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E se for só isso?

“Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”

                                                                Nietzsche –   Gaia, a ciência § 276

“É impossível enfrentar a realidade o tempo todo sem um mecanismo de fuga.”

                                                                 Freud

                                                                                                                                                 realidade virtual

Não existe crença sem dúvida.

Se, por um lado, temos a esperança de que o que acreditamos seja mesmo verdade, por outro, como toda esperança, existe um temor de que não seja. Crenças são necessárias até certo ponto. Precisamos delas como uma forma de entendermos o mundo e suas contradições. Aliás, as contradições do mundo sempre são um problema só nosso, já que o mundo é como é, e não somos tão relevantes assim para que ele mude por nós.

Independente se acreditamos em duendes, gnomos, fadas, anjos, querubins, alienígenas (de todos o de mais provável e até probabilística certeza de existência) ou qualquer divindade, é através deles que se atribui o saber que usamos para lidarmos com os acontecimentos incontroláveis da vida. Como já citei em artigos anteriores, quando nos deparamos com nossa falibilidade e de tudo que acontece a nossa volta, a sensação de desamparo é inevitável e uma “mão” amiga, mesmo que invisível e muito improvável, já nos dá alguma segurança para tocarmos em frente.

O interessante é que, quanto mais essa crença for cega e leve a pessoa ao radicalismo, mais ela tenta arregimentar seguidores e olha com certo dó quem não segue sua linha. Sempre penso que, quanto mais se precisa de novos seguidores, fora a questão financeira da manutenção da estrutura, está embutida a necessidade de que mais gente também acredite. Isso traz a ideia de que, realmente, as coisas são como creio, afinal, tanta gente acredita junto! Pode parecer impossível, mas se todo mundo também pensa assim…

A questão que coloco é simples: Por quê a vida não pode ser só o que vemos? Qual a necessidade de um grande significado por trás de tudo, seja do desabrochar da flor ou da maldade no mundo? Como disse acima, toda crença carrega o medo de ser falsa. E as mais importantes questões, como o significado da vida, o que virá depois, se teve algum antes e tantas outras só servem para aumentar a ansiedade. Perguntas demais e respostas impossíveis, já que fazem parte do âmbito do “acreditar”.

Quer queiramos ou não, uns mais outros menos, todos deixamos nossa marca no mundo. Estar vivo é fazer parte e nunca sabemos o quanto afetamos o que chamamos realidade. Alguns grandes pensadores nos convidam a aceitar o mundo tal como ele é e alguns outros revolucionários querem mudá-lo. Uns usando violência e poder para ter mais poder. Outros para impor suas ideias baseadas na crença (essa uma das mais absurdas) de que tem a receita correta para termos um mundo melhor que vale para todas as culturas e pessoas. Caso clássico do sistema educacional que ensina a mesma coisa para pessoas diferentes. Como se fôssemos todos iguais, revogando a biologia. Bom para manipular e matar as diferenças, bom para as farmácias, Capital e governos. Ruim para as pessoas. Mas quem mesmo se preocupa com aquilo que não rende poder ou dinheiro?

Com esse sistema de crenças vamos vivendo sem pensar, já que temos as respostas que as crenças nos dão. E a mais comum é a esperança que existe uma “inteligência” ou ‘Alguém”por trás de tudo, que comanda a vida para o bem de todos e aqueles que estão sofrendo é por merecimento ou aprendizagem, só pode! Se alguma coisa está errada, é por não entendermos um desígnio maior, falta de percepção ou burrice nossa. Figuras ilustres da religião nos remetem diretamente à ideia do sofrimento como forma de purificação para o que virá, ou de que, se não cumprirmos as regras seremos duramente punidos pela justiça divina. Aliás, pensando nisso, se houver mesmo outra vida, quando nossos ministros do Supremo morrerem, toda a bandidagem que habita os nove níveis do Inferno de Dante será solta com Habeas Corpus e tornozeleira e, com certeza, virão nos assombrar. Merecemos tudo isso, por termos nascido pecadores e impuros.

Mas aqui vai mais uma crença: tudo por ser só isso que vemos, simples assim!

Talvez a grande receita seja uma “dúvida razoável” e quem vê filmes ou série de advogados americanos sabem do que falo. Pode ser que a sua crença seja verdadeira ou uma grande bobagem. A do seu amigo também. Algumas, principalmente as mais famosas, precisam de um grande esforço imaginativo para serem levadas à sério. Como disse Kant, precisamos afastar a razão para arrumarmos um lugar para nossas crenças.

O que sugiro é duvidar, lembrar que pode não ser como pensamos/acreditamos/esperamos. Como a alternativa “E” das provas; nenhuma das respostas anteriores. Lembra?

O dia que ficarmos só com o que vemos, sem grandes leituras metafísicas, poderá nos bastar. Nesse mundo vivem e morrem pessoas boas e más, diferentes e indiferentes, inteligentes e nem tanto, preocupadas e desligadas, medrosas e os medrosos que enfrentam o medo porque tem medo de sentir medo. Às vezes dá tudo errado, em outras tudo certo, a justiça impera e em outras falha. Talvez atrás da flor tenha só um pássaro que polinizou assim como na enxurrada que mata não há nenhuma fúria, apenas o infeliz encontro de nuvens carregadas que não conseguiram desviar uma da outra.

Eu sei, seria simples demais!

Mas isso pode ser mais provável que muitas dessas histórias que ouvimos desde criança que nos metem medo; seja da bruxa que “pega” as crianças desobedientes, seja a ira de um deus qualquer por você ter repetido o bolo ou ter desejado o namorado da amiga.

Temos uma enorme necessidade de tornar a vida complexa, cheia de mensagens e significados, assim como de entidades a quem entregamos em forma de desejo a obtenção daquilo que não nos sentimos merecedores. Milagres, dádivas, bênçãos, linhas certeiras e outras um pouco tortas com o objetivo de dar um começo e fim lógico para a vida. Mas quem disse que a vida precisa mesmo de alguma lógica?

Qual o problema de ser somente sorte, azar ou a deusa Fortuna com suas manias? Queremos coisas, nos esforçamos para consegui-las e isso poderá vir ou não vir, quem sabe? Só virá se fizermos, mas tem gente que fica rico sem nem ter pensado nisso e as grandes biografias mostram que existem tantas coisas, ventos tão incertos. Angustia por um lado por estarmos de certa forma à deriva, mas por outro, traz um charme inigualável para a vida!

Precisamos e devemos ter sonhos e objetivos e é isso que nos move. Só convém lembrar que todos querem alguma coisa e às vezes precisamos saber esperar e entender que desejos colidem uns com os outros o tempo todo e são tantas variáveis em jogo que não podemos controlar.

A grande verdade, talvez a única que nos une é sermos seres movidos por interesse. Não fizemos nada gratuitamente, nem que seja sentirmo-nos bem por ter feito alguma coisa. Rezamos para um mundo melhor porque isso é bom para nós. Não fizemos o mal porque não queremos que façam conosco e por aí vai. Não há nisso nenhum problema! O problema é nos idealizarmos e ficarmos esperando que a perfeição que nos falta esteja em outro lugar, em um ser que nunca nasce e nem morre. Talvez seja por isso que Ele é tão perfeito, não morre nunca e nem precisa de nada, não tem corpo e nem desejos; enfim, não precisa lutar contra si mesmo como nós, reles mortais.

Somo cheios de defeitos (é isso que nos dizem desde o primeiro dia) e projetamos nossa melhor potencialidade em divindades como muitíssimo bem nos ensinou Feuerbach, livro* que deveria ser obrigatório em qualquer sistema de ensino que promete formar cidadãos críticos e nunca consegue, justamente por evitar que questionem, empurrando crenças da mesma forma que se produz Foie gras.

Uma dúvida consciente sobre todas essas grandes perguntas nos traria uma vida mais voltada ao bem-estar e a tranquilidade. Talvez um dia saibamos as respostas depois de morrer se estivermos percebendo alguma coisa, talvez nunca. Portanto, porque perder tempo com elas? Viver como se as crenças fossem uma verdade absoluta é como construir casas com areia da praia. Tudo baseado no medo de sermos punidos aqui ou em outro mundo, buscando controlar a vida ou simplesmente por não aceitarmos como verdade o que vemos a cada momento e, principalmente,  que somos mais livres e responsáveis do que gostaríamos.

Para aqueles que acompanham os textos do blog, sei que poderão estar pensando que, de certa forma, já falei um pouco sobre isso em reflexões anteriores (O último dia e Perguntas desnecessárias). Verdade, mais pode ser que hoje eu pegue você mais atendo e com disposição para deixar tudo mais simples e real.

realidade

Pode ser que só tenhamos essa vida e sei que isso é muito desanimador. Temos planos para as próximas existências, onde tudo dará certo no final. Mas por outro lado, se ficarmos só com o que temos de verdade nos dará um pouco mais de pressa e fundamentará escolhas e decisões conscientes de que precisamos para viver bem e sair dessa existência, sobre a qual ninguém pode duvidar, pela porta da frente.

Temos que dizer “sim” e “não” e isso nunca é fácil já que seria o que parte de nós gostaria, mas nem sempre é possível no mundo de verdade. Fazer escolhas e conviver com elas é outra maneira de sermos nosso próprio Deus.

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*Ludwig Feuerbach –  A essência do cristianismo

Tela vazia

Estava lendo Foucault e deu vontade de escrever.

Parado diante da tela, lembrei de um filme sobre Pelé que vi quando tinha 12 ou 13 anos.  Uma hora e meia de gols e jogadas geniais. Sai do cinema com muita vontade de jogar bola. Não lembro se joguei, mas mesmo que isso tenha acontecido, o resultado não foi tão bom que valesse a pena lembrar. Era jogador e plateia ao mesmo tempo e o esquecimento foi o veredito.

Mais tarde, já na fase adulta, vi um show de João Bosco. Ele levou apenas seu violão, parecia que aquele instrumento era uma extensão natural do corpo. Plateia hipnotizada pelo talento. Acontece sempre que vemos alguém viver sua vocação. Deu uma vontade louca de aprender a tocar. Depois de muitas aulas, sofrimento dos dedos que não foram feitos para acariciar cordas, ficou um violão para lá e para cá dentro de casa, sem cumprir sua função. Começou encostado na parede, esperando que a força de vontade vencesse a realidade. Tempos depois, foi parar em cima de um armário. Ficou anos dentro de uma capa como os gênios nas lamparinas nas histórias das mil e uma noites. Pelé e João Bosco mostraram que a natureza, como diziam os antigos gregos, não distribui dons com justiça.

Quando uma criança compra a chuteira do Neymar, sonha em jogar como ele e isso vale para o corte de cabelo da atriz ou da marca de roupa que a modelo mostra no outdoor. Aristóteles e seus seguidores diziam que a vida só vale a pena ser vivida se buscarmos melhorar os dons que trouxemos ao nascer. Mesmo com dons menos favorecidos deveríamos melhorá-los o máximo possível. Fazer o que viemos fazer, daria sentido a nossa vida e tornaria o mundo melhor, afinal, seríamos felizes e realizados dentro do possível. Enquanto não descobrimos o nosso, vamos vivendo vocações dos mais afortunados, buscando sem perceber no que somos realmente bons.

Enquanto o cursor pisca na minha frente não sei sobre o que escrever. Fico pensando se o próprio Foucault, Saramago, Érico Veríssimo e outros como eles também travavam diante da folha em branco. Se uns ganham mais facilidades que outros, com os sonhos isso não acontece. Sonhamos sem parar sobre tudo e um mundo diferente, que nos faria felizes por ser de outro jeito, é o mais comum a todos. Mas, se tem gente feliz sendo o mundo como é, o problema talvez não seja o mundo, mas não se sentir parte dele, fazendo alguma diferença.

O mundo no qual crescemos nos diz o que devemos fazer para ajudar a funcionar pelo bem de todos e é aí que nos perdemos dos gregos, para quem é a vida de cada um que conta. Do jeito que é não tem muito a ver com o fato de gostarmos disso ou não. Precisamos fazer dinheiro para financiar sonhos alternativos que substituem a alegria verdadeira. Deve ser por isso que altos salários e fortunas não são garantia de alegria por uma realização.

Por outro lado, nem todo talento que a natureza deu exageradamente para alguém é uma garantia de felicidade, Van Gogh que o diga. Quantos talentos se perdem em situações de famílias desestruturadas, de falta de condições mínimas? Temos “Neymares” que ficarão a vida no anonimato, por terem que ajudar em casa ao invés de terem a oportunidade de melhorar seus dons. Jogadores de fim de semana, que viverão sua alegria sem reconhecimento ou remuneração. Tudo para ser famoso no bairro e contar os feitos no bar, aos domingos à tarde.

Sonhamos o passado para tentar reescrever nossa história, buscando entender erros de forma que nos inocente um pouco e imaginamos o futuro para poder esperar que tudo dê certo no final. Sonhos que só existem por estarmos um tanto desconfortáveis com a falta de sentido, diria o velho Aristóteles.

Talvez se insistisse com o futebol e o violão?

O mundo valoriza os esforçados, maneira de tentar compensar a falta de dons exuberantes e de não nos deixar perder a esperança. Cafu e Dunga ergueram copas do mundo, assim como Pelé, Zidane e Maradona. Quem sabe ser coadjuvante não consegue atenuar a incapacidade para o protagonismo? Lembro sempre disso quando vejo um coral, a soma torna todos melhores do que individualmente, roupas iguais para ser um só; o todo é maior que a soma das partes, e assim a força de vontade vence a matemática.

Agora percebo porque falo disso, era o que Foucault estava dizendo; somos aprisionados de certa forma nesse jeito de pensar. Ao comparar escolas com presídios ele não deixa dúvidas e escancara sua ideia de forma inquestionável.

 Já não sei se a vontade era escrever sobre isso ou se foi como ele escreveu que me fez lembrar a emoção que Pelé e João Bosco produziram; que havia encontrado o que a natureza esperava de mim.

Como o cursor ainda pisca na tela branca, o melhor é continuar procurando.

O último dia

“…e o indivíduo que se dedicou a vida inteira à Filosofia, terá de demostrar-se confiante na hora da morte, pela esperança de vir a participar, depois de morto, dos mais valiosos bens.”

“Embora os homens não o percebam, é possível que todos os que se dedicam verdadeiramente à Filosofia, a nada mais aspirem do que a morrer e estarem mortos. Sendo isso um fato, seria absurdo, não fazendo outra coisa o filósofo toda a vida, ao chegar esse momento, insurgir-se contra o que ele mesmo pedira com tal empenho e em pós do que sempre se afanara.”

        Platão – Fédon

“É incerto onde a morte nos espera, aguardemo-la em toda parte. Meditar previamente sobre a morte é meditar previamente sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer desaprendeu a se subjugar. Não há nenhum mal na vida para aquele que bem compreendeu que a privação da vida não é um mal. Saber morrer liberta-nos de toda sujeição e imposição.”

“Filosofar é aprender a morrer.”

       Montaigne

O julgamento de Sócrates

A execução de Sócrates

Fédon conta como foi o último dia de Sócrates, condenado à morte. Reunidos com seus amigos e seguidores, Sócrates reflete sobre a morte e a imortalidade da alma. Demostra estar tranquilo, horas antes de ter que ingerir a sicuta fatal. Diz que sua alma se libertará do corpo e poderá, livre dos desejos, da precariedade e transitoriedade física encontrar a “Verdade”, que só a alma pura pode reconhecer.

Fédon é um belíssimo texto e mesmo que você não concorde com as ideias metafísicas de Platão merece ser conhecido. É um dos grandes momentos da filosofia, delicioso de ser lido. Filosofia, infelizmente muitas vezes tratada com tanto esmero por alguns autores que torna os livros maçantes e de difícil entendimento. Escreve bem quem se faz entender facilmente e não há nada tão complexo que não possa ser escrito de forma simples. Por traz de uma tentativa de elitizar o pensamento e rebuscar o texto, está, muitas vezes, um mau escritor. Saber transmitir é uma arte diferente de saber pensar.

Em determinado momento, Sócrates diz que o filósofo e o religioso lidam diferentemente com o fenômeno da morte. O primeiro busca entende-la pela razão e o segundo com a explicação imposta pela fé que segue.

Quando buscamos entender a morte pela via da religião, é como se escolhêssemos (normalmente depois de adulto, já que a criança tem isso imposto) a “explicação” que melhor nos conforta, que traga alguma lógica e que, de preferência, a torne melhor do que a vida física. Quando nos cultos e eventos patrocinados pela religião nos reunimos com pessoas que adotaram essa explicação, isso traz conforto e a esperança de que, por tantos pensarem assim, essa é realmente a verdade. O problema é que, junto com a explicação sobre a morte vem toda uma metafísica sobre os mundos celestiais e o como devemos viver seguindo as normas estipuladas pelo deus a quem se presta culto. A não observância da conduta, levará o transgressor a momentos desagradáveis depois que abandonar a vida física. Dessa forma, essa morte com sentido e bela tem um preço: aceitar as regras. Quando as explicações sobre a vida aqui nesse mundo não dão muito certo, o buscador volta a prateleira do supermercado da fé atrás de um novo produto mais completo e que atenda a sua expectativa mais atual.

Além disso, tem um problema; a explicação sobre a morte é aceita por adequação ou atendimento de expectativa, estando, portanto, longe de passar pela reflexão. Fica assim, durante todo tempo a dúvida de se será realmente assim, como prometido. São vários elementos que fogem a razão que precisam ser aceitos como verdadeiros. A medida que a reflexão avança, o “pacote pronto” vai ficando cada vez mais inverossímil, e só pode encontrar abrigo no campo da metáfora, com muito boa vontade.

Também o pensador (filósofo) poderá criar seu enredo com final feliz ou não, como faz Platão e tantos outros. Tudo, por outro lado, será fruto da sua própria reflexão, o que o tornará o único crente da sua ideia. Ao compartilhá-la, buscará mostrar a outros sua lógica e, se novos adeptos surgirem, pode trazer a seu autor a ideia de que tenha encontrado a resposta a essa grande pergunta.

Já outros encontraram suas razões na via inversa da história com final feliz. Tudo simplesmente acaba, como diriam os estoicos e nossos átomos se dispersam no ar e o corpo apodrece em um renascimento mais provável no reino dos vegetais do que dos humanos.

Não sei se Sócrates conseguiu chegar com sua alma ao mundo suprassensível e encontrou a verdade; aquilo que é imutável e eterno, escondido de nós, aqui nesse mundo que vivemos pelas aparências que sempre estão em processo de mudança. Filósofos desde sempre procuraram essa força ou essência que dá origem a diversidade do mundo e aí, como não podemos comprovar (nunca saberemos), vale tudo!

Alguns, mais modernos, preferiram não perder tempo com isso e se dedicaram mais a vida real do que a do outro mundo. Esses, muito mais interessado na evolução aqui, preferem não ligar muito para outros mundos, já que eles são tão “outros” que é uma perda de tempo preocupar-se com eles, além da possibilidade que nunca pode ser descartada de que não exista mais nada do que imaginamos, justamente por estarmos imaginando.

Pode ser que o filosofar ensine a morrer por simplesmente chegar à conclusão que pensar na morte só serve para trazer alguma pressa, para essa vida aqui ser melhor do que é. Vai ter uma hora, se tudo der certo e a vida for longa por tê-la vivido bem e não mais poder fazê-lo pela deterioração, que a morte passa ser uma boa saída e vista com bons olhos como disse Simone de Beauvoir.

Para encerrar, tem uma pequena história, descrita por Sallie Nichols*:

“De uma feita, descontente como progredia seu trabalho na Terra, o Diabo reuniu seu conselho, pedindo voluntários para uma missão na terra e solicitando sugestões sobre o que se poderia dizer a humanidade que viesse a favorecer sua obra. Um espirito mau sugeriu que dissesse aos homens que Deus não existia. Outro sugeriu que se propalasse o boato que não havia alma. O diabo não gostou.

Finalmente, outro sugeriu que se dissesse aos homens: Não há pressa.

A esse a missão foi confiada.”

Pensar na morte, só mesmo se for para termos mais pressa de uma vida que valha a pena. Mais do que isso é procurar o que nunca será encontrado, desviando a atenção sobre o que realmente interessa e é real.

Pela razão e reflexão só poderemos três coisas: validar enredos já existentes, criar novos ou simplesmente deixar para lá por descobrir que o pensamento não abarca a sua própria não existência.

De um jeito ou de outro, o cansaço chegará e a morte também. Melhor descobrir o que virá vindo de uma boa vida; exatamente como quando nos deitamos para dormir depois de um ótimo dia…

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Platão – Fédon – Coleção “Os Pensadores”

* Sallie Nichols – Jung e o Tarô – ed. Cultrix

O sorriso do Padre Anselmo

É como se soubesse que um dia voltaria ali. Todos voltam e o que se diz nas conversas privadas é que, quem ainda não voltou, não escapará. Estar de volta, portanto, não parece ser um demérito ou fraqueza.

Seu superior já tinha notado que estava diferente a algum tempo. Seus sermões dominicais tinham perdido fôlego, como se falasse por que tinha que falar. Estava tão automático, sem ânimo, como se ele já não acreditasse mais. Parecia que esses anos em contato direto com a realidade haviam suprimido sua fé. Os argumentos a favor dos sonhos não eram mais suficientes nem para seu próprio consumo. O que tinha a oferecer para as queixas comuns das pessoas comuns lhe parecia vazio e carente de um sentido real. Difícil de passar uma confiança que tudo dará certo no final se essa data poderia ser amanhã ou na eternidade. Tempo demais para quem sofre as violências da vida e quer uma explicação ou reparação das injustiças. Pessoas que fazem tudo certo, esperando que isso resulte em algo bom e que, quando não acontece, precisam de uma explicação que as conforte. Fazer o que é “certo” precisa valer a pena e ninguém se sente bem enganado.

Quando chegou encontrou tudo igual. O mesmo cheiro, sons, sopas à noite e os mesmos quadros nas paredes de rostos sisudos, contraídos por uma vida, que agora conhecia, de muitas abstenções e rigidez. Faltava alegria ali.

Por coincidência ou não, foi-lhe dado o mesmo quarto que frequentou na sua formação. Cama de solteiro com colchão de palha, curta demais para seu tamanho. Nos invernos rigorosos forçava a cabeça contra a parede para tentar manter os pés aquecidos. Passados muitos anos, a pergunta era a mesma: Precisava ser assim? No que dormir mal em um lugar sem nenhum conforto aumentaria sua fé? Desapego não precisa rimar com sofrimento. Se é para se ter poucas posses, por que não serem as melhores possíveis?

Perguntas demais, respostas de menos e sempre tão vagas. Esse sempre fora o problema.

Passaria uns dias por lá ou o tempo que fosse necessário. A ideia era reavivar seus compromissos e também suas crenças, obviamente. Nos primeiros dias, fora instruído a ficar em silêncio, conversando consigo. Não achou uma boa opção e chegou a iniciar uma argumentação, mas desistiu. Recebeu um olhar fulminante, que dizia claramente que se ele não dava mais conta de si, precisava fazer exatamente o que lhe mandavam. Quem mandava, mandava porque sabia mais do que quem era mandado, pelo menos pensavam assim.

Deu de ombros, afinal, poderiam até ter razão.

 As horas e dias iam passando e sua ansiedade só aumentava. Ele não era um bom interlocutor para essa situação, já que foram seus próprios pensamentos que trouxeram as dúvidas. Nos corredores, passava por jovens que tinham o mesmo brilho no olhar que ele nessa fase. Aquela certeza que a sua revelação mudaria o mundo. Se via neles, tinha vontade de avisá-los, preveni-los. Engolia essa vontade com um suspiro.

Participava dos momentos de oração com os demais, mas sentia que não estava ali. Era como se testemunhasse a si e aos outros orando. Em outra situação, essa sensação poderia ser vista como algum problema psicológico, mas ali, só o entristecia e aumentava seus questionamentos sobre o futuro. Até bem pouco tempo não tinha dúvida sobre o que queria para sua vida, agora via-se diante de um entroncamento onde muitas estradas se encontravam.

Terminado o tempo do silêncio, notava que as conversas com os superiores não surtiam efeito. Sentia-se mal, traindo a si mesmo, pois quando perguntado sobre o que acreditava, não sabia se o que respondia era mesmo verdade. Duplicou seu tempo de oração e estudo como se quisesse se auto convencer de que o que sentia não era a perda da fé. Era uma fase, iria passar. Todos passaram por dúvidas e se questionaram, pelo menos é o que diziam as biografias.

Em uma tarde, percebeu que não sabia mais exatamente a quanto tempo estava ali, duas, três semanas talvez. Naquele lugar, exceção aos domingos, todos os dias são iguais. Tempo que se arrasta como as reticências que nos dão liberdade de preencher significados.

Quando a porta do seu quarto abriu levou um susto. Estava tão absorvido em seus pensamentos que chegou a sobressaltar. A visão do seu instrutor mais querido trouxe lágrimas aos olhos. Padre Anselmo fazia parte daquelas raras unanimidades positivas; sempre bem-humorado, afável e com uma incrível capacidade de entender, de se colocar no lugar do outro, só para sentir o que o outro sente. Nunca impôs verdades, pois falava de sentimentos, lugar onde elas não combinam. Devia ser por isso que nunca subiu na hierarquia, sorria demais para isso. Como em todas as empresas, os cargos mais disputados são poucos para tantos pretendentes e a luta era intensa e surda, como devia a quem precisa dizer-se o tempo todo humilde e desinteressado de alguma forma de poder.

Um longo abraço! Finalmente alguém com quem sentia que poderia se abrir sem medo, falar abertamente sobre perguntas e não sobre certezas.

Toca o sino para a hora da oração. Sem ainda trocarem palavra foram juntos para a pequena capela do outro lado do monastério. Ali, era o lugar das orações particulares e quem queria ter essa privacidade precisava se antecipar. Naquele dia, ela estava disponível para os dois.

Ajoelhou-se e começou sua prece. Sentindo algo estranho, notou que Padre Anselmo continuava sentado, de olhos fechados.

Ficaram ali, em silêncio, por muito tempo.

Pensou em perguntar ao antigo professor o motivo de não ter ajoelhado. Quando ia fazê-lo, deu-se conta que estava recebendo mais uma lição. A que precisava agora. Todas as peças se juntaram e muita coisa fez sentido naquele momento. Era isso, todo esse ritual o estava distanciando do que realmente acreditava por não fazer mais sentido.

Muitos dos seus momentos de desencanto aconteciam por querer entender essa lógica divina de resultados tão distantes e improváveis. Não via justiça nenhuma em os erros ou acertos terem um desfecho em outro lugar, assim como o sofrimento se transformar em fé. O que é humano nessas situações é só desencanto. Jó era um exemplo que não vingava mais; dores e sofrimentos pensados por um Deus sugestionado pelo mal. Não, não poderia ser assim! A rigidez dos rituais estava acabando com sua sensibilidade, criando uma barreira, queria dizer o que sentia não o que “deveria”.

Padre Anselmo parece que lia seus pensamentos. Esboçou um leve sorriso.

Era por isso que ele exalava uma verdade! Ele não se rendia ao que não acreditava. Tinha sua relação com Deus do jeito dele e isso nunca o faria sair dali. Não abria mão do que realmente acreditava em troca de poder ou prestígio. Só a admiração dos alunos o mantinha lá. Ele tentou ensiná-lo, mas na época não entendeu. O “pacote pronto” parecia fazer mais sentido que receitas individuais, maneira arriscada, punida com dureza por quem precisa que todos anulem suas diferenças. Mais fácil, mais seguro.

O Deus em que sempre acreditou tinha menos cerimônia, porta aberta para quem precisasse, dispensando intermediários. E muitas vezes, porque não, uma resposta de simplesmente não ter resposta, de aceitar que tudo pode ser somente o que é.

Na saída da pequena capela, mais um abraço e apenas um “obrigado”.

Arrumou suas coisas e quando estava saindo, voltou-se para ver a porta que se fechava as suas costas. Esteve em uma bolha de tempo e realidade. O ar da rua o trouxe de volta à vida, a que acontece, imprevisível a cada instante.

Tudo que se aprende como certo, serve apenas como uma maneira de chegarmos mais rápido ao nosso próprio jeito de pensar e fazer. Teorias, programas e técnicas servem para pessoas que não existem, que deveriam ser desse ou daquele jeito. A vida é tão móvel que tudo que a prende e engessa vai tirando-lhe a graça, porque afeta sua natureza.

Enquanto caminhava, lembrou que tinha voltado a sonhar, o único sonho que valia a pena ser sonhado; aquele do seu próprio jeito. Padre Anselmo tinha ensinado a difícil arte de responder perguntas complexas; não disse nada, apenas deixou que ele mesmo respondesse.

A dor é amarela

              “Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. ”

                                                                         Rubem Alves

                                                                                                                                                                 cvv

Estamos em setembro, que é amarelo por uma inspiração primaveril ou porque as outras cores já foram usadas nos outros meses, dedicado a alguma causa. No caso, o foco é o suicídio e sua prevenção, que, pelos números que crescem geometricamente, precisará de mais meses do ano ou de termos um ano todo amarelo, de janeiro a dezembro.

Sobre o assunto do suicídio, já tratei diretamente em um dos capítulos de “Céu e Inferno”, bem como uma reflexão sobre a morte, em texto aqui do blog, quando usei as ideias do filósofo Montaigne como inspiração (Montaigne e a morte), escrito em setembro de 2016.

Meu intuito agora é comentar sobre a importância do trabalho, voluntário ou não, das pessoas que se dedicam a escuta e de como simplesmente ouvir pode fazer a diferença para quem está pensando em abreviar sua vida.

A angústia quando aperta nos encolhe (muitos ficam em posição fetal quando sofrem desesperadamente, buscando inconscientemente uma lembrança de quando se sentiam protegidos), e parece até que dá falta de ar em outros. Só quem já passou por isso pode avaliar e é aí que os problemas começam.

Todos, sempre com a finalidade de ajudar no sofrimento do outro, cometem alguns erros primários como, por exemplo, tentar diminuir o problema comparando com outros que, em tese, são mais graves. Quem está sofrendo, sofre seu problema que nunca pode ser comparado com outro. A dor da perda de um relacionamento é sentida psicologicamente como uma morte de alguém querido. Comparar dizendo que “tem coisas bem piores” além de ser uma bobagem é um desrespeito. Jamais pode-se partir do ponto de que as pessoas são iguais, sendo a comparação uma verdade válida para todos. A morte de um animal de estimação, a perda de um emprego, seja qual for o problema, tem o sentir único de quem o vivencia e qualquer comparação é absurda. Não tente consolar seu amigo (a), por exemplo, oferecendo suas experiências tristes esperando que ele melhore ficando com pena de você.

O sofrimento, normalmente é um não entendimento da dor e falar sobre isso sempre ajuda. Quando a pessoa sente confiança para expressar seu sentimento, suas ideias se organizam no ato de explicar o que está sentindo. Mas isso exige uma atitude de respeito à capacidade que cada um tem de resolver seus próprios problemas. Outro erro grave é querer oferecer saídas ou dar conselhos. Os profissionais da área da psicoterapia, que possuem toda uma preparação para lidar com o sofrimento alheio, têm por norma não aconselhar, justamente por procurarem oferecer condições de entendimento. Quando tudo fica claro, quando as causas são conhecidas pode ficar a dor, mas o sofrimento acaba. Portanto, não dê conselhos!

Quer ajudar?

Apenas ouça, não julgue, não critique e não aconselhe.

A não ser que você seja alguém realizado como um Buda, que atingiu o clímax do potencial humano, acolher já está ótimo!

Se todos nós temos nossos problemas e sofrimentos, só podemos ensinar o que sabemos por experiência. O que isso quer dizer? Que só podemos ensinar a ter problemas e sofrimentos.

O ato de falar sem se sentir julgado, comparado ou criticado abre infinitas possibilidades, mas seu maior efeito é a diminuição da dor emocional que, quando atinge um patamar elevado faz a pessoa querer acabar com isso rapidamente e é aí que entra a ideia do suicídio. Em níveis mais baixos, acabamos com nossa angústia com uma barra de chocolate ou um copo de qualquer coisa. Somos todos suicidas em potencial e o que nos falta é a dor extrema aliada a um momento de fragilidade. Nossa natureza é a busca da alegria e a fuga da dor. A alegria é imaginada e vivida intensamente em momentos, já a dor emocional é também física, sendo, portanto, mais propícia a saídas rápidas e impensadas. Como já detalhei no artigo sobre o suicídio, a angústia, seja de que nível for, sempre é tão passageira quanto a felicidade que “dura pouco”, mas com um agravante; parece ser eterna enquanto dura, parafraseando Vinícius de Morais.

Por isso, trabalhos de escuta como o que o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece gratuitamente é de inestimável valor para a sociedade e merece todo nosso apoio. São pessoas que doam seu tempo e que são treinadas para essa escuta respeitosa, de ajudar a pessoa que está sofrendo a falar tudo que sente, anonimamente, sem cobranças, consolos ou saídas milagrosas. A fala, muitas vezes o choro que se deixa chorar, alivia em muito a angústia e nessa hora é o que importa. É como um pronto-socorro que não tem a função de curar, somente de manter o paciente vivo para que ele possa procurar com calma e sem dor a saída de seu problema.

Como é importante nesses momentos não oferecer crenças ou explicações metafísicas. Até porque, são saídas baseadas em expectativas de que o mundo ou a vida sejam desse ou daquele jeito. Muitas vezes não funcionando nem para quem os sugere. Quando alguém enfrenta o desespero isso também acontece pelas suas crenças se mostrarem sem efeito diante do problema. Oferecer outra? Por favor, não!

Portanto, se você está sem tempo de ouvir, ou acha que o problema que a pessoa está enfrentando poderia ser pior, que está faltando coragem ou fé, não diga nada. Sugira que procure uma ajuda profissional, reconhecendo sua limitação (o que é um ato de extrema inteligência e grandeza) ou então dê o número do CVV*.

O mundo está nos entristecendo cada vez mais e isso diminui nossa força e vontade de viver. Estamos cada vez com mais medo de não conseguirmos nos manter em um mundo que está mudando muito mais rápido do que nossa capacidade de assimilação. Tudo perde valor e validade rapidamente e manter-se, seja no emprego, nos relacionamentos e até de atender nossas necessidades é um risco diário. O mundo e nossa civilização perdeu consistência, ou ficou “líquido” como bem descreve Zygmunt Bauman em seus livros. Parece que só globalizamos a miséria, a violência e o medo. Precisaríamos de uns trezentos ou quatrocentos anos para nos adaptarmos sadiamente ao que aconteceu nos último trinta.

Os números do suicídio são verticais, afetam todas as classes sociais e econômicas e a dor que não respeita nada pode nos atacar dentro de um ônibus indo para o trabalho ou em um iate nas costas do mar Egeu.

Se alguém me perguntasse que cor daria para setembro, certamente não escolheria o amarelo de “cuidado” como nos semáforos. Usaria e vermelho de “pare”!

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 * CVV disque 141