Uma possibilidade chamada Deus

“Eu ansiei  profundamente e busquei durante longo tempo por Deus, mas não pude encontra-Lo. Então, certo dia, abandonei aquele anseio, aquele desejo, aquela busca, e desde tal momento Ele vem me seguindo. Ele está sempre comigo. Na verdade, Ele esteve sempre comigo, mas eu estava tão ocupado pela busca que jamais O via.”

Kabir

                                                                                                                                                   interrogação

Deus é algo que só existe na mente das pessoas, por isso é  que precisa ser alcançado, ou para quem nos dirigimos nas preces, sendo, portando uma “outra” entidade, ou um Tu.

É atribuída a Jesus uma fala onde ele teria dito que o caminho (ponte) é direto e estreito e que só uma pessoa passa. Interpreto essa passagem como que não há espaço para o “eu” e o “tu”. Só quando  se fundem, Deus poderá ser encontrado. Assim, o ego, representado pela mente, é o que impede a clara percepção. Fora disso é a escuridão  que Sidarta falou ter se libertado quando atingiu a iluminação.

Assim, Sidarta negou a existência de Deus, e ele está correto, já que Ele não é possível enquanto existir esse “eu” que separa de tudo, praticamente colocando-se fora do mundo e desconectado, mergulhado em seus pensamentos.

Outros como Pantâjali*, diziam ser Deus apenas uma hipótese, que não traz nenhuma verdade em si, mas pode ser usada como um caminho na meditação, como uma espécie de mapa que leve a algum lugar onde esse ego seja suplantado e o sofrimento termine. Esse pensamento não é necessariamente uma afirmação da inexistência de Deus, mas apenas uma forma de dizer que poderemos usar Deus como uma desculpa para conseguirmos suplantar o diversionismo da mente e encontrá-Lo atrás dela.

Na verdade, essa liberdade de viver sem medo é o que os budistas chamam de Nirvana, mas que também é traduzido por “esquecimento”. Mas que esquecimento? Poderíamos dizer que é esquecer do meu Eu?  Atrás da mente está a eternidade propagada por muitas religiões, mas que, estranhamente, mantém as pessoas aprisionadas em seus mandamentos e punições, trazendo a culpa e o medo que, em essência, é a verdadeira definição de mente.

Trata-se de uma espécie de estelionato espiritual, já que diz que existe, cobra a passagem, mas nunca leva ao lugar prometido. E isso se explica pelo fato de que todos que lá chegaram atingiram a verdadeira religiosidade.  Esse nível de compreensão e liberdade, obviamente dispensa a necessidade de uma religião que lhe diga como deve agir, pensar e o que deve fazer. Essa é, na verdade, a conduta que temos com as crianças que não sabem o que fazem e precisam ser guiadas.

Kabir, o místico sufi que abre esse texto, parou de procurar e encontrou. Pode parecer um paradoxo, mas é assim que as coisas funcionam e isso vale também para Deus. Quem já não ouviu alguma história de uma mulher que de tanto querer engravidar nunca conseguia. Ao desistir da ideia, seja por resolver adotar ou outro motivo, quando já não mais se preocupava com isso terminou engravidando.

Esse “querer”, seja o que for, traz embutido em si o medo de não conseguir e todo o processo é paralisado. Aliás, sobre isso Deepack Chopra** conta que um Mestre disse a seu discípulo:

“Se você passar cada momento transformando todo o pensamento e ação em bem, continuaria exatamente tão distante da iluminação quanto alguém que usou cada momento para o mal”.

Por mais estranho que pareça isso é muito lógico. Sempre que estou me esforçando para fazer o bem, demonstro que  mal está presente e esse vai e vem estre os opostos mantém um nível de tensão que inviabiliza esse estado de paz. Existe uma tendência de igualarmos bondade e Deus, mas o bem é cármico como diz Chopra. Isso quer dizer que o bem é resultado de ações e não é nada que seja a priori ou apareça do nada. Assim, o” bem” é resultado de evolução e não algo que nos seja natural. Da mesma forma a ação errada também gera seus resultados.

Bem e mal fazem parte de uma mesma dança como disse no post   “a importância do mal”. Assim sempre que desejo o “bem”  isso me levará ao mal e vice versa. Para ilustrar vou usar aqui o mesmo exemplo de Chopra:

… desejar A ou B sempre levará a seu oposto. Se eu nasci rico, posso ficar maravilhado no começo; posso satisfazer qualquer desejo, atender a qualquer capricho. Mas no fim o tédio se instala; ficarei desassossegado e, em muitos casos, a minha vida ficará sobrecarregada.”

Isso nem é tão difícil de perceber, afinal quem já não ouviu ou disse que “daria tudo” para… Esse “tudo” é algo que se imaginava antes de se ter que resolveria todos os problemas. Mas por ser um extremo, traz o outro em si, assim como a mais profunda escuridão na noite antecipa o dia que ira raiar, em questão de tempo. Como dizem os budistas, minha mente sempre desejará o oposto que tenho. Entender isso pode até ser como achar o endereço de Deus.

Portanto, se Deus existe, é uma possibilidade, ou algo que precisamos para não nos sentirmos abandonados no mundo. Na verdade,  pouco importa. O que é possível de tornar verdade é ampliarmos nossa compreensão para sairmos dessa situação mental de angústia, sempre atrás de alguma coisa, inclusive de Deus.

Como diz no Gênesis, tudo, no princípio era escuridão, logo Deus já existia, então era lá que ele morava.

Imagino que Deus esteja escondido em um lugar escuro, dentro de nós esperando que possamos iluminá-lo com alguma compreensão e, principalmente, atitude de quem busca ultrapassar os limites do ego.

Muitos para isso buscam renunciar a tudo e isso já traz o outro extemo que é o apego. Só posso querer renunciar a algo que para mim é valioso e isso já mostra como, seja o que for, é importante.

Na verdade, a sugestão é abandonar. A própria palavra já soa mais leve e não traz a separação que está implícita na renúncia. Você pode ter as coisas que abandona sempre perto, foi sua relação com elas que mudou. Na renúncia isso não é possível. Não é um jogo de palavras, experimente e constate por si mesmo.

Noto quando em prática de relaxamento como as pessoas se sentem bem, em paz e isso dura dias. A resposta para isso é que relaxar é, em primeiro lugar manter a mente focada na prática, impedindo suas viagens sofridas, mas principalmente, porque a pessoa se abandona, se entrega totalmente e o bem estar físico e mental é uma consequência natural.

Essa sensação de leveza, paz e serenidade nada mais é que Deus. Quando se está assim, não se pensa em problemas, dificuldades, futuras doenças e outras bobagens. Simplesmente se “está”. Alguns até relatam que nos primeiros segundos enquanto retomam a mente, chegam até a esquecer de quem são, enquanto “eu” ou ego.

Depois da primeira experiência, todos querem novamente  esse estado. O que já pode gerar uma tensão que atrapalha a próxima tentativa e o relaxamento pode ter resultado inferior. Já está de novo o problema; o medo (mente, ansiedade, sofrimento) de não conseguir atingir o resultado esperado.

Kabir, Sidarta e outros chegaram lá, sem a ajuda de Deus. Eles não estavam procurando por Ele, e só por isso conseguiram compreender tudo tão profundamente. Foi assim que Deus passou a ser um detalhe.

E é mesmo!

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*Pantâjali ou Pátañjali – Se dá o nome de Pátañjali ao mítico codificador do Yoga Clássico, autor do Yoga Sútra. Tudo sobre esta figura histórica é um verdadeiro mistério. Para começar, a data em que ele teria vivido é fonte de discrepâncias. Há autores que afirmam que viveu no século IV a.C. e outros que pensam que tenha vivido entre os séculos II e VI d.C.

Disponível em: http://www.yoga.pro.br/artigos/334/3022/quem-foi-patanjali

**Como conhecer Deus – Deepack Chopra  ed.Rocco

3 Comentários

  1. Fernando Bastos   •  

    como sempre, mais um texto instigante. eu particularmente não creio ser possível saber se existe ou não um deus criador preocupado com assuntos humanos. estou mais inclinado a pensar que a necessidade humana criou deus para mitigar seu sofrimento perante a vida. mas não há dúvida de que a crença em Deus pode ser saudável para mtas pessoas. Se é Deus ou a própria pessoa que se ajuda, esta é a questão. cada um vai julgar do modo que lhe seja mais conveniente.

  2. Rubens Hochapfel   •  

    Como é importante se entregar ao nada e encontrar o tudo. Sempre realizo o “olhai os lírios do campo”, sem eu, sem corpo, somente desperto para receber o nada, o algo ou o tudo de quem não tem nome.
    Parabéns, mestre, esse é o caminho sem rumo e sem busca. É tudo sem nome.

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