Agenda

2012 – O ano do PONTIFEX

Não nascemos humanos, nos tornamos humanos.

Joseph Campbell

Tarô de Marselha

O Sumo Sacerdote (Papa) Tarô de Marselha

 

É comum, devido a estudos sobre simbologia numérica que faço há muito tempo, as pessoas perguntarem para que cada ano é favorável. Assim, mesmo que já estejamos em março, não é tardio estudarmos um pouco sobre o que nos recomenda esse ano 5, já que 2+0+1+2=5.

Cada número traz em si um ensinamento velado sobre estados de consciência e etapas evolutivas que o ser humano busca da ignorância a iluminação de sua percepção quando atinge a capacidade de “ver” sem julgar.

Dessa forma, assim como em artigo anterior estudamos o número 11, vamos agora buscar as principais características desse número cinco, mesmo que de forma superficial, já que esse blog se destina a busca do autoconhecimento e esse tipo de saber é muito importante.

Para Pitágoras, o cinco representa a liberdade, a busca de desbravar novos lugares e, como o “outro lado” uma inconstância, aversão a rotina de qualquer espécie e uma sensualidade marcante que o faz trocar de parceiro movido pela eterna busca de novas experiências. Por dividir os números mais voltados a realidade (1,2,3 e 4), dos mais voltados a espiritualidade (6,7,8 e 9), ele transita por todos com desenvoltura e explica essa dificuldade de permanecer muito tempo em um mesmo lugar ou relacionamento. O cinco pitagórico é, acima de tudo, livre e descompromissado, sempre pronto a viagens e novas experiências como uma facilidade incrível de se entediar.

Porém, se buscarmos um mergulho mais profundo encontraremos o Cinco ligado a figura do pontifex, que em sua etimologia significa ponte e para os católicos o Papa. Também o Cinco representa o número simbólico da quinta-essência que é a preciosa e indestrutível qualidade só conhecida daquele que transcende os quatro elementos primários (terra, água, fogo e ar) tão comum aos homens quanto aos animais. Poder-se-ia então dizer que a verdadeira humanidade só é atingida quando experimentamos a quinta-essência.

Então a figura do Papa significa a pessoa que faz essa ponte do homem com a divindade, ele exterioriza essa luta em busca do verdadeiro significado da existência. Cabe então ao Papa tornar acessível ao homem o mundo transcendental, que normalmente acessamos apenas pela intuição. Por isso, nos baralhos antigos de tarô ele poderia simbolizar um médico, padre, terapeuta ou guru, ou seja, alguém que ajudaria a “entender” e buscar significado da vida de forma total, não só ligado ao temporal.

Essa busca pela transcendentalidade é sempre importante na medida em que nos ajuda, pelo conhecimento de si, a nos tornarmos cada vez mais conscientes de nossa capacidade para o bem e para o mal que, normalmente, projetamos para fora de nós nas pessoas e situações que criticamos e adoramos.

Na figura que ilustra esse artigo, onde tudo tem um significado, vemos nosso Papa segurando seu cetro com a mão esquerda, o que mostra que essa busca por um significado é via coração e não pela razão, sempre coberta pelos véus dos condicionamentos e pré-julgamentos que, impostos desde cedo, nos tiram a capacidade de vermos por si, mas entendermos tudo com lentes distorcidas e sempre muito, muito antigas…

Assim, o cinco representa o Logos na figura do Cristo, que é o representante de Deus e também um ser humano, o que nos ensina que, pertencemos ao Tempo, mas com essência imortal. Como nos ensina Jung, sem essa interação entre o humano e o transcendente, nem a consciência do homem nem o espírito poderiam evoluir.

O sinal chinês indicativo do homem é o pentagrama, onde a ponta da estrela voltada para cima demonstra o domínio de si mesmo e a vitória da consciência sobre os instintos, onde, quando usado como amuleto, guia e protege o homem. Já quando essa estrela está com a ponta para baixo, temos a desordem intelectual, subversão e loucura, o que simboliza um mau presságio e a magia negra.

Como curiosidade numerológica é interessante observar que o número divino da plenitude e da criação é o 10. Metade é 5. No corpo temos  a simetria que exige que dividamos o corpo em dois lados, sendo que em ambas as partes encontramos o 5: temos 5 dedos em cada mão, portanto 10 no total. Da mesma forma nos pés. Temos 32 dentes, com a soma (3+2) igual a 5. A arcada dentária superior tem 16 dentes que soma 7 (1+6) e a inferior também. Assim temos 7+7= 14 que nos traz o 5 pela redução de 1+4. O número dos sentidos também é 5. Ao adicionarmos os membros, dois braços e as duas pernas juntamente com a cabeça encontramos mais uma vez o 5. O corpo humano cabe assim na estrela de 5 pontas e, segundo os estudos antigos, a corrente vital circula pelo corpo na forma dessa estrela. Abaixo, temos um pantáculo antigo usado como proteção, cheio de simbolismos.

Portanto, o cinco, ou nosso Papa interior é a função em nós mesmos que nos governa o bem-estar espiritual, a consciência inata que nos diz quando erramos contra nós mesmos. Aprender a “ouvir” o Papa torna nossa voz interior tão merecedora de confiança que nos tornamos divinos.

Assim, respondendo a pergunta, 2012 é um ótimo ano para viagens, mudança de rotina, de trabalho e novos relacionamentos. Pitágoras recomendaria evitar as viagens mais perigosas via estimulantes químicos que o cinco gosta de fazer para “viajar” sem sair do lugar ou quando está entediado. Mas, sem dúvida, é um ano para criarmos a “ponte” que nos leve ao nosso mundo interior, buscar o autoconhecimento, estudar filosofias, religiões e buscar uma prática espiritual.

Independente de o mundo acabar ou não como, segundo dizem, os Maias profetizaram, se você conseguir encontrar-se com seu Papa interior, tudo já terá valido a pena.

Use a energia do cinco e arrisque-se!

Zen Budismo

Um discípulo procurou  Bodhidharma e disse:

– Eu não tenho paz de espírito. Poderia lhe pedir, Senhor, que pacificasse minha mente?

– Ponha sua mente aqui na minha frente – replicou Bodhidharma – Eu a pacificarei!

– Mas é impossível que eu faça isso!

– Então já pacifiquei sua mente!

                                                                                                                                                              

O Zen é completamente diferente de qualquer outra forma de budismo e mesmo de qualquer religião. Isso tem provocado muita curiosidade nas pessoas e despertado um interesse cada vez maior. Ele é indicado para todos aqueles que estão cansados de religiões e filosofias convencionais, basicamente porque dispensa todas as teorias, instruções doutrinárias e qualquer formalidade. Nessa hora, para nós acidentais, fica difícil pensar que algo assim possa ser uma religião, afinal, o que aprendemos é exatamente o oposto. Enquanto as religiões em geral fazem uma descrição emocional ou intelectual de seus ensinamentos, o Zen é fundamentalmente prático, estritamente ligado à realidade, sendo considerado complexo, justamente pela sua simplicidade.

Como diz Allan Watts “Antes de tudo, os credos, dogmas e sistemas filosóficos não passam de ideias a cerca da verdade, da mesma maneira que as palavras não são fatos, mas descrevem algo sobre os fatos. Já o Zen é uma vigorosa tentativa para entrar em contato direto com a verdade sem permitir que teorias e símbolos se interponham entre o conhecedor e conhecido”.

Concordo, afinal a busca do Religare, quando acompanhada de toda essa parafernália ritualística, simbólica e comportamental, leva a darmos voltas sem fim, quase sem sair do lugar. Vejo a busca como pessoal, fundamentada na prática e, é claro, sem intermediários e uma infinidade de pré condições.

O objetivo da escola Zen é ir além das palavras e ideias afim de que a busca interior de Buda possa ser acessível aos demais “mortais”. Não existe nada de excepcional, pois o Zen consiste apenas em uma atitude mental que é aplicada de igual forma a, por exemplo, varrer uma casa ou como a prática rígida de qualquer ritual religioso. Esse tipo de atitude também foi tratada em artigo anterior com o título de “O Sofrimento”.

 Cabe lembrar que sofrimento existe pelo anseio que temos de possuir e manter para sempre coisas que em essência são impermanentes. Essa busca é uma maneira errônea de viver, afinal ela está contra o princípio da vida que é baseado justamente nas mudanças constantes.

De outra parte, o lado criativo de nossa mente é a nossa imaginação e é justamente ela que nos cria essa alucinação da separatividade, nossa ignorância mais essencial. Jung já defendeu a ideia de uma “mente universal” quando definiu o inconsciente  coletivo. O que acontece é que nós projetamos nossa própria ignorância no mundo exterior e o definimos e julgamos baseados nisso. Uma escritura Mahayana mostra isso com clareza quando diz: “As atividades da mente não tem limite e formam o ambiente da vida. Uma mente impura se envolve com coisas impuras e vice versa. Portanto o ambiente que criamos tem os mesmos limites das atividades da mente…Assim, o munda da vida e da morte é criado pela mente, está escravizado pela mente, é regido pela mente. A mente é a mestra de cada situação.”

Explica-se assim com facilidade que as Escolas orientais busquem esse estado que ultrapassa as barreiras da mente para encontrar a dita “iluminação” que nada mais é do que um estado de unidade com o todo, isento de todo e qualquer sofrimento, onde não existe mais o caos do aspecto mental ligado ao que “passa”, mas ao eterno, ligado ao que “é”. O homem comum que sofre o tempo todo olha para o mundo exterior para buscar sua felicidade (salvação), já que aprendeu que está nas formas materiais sua saída para a ansiedade e angústia. Tomara que chegue a hora em que ele perceba que não pode encontrar no exterior aquilo que está no seu interior, e que para chegar lá precisa suplantar a visão separada e desconexa da mente.

O Zen deixa de lado todas as definições e conceitos intelectuais e especulações de toda ordem, buscando sacudir seus adeptos de seus hábitos e crenças arraigados por gerações e de forma simples sair desse estado comprovadamente entorpecido e doentio. Tudo isso baseado na simples forma de sentar-se em meditação sem nenhum objetivo a não ser estar ali, e tomando uma consciência cada vez mais ampliada de cada movimento. Já sabemos que todo o sofrimento é alucinatório porque sempre se fundamenta em pensamentos ligados ao inexistente passado e inexistente futuro, numa roda de preocupações e lamentações sem fim. Estar aqui e agora inteiro de corpo e percepção é o fim da agonia. Uma de suas técnicas mais poderosas é o Koan que nada mais é do que do que um “problema” que é dado ao discípulo para resolver enquanto medita, só que sua solução não é intelectual, a resposta não tem conexão lógica com a pergunta e a pergunta é de tal natureza que embaralha o intelecto. Sua finalidade é de tanto se buscar essa resposta fora do âmbito ordinário da mente, suplantá-la! Quer experimentar?

Aqui está um homem numa árvore, segurando-se a um dos seu ramos com a boca, não se agarrando a nada com as mãos e nem tocando o tronco com os pés. Alguém ao pé da árvore pergunta: O que é o Zen?

Caso não responda essa pergunta não deixará satisfeito quem perguntou; mas, se falar, mesmo se disser uma só palavra cairá para a morte. Que respostas darias se fosses ele?” Um discípulo pode levar anos para chegar a essa resposta, mas se chegar venceu esse estágio mental ordinário de onde vem todos nossos problemas.

Quando for entendido na totalidade, não apenas intelectualmente, mas em cada atitude que o universo é agora, pois tudo está sendo criado nesse momento e o fim do universo também é agora, já que tudo está desaparecendo agora, poderemos almejar sair dessa alucinação que projetamos em tudo e todos.

Além disso o Zen é extremamente bem humorado, na medida quem seus principais mestres sempre responderam perguntas sobre a iluminação, de como chegar até ela de forma desconexa e sem sentido. Isso se dá justamente porque querer saber já é perder o que se busca saber. Certa vez perguntaram ao mestre Tung-shan “o que é o buda?” E ele respondeu: “Um quilo e meio de linho”. Nesse momento em que você e  quem perguntou ficam sem ação, tentando encontrar um sentido na resposta, não houve pensamentos negativos, medos e culpa na sua mente, ou seja, ela foi superada!

Importante entender que essa atitude desapegada diante da vida está longe de significar ir viver em uma montanha meditando o dia inteiro, já que nem lá escaparemos de nossas ilusões a respeito do que seja a vida. Vivemos em um mundo material e precisamos vencer nele também, sabendo que isso é parte, nunca o todo. Esconder-se atrás de uma ideia de espiritualidade ligada a pobreza e necessidades materiais pode muito bem ser uma ótima desculpa para a incompetência.

Mestre Pai-chang disse que o Zen é simplesmente “comer quando se tem fome, dormir quando se está cansado. Quando deseja caminhar, caminha; quando quer sentar, senta-se.”

Muito simples e muito difícil já que caminhamos quando podemos, paramos quando dá. Comemos na hora que nos disseram para comer e dormimos na hora que nos disseram que era certo dormir. Ficamos de pé quando queremos sentar e vice versa… Nada natural, nada escolhido! Apenas fazendo tudo isso contra a vontade esperando uma recompensa que nunca vai chegar.

 É como ter feito uma plantação de batatas esperando encontrar nela abacates.

Portanto, para quem está cansado de esperar milagres, salvação, bençãos e outras improbabilidades, a prática do Zen pode ser um jeito novo e bem mais real de fazer a verdadeira religião: estar bem consigo e com a vida por si mesmo, por entende-la em movimento, por aceitar que nunca poderemos controlar tudo e saber que a felicidade é estar em paz e relaxado…

Isso é ser Zen….

Para saber mais: “ O espírito do Zen” Allan Watts

O SOFRIMENTO

O segredo da saúde, mental e corporal, está em não se lamentar pelo passado, não se preocupar com o futuro, nem se adiantar aos problemas, mas viver sabia e seriamente o presente.

Sidarta Gautama

 

Nem eu nem você que me lê precisamos ser budistas para nos aproveitarmos dos ensinamentos de Sidarta Gautama sobre esse assunto. Particularmente ainda não encontrei alguém de definisse melhor o sofrimento humano como ele, e ainda mais surpreendente é que sua filosofia sobre o assunto não é estudada com profundidade na academia (faculdades ou universidades). Não que Freud não mereça nosso respeito, mas o ensinamento de Sidarta é imensamente mais útil e comprovável pela experiência, enquanto a teoria psicanalítica já dá sinais de “cansaço” e, em alguns países, já caiu em desuso. Tudo isso, é sempre bom lembrar, dito há 2600 anos…

Apesar do Budismo possuir muitas vertentes, vamos tratar do assunto de forma mais direta, o que quer significar que, de acordo com a abordagem, pequenas diferenças poderão ser encontradas, mas a essência é a mesma.

O mais conhecido de seus ensinamentos é chamado de “As quatro nobres Verdades”, que são: A verdade do sofrimento, a verdade da origem do sofrimento, a verdade da meta e a verdade do caminho. Falaremos muito resumidamente de cada uma delas dentro do enfoque dos dias de hoje.

Buda usou a palavra sânscrita duhkha que significa sofrimento, insatisfação ou dor. Essa insatisfação ou sofrimento ocorre porque nossa mente gira de tal maneira que seu movimento parece não ter princípio ou fim. Como já escrevemos em artigos anteriores, a natureza do pensamento é eminentemente negativa, já que nossa mente busca sempre a culpa (passado) ou medo (futuro) quando em estado livre, já que isso nos ajuda na manutenção da  vida. Quanto mais medo do futuro tiver, mais chances de nos mantermos vivos, já que não mudamos por medo. Evidentemente que isso gera insatisfação, afinal nossa natureza é de crescimento e evolução, fica sempre uma sensação de desconforto, angústia, de que está faltando alguma coisa em nossa vida mesmo que materialmente estejamos bem, com os relacionamentos em ordem, etc. Teimamos em buscar uma segurança impossível para podermos “descansar” e esse momento nunca chega. Se estivermos bem, felizes, tememos perder esse momento e nos esforçamos para buscar mais felicidade. Se estivermos tristes, com alguma dor, seja física ou emocional desejamos fugir dela. Estamos insatisfeitos o tempo todo. Assim, ao compreendemos a verdade de duhkha entendemos a neurose da mente e essa é a primeira nobre verdade; um eterno estar ocupado, uma contínua busca pelo momento futuro, caracterizando uma maneira gananciosa de viver, que atualmente em nossa cultura significa que quanto mais bens materiais tiver, menos vamos sofrer. É incrível que ainda se acredite nisso…

A partir do momento em que tomo consciência dessa insatisfação, precisamos buscar a sua origem. Examinando nossos pensamentos e ações  descobrimos que estamos sempre lutando para buscarmos essa segurança e nos destacarmos no mundo competitivo, então essa luta é a raiz do sofrimento, ou seja, fazemos do medo o sentimento que nos faz viver. Temos medo de morrer, de passarmos necessidades, de não sermos amados e reconhecidos, etc. Somos eternamente preocupados, vivemos o tempo todo projetando o futuro de forma negativa e, o que é pior, dentro de nossa cultura, isso (ser preocupado) é considerado uma qualidade! Essa é, portanto, a segunda nobre verdade, a verdade da origem do sofrimento.

Não é difícil perceber que quando falamos nas duas primeiras nobres verdades estávamos falando do ego, formado pela “educação”que tivemos, seja pela família, sociedades, valores culturais, etc. Como, para mim, educar é ajudar a pessoa a explorar seus potenciais naturais e não impô-los, chamo o que vivemos de domesticação. Muitos pensam que, por ser o ego a raiz do sofrimento, o aspirante à evolução deva pretender vencê-lo ou destruí-lo. Isso não funciona assim, já que é o ego que demarca as fronteiras entre eu e as demais pessoas, portanto ele também tem uma finalidade positiva, o que devo fazer é desobstruí-lo dos condicionamentos e medos para poder chegar a quem realmente sou. Nessa hora entra uma prática diária, de pelo menos alguns minutos de meditação. Essa prática me tornará mais consciente de mim e do que quero, das dificuldades e obstáculos a serem transpostos. O entendimento somente surge quando paro de lutar, quando paro de tentar dominar meus pensamentos negativos e simplesmente observo o funcionamento da minha mente. Escrevi em um artigo anterior que o verdadeiro guerreiro vence sem lutar, já que sabe que ele não é a sua mente, já que tem consciência que ela está condicionada e com medo. Assim, descobriremos que existe uma qualidade sã, desperta dentro de nós que só se manifesta na ausência de luta. Basta, segundo Buda,  abandonarmos o esforço por garantir-nos e estarmos seguros para que apareça o estado desperto. Logo percebemos que o “deixar estar” só é possível por poucos momentos, já que logo volto ao comportamento condicionado. Nesse momento uma disciplina é necessária para atingir o “deixar ser”. Essa disciplina é encontrada em uma caminhada de estudo e busca espiritual. Assim, a terceira nobre verdade é a não luta. Isso não quer significar que não me planejarei para o futuro e tudo mais, só que entendo que preciso parar de correr atrás do próprio rabo como fazem os cachorros e de quem rimos muito quando fazem isso.

Já a quarta nobre verdade é conhecida na maioria das linhas como o caminho óctuplo, ou seja: 1.Visão correta, 2. Intenção correta, 3. Fala correta, 4. Ação correta, 5. Meio de vida correto, 6. Esforço correto, 7. Atenção correta, 8. Concentração correta.

Porém, dentro do enfoque que estamos utilizando falaremos da quarta nobre verdade como a verdade do caminho, que é a prática da meditação dentro de uma consciência ampla de cada atitude e movimento que estejamos fazendo, seja andando, respirando ou fazendo o que for. Esse tipo de prática nos afasta também da ambição espiritual de chegarmos a algum lugar, de atingirmos algum estágio superior, etc. Ao me concentrar no presente, aos poucos, vou domesticando minha mente do vício de estar sempre vagando pelo passado com suas culpas e pelo futuro com seus medos e a ansiedade. Nesse estágio, sempre depois de algum tempo, seja o que estejamos fazendo ganha significado, diminui o sofrimento interior, o medo, etc.

Esquecemo-nos que as atividades podem ser simples e precisas, aprendemos a falar com vagar, sem pressa, já que se estamos sem ansiedade, dizemos o que deve ser dito, no tom e olhar correto. Sem isso, como já escrevi muitas vezes, somos apenas uma cópia de quem nos ensinou a ser assim.

A prática de viver a cada momento com total consciência chama-se meditação shamatha. Isso mesmo, não preciso estar sentado de olhos fechados para meditar, basta apenas estar presente! Isso simplifica o caminho óctuplo, já que dessa forma faço tudo correto. Para os budistas, quando renunciamos a toda esperança de atingir qualquer espécie de iluminação, o caminho espiritual se abre diante de nós, e é assim que funciona. Sei que é difícil colocar em palavras essa maneira de viver e o sentimento que traz. Só mesmo alguém como Lao Tsé pode nos ajudar:

O sábio permanece na ação sem agir,

ensina sem nada dizer.

A todos os seres que o procuram

ele não se nega.

Ele cria, e ainda assim nada tem.

Age e não guarda coisa alguma.

Realizando a obra,

não se apega a ela.

E, justamente por não se apegar,

não é abandonado.

Não há nada a buscar, não há nada a atingir, não há do que temer. Isso não quer dizer inação, mas ação lúcida e sem pretensões ou negociações. Assim é fácil entender porque Sidarta nunca falou de Deus. Sua visão da vida é simples e direta, dispensando um pai protetor e os milagres. As verdades de Buda são plenamente praticáveis no dia-a-dia. Fácil não é, já que aprendemos tudo de outra maneira, inclusive que a dor nos purifica, pode?

Observe que, muitas vezes tudo na sua vida está bem, e aí você busca algum pensamento ou idéia (que tem consciência de ser absurda) para continuar a se pré-ocupar, sofrer e ficar angustiado… Afinal se não estiver preocupado, provavelmente estarei sendo relapso ou descuidado com minha vida. Enquanto esse vício continuar, nada vai te libertar, nem todo o dinheiro do mundo, o relacionamento ou trabalho dos sonhos, já que, no minuto seguinte, terá medo de perder, seja o que for….

Você já imaginou viver sem sofrimento?

 

 

O estudo do ONZE

A Força

 

“Ah, se fosse assim tão simples! Se houvesse pessoas más em um lugar, insidiosamente  cometendo más ações, e se nos bastasse separá-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal atravessa o coração de todo o ser humano. E quem se disporia a destruir uma parte do seu próprio coração?”

Alexander Solzhenitsyn

Tivemos nessa semana uma daquelas datas que povoam o imaginário das pessoas e que é importante para muitas correntes místicas. Diz-se que em datas com números repetidos como esse 11/11/2011 abrem-se “portais” por onde aqueles que estão conectados ou preparados podem ter um aumento do seu nível consciencial pela sabedoria transmitida por seres mais elevados. Nesses dias nos horários completos como tivemos às 11hs, 11min e 11 segundos essa comunicação é feita pela abertura dos referidos portais. Caso isso tenha realmente ocorrido será muito bom, visto que, como sabemos, até por experiências já realizadas, quando um grupo de pessoas se “eleva” isso provoca um efeito no restante da população, já que parte-se do pressuposto que existe uma “mente coletiva” partilhada por todos nós. O lema é: tudo está em tudo, ou o que está no alto também está embaixo.

Porém, quero aproveitar essa data para falar do número que ficou em evidência, o onze, que, como os demais, tem um profundo simbolismo que pode nos ser útil em nossa caminhada em busca do autoconhecimento.

O onze é uma variação do número 2 (1+1), sendo, portanto um número eminentemente feminino. Tradicionalmente o onze é representado por três figuras a saber: uma mão fechada, um leão amordaçado ou a mais conhecida e que ilustra nosso artigo; uma mulher abrindo a boca de um leão. O onze é também chamado de “A Força”.

A nível psicológico o onze nos remete a mediação (entendimento) entre o ego e nossas forças mais primitivas. Como sabemos, o Leão é um animal selvagem e ameaçador e simboliza que não podemos enfrentá-lo (dominá-lo) de forma tradicional e violenta (masculina), nem podemos simplesmente ignorá-lo. Justamente por isso que esse importante conflito precisa ser realizado de forma subjetiva, interior e sutil, o que justifica plenamente a presença da mulher na gravura. Notem que ela abre a boca do leão sem esforço e não aparenta nenhum medo…

Mas o que é essa nossa parte simbolizada pelo leão? É o que o psicólogo Carl G. Jung chamava de “sombra”, ou seja, cada um de nós tem um personagem agradável para o uso cotidiano que busca a adaptação, respeito e acolhimento dos outros. Mas, também temos um “eu” oculto e noturnal que permanece amordaçado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos como raiva, ciúme, inveja, vergonha, falsidade, ressentimentos, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas, etc., ficam escondidas logo abaixo da superfície, encobertas pelo nosso “eu” de consumo externo, mais apropriado às conveniências. Como não gostamos de também ser assim, mantemos essa parte escondida (nos causa vergonha) e a negamos. Dessa forma esse importante território de nosso interior permanece inexplorado.

O grande problema é que esse lado escuro, por não ser dominado, sempre aparece em um momento de raiva, quando bebemos demais ou “perdemos a cabeça”. Nessa hora, nos mostramos mais completos e dizemos o que realmente sentimos e fazemos o que realmente queremos. Mas como isso não combina com a idéia que nós mesmos queremos passar, nos desculpamos dizendo que não sabíamos o que estávamos fazendo, etc…

O ensinamento do onze nos ensina que não podemos voltar às costas para nosso leão, já que sempre que isso acontece ele fica mais feroz e incontrolável. Se não o dominarmos, seremos visitados por doenças psicossomáticas, crises nervosas e são a causa da maioria dos crimes passionais.

Ocorre que esse leão só pode ser domado de forma sutil e acolhedora, reconhecendo meu lado obscuro. É muito fácil saber o que está escondido em nós, basta perceber o que mais me incomoda e me irrita no comportamento dos outros. Como o outro é sempre um espelho onde me reflito, minhas críticas e irritações com outras pessoas só acontecem porque elas me mostram esse meu lado que não quero lembrar que tenho. Também é importante entender o outro lado: tudo que admiro em outras pessoas são potenciais que também tenho que precisam apenas ser desenvolvidos.

Enquanto não domarmos nossa “fera” ainda não teremos atingido nossa plena humanidade, sendo, na melhor das hipóteses um animal que se desenvolveu um pouco mais que os outros da natureza. Só quando me conheço por completo, posso realizar o principal conselho de todas as religiões: o não julgamento! Afinal, quando tomo essa consciência, ao invés de criticar, vejo o outro como alguém que sofre como eu…

Reputo fundamental a reflexão sobre a frase de Jung: “Aquilo que não fazemos aflorar a consciência, aparece em nossa vida como destino.”

Agora algumas curiosidades:

No Sepher Yetzirah*, o décimo primeiro caminho é o da inteligência cintilante, pois diz-se que aquele que o percorre até o fim com “verdadeiro entendimento” pode ser autorizado a ver a face de Deus e continuar vivendo. Para a Cabala, portanto, o ensinamento desse caminho proporciona a verdadeira liberdade.

Para os Taoístas o onze também e representado pela união do 5 e 6, que são o macrocosmo e microcosmo, céu e terra, sendo o número que constitui a totalidade, a via do céu e da terra. É o número do Tao.

*O Sepher Yetzirah é um dos mais antigos e misteriosos textos da Cabala. As primeiras referências datam do século I. Tem uma chamada “versão curta” com 1300 palavras e uma “versão longa” com 2.500 palavras. Sua autoria é atribuída a Abrahão.

Se perdeu esse portal não se preocupe, ano que vem teremos o 12/12/2012. Enquanto isso, pense nos conselhos que o número onze traz…

 

Para saber mais:

Números, magia e mistério: ed Três

Ao encontro da sombra: ed Cultrix

Jung e o Tarô: ed Cultrix

Dicionário de Símbolos: ed José Olimpo