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A ex

Quando o carro estacionou, ele rapidamente desceu para abrir a porta. Mistura de gentileza e constatação de fragilidade (não é tão fácil sair do carro), também chamada de galanteio. Ação antiga, onde homem facilita a vida da mulher; seja puxando a cadeira, facilitando descer a escada e até recentemente, pagando a conta do restaurante. Tudo isso como arma de sedução, mostrando que a vida com ele seria fácil e confortável.

Ela retribuiu com um sorriso, mas percebeu que havia algo diferente no olhar dele.

Haviam se conhecido há poucas semanas por um site de relacionamento. Ela, solteira a algum tempo, logo percebeu que ele não estava habituado ao jogo da conquista. Depois de alguns e-mails protocolares, para criar as condições da conversa aprofundar, confessou estar viúvo a alguns meses, depois de um casamento de 25 anos.

Temos um ótimo candidato, pensou ela, quando recebeu a primeira foto. Viúvo, no fim das contas, é um comprometido que não tem como voltar para a ex, disputa sem concorrência. Sua experiência e das suas amigas, mostra que tem relacionamentos que parecem nunca terminar, mesmo que a separação aconteça. Nada é mais difícil que uma ex presente, como uma sombra, em novo relacionamento.

Quando ele a convidou para jantar, perguntou meio sem jeito, se ela gostaria de conhecer a casa onde morava. Aquele convite feito timidamente, quase constrangido, a encantou, mesmo sabendo que o desfecho seria esperado.

Durante o jantar notou que ele estava nervoso e quase não tocou na comida. De certa forma, isso a divertia, é como se ela tivesse o poder sobre ele. Essa timidez sempre encanta, já que dá a impressão de não ter tido muitas mulheres em sua vida.

Menos comparações, foi o pensamento que ocorreu quando ele, com um leve tremor na mão, deixou cair vinho na toalha da mesa.

A bebida foi cumprindo sua função e ele foi relaxando aos poucos, mas demorou para  pegar na sua mão, o que já estava demorando na avaliação dela. Buscar o toque é a constatação física do interesse.

Ela correspondeu, pressionando levemente os dedos dele, mostrando um sorriso tímido e desviando o olhar, dando a impressão de que isso não aconteceu muitas vezes. Ele reagiu como esperado, ficando mais confiante.

Tudo passou rápido pela sua mente enquanto caminhava em direção a porta pelo pequeno jardim bem cuidado, com rosas e outras flores ornamentais. Ali, a presença da ex  já se fazia notar.

Enquanto ele procurava a chave da porta, claramente nervoso, ela perguntou se conheceria seu único filho de 12 anos.

– Hoje ele está na casa da minha irmã. Na próxima vez com certeza!

Sentiu uma ponta de decepção.

Esperava, mesmo pelo pouco tempo que se conheciam, entrar naquela casa como uma potencial futura esposa, não como o resultado de um jantar romântico, onde o sexo é quase um protocolo.

De novo, percebeu a diferença no jeito que ele a olhava. Dessa vez não teve dúvidas; não havia mais ternura, somente desejo. Aquele olhar que não leva a alma em conta, que é só do corpo como um instinto sem humanidade. Um olhar silencioso, como aquele que antecede uma explosão esperada. O mesmo que os documentários mostram no leão quando identifica a zebra a ser abatida.

Pensou em ir embora enquanto ouvia os estalos da fechadura.

Vou ficar e deixar esse romantismo feminino de lado, pensou. Isso não é um filme, é vida real! O que esperar de alguém que está carente a quatro ou cinco meses?  O fato de estar na casa dele, já é um sinal de que me leva a sério. Claro que o filho não estaria em casa, iria atrapalhar os planos dele e a sua irmã quer ajuda-lo e vê-lo feliz novamente. A sociedade tem pressa em dar uma nova esposa a um viúvo, mas cobra menos pressa da mulher, exigindo uma solidão em forma de homenagem. Pensamento masculino de milhares de anos que ainda vigora.

Ao entrar na sala deparou-se com um grande porta-retratos onde ele e a ex estavam abraçados, ela de frente para a câmara e ele de costas. Ao lado, outras fotos menores do filho, avós e  lembranças de viagens. Teve a impressão de que ela, pela expressão do rosto, sabia que essa foto estaria naquele lugar, para deixar claro quem dominava o território. Um arrepio percorreu a espinha.

Olhou em volta e a decoração tinha um claro toque feminino. Mulher sabe e pode até desvendar alguns traços da personalidade da concorrente. Lembrou que ela não estava ali pelo casamento ter acabado, por ele não gostar mais dela. Não fosse pela doença que a vitimou, ela nunca estaria ali, com ele. Mesmo que ele se apaixone por mim, pensou, será sempre por ela ter morrido. Não houve disputa,  nunca poderei me sentir superior. Teria que conviver com isso.

Percebeu que não havia mais fotos dela na sala e que o vaso, em cima da mesa, estava vazio. Provavelmente uma diarista cuida da casa e dificilmente um homem e um pré-adolescente lembrariam de colocar flores no ambiente.

Sentiu o toque dele em seus ombros. Sabia que, ao virar-se, tudo começaria.

Tinha a seu favor o fato de ser uma novidade para ele. Acostumado a vida familiar, se tudo desse certo, ele a quereria ali, em breve. Precisaria, aos poucos, mudar toda decoração e a cor das paredes. Tirar os vestígios da antiga dona.  Agora, seria seu território!

Mal conseguiu se concentrar no primeiro beijo. Só pensava em como fazer para tirar aquela foto dali.

A velha TV

Nem todo mundo que faz sua caminhada cedo pela manhã, necessariamente acorda cedo. Eu, começo a despertar no final do primeiro quilômetro, lá pela terceira música que toca no celular com o volume bem baixo, para não irritar. Como nada é somente ruim, o automatismo das ações antes de sair e do mesmo trajeto, ajudam a fazer tudo isso sem precisar estar, necessariamente, acordado. Diria algum especialista em sono que este estado, nem lá nem cá, chama-se hipnopômpico.

Pois assim estava, “hipnopompicamente” caminhando quando me deparei com uma televisão jogada fora. Como hoje, somos todos fotógrafos e cinegrafistas, resolvi clicar, mas sem nem saber o motivo. A esperança é que quando acordasse aquilo faria algum sentido ou seria mais uma dessas ações que terminam em nada.

Alguns minutos depois, não sei se levado pela música que ouvia ou por falta do que pensar, a imagem da televisão na calçada me veio à mente e junto com ela algumas sensações e pensamentos. Somos movidos por tantos estímulos que nem nos damos conta que nossas escolhas e suposta liberdade, até mesmo de apenas pensar, sejam realmente nossas?

A televisão nem era tão antiga assim, pensei. Era do tempo do tubo de imagem, o que sempre exigia um espaço para que o aparelho “respirasse”, não podendo encostá-la na parede. Hoje, as televisões ultramodernas, pelo visto, dispensam o oxigênio. Lembro das primeiras, na minha infância com a parte de cima em madeira, antena longa e seletor de canais redondo, que girávamos como uma maçaneta. Naquela época, mudávamos pouco de canal, não só por termos poucas opções, mas precisávamos levantar e dava preguiça. Controle remoto só veio mais tarde, causando um assombro de tecnologia. Por ali fomos ficando mais preguiçosos, e logo em seguida, os carros tinham os vidros elétricos. Viramos reis, vontades atendidas em um toque!

Para os mais jovens, onde tudo é touch screem, isso é tão fora da realidade quanto um selo de carta, mas como diziam os antigos: Recordar é viver…

Como não era tão antiga assim? Foi um pensamento abrupto.

 Caí na realidade e percebi que ultimamente nada para mim é “tão antigo assim”. Depois de uma idade, precisamos encurtar o tempo, fazer de conta que os anos têm seis meses, ou que tudo é mais veloz do que realmente é. Mente e corpo vão se separando depois dos cinquenta. Um dói aqui e ali e o outro insiste em uma juventude onde tudo é mais fácil, sem joelhos, dores de coluna ou óculos que aumentam o grau a cada ano.

Hoje, onde tudo é Smart, essa velha senhora perdeu a validade. Tomara que tenha morrido, tenha sido largada na rua por não funcionar mais. Seria desrespeitoso pô-la fora ainda funcionando, apenas por não oferecer os recursos modernos. Mais ou menos como se faz com as pessoas no mercado de trabalho.

Por mais que ela não tenha sido brilhante, tenha só servido para novelas, os jornais de sempre e os imortais programas dominicais que, pasmem, já existiam antes dela e continuarão até os modelos que ainda nem imaginamos, ela conseguiu aumentar o tamanho do mundo de quem assistia.  Mas nem isso garantiu-lhe algum respeito. Não serve mais, ninguém quer e, se estava doente, não valia a pena pelo preço do conserto.

Triste fim.

Quem sabe, um dia não esteve conectada às primeiras parabólicas, tão grandes quanto a que a NASA usa para receber mensagens do espaço. Imagem limpa, mas nada como o HD de hoje em dia, onde as atrizes precisam de muito mais maquilagem para que eventuais espinhas e falhas na pele não as denunciem como mulheres iguais às que vemos nas ruas.

Um dia, essa televisão era o que tinha de mais moderno, mas o tempo, que torna tudo cada vez mais obsoleto rapidamente, a fez chegar a velhice sem sequer ter terminado de ser jovem.

Nós, da geração do seletor de canal, do celofane azul e amarelo para transformar o preto e branco em bicolor estamos passando como ela. Só o que permanece é a Maizena e o Sílvio Santos, holograma que ainda imaginamos vivo.

Na volta da caminhada ela não estava mais lá. Levada pelo caminhão do reciclável, reencarnará em algum plástico e nunca ninguém poderá imaginar sua vida passada, quando ver apenas uma torradeira ou um ventilador. Já o tubo de imagem, por onde assistíamos a emoção e a tragédia, esse não tem mais jeito. Precisará terminar, vida única, sem paraíso ou inferno.

Hoje também vamos para a reciclagem como doadores de órgãos, ato sublime de despedida, dando utilidade ao que temos de plástico. Mas nossas histórias, alegrias e tristezas não têm chance. Desaparecerão e terão algum eco na memória dos que ficam, cada um com seu jeito de lembrar de nós.

No fim, posso só ter usado essa televisão para ficar pensando, talvez imaginando tudo apenas para ocupar a cabeça.

 Mas afinal, isso não tem problema, fazemos isso o tempo todo com tudo e todos que estão a nossa volta.

Ambição e Necessidade

“ Poucos veem o que somos, mas todos veem o que aparentamos”.

                                                    Maquiavel

 

“O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.”

                                                     Nietzsche

“Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho.”

                                                     Ambrose Bierce in Dicionário do Diabo

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Maquiavel foi um dos muitos injustiçados da história. Ter seu nome vinculado a atos de maldade e interesses escusos é no mínimo uma constatação de que não foi lido. Seu grande mérito, em meu entender, foi transformar Reis e Príncipes que, em sua época, só prestavam contas a Deus, em políticos. Políticos são pessoas comuns, como eu e você, que querem o poder e, para tanto, fazem o que deve ser feito. E aqui cabe já uma curiosidade: Maquiavel nunca escreveu que “os fins justificam os meios”. Essa frase famosa nada mais é do que uma interpretação ou tradução malfeita. Poucos em tão poucas linhas (seu livro O Príncipe é pequeno) desnudou a natureza humana com tanta precisão e sem afetamentos. Maquiavel nunca falou de um homem idealizado mas do real, que quer atender seus desejos e busca a felicidade pelo caminho que sua capacidade de percepção permite.

Aliás, é nesse ponto que podemos começar: existe mesmo uma “natureza humana”?

Alguns, como Heidegger, dizem que não; que nossa natureza se faz na medida em que vivemos, que somos sempre uma possibilidade muito moldada pelo contexto onde estamos inseridos. Que o fato de vivermos em grandes conglomerados nos empurram para sermos muito parecidos uns com os outros e isso se dá pelos limites de expressão cada vez menores que temos como condição de podermos viver junto a uma grande quantidade de pessoas. Heidegger diz que o homem que vive mais junto a natureza e com menos pessoas a sua volta consegue uma originalidade maior em seu Ser, na medida em que está menos pressionado. Poderemos, para apoiar essa ideia, nos perguntarmos se existe um número menor de doenças emocionais em quem vive em lugares menores em comparação a centros urbanos mais povoados.

Seria lícito observarmos que, à medida que a sociedade se “desenvolve”, cada vez mais aumenta o número de pessoas com doenças ligadas a ansiedade, visto que o cerco está se fechando cada vez mais em termos de expressões individuais. Cada vez precisamos seguir mais um padrão de normalidade, o que negaria a biologia, já que para esse ramo da ciência não existem duas pessoas iguais.

A ansiedade, conhecida como o “mal do século”, é definida como um sentimento de apreensão em relação ao futuro, um medo constante de que algo que tememos venha a acontecer. Aqui poderemos, usando da liberdade, dar mais um passo e dizer que em um nível mais profundo, a ansiedade é o medo de nunca sermos únicos em relação aos demais, da originalidade que nunca se expressa.

Para quem entende que existe uma natureza comum a todos os humanos se apoia na ideia que temos semelhanças entre os homens, e isso só poderá acontecer se houver algo em comum.  Podemos, em tese, sermos tudo que outros seres humanos já foram, colocando até um toque pessoal. Mas mesmo que possamos ser qualquer coisa, não quer dizer, necessariamente, que realmente seremos isso ou aquilo. É como se a ideia de uma natureza comum se baseasse em um potencial que todos temos, mas sabemos que um potencial não quer dizer sua efetiva realização.

Esse é um assunto polêmico que não chegaríamos a uma conclusão, mas Maquiavel faz uma dura assertiva que nos coloca dentro de um padrão comum; que os seres humanos só agem por ambição ou necessidade. Se ele estiver certo, mais do que termos algo em comum, além da constituição física, somos todos prisioneiros.

Quando agimos por necessidade não temos escolha. A necessidade está ligada a sobrevivência e isso tem vários níveis, não só não morrer de fome. Necessidade também está ligada a um desejo que precisa ser atendido rapidamente, sob pena de nos trazer sofrimento. A necessidade não nos dá muitas escolhas e o que muda é a categoria: urgente ou emergência. Assim, não temos muita liberdade e nossas ações são mais reativas, já que estão sendo impulsionadas por uma pressão interna. Agir por necessidade não é um ato livre ou proativo já que é um desejo extremo a ser satisfeito que está na origem do ato.

Já ambição, ah…a ambição! Maquiavel diz que somos todos ambiciosos, e até querer não ter ambição alguma não deixa de ser uma espécie de ambição. Quando quero ser visto, por exemplo,  como alguém “superior”, que é desapegado da materialidade, quase um santo, a ambição de ser admirado e elogiado é o desejo a ser satisfeito.  Aqui também está presente uma necessidade que se ambiciona.  Afinal o homem é um ser desejante, age por desejo, busca realizá-los e é isso que o move na vida. Quando dizemos que não desejamos algo é somente por dois motivos: não entender que aquilo possa fazer-nos mais felizes ou não nos achamos em condições de obter tal desejo. Temos uma forte tendência de dissimular nossas ambições, até como uma condição para que elas possam se realizar um dia. Ambicionar viver longe de todos em uma praia deserta ou em um bosque lindo é simplesmente um desejo de fugir de constatações sobre nós mesmo que, por não serem muito agradáveis, projetamos sobre os outros.

 Ambição é tão institucional em nossa sociedade de consumo que não pega bem em uma entrevista para auxiliar de escritório de uma multinacional dizer que você não almeja ser o CEO no futuro.

Júlio Pompeu, em seu ótimo livro sobre Maquiavel diz com precisão:

“Nossos desejos são ilimitados. Eles não são uma demanda do corpo pelo que lhe falta, mas muito mais do que isso, são demandas por tudo que não possuímos. Se os desejos fossem apenas uma demanda do corpo físico, uma busca pelo que ele necessita para viver, como água, alimento, etc., então a saciedade do corpo seria o limite dos desejos. Mas nosso desejo não tem limites. Eles são a demanda do homem como um todo. De sua inteireza: corpo físico e psíquico. Desejamos não apenas o que falta ao corpo, mas também o que falta ao espírito, como riquezas, prestígio, honrarias, poder, etc.

O corpo físico é saciável, o espírito não. ”

E arremata dizendo que “a ambição é apenas uma valoração cínica ou alienada do desejo.” E nunca podemos esquecer que junto com a ambição nasce a esperança de que ela se realize. Para Maquiavel, essa combinação leva o homem para o abismo, já que ele pode perder a capacidade de avaliar seus riscos.

Assim, ambição e necessidade são como tijolos unidos pelo desejo. Essa para Maquiavel é a nossa natureza comum e isso não deve ser visto como bom ou ruim, simplesmente é assim.

A ambição nos faz maus, já que não queremos ser assim e os desejos nos enfraquecem por não os conseguir, todos.

Ter essa consciência é o que pode mover o homem para evitar que seja arrastado como tantos outros já foram, e são diariamente, por atitudes que os desonram. Se Maquiavel fosse vivo em nossos dias ele seria muito previdente contra essa fúria que pede a execução em praça pública dos corruptos. Ele simplesmente diria que os que desejam a execução sumária nunca tiveram milhões à sua frente para poder recusar.

As ideias de Maquiavel sobre como somos não são o que nosso ego gostaria de ouvir. Mas a atualidade dos seus pensamentos, tantos séculos depois, mostra que poucos foram tão efetivos e objetivos em nos desnudar. Muitos outros, falaram de um tipo de homem idealizado, potencialmente bom, piedoso e com outras qualidades difíceis de encontrar na realidade. Kant com seu imperativo categórico de uma ação universalmente boa e totalmente desinteressada ou Rousseau, com uma certa ingenuidade, quando diz que o que nos torna maus é a sociedade e que é ela que devemos mudar para que nossa natureza piedosa aflore, falam de utopias. Nossa capacidade de fazer o bem é a mesma de fazermos o mal, e isso, para Maquiavel, serão ações sempre tomadas por desejo ou necessidade.

Somente nos aceitando como somos que poderemos ir além ou, apesar de ser como somos, sermos melhores.

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Para saber mais:

Somos todos maquiavélicos – Júlio Pompeu. Editora Objetiva, 2011.

O Príncipe – Maquiavel – obra de domínio público.

A Vida

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A foto do menino correu o mundo. Virou símbolo da tristeza nacional e da dor que Chapecó transmitiu para todo planeta conectado. De Cristiano Ronaldo a Guns’n’Roses mensagens de apoio, com a oração do Papa e estádios e prédios pelo mundo em verde. Dessa vez, não simbolizava esperança.

Morreram jogadores do país do futebol, jornalistas, dirigentes e torcedores que estavam realizando o sonho de viajar com o time para sua disputa mais importante. Era hora de se tornar “grande” e a expectativa era imensa. Todos sentiram a tragédia, mesmo quem tentasse não pensar nela, escondendo-se nos afazeres diários. Há quem diga que existe uma “mente coletiva”, soma dos nossos pensamentos e foi isso que não nos deixou parar de doer. Nos colocamos no lugar dos torcedores que perderam seu time e os ídolos que poderiam se eternizar na conquista. Quem é pai ou mãe, nem se fala. Nos colocamos no lugar dos filhos, e não é difícil lembrar que um dos primeiros medos que temos consciência é de que a morte leve nossos pais, símbolo na nossa estabilidade e segurança, de quem chega em um mundo tão estranho.

Perdemos jogadores e jornalistas que não nos conheciam, mas que nós conhecíamos. Faziam parte da nossa vida com suas jogadas, entrevistas e comentários. Gente que entra na nossa vida pela televisão, celular e tablet, que passa a conviver conosco e que também explicam quem somos, seja por torcer, seja concordar ou não com suas opiniões.  Os mais velhos, derramaram lágrimas mais uma vez e descobriram que a dor é sempre nova. Dá um desânimo quando percebemos que nem a experiência do sofrimento torna a dor menos intensa. Choramos por que continuamos esperando que a vida tenha algum nexo. Quanto mais pensamos, nos damos conta  que as explicações não fecham e que se todos virássemos “estrelas” precisaríamos de mais um ou dois céus.

Não basta se colocar no lugar do outro, como nos mandam os princípios iniciais da ética dos limites e do respeito, mas há quem diga que o que conta é sentirmos o que o outro sente.

Esse menino sentado na arquibancada vazia, está velando sua esperança.

Ainda faz parte de sua vida as histórias onde os super-heróis sempre vencem o mal no último minuto, o “mocinho” conquista a donzela e encontram a felicidade eterna ou quando a justiça pune o malvado para mostrar que nesse mundo o bem sempre vence e o mal não prospera.

Imagino que ele esteja procurando colocar o que aconteceu com seus heróis de chuteiras nesse mundo que lhe venderam desde que nasceu, onde todos têm um anjo da guarda, penúltimo recurso diante das adversidades que têm por função nos salvar. Quando ele ainda não dá conta, sempre tem Deus, Pai Maior, que cuida e vigia a todos nós em nossos pensamentos e ações que, com certeza, luta o tempo todo contra as maldades e injustiças que podem nos vitimar.

O que nos choca é tentarmos colocar isso dentro dessa “lógica” de dois mil anos e fica faltando o mais importante; o por que?

As “linhas tortas”, parece, não chegam a lugar algum mas podem ser, quem sabe, uma consolação que não se entende nem tem muita lógica. Mas o que tem?

Esse é então, nos asseguram os contadores de histórias, o mundo do bem. Aqui ser correto abre todos os caminhos e agradecer todo dia por tanta proteção é a última das obrigações antes de dormir, assim como abençoar a comida que compramos, mas que nem é mérito nosso, parece.

O que falta nos países miseráveis onde milhares morrem de fome diariamente é o agradecimento, a oração ou anjos. Só pode!

Mais tarde nos damos conta que Papai Noel não existe (é apenas uma licença poética) e o professor de biologia nos dará a triste notícia que os coelhos não botam ovos. Vamos crescendo e percebendo que o mundo de verdade é que cria o mundo perfeito dos cinemas e das histórias, para fazer um contraponto. Quando os adultos choram nos filmes românticos, só pode ser por descobrirem que o amor de gente de verdade é bem mais difícil e pode acabar sem um final feliz.

Precisamos de um mundo idealizado para suportar a crueza da realidade.

Amadurecer é tomar consciência de uma fragilidade inescapável. Podemos morrer, pessoas que gostamos também e se vê na televisão que uma chuva ou vento destrói casas como a nossa. Nada há que possamos fazer para evitar e a insegurança cria as diversões e paixões da vida, momentos em que esquecemos que tudo pode mudar em um minuto.

Esquecer é, muitas vezes, a condição da alegria. E a felicidade só dura pouco, como diz a sabedoria popular, porque nos lembramos.

Mas isso tudo vai acontecendo, uma descoberta de cada vez e vamos nos acostumando, perdendo as ilusões e a graça em conta gotas.

Esse menino, perdeu tudo de uma só vez.

Dois de novembro

O túmulo era em mármore negro. A antiga foto preto e branco mostrava um rosto jovem e sorridente em uma moldura dourada. Abaixo, as datas que marcam a passagem, sempre efêmera para quem fica com a dor da morte; os vivos.

Ela carregava um pequeno vaso com flores de plástico, que, hoje sabemos, também morrem, como tudo. Nas lágrimas mais escassas a cada ano, lembranças de pessoas que já não existem mais, independente de terem ou não morrido. Os filhos não vieram, de novo. Compromissos com a vida, sempre mais urgentes. Parece que eles pensam que os mortos sempre podem esperar. A cada ano, uma oportunidade de resgatar as ausências anteriores que nunca se cumprem.

Transformou seu pensamento em som, murmurando baixo, querendo enganar a si mesma e ao falecido:

– No ano que vem eles virão.

Lembrava da sua infância enquanto passava um pano umedecido na lápide. Naquela época, não se ouvia música nesse dia. Era proibido falar alto, e todos tinham a obrigação de se mostrarem tristes, inclusive as crianças, quem nem sabiam ao certo o que era morrer. Não via a hora desse dia terminar. Na manhã seguinte podia voltar a sorrir e a brincar. Demorou a entender o dia de finados.

Tudo foi ganhando significado com o tempo; os avós, depois os pais. Perdas que vão nos empurrando para um canto, onde estamos sós no mundo. Os filhos salvam a angústia, pois poderemos viver na vida deles e dos que virão. Eternidade garantida pela ciência que pouco consola.

Quando se despediu, lembrou com um arrepio que a idade já não poderia garantir a visita do próximo ano. Quem sabe? Ao lado, um túmulo vazio que ela se recusava a olhar. Encontro marcado, cada vez mais próximo. Engoliu em seco.

Enquanto caminhava em direção ao portão, observou que cada ano tem menos gente nesse dia no cemitério. Muitos vão antes, principalmente se o feriado fica perto de um final de semana. O dia de finados não é dia dois, mas começa ou termina sempre mais tarde ou cedo, dependendo dos compromissos. Concessões em favor do trabalho ou de uma folga para descansar. Primeiro a vida e por que não?

No noticiário, os comerciantes de flores dizem que o movimento caiu muito. Um post no Facebook divide a dor da saudade com mais gente, um smile chora por nós e dá menos trabalho. Facilidades inegáveis da vida moderna.

Na rua, pessoas caminhando, outras correndo e bicicletas com gente colorida. Namorados de mãos dadas, vivendo momentos em que a morte nunca existiu e existirá. Cinemas lotados, lojas abertas no shopping e futebol à noite na televisão.

Olhou para si, em um susto. Percebeu que nesse ano não veio com sua saia e blusa preta. Pensou em se sentir culpada com sua calça jeans, tênis e camiseta amarela. Está calor, pensou, enquanto lembrava a si que nunca deixou de visitá-lo nesse dia e que a roupa pouco importava. Percebeu uma certa raiva, quando um pensamento maldoso lhe perguntou se ele viria todo ano se fosse ela que tivesse morrido.

– Perigava trazer a outra junto. Nunca ele iria respeitar a viuvez como eu. Também não sei se tivesse me casado de novo se viria todo ano. Guardaria as fotos em uma caixa, a vida precisa continuar.

Pensamento que consola e se vinga de situações impossíveis, por nunca terem se tornado reais. Como vivenciamos e imaginamos saídas e soluções mágicas, que não combinam com a realidade!  Sonhos de olhos abertos que colocam algum brilho na vida real, tão áspera e injusta.

Sua vida continuou, mas sem um novo amor ou companhia, que no fim da vida se tornam sinônimos.  Ainda ostentava o título de viúva, solteira por imposição do destino e falta de novas chances.

Chegou em casa e caiu no sofá. Nas paredes em cima do balcão, muitas fotos para fazer de conta que a família existe. A verdade é a solidão. Talvez um filho “dê uma passada” no final de semana, quem sabe? Visitas cada vez mais rápidas, às vezes trocadas por duas ou três palavras no Whats que ela finge entender e mostrar que não precisa de nada, sempre que vem essa pergunta protocolar.

Um dia, ela também será só um retrato e, quem sabe, uma lembrança a cada dia dois de novembro.