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Arrume seus armários

   “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.”

                                                            Fernando Pessoa

mudança

Mudanças são difíceis e, na maioria das vezes, ocorrem sem nossa concordância; são necessidades impostas pela vida. Portanto, a famosa frase “resistir a mudança” tem sua lógica. Nosso instinto de sobrevivência quer a manutenção do que nos mantêm vivos, afinal, estar vivo é uma pré-condição da almejada felicidade poder ser alcançada.

Uma mudança, seja ela imposta ou escolhida sempre será um processo de alguma dor, ou como dizia Nietzsche, de “rasgar a alma”. Isso porque, saímos do terreno conhecido em direção a essa nova etapa que não controlamos (por ainda não termos vivido algum tempo nela), com o receio que nossa máquina corporal nos impõe sempre que estamos diante do que não conseguimos prever; o medo.

É justamente aí que reside a origem e a necessidade de todos os deuses e superstições: uma mão forte diante do medo do desconhecido e de um mundo repleto de acasos e variáveis que escapam à nossa lógica e compreensão.

Assim, diante de uma mudança necessária (as desnecessárias adiamos até se tornarem imperativas), ficamos à espera de uma força que nos anime para adentrar nessa selva desconhecida. Vale fazer uma promessa, beijar a medalhinha do santo protetor e confiar no apoio do Grande Pai, que sempre sabe o que faz e quer o nosso bem. Então, munidos dessa “força”, respiramos fundo e vamos adiante, seja para uma cidade nova, um relacionamento, um novo projeto profissional, um regime ou abandonar velhas rotinas que já não servem mais.

Nossa realidade externa sempre é reflexo do nosso interior, da ordem e desordem emocional que estamos vivendo. Esse conceito não é novo, frequenta a filosofia de autoajuda faz tempo e nos serve muito, quando estamos falando de processos de mudança.

Como já tive a oportunidade de escrever em outros textos, ansiamos por estarmos emocionalmente aptos a enfrentar esse processo de ir em direção a uma nova realidade. Queremos estar animados para o novo começo e isso não é possível, como expliquei acima. O máximo que se consegue, quando a mudança pode representar o fim de uma longa agonia é uma alegria misturada com tensão, que é esse medo diante do novo. Dizemos a nós mesmos: “Vai dar certo, eu sei !”

Não, não sabe. Se soubesse não precisaria estar repetindo segurando a medalhinha. Lembrando que “fé” é acreditar no que não sabemos.

Voltando ao começo desse texto, digo que a saída é a seguinte: se não tem como termos essa alegria/força/ânimo puro, diante do que nos espera, então, como fazer?

A resposta é simples, faça “por fora”, ou seja, mesmo a confiança e a certeza estando ausentes, tome as atitudes (ações) que representem que essa mudança já está em curso e sendo bem-sucedida. Mudando nossa realidade externa, nosso interior acompanhará essa mudança.

Tudo que esperamos que venha de dentro nunca é algo que sentiremos antes, mas somente depois. A “confiança”, qualidade aspirada por muitos, sempre é resultado de atitudes que deram certo. As primeiras, normalmente acompanhadas do medo. Por isso, não tem como se sentir confiante sem ter feito ainda. Parece óbvio, mas está longe de ser.

A “alegria” é sempre depois, nunca antes. É resultado de algo que aconteceu e ninguém fica alegre por algo que acontecerá, visto que isso está no futuro, sujeito a variáveis que podem não resultar no que se espera. Nesse caso, chamamos de “esperança”, sempre acompanhada do medo de não se concretizar.

Portanto, qualidades são depois, resultado de ações que tomamos sentindo receio e cheio de dúvidas. Em toda história de sucesso, sempre encontraremos no começo do relato o momento em que um grande risco foi corrido. O orgulho de quem conta a história nem é do resultado em si, mas de ter vencido a angústia diante da possibilidade de naufragar.

Dificilmente quem está em desordem interna, seja pelo que for, estará com suas coisas pessoais arrumadas. Nós e o mundo somos uma só coisa, indivisível. Justamente por isso, como já disse, o mundo precisa ser um caos. Temos oito bilhões de “mundos” convivendo e para que cada um possa Ser, nenhuma ordem deve estar pré-estabelecida.

Mudamos a mente pelo corpo e o corpo pela mente. A Yoga traz calma a mente, justamente por tirar a tensão dos músculos pelo alongamento, e uma criança é flexível  por não ter uma mente repleta de medos e crenças. Não há corpo saudável em uma mente desordenada e vice-versa.

Dificilmente atraímos para qualquer tipo de relacionamento alguém que seja oposto. Um mau momento pressupõe um mau encontro e escolhas idem.

Assim, mudar o externo é uma maneira mais rápida de mudar internamente mas, como tudo, precisa de compreensão. Quem age sabendo o motivo de estar fazendo tem um resultado mais sólido. De nada adianta repetir mil vezes que se é confiante, por exemplo, se não temos atitudes de confiança. Você poderá dizer que estaríamos mentindo a nós mesmos fazendo isso. Pode ser, no começo. Mas nunca esqueça que tudo que repetimos vira uma verdade pessoal. Mas isso só vale para atitudes, nunca para frases.

Observe como é difícil manter nossa vida financeira em ordem quando estamos em desequilíbrio, assim como nossos armários estão tão desarrumados quanto nossos pensamentos e emoções.

Tudo é resultado de ações ou da falta delas em nosso universo particular.

Outros mundos colidem com o nosso a todo momento e esse entrechocar de vontades e ânimos torna os resultados sempre imprevisíveis. Mas o que nos compete é fazer o que nos cabe para termos o que desejamos.

Quem toma uma ação nova já é “outro”, mesmo que seja com algum receio. O tornar-se outro, maior do que se era, seja por escolha ou imposição das circunstâncias precisa de uma alma maior. A antiga rasga por não se caber mais nela.

Portanto, pare de esperar que a confiança e todos os bons ventos se façam presentes para sua travessia. O bom marinheiro veleja com todo tipo de vento e só é bom porque sabe para onde vai.

Só uma resposta

No começo, foi só o silêncio.

O terapeuta já estava acostumado. O primeiro encontro é feito de expectativas, mas além delas, o cliente precisa sentir que pode falar, se expor com segurança e para isso não tem regra ou método. Intimidade que na vida real leva muito tempo, se constrói em minutos.

Depois de um breve suspiro, o homem começou a falar sobre sua vida. Da infância sem sustos em uma família que, como todas as outras, atravessava boas e más fases que nada impediram que ele e a irmã pudessem chegar à idade adulta. Falou como conheceu sua esposa, da dificuldade de terminar a faculdade e do emprego onde estava desde sempre, agora, como nunca, cheio de perspectivas. Viagens ao exterior pela empresa, cargo de chefia e, quem sabe um dia, tornar-se um diretor.

Em casa, o casamento estava indo muito bem com o filho de três anos que surpreendia a cada dia com suas descobertas e da lógica de pensamento que só as crianças podem ter.

Silêncio.

De repente, uma dor de garganta que não passava. Médicos comuns, receitas comuns. Passado um tempo, uma investigação mais profunda encontra nódulos e uma doença comum, que só de dizer o nome dá medo, em uma manifestação rara.

Em um dia, tudo desaba; sonhos, medo de deixar de existir quando a vida parecia sorrir todos os dias.

O médico das más notícias disse que ele não deveria deixar de acreditar. Mal prognóstico. Sem olhar nos olhos disse que ele poderia ter vinte por cento de chance e que o tratamento precisava começar imediatamente.

Enquanto o médico falava ele só conseguia sentir saudade da esposa, do filho e dos pais. Como dizer para mãe, para a esposa? Imaginar não ver o filho crescer lhe tirava o ar.

As lágrimas, represadas pela coragem masculina finalmente encontraram um porto seguro. Soluçava em desespero.

O terapeuta sustentava o olhar. Era o que podia fazer. Todos os livros que lera viraram em nada diante da vida real, como ele já sabia, faz tempo.

Quando a emoção lavou o que podia, um novo suspiro.

– Meu amigo me disse que você poderia me ajudar. Eu só queria entender.

Silêncio.

Precisamos de respostas. Elas são uma espécie de consolo, afinal, tudo precisa ter uma razão! O problema é justamente esse; muitas vezes não existe uma razão. Nossa imaginação busca onde pode preencher os espaços vazios da compreensão como uma forma de encontrar alguma justiça ou justificativa. Palavras que não começam iguais por coincidência.

O terapeuta moveu lentamente a cabeça.

– Não tem como entender, não é? Nunca fumei. Não tem sentido!

Choro.

Comentou que o filho não queria mais ir para a escola. Dizia que queria ficar em casa com pai, apesar de nunca falarem do assunto na presença dele. Nunca se engana uma criança e é fácil de entender o motivo: se para ela não existe passado e muito menos futuro, toda sua percepção se concentra no que está acontecendo. A professora, informada da situação, relata que o filho já não brincava e mostrava abatimento.

A esposa apenas dizia que tudo isso era um pesadelo que iria terminar. Como uma pessoa boa passaria por isso? A mãe sofria silenciosamente e o pai estava ao lado nas sessões de quimioterapia, mas não conseguia falar. Nos olhos, o medo do absurdo que devasta a razão.

Em duas semanas tudo estava desabando e o tratamento intensivo já mostrava suas marcas.

– Agarre-se a seus vinte por cento. O mesmo absurdo pode ser a sua chance. Disse-lhe o terapeuta.

– E se os oitenta vencerem?

– Você fez sua parte. O que contarão a seu filho é que você lutou, fez o que pode. Se em algum momento da vida, ele superar dificuldades baseados na sua luta, pode ser que tudo isso ganhe o sentido que você procura. Mesmo não sendo uma garantia de nada, é como pode dar certo. O mistério da vida é não ter lógica.

– Mas e o motivo, tem algum para isso estar acontecendo?

– Não tem, é o que nos diz a razão. O resto nós nunca saberemos. Pode ser só o que sabemos; uma doença infelizmente comum em uma manifestação rara.

Olhando para o chão ele parecia absorver essa resposta. De algum modo o acaso o absolvia.

– Isso me dá um alívio, de certa forma. Pode não ter mesmo um motivo.

O terapeuta demorou alguns segundos para responder:

– Carregamos culpa demais. É assim que se mantêm as pessoas sob controle. Faça o que deve ser feito, use sua força e fé. Se às vezes não existe uma razão, porque não usar o que está fora dela? Lute por cada dia a mais. Os milagres sempre são feitos por nós, no final.

– Só sinto saudade. Saudade de quem vejo todo o dia, tenho saudade até de mim.

Choro.

Silêncio.

Quando se despediram, um aperto de mão. Nos olhos uma leveza de quem pode falar, só falar. O homem que procurava respostas e o que não as tinha apertaram as mãos.

– Interessante, vim procura-lo atrás de entender. Você não tinha a resposta, mas de alguma forma estou melhor. Obrigado por não responder, talvez se me dissesse alguma coisa que eu precisasse acreditar, poderia aumentar minha angústia. Como saber se sua teoria era a certa? Ser simplesmente como é, foi a melhor resposta que encontrei.

Do aperto de mão, veio um abraço, rejeitado pelos manuais. Bobagens que não respeitam o que acontece em um encontro, na vida.

Um sorriso mútuo encerrou esse único encontro, que mudou os dois, cada um a seu jeito.

 Quando a porta abriu, o próximo cliente já esperava.

O terapeuta tinha alguns minutos. Molhou o rosto enquanto imaginava a dor sem sentido.

Ao olhar-se no espelho, pensou em perguntar para a imagem refletida: Por quê?

Eu e o Mundo

“Saiba,

Todo mundo foi neném

Einstein, Freud e Platão também

Hitler, Bush e Sadam Hussein

Quem tem grana e quem não tem

 Saiba:

Todo mundo teve infância

Maomé já foi criança

Arquimedes, Buda, Galileu

e também você e eu

Saiba,

Todo mundo teve medo

Mesmo que seja segredo

Nietzsche e Simone de Beauvoir

Fernandinho Beira-Mar

 Saiba,

Todo mundo vai morrer

Presidente, general ou rei

Anglo-saxão ou muçulmano

Todo e qualquer ser humano

 Saiba,

Todo mundo teve pai

Quem já foi e quem ainda vai

Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé

Ghandi, Mike Tyson, Salomé

 Saiba,

Todo mundo teve mãe

Índios, africanos e alemães

Nero, Che Guevara, Pinochet

e também eu e você”.

                                                         Saiba – Arnaldo Antunes

Estamos a todo momento, quer queiramos ou não, sendo mudados pelo mundo e provocando mudanças. Em um primeiro momento dessa reflexão, parece que o mundo nos muda mais, afinal é mais forte e avassalador. Mas quem é, afinal, o Mundo?

O Mundo são as pessoas que encontro todo dia e que me modificam. Diz Deleuse, que só pensamos em conjunto e é verdade! É no encontro com o outro e com tudo que me rodeia e penso que me torno novo, imprevisível e indefinível. Existem encontros que nos enchem de alegria e essas pessoas nos mostram o que temos de melhor. Nelas, nos eternizamos positivamente, já que nos afetam para melhor e vice-versa. Nas que nos incomodam ou nos despertam raiva, poderíamos aproveitar para procurar entender o que temos em comum com elas que preferimos não ver. No fim, todas nos fazem ir adiante em cada encontro, sempre novo na essência já que chegamos ali trazendo mudanças de outras pessoas e da vida.

Aliás, buscamos definir tudo e todos com objetivo de termos alguma segurança e previsibilidade. Medo da mente que a vida ri com desdém, trazendo surpresas a cada segundo, bastando olhar em volta. Mas não adianta, queremos definir, explicar e congelar os outros, seja em uma definição seja em uma explicação boba sobre os porquês de tudo, seja por nos empurrarem uma reverência sem sentido a deuses com pés de barro, como bem disse Nietzsche.

O Mundo é o clima, o acidente que aconteceu em algum lugar que a internet informou em tempo real para que imaginasse que poderia acontecer comigo. O Mundo é a angústia que dá assistindo um idiota sentado no trono dizendo que produzir é mais importante que o ar que respiramos. O Mundo também é um sorriso de indisfarçável alegria quando um touro mata o toureiro na Espanha e mostra que o torturador também encontra uma réstia de justiça em algum momento. E o mundo é, principalmente, aquelas pessoas que fazem você descobrir coisas a seu respeito que nem imagina que é ou sabe.

O Mundo me muda quando noto que tudo está sempre por um triz em um eterno jogo de coincidências bizarras que dá uma sensação de ignorância só de tentar entender algum nexo entre elas. O Mundo me muda em uma paisagem do final de tarde onde me permito parar e ver como a natureza funciona com perfeição em um belo quadro de cores, mas que ela também deve ter seus motivos para as enchentes e terremotos que podem me mudar e tirar a vida e sonhos de tantos sem que encontremos um motivo. Na verdade, tudo muda quando percebo que procurar os motivos de forças maiores que eu, é uma grande perda de tempo, aliás, pode nem ter mesmo algum motivo.

O mundo me muda quando a realidade mostra que as histórias que ouvi desde pequeno, contadas por pessoas queridas que tinham tanto medo desse desamparo, que podem ter feito mais mal do que bem, quando tiraram de mim a capacidade de mudar meus caminhos, sujeitando minhas decisões a alguma benção superior vindo de um lugar onde, pelo visto, não tem ninguém e se tiver, só assiste, não sei se rindo ou chorando.

O mundo me muda em pequenos gestos carinhosos, em olhares assustados e de pessoas que me criticam por tê-las de alguma forma, feito perder o encanto dos mundos de “faz de conta” que posso ter mostrado que nunca existiram.

E, no fim, é nisso que eu e você mudamos o Mundo. Sendo do jeito que somos, levando alegria e tristeza na forma em que os outros nos interpretam, apesar do mundo e suas forças gigantescas. Quando estamos no Mundo o mudamos, quer queiramos ou não, sejamos percebidos ou não, alteramos o destino do planeta e de muita gente todos os dias. Gente que conheço e nunca conhecerei, mas que será afetado por alguém que um dia me conheceu. Mas não esqueça, falo de mim e de você, que também tem essa força e pode, de alguma forma, escolher como quer afetar o mundo e ser afetado por ele. Escolha que tem pouco alcance sobre forças tão poderosas, mas afinal, fazer nossa parte é uma chance real de que aconteça o que desejo.

Mesmo quando em pequenos encontros, desencontros, acidentes e até mesmo em um “bom dia” podemos mudar a vida de quem nos viu e ouviu. Poderemos até em nosso último ato, quando alguns souberem que nos retiramos do mundo para ir morar em outro ou em nenhum, que lembrarão de nós com alegria ou tristeza e que, no segundo seguinte esse sentimento os fará fazer isso ou aquilo. Sem que percebam que estamos por trás dessa escolha e de tantas outras que virão, em um eco de eternidade.

O Mundo ou a vida é o resultado de todos que já viveram, vivem e de tudo que já aconteceu, acontece e até do que imaginamos que poderá acontecer. Aliás, imaginar muda mais o mundo do que a realidade, pois somos e sentimos não o que o mundo é, mas só o que imaginamos que o mundo seja.

E assim vamos mudando e sendo mudados a cada instante e fico pensando como alguém pode acreditar em destino com tantas coisas incontroláveis a nossa volta nos tornando um resultado cada vez mais improvável dessa química entre cada um de nós e o Mundo.

Nem percebo que posso escolher lembrar que tudo isso torna a vida algo sempre inédito. Afinal, se nem eu e mundo somos os mesmos por estarmos nos mudando o tempo todo, conseguir ver tudo como se fosse a primeira vez, e é, pode no fim dar a única explicação que a razão aceita.

Deve ser por isso que só as crianças e os loucos não têm medo, já que para eles passado e futuro simplesmente não existem, são alucinações dessa gente normal que afeta o mundo e o deixa desse jeito triste, que nos adoece só de pensar.

Os mundos

De longe, dava somente para ver os olhos grandes e arregalados. Um bico azul escondia a boca e fazia uma boa combinação com as bochechas rosadas. Eu estava do outro lado da rua, esperando a boa vontade de alguém parar e deixar que atravessasse na faixa de segurança.

Ele estava na parada de ônibus, no colo da sua mãe. Ela o sacudia e isso o deixava desconfortável. Queria ver o mundo, mas como fazê-lo subindo e descendo sem parar? Dava para notar que a jovem mãe não estava ali. Estava no mundo dela, pensando no trabalho, nas dificuldades e sonhos que não deram certo. Seu olhar perdido poderia também estar no futuro, imaginando seu filho crescido, naquele mesmo lugar indo para o trabalho, quem sabe com sua mesma tristeza. Nela, não havia brilho.

Poucos segundos depois ela parou e ele pode olhar o mundo. Olhos brilhantes vendo as pessoas que passavam, carros coloridos e, quem sabe, alguém o observando do outro lado da calçada.

Do pouco dos seus dois anos o mundo é uma novidade. Nessa idade não temos passado nem futuro e até respiramos diferente. Quando não estamos alucinando, o tempo é outro e dá até para esquecer quem e o que pensamos que somos.

A mãe com suas preocupações, eu com as minhas. Ambos querendo controlar a vida, medo que nunca acaba. Ele não tem nada para esquecer, nada para pensar a não ser ir juntando as peças desse quebra-cabeça que sempre muda a imagem final.

Estávamos ali, os três no mesmo lugar, ao mesmo tempo, em mundos diferentes.

Percebi um carro passando vagarosamente. O motorista maneia a cabeça ao me olhar. Provavelmente parou para que eu atravessasse e, perdido em outro mundo, não percebi.

“Gente louca”, deve ter pensado.

Agora, nossos olhares se cruzaram.

Outro carro diminui a velocidade, acende as luzes para avisar aos outros e a mim que chegou minha vez. Enquanto atravessava a faixa ele me olhava fixamente, só o bico fazia pequenos movimentos.

O que acontecia na cabeça dele? Curiosidade que nunca terá resposta, assim como tantas que insistimos em encontrar. Perda de tempo em um mundo que só tem graça pelas perguntas.

Vivemos cada um em seu mundo com nossa interpretação particular, onde um final feliz é questão de tempo, de sorte ou quem sabe de um sonho que finalmente se realizará. Sentimo-nos especiais, pensando que o mundo foi feito para nós em um enredo com oito bilhões de coadjuvantes.

Seu mundo está recém sendo construído, mosaico com peças que colhe da família, das alegrias e tristezas que fazem parte dessa contabilidade que poderá tornar o enredo mais ou menos doloroso. Um dia, de alguma forma, os significados que lhe deram não farão sentido quando confrontados com a vida real. Restará rever e refazer o enredo como todos que descobriram que a crueza dos embates no mundo é bem menos romântica e épica, comparados as histórias que crescemos ouvindo onde o tudo dará certo no final.

 Como todos, ele criará cenários ideais para finalmente poder relaxar. Poderá um dia dizer que perdeu a oportunidade de sentir-se feliz, assim como eu perdi a chance de atravessar enquanto estava em outro mundo.

A mãe nada percebeu. Estava no celular, entretida com as notícias e a vida espetacular dos amigos que, com certeza, tiveram dias perfeitos. Aquela manhã trazia sol e pouca nebulosidade, e  tudo estava mais colorido. Hora de postar fotos, enaltecendo a obra da criação e a graça por recebermos um dia tão lindo!

 Provavelmente, nesse mundo redondo e cheio de diferenças, em algum outro lugar uma chuva forte, vento ou tremor poderia estar desabrigando e matando, mas aí é a fúria da natureza que sempre divide o poder com cenários espetaculares, arco íris, praias ensolaradas e finais de tarde de tirar o fôlego.

Quando passei por ele dei um sorriso e quase balbuciei um “boa sorte”. Os olhos grandes apenas me acompanharam até que desaparecesse na esquina.

Para que(m) serve a Verdade?

“Tive, portanto, que suprimir o saber para obter lugar para a fé”

     Kant – Prefácio da segunda edição da “Crítica da razão pura”

                   

“Convicções são prisões”.

                         Nietzsche

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No prólogo de “Além do bem e do mal” Nietzsche afirma, como sua primeira frase, que a verdade é como uma mulher. Como prever uma mulher, o que há de objetivo em uma essência subjetiva? Penso que o seu desejo foi dizer que “verdades” não existem.

Como poderiam existir verdades se não existem duas pessoas iguais?

Para Nietzsche, a verdade é algo que faz mal, já que ela estanca a vida, ou seja, toda verdade é uma espécie de morte. Uma verdade é o fim de qualquer processo. Fácil observar que ele tem razão, e para isso basta observarmos o próprio desenvolvimento da ciência. Nada deixa de ser verdade com tanta frequência como na ciência, afinal ela está sempre em movimento, como tudo que está vivo. Manteiga, café, banha de porco, a forma da terra, Deus Sol e tantas outras verdades que viraram mentiras.

Quem já não fez promessas e percebeu que o tempo não nos ajuda a mantê-las? Mesmo as que fizemos a nós mesmos, sem que ninguém saiba, já não as revogamos por nos tornarmos pessoas diferentes? O próprio conceito de “culpa” não é a mais derradeira confirmação de que verdades não existem? Quando nos sentimos culpados de qualquer coisa, significa apenas que a pessoa que nos tornamos faria diferente do que já fomos. Sempre fazemos o que é “verdade” a cada momento de nossa vida, pelo que somos. Mudamos inevitavelmente, mudam as verdades.

O que podemos refletir é que, seja qual for a verdade, ela tem só uma finalidade: nos oferecer estabilidade em um contexto instável. Ao nos depararmos com um mundo caótico, onde o absurdo é sua natureza, as verdades que escolhemos nos ajudam a explicá-lo e trazer algum conforto, parecido com o colo de mãe. Desde a primeira tempestade que presenciamos na infância e corremos para a cama dos pais, descobrimos que esse mundo tem muito mais força que nós e a única saída é uma explicação, normalmente acima da razão, para darmos a isso tudo algum sentido. O que muitas vezes esquecemos é que só em um mundo sem sentido poderemos ser individuais, exercermos nosso direito à diferença.

Atualmente as religiões, sejam as que têm um Deus, ou mesmo as que não têm, como o Budismo, recebem e perdem adeptos todos os dias, simplesmente porque fatos da vida (que por ser caótica não tem nada a ver com justiça), trazem decepções que as pessoas esperam não ter, por sentirem-se protegidas pela sua religião. Assim como trocamos de fornecedor quando ele nos decepciona, essa alta rotatividade religiosa é resultado de um mercado cada vez mais aquecido. Quem sabe a próxima verdade não me garanta uma vida sem atropelos?

Esse sentido não vem só das superstições que escolhemos, ou nos são impostas, mas também de um artifício de dominação muito sutil, a linguagem. Como diz com muita propriedade Viviane Mosé (em seu livro sobre a filosofia de Nietzsche) sobre o assunto: “Não há unidade nem identidade no sujeito, toda identidade resulta da palavra…a identidade do sujeito é a ficção que tem como função atribuir identidade as coisas. Mas a identidade somente existe na linguagem. E é a linguagem que permite a construção da ficção de um outro mundo, um mundo de identidades estáveis, de coisas e sujeitos de valores eternos”.

Se a vida é movimento e mudança, toda e qualquer verdade (que sempre vem pela linguagem) é uma tentativa de oferecer uma ideia de mundo que traga estabilidade e alguma segurança. O problema é que quando recebemos uma palavra com seu significado estamos sendo, por isso, obrigados a vermos tudo com o mesmo olhar. Isso é uma afronta a única diferença que temos diante dos animais; escolhermos, pela nossa liberdade intrínseca, a maneira como queremos ver o mundo. O uso da linguagem para atribuir significados a priori é a mais violenta forma de escravidão.

Nada na natureza se repete, nem uma folha sequer, e todas têm o mesmo nome! Independentes de serem triangulares, mais ou menos verdes, todas são folhas. E mesmo as folhas da mesma árvore nenhuma é igual a outra. A natureza não se repete, seja nas folhas, pedras, animais e o que dirá na sua forma mais exuberante, o ser humano. Mesmo que a biologia já saiba que nunca existiram duas pessoas iguais, quando, por exemplo, submetemos todos aos mesmo método de ensino, com as mesmas aulas, parte-se do pressuposto de uma igualdade.

 É um sistema que busca sufocar as diferenças, ou seja, tirar a humanidade de cada um. Pergunte a um engenheiro o que ele achava das aulas de história e filosofia. Da mesma forma que a um jornalista ou advogado sobre as aulas de química e física. Felizmente, a Europa já tem escolas onde o aluno escolhe o que vai querer aprender, respeitando a individualidade. Ao atribuir significado às palavras, universalizando currículos escolares, tornamos isso verdades e assim criamos pessoas que passam no Brasil doze anos entre o ensino fundamental e médio tendo aulas que nunca serão úteis em suas vidas e o que é pior, tornando o aprender um sofrimento.

E isso vale para tudo, inclusive conceitos como: certo, errado, Deus, moral, juventude, educação e toda e qualquer palavra. A quem interessa sermos todos iguais, a vermos o mundo de um mesmo jeito? A resposta é simples; a quem quer manter o poder e o controle sobre seres que, tendo como essência a liberdade, precisam ser aprisionados em seu pensamento.

No aforismo 17 de “Além do bem e do mal”, Nietzsche afirma: “Um pensamento vem quando ele quer e não quando eu quero; de modo que é um falseamento da realidade afetiva dizer: o sujeito ‘eu’ é condição do predicado ‘penso’”. Não há, portanto, alguém que pense, o pensamento é tudo, ou como diz Nietzsche “não é o homem quem pensa, mas a vida”. Com isso, Descartes precisaria rever-se, mas já era tarde.

Obviamente não pensamos o que queremos, o pensamento é o resultado do corpo na sua relação com a vida, seja aumentando sua vontade de viver pela alegria, seja diminuindo essa vontade pela tristeza. O pensamento então é resultado de um conflito intenso entre o corpo e o mundo. Quando, por exemplo, recebemos algumas “verdades” como: viver é sofrer, o sofrimento purifica, o reino dos céus será dos que sofrem, felicidade dura pouco, etc. imagine o que esse tipo de significado faz com nosso metabolismo. Não é à toa, que à medida que o ser humano evolui, ganhando mais consciência, “verdades” como essas só aumentam a ansiedade e suas consequências, como o uso de drogas legais e ilegais e o crescente aumento dos índices de suicídio, por exemplo. Essa cultura nega a vida em sua essência, com seus significados que tentam explicá-la e dizendo como devemos viver. Vou usar o exemplo de Nietzsche: “Por fim trata-se de saber com que finalidade se está mentindo. As finalidades são ruins: envenenamento, negação da vida, desprezo pelo corpo , o aviltamento e a autoviolação do homem pelo conceito de pecado”.

Como afirma Nietzsche em “O Anticristo”, os ideais de como devemos ser para atingirmos a santidade aqui na terra precisam negar a realidade, a saúde, a alegria, a beleza, a valentia e o espírito. Precisamos ser anêmicos, doentes e abrirmos mão de toda alegria.

Vida não se explica, vive-se!

Nietzsche afirma que o quanto se pode avaliar em um espírito é o quanto de verdade ele suporta. Sendo que a “verdade” a que ele se refere é o de ver e agir na vida com olhos e interpretações próprias. A vida como ela é, sem explicações metafísicas. Se estamos frágeis diante do mundo, é o medo que nos leva a busca de conhecer para podermos sobreviver. E isso é a vida, conhecer por si.

Diferente de Sócrates que pregava um não saber que somente levava à dúvida, poderemos ir além, em um não saber para podermos dar significados pessoais ao mundo. Toda regra, moral e lei, busca nivelar por baixo, solapando instintos da vida e aumentando a tristeza. Os resultados estão nas farmácias!

Somos o que somos e o que deveríamos ser, como dizia Kierkegaard. Quando o que deveríamos ser fica distante, essa lacuna é preenchida pela doença, seja emocional ou física.

Nada errado em acreditarmos em conceitos ou saídas que estejam além da razão, mas o que não se pode é perder o que existe pelo que é apenas uma expectativa que nem é nossa, mas vem de interesses que nem sempre são sadios. Um dos artifícios do domínio pela linguagem, por exemplo, é nos vender futuras vidas em troca da anulação desta. Vivemos essa barbárie sem sequer questionar, duvidar. Incrível!

Nietzsche é o filósofo que mais vende livros há décadas. Suas ideias são “perigosas” para todo o status quo vigente. Lê-lo pode ser inicialmente um ato de rebeldia ou de encontrar uma saída para esse sistema que já faliu. Mas cuidado, ninguém o lê impunemente. Ele é um fogo de vida e não se fica impune a esse encontro. Como uma previsão que um dia ele seria entendido, afirma: “Só o depois de amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos”.

Para quem gosta de “verdades” ou lembra com saudade da cama dos pais depois das tempestades e pesadelos ou do colo da mamãe sugiro que fique longe dele!

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Para arriscar-se mais:

Nietzsche e a grande política da linguagem – Viviane Mosé. Ed. Civilização Brasileira.

Além do Bem e do mal – Nietzsche – L&PM editores

O Anticristo – Nietzsche. L&PM editores