Manifesto e Imanifesto

ceu azul

 

 

 “É verdadeiro, sem falsidade, certo e muito verdadeiro

           que àquilo que está em cima é igual àquilo que está embaixo

           e que àquilo que está embaixo é igual àquilo que está em cima,

 para realizar os milagres de uma única coisa.

  E da mesma forma que todas as coisas foram e vieram do Um,

 assim todas as coisas nasceram desta coisa única por simples ato de adaptação…”

Tábua de esmeraldas (trecho) de Hermes Trimesgistro

 

 

                                                                                                                                                             

Tudo que é manifesto no mundo provém de outro mundo: o imanifesto.

Dizem os cabalistas que a parte grosseira, entenda-se o corpo físico com seus cinco sentidos, foi a última coisa criada por D-us. Não se assuste, não escrevi errado, é assim que muitos escrevem seu nome, afinal se ele não é conhecido, não pode ser expresso.

Isso quer dizer, que fomos criados de “dentro para fora”, ou seja, daquilo que não se pode ver nem sentir (divindade), para o que pode ser visto e sentido (materialidade). Assim nos dividimos na dualidade que nos faz oscilar tanto. Isso justifica a frase atribuída a Cristo de que o “reino dos céus” está dentro de cada um. Justamente por isso que a Cabala nos mostra que não há nada a ser procurado externamente. É como se nosso corpo físico fosse um véu que oculta nossa natureza divina (essa é minha interpretação), justamente por ser limitado no espaço e no tempo. Atrás de nossa consciência ordinária está o ilimitado e a eternidade. É por isso que se diz impunemente, já que é um absurdo, que em algum dia começará a vida eterna. Já estamos nela, só que nossa percepção não consegue atingi-la. É o que Helena Blavastsky chamava dos “véus de Ísis”. Esse é o estado de consciência aspirado pelos místicos (misturar-se a Deus) e meditadores. Isso é realmente fascinante: encoberta pelo que nasce e morre, está a criação que sempre É.

Essa “tese” baseia-se no seguinte: tudo que existe no mundo material, antes habitou o imanifesto, ou seja, o mundo das ideias. Desde uma simples cadeira, até o mais sofisticado aparelho antes de ser fabricado foi imaginado por alguém. Assim, tudo que nos acontece, a vida que vivemos está sendo materializada pelo que antes imaginamos que fosse. Da mesma forma, imagine uma rosa, por exemplo, ela não nasce, simplesmente está imanifesta até surgir. Justamente por isso ela não morre, simplesmente o que ela era, se transforma em outras substâncias que se dissolvem na terra, se manifestando de outras formas em ciclos de vida intermináveis. Somos assim também, com nosso corpo que se dissolve e nossa consciência que se transforma.

Nosso corpo nasceu e um dia morrerá e isso faz parte, mas nosso imanifesto existe desde antes do universo, ou seja, é emanação divina. Todo nosso sofrimento está baseado na nossa percepção que está somente atrelada ao corpo que, por nascer, precisa morrer. Isso torna a vida realmente angustiante e, se pensarmos bem, até sem sentido. Já diante do eterno, as cores mudam, a evolução é constante até voltarmos, por mérito (nada é gratuito, tudo é causa e efeito) à nossa origem divina que hoje se encontra imanifesta em nós.

Toda a doença da civilização é baseada nessa pressa de atingir a felicidade, já que a morte é certa, não há tempo a perder. Quando somos levados a ter plena e total consciência de nossa verdadeira natureza, nos igualamos ao que os místicos chamam de “estado” crístico ou a consciência de Buda. Nesse estágio, o homem e a natureza são uma só coisa, inseparáveis (divinus), e assim fica fácil de entender porque as pessoas que experimentam esse estágio conseguem inferir na natureza como um todo, provocando os “milagres”, impossíveis para aqueles que habitam o limitado, o que perece, estado de percepção baseado exclusivamente no medo de morrer.

Nesse momento, você que me lê, pode querer perguntar o que fazer, qual a “técnica” ou dica para, definitivamente, nos encontrarmos com o que realmente somos?

Dependendo da linha filosófica, mística ou religiosa cada uma terá seu método, mas o que posso sugerir, de imediato, é a simples e dificílima prática da mente alerta. Isso mesmo, simplesmente mantenha-se atento, inteiro em tudo que faz. Comece por respirar conscientemente. Sempre que lembrar, observe sua respiração, isso já é um exercício poderoso! Essa prática nos leva a, pouco a pouco, a uma diminuição do nível de sofrimento, já que no instante presente estou livre do medo que sempre está ligado ao futuro, onde a morte nos espera. Perceba que a angústia e sofrimento nunca estão acontecendo no presente, mas nas culpas do passado e na incerteza (somos pessimistas por natureza) do porvir.

Uma das importantes atitudes a tomar, lembrando que somos nossos pensamentos, é buscar uma percepção clara do que entra pela nossa boca, olhos e ouvidos. Nossas ações muito se baseiam no que entram pelos nossos sentidos todos os dias, precisamos higienizar, comendo corretamente, e sendo muito criteriosos com o que vemos e ouvimos todos os dias, seja de pessoas e meios de comunicação. Observe como a humanidade pensa e age e veja se isso não está condizente com o que pregam as mais diversas mídias, por exemplo.

Aliás essa natureza negativa do nosso pensamento, faz parte da formação do nosso corpo físico, afinal quanto mais medo tiver, por exemplo, mas tenho tendência de manter a vida.

Assim, precisamos trabalhar constantemente nosso pensamento (imanifesto) para que possa ter um melhor resultado no plano concreto da existência. Mas esse trabalho só terá resultado se buscarmos uma parte de nossa consciência que está escondida dentro de nós, onde só uma prática direcionada como a meditação, além do estudo correto, pode nos levar.

Aprofunde cada vez mais sua auto-observação, avalie seus pensamentos e sentimentos constantemente. O budismo nos oferece o método da análise profunda das emoções como uma maneira de nos compreendermos melhor e aos outros também. Mas tudo isso necessita de determinação de querer mudar, e sair dessa maneira de pensar que só aumenta a ansiedade. Será sempre questão de tempo para que esse pensamento constantemente negativo se materialize em nossa vida.

Conforme os artigos que recomendo a (re)leitura no final, ande conscientemente, coma com atenção, esteja atento e pare de ficar “viajando” na agonia, que o sofrimento diminui e muito.

Quanto mais tempo no presente, menos sofrimento, mais saúde e alegria. Acredite ou não, é simples assim!

Se os cabalistas estiverem certos, busque entender como as coisas funcionam e positive seu imanifesto, projetando seu dia e futuro com confiança. Só não esqueça, é claro, de agir e tomar as atitudes necessárias para que se realize o que seu pensamento está criando.

Estou escrevendo esse artigo em meio à natureza e, diante de mim, estão montanhas de milhares e milhares de anos, cobertas de vida que mudam constantemente, com uma serenidade que só mesmo Deus possa experimentar. Isso também sou eu e é você também, afinal, somos em essência unos com o Todo.

Nossa tarefa então é “lembrar” do que realmente somos e de onde viemos, essa é a resposta que falta. Viva hoje sua eternidade, ficando conectado a cada momento e desfrute de uma vida sem agonia. Respeite e cuide do seu corpo para que ele viva bem, já você, que nunca nasceu e nunca morrerá, pense como seria sua vida se sua consciência habitasse o eterno?

*Caso não tenha lido, recomento a leitura dos artigos: “A prisão que nunca existiu”, “Zen Budismo” e a “A prática do Relaxamento” como aprofundamento do presente texto.

3 Comentários

  1. Rosangela   •  

    Gosto bastante dos seus textos.Objetivos,explicativos e muito funcionais.Parabéns!AbraçosRosangela

  2. Monica Sarah Salomon   •  

    Como sempre dizem, “O Mal do Século é a Solidão”. Cada vez mais as pessoas estão preocupadas com o mundo exterior, em somente TER, e não SER, o que gera a ansiedade, depressão (por não conseguir tudo o que a sociedade nos impõe) entre outros. Precisamos olhar mais para dentro, e entender nossa subjetividade, e que só conseguiremos alcançar a transcendência, sendo conscientes do nosso plano no mundo.

  3. Pingback: A utilidade da Morte | Blog Eduardo O. Carvalho

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