ANSIEDADE – 2a Parte

      “A segurança é acima de tudo uma superstição. Ela não existe

       na natureza…. E tampouco os seres humanos a vivenciam.”

                                                                Helen Keller

Como observamos em nosso artigo anterior, a ansiedade provoca sofrimento; afinal ela se caracteriza como uma resposta interna a um perigo simbólico ou imaginário, ou seja, sentir-se inquieto, apreensivo ou preocupado sobre o que pode acontecer. No fundo ela representa uma busca desesperada por segurança, estabilidade e não estar em risco. Isso vale para tudo.

Assim, quem está ansioso precisa de algo que elimine no seu corpo e pensamento esse sofrimento. Então nos cabe a pergunta: Qual o antídoto para o sofrimento? O que o ser humano precisa fazer para estancar essa angústia?

A resposta é só uma: PRAZER!!

Só um prazer acalma o sofrimento, dessa forma a ansiedade pode ser vista como participante de diversos vícios e compulsões, já que eles ajudam a fornecer uma carga rápida de satisfação e isso traz alívio. Pensemos nas principais formas de atenuar a ansiedade, evidentemente que não estamos falando das crises graves, onde a medicação e, muitas vezes, a internação são necessários.

Todo o comportamento humano tem uma finalidade positiva a cumprir como nos ensina a PNL (programação neurolinguística) e é mantido enquanto traz resultado. Dessa forma é preciso entender porque precisamos desse comportamento e se não podemos atingir seu objetivo de forma mais saudável.

Podemos começar pela comida. Desde que nascemos, quando choramos (não sabemos nos comunicar de outro jeito) recebemos comida em troca. Assim, criamos um certo condicionamento de que comendo as coisas melhoram, então os sofrimentos são resolvidos com comida. Mas como precisamos de um prazer, o que buscamos para acalmar nossa ansiedade precisa ser gostoso e isso normalmente nos remete a alimentos calóricos. Não conheci ninguém ainda que durante um processo ansioso tenha ingerido uma grande quantidade de chuchu, por exemplo, ou talvez, aquela mulher vivendo uma ansiedade amorosa tenha trocado os chocolates por vários pés de alface. Assim a ansiedade está diretamente ligada a ganho de peso. Importante lembrar que as fórmulas “mágicas” produzem o efeito sanfona, já que os inibidores de apetite podem conter por um tempo, mas quando o “tratamento” termina o peso volta, já que o foco da ansiedade não foi tratado. Quando se come demais ou fora de hora, estamos, na maioria das vezes, buscando anestesiar um sofrimento que, mesmo que estejamos apenas imaginando, para nosso corpo será sempre realidade. Portanto se não buscarmos uma consciência clara de porque estamos ansiosos, nada vai mudar. Além disso, a comida é mais acessível do que as demais formas tradicionais de amenizar a ansiedade que falaremos a seguir.

A bebida alcóolica relaxa, diminui nossos filtros de segurança e nos permite sermos o que queremos ser. Uma pessoa começa bebendo para se livrar de determinadas frustrações e medos e vai formando um círculo vicioso que pode terminar em dependência química. No caso da bebida o maior problema é o período que chamamos de “ressaca”, onde a pessoa se percebe cada vez mais triste e vai necessitando de mais e mais para buscar algum bem estar. O álcool, por ser socialmente aceito e incentivado, é o que muitos buscam para aquietar seu pensamento que está negativado e ajuda a não pensar sobre o que tememos que o futuro nos reserva. A mídia diz apenas que você não deve dirigir quando bebe. Também deveria dizer para não se comunicar, tomar decisões e agir. A pessoa que está alcoolizada (a medicina já provou que não precisa muito para alterar o equilíbrio) não está de posse coerente de si mesmo.

A questão do álcool é complexa, já que associamos muitos prazeres a ele, inclusive o de sentir-se mais relaxado, o que é o oposto de estar ansioso. Não podemos esquecer que lugares ou reuniões sociais estão sempre associados à bebida e acreditamos que isso nos proporciona benefícios emocionais, ajuda a aproximar as pessoas trazendo momentos de felicidade. Não dá para discordar que estar relaxado e momentaneamente feliz faz bem a nível fisiológico. A pergunta é: não dá para se sentir bem de outro jeito? Para encerrar sobre o álcool, não posso deixar de citar o famoso psicólogo Carl Jung que disse: “Álcool em latim é spiritus, a mesma palavra tanto para a mais elevada experiência religiosa quanto para o veneno mais depravado.”

Outra maneira de lidar com a ansiedade é com o uso de drogas de diversos tipos e os motivos são quase os mesmos que embasam o uso do álcool. Só que as drogas, trazem uma grande liberação de hormônios ligados ao prazer, bem como tem a capacidade de desconectar a pessoa da realidade com sua ação sobre o sistema nervoso. Essas “viagens” buscam também aliviar a carga negativa do pensamento ansioso provocando um descanso no sofrimento. Não é a toa que as medicinas mais antigas como a chinesa e a indiana entendem o uso de drogas como uma compensação para a falta de alegria na vida. No caso das drogas, bem como do álcool, é sempre importante lembrar que ninguém tem a intenção de tornar-se viciado, até porque nem todos que experimentam drogas passam a ser dependentes. O grande problema, no entanto, é que a pessoa superestima seu poder de autocontrole e subestima sua força de dependência.

Já quando falamos do cigarro é importante lembrar que a nicotina é uma das, aproximadamente, 4000 substâncias químicas que fazem parte. A nicotina tem como principal característica, no que se refere à ansiedade, a capacidade de trazer conforto e relaxamento. Justamente por isso que os fumantes sempre aliam a presença do cigarro após atividades prazerosas que vão do cigarro após a refeição até depois do sexo… Mesmo que resumidamente e até como curiosidade, importante saber que depois de cada tragada a nicotina vai para os pulmões e daí para o sangue, carregada pelas artérias, e chega ao cérebro em 8 segundos. O tempo de duração da sensação boa não passa de 20 minutos, e quando o nível de nicotina começa a baixar o desejo por outro cigarro cresce e daí já sabemos como funciona.

Para encerrar os mais comuns meios de anestesia da ansiedade temos a compulsão por compras. Como sabemos comprar é um prazer porque nos dá a sensação de “poder”. Normalmente as pessoas acometidas desse mal, compram coisas que nunca chegam a usar e, como em toda a ressaca, se arrependem logo depois do ato. Comprar dá prazer e isso é cultural, ou você já viu em algum comercial alguém chorando por ter comprado alguma coisa? Nesse como em qualquer dos tópicos acima, existe um grande prejuízo para pessoa, sua família, trabalho e amigos. Mesmo o cigarro já pode ser considerado também, já que fumar hoje pode ser decisivo para conseguir um emprego ou mesmo um relacionamento afetivo.

Mas e quando a pessoa não busca uma compensação de prazer diretamente? Nesse caso surge a depressão! Digo isso pelo simples fato de os últimos estudos demonstraram que a ansiedade esta presente em 80% dos casos de depressão. É quando a negatividade constante e crescente do pensamento vai abatendo a pessoa, trazendo uma certeza (sempre imaginária) de que, seja o que for, dará errado. Evidentemente que não é só a ansiedade que provoca depressão, mas a grande maioria das pessoas deprimidas se dizem ansiosas. Portando essa relação de ansiedade com depressão é obrigatória. Como dissemos em nosso artigo sobre depressão, existe a “certeza” de que a tristeza nunca terá fim e o prejuízo à qualidade de vida é inevitável, assim como o uso de medicamentos. Todavia, se a pessoa não buscar entender seu processo e fazer mudanças nunca nada mudará, apenas se manterá de pé movido pelas substâncias químicas. Nessa hora também é importante lembrar a ligação da depressão com dependência química em geral, tendo sempre a ansiedade como pano de fundo.

A ansiedade é a causa das fobias que nada mais são do que a certeza  de que determinada coisa vá acontecer. Quem tem fobia de lugares fechados tem “certeza” de que ocorrerá algum problema e a morte por sufocamento ou sendo pisoteada será inevitável. Assim como quem tem medo de altura não tem dúvida que cairá e morrerá e assim por diante. A fobia é portanto uma reação presente a algum acontecimento doloroso que a pessoa imagina que ocorrerá. Mas todo o problema, como já sabemos, é que nosso corpo responde 100% ao que imaginamos e é por isso que diante do evento fóbico a pessoa fica paralisada, com o terror expresso no olhar.

Da mesma forma, muitas formas de transtornos obsessivos compulsivos são pura ansiedade, só que descarregada na limpeza, organização, verificação (sempre conferir se fechou a porta, por exemplo), sentir-se sujo (certeza de que se contaminará) e assim por diante.

Outra forma de ansiedade aparece nas pessoas controladoras e centralizadoras em excesso, seja profissional ou afetivamente. Essa necessidade de controlar tudo está ligada a uma forte insegurança (medo) de que se tudo não sair ou ser como ela quer perderá o relacionamento, o emprego, o comando, etc..

Seriam necessários muitos artigos para falarmos da ansiedade e suas consequências, mas penso que os tópicos principais foram aqui abordados, desde sua base teórica, no artigo anterior, bem como isso se transforma em problemas na vida prática no presente texto.

Fique com a frase que abre esse artigo como lembrança! Ela toca na raiz de todo o processo ansioso que hoje afeta o mundo inteiro. Entenda e aceite definitivamente que nada pode estar seguro, a não ser que esteja morto. O processo de tudo que é vivo é baseado na constante transformação e querer manter tudo controlado ou seguro é uma impossibilidade. Não há controle sobre o futuro e isso é fantástico!! Como é chato ver um filme que já se sabe como acaba, não acha?

O remédio?

Mantenha-se no presente, consciente de seus atos e lembre que se tem alguma coisa que pode influenciar o futuro é o hoje. Não deixe que a ilusão da negatividade natural do pensamento seja seu guia. Entenda como isso funciona a assuma o comando da sua vida e termine com essa doença de pensar que tudo vai dar errado se perder e todas essas coisas que simplesmente você imagina, destruindo seu corpo de tanta tensão.

Como não há controle sobre nada mesmo, relaxe……

3 Comentários

  1. Leila   •  

    Oi Eduardo, essa depressão que as pessoas dizem sentir junto com a ansiedade não seria uma tristeza profunda? É que no meu entendimento a depressão é voltada para o passado e não para negatividade constante.
    Fiquei um pouco confusa.
    Abraços
    Leila

    • Eduardo O. Carvalho   •     Author

      Leila, a depressão não tem a ver com o passado (falo sempre na maioria dos casos) mas sempre em relação a uma perspectiva futura muito negativa. A pessoa deprimida, conforme escrevi, não vê perspectiva de melhora de seu estado e isso está relacionado ao futuro e não ao passado. O que acontece é o passado ser a eventual causa da depressão, quando, por exemplo há uma perda grande. Mas mesmo assim é em relação a não ter mais a pessoa, emprego, etc.

  2. Fatima   •  

    Eduardo, obrigada por sua clareza. Parabéns. Um abraço

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