A Questão da Fidelidade (2a Parte)

“Porque eu te amo, tu não precisas de mim.

Porque tu me amas, eu não preciso de ti.

No amor, jamais nos deixamos completar.

Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.”

Roberto Freire – Declaração do amante

Para aqueles que já passaram da casa dos cinquenta anos, com certeza devem lembrar como era um grande assunto na sua juventude quando um casal se separava. As pessoas que passavam por isso recebiam um “carimbo” da sociedade e eram discriminadas como se tivesse algum tipo de doença, os homens bem menos que as mulheres pelos motivos expostos no artigo anterior, mas sofriam também. Hoje em dia tudo mudou. O último censo do IBGE mostra que, se por um lado continuamos casando muito (isso inclui as relações estáveis), nunca houve tantas separações como agora. E a infidelidade feminina iguala-se a masculina, conforme pesquisas de comportamento. O que mudou?

Em minha opinião, basicamente dois aspectos, principalmente: a primeira é que diminuiu a punição social pela separação e, em segundo lugar, o fato das mulheres trabalharem e serem independentes, não mais precisando sujeitar-se a relações insatisfatórias por dependência financeira. Antigamente, esses dois fatores eram os que mais mantinham a maioria dos casais que estavam infelizes juntos. Por um lado, isso ajudava em muito a superar crises conjugais, já que não havia mesmo outro jeito, por outro, pessoas se mantiveram frustradas e infelizes por toda sua vida… Toda essa facilidade que hoje se tem em separar-se traz consigo o inverso: os casais não superam crises (principalmente se não tiverem filhos), mas também não ficam em uniões que não trazem os retornos esperados. Tudo mudou e em muito pouco tempo!

Gostaria de abordar também uma questão que me parece muito relevante e que sempre trato nas conversas com clientes, alunos, palestras, etc. que é a maneira como vemos o casamento em si.

O rito do casamento, na maioria das religiões procura dar a essa união uma “aura” de eternidade, estabilidade, indissolubilidade e comprometimento eterno. Sabemos muito bem que não funciona e isso está diretamente ligado ao tema do artigo anterior!

Durante a época de namoro, tudo sempre é incerto e o casal que está apaixonado procura mostrar um ao outro que é a pessoa “certa” enfatizando as qualidades esperadas e escondendo o máximo que pode seu lado negativo (defeitos) com o objetivo de não decepcionar o parceiro. Isso faz com que a atenção seja total e quase nenhum detalhe passe despercebido. Essa é uma projeção de duas vias baseadas na insegurança dessa fase, o que faz com que o relacionamento seja muito cuidado. Não é à toa que muitos dizem que sentem saudades dessa época…

Quando no casamento prometemos (e fazemos isso porque realmente acreditamos) que será eterno, com as assinaturas, testemunhas, festa e fotos, ganhamos uma segurança (que é contratual e social) por onde iniciam-se todos os problemas que, normalmente vem por diante. Para começar, devido a sentir-se seguros não há mais porque cuidar, já que ou ela é minha mulher ou ele é meu esposo/marido. Imagina-se que aquela pessoa com quem casei, nunca mais mudará e continuará a gostar de mim independente dos problemas e dificuldades, seria isso possível? É claro que não, já que a mudança é um processo inerente a vida, enquanto não mudar é peculiaridade de tudo que está morto. Ao parar de ter os cuidados que tinha com o outro devido a segurança do contrato, coloca-se em risco um dos muitos motivos que fizeram aquela relação prosperar, ou seja, o interesse diário em estar atento às necessidades afetivas um do outro. Osho diz com propriedade que o namoro é algo do coração, portanto vivo, enquanto o casamento* por envolver contratos e compromissos já é algo da sociedade que controla, ligada somente a mente, portanto sem vida. Fica difícil discordar diante do que se vê dia a dia. Tenho tido a oportunidade de presenciar vários relacionamentos, alguns já bem longos que vão muito bem e eles têm como característica esse cuidado, que aqueles que apresentam problemas já não têm mais.

Quando digo que a segurança faz mal e a insegurança faz bem, muitas pessoas pelos seus dogmas e projeções, acham que essa insegurança só pode vir com a possibilidade de relacionamentos paralelos, mas não é. Basta apenas nos lembrarmos que todas aquelas promessas não podem ser cumpridas, já que, no que concerne ao sentimento, jamais poderemos garantir que iremos continuar a gostar de alguém pela vida toda, não há controle sobre isso. Ao saber que tanto o meu sentimento, como da outra pessoa pode morrer por falta de cuidado, isso por si só me ajudará a manter-me interessado e atento e é isso que penso que leva adiante. Ninguém congela em uma foto, tudo muda, quer queiramos ou não. Depois de algum tempo, já não somos mais os mesmos e se não percebemos isso pode abrir-se um distanciamento que, quando nos damos conta, pode estar irrecuperável.

Também é sempre importante mantermos a auto-estima em ordem e isso não pode estar fora de minhas possibilidades. Ao entregarmos nossa auto-estima na dependência de outra pessoa, oferecemos a ela uma segurança em relação a nós que dispensa que sejamos cuidados, afinal demonstramos claramente que sem ele (a) não viveremos bem. Quem está do lado de cima dessa gangorra, normalmente entra em uma zona de conforto perigosa. Aprendemos desde sempre de forma errada que o amor está diretamente ligado ao sofrimento. Se estiver, temos uma relação de dependência de algum tipo o que não combina com esse sentimento trans-humano que é o amor. Para amar, não se pode depender, como nos ensina Roberto Freire na frase que ilustra esse artigo.

Por isso, sempre é bom nos lembrarmos de estarmos atentos às inevitáveis mudanças nossas e do parceiro. Precisamos saber o que é para mim, e para o outro, as atitudes que demonstram nosso querer estar junto. Esses “códigos” mudam com o tempo e, normalmente, não são os mesmos. Se para um é o carinho que demonstra isso, para o outro pode ser atenção e sem a senha certa, não se abre o cofre.

Vemos muitos filmes, lemos muitos livros e poesias que mostram amores “para sempre” congelados na cena ou capítulo final, mas na vida real tudo continua depois da festa e das promessas, a história prossegue. Nesse seguimento, encontramos os conflitos do dia-a-dia, do cansaço e do stress. Nem sempre, como durante o namoro, quando nos encontramos estamos dispostos, felizes e ansiosos para ver o outro(a). Muitas vezes o que queremos é um pouco de sossego e solidão (o que é normal e saudável para homens e mulheres) e somos cobrados com os famosos: “o que é que você tem?”, “No que está pensando?”, e tantos outros…

É sempre importante lembrar que uma relação estável não transforma o “eu” em “nós”. A individualidade precisa ser mantida saudavelmente para que o “nós” seja valorizado. Somos os primeiros e principais responsáveis pelo nosso bem-estar e ao transferirmos para o outro essa tarefa, junto vem as cobranças e o papel de vítima que nunca tira ninguém do lugar.

Portanto é normal idealizarmos esses relacionamentos perfeitos, indestrutíveis e justamente por não serem possíveis, que pagamos os ingressos e vamos às livrarias, para vivermos nessas histórias o que não conseguimos na vida real, justamente por ser real…

Somos seres imperfeitos e fica difícil gerarmos algo perfeito sozinho, ainda mais difícil a dois. Cada pessoa é um “mundo” com suas crenças, expectativas e história pessoal, e se não cuidarmos, com o tempo, ficará difícil acomodarmos dois mundos em um só quarto.

Lembre que somos sempre novos, queiramos ou não, pelas mudanças inevitáveis e se percebermos o outro novo também, todas as possibilidades se abrem! Não devemos nos preocupar em envelhecer com alguém, precisamos nos dedicar a viver bem HOJE com quem está no nosso lado. O amanhã sempre é consequência do hoje. Ansiamos por algo que nos dê segurança, queremos a eternidade, talvez até para muito inconscientemente vencermos a morte. Nessa hora, lembro do nosso poeta Renato Russo que em uma das suas belas melodias nos diz que “para sempre, sempre acaba…”.

Nunca foi a intenção nesses dois pequenos artigos esgotar essa complexa teia que são as relações afetivas humanas, mas abarcar os principais aspectos que na maioria das vezes não pensamos e por onde entram os problemas. O que trato aqui sempre se refere a média do comportamento humano e não às exceções, já que elas apenas comprovam a regra. Pela natureza poligâmica do bicho homem, nossa eventual infelicidade no relacionamento atual, remete a idéia de que com outra pessoa tudo poderia ser melhor e diferente, será? Se fôssemos monogâmicos nem haveria porque discutir esses assuntos, estaríamos condenados a uma só pessoa, quer dê certo ou não. Somos todos “bicho homem” poligâmico, vivendo relação trans-humanas monogâmicas buscando superar nossos limites em busca de superação.

 

*Quando falo de casamento estou dizendo viver junto sob o mesmo teto, compartilhando o dia-a-dia, independente de ter casado oficialmente ou não.

Para aprofundar: Amores perfeitos , Miguel Ângelo Gayarsa

 

4 Comentários

  1. Leila Souza   •  

    Por mais antiga que seja a letra da música de Raul Seixas (A Maçã), acho que as mulheres de hoje tomaram pra si a frase “…por que quem gosta de maçã irá gostar de todas, porque todas são iguais…”. Aprendemos que também há prazer sem amor,daí vem uma questão: será que o cérebro reptiliano feminino está se desenvolvendo e tomando o lugar do neo córtex? Espero que não…rs

  2. Sandra Lima   •  

    Depois de ler O Mito da Monogamia, li outro livro que também me ajudou bastante a entender as naturezas masculina e feminina, digamos assim…….”Porque os Homens Fazem Sexo e as Mulheres Fazem Amor”.Ainda há muita coisa para ser estudada e entendida….Mas que bom que temos naturezas diferentes e fazemos escolhas diferentes……Nunca esquecendo de respeitar o próximo e a nós mesmos……Sandra Lima

  3. Rah Amado   •  

    Então…o interessante é as mulheres experimentarem fazer sexo também, deixando as afeições maiores de lado, alguma vez na vida ao menos! Dar-se essa oportunidade não significa adentrar o mundo da promiscuidade, mas conhecer melhor as suas sensações e possibilidades de sentir prazer fora do padrão imposto/estabelecido pela sociedade. Apenas em um ponto discordo um pouquinho do artigo, mas opinião minha, lógico – a sociedade ainda condena, e muito, sim, a mulher divorciada. Mas como “o escândalo há de vir” (risos), muitas mamães ainda vão ter que aceitar que os seus belos filhinhos bibelôs de armário estejam amando as divorciadas! Adoro essas “belas tragédias sociais”! Tudo pela consciência ampliada! s2s2

  4. Rita Trevisan   •  

    Bem, dizendo por mim, juntei-me aos 21, depois de 6 meses, nos casamos no civil, depois, mais por pedido de nossas mães, casamos no religioso, levando os dois filhos a tiracolo. Hoje com a convicção religiosa que tenho, adquirida a quase 20 anos, não me casaria na igreja pois acho que não há necessidade. Enfim, nada mudou depois que nos casamos oficialmente, e estamos casados já há 26/27 anos. Tivemos sim, como todos os casais problemas, mas qdo adquirimos a consciência de que não mudamos ninguém, ou melhor, só conseguimos nos mudar, e com a nossa mudança, aquilo que não gostamos no outro já muda por si só, já é meio caminho andado. Hj posso dizer que nosso casamento é muito melhor de que qdo casamos, isso em todos os sentidos, sexual, emocional, etc..
    Com tudo isso quero dizer, que a mudança está em nós, pode-se casar com mil pessoas, mas se vc levar as suas mazelas e não procurar mudar o sentido de ver as coisas, nada mudará…
    Com certeza há hj em dia muitas mulheres que só fazem sexo, e há alguns homens que fazem amor, nada é determinante, tudo está em processo de ebulição hj em dia… mas a tendência é que tudo se normalize, principalmente qdo as pessoas realmente se conhecerem e não culpar ou querer que o outro resolva seus problemas…
    Somos “ainda animais sexuais”, pois ainda não adquirimos a “moralidade”, mas tudo tem seu tempo…
    Abraço!

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