TIMIDEZ

“Toda vez que te olho

Crio um romance.

Te persigo, mudo

todos instantes.

Falo pouco pois não

sou de dar indiretas.

Me arrependo do que digo

em frases incertas.

Se eu tento ser direto, o medo me ataca

sem poder nada fazer.

Sei que tento me vencer e acabar com a mudez

Quando eu chego perto, tudo esqueço

e não tenho vez.

Me consolo, foi errado o momento, talvez

Mas na verdade, nada esconde essa minha timidez…”

Timidez – Biquini Cavadão

                                                                                                                                                                 

Para falarmos sobre a timidez, precisamos, em primeiro lugar, definir o que em conceito psicológico é a personalidade. É, pela personalidade, que nós incorporamos todas as nossas experiências (tudo que vivemos) com os significados que nos deram e como aprendemos a reagir a cada situação. Entende-se a personalidade como sendo uma parte biológica e outra vivenciada com as respectivas emoções. Para dar um exemplo, é como uma forma de bolo (parte biológica) com a massa do bolo que, dependendo da maneira que será feito, terá texturas e sabores diferentes (experiências de vida).

Evidente que podemos falar de uma série de tipos de personalidade que, dependendo do enfoque se divide de várias formas, mas aqui, quando falamos de timidez vamos simplificar em apenas duas: os introvertidos e os extrovertidos, entendendo-se desde já, os tímidos como fazendo parte do time dos introvertidos.

Buscando simplificar o entendimento, poderemos conceituar o introvertido como aquela pessoa que orienta seu foco de atuação na vida para dentro de si, vendo tudo por um ângulo sempre subjetivo, ou seja, interpreta tudo além da percepção ordinária dos cinco sentidos, característica essa das pessoas extrovertidas. Não é a toa que, a maioria dos artistas tem personalidade introvertida. Dando mais um exemplo, o introvertido com sua subjetividade cria uma obra de arte, como um poema, e o extrovertido tem mais facilidade para declamá-lo em público.

Um dos motivos de grande parte dos introvertidos serem mais “fechados (as)” é o fato de possuírem uma subjetividade que procura por uma realidade ideal, diferente da vivenciada pela experiência cotidiana, e isso pode trazer aquela percepção de afastamento e profunda interiorização. Assim, para o tímido não é fácil captar novos amigos, por outro lado os mantêm com mais facilidade, já que sua maneira de ser o torna um bom ouvinte e uma pessoa com capacidade de entender os sentimentos do outro, que sempre são subjetivos.

A timidez torna a pessoa sempre temerosa da opinião dos outros sobre ela e, para não correr o risco de não gostarem dela ou acharem isso ou aquilo ela busca o afastamento. Dependendo do caso, essa é a causa mais profunda da ansiedade que elas sentem em lugares com mais pessoas. O tímido fica sofrendo, imaginando (sempre negativamente) o que todas aquelas pessoas estão pensando dele (a). Alguns preferem nem comemorar aniversário ou outras datas, já que se sentem constrangidas em estarem no centro das atenções e dos olhares e o que é ainda pior; todas as pessoas teriam a possibilidade de interagir e essa perspectiva para a pessoa introvertida é assustadora!

Basicamente, poderemos definir três grupos distintos, mas inter-relacionados de pessoas tímidas: medo da exposição e serem motivo de chacota e rebaixamento, com medo de passar vergonha em público e com medo de falar algo errado.

Pesquisas* mostram que para as pessoas tímidas algumas situações em presença de outras pessoas podem ser dificílimas e as principais são: falar em público (73%), conversar com alguém que deseja afetivamente (64%), conversar com pessoas que ela entende superior por algum motivo (55%), falar com qualquer pessoa estranha por menor que seja o motivo ou situação (50%) e diante de alguma situação nova (48%). Assim, para os leitores que tiveram oportunidade de ler os artigos sobre ansiedade, fica mais fácil entender que o medo projetado diante de qualquer das situações acima é, para a pessoa introvertida, um obstáculo realmente intransponível. Muitas vezes sou procurado para ajudar pessoas a enfrentarem situações como as descritas acima, que vão desde apresentar trabalho em grupo ou diante dos colegas, um trabalho de final de curso universitário, ou mesmo se aproximar de alguém que interessa afetivamente. Na maioria dos casos, a pessoa tímida tem certeza de que não conseguirá se fazer entender, ou que cometerá erros que farão os demais terem uma opinião negativa sobre ela.

Esses mesmos estudos demonstram que as pessoas do tipo introvertido ficam em média mais horas nas internet, principalmente nas redes sociais e sites de relacionamento. Não é difícil entender o porquê disso, afinal estar atrás da tela do computador traz uma proteção e diminui em muito a ansiedade sobre o outro, além é claro do anonimato que, por proteger a identidade social, facilita uma manifestação mais verdadeira, sem o medo do julgamento alheio.

Também é importante lembrar que a timidez, de certa forma, serve como um mecanismo de defesa que permite a pessoa avaliar toda e qualquer nova situação com muita cautela, só que essa resposta ao novo sempre pode vir em forma de fuga ou de negação, afinal é comum nesse tipo de maneira de ser estar decepcionado porque o mundo externo não atinge sua expectativa interior.

Quando os exames de imagens ficaram disponíveis, as pesquisas mostraram que as pessoas tímidas tem uma função maior do lado direito do cérebro enquanto as mais extrovertidas tem o lado esquerdo mais ativo. Como sabemos, o lado direito do cérebro é mais voltado ao pensamento subjetivo, intuitivo e artístico, enquanto o esquerdo é mais lógico e racional.

Alguns introvertidos, movidos pelo medo da exposição, apresentam manchas vermelhas no rosto e pescoço ou simplesmente ficam “vermelhos”, que nada mais é do que a manifestação física do sofrimento interior que eles estão passando. Nessa hora é sempre bom lembrar que, de alguma forma, todos já passamos por situações que nos deixaram corados de vergonha. Pense o motivo dessa reação. Não seria porque essa situação o deixou mais exposto, sem a máscara que todos criamos para sermos bem aceitos e termos certo controle sobre o que as pessoas pensam de nós? Mesmo uma simples queda na rua, um elogio inesperado, uma palavra dita errada diante de um grupo, etc. nos deixam “nus” e a timidez aparece.

 Nos casos mais extremos temos a chamada “fobia social” que impede a pessoa de, mesmo sendo introvertido, ter uma vida minimamente saudável nesse aspecto, necessitando, portanto, de tratamento adequado. A pergunta que se pode fazer então é: quando a pessoa precisa de alguma ajuda terapêutica ou médica? A resposta é simples; quando sua introversão trouxer um sofrimento e perda de qualidade de vida.

Todos nós temos facilidades em alguns aspectos e dificuldade em outros. Ser introvertido não quer dizer uma timidez generalizada, mas forte demais em alguns pontos, principalmente no contato com tudo que gere expectativa e falta de controle da situação. A pessoa tímida trabalha com uma “certeza” negativa dessas situações que sempre geram stress de alguma forma. Porém é nessa interiorização que encontramos a maioria das formas de arte e expressão. A introversão, quando na medida certa (se é que podemos assim dizer), pode dar uma compreensão do mundo mais profunda, indo além do que simplesmente se percebe pelos meios mecânicos dos sentidos.

O importante é lembrar que a introversão não é uma condenação a que estão expostos os tímidos, mas algo que pode ser melhorado e muito com disposição e, quem sabe, uma ajuda terapêutica. Caso sua introversão ser em apenas algum aspecto da vida, é sinal de que pode ser melhorada, afinal em outros pontos isso não acontece. No caso de ser generalizada, avalie os prejuízos e lembre que o ser humano se caracteriza por ser sempre uma possibilidade em aberto e não há nada que não possa ser modificado.

O introvertido ou tímido “sente” a vida de forma mais intensa, elabora significados para tudo e leva a emoção muitas vezes onde o extrovertido nada vê. Como no exemplo que demos acima, enquanto o introvertido se emociona com a música e busca interpretar a letra fazendo paralelos com sua vida e outras situações enquanto no mesmo momento o extrovertido aproveita a melodia para dançar… Não existe certo e errado, afinal o que seria da arte se não houvesse quem dela se aproveitasse da beleza e do significado? Leonardo da Vinci disse certa vez que a arte existe apenas porque temos dois tipos de pessoas; os que criam e os que a apreciam e a julgam bela.

*Ballone GJ – Personalidade introvertida e timidez.

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