Agenda

  • Nenhum evento

Só uma resposta

No começo, foi só o silêncio.

O terapeuta já estava acostumado. O primeiro encontro é feito de expectativas, mas além delas, o cliente precisa sentir que pode falar, se expor com segurança e para isso não tem regra ou método. Intimidade que na vida real leva muito tempo, se constrói em minutos.

Depois de um breve suspiro, o homem começou a falar sobre sua vida. Da infância sem sustos em uma família que, como todas as outras, atravessava boas e más fases que nada impediram que ele e a irmã pudessem chegar à idade adulta. Falou como conheceu sua esposa, da dificuldade de terminar a faculdade e do emprego onde estava desde sempre, agora, como nunca, cheio de perspectivas. Viagens ao exterior pela empresa, cargo de chefia e, quem sabe um dia, tornar-se um diretor.

Em casa, o casamento estava indo muito bem com o filho de três anos que surpreendia a cada dia com suas descobertas e da lógica de pensamento que só as crianças podem ter.

Silêncio.

De repente, uma dor de garganta que não passava. Médicos comuns, receitas comuns. Passado um tempo, uma investigação mais profunda encontra nódulos e uma doença comum, que só de dizer o nome dá medo, em uma manifestação rara.

Em um dia, tudo desaba; sonhos, medo de deixar de existir quando a vida parecia sorrir todos os dias.

O médico das más notícias disse que ele não deveria deixar de acreditar. Mal prognóstico. Sem olhar nos olhos disse que ele poderia ter vinte por cento de chance e que o tratamento precisava começar imediatamente.

Enquanto o médico falava ele só conseguia sentir saudade da esposa, do filho e dos pais. Como dizer para mãe, para a esposa? Imaginar não ver o filho crescer lhe tirava o ar.

As lágrimas, represadas pela coragem masculina finalmente encontraram um porto seguro. Soluçava em desespero.

O terapeuta sustentava o olhar. Era o que podia fazer. Todos os livros que lera viraram em nada diante da vida real, como ele já sabia, faz tempo.

Quando a emoção lavou o que podia, um novo suspiro.

– Meu amigo me disse que você poderia me ajudar. Eu só queria entender.

Silêncio.

Precisamos de respostas. Elas são uma espécie de consolo, afinal, tudo precisa ter uma razão! O problema é justamente esse; muitas vezes não existe uma razão. Nossa imaginação busca onde pode preencher os espaços vazios da compreensão como uma forma de encontrar alguma justiça ou justificativa. Palavras que não começam iguais por coincidência.

O terapeuta moveu lentamente a cabeça.

– Não tem como entender, não é? Nunca fumei. Não tem sentido!

Choro.

Comentou que o filho não queria mais ir para a escola. Dizia que queria ficar em casa com pai, apesar de nunca falarem do assunto na presença dele. Nunca se engana uma criança e é fácil de entender o motivo: se para ela não existe passado e muito menos futuro, toda sua percepção se concentra no que está acontecendo. A professora, informada da situação, relata que o filho já não brincava e mostrava abatimento.

A esposa apenas dizia que tudo isso era um pesadelo que iria terminar. Como uma pessoa boa passaria por isso? A mãe sofria silenciosamente e o pai estava ao lado nas sessões de quimioterapia, mas não conseguia falar. Nos olhos, o medo do absurdo que devasta a razão.

Em duas semanas tudo estava desabando e o tratamento intensivo já mostrava suas marcas.

– Agarre-se a seus vinte por cento. O mesmo absurdo pode ser a sua chance. Disse-lhe o terapeuta.

– E se os oitenta vencerem?

– Você fez sua parte. O que contarão a seu filho é que você lutou, fez o que pode. Se em algum momento da vida, ele superar dificuldades baseados na sua luta, pode ser que tudo isso ganhe o sentido que você procura. Mesmo não sendo uma garantia de nada, é como pode dar certo. O mistério da vida é não ter lógica.

– Mas e o motivo, tem algum para isso estar acontecendo?

– Não tem, é o que nos diz a razão. O resto nós nunca saberemos. Pode ser só o que sabemos; uma doença infelizmente comum em uma manifestação rara.

Olhando para o chão ele parecia absorver essa resposta. De algum modo o acaso o absolvia.

– Isso me dá um alívio, de certa forma. Pode não ter mesmo um motivo.

O terapeuta demorou alguns segundos para responder:

– Carregamos culpa demais. É assim que se mantêm as pessoas sob controle. Faça o que deve ser feito, use sua força e fé. Se às vezes não existe uma razão, porque não usar o que está fora dela? Lute por cada dia a mais. Os milagres sempre são feitos por nós, no final.

– Só sinto saudade. Saudade de quem vejo todo o dia, tenho saudade até de mim.

Choro.

Silêncio.

Quando se despediram, um aperto de mão. Nos olhos uma leveza de quem pode falar, só falar. O homem que procurava respostas e o que não as tinha apertaram as mãos.

– Interessante, vim procura-lo atrás de entender. Você não tinha a resposta, mas de alguma forma estou melhor. Obrigado por não responder, talvez se me dissesse alguma coisa que eu precisasse acreditar, poderia aumentar minha angústia. Como saber se sua teoria era a certa? Ser simplesmente como é, foi a melhor resposta que encontrei.

Do aperto de mão, veio um abraço, rejeitado pelos manuais. Bobagens que não respeitam o que acontece em um encontro, na vida.

Um sorriso mútuo encerrou esse único encontro, que mudou os dois, cada um a seu jeito.

 Quando a porta abriu, o próximo cliente já esperava.

O terapeuta tinha alguns minutos. Molhou o rosto enquanto imaginava a dor sem sentido.

Ao olhar-se no espelho, pensou em perguntar para a imagem refletida: Por quê?

Primeira vez

 

Psicoterapia

– Então, em que posso ajuda-lo?

– Sei lá doutor, minha mulher insistiu que  precisava vir, diz que ando estranho.

– O que o está incomodando?

– Esse é o problema, não sei.

– É a primeira vez que faz terapia?

– Sim, por isso nem sei por onde começar.

– Pode começar por qualquer assunto, por exemplo, quando você me ligou para marcar esse horário estava pensando em que?

– Em nada e em tudo. Estou me sentindo totalmente perdido, mas, às vezes, irritado. Como se tivesse sido passado para trás.

– Desconfia da sua esposa?

– Não doutor! Na verdade não tem a ver com ela. Acho que meu problema é com a vida.

O terapeuta se ajeitou melhor na cadeira e pensou como esse tipo queixa é cada vez mais comum. É sempre a mesma história. Pigarreou para retomar a atenção e disse olhando por cima dos óculos:

– Como assim, com a vida? Poderia me explicar melhor? Diga exatamente o que sente, não procure palavras melhores. Estou aqui porque sou capaz de entendê-lo.

– Espero que sim. Se não der certo, nem sei o que vou fazer. Até me benzi na semana passada, tomei banho de ervas e até incenso já queimei em casa.

Suspirou longamente, pensou que precisava começar. Afinal, daqui a pouco o tempo acaba e queria sair do consultório com alguma resposta, pelo menos.

– Sempre fiz tudo certo. Quando era criança, sempre procurei ser um bom aluno para que meus pais se orgulhassem de mim. Lembro que deixei de fazer algumas coisas, brincadeiras ou travessuras que tinha vontade para não decepcioná-los. Parece que me alimentava dos elogios que recebia. Pensando hoje, parece que tinha medo que meus pais deixassem de gostar de mim. Isso é normal ou eu já era um problema desde criança?

– Mais do que você imagina, disse o terapeuta. Na verdade esse é um dos motivos que nos faz mudar sem nem termos tido tempo de sermos nós mesmos de verdade. E depois, me fale da sua adolescência.

– Bom, quando virei adolescente minha maior transgressão foi deixar o cabelo crescer um pouco e usar umas camisetas pretas. Na época não se falava em tatuagens nem brincos. Uma ou outra vez, fui ao cemitério com uns amigos na época do The Cure, lembra? O negócio era ficar triste e desencantado com a vida. Aquela coisa de gótico.

Depois de sorrir, continuou;

– Cheguei uma vez a usar uma maquiagem nos olhos, todos usavam. Mas só de imaginar a decepção que meu pai teria, limpei na hora. Sabe, nem era a surra, já que meu pai nunca me bateu, era mesmo desgostá-lo meu maior medo.

Quanto terminei o segundo grau, queria mesmo era fazer vestibular para oceanografia. Sempre adorei o mar, sabe? Quando falei disso pro meu pai, ele disse que estava surpreso com minha escolha. Que o certo era fazer vestibular para administração e cuidar dos negócios da família. Tínhamos um comércio e o sonho  dele era que eu tocasse o negócio.

– E sua mãe, disse o que? Perguntou o terapeuta.

– Disse que meu pai me amava e queria o melhor para mim. Confesso que tinha uma esperança que ela me incentivasse. Ali, percebi como ela sempre viveu a sombra do marido.

– Isso foi uma decepção para você?

– Acho que não aos dezoito anos. Pensando nisso hoje, vejo que era o que deveria esperar. Minha mãe era dona de casa, não tinha liberdade para discordar, era dependente.

– O que decidiu?

– Então, fiz o vestibular de Administração e cursei a faculdade até o final.

– Gostou?

– Não. Brincava comigo e pensava que um dia poderia ter algum negócio no fundo do mar.

Deu um sorriso amarelo, como se tivesse contado uma piada de humor negro.

– E depois?

– Conforme o script, comecei a trabalhar com meu pai e fui, aos poucos, assumindo a responsabilidade dos negócios. Ele decidiu se aposentar uns dez anos depois. Toco tudo sozinho faz quinze anos. Na verdade, não posso me queixar, me sinto até mal com esse desconforto. Mesmo não sendo o trabalho dos meus sonhos, vivo bem e pude comprar tudo que quis até hoje.

Notando que a frustração aumentava, o terapeuta resolver mudar o assunto:

– E sua vida afetiva? Teve muitas namoradas.

– Na verdade não. Como filho único, percebo hoje como eu tinha responsabilidades. Era a única chance de meus pais darem certo nessa função e tinha que atender as expectativas. Deve ser por isso que sempre fui meio quieto, na minha. Tive duas namoradas antes de conhecer minha esposa. Era a pessoa ideal para mim, lembrava muito a minha mãe em alguns aspectos.

O terapeuta sentindo o momento psicológico interviu:

– Assim você poderia “ser” seu pai?

Nunca tinha pensado por esse ângulo, e é incrível como hoje me vejo com os trejeitos dele. Será que se eu tivesse outro pai, teria me casado com outra mulher?

O terapeuta preferiu não responder, deixou que chegasse a suas próprias conclusões e pudesse, mais tarde, aprofundar a reflexão.

– Casei perto dos trinta anos,  tenho dois filhos e a mesma esposa, casa na praia, bom carro e as crianças estudam em boas escolas. Viajo para o exterior, vez por outra.

– Pelo visto sua vida é boa. Não é todo mundo que consegue o que você conseguiu.

– É boa e não é boa. Por um lado, posso dizer que tenho tudo. Por outro, parece que vivo uma história que não é minha. Na verdade, nunca quis nada disso. Nem minha esposa, que é ótima pessoa por sinal, realmente escolhi. Era só a pessoa certa com quem casar. Entende doutor?

O terapeuta não respondeu. Sustentou o olhar, dando a deixa para que continuasse.

– Quando digo que me sinto enganado é por isso. Fiz tudo que me disseram ser o certo, tudo! Só que não recebi o que esperava por ter aberto mão de um monte de coisas.

– O que você esperava? Não tem uma vida boa?

– Esperava me sentir bem, ficar feliz com o que faço, experimentar uma espécie de realização. Mas na verdade sou uma fraude, é assim que tenho me sentido ultimamente.

Depois de alguns segundos pensando, cobriu o rosto com as mãos, respirou fundo para segurar o choro.

– Não me sinto realizado, nunca vibrei com meu trabalho e tenho tido sonhos em que caio em buracos enormes, como se fossem precipícios. Minha mulher acha que devo procurar um psiquiatra e tomar uns remédios. Já não estou dormindo bem faz tempo.

– Mas você sabe o que gostaria de fazer, para se sentir melhor?

– Esse é na verdade o grande problema. Por ter fingido toda uma vida, não sei onde posso me encontrar. Tudo ao meu redor é falso, das paredes da minha casa ao saldo no banco. Nunca fui “eu” mesmo, nunca! Não quero morrer assim, desde criança nunca fui honesto comigo. De que valeu todo esse esforço? Por onde posso começar doutor?

O terapeuta não respondeu. Baixou os olhos e sentiu que havia um silêncio que precisava ser respeitado. Depois de algum tempo, fez uma pergunta:

– Que tipo de pai você é com seus filhos?

– No fundo doutor, acho que estou repetindo meu pai, dando indiretas para eles  continuarem o negócio. Ainda mais agora, depois da nossa conversa. Porque estou fazendo isso?

– Porque você está tendo com eles a mesma preocupação que seu pai teve. Esperando que essa “receita” faça com que o conforto material possa compensar o que abrimos mão.

– Vendi meus sonhos e minha identidade, não é?

– Não penso ser justo você se tratar assim, afinal, quando esse “negócio” foi feito, você não tinha condições de decidir, era uma criança ou adolescente.

– Mas não funciona, eu sou a prova disso!

– É verdade. Pense em começar sua busca  por eles.  Quem sabe, eles não têm o mapa que o leve até o lugar onde você se perdeu, onde sua identidade foi trocada, simbolicamente.

– Eu tenho cura doutor?

– O tempo acabou, infelizmente. Podemos continuar na próxima semana?

 

 

 

 

Terapia, para quê?

“O principal objetivo da terapia psicológica, não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade.”

                                                                       Carl G. Jung

Nós, seres humanos, parecemos ser criaturas em busca de significados que tiveram o infortúnio de serem lançadas num mundo destituído de significado intrínseco”

                                                                      Irvin D. Yalom

                                                                                                                                                            terapia

Afinal, para que serve a terapia?

É natural que a motivação de alguém a procurar a psicoterapia seja um problema, novo ou antigo, que de alguma forma esteja importunando sua vida e dificultando seu processo de crescimento.

Mesmo que pareça simples, esse movimento inicial de buscar ajuda ainda é obstaculizado por um preconceito antigo que liga a terapia a doenças mentais ou a loucura, como incrivelmente ainda hoje se escuta.  Salvo que alguma pessoa importante incentive, com o exemplo pessoal de ter tido uma experiência verdadeira e gratificante com a terapia, existe uma demora motivada pelo preconceito que faz com que essa procura seja adiada até o ponto limite de sustentar ou suportar a situação aflitiva.

O passo seguinte ainda depende de um golpe de sorte; que o terapeuta procurado tenha uma linha de atuação que se encaixe com a pessoa e, de alguma forma, atenda sua expectativa sobre o “como funciona” o processo terapêutico  ou a surpreenda de tal forma a mudar positivamente seu conceito anterior. Infelizmente, muitas pessoas não têm a sorte desse primeiro encontro ser agradável ou atender seus anseios e faz com que, por desconhecimento, coloque a terapia em um novo preconceito; onde todos os terapeutas são iguais e só existe um tipo de terapia, aquela que experimentou e não gostou.

Costumo dizer que existem tantas terapias quantos terapeutas no mundo e isso é fácil de explicar; mesmo os modelos mais ortodoxos, que impõe aos profissionais rigorosas formas de se conduzir e de interpretar os conteúdos trazidos pelo cliente, não deixam de serem pessoas com sua própria individualidade, em que esse modelo que aprenderam sofreu alguma mudança ao ser assimilado. Dessa forma, cada um dá o seu toque pessoal e interpretação individual ao que aprendeu e isso se mostra na sua conduta profissional.

Portanto, se você que me lê está pensando em fazer terapia, saiba que faz parte do processo a procura pelo profissional que se encaixará com seu jeito de ser. Quando essa procura termina? Quando se sentir entendido, profundamente entendido pelo profissional e que a abordagem, ou seja, o jeito de conduzir a terapia faça com que se sinta confortável e seguro. Isso passa também e principalmente, pela  visão que ele tenha do seu problema e da maneira de encarar as circunstâncias que envolvem o cliente, fazendo com que rapidamente uma nova visão da situação venha  e com ela saídas e soluções ainda não vislumbradas surjam no horizonte.

A partir desse momento, o caminho da mudança começa a se definir e, esse relacionamento entre o terapeuta e o cliente, vai sendo a base desse processo, onde os pensamentos, inquietações e dificuldades de se chegar ao objetivo vão sendo avaliadas em todos seus aspectos,  até que o novo quadro se cristalize.

Assim, não existe um tempo definido para terapia. Quando esse processo é bem entendido e vivenciado o resultado obtido teve como ingrediente principal um aumento do autoconhecimento, que tornou o cliente uma nova pessoa e essa nova pessoa foi que conseguiu o sucesso. Quanto mais nos conhecemos, mais diferentes vamos ficando e os problemas que levaram a pessoa a procurar a terapia, no final, foram um aviso de que uma mudança precisaria ocorrer, para que, só assim, o obstáculo fosse transposto.

Em uma terapia bem sucedida nenhum dos dois que começa no processo permanece o mesmo. Essa troca entre terapeuta e cliente sempre traz mudanças dos dois lados, inevitavelmente. Assim, é normal que um vínculo forte de confiança se estabeleça, o que permitirá que o cliente vá cada vez mais profundamente em si mesmo. Como não existe limite para o autoconhecimento, não há para a terapia.

Sei que existe ainda outro preconceito muito forte, vindo da linha mais famosa e antiga da psicoterapia, de que esse processo precisa ser obrigatoriamente demorado, que leva anos. Pode ser verdade, para essa linha especificamente, mas está longe de valer para todos. Nunca esqueça que existem muitas maneiras diferentes de se ver e entender o ser humano, seu comportamento e o funcionamento de sua mente.  Nada impede, absolutamente, que em pouco tempo, as condições de mudança se cristalizem o os resultados venham. Cada pessoa é um universo particular, logo não existe um padrão.

Algumas linhas, mais voltadas à questão do que o ser humano pode tornar-se (e isso sempre é diferente do que ele é hoje), são baseadas em autoconhecimento podendo mesmo nunca ter um fim, já que se estamos sempre mudando. Então,  conhecer-se é um trabalho a ser feito sempre. Claro, que o começo é motivado para resolver um problema, e essa solução pode representar o fim da terapia e não há nada de errado nisso. Porém, esse tipo de abordagem pode continuar pelo tempo que o cliente se dispuser, e posso garantir que os problemas serão percebidos com antecedência e até deixam de ser problemas em si, já que essa ampliação do senso de Eu, onde a pessoa se percebe mais completa, também amplia e, em muito, seus recursos para enfrentar todas as questões que a vida lhe impõe.

Durante algum tempo procurei encontrar um nome para esse momento, porque o termo “terapia” está vinculado à resolução de conflitos e dificuldades. Passei a ver esse processo com o nome de “Psicoterapia evolutiva”*, onde o passado tão valorizado por outras linhas passa a ter uma importância relativa, mas onde a base é o conhecimento de si, as novas atitudes que, com certeza, trarão novos resultados.

Entender os motivos e os processos que nos levam a agir de determinada forma e o vislumbre de novas possibilidades de, com um novo olhar, reinterpretar e dar um novo sentido ao que nos ocorre é a busca que se empreende. Essa visão não é nova nem inédita, mas sempre contemplará uma transformação. Deixar que o antigo se vá para que o novo possa surgir, essa é a questão.

Todos padecem da falta de autoconhecimento, muito pouco incentivado desde sempre, já que pessoas que não se conhecem ou recebem “de fora” suas definições são sempre mais fáceis de serem controladas.

Independente da linha, do jeito e dos conceitos, a terapia é um espaço onde a pessoa pode ser sincera consigo mesma, onde não será julgada nem avaliada e só por isso já vale muito a pena. Ter um tempo para si, para ser verdadeiro, inevitavelmente ampliará os horizontes pessoais e compreensão de si e do mundo que o cerca.

Com certeza, existe uma terapia que se encaixará com você. Portanto, procurar e experimentar não são tempo perdido, mas um grande investimento.

 Quanto custa viver melhor? Existe mesmo um preço para isso?

__________________________________________________________________________________________________

  • A visão não é “evolucionista” no sentido dos nossos ancestrais e dos costumes, mas como desenvolvimento de uma consciência ampliada.

A TERAPIA

“Veio Darwin e nos ligou a um macaco; depois veio Pavlov e nos ligou a um cão; e, depois veio Freud e nos ligou a um falo. E, como os três mosqueteiros eram, na verdade quatro, quero dizer-lhes que, pelo menos um por cento do homem é Deus…”

Oriol Anguera

“Ser normal é a meta dos fracassados.”

Carl. G. Jung

terapia

A psicologia que hoje conhecemos é bastante recente, apesar de o ato terapêutico, enquanto escuta ou psicoterapia, ser tão antigo quanto a existência do homem. Na verdade, a psicologia propriamente dita originou-se da filosofia e eram os filósofos, através de seus questionamentos sobre a verdade, a alma, o universo e tudo que envolve esse mistério que é viver, que primeiro exerceram essa função de psicoterapeutas. Mas, imagino, que desde os tempos mais remotos, quando alguém em angústia se colocava ao lado de outra pessoa, que em silêncio, porque ainda não haviam as palavras, apenas fazia companhia com interesse ou solidariedade, a terapia já existia.

Na medida em que o tempo foi passando, o que hoje entendemos por psicologia, sempre esteve a serviço da cultura dominante em cada época, dando o veredito sobre a sanidade ou a loucura de uma pessoa. Hoje, em sua variação tecnológica, a psiquiatria dispõe de medicamentos cada vez mais poderosos para ajudar a pessoa a manter-se “nos trilhos” ou voltar para eles, sem prejuízo de sua capacidade produtiva, que, no mundo em que vivemos, é o que realmente importa e move todo o sistema de saúde.

O ser humano sempre padeceu de uma enfermidade primária que é a falta de autoconhecimento, já que sem esse saber essencial, as pessoas tornam-se facilmente manipuláveis e perdem sua liberdade. Assim, o que temos visto ao longo do tempo é a psicologia moderna estabelecer limites de normalidade para seres humanos que não tem ideia de quem sejam, ou seja, muito abaixo de suas possibilidades evolutivas. Salvo exceções como os transpessoalistas, Carl Jung e outros que acreditavam que a normalidade é viver a diferença que todos temos, todas as demais formas de psicologia procuram colocar pessoas, que são diferentes entre si, em um “molde” e ajustá-las a ele, sem sequer perceber que isso é a maior violência e insanidade que se possa cometer.

Já escrevi em tantos outros textos, em aulas, palestras e conversas que todas as pessoas que fizeram alguma diferença na história da humanidade eram consideradas loucas em suas épocas. Todos eles pagaram um preço por se recusarem a usar os “óculos” padronizados das massas e decidiram ver a realidade e a interpretarem por sua própria ótica. Apesar de todas as dificuldades, percalços e sofrimento que passaram essas pessoas, elas realmente viveram seu tempo lucidamente, enquanto todos os demais vagaram como zumbis pela sua existência sem nem sequer perceber que estavam realmente vivos.

Por isso que não estranho que em laboratórios de psicologia se façam experimentos com animais. Pavlov nos mostrou como somos condicionáveis com seus cachorros e os símios e ratos ainda são utilizados para que se possa entender como os seres humanos agem. Isso é bem mais do que uma piada de mau gosto. Mas, talvez, você que me lê, possa perguntar:

Mas esses testes realmente funcionam isso está mais do que provado!

Sim, é verdade, mas somente porque uma pessoa completamente inconsciente de si mesma e de seu potencial não difere em nada de um animal irracional, ou seja, que não usa seu potencial humano (superior). Os cachorros, macacos e ratos representam esse ser humano adormecido, condicionável, que vive baseado no medo. Tem dúvida sobre isso? Veja e pesquise sobre a venda de ansiolíticos e antidepressivos em nosso mundo globalizado, moderno e desenvolvido…

A verdadeira psicologia deveria trabalhar sobre o quanto uma pessoa pode se desenvolver e não procurar adaptá-la e acomodá-la a parâmetros de um mundo doente como esse que vivemos. Esse jeito de viver que conhecemos como “normal” é assim: violentam crianças, desrespeitam-se e agridem-se idosos, torna as pessoas compulsivamente consumistas, avalia uma pessoa pelos bens que ela agrega a sua identidade, privatiza a riqueza, globaliza a miséria, sexualiza o pensamento desde a infância e obriga as pessoas a se mutilarem com o intuito de vencer a passagem do tempo e outras tantas, realmente, loucuras.

Portanto cuidado; se você não for assim e não concordar com isso, logo estará se sentindo meio solitário e fora de contexto e precisará de uma “boa” terapia para se engajar novamente e sentir-se acolhido pelos demais.

Trabalhar o potencial de cada um é investir no que torna cada ser humano único. Se fossemos todos iguais, como prega a psicologia da acomodação, todos os DNA’s seriam idênticos. Muitos estudiosos e visionários da verdadeira medicina de almas sempre viram as crises, que hoje chamamos de doenças, como um grito do cachorro, macaco ou do rato que simbolizam essa perda de si mesmo, de querer tornar-se realmente humano! Mas o que se faz? Anestesia-se, acomoda-se, para aceitarmos de bom grado uma vida medíocre, uma angústia suportável pelos bens que compramos e que vão perdendo razão e utilidade cada vez mais rapidamente.

Os sofrimentos psíquicos e, logo adiante corporais, dão-se pelo conflito de quem realmente somos e aquilo que se espera que sejamos. Quando um ser humano coloca em ordem a ecologia do seu Ser, então o equilíbrio ou a cura pode acontecer e isso deveria ser todo o enfoque terapêutico, mas isso só se dá com a vivência de nossa individualidade.

Como nos ensinam os antigos terapeutas do deserto, da época de Jesus, quando nos curamos o universo também se cura. Dessa forma, podemos sim, pensar que a doença do planeta, da sua cultura, é a doença do ser humano, justamente por ela afastá-lo de sua essência.

Vivemos em um mundo que leva a existência muito a sério, tornamo-nos fanáticos pelo que transitório, abandonando nossa verdadeira identidade, aquilo que realmente somos, que nunca nos foi permitido  viver e descobrir, se não estiver dentro do que se considera “normal”.

O ser humano é a mistura da natureza com a aventura, como bem afirma  Jean Yves Leloup. A aventura é a nossa liberdade de interpretar o que nos acontece, dar um sentido novo ao que se passa conosco, à nossa existência, a possibilidade de mudar de vida e de buscar novos desejos e conhecer novas estradas. O terapeuta deveria, porque não, tornar-se um hermeneuta, e sua prática deveria envolver a arte da (re)interpretação, de  ver as situações com outros significados.

Penso que a maior função do terapeuta, talvez não seja a de explicar, mas de estimular a capacidade da pessoa de produzir um novo sentido para aquilo que lhe acontece. A verdadeira psicologia deveria se fundamentar no que cada um tem de mais saudável, mas o que vemos é estruturar-se sobre o aspecto doente e, a partir dai iniciar o que se chama de tratamento.

Nosso limite evolutivo precisa ser parametrizado “por cima”; porque não um Sidarta, Jesus, Sócrates, Mansoor, etc.? Esses até hoje ainda seriam considerados insanos, apesar de milhões se dizerem seus seguidores. Infelizmente o parâmetro do que se espera de uma pessoa é não ser ninguém de especial!

              Há quem diga que um louco perdeu tudo, menos a razão…

_______________________________________________

Para saber mais: “Cuidar do Ser” Jean Yves Leloup – ed Vozes

                          Os Mutantes – Pierre Weil – ed Versus

Seminário Casos Clínicos

Microsoft Word - SEMINÁRIO CASOS CLINICOS 4

 

Informativo do Seminário sobre Casos Clínicos – Parapsicologia Clínica que ministrarei nos dias 5 e 6 de maio de 2012, em São Bento do Sul/SC. Destinado a parapsicólogos, alunos de parapsicologia e terapeutas em geral. Para mais informações, veja o folder abaixo ou acesse a nossa Agenda.

 

SEMINÁRIO CASOS CLÍNICOS