O SOFRIMENTO

O segredo da saúde, mental e corporal, está em não se lamentar pelo passado, não se preocupar com o futuro, nem se adiantar aos problemas, mas viver sabia e seriamente o presente.

Sidarta Gautama

 

Nem eu nem você que me lê precisamos ser budistas para nos aproveitarmos dos ensinamentos de Sidarta Gautama sobre esse assunto. Particularmente ainda não encontrei alguém de definisse melhor o sofrimento humano como ele, e ainda mais surpreendente é que sua filosofia sobre o assunto não é estudada com profundidade na academia (faculdades ou universidades). Não que Freud não mereça nosso respeito, mas o ensinamento de Sidarta é imensamente mais útil e comprovável pela experiência, enquanto a teoria psicanalítica já dá sinais de “cansaço” e, em alguns países, já caiu em desuso. Tudo isso, é sempre bom lembrar, dito há 2600 anos…

Apesar do Budismo possuir muitas vertentes, vamos tratar do assunto de forma mais direta, o que quer significar que, de acordo com a abordagem, pequenas diferenças poderão ser encontradas, mas a essência é a mesma.

O mais conhecido de seus ensinamentos é chamado de “As quatro nobres Verdades”, que são: A verdade do sofrimento, a verdade da origem do sofrimento, a verdade da meta e a verdade do caminho. Falaremos muito resumidamente de cada uma delas dentro do enfoque dos dias de hoje.

Buda usou a palavra sânscrita duhkha que significa sofrimento, insatisfação ou dor. Essa insatisfação ou sofrimento ocorre porque nossa mente gira de tal maneira que seu movimento parece não ter princípio ou fim. Como já escrevemos em artigos anteriores, a natureza do pensamento é eminentemente negativa, já que nossa mente busca sempre a culpa (passado) ou medo (futuro) quando em estado livre, já que isso nos ajuda na manutenção da  vida. Quanto mais medo do futuro tiver, mais chances de nos mantermos vivos, já que não mudamos por medo. Evidentemente que isso gera insatisfação, afinal nossa natureza é de crescimento e evolução, fica sempre uma sensação de desconforto, angústia, de que está faltando alguma coisa em nossa vida mesmo que materialmente estejamos bem, com os relacionamentos em ordem, etc. Teimamos em buscar uma segurança impossível para podermos “descansar” e esse momento nunca chega. Se estivermos bem, felizes, tememos perder esse momento e nos esforçamos para buscar mais felicidade. Se estivermos tristes, com alguma dor, seja física ou emocional desejamos fugir dela. Estamos insatisfeitos o tempo todo. Assim, ao compreendemos a verdade de duhkha entendemos a neurose da mente e essa é a primeira nobre verdade; um eterno estar ocupado, uma contínua busca pelo momento futuro, caracterizando uma maneira gananciosa de viver, que atualmente em nossa cultura significa que quanto mais bens materiais tiver, menos vamos sofrer. É incrível que ainda se acredite nisso…

A partir do momento em que tomo consciência dessa insatisfação, precisamos buscar a sua origem. Examinando nossos pensamentos e ações  descobrimos que estamos sempre lutando para buscarmos essa segurança e nos destacarmos no mundo competitivo, então essa luta é a raiz do sofrimento, ou seja, fazemos do medo o sentimento que nos faz viver. Temos medo de morrer, de passarmos necessidades, de não sermos amados e reconhecidos, etc. Somos eternamente preocupados, vivemos o tempo todo projetando o futuro de forma negativa e, o que é pior, dentro de nossa cultura, isso (ser preocupado) é considerado uma qualidade! Essa é, portanto, a segunda nobre verdade, a verdade da origem do sofrimento.

Não é difícil perceber que quando falamos nas duas primeiras nobres verdades estávamos falando do ego, formado pela “educação”que tivemos, seja pela família, sociedades, valores culturais, etc. Como, para mim, educar é ajudar a pessoa a explorar seus potenciais naturais e não impô-los, chamo o que vivemos de domesticação. Muitos pensam que, por ser o ego a raiz do sofrimento, o aspirante à evolução deva pretender vencê-lo ou destruí-lo. Isso não funciona assim, já que é o ego que demarca as fronteiras entre eu e as demais pessoas, portanto ele também tem uma finalidade positiva, o que devo fazer é desobstruí-lo dos condicionamentos e medos para poder chegar a quem realmente sou. Nessa hora entra uma prática diária, de pelo menos alguns minutos de meditação. Essa prática me tornará mais consciente de mim e do que quero, das dificuldades e obstáculos a serem transpostos. O entendimento somente surge quando paro de lutar, quando paro de tentar dominar meus pensamentos negativos e simplesmente observo o funcionamento da minha mente. Escrevi em um artigo anterior que o verdadeiro guerreiro vence sem lutar, já que sabe que ele não é a sua mente, já que tem consciência que ela está condicionada e com medo. Assim, descobriremos que existe uma qualidade sã, desperta dentro de nós que só se manifesta na ausência de luta. Basta, segundo Buda,  abandonarmos o esforço por garantir-nos e estarmos seguros para que apareça o estado desperto. Logo percebemos que o “deixar estar” só é possível por poucos momentos, já que logo volto ao comportamento condicionado. Nesse momento uma disciplina é necessária para atingir o “deixar ser”. Essa disciplina é encontrada em uma caminhada de estudo e busca espiritual. Assim, a terceira nobre verdade é a não luta. Isso não quer significar que não me planejarei para o futuro e tudo mais, só que entendo que preciso parar de correr atrás do próprio rabo como fazem os cachorros e de quem rimos muito quando fazem isso.

Já a quarta nobre verdade é conhecida na maioria das linhas como o caminho óctuplo, ou seja: 1.Visão correta, 2. Intenção correta, 3. Fala correta, 4. Ação correta, 5. Meio de vida correto, 6. Esforço correto, 7. Atenção correta, 8. Concentração correta.

Porém, dentro do enfoque que estamos utilizando falaremos da quarta nobre verdade como a verdade do caminho, que é a prática da meditação dentro de uma consciência ampla de cada atitude e movimento que estejamos fazendo, seja andando, respirando ou fazendo o que for. Esse tipo de prática nos afasta também da ambição espiritual de chegarmos a algum lugar, de atingirmos algum estágio superior, etc. Ao me concentrar no presente, aos poucos, vou domesticando minha mente do vício de estar sempre vagando pelo passado com suas culpas e pelo futuro com seus medos e a ansiedade. Nesse estágio, sempre depois de algum tempo, seja o que estejamos fazendo ganha significado, diminui o sofrimento interior, o medo, etc.

Esquecemo-nos que as atividades podem ser simples e precisas, aprendemos a falar com vagar, sem pressa, já que se estamos sem ansiedade, dizemos o que deve ser dito, no tom e olhar correto. Sem isso, como já escrevi muitas vezes, somos apenas uma cópia de quem nos ensinou a ser assim.

A prática de viver a cada momento com total consciência chama-se meditação shamatha. Isso mesmo, não preciso estar sentado de olhos fechados para meditar, basta apenas estar presente! Isso simplifica o caminho óctuplo, já que dessa forma faço tudo correto. Para os budistas, quando renunciamos a toda esperança de atingir qualquer espécie de iluminação, o caminho espiritual se abre diante de nós, e é assim que funciona. Sei que é difícil colocar em palavras essa maneira de viver e o sentimento que traz. Só mesmo alguém como Lao Tsé pode nos ajudar:

O sábio permanece na ação sem agir,

ensina sem nada dizer.

A todos os seres que o procuram

ele não se nega.

Ele cria, e ainda assim nada tem.

Age e não guarda coisa alguma.

Realizando a obra,

não se apega a ela.

E, justamente por não se apegar,

não é abandonado.

Não há nada a buscar, não há nada a atingir, não há do que temer. Isso não quer dizer inação, mas ação lúcida e sem pretensões ou negociações. Assim é fácil entender porque Sidarta nunca falou de Deus. Sua visão da vida é simples e direta, dispensando um pai protetor e os milagres. As verdades de Buda são plenamente praticáveis no dia-a-dia. Fácil não é, já que aprendemos tudo de outra maneira, inclusive que a dor nos purifica, pode?

Observe que, muitas vezes tudo na sua vida está bem, e aí você busca algum pensamento ou idéia (que tem consciência de ser absurda) para continuar a se pré-ocupar, sofrer e ficar angustiado… Afinal se não estiver preocupado, provavelmente estarei sendo relapso ou descuidado com minha vida. Enquanto esse vício continuar, nada vai te libertar, nem todo o dinheiro do mundo, o relacionamento ou trabalho dos sonhos, já que, no minuto seguinte, terá medo de perder, seja o que for….

Você já imaginou viver sem sofrimento?

 

 

3 Comentários

  1. fernando canton   •  

    Prezado,
    você se supera a cada artigo !
    Neste, além de clareza e concisão, ficou nítida a presença da sua energia e amor.

    parabéns pelo tema e pelo artigo!
    obrigado

  2. sandra gomes lima   •  

    Não há o que comentar……desta vez fiquei sem palavras……parabéns!

  3. Pingback: Zen Budismo | Blog Eduardo O. Carvalho

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