Você é LIVRE?

Se for útil, não vejo problema de um moinho de vento ser um dragão”

Do autor

Em alguns textos anteriores, tenho colocado a questão da liberdade de uma forma um pouco diferente da habitual, enfatizando a idéia de como interpretamos os fatos que nos acontecem e hoje, quero me dedicar a esse assunto com alguma profundidade.

Como sabemos, parte de nossa mente recebeu desde o nosso nascimento um “programa” de vida que fomos aprendendo com nossas figuras referenciais, professores, religião e cultura em geral. Essa programação está sempre em andamento, na medida em que continuo aberto ao que vejo e ouço a cada momento. Chamamos essa parte da mente de subconsciente. Portanto, cada vez que você está conversando consigo mesmo, é com ele que está falando. Nessas horas, o que geralmente acontece, é ficarmos “discutindo” com nosso programa, se podemos fazer o que queremos, se não é errado, pecado etc. Entendo o subconsciente de uma forma mais abrangente que o Super Ego de Freud, mais do que um “juiz”ou censor interior, mas um modo automático de pensar o que seja certo ou errado.

Assim, estamos sempre, de uma forma ou de outra, com nossos pensamentos parametrizados pelo programa, chegando muitas vezes até a ouvir a voz da pessoa que nos incutiu essa idéia na cabeça. Quantos dizem: “como eu gostaria de ser …. e não consigo”. Esse lamento se justifica, porque se no meu programa está inserido o conceito de que não posso ser dessa ou daquela forma, por mais que queiramos é muito, mas muito difícil mesmo que se consiga essa mudança.

Sobre isso, espero escrever mais com o tempo, mas por hora, esse preâmbulo serve para questionar se não existe uma outra maneira de interpretar, de dar um sentido novo a tudo que me acontece. Será que só existe mesmo essa maneira de avaliar as situações?

Gandhi disse certa vez que “existem pessoas presas andando pelas ruas e livres dentro de celas”. Tenho certeza de que ele falava exatamente disso. Todos gostariam de ser mais otimistas, de encarar os obstáculos com confiança, de estarem sempre positivos diante da vida, mas não conseguem. O problema é que a primeira interpretação que faço de tudo que me acontece está automatizada em meu subconsciente, é um pensamento mecânico, que, portanto, não exige nenhuma consciência para ocorrer. Nessa hora, é que podemos exercer nossa liberdade, que é justamente encarar aquela situação de outra maneira e principalmente ter uma nova atitude. Quando conseguimos atitudes novas, com o tempo, vamos nos programando do jeito que queremos ser e não da maneira que nos foi imposta. Vamos a um exemplo:

Suponhamos que uma pessoa seja demitida do seu emprego. Naturalmente ela terá como primeira reação a que já está inserida no subconsciente dela, ou seja, como na maioria dos casos, se sentirá mal, com medo do futuro, de passar fome, de nunca mais conseguir um novo trabalho etc. Imaginemos que, antes de ser demitida, ela tivesse um desejo antigo de ter seu próprio negócio, mas que nunca buscou porque no seu “programa” estava escrito: “é melhor um pássaro na mão do que dois voando”ou “a vida é difícil, melhor não arriscar”…

Agora ela está diante da oportunidade de reinterpretar sua vida de um novo jeito. Ela evidentemente precisará se empenhar, mas se vencer o seu medo e pensar que essa demissão era a oportunidade que precisava para dar início ao seu sonho e tomar atitudes de iniciar seu empreendimento, provavelmente estará dando um novo rumo a sua vida, mas a tendência natural é hesitar e mandar o currículo para as agências de emprego e engavetar seu sonho para revê-lo nas tardes de domingo, naquela hora depressiva que pensamos que amanhã é segunda-feira, ouvindo as velhas trilhas sonoras, afundando no sofá…

Todo o dia, nem percebemos, estamos diante de muitas encruzilhadas que nos levam a caminhos que dão curso a nossa vida. A cada esquina que dobramos ou não, a cada livro que lemos ou não, a cada lugar que vamos, tudo pode mudar es seguirmos por outros rumos. Quando estamos no “piloto automático” de nosso programa nem percebemos isso. Mas sabendo ou não, somos responsáveis por nossas escolhas e o destino é o resultado dessa soma. Sei que já disse isso antes, mas não custa repetir.

Os Sufis (místicos do Islã) ensinam que devemos “pensar para pensar”, ou seja, sermos nós mesmos a escolher o caminho que queremos seguir. Em minha opinião, livre é realmente quem interpreta sua vida do jeito que quer (e assim age) e prisioneiro de si mesmo é quem tem interpretações antigas e que nem suas são, mas foram herdadas e nem se pergunta se é isso mesmo que realmente pensa.

E é justamente por isso que penso que Dom Quixote fez muito bem em reinterpretar os Moinhos de Vento…

 

 

3 Comentários

  1. Débora L. Vegini   •  

    Excelente artigo!
    Grata por compartilhar.

    Abraço,
    Débora.

  2. Pingback: A Prisão que nunca existiu | Blog Eduardo O. Carvalho

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