Agenda

O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.

Para que(m) serve a Verdade?

“Tive, portanto, que suprimir o saber para obter lugar para a fé”

     Kant – Prefácio da segunda edição da “Crítica da razão pura”

                   

“Convicções são prisões”.

                         Nietzsche

                                                                            comunicação-persuasiva-marketing-com-digital

No prólogo de “Além do bem e do mal” Nietzsche afirma, como sua primeira frase, que a verdade é como uma mulher. Como prever uma mulher, o que há de objetivo em uma essência subjetiva? Penso que o seu desejo foi dizer que “verdades” não existem.

Como poderiam existir verdades se não existem duas pessoas iguais?

Para Nietzsche, a verdade é algo que faz mal, já que ela estanca a vida, ou seja, toda verdade é uma espécie de morte. Uma verdade é o fim de qualquer processo. Fácil observar que ele tem razão, e para isso basta observarmos o próprio desenvolvimento da ciência. Nada deixa de ser verdade com tanta frequência como na ciência, afinal ela está sempre em movimento, como tudo que está vivo. Manteiga, café, banha de porco, a forma da terra, Deus Sol e tantas outras verdades que viraram mentiras.

Quem já não fez promessas e percebeu que o tempo não nos ajuda a mantê-las? Mesmo as que fizemos a nós mesmos, sem que ninguém saiba, já não as revogamos por nos tornarmos pessoas diferentes? O próprio conceito de “culpa” não é a mais derradeira confirmação de que verdades não existem? Quando nos sentimos culpados de qualquer coisa, significa apenas que a pessoa que nos tornamos faria diferente do que já fomos. Sempre fazemos o que é “verdade” a cada momento de nossa vida, pelo que somos. Mudamos inevitavelmente, mudam as verdades.

O que podemos refletir é que, seja qual for a verdade, ela tem só uma finalidade: nos oferecer estabilidade em um contexto instável. Ao nos depararmos com um mundo caótico, onde o absurdo é sua natureza, as verdades que escolhemos nos ajudam a explicá-lo e trazer algum conforto, parecido com o colo de mãe. Desde a primeira tempestade que presenciamos na infância e corremos para a cama dos pais, descobrimos que esse mundo tem muito mais força que nós e a única saída é uma explicação, normalmente acima da razão, para darmos a isso tudo algum sentido. O que muitas vezes esquecemos é que só em um mundo sem sentido poderemos ser individuais, exercermos nosso direito à diferença.

Atualmente as religiões, sejam as que têm um Deus, ou mesmo as que não têm, como o Budismo, recebem e perdem adeptos todos os dias, simplesmente porque fatos da vida (que por ser caótica não tem nada a ver com justiça), trazem decepções que as pessoas esperam não ter, por sentirem-se protegidas pela sua religião. Assim como trocamos de fornecedor quando ele nos decepciona, essa alta rotatividade religiosa é resultado de um mercado cada vez mais aquecido. Quem sabe a próxima verdade não me garanta uma vida sem atropelos?

Esse sentido não vem só das superstições que escolhemos, ou nos são impostas, mas também de um artifício de dominação muito sutil, a linguagem. Como diz com muita propriedade Viviane Mosé (em seu livro sobre a filosofia de Nietzsche) sobre o assunto: “Não há unidade nem identidade no sujeito, toda identidade resulta da palavra…a identidade do sujeito é a ficção que tem como função atribuir identidade as coisas. Mas a identidade somente existe na linguagem. E é a linguagem que permite a construção da ficção de um outro mundo, um mundo de identidades estáveis, de coisas e sujeitos de valores eternos”.

Se a vida é movimento e mudança, toda e qualquer verdade (que sempre vem pela linguagem) é uma tentativa de oferecer uma ideia de mundo que traga estabilidade e alguma segurança. O problema é que quando recebemos uma palavra com seu significado estamos sendo, por isso, obrigados a vermos tudo com o mesmo olhar. Isso é uma afronta a única diferença que temos diante dos animais; escolhermos, pela nossa liberdade intrínseca, a maneira como queremos ver o mundo. O uso da linguagem para atribuir significados a priori é a mais violenta forma de escravidão.

Nada na natureza se repete, nem uma folha sequer, e todas têm o mesmo nome! Independentes de serem triangulares, mais ou menos verdes, todas são folhas. E mesmo as folhas da mesma árvore nenhuma é igual a outra. A natureza não se repete, seja nas folhas, pedras, animais e o que dirá na sua forma mais exuberante, o ser humano. Mesmo que a biologia já saiba que nunca existiram duas pessoas iguais, quando, por exemplo, submetemos todos aos mesmo método de ensino, com as mesmas aulas, parte-se do pressuposto de uma igualdade.

 É um sistema que busca sufocar as diferenças, ou seja, tirar a humanidade de cada um. Pergunte a um engenheiro o que ele achava das aulas de história e filosofia. Da mesma forma que a um jornalista ou advogado sobre as aulas de química e física. Felizmente, a Europa já tem escolas onde o aluno escolhe o que vai querer aprender, respeitando a individualidade. Ao atribuir significado às palavras, universalizando currículos escolares, tornamos isso verdades e assim criamos pessoas que passam no Brasil doze anos entre o ensino fundamental e médio tendo aulas que nunca serão úteis em suas vidas e o que é pior, tornando o aprender um sofrimento.

E isso vale para tudo, inclusive conceitos como: certo, errado, Deus, moral, juventude, educação e toda e qualquer palavra. A quem interessa sermos todos iguais, a vermos o mundo de um mesmo jeito? A resposta é simples; a quem quer manter o poder e o controle sobre seres que, tendo como essência a liberdade, precisam ser aprisionados em seu pensamento.

No aforismo 17 de “Além do bem e do mal”, Nietzsche afirma: “Um pensamento vem quando ele quer e não quando eu quero; de modo que é um falseamento da realidade afetiva dizer: o sujeito ‘eu’ é condição do predicado ‘penso’”. Não há, portanto, alguém que pense, o pensamento é tudo, ou como diz Nietzsche “não é o homem quem pensa, mas a vida”. Com isso, Descartes precisaria rever-se, mas já era tarde.

Obviamente não pensamos o que queremos, o pensamento é o resultado do corpo na sua relação com a vida, seja aumentando sua vontade de viver pela alegria, seja diminuindo essa vontade pela tristeza. O pensamento então é resultado de um conflito intenso entre o corpo e o mundo. Quando, por exemplo, recebemos algumas “verdades” como: viver é sofrer, o sofrimento purifica, o reino dos céus será dos que sofrem, felicidade dura pouco, etc. imagine o que esse tipo de significado faz com nosso metabolismo. Não é à toa, que à medida que o ser humano evolui, ganhando mais consciência, “verdades” como essas só aumentam a ansiedade e suas consequências, como o uso de drogas legais e ilegais e o crescente aumento dos índices de suicídio, por exemplo. Essa cultura nega a vida em sua essência, com seus significados que tentam explicá-la e dizendo como devemos viver. Vou usar o exemplo de Nietzsche: “Por fim trata-se de saber com que finalidade se está mentindo. As finalidades são ruins: envenenamento, negação da vida, desprezo pelo corpo , o aviltamento e a autoviolação do homem pelo conceito de pecado”.

Como afirma Nietzsche em “O Anticristo”, os ideais de como devemos ser para atingirmos a santidade aqui na terra precisam negar a realidade, a saúde, a alegria, a beleza, a valentia e o espírito. Precisamos ser anêmicos, doentes e abrirmos mão de toda alegria.

Vida não se explica, vive-se!

Nietzsche afirma que o quanto se pode avaliar em um espírito é o quanto de verdade ele suporta. Sendo que a “verdade” a que ele se refere é o de ver e agir na vida com olhos e interpretações próprias. A vida como ela é, sem explicações metafísicas. Se estamos frágeis diante do mundo, é o medo que nos leva a busca de conhecer para podermos sobreviver. E isso é a vida, conhecer por si.

Diferente de Sócrates que pregava um não saber que somente levava à dúvida, poderemos ir além, em um não saber para podermos dar significados pessoais ao mundo. Toda regra, moral e lei, busca nivelar por baixo, solapando instintos da vida e aumentando a tristeza. Os resultados estão nas farmácias!

Somos o que somos e o que deveríamos ser, como dizia Kierkegaard. Quando o que deveríamos ser fica distante, essa lacuna é preenchida pela doença, seja emocional ou física.

Nada errado em acreditarmos em conceitos ou saídas que estejam além da razão, mas o que não se pode é perder o que existe pelo que é apenas uma expectativa que nem é nossa, mas vem de interesses que nem sempre são sadios. Um dos artifícios do domínio pela linguagem, por exemplo, é nos vender futuras vidas em troca da anulação desta. Vivemos essa barbárie sem sequer questionar, duvidar. Incrível!

Nietzsche é o filósofo que mais vende livros há décadas. Suas ideias são “perigosas” para todo o status quo vigente. Lê-lo pode ser inicialmente um ato de rebeldia ou de encontrar uma saída para esse sistema que já faliu. Mas cuidado, ninguém o lê impunemente. Ele é um fogo de vida e não se fica impune a esse encontro. Como uma previsão que um dia ele seria entendido, afirma: “Só o depois de amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos”.

Para quem gosta de “verdades” ou lembra com saudade da cama dos pais depois das tempestades e pesadelos ou do colo da mamãe sugiro que fique longe dele!

___________________________________________________________________________________________________________

Para arriscar-se mais:

Nietzsche e a grande política da linguagem – Viviane Mosé. Ed. Civilização Brasileira.

Além do Bem e do mal – Nietzsche – L&PM editores

O Anticristo – Nietzsche. L&PM editores