lua. Explica logo!

Hermes precisava escolher as palavras, afinal deixar Zeus irritado nunca é bom, ainda mais quando ele pensa que o erro é por falta de atenção.

-Bom Zeus, com as estrelas está tudo bem. São milhões delas e tudo vai indo sem problemas.

Zeus agora ficou com o cenho mais franzido como se não estivesse entendendo.

Hermes pigarreou com medo de gaguejar, o que seria fatal.

– Na verdade, temos um problema com a Lua e o Sol.

-Como assim Hermes? Como pode ter problema?  Um fica de dia e outro à noite, fiz isso com perfeição, aliás como tudo que faço!

– Claro Zeus, o senhor fez tudo perfeito!

– Então Hermes, conta logo!

– Na verdade eles pediram permissão para namorar, senhor.

– Como assim namorar? Eles têm uma função a cumprir, pelo menos por alguns milhões de anos! Dei  ao Sol a luz e o calor e a Lua o poder sobre a agricultura, as marés e tantas outras coisas. Não tem nem como terem um relacionamento, isso seria um desastre e tiraria tudo da ordem.  Me explica Hermes!

– Pois é Zeus, eles estão se olhando há milhares de anos, criou um clima. Me entende?

– Clima? Como assim?

– Eles ficam se olhando, a Lua vê o Sol todos os dias e quando é ela  que vai trabalhar, ele fica olhando também e, sei lá, eles devem ficar imaginando como seria.

Zeus agora, estava realmente bravo!

– Como seria o que?

– Se ficassem juntos, assim como um casal, entende? Essa coisa de só ficar olhando, decerto um fica imaginando o outro perfeito. Quem não tem tempo de ficar junto para saber a verdade, só imagina.  Também achava que Afrodite era perfeita por ser tão linda. Eu acho que é isso.

– Você “acha” Hermes?

Lá no Olimpo foi um grito, aqui embaixo ouviu-se um trovão.

– Calma Zeus, eu vim aqui porque não encontrei uma saída. O Senhor sabe que normalmente resolvo essas coisas, mas dessa vez fiquei sem saber o que fazer. É que a Lua já está apaixonada e como não pode ficar com o Sol, está já há quinze dias na minguante. Com isso as plantações em Gaia correm risco. Se ela não melhorar para vir a crescente e a cheia podemos ter muitos muito problemas.

– Mas você falou com ela Hermes?

– Falei e ela disse que sem o Sol não vive. Só chora.

– E o Sol, disse o que Hermes?

– O Sol também está abatido, mas sabe como são os masculinos. Ele trabalha normal, afinal uma coisa não tem a ver com outra.

– Menos mal, suspirou Zeus. Menos mal.

– Mas e a Lua? O que o senhor sugere?

 Zeus coçou a cabeça. Tinha pensado em um universo ordenado, que funcionasse em perfeita harmonia. Depois, mudou de ideia, afinal para que serviriam aquele monte de deuses? Ócio nunca é bom, seja onde for.

Depois de um tempo, abriu um sorriso. Quando viu Zeus sorrir Hermes sentiu um alívio. Já sabia que iria ouvir de novo de que ninguém servia para nada, que quando um problema estourava era só ele mesmo que resolvia.

– Sabe Hermes, não canso de gostar cada vez mais de mim. Tenho um monte de deuses, centenas de semideuses que não servem para nada. Quando alguma coisa acontece, que saia um pouco do dia a dia, ninguém dá conta.

Hermes sussurrou:

-Claro!  É por isso que o senhor é o chefe!

-Não ouvi, o que você disse Hermes?

-Nada Zeus, nada. Qual é a sua ideia?

Fazendo o charme habitual, quase teatral de quem vai mostrar toda sua sabedoria, Zeus ficou olhando para a imensidão do espaço da janela do seu escritório. Começou a falar lentamente, como que saboreando suas próprias palavras:

– Sabe Hermes, não sou quem sou por acaso. Pense comigo; seja aqui no Olimpo como em Gaia, já reparou o que tem em comum os casais que se separam?

Quando Hermes ia abrir a boca, Zeus ergueu o dedo indicador, isso quer significar que ele não quer ser interrompido.

– Eles deixam de se gostar Hermes. Mas isso até um humano sabe, você poderá pensar. Mas o que eu, Zeus, já percebi é que é o fato de estarem juntos com frequência que acaba com o amor.

Hermes estava entendendo, mas quando Zeus estava em momento criativo, era mesmo um espetáculo. Nem imaginou em interrompê-lo.

– Então Hermes querido, anote o decreto de Zeus!

Hermes imediatamente se preparou para anotar. Zeus impostou a voz e decretou:

– Anuncie que, devido a minha bondade infinita, maior que todo universo, autorizo Sol e Lua de manterem um relacionamento.

Hermes estava chocado! Não teve forças nem para balbuciar. Zeus tinha enlouquecido?

Zeus parecia que lia o pensamento de Hermes, sorrindo com o canto da boca. Continuou a falar:

– Porém, como na minha sabedoria, sei que a harmonia e o amor entre o Sol e a Lua são fundamentais para que Gaia prospere, mesmo no futuro quando se chamar Terra, eu os autorizo a se verem em ocasiões especiais, as quais chamarei de eclipse! Ocorrerão de tempos em tempos que serão devidamente marcados por Cronos, ministro celestial do tempo. Cumpra-se!

Zeus, se aproxima de Hermes e sussurra em seu ouvido:

– É assim que os manterei apaixonados para toda eternidade Hermes. Será sempre namoro, sempre namoro.

Eu e o Mundo

“Saiba,

Todo mundo foi neném

Einstein, Freud e Platão também

Hitler, Bush e Sadam Hussein

Quem tem grana e quem não tem

 Saiba:

Todo mundo teve infância

Maomé já foi criança

Arquimedes, Buda, Galileu

e também você e eu

Saiba,

Todo mundo teve medo

Mesmo que seja segredo

Nietzsche e Simone de Beauvoir

Fernandinho Beira-Mar

 Saiba,

Todo mundo vai morrer

Presidente, general ou rei

Anglo-saxão ou muçulmano

Todo e qualquer ser humano

 Saiba,

Todo mundo teve pai

Quem já foi e quem ainda vai

Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé

Ghandi, Mike Tyson, Salomé

 Saiba,

Todo mundo teve mãe

Índios, africanos e alemães

Nero, Che Guevara, Pinochet

e também eu e você”.

                                                         Saiba – Arnaldo Antunes

Estamos a todo momento, quer queiramos ou não, sendo mudados pelo mundo e provocando mudanças. Em um primeiro momento dessa reflexão, parece que o mundo nos muda mais, afinal é mais forte e avassalador. Mas quem é, afinal, o Mundo?

O Mundo são as pessoas que encontro todo dia e que me modificam. Diz Deleuse, que só pensamos em conjunto e é verdade! É no encontro com o outro e com tudo que me rodeia e penso que me torno novo, imprevisível e indefinível. Existem encontros que nos enchem de alegria e essas pessoas nos mostram o que temos de melhor. Nelas, nos eternizamos positivamente, já que nos afetam para melhor e vice-versa. Nas que nos incomodam ou nos despertam raiva, poderíamos aproveitar para procurar entender o que temos em comum com elas que preferimos não ver. No fim, todas nos fazem ir adiante em cada encontro, sempre novo na essência já que chegamos ali trazendo mudanças de outras pessoas e da vida.

Aliás, buscamos definir tudo e todos com objetivo de termos alguma segurança e previsibilidade. Medo da mente que a vida ri com desdém, trazendo surpresas a cada segundo, bastando olhar em volta. Mas não adianta, queremos definir, explicar e congelar os outros, seja em uma definição seja em uma explicação boba sobre os porquês de tudo, seja por nos empurrarem uma reverência sem sentido a deuses com pés de barro, como bem disse Nietzsche.

O Mundo é o clima, o acidente que aconteceu em algum lugar que a internet informou em tempo real para que imaginasse que poderia acontecer comigo. O Mundo é a angústia que dá assistindo um idiota sentado no trono dizendo que produzir é mais importante que o ar que respiramos. O Mundo também é um sorriso de indisfarçável alegria quando um touro mata o toureiro na Espanha e mostra que o torturador também encontra uma réstia de justiça em algum momento. E o mundo é, principalmente, aquelas pessoas que fazem você descobrir coisas a seu respeito que nem imagina que é ou sabe.

O Mundo me muda quando noto que tudo está sempre por um triz em um eterno jogo de coincidências bizarras que dá uma sensação de ignorância só de tentar entender algum nexo entre elas. O Mundo me muda em uma paisagem do final de tarde onde me permito parar e ver como a natureza funciona com perfeição em um belo quadro de cores, mas que ela também deve ter seus motivos para as enchentes e terremotos que podem me mudar e tirar a vida e sonhos de tantos sem que encontremos um motivo. Na verdade, tudo muda quando percebo que procurar os motivos de forças maiores que eu, é uma grande perda de tempo, aliás, pode nem ter mesmo algum motivo.

O mundo me muda quando a realidade mostra que as histórias que ouvi desde pequeno, contadas por pessoas queridas que tinham tanto medo desse desamparo, que podem ter feito mais mal do que bem, quando tiraram de mim a capacidade de mudar meus caminhos, sujeitando minhas decisões a alguma benção superior vindo de um lugar onde, pelo visto, não tem ninguém e se tiver, só assiste, não sei se rindo ou chorando.

O mundo me muda em pequenos gestos carinhosos, em olhares assustados e de pessoas que me criticam por tê-las de alguma forma, feito perder o encanto dos mundos de “faz de conta” que posso ter mostrado que nunca existiram.

E, no fim, é nisso que eu e você mudamos o Mundo. Sendo do jeito que somos, levando alegria e tristeza na forma em que os outros nos interpretam, apesar do mundo e suas forças gigantescas. Quando estamos no Mundo o mudamos, quer queiramos ou não, sejamos percebidos ou não, alteramos o destino do planeta e de muita gente todos os dias. Gente que conheço e nunca conhecerei, mas que será afetado por alguém que um dia me conheceu. Mas não esqueça, falo de mim e de você, que também tem essa força e pode, de alguma forma, escolher como quer afetar o mundo e ser afetado por ele. Escolha que tem pouco alcance sobre forças tão poderosas, mas afinal, fazer nossa parte é uma chance real de que aconteça o que desejo.

Mesmo quando em pequenos encontros, desencontros, acidentes e até mesmo em um “bom dia” podemos mudar a vida de quem nos viu e ouviu. Poderemos até em nosso último ato, quando alguns souberem que nos retiramos do mundo para ir morar em outro ou em nenhum, que lembrarão de nós com alegria ou tristeza e que, no segundo seguinte esse sentimento os fará fazer isso ou aquilo. Sem que percebam que estamos por trás dessa escolha e de tantas outras que virão, em um eco de eternidade.

O Mundo ou a vida é o resultado de todos que já viveram, vivem e de tudo que já aconteceu, acontece e até do que imaginamos que poderá acontecer. Aliás, imaginar muda mais o mundo do que a realidade, pois somos e sentimos não o que o mundo é, mas só o que imaginamos que o mundo seja.

E assim vamos mudando e sendo mudados a cada instante e fico pensando como alguém pode acreditar em destino com tantas coisas incontroláveis a nossa volta nos tornando um resultado cada vez mais improvável dessa química entre cada um de nós e o Mundo.

Nem percebo que posso escolher lembrar que tudo isso torna a vida algo sempre inédito. Afinal, se nem eu e mundo somos os mesmos por estarmos nos mudando o tempo todo, conseguir ver tudo como se fosse a primeira vez, e é, pode no fim dar a única explicação que a razão aceita.

Deve ser por isso que só as crianças e os loucos não têm medo, já que para eles passado e futuro simplesmente não existem, são alucinações dessa gente normal que afeta o mundo e o deixa desse jeito triste, que nos adoece só de pensar.

Perguntas desnecessárias

…Ser moderado é a maior virtude. A sabedoria consiste em falar e agir na verdade,

    dando atenção a natureza das coisas. É sábio reconhecer que todas as coisas são

   uma só. A sabedoria é uma só – conhecer a inteligência pela qual todas as coisas

   são guiadas por todas as coisas.

   A sabedoria é uma e única; ela não está inclinada e, ainda assim, está inclinada a

  ser chamada pelo nome de Zeus”.

                                    Heráclito – Fragmentos

  “Nullas ex omnibus rebus, quae in protestade mea non sunt, pluris, quan cum Viris

   veritatem sincere amantibus foedus inire amicitiae”.*

                        Espinosa – citação de abertura da Éthica

perguntas

   Temos uma dificuldade em aceitar o mundo e a vida como um todo simplesmente como são. Nos sentimos inseguros diante da realidade e nos escondemos atrás de uma série de ideias pouco prováveis. É como se tivesse luz em demasia e só colocando uma lente escura pudéssemos viver confortavelmente. Ou, se preferir, já que a palavra “luz” pode ser interpretada de várias formas, fosse necessária uma lente com algum grau para distorcer minha visão para que pense que enxergo.

Qual, afinal, o problema de tudo ser simplesmente como é?

 Não conseguimos simplesmente viver a vida que temos; ansiosos, precisamos pensar na próxima, garantir-se nela com privilégios. Agimos baseados em condutas ditas corretas, não por uma iniciativa do bem pelo bem, mas como condição da obtenção de vantagens, seja para nossa vida aqui (proteção e saúde), como para estarmos de bem com quem cuida da nossa contabilidade divina. Mesmo religiões que não falam de nenhum deus, têm sempre seu julgador com quem acertamos as contas depois da morte e que nos encaminha para a próxima existência baseado em nosso saldo de boas ou más ações. Não valem as ações sinceras, só as pré determinadas como corretas, nunca esqueça!

Heráclito diz que a verdade está oculta pelas aparências. Não foi fácil para ele viver na mesma época que Aristóteles, que defendia que a verdade está aparente. O pai da lógica ocidental dizia que A e B são coisas diferentes, justamente por serem A e B. Já Heráclito dizia que A e B são apenas duas formas em que uma mesma coisa se manifesta. Osho afirma que se Heráclito tivesse nascido na Índia seria um dos Budas. E seria mesmo!

Nossas sofridas definições de “bem e mal”, “certo e errado” ou de “justo e injusto” entre outras, são oriundas de Aristóteles que não via, como Heráclito, que a impermanência, como regra básica da vida, deveria merecer nosso silêncio e simples observação. Quando fazemos julgamentos imediatos, significa que só conseguimos entender baseados nessa separação entre positivo e negativo, bom ou mal. Como já comentei em artigos anteriores, basta cada um observar sua própria vida para notar que acontecimentos foram sentidos de uma maneira no momento e de outra completamente diferente depois de algum tempo.

O problema é que Heráclito nos exige um esforço. Para não fazer o julgamento, que leva ao sofrimento, precisamos em primeiro lugar entender seu pensamento e depois estar muito consciente para que Aristóteles, que está impregnado em nosso subconsciente, não se manifeste de forma automática e mecânica.

Já Espinosa, afirma que a Alegria é o que aumenta nossa potência, ou força para viver. Só que, para ele, a Alegria é a condição para a liberdade, para podemos viver em potência. E o que é, afinal, essa Alegria?

 É o conhecimento das causas!

 Nas palavras do próprio Espinosa: “A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, na medida em que a essência dele é explicada ou definida pela essência de sua causa”. (Ética V – Axioma II). Podemos também optar pela Proposição III; “Uma afecção, que é paixão (aquilo que nos domina sem entendermos a causa – grifo meu), deixa de ser paixão no momento em que dela formamos uma ideia clara e distinta”. Ou seja, quando entendemos as causas, somos livres.

O problema é que buscamos essa liberdade, ou seja, conhecer as causas em crenças que trazem explicações quase que “sobrenaturais” para as questões que mais nos deixam inseguros.

A resposta mais óbvia e mais aceita pela nossa mente Aristotélica é que deve haver uma explicação para tudo ser do jeito que é. Pode ser que a explicação é que não tem explicação. Heráclito diria que estamos querendo revogar a lei da impermanência, congelando um acontecimento, evitando que ele se reverbere na pessoa que seremos logo ali à frente.  Para os amantes do futebol é como congelarmos a imagem antes do pênalti ser cobrado. Não sabemos se o gol será ou não feito e muito menos se o jogo não pode ser virado, logo ali à frente.

Já Espinosa nos diria que a causa primeira é que por não sabermos o motivo de Deus** para que aquilo ocorra, sofremos por ignorância.

No final, esses dois pensadores nos pediriam simplesmente para que vivamos a nossa vida por ela mesma. Como nunca saberemos as respostas sobre de onde e como viemos e para onde vamos (se vamos), sejamos mais livres e mais alegres, o que é quase a mesma coisa. Nos bons momentos não necessitamos de nenhuma ajuda externa ou divina, não temos pedidos a fazer e muito menos medo do que virá. A ideia de Deus que recebemos o torna indispensável no sofrimento, por não entendermos sua causa. Daí vem as explicações: devo merecer isso por algum motivo ou as famosas e fáceis “linhas tortas” e outras mais ou menos criativas quanto essas.

Todos os julgamentos são na verdade uma espécie de automatismo, onde usamos uma interpretação de segunda mão, vindo do meio onde estamos ou fomos criados. Ver sem julgar exige o conhecimento das causas ou assumir-se ignorante delas. “Não saber” também é um bom e leve jeito de entender que muitas vezes as causas estão além da minha capacidade, que existe uma aleatoriedade, ou seja, pode não ter a ver comigo, necessariamente. Lembrar que, minha percepção sobre o que for, mudará na medida em que mudo pela experiência de viver ajudará muito.

“Não saber” o que é a morte, se existe outra vida, se Deus é “alguém” ou alguma inteligência, se o Carma é mesmo uma lei ou outra grande Pergunta qualquer é entender, finalmente, que a única verdade realmente é aquela que vejo e que esteja acessível a minha razão. Nunca saberei essas respostas, já que elas estão no âmbito do “crer”.

Justamente por isso que o “buscador” é eterno. Ele nunca encontrará nada e sua diversão é a busca, simplesmente.

Para outros, viver é a única religião e a Alegria de Espinosa é a liberdade que pode ser alcançada. Mas tudo isso só funciona se estivermos alimentados, seguros e abrigados.

Porque nesse mundo de verdade, estar vivo e “viver” plenamente sempre vem em primeiro lugar e também é o que esquecemos primeiro quando as necessidades diminuem.

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O presente texto é um complemento não necessário (independente) do anterior “Para que(m) serve a verdade”

 *Nada estimo mais, entre todas as coisas que não estão em meu poder, do que contrair uma aliança de amizade com homens que amem, sinceramente, a verdade.

**Resumidamente, o Deus de Espinosa é imanente, ou seja, a Natureza como uma inteligência infinita.

Para saber mais:

Harmonia oculta  – Discursos sobre os fragmentos de Heráclito.  Osho, ed Cultrix.

Espinosa – Coleção “Os pensadores” ed Abril

Os mundos

De longe, dava somente para ver os olhos grandes e arregalados. Um bico azul escondia a boca e fazia uma boa combinação com as bochechas rosadas. Eu estava do outro lado da rua, esperando a boa vontade de alguém parar e deixar que atravessasse na faixa de segurança.

Ele estava na parada de ônibus, no colo da sua mãe. Ela o sacudia e isso o deixava desconfortável. Queria ver o mundo, mas como fazê-lo subindo e descendo sem parar? Dava para notar que a jovem mãe não estava ali. Estava no mundo dela, pensando no trabalho, nas dificuldades e sonhos que não deram certo. Seu olhar perdido poderia também estar no futuro, imaginando seu filho crescido, naquele mesmo lugar indo para o trabalho, quem sabe com sua mesma tristeza. Nela, não havia brilho.

Poucos segundos depois ela parou e ele pode olhar o mundo. Olhos brilhantes vendo as pessoas que passavam, carros coloridos e, quem sabe, alguém o observando do outro lado da calçada.

Do pouco dos seus dois anos o mundo é uma novidade. Nessa idade não temos passado nem futuro e até respiramos diferente. Quando não estamos alucinando, o tempo é outro e dá até para esquecer quem e o que pensamos que somos.

A mãe com suas preocupações, eu com as minhas. Ambos querendo controlar a vida, medo que nunca acaba. Ele não tem nada para esquecer, nada para pensar a não ser ir juntando as peças desse quebra-cabeça que sempre muda a imagem final.

Estávamos ali, os três no mesmo lugar, ao mesmo tempo, em mundos diferentes.

Percebi um carro passando vagarosamente. O motorista maneia a cabeça ao me olhar. Provavelmente parou para que eu atravessasse e, perdido em outro mundo, não percebi.

“Gente louca”, deve ter pensado.

Agora, nossos olhares se cruzaram.

Outro carro diminui a velocidade, acende as luzes para avisar aos outros e a mim que chegou minha vez. Enquanto atravessava a faixa ele me olhava fixamente, só o bico fazia pequenos movimentos.

O que acontecia na cabeça dele? Curiosidade que nunca terá resposta, assim como tantas que insistimos em encontrar. Perda de tempo em um mundo que só tem graça pelas perguntas.

Vivemos cada um em seu mundo com nossa interpretação particular, onde um final feliz é questão de tempo, de sorte ou quem sabe de um sonho que finalmente se realizará. Sentimo-nos especiais, pensando que o mundo foi feito para nós em um enredo com oito bilhões de coadjuvantes.

Seu mundo está recém sendo construído, mosaico com peças que colhe da família, das alegrias e tristezas que fazem parte dessa contabilidade que poderá tornar o enredo mais ou menos doloroso. Um dia, de alguma forma, os significados que lhe deram não farão sentido quando confrontados com a vida real. Restará rever e refazer o enredo como todos que descobriram que a crueza dos embates no mundo é bem menos romântica e épica, comparados as histórias que crescemos ouvindo onde o tudo dará certo no final.

 Como todos, ele criará cenários ideais para finalmente poder relaxar. Poderá um dia dizer que perdeu a oportunidade de sentir-se feliz, assim como eu perdi a chance de atravessar enquanto estava em outro mundo.

A mãe nada percebeu. Estava no celular, entretida com as notícias e a vida espetacular dos amigos que, com certeza, tiveram dias perfeitos. Aquela manhã trazia sol e pouca nebulosidade, e  tudo estava mais colorido. Hora de postar fotos, enaltecendo a obra da criação e a graça por recebermos um dia tão lindo!

 Provavelmente, nesse mundo redondo e cheio de diferenças, em algum outro lugar uma chuva forte, vento ou tremor poderia estar desabrigando e matando, mas aí é a fúria da natureza que sempre divide o poder com cenários espetaculares, arco íris, praias ensolaradas e finais de tarde de tirar o fôlego.

Quando passei por ele dei um sorriso e quase balbuciei um “boa sorte”. Os olhos grandes apenas me acompanharam até que desaparecesse na esquina.

O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.