ANSIEDADE

Há um tempo em que precisamos abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, a margem de nós mesmos.

Fernando Pessoa

A ansiedade é considerada o grande mal da humanidade nos dias atuais, e penso ser importante refletirmos sobre ela.

Para começar, é importante ressaltar que a ansiedade é necessária para vivermos bem, mas como tudo, precisa estar na medida certa. Ansiedade significa MEDO e ela pode ser simplificadamente definida como todo e qualquer medo relacionado ao futuro, estando diretamente ligada ao nosso sistema de sobrevivência. Ninguém que se tenha notícia ficou ansioso em relação ao passado.

Quando, por exemplo, alguém lhe oferece algo para comer que não faz parte dos seus registros anteriores, a ansiedade é que faz com que você olhe com cara de desconfiado, cheire, apalpe antes de tomar a decisão de por isso na boca. Na hora de atravessar a rua é a ansiedade ou, nesse caso, o medo de ser atropelado que indica que olhar para os lados pode salvar sua vida. E assim poderia dar uma infinidade de exemplos. A ansiedade em grau elevado e descontrolado provoca o que conhecemos como síndrome do pânico*, que nada mais é do que o medo em altíssimo grau, com sintomas físicos que trazem a clara sensação para a pessoa que passa por isso de que ela irá morrer. Isso faz com que se tenha medo de tudo, de sair de casa, de ir a lugares com muitas pessoas, ambientes fechados, etc.

Nunca é demais lembrar que a ansiedade (sempre ligada ao futuro) e a culpa (ligada ao passado) fazem parte  de um processo de defesa que não tem nenhuma preocupação com a qualidade da vida que levamos. Buscam, pura e simplesmente, nos manter vivos, mesmo que seja fechado dentro de casa. Todo o medo de fazer mudanças, seja do que for, é um processo ansioso, já que esse medo estará sempre presente quando alguma situação nova, que me trará experiências e modo de ser e viver inéditos até então estiver por ocorrer. E é justamente a ansiedade a culpada por criarmos uma série de rotinas em nossa vida, desde sentarmos sempre no mesmo lugar na mesa, repetirmos trajetos, e tudo que fazemos de forma mecânica, já que isso traz uma sensação de segurança, de conhecido, o que diminui o risco de que algo fora do controle me aconteça. Aquele “frio” na barriga durante a espera por uma resposta, a um encontro, uma entrevista ou a como será determinada situação é simplesmente o medo de que tudo dê errado. Daí para se “preparar” e não ser pego de surpresa, você já começa a viver a situação de forma negativa, ou seja, já sofro pelo que ainda não aconteceu como se já tivesse acontecido. É ou não uma loucura?

Fica fácil de entender então que a resistência às mudanças nada mais é do que um simples aviso de que algo que não tenho como saber como será está por acontecer e meu sistema de segurança entra em alerta. Nessa hora nossa mente começa com uma série de argumentos nos justificando que devemos permanecer no conhecido, que tudo pode dar errado, piorar, etc. Portanto é importante entender a ansiedade como um simples processo do corpo, que está com medo de algo que não conhece, só isso!

Por outro lado, como já escrevemos muitas vezes em artigos anteriores, o processo da vida caracteriza-se por constantes mudanças que são sempre novidade. Dessa forma, poderemos entender a ansiedade da seguinte forma: meu corpo não quer mudanças, meu espírito precisa delas, e você (consciência) precisa decidir quem manda.

Assim como a culpa está ligada ao já vivido, e a ansiedade ao que está por vir, ambos não existem e poderemos até dizer metaforicamente que são alucinações que nos acompanham a cada momento. Use sua racionalidade para lidar com a ansiedade, perceba que precisamos tomar decisões, escolher caminhos e aceitar as mudanças. Deixe esse medo sem sentido de lado lembrando que ele apenas faz parte da nossa parte “bicho”, mas não combina muito com a outra parte, humana!

Em relação ao movimento orgânico, todo nosso metabolismo está ligado somente ao que estivermos imaginando, assim sempre que você estiver “alucinando” com a sua ansiedade, imaginando que nada dará certo, que o futuro é de fome e miséria, que a doença na velhice é certa e que todas as pessoas que você ama morrerão, para seu corpo tudo está acontecendo verdadeiramente. Nessa hora o coração acelera, o estômago e intestinos trancam e sua respiração fica totalmente alterada, ou seja, o sofrimento do que imagino torna-se físico!

E como é a cultura em que vivemos?

Toda baseada no medo! Estudamos e buscamos trabalho, relacionamentos, escolhemos quase tudo baseado nesse sentimento. É cada vez mais perceptível, por exemplo, a busca por profissões ligadas a produção e capital, já que assim é bem provável que não passaremos necessidades, já que o salário desse ramo é “certo” e nunca faltará comida em nossa mesa… Se você estará feliz ou não isso é secundário! Muitas vezes precisamos sofrer muito para percebermos que isso não basta, que precisamos buscar fazer algo que tenha a ver com o que realmente somos. Nada como um bom sofrimento para enfrentarmos nossos medos. Pessoas que não tem muito medo, que são despreocupadas demais são consideradas irresponsáveis e pouco “sérias”. Isso quer significar, que se você não demonstrar medo, algo estará errado.

A vida, do jeito que aprendemos a viver, vai elevando nosso nível de ansiedade por todos os lados. A mídia nos “ensina” que se não tivermos determinadas coisas seremos considerados derrotados, incompetentes e fracos. Assim, temos medo de perder o respeito dos outros e estamos cada vez mais ansiosos para cumprir as normas de sucesso impostas, assim trabalhamos demais, corremos demais. A doença é uma questão de tempo. Lembre que seu espírito ou alma não adoece, mas o corpo sim!

A ansiedade na medida certa tem sua importância, já que também pode ser vista como um combustível para atingirmos nossos objetivos e nos sentirmos adequados, mas deve ser entendida e mantida sob controle. Ansiedade de menos é irresponsabilidade, descuido e riscos desnecessários, em demasia é paralisia, involução e sofrimento. É como um copo que deve ser mantido pela metade de sua capacidade, sempre. Quando cheio, uma simples gota o faz transbordar e chega a crise ansiosa.

O medo é um bom empregado, só isso! Ouça o que ele tem a dizer, mas nunca perca a consciência da sua limitação e que ele quer apenas que você se mantenha vivo, se mal ou bem não faz parte de suas atribuições. Isso cabe a você, que, como o grande diretor de sua vida deve decidir escolhendo conscientemente seu caminho. É seu conselheiro pessimista, então, não esqueça de ouvir o que o otimista tem a lhe dizer.

*A síndrome do pânico será tema de artigo específico, tendo o presente texto como pré-requisito para o entendimento.

4 Comentários

  1. Kari Ane   •  

    Ansiedade, mal que acomete um percentual bastante elevado da população, será que ainda demora muito para as pessoas que sofrem deste mal se convencerem que não temos domínio e que o mais saudável é viver de forma simples e despreocupada? Isso não quer dizer desleixada, desregrada, irresponsável, apenas despreocupada. Ter a condição de avaliar as situações com o conselheiro medo a te mostrar que nem tudo é tão azul, é importante, pode nos ajudar a não nos colocarmos em situações de risco, apenas isso. Ter o verdadeiro controle sobre as rédeas de sua vida, com consciência e sabedoria isso sim é essencial.

  2. Sandra Lima   •  

    Se conseguirmos seguir o que preza um dos princípios do Reiki, ou seja, não nos pré-ocuparmos, com certeza iremos contribui para diminuir a ansiedade e todos os transtornos que ela traz ao nosso corpo/mente/espírito.

  3. Pingback: TIMIDEZ | Blog Eduardo O. Carvalho

  4. Luciano Farias   •  

    Eu já fiz de tudo, mas não consigo superar essa maldita timidez, tomara que isso funciona memso

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