Zen Budismo

Um discípulo procurou  Bodhidharma e disse:

– Eu não tenho paz de espírito. Poderia lhe pedir, Senhor, que pacificasse minha mente?

– Ponha sua mente aqui na minha frente – replicou Bodhidharma – Eu a pacificarei!

– Mas é impossível que eu faça isso!

– Então já pacifiquei sua mente!

                                                                                                                                                              

O Zen é completamente diferente de qualquer outra forma de budismo e mesmo de qualquer religião. Isso tem provocado muita curiosidade nas pessoas e despertado um interesse cada vez maior. Ele é indicado para todos aqueles que estão cansados de religiões e filosofias convencionais, basicamente porque dispensa todas as teorias, instruções doutrinárias e qualquer formalidade. Nessa hora, para nós acidentais, fica difícil pensar que algo assim possa ser uma religião, afinal, o que aprendemos é exatamente o oposto. Enquanto as religiões em geral fazem uma descrição emocional ou intelectual de seus ensinamentos, o Zen é fundamentalmente prático, estritamente ligado à realidade, sendo considerado complexo, justamente pela sua simplicidade.

Como diz Allan Watts “Antes de tudo, os credos, dogmas e sistemas filosóficos não passam de ideias a cerca da verdade, da mesma maneira que as palavras não são fatos, mas descrevem algo sobre os fatos. Já o Zen é uma vigorosa tentativa para entrar em contato direto com a verdade sem permitir que teorias e símbolos se interponham entre o conhecedor e conhecido”.

Concordo, afinal a busca do Religare, quando acompanhada de toda essa parafernália ritualística, simbólica e comportamental, leva a darmos voltas sem fim, quase sem sair do lugar. Vejo a busca como pessoal, fundamentada na prática e, é claro, sem intermediários e uma infinidade de pré condições.

O objetivo da escola Zen é ir além das palavras e ideias afim de que a busca interior de Buda possa ser acessível aos demais “mortais”. Não existe nada de excepcional, pois o Zen consiste apenas em uma atitude mental que é aplicada de igual forma a, por exemplo, varrer uma casa ou como a prática rígida de qualquer ritual religioso. Esse tipo de atitude também foi tratada em artigo anterior com o título de “O Sofrimento”.

 Cabe lembrar que sofrimento existe pelo anseio que temos de possuir e manter para sempre coisas que em essência são impermanentes. Essa busca é uma maneira errônea de viver, afinal ela está contra o princípio da vida que é baseado justamente nas mudanças constantes.

De outra parte, o lado criativo de nossa mente é a nossa imaginação e é justamente ela que nos cria essa alucinação da separatividade, nossa ignorância mais essencial. Jung já defendeu a ideia de uma “mente universal” quando definiu o inconsciente  coletivo. O que acontece é que nós projetamos nossa própria ignorância no mundo exterior e o definimos e julgamos baseados nisso. Uma escritura Mahayana mostra isso com clareza quando diz: “As atividades da mente não tem limite e formam o ambiente da vida. Uma mente impura se envolve com coisas impuras e vice versa. Portanto o ambiente que criamos tem os mesmos limites das atividades da mente…Assim, o munda da vida e da morte é criado pela mente, está escravizado pela mente, é regido pela mente. A mente é a mestra de cada situação.”

Explica-se assim com facilidade que as Escolas orientais busquem esse estado que ultrapassa as barreiras da mente para encontrar a dita “iluminação” que nada mais é do que um estado de unidade com o todo, isento de todo e qualquer sofrimento, onde não existe mais o caos do aspecto mental ligado ao que “passa”, mas ao eterno, ligado ao que “é”. O homem comum que sofre o tempo todo olha para o mundo exterior para buscar sua felicidade (salvação), já que aprendeu que está nas formas materiais sua saída para a ansiedade e angústia. Tomara que chegue a hora em que ele perceba que não pode encontrar no exterior aquilo que está no seu interior, e que para chegar lá precisa suplantar a visão separada e desconexa da mente.

O Zen deixa de lado todas as definições e conceitos intelectuais e especulações de toda ordem, buscando sacudir seus adeptos de seus hábitos e crenças arraigados por gerações e de forma simples sair desse estado comprovadamente entorpecido e doentio. Tudo isso baseado na simples forma de sentar-se em meditação sem nenhum objetivo a não ser estar ali, e tomando uma consciência cada vez mais ampliada de cada movimento. Já sabemos que todo o sofrimento é alucinatório porque sempre se fundamenta em pensamentos ligados ao inexistente passado e inexistente futuro, numa roda de preocupações e lamentações sem fim. Estar aqui e agora inteiro de corpo e percepção é o fim da agonia. Uma de suas técnicas mais poderosas é o Koan que nada mais é do que do que um “problema” que é dado ao discípulo para resolver enquanto medita, só que sua solução não é intelectual, a resposta não tem conexão lógica com a pergunta e a pergunta é de tal natureza que embaralha o intelecto. Sua finalidade é de tanto se buscar essa resposta fora do âmbito ordinário da mente, suplantá-la! Quer experimentar?

Aqui está um homem numa árvore, segurando-se a um dos seu ramos com a boca, não se agarrando a nada com as mãos e nem tocando o tronco com os pés. Alguém ao pé da árvore pergunta: O que é o Zen?

Caso não responda essa pergunta não deixará satisfeito quem perguntou; mas, se falar, mesmo se disser uma só palavra cairá para a morte. Que respostas darias se fosses ele?” Um discípulo pode levar anos para chegar a essa resposta, mas se chegar venceu esse estágio mental ordinário de onde vem todos nossos problemas.

Quando for entendido na totalidade, não apenas intelectualmente, mas em cada atitude que o universo é agora, pois tudo está sendo criado nesse momento e o fim do universo também é agora, já que tudo está desaparecendo agora, poderemos almejar sair dessa alucinação que projetamos em tudo e todos.

Além disso o Zen é extremamente bem humorado, na medida quem seus principais mestres sempre responderam perguntas sobre a iluminação, de como chegar até ela de forma desconexa e sem sentido. Isso se dá justamente porque querer saber já é perder o que se busca saber. Certa vez perguntaram ao mestre Tung-shan “o que é o buda?” E ele respondeu: “Um quilo e meio de linho”. Nesse momento em que você e  quem perguntou ficam sem ação, tentando encontrar um sentido na resposta, não houve pensamentos negativos, medos e culpa na sua mente, ou seja, ela foi superada!

Importante entender que essa atitude desapegada diante da vida está longe de significar ir viver em uma montanha meditando o dia inteiro, já que nem lá escaparemos de nossas ilusões a respeito do que seja a vida. Vivemos em um mundo material e precisamos vencer nele também, sabendo que isso é parte, nunca o todo. Esconder-se atrás de uma ideia de espiritualidade ligada a pobreza e necessidades materiais pode muito bem ser uma ótima desculpa para a incompetência.

Mestre Pai-chang disse que o Zen é simplesmente “comer quando se tem fome, dormir quando se está cansado. Quando deseja caminhar, caminha; quando quer sentar, senta-se.”

Muito simples e muito difícil já que caminhamos quando podemos, paramos quando dá. Comemos na hora que nos disseram para comer e dormimos na hora que nos disseram que era certo dormir. Ficamos de pé quando queremos sentar e vice versa… Nada natural, nada escolhido! Apenas fazendo tudo isso contra a vontade esperando uma recompensa que nunca vai chegar.

 É como ter feito uma plantação de batatas esperando encontrar nela abacates.

Portanto, para quem está cansado de esperar milagres, salvação, bençãos e outras improbabilidades, a prática do Zen pode ser um jeito novo e bem mais real de fazer a verdadeira religião: estar bem consigo e com a vida por si mesmo, por entende-la em movimento, por aceitar que nunca poderemos controlar tudo e saber que a felicidade é estar em paz e relaxado…

Isso é ser Zen….

Para saber mais: “ O espírito do Zen” Allan Watts

4 Comentários

  1. fernando canton   •  

    O “Religare, quando acompanhado de toda essa parafernália ritualística, simbólica e comportamental, leva a darmos voltas sem fim, quase sem sair do lugar.”
    Eu completaria: e a todo o tipo de problemas existenciais e comportamentais possíveis…
    Infelizmente é isso…

    abraços

  2. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Há tempos ouvi uma piada que me pareceu ir muito além de uma simples piada:
    Um homem desempregado, pai de cinco filhos, morando numa casa de três cômodos, a esposa esperando o sexto filho e sobrevivendo apenas com o leite que uma vaquinha mirrada fornecia, e já desesperado por não vislumbrar uma mudança, outra perspectiva para aquela situação, visita um sábio à procura de ajuda.
    “Mestre – ele diz com lágrimas nos olhos – não sei mais o que fazer, minha vida é um martírio sem fim, os filhos chorando com fome, tenho apenas uma vaca que é o que nos fornece o leite, praticamente nosso único alimento e que me deixa, como homem, sentindo-me como um verme. O que poderá fazer por mim, mestre?”
    O mestre olhou fixamente para aquele homem acabado à sua frente e, muito calmo, lhe disse:
    “Ponha a vaca para dentro de sua casa e a sua vida irá melhorar.”
    “Mas, Mestre! Isso me parece tão sem sentido!
    “Faça isso e sua vida melhorará.”
    O homem voltou para sua casa, a mesma situação, no entanto esperançoso pelo que o mestre havia dito e colocou a vaca dentro de casa.
    A vaca, lógico, fazia ali as suas necessidades, o caos invadiu o lar do homem, as crianças gritavam, a mulher enlouquecia e a vaca já não dava mais leite.
    Desesperado, o homem volta ainda mais triste na casa do mestre e explica que sua vida havia se transformado num inferno e que ele deveria ter errado no conselho e queria uma outra forma para resolver o seu problema.
    O mestre, então, com a mesma calma e serenidade, lhe disse: -” Coloque a vaca de novo no quintal.”

    Não é necessário nenhum ritual para que uma chave ligue coisas simples que estavam adormecidas; não vejo como não se atormentar ao não sabermos do modo de evitar os tormentos, ou pacificar a mente. Parece-me haver algo tão distante de nós e por mais paradoxal que pareça, tão perto que, por estar tão perto não conseguimos enxergar, algo como uma luz que nos cega pelo brilho. Assim, ensinamentos sempre são bem vindos, a forma de filtrar essa luz é a chave e mesmo que não saibamos onde está nossa mão para virá-la, ou mesmo nem sabermos que temos mãos, podemos (sem perceber, mas vendo “alguém” virando-a) colocar nossa vaca do lado de fora.
    Finalmente, se entendermos que o universo é e não é agora e que tudo pode estar sendo construído ou terminando, o homem pendurado na árvore poderia responder qualquer coisa e haveria apenas um outro vazio. Ou não…

  3. Pingback: Manifesto e Imanifesto | Blog Eduardo O. Carvalho

  4. Pingback: SUFISMO | Blog Eduardo O. Carvalho

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *