Verdade e Mentira

“Quando um homem pisa no pé de um estranho

 desculpa-se educadamente.

 Se um irmão mais velho

 pisa no pé do mais moço

 Diz: “desculpe” e fica por isso mesmo.

 Quando um pai pisa no pé do filho,

 não lhe diz nada.

 A mais perfeita polidez

 está livre de qualquer formalidade.

 A perfeita conduta

 está livre de preocupação.

 A perfeita sabedoria não é premeditada.

 O perfeito amor

 dispensa demonstrações.

A perfeita sinceridade não oferece

 nenhuma garantia.”

                                              Chuang Tsu

                                                                                                                                                         mentira

O Taoísmo e o Zen têm ganhado cada vez mais adeptos no ocidente.  Dispensam escrituras sagradas e se dedicam mais a meditação deixando outras práticas como secundárias. Não se preocupam em falar de nenhum deus e buscam suplantar a mente, praticamente desprezando-a. Mas isso só é mesmo possível pela observação e entendimento de seu funcionamento. A mente é astuta, trabalha com medo, planejamento e busca tirar sempre o melhor proveito de tudo. Aspira à segurança, respeito e por isso é ardilosa.

Dificilmente é possível ser espontâneo em uma sociedade que vive pelos ditames da mente. Tudo precisa ser “pensado” e isso significa a busca de  uma estratégia para atingir o objetivo, seja qual for. A mente e a sociedade não gostam de surpresas. Tudo precisa ser conforme se espera, segundo as normas. Assim, as pessoas mais sinceras são as crianças e por isso não são levadas muito a serio. Sua sinceridade é tratada como se fossem ofensas ditas por quem não sabe o que diz. Deve ser mesmo por isso que em alguns lugares não devemos levar crianças. Elas são perigosas porque dizem o que pensam – a verdade – e isso é mesmo constrangedor.

Passados alguns anos, depois que sua inocência e sinceridade são esmagadas pela educação (domesticação) elas já estão prontas para conviver em sociedade, ou seja, já prenderam a mentir e a fingir como os demais.

Como já escrevi em artigo anterior, é praticamente impossível conviver sem mentir. Deve ser por isso que em determinados momentos da vida, quando depois de termos cumprido tudo que nos pediram e ensinaram e o sofrimento continua, alguns rompem com tudo e querem abrir mão de toda sua história em busca de uma mudança. Uma mudança que proporcione uma vida mais simples ou sincera.

As pessoas precisam se embriagar ou se deixarem ser levadas ao extremo para se permitirem dizer o que pensam e isso as sufoca, e as verdades saem aos gritos. Depois, a mente e o social voltam, pelo medo das consequências, a retomar o controle e os pedidos de desculpas vem na busca de, em primeiro lugar, dizer que as “verdades” eram mentiras ditas em momentos de destempero.

Para grandes Mestres como Chuang Tsu ser sincero e espontâneo é um pontos mais altos que se pode chegar em termos de evolução espiritual. E isso é muito interessante; ser espiritual é ser verdadeiro.

Osho diz em seu livro “O barco Vazio”:  até hoje, mais de dois mil anos depois, as “técnicas” cristãs não conseguiram que nenhum outro Jesus aparecesse. Permito-me completar, lembrando que ninguém que tenha seguidos preceitos de Sidarta Gautama tenha se tornado um novo Buda, passados dois mil e seiscentos anos de sua morte.

E, se formos ver bem, no cristianismo, por exemplo, todos ou a grande maioria dos mandamentos ou do que se considera “pecados” graves ou capitais, são coisas que não podemos fazer. Toda essa cultura baseada no “não” é limitante, tirando, portanto, a espontaneidade das pessoas.

Cabe colocar, que entendo a necessidade de limitar as ações das pessoas, já que isso tem o objetivo de criar condições de vivermos em grupo e evitar que a própria raça corra perigo. Infelizmente, devido ao precário ou quase inexistente desenvolvimento da consciência, precisamos de leis e punições, sejam dos homens ou de algum deus para nos mantermos minimamente na linha. O problema é que isso se torna necessário porque estamos sempre reprimidos, ou seja, existe uma energia que precisa ser controlada.

E aí encontramos toda contradição, já que, para ser espontâneo não posso planejar. Não temos a experiência de deixar que nossos pensamentos se tornem ações. Tudo que nos seja natural são barrados pelos conceitos proibitivos a que fomos submetidos desde a infância.

Já em seu livro* reflexivo, praticamente indispensável para o entendimento do desenvolvimento, Ernest Becker lembra: dissemos que o estilo de vida de uma pessoa é uma mentira vital…é uma desonestidade necessária e básica a cerca da sua própria pessoa e de toda sua situação. Não queremos admitir que somos fundamentalmente desonestos no que se refere a realidade, que não controlamos realmente nossas vidas. Não queremos admitir que não ficamos sozinhos, que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um certo sistemas de ideias e poderes no qual estamos mergulhados e que nos sustenta.

Todas as relações que estabelecemos tem o objetivo de obtermos resultados, que nosso plano dê certo, e tenhamos sucesso no que quer que seja. Começamos isso na infância e essa é a descoberta, junto com o inconsciente, que torna Freud um marco, apesar de outros conceitos que já se mostraram insuficientes e pouco úteis em nosso tempo.

Dessa forma, vamos à medida que crescemos  nos anulando cada vez mais. Não é  atoa que os números de suicídios, alcoolismo e drogas estejam se multiplicando ano a ano no mundo. Isso pode ser interpretado pela perda da originalidade ou da sinceridade, como diz Chuang Tsu. Por isso, para entendermos seu sutra, precisamos sair da superfície e buscar sua enorme profundidade.

Escolhemos com cuidado as pessoas que pagam o preço de nossa anulação. São os filhos, empregados, pais ou aquele cônjuge ou amigo que sabemos não nos penalizarão com seu abandono. Sobre eles projetamos nossa ira e frustração pela perda de nossa naturalidade, culpando-os pelo nosso próprio desconhecimento, pelo fato de sermos obrigados mentir desde que nascemos, praticamente.

A mente medrosa e insegura tem medo de morrer e nos reduz a algo que apodrecerá. Do outro lado está o homem religioso de Jung, capaz de estabelecer um entendimento superior sobre essa triste realidade, a que parte de nós está sujeita; a de morrer e virar comida de vermes (cadáver). O problema é justamente esse, para vencer essa morte da carne precisamos transcender e os “pacotes prontos” das religiões já se mostram insuficientes. Aqui, encontramos a beleza dos ensinamentos de Sidarta, de aceitarmos as mudanças, de nos desapegarmos (não é afastamento) e pararmos de achar que algo que possamos ter nos salvará do nosso triste destino enquanto habitantes de um corpo perecível.

 Obviamente somos mais, muito mais, mas isso só é possível com a “sinceridade” de Chang Tsu, que, por ser honesta não pode oferecer nenhuma garantia. Garantir significa dizer que não ocorrerão mudanças. Impossível para a sinceridade!

A mente precisa dessa garantia, dos contratos e das promessas. Isso é ou não, outra definição para a palavra MEDO?

*”A negação da morte” – Ernest Becker ed. Record

“ O barco Vazio” – Osho ed. Cultrix

1 Comentário

  1. Patrick Narlok   •  

    Otimo texto e Bem autoexplicativa a imagem 😉 hauhauahua

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