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O peso da Solidão

“ Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é um Deus.”

Aristóteles

“ A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.”

Arthur Schopenhauer

“ A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

Fernando Pessoa

 

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Um estudo recente promovido pela Universidade de Virgínia*, nos Estados Unidos, publicado na revista Science, traz interessantes conclusões sobre a solidão.

Os voluntários eram colocados em uma sala, sozinhos, por 15 minutos, sem fazer nada, sem seus celulares ou qualquer outra distração. Não havia televisão, som ou qualquer estímulo que pudesse dividir a atenção. A pessoa ficava acompanhada apenas dos seus pensamentos.

Mas havia uma saída, caso apertassem um botão poderiam usar o que quisessem como pegar seu celular, por exemplo. O detalhe era que esse botão, que possibilitaria voltar a ficar conectado dava um choque elétrico. Em outras palavras, para sair da solidão o preço era levar um choque, que, segundo a pesquisa, era dolorido o suficiente para, em princípio, desestimular essa iniciativa.

Os resultados foram surpreendentes: 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram a dor do choque a ficarem os 15 minutos completamente sós. Alguns, inclusive, preferiram tomar mais de um choque nesse curto período.

O resultado não deixa dúvidas;  o ser humano (na sua média, afinal toda a regra tem exceção) vê a solidão como algo negativo. O simples fato de estar conectado a internet, já abranda essa angústia. Isso explica muito bem como os celulares modernos ocupam muito do espaço que antes era da televisão, ou seja, de nos entreter e evitar que a pessoa se perceba só.

Alguns estudiosos como John Cacioppo que é diretor do centro de neurociência da Universidade de Chicago, defendem a ideia que a solidão trabalha em nosso cérebro da mesma maneira que percebemos a dor, fome ou sede. Isso quer dizer, que, quando sozinhos nosso cérebro entende que corremos risco de vida, afinal os estímulos citados acima têm a ver com sobrevivência.

Todos os estudos mostram que as pessoas sozinhas, ou que assim se sentem, têm, em média,  um aumento da pressão arterial e o processo de envelhecimento acelerado, se comparado com pessoas não afetadas. Já as pesquisas sobre suicídio dão conta de que as pessoas consideradas “cronicamente sós” atentam mais contra sua vida do que as que não pertencem a esse grupo.

A explicação para o resultado dessa pesquisa tem suas raízes em nosso processo evolutivo. Nos primórdios, mesmo antes da podermos dizer que havia algum rudimento de civilização, a sobrevivência do “bicho” homem só era possível em bandos, ou seja, estar com mais pessoas ajudava a manter a vida. O grupo proporcionava essa segurança de uns defenderem os outros, a conseguir alimento e dividir tarefas.

Mas, pelo visto, nem todas as mudanças nesses muitos milhares de anos trouxeram grandes acréscimos em relação ao nosso modelo original. Talvez porque a própria teoria evolucionista mostra que temos em nossos genes contato com esse homem das cavernas, de quem somos descendentes.

O fato de sermos animais sociais, não tem a ver com não podermos estar sós. A solidão é um problema que a pessoa tem consigo, é interior. É de alguma forma sentir-se a parte, desconectada da vida. Quantos se dizem sós, mesmo rodeado de pessoas?

Hoje, com toda a tecnologia disponível a maioria das pessoas teme a solidão como uma doença letal. A mente sempre agitada e negativa deixa a pessoa atordoada com suas maquinações de medo em relação ao futuro ou culpa pelo passado e, na verdade, o outro ou algo que prenda minha atenção cumpre a tarefa de  salvar desse inferno de ficar ouvindo esses pensamentos ruins o tempo todo.

Não vejo como possamos estar realmente bem com alguém sem que tenhamos a experiência agradável da solidão. Parece que as pessoas não entendem que não “são” sua mente e  não há nada que faça essa negatividade acabar, afinal essa é a sua natureza. Ter medo ajuda o bicho homem a sobreviver, como já enfatizei em artigos anteriores.

Mas isso não impede que minha companhia me seja agradável, que possa curtir a solidão como algo prazeroso e profundamente evolutivo. Quem fica bem sozinho transcendeu ao bicho que também faz parte de si, e, provavelmente, entendeu sua mente e convive bem com ela, apesar de tudo.

A solidão será um problema na medida em que pensamos que esse “vazio” só pode ser preenchido por outra pessoa ou por estar em contato com outras. Aí, já entramos no perigoso terreno do apego e da dependência emocional que sempre é facilmente confundido com amor. Se dependo da presença de outra pessoa para me sentir bem, é porque me falta algo, que espero que seja preenchido pelo outro. Nunca será, e é por isso que muitas pessoas pulam de relacionamento em relacionamento atrás de si mesmas e  nunca sossegam. Procuram  no outro o que falta em si e isso nunca será possível.

Assim, vamos imaginando nas outras pessoas ou esperando em um futuro relacionamento “perfeito” a peça que falta no quebra cabeça do meu autoconhecimento.

A grande vantagem de encontrar essa paz em si mesmo é nunca cobrar do outro essa responsabilidade, além de facilitar e nivelar sempre “por cima” as escolhas que fazemos, não só afetivamente, mas em todos os campos de relacionamento. Se não preciso, escolho melhor e sempre me relaciono de forma mais saudável. Parece óbvio, mas,  infelizmente, não é.

Os choques que as pessoas preferiram levar nesses apenas 15 minutos, mostram que preferem sofrer a ficar sós com seus pensamentos. Daí é bem fácil entender porque também sofrem em suas relações. O outro é alguém que me salva dessa sensação de inadaptação que nos faz sofrer e ativa nosso sistema como um perigo letal.

É claro que se estou morrendo qualquer um que me salve resolve meu problema, mas ninguém está doente ou morrendo por estar só. Hoje, com a internet, temos milhares de contatos na palma da mão e ter a possibilidade de conversar com pessoas on line e saber o que ocorre um tempo real virou também um substituto para a convivência.

É tão mais seguro se relacionar atrás da tela, já que nos isenta das frustrações possíveis de ocorrer em relacionamentos reais. Sempre será importante lembrar que dificilmente um relacionamento entre pessoas emocionalmente saudáveis dará errado. Vamos de um extremo a outro, sempre fugindo da dor e buscando a felicidade.

Como nosso lado instintivo é  forte!  Somos ainda mais bichos que humanos.

Pelo visto, evolutivamente, a pré-história ainda não terminou.

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*Os resultados dessa pesquisa foram publicado no Jornal de Santa Catarina na edição de 21/07/2014

A importância do mal

“A única maneira de conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer.”

                                                                       Mark Twain

“Se restar em vós a mais leve ideia de certo e errado, então vosso espírito se perderá na confusão”.

Shinjinmei – versículo 22 (Zen)

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Diz a lenda, descrita no antigo testamento como a “segunda criação”, que o primeiro ser humano era chamado Adão. Mas esse Adão era um andrógino, ou seja, não era nem homem nem mulher, ou os dois, como queira. Adão vivia no “paraíso”. Esse paraíso não era um lugar de temperatura amena, com todas as facilidades dadas gratuitamente, como um resort, essa é normalmente a definição de “inferno”. “Paraíso” quer significar que esse Ser estava em perfeita unidade com o Todo, ou seja, tinha o que hoje chamamos de “consciência cósmica” ou “iluminação”.

Um belo dia, Adão resolveu tirar parte de si e essa parte criou vida. Quando Lutero fez a tradução dessa passagem, chamou essa parte de Adão de “costela”. Daí essa parte tornou-se um outro ser, que foi chamado de Eva. Durante esse período enquanto a costela criou vida, o que é dito no texto é de que Adão “adormeceu”.

Adão e Eva continuaram a viver no paraíso e não havia a dualidade, ou seja, não havia qualquer tipo de discriminação, de bem ou mal, ou de certo e errado. A única coisa que representava essa dualidade eram as duas árvores que existiam lá que se chamavam: árvore da vida e a árvore do bem e do mal.

Um belo dia a cobra veio e conversando com Eva (que significava a parte vulnerável nessa metáfora) disse que ela poderia encontrar o discernimento entre o bem e o mal e para isso era só comer o fruto da respectiva árvore. Querendo isso, Adão e Eva, ao provarem desse fruto, passaram a separar as coisas em dois, ou seja, entre certo e errado e bem e mal. Assim, se tornaram duais e por isso não podiam mais viver no “paraíso” e foram expulsos. Na hora da saída, foi-lhes dito que precisariam ganhar seu “sustento” ou sua evolução, que haviam perdido, com o “suor do rosto”. Assim, de lá para cá, estamos buscando encontrar de novo essa unidade perdida e voltarmos ao paraíso e pararmos com todo esse sofrimento que temos, justamente por estarmos sempre divididos entre, por exemplo, o bem e o mal, ou o certo e o errado.

Do lado de cá do planeta esse conceitos nos foram dados pelo Cristianismo e, mesmo quem não é um cristão praticante, foi programado por esses princípios. Então estamos sempre “pecando”, já que o que é dito como “errado” são normas de condutas dadas para as massas, que não funcionam muito bem no individual. Com esse jeito de pensar, ninguém escapa de estar em pecado vez por outra, já que o proibido muitas vezes nem é fazer algo, mas pensar já configura o “crime”. Haja inferno para colocar tanta gente…

Tudo que queremos fazer e que gostamos, normalmente é errado. Quantas vezes o que é certo para nós é errado para os outros? E como não há um meio termo, ou andamos na “linha” dos mandamentos difíceis de cumprir ou a punição será fatal. Com esse jeito de pensar, tudo que é certo ou bem ficou com Deus e tudo que é errado ou mal passou a ser propriedade do Diabo. Se pensarmos bem, veremos que até Deus ficou dividido. Antes Ele era tudo, agora ficou pela metade.

O hinduísmo foi mais feliz e, entre o que se cria (Brahma) e o que se destrói (Shiva), tem um outro que “mantém” (Vishnu). Assim a eterna lei da impermanência, essa sim mais lógica e evolutiva, é mais bem entendida. Tudo está em movimento constante e não há nada que seja “certo” ou “errado”. Para tanto vou dar um simples exemplo: Todos concordam que matar é errado, mas é certo se estivermos em guerra ou se nossa fé estiver sendo atacada por quem não tem a religião que eu tenho (vide os conflitos religiosos que, absurdamente, ainda matam no século XXI).

Todos os nossos desejos, que os temos porque que queremos a felicidade, são amorais na sua essência. Se certo ou errado, vai depender da cultura, da época ou dos interesses vigentes. Como saberemos se algo é realmente o “bem”, sem que tenhamos tido, para nós, a experiência do “mal”?

A frase de Mark Twain que abre esse texto é emblemática e muito verdadeira. Para ser “certo” precisamos negar o tempo todo o que gostamos, o bom ou que nos dá prazer. O negócio mesmo é sofrer e nos “purificarmos”, vivendo a vida mais chata e sem graça possível. Isso pode até manter as pessoas na “linha”, mas muito de seu desenvolvimento precisará vir da rebeldia.

É óbvio que ninguém nega a ética e o respeito ao direito do outro, mas penso que você  entenda o que estou dizendo. Os “vigilantes” do certo/errado certamente terão motivos para distorcer o que digo, alegando que estou pregando a busca desenfreada do prazer. Esse tipo de interpretação é a mesma que condenou, por exemplo, o sexo à “sombra”,o que se tornou o embrião de todos os desvios, perversões e violências que testemunhamos hoje.

Já escrevi em vários artigos que a medida correta é o “caminho do meio”, ou seja, o equilíbrio. Leis só existem para quem não tem essa medida e está dividido entre o certo e o errado, ou entre Deus e o Diabo. Assim, para ser “certo” preciso reprimir o “errado” e o que reprimo, via de regra, pede passagem na consciência. Justamente por isso, quando alguém perde a cabeça e faz uma insanidade é comum dizer que estava “possuído” pelo mal. Na verdade, toda a repressão tem um limite. Se reconheço o mal em mim, posso dominá-lo mais facilmente. É bom nunca esquecer que tudo que reprimimos passa a habitar o inconsciente e isso quer dizer que não temos mais muito controle.

Tudo que estamos testemunhando ultimamente, como os eternos conflitos na Faixa de Gaza, ou a derrubada de um avião com 298 inocentes na Ucrânia nada mais é do que: Estou certo(bem) e quem não pensa assim está errado(mal). Nada melhor para erradicar o “mal” do que cortando pela raiz, no caso matando aqueles que não pensam como eu, ou justificando a morte das pessoas como “fazendo parte” da luta pela erradicação do mal.

Enquanto essa dualidade persistir, a idade das trevas não terá acabado. Diferente da Idade Média, onde a imbecilidade era apenas religiosa, todo nosso desenvolvimento levou à escuridão para a política e a economia.

Precisamos de “leveza” e compreensão. Aceitar o diferente precisa ser algo que não seja imposto por lei, mas por simples entendimento de que cada um pode ter suas escolhas que são “certas” para si.

Essa bobagem de ter um “certo” e “errado” para todos dá nisso. Quando vi as fotos de dezenas de crianças mortas por uma bomba jogada por Israel, ou quando vejo foguetes serem atirados de hora em hora sobre Jerusalém, fico pensando que a infância da humanidade ainda está longe de terminar.

Enquanto dividirmos tudo entre “Bem” e “Mal”, a ignorância, a bestialidade e o fanatismo serão a marca de um ser humano que vive na escuridão. A luz e a escuridão dependem uma da outra para serem entendidas. Enquanto todos os conceitos binários persistirem o mal precisará ser cada vez mais propalado para que se busque o bem.

A escuridão (inconsciência) não existe por si mesma, se não pela ausência de luz (consciência). É como uma gangorra que um dia precisará estar no equilíbrio. Já que se uma parte está no alto, o que está embaixo estará sempre ganhando impulso para subir e a oscilação, que significa sofrimento e ignorância, nunca terminarão.

A Educação essencial – 2a Parte

“O homem sábio não busca o prazer, mas a libertação das preocupações e sofrimentos. Ser feliz é ser autossuficiente”.

                                                   Aristóteles

                                                                                                                                                   samsara-roda-bhavachakra

Você se lembra do que estava te preocupando no começo de junho do ano passado? Ou mesmo com o que problema sua mente se atormentava em março desse ano?
Para a grande maioria a resposta será “não”.

Já reparou também, que sempre que sua vida está tranquila, você mesmo acha muitas vezes ridículo o “problema” que passa a incomodá-lo? Chega até a dizer ao seu interlocutor: “você vai achar graça do meu problema”.

Por isso é importante entendermos que nossa mente vive de criar problemas, e como a maioria acredita ser sua mente, passa a vida se preocupando o tempo todo, esperando que, se o problema do momento for resolvido encontrará finalmente um pouco de paz. Nunca vai acontecer!

Justamente por isso, a maioria das terapias tende a ser de longo prazo, visto que, quem procura ajuda, faz isso com o objetivo de resolver seus problemas e eles jamais acabarão, pelo menos enquanto estivermos habitando esse corpo dotado de uma mente.

Lembre que a mente cumpre função de sobrevivência e isso fará com que ela sempre deixe você preocupado com alguma coisa, visto que se essa “coisa” acontecer poderá trazer sofrimento. A finalidade então é tomarmos as providências para que tal coisa não aconteça. Só que isso, por ser função fundamental da mente, nunca terá fim.

Já mencionei uns cem números de vezes que nossas mais antigas preocupações, justamente por serem antigas, nunca aconteceram. Pense no tempo e energia que se desperdiça, uma vida esperando que alguma coisa aconteça. Tudo isso é uma grande bobagem, mas continuamos o tempo todo assim, criando um vício de estarmos preocupados, seja com o que for.

Qual o seu medo de hoje, por exemplo? Ele é inédito ou por falta de coisa mais criativa é dos seus modelos vintage de preocupações?

Todo meu esforço em falar desse assunto muitas vezes e de forma diferente é justamente buscar entender a natureza da mente e diminuirmos, e por que não, extinguirmos todo o sofrimento desnecessário. Como já sabemos, nosso corpo sofre com isso, pois a pressão dos pensamentos negativos nos mantêm tensos e isso sempre termina em alguma doença.

Nosso principal vício é de ficarmos pensando em coisas irreais, projetadas para um futuro imprevisível, ou vindas de um passado tão ficcional quanto.

Quando acontece de estarmos em um momento de certa tranquilidade esse vício fica criando preocupações novas para atender esse jeito doente de viver. O fato de estarmos sempre preocupados é, em última instância, um comportamento que faz parte da cultura que vivemos e, no fim, é muito pouco inteligente.

Quem garante que a pessoa tal vai morrer?

Qual a real certeza de que uma doença virá?

É mesmo “certo” que ficaremos sozinhos e abandonados?

A pobreza ou uma vida miserável no futuro é mesmo uma certeza?

O sofrimento do passado nunca vai mesmo acabar ou se repetir? Tem certeza?

O futuro é uma possibilidade e termos algumas atitudes previdentes em relação a ele não é errado, mas agirmos como se elas fossem uma certeza, beira mesmo a psicose.

Enquanto nossas alucinações não se confirmam, continuamos bobamente esperando por elas, com cada vez mais certeza, afinal se ainda não aconteceu, é porque vai a qualquer momento. Reflita sobre se isso é ou não um absurdo.
Tudo que acontece sempre nos pega de surpresa mesmo quando estamos esperando e isso é uma grande ironia. Mas mesmo sabendo, isso não muda essa doença de preocupações com as quais se faz fortunas, girando bilhões de dólares em remédios, planos de toda ordem e bens de consumo que imaginamos ao tê-los, pararemos de nos preocupar.

Seria tão complicado ensinarmos as pessoas sobre o funcionamento da mente? Teria alguém, como disse na primeira parte desse artigo, dificuldade de entender isso aos doze ou quinze anos?

Nunca conseguiremos terminar com isso, já que essas preocupações tem a finalidade de nos manter mais tempo vivos, agindo previdentemente, mas podemos nos dar ao direito de não ficarmos o tempo todo acreditando nessas bobagens e nos acostumando a estarmos sempre com alguma “minhoca” na cabeça.

Esse jeito de viver termina se tornando parte de nós e noto como as pessoas se sentem estranhas e inadequadas quando não estão sofrendo por alguma coisa. Elas dizem se sentirem “frias”, como se estar preocupado, sofrendo situações que não são suas ou que não existem, mostrem nossa solidariedade e medem o quando gostamos ou não de alguém.

Guarde isso para quando for mesmo REAL, e aí se justificará. Fora disso, busque uma libertação, que será lenta e gradual. Não há como alguém, de uma hora para outra, parar de sofrer desnecessariamente, sem achar que enlouqueceu.

Nosso maior obsessor é nossa mente e esse vício idiota de estarmos sempre sofrendo por qualquer coisa, até mesmo pelo que viu na televisão ou leu no jornal, que nem parte da sua vida faz. Note como acontecimentos que nada tem a ver com você podem “estragar” seu dia. E o pior; saímos contando isso para todo mundo para mostrar como somos bons de coração.

Já ouvi referências que a palavra “psicologia” tem a sua raiz ou significado como ciência da alma, mas do jeito que está virou a ciência da “mente”, ou seja, trocou de finalidade e nunca chegará a lugar nenhum.

Afinal se entendermos como tudo isso funciona e pararmos de sofrer desnecessariamente, aí sobrará mesmo tempo para uma verdadeira psicologia, aquela que se preocupe em ajudar a evoluir, ampliar a compreensão, descobrir a liberdade de atribuir novos significados e não em resolver problemas, na sua maioria imaginados ou porque não resolvemos direito nossos traumas de nascimento ou da infância.

Se isso fosse verdade, como se explica pessoas que passaram por inúmeras dificuldades, sofrimentos e abusos tocarem sua vida normalmente? Talvez elas não tenham muito tempo para desculpas. Querem viver bem agora!

Não acredito em algo que dependa do passado como uma forma de entendermos completamente a pessoa que somos hoje, essa sim, que demarcará até onde poderemos chegar amanhã.

Estive pensando: perdemos um tempão tentando entender nossos problemas. Seria útil se eles acabassem depois de entendidos. Mas logo vem outro, seja novo ou dos ainda não entendidos e tudo começa de novo. Ou entendemos a mente e começamos a tratar as bobagens como bobagens ou então seremos consumidos por isso até a morte e, se houver mesmo reencarnação, na próxima vida também.

Não é mesmo à toa que os budistas dizem que precisamos nos livrar da ignorância, se não ficamos nesse “samsara*” sem fim.

*Samsara – que em sânscrito significa perambulação (devanagari), é o fluxo de incessantes renascimentos. É a perpétua repetição do nascimento e morte, desde o passado até o presente e o futuro, através dos seis ilusórios reinos: Inferno, dos Fantasmas Famintos, dos Animais, Asura ou Demônios Belicosos, Ser humano, dos Deuses e da Bem-Aventurança. A menos que se adquira a perfeita sabedoria ou seja iluminado, não se poderá escapar desta roda da transmigração, ou Roda da Samsara. Aqueles que estão livres desta roda de transmigração são considerados lamas, iluminados (ou budas, em sânscrito). Fonte: Wikipedia

O Fim

Fiquei sabendo quase um mês depois que o Marcos havia morrido. Na hora, acho que todos somos assim, trouxe a minha mente a imagem do seu rosto e com isso o que pensava dele. Parece que arquivamos em nós não só o rosto das pessoas que conhecemos mas também nossos julgamentos. O grande problema disso é que conseguimos, com o tempo, atualizar a imagem, sempre ficando com a última, mas não fizemos muito esforço em rever nossas opiniões.

O Marcos, nos seus bons tempos, gostava de conversar e contar seus feitos, do tempo do exército, da famosa universidade onde estudou e demonstrava que tinha boas soluções para tudo, desde como fazer melhores banheiros públicos à política da educação. Com o tempo, talvez tenha se tornado um pouco mais amargo e isso ficou com jeito de certa arrogância. Assim, os ouvintes foram se afastando, já que não mais conseguiam falar. Só ouvir não é fácil, afinal todos gostamos de contar nossas proezas.

Sempre o via caminhando pela cidade, de uns tempos para cá, com as costas curvadas, como se carregasse sobre os ombros o peso, não só de uma vida que já o ameaçava com problemas de saúde, mas também de estar se conformando de chegar ao fim sem ter encontrado o que procurava. Sabe-se lá se a tristeza não era de sequer não saber o que precisava mesmo ser encontrado.

No final do ano passado, tive por dois dias um contato mais próximo em função de estarmos participando de um evento de final de semana. Lá consegui perceber que estava magoado, como se a vida o tivesse decepcionado. Falava de seus tantos namoros que não deram certo, de quase ter atingido a cátedra na juventude com um título de “doutor”, mas, principalmente, da sua decepção com seus filhos, de quem se sentia distante. Reclamava que eles se preocupavam onde ele gastava sua boa aposentadoria, sua tristeza ficava estampada e as lágrimas que talvez nem existissem mais eram substituídas por um sorriso amargo, de uma inevitável constatação de que era isso mesmo, sem ilusões.

Não sei se tudo era realmente assim, afinal temos sempre nossas versões para os acontecimentos e mudamos de lado, de mocinho a bandido, dependendo de quem conta a história. Eduardo Galeano disse certa vez, que precisávamos de um livro escrito pelos leões, já que estava cansado de ler o que os caçadores contavam.

Um dia, tempos depois, o encontrei em uma parada de ônibus como se estivesse perdido. Penso que entraria no primeiro que chegasse independente para onde fosse. Precisava se mover, se parasse, pensaria e isso era o que precisava ser evitado.

Não se fica mais sabendo das mortes e isso mostra que a cidade cresce. Talvez muitos ainda não saibam da morte do Marcos e cada um a seu jeito lembrará dele e o arquivará em sua memória pelos julgamentos que fez. Nesses quarenta e poucos anos anos que viveu nessa cidade, trazido por um de seus amores eternos, passou por aqui e quando foi embora, não foi reverenciado sequer pelo dia, que, pelo que sei, amanheceu lindo na manhã seguinte, por alguma nota de jornal ou comentário no cafezinho do bar da esquina.

Todos que ainda estão aqui, alheios ou não a sua morte, levantaram no dia seguinte e continuaram escrevendo cada um sua própria história, mesmo sem se dar conta disso. Sinceramente, não sei a vida dele foi mesmo assim ou apenas a minha versão, montada por recortes daqui e dali, mas pouco importa agora. Cada um fez o que poderia ter feito quando conversou ou mesmo quando cruzou com ele nas poucas esquinas de uma cidade pequena, mesmo dando um “bom dia”, vez por outra.

É incrível nunca lembrarmos que as pessoas podem morrer amanhã.

Quem me contou o último ato do Marcos, disse que ele estava sozinho e morreu em casa, na garagem, como se estivesse procurando por algo. Foi encontrado por uma vizinha, pelo que se sabe, dois dias depois.

Parece que nossos finais são uma metáfora de nossa vida.

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Crônica dedicada a A.M.

Procura sem fim

Há duas tragédias na vida; uma a de não satisfazermos nossos desejos, a outra de os satisfazermos.

Oscar Wilde

correndo

 “Um homem procurava a noite algo no chão debaixo de um poste de luz. Alguns  amigos vinham passando e perguntaram: – O que estás procurando?

 O homem respondeu: – minha carteira de identidade.

Então os amigos se puseram a ajudá-lo. Passado algum tempo sem nada encontrar perguntaram: – Tem certeza de que perdeu sua carteira aqui?

O homem responde: – Perdi lá atrás.

Indignados os amigos disseram: – Então porque você está procurando aqui se a perdeu em outro lugar?

O homem respondeu: – Porque aqui tem mais luz.”

Há quem afirme que sem desejos não vivemos. Isso também é verdade, na medida em que são eles que nos fazem correr atrás de conquistá-los, nos mantendo em movimento que é a essência da vida. Mas afinal, o que é um desejo e até onde isso pode me fazer mais mal do que bem?

Precisamos partir do pressuposto que se desejo algo é porque não tenho. Isso vale para tudo, afinal ninguém deseja o que já tem. Também foram os desejos de viver melhor e com mais conforto e segurança que impulsionaram não só a tecnologia como também as guerras e todos os conflitos por posse do que quer que seja.

Outro ângulo a ser explorado é que se desejo alguma coisa material ou mesmo uma pessoa (relacionamento), filosofia, religião etc., esse sentimento traz em si a certeza de se o desejo for alcançado, me fará mais feliz e meu ego será preenchido de forma a me sentir com mais poder e valorizado. Isso se dá, justamente, por ter agregado a minha identidade pessoal esse objeto, pessoa ou o quer que seja. Por isso preste atenção nesse ponto, pois para lidar melhor com os desejos é preciso entendê-los.

Todo o desejo atinge seu clímax no momento da sua obtenção e, a partir desse instante já começa a experimentar um declínio que logo se tornará um vazio, de onde surgirá o próximo e assim sucessivamente.

Dessa forma, desejar alguma coisa está intimamente ligado a nossa eterna busca por felicidade e realização. Em nossos tempos, a mídia trabalha isso com maestria criando diariamente necessidade em uma série de objetos que, segundo a propaganda, trarão mais realização e admiração das demais pessoas. Então a estorinha (comercial) é repetida muitas vezes, martelando essa ideia em nosso subconsciente e, daqui a pouco, foi criado mais um desejo, que me fará acreditar, consciente ou inconscientemente, que dessa vez, quando tiver esse objeto, finalmente serei quem quero ser e até agora não consegui. Esse processo da mídia é ainda mais maldoso, afinal ela separa as pessoas em grupos; os que têm o objeto e, portanto são inteligentes, bem sucedidos e felizes e os que não têm, que estão fora desse “seleto” grupo de pessoas especiais. Assim, como ninguém que ficar de fora, a pessoa se mata de trabalhar, abrindo mão do seu lazer e da convivência com pessoas importantes atrás de uma marca que o incluirá no grupo dos “bons”.

Justamente por isso as mídias são normalmente estreladas por pessoas famosas, passando a ideia subliminar que ter aquele produto ou serviço me tornará igual a ela.

Assim, hipnotizados (essa é a palavra correta) diante da televisão, rádio, internet e até mesmo andando pela rua em uma poluição de outdoors dos modelos dos mais antigos aos mais modernos, com muito som, movimento e cor, vamos sendo sugados pela moda, pelos carros, eletrônicos e roupas atrás de realizar nossos mais recentes desejos que também chamamos de “sonho”.

Qual é o problema real dessa situação? Com o tempo, até mesmo porque quem nos educou também sofreu com isso, vamos transferindo para um objeto atrás do outro, relações de todos os tipos, filosofias e religiões a solução em busca de valorização e admiração dos demais. Obviamente isso nunca terá fim, porque o sistema, cada vez mais veloz e necessitando do dinheiro dos desavisados, faz com que tudo saia de moda e perca valor cada vez mais rápido. Andei até observando, que até mesmo as casas, que sempre eram feitas “para sempre” já são objetos da moda, com desenhos arquitetônicos que mudam de poucos em poucos anos.

Tem saída?

A saída é buscar uma consciência lúcida que permita fazer uma simples pergunta que muda tudo: Até que ponto realmente preciso disso? E isso vale caro leitor para tudo.

Sem essa percepção pró ativa essa máquina de moer que é nossa sociedade vai vitimá-lo sem esforço. De onde você acha que vem a crise de ansiedade que assola o mundo? Vem principalmente do medo de não conseguir realizar os desejos e, portanto, de não ser feliz. Pense bem e é bem possível que concordes comigo.

É óbvio que precisamos de coisas para sobreviver e isso é bem diferente de desejo em certo sentido. Maslow em sua famosa pirâmide de necessidades mostra que não almejamos autoestima se, por exemplo, estivermos com fome. Que só pensaremos em realização pessoal se nossas necessidades básicas estiverem supridas, bem como etapas anteriores como pertencer a grupos e nos sentirmos seguros.

Então, o grande problema é que estamos vivendo um tempo que devido a essa manipulação do desejo, vemos pessoas correndo atrás de coisas que não poderiam ter, já que itens anteriores e fundamentais não fazem parte ainda de suas vidas. Toda a grande farsa consiste em oferecer atalhos ilusórios em busca de felicidade pela adoção do paradigma do que se deve ter e de como nossa vida será maravilhosa se seguirmos a cartilha imposta pelo sistema. Isso leva inevitavelmente a angústia e o medo de não atingirmos o que se espera e nossa vida seria um fracasso. Assim se escraviza e manipula toda uma sociedade, pelo medo!

A sabedoria nos mostra que podemos ter tudo, mas que precisamos de uma relação de qualidade com a materialidade e que não adianta buscar fora o que só pode ser encontrado dentro de nós através de novos pensamentos e percepções. Se não fizermos paradas e refletirmos sinceramente sobre como estamos levando nossa vida seremos inevitavelmente engolidos pela doença do consumo e nos tornaremos verdadeiros zumbis, vagando pela vida, sem perceber sua passagem por estarmos sempre olhando lá na frente, na próxima aquisição, no próximo relacionamento, em busca do descanso (segurança) que, para a grande maioria das pessoas, já poderia estar sendo curtido nesse exato momento.

O mais engraçado disso tudo é que tudo que estou dizendo todos dizem já saber, mas porque então essa situação não muda? Pelo simples fato de não praticamos o que sabemos que devemos fazer por puro medo de ser diferente e sermos excluídos. Não queremos ser chamados de “loucos” por nossos amigos e familiares, perdermos o respeito e a admiração das pessoas. Assim, preferimos a doença em conjunto ao invés da loucura de estarmos enxergando, em uma terra de cegos que estão sendo guiados por interesses nada humanísticos.

 Não é errado pensar no futuro, fazer planos e tomar providências, mas viver o tempo todo com a consciência no que virá (?) é o grande erro. O nome disso é ansiedade que é o alicerce por onde se erguem as doenças psicossomáticas e autoimunes.

Mas talvez o grande problema do desejo em si é apenas um: nenhum tem o poder de solução, mas todos, eu disse TODOS, são apenas paliativos de efeito cada vez mais rápido e, logo em seguida, volta a dor e lá vamos nós atrás do próximo remédio…

 Sei que é muito difícil e é quase impossível suportar a pressão, afinal todos ao nosso lado acreditam nesse mantra. Fugir para as montanhas meditar não traz nenhuma vantagem só mesmo o descanso de uma fuga. A vida é aqui e agora e se estamos vivendo nessa grande fábrica de desejos é justamente nela que precisamos lidar com o problema e avançarmos sobre ele, a não ser que você ache que nasceu “por acaso”.

Tenha tudo que quiser, vença no mundo material e isso é mérito! Mas não torne nada fundamental em sua vida que esteja fora de seu alcance. É lícito pensar em sua velhice, afinal, pode acontecer de você viver até lá, mas não deixe para viver só quando o horizonte mais próximo pela sua idade seja a morte. Como diz um amigo: “vou viajar agora, enquanto posso carregar minha mala”.

Buscar esse ponto de equilíbrio entre o medo do futuro e viver os bons momentos que são possíveis agora é a espiritualidade. De nada adianta rezar e rezar e continuar buscando uma coisa atrás da outra em uma corrida sem fim e sem descanso.

Crescer material e espiritualmente é isso que se espera do ser em evolução nesse mundo que vivemos. Mas para isso, entender e dominar os desejos, sempre transitórios, é o primeiro passo em busca do fim do sofrimento.

O personagem de nossa estória preferiu procurar no lugar mais fácil (onde tinha luz) do que no lugar onde realmente estava o seu objeto perdido. E o que eu mais gosto nessa metáfora, que a torna sutil e profunda, é que ele perdeu a sua identidade…