Todas as quintas

Crônica publicada no jornal FolhaSC em 16 de fevereiro de 2016.

 Cheguei a perguntar para o barman se ele vinha todos os dias, com um sorriso, respondeu que ele vinha sempre as quintas, como eu.

A mesa que ele escolhe é uma de canto, daquelas que se vê quem entra e sai do lugar, e quase não se é visto. Uma leve escuridão o encobre, e o que posso ver é a manga da camisa branca que aparece no pulso, por baixo de paletó. Sim, ele está sempre de terno.

Quando vou ao banheiro passo por ele, mas evito olha-lo diretamente, sei lá o que ele pode pensar. O copo de destilado está sempre lá, enquanto na outra mão um cigarro parece eterno.

Imagino que tenha uns setenta anos e usar terno deve ser uma questão de hábito. Vai que pode ser ainda mais velho e chegou a viver no tempo dos chapéus, como nos filmes dos anos 50, aqueles com gangster e clubes noturnos onde só mulheres elegantes acompanhavam os mocinhos e bandidos. Na época todos fumavam e as cenas nas mesas tinham uma leve bruma dos cigarros, sinônimo de elegância. No palco, as orquestras animavam as danças e o charme era ser durão, mas até os homens maus tinha um estilo e brilhantina no cabelo.

Fico pensando o que alguém que já viveu tanto tempo pensa. O que ainda pode esperar da vida e sem ter algum plano que não seja, quem sabe, poder vir ao bar na próxima quinta? Interessante o fato de acender um cigarro no outro, surpreende que ainda esteja vivo. Ninguém começa a fumar nessa idade e nem para. Muitas vezes o cigarro pode ser o único amigo que ainda resta, uma companhia silenciosa e compreensiva, daquelas que o único preço a pagar pode ser uma falta de ar ou uma tosse aqui e ali.

Muitos médicos já devem ter dito para parar, mas do jeito que o vejo fumar o mais provável é que ele ainda esteja procurando por um que lhe diga que fumar não faz tão mal assim. Depois de tanto tempo e ainda podendo andar por aí e tomar sua bebida, nem precisa que ninguém lhe diga isso, ele é comprovação que a estatística não funciona para todos.

Na mão que segura o copo nenhuma aliança denuncia um casamento ou compromisso. Pode, pela idade ser viúvo, ou quem sabe nunca tenha se casado? Quantas mulheres conheceu? Pensei em sentar e pagar uma dose e falar do meu casamento, mas ele poderia me dizer que isso é problema meu, e é verdade. Se a bebida pode aproximar as pessoas, também pode deixa-las sincera demais. Melhor não arriscar.

 Viemos para beber nossos pensamentos e sonhos, nem que seja o de ter os problemas resolvidos com algum passe de mágica. O álcool faz parecer que as soluções podem ser fáceis e imaginar-se mais feliz já é possível na segunda dose. Quando passa o efeito a situação não mudou e está acrescida de dor de cabeça. Mesmo sabendo disso, venho aqui para poder, pelo menos, me sentir calmo e corajoso. Sempre saio do bar sentindo um vigor que sei mentiroso, mas ter algumas horas de descanso, ainda compensa os problemas e reclamações quando chego em casa.

Nunca o vi com um celular nem jornal ou coisa parecida na mesa. Ele fica lá, horas, praticamente imóvel e os movimentos são sempre os mesmos, levar a bebida e o cigarro à boca. Até já contei; a cada três tragadas, um gole.

Será que ele percebeu que o estou observando?

O barman disse que ele nunca puxou assunto, sempre toma a mesma coisa e que sempre dá uma boa gorjeta, quando a próxima dose é levada à mesa sem que ele tenha que sinalizar. Quando o copo chega, ele sorri com a canto da boca, como um reconhecimento pela presteza do serviço.

Ninguém sabe o seu nome, onde mora e sempre está sozinho.

Imagino que a quinta que ele não aparecer o pessoal do bar comente e sinta sua falta, mas em seguida a mesa será ocupada por outra pessoa e daqui a pouco ninguém mais lembrará dele, afinal a vida segue.

Esse pensamento me deixou melancólico. Parece que a vida das pessoas que passam por nós, na sua maioria não deixa marcas e nem as notamos. Nosso corpo vive aqui nesse mundo, mas nosso pensamento sempre está flutuando em expectativas e lembranças. Estar assim, quem sabe só, deve ser terrível! Como será comigo quando chegar nessa hora?

Quantos amigos e familiares já terão partido e a vida se resumirá a lembranças que esmagam um futuro cada vez mais curto?

O celular mostra mais uma mensagem perguntando se vou demorar. Pago a conta e quando estou na porta volto meu olhar e só o que vejo é o copo sendo colocado, lentamente, na mesa.

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