Uma sutil diferença

“ Só existe uma diferença entre a mentira e a verdade: a repetição.”

                                           Adolf Hitler – Mein Kampf

Quadro; A morte de Sócrates

A morte de Sócrates

Dentre outras coisas, foi atribuído ao nazismo a criação da propaganda moderna. Com seus discursos inflamados que duravam horas, Hitler convenceu todo um povo culto sobre suas “ideias”. Assim, se descobriu que com repetição e pitadas de emoção está feita a receita da lavagem cerebral ou, em outras palavras, convencer as pessoas sobre determinados conceitos ou criar-lhes novos desejos.

Dessa forma, fomos todos formados pela cultura que nos cerca a interpretarmos as coisas de maneira “correta”, e isso se chama senso comum, religião e filosofia. A religião com seus sistemas de criar a culpa e medo nas pessoas (ao exigir condutas que não são possíveis a um ser humano comum), impõe uma maneira de viver que, segundo seus porta vozes, foi ditado diretamente por deus, que como sabemos, sabe o que é melhor para seus filhos. Assim, medidas de higiene pública e comportamento que são importantes na nossa convivência social vieram por esse canal que tem a vantagem de não ter suas propostas discutidas, afinal se “papai” mandou está mandado…

Já a filosofia se debruça há séculos sobre as questões fundamentais tentando dar uma certa lógica ou razões para confirmar ou contradizer as religiões e ficamos lendo extensos tratados sobre a existência, a ética, e a metodologia correta de pensar. Noto que isso é tão complexo que se criam problemas para chegarmos ao assunto que realmente importa. É como discutirmos por horas sobre a estrada e paramos de falar sobre o local onde queremos chegar, nosso objetivo, afinal.

Assim, seja por uma ou por outra, as respostas aos problemas mais profundos vão nos sendo dadas. Comodamente, vamos aceitando isso como correto, já que esses conceitos se repetem de geração em geração, e abrimos mão de encontrar as respostas por nós mesmos. Penso que nenhuma resposta a questões subjetivas pode servir a todas as pessoas, justamente por serem subjetivas. Bastaria pararmos um pouco e com alguma atenção para verificarmos se quem está nos dando essas respostas as encontrou por experiência própria ou somente está repetindo o que ouviu. Para isso, não precisa muito estudo, afinal um papagaio também faz esse mesmo serviço e não precisa de um palácio nem grandes títulos.

O que nos caracteriza é um paradoxo; de um lado temos um corpo que precisa sobreviver, como, aliás, todos os animais e uma consciência* que o habita que tem por natureza última a evolução e isso implica em caminhar-se do conhecido para o desconhecido. Essa consciência é formada pela aventura de seguir por trilhas ainda não percorridas, buscando cada vez mais e mais, encontrando as suas próprias respostas para as grandes questões existenciais. Enquanto isso, o corpo onde mora é movido pelo medo do desconhecido, já que isso significa baixos níveis de segurança, o que coloca sua existência em risco.

Portanto, não é errado dizermos que nossa natureza enquanto Ser, juntando o corpo e a consciência é a crise constante, o conflito entre esses opostos. Esse atrito nos empurra para frente ou para a estagnação, já que não podemos servir a dois senhores ao mesmo tempo. O espaço da terapia se ocupa muito desses assuntos essenciais para que cada pessoa adquira sua compreensão que, não me canso de repetir, é individual.

Não pode existir nenhuma “verdade” absoluta justamente por não existirem duas pessoas iguais, que vejam e sintam o mundo da mesma maneira. Muito da insatisfação que traz as pessoas para a terapia é justamente que essas respostas prontas não às satisfazem, ou se comprovaram sem sentido, já que as pessoas pautaram suas vidas por elas e não encontraram a paz interior ou felicidade, como queiram.

Não podemos nos furtar desse atrito que nos coloca diante de uma escolha; seguir a natureza evolutiva ou aceitar os comandos dos adestradores de pessoas que nos imaginam iguais como um rebanho de qualquer coisa. Essa será a escolha mais essencial a ser feita e nossa omissão de buscar cada um sua resposta tem como preço a angústia, o medo e a maior de todas as tristezas: viver sem um sentido existencial, frustradas por nunca terem ouvidos sua própria voz e chegarem ao fim de sua vida com a certeza que foram apenas cópias e o que é pior, de pessoas que nem felizes foram.

Sempre que alguém muito rico ou “bem sucedido” abrevia sua vida, as pessoas ficam dizendo a mesma coisa; “Não consigo entender, ele tinha tudo, podia fazer o que quisesse…” Arrisco um palpite: Essa pessoa chegou a um ponto realmente sem saída. De um lado ela cumpriu as exigências das respostas prontas adquirindo riqueza que, afinal, sempre pode comprar a liberdade de se ser e fazer o que se quer. Mas acontece que ela cumpriu os desígnios do corpo, adquiriu segurança, mas, como isso é metade da resposta, a outra metade não atendida deixou um “vazio”. Como esse espaço não conseguia ser preenchido materialmente ficou diante do grande problema que nenhum valor material pode comprar. E agora?

A felicidade não veio e o que está em aberto não pode ser comprado. Imagino como isso deve ser angustiante, e consigo pelo menos imaginar como tudo perdeu o sentido, e se tornou sem nexo. Da mesma forma que todos que negam a materialidade, achando que só o desenvolvimento espiritual trará todas as respostas erram da mesma forma. Não vivemos como Sidarta ou Cristo em uma época que se vivia com pouco. Hoje o mundo nos exige uma atenção à materialidade e sem um mínimo de recursos não se vive bem o suficiente para pensar em outras coisas. O corpo precisa estar atendido, ou você consegue ter paz se o teto sobre sua cabeça está por cair?

O que é a vida, a morte, a infinitude, a moral, a ética? É sempre bom estudar o que outras pessoas disseram sobre isso, mas procure as suas respostas. Todos temos os recursos para isso e não será enfiando a cabeça na terra como um avestruz (nas rotinas e fórmulas prontas) que as encontraremos. Um dia, mais cedo ou mais tarde, você precisara delas ou então se sentira perdido, porque as soluções de terceiros nunca serão suficientes. Essas “verdades” estão nos sendo empurradas goela abaixo a milhares de anos e ficamos acomodados, torcendo para que esteja certas.

O caro leitor (a) já reparou que nada serve para todas as pessoas? Nenhum sistema, tratamento, etc. O mesmo vale para as questões a que todos devemos buscar o entendimento.

Conta-se que Alexandre o Grande, o maior conquistador da história estava em seu leito de morte. Seus médicos já tinham esgotado todos os recursos e ele sabia que tinha pouco tempo. Como sempre prometia a sua mãe que voltaria das batalhas para vê-la suplicou para ter mais, pelo menos, 24 horas de vida para que ela pudesse chegar até ele. Os médicos lhe disseram que nada podiam fazer. Estava ali um homem que havia conquistado o mundo, e nem todo seu poder serviu para ter um minuto a mais. Conta à história que suas últimas palavras foram: tudo é uma futilidade…

Alexandre foi vitorioso em apenas um aspecto e pensou, como pensamos até hoje, que isso seria o suficiente, afinal o tinham ensinado assim.

Os nazistas tinham mesmo razão; a verdade e a mentira são tão parecidas…

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*Essa  “consciência” também pode ser chamada de espírito, alma, Eu superior, Atman, dependendo da linha a ser estudada.

3 Comentários

  1. Taciana Floriani   •  

    Parabéns pelo texto!
    De fato nenhuma teoria filosófica, nenhuma religião e nenhuma terapia será útil se não pudermos trazer e aplicar ao nosso dia a dia. E para se conhecer é preciso vontade, é preciso querer… é preciso sair da zona de conforto e isso exige esforço, afinal é mais fácil colocar a culpa nos outros que já “ensinaram e falaram” do que assumir as rédeas do destino e querer enxergar esse algo mais que cabe a cada um buscar.

  2. Léia   •  

    Suas palavras sempre sábias despertam a necessidade de buscarmos o equilíbrio entre os opostos, de vivermos no mundo sem pertencer a ele, possuindo as coisas sem sermos possuídos e buscando não nos identificar com nada, mas perceber a inter-relação que há na dualidade do mundo e dessa forma criar um terceiro caminho que nos conduz para a evolução…Parabéns!

  3. May   •  

    Concordo com Alexandre…quantas futilidades…quantas são necessárias para se perceber que não é necessária nenhuma?
    Quantos abririam mão em nome da insegurança necessária?

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