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Uma possibilidade chamada Deus

“Eu ansiei  profundamente e busquei durante longo tempo por Deus, mas não pude encontra-Lo. Então, certo dia, abandonei aquele anseio, aquele desejo, aquela busca, e desde tal momento Ele vem me seguindo. Ele está sempre comigo. Na verdade, Ele esteve sempre comigo, mas eu estava tão ocupado pela busca que jamais O via.”

Kabir

                                                                                                                                                   interrogação

Deus é algo que só existe na mente das pessoas, por isso é  que precisa ser alcançado, ou para quem nos dirigimos nas preces, sendo, portando uma “outra” entidade, ou um Tu.

É atribuída a Jesus uma fala onde ele teria dito que o caminho (ponte) é direto e estreito e que só uma pessoa passa. Interpreto essa passagem como que não há espaço para o “eu” e o “tu”. Só quando  se fundem, Deus poderá ser encontrado. Assim, o ego, representado pela mente, é o que impede a clara percepção. Fora disso é a escuridão  que Sidarta falou ter se libertado quando atingiu a iluminação.

Assim, Sidarta negou a existência de Deus, e ele está correto, já que Ele não é possível enquanto existir esse “eu” que separa de tudo, praticamente colocando-se fora do mundo e desconectado, mergulhado em seus pensamentos.

Outros como Pantâjali*, diziam ser Deus apenas uma hipótese, que não traz nenhuma verdade em si, mas pode ser usada como um caminho na meditação, como uma espécie de mapa que leve a algum lugar onde esse ego seja suplantado e o sofrimento termine. Esse pensamento não é necessariamente uma afirmação da inexistência de Deus, mas apenas uma forma de dizer que poderemos usar Deus como uma desculpa para conseguirmos suplantar o diversionismo da mente e encontrá-Lo atrás dela.

Na verdade, essa liberdade de viver sem medo é o que os budistas chamam de Nirvana, mas que também é traduzido por “esquecimento”. Mas que esquecimento? Poderíamos dizer que é esquecer do meu Eu?  Atrás da mente está a eternidade propagada por muitas religiões, mas que, estranhamente, mantém as pessoas aprisionadas em seus mandamentos e punições, trazendo a culpa e o medo que, em essência, é a verdadeira definição de mente.

Trata-se de uma espécie de estelionato espiritual, já que diz que existe, cobra a passagem, mas nunca leva ao lugar prometido. E isso se explica pelo fato de que todos que lá chegaram atingiram a verdadeira religiosidade.  Esse nível de compreensão e liberdade, obviamente dispensa a necessidade de uma religião que lhe diga como deve agir, pensar e o que deve fazer. Essa é, na verdade, a conduta que temos com as crianças que não sabem o que fazem e precisam ser guiadas.

Kabir, o místico sufi que abre esse texto, parou de procurar e encontrou. Pode parecer um paradoxo, mas é assim que as coisas funcionam e isso vale também para Deus. Quem já não ouviu alguma história de uma mulher que de tanto querer engravidar nunca conseguia. Ao desistir da ideia, seja por resolver adotar ou outro motivo, quando já não mais se preocupava com isso terminou engravidando.

Esse “querer”, seja o que for, traz embutido em si o medo de não conseguir e todo o processo é paralisado. Aliás, sobre isso Deepack Chopra** conta que um Mestre disse a seu discípulo:

“Se você passar cada momento transformando todo o pensamento e ação em bem, continuaria exatamente tão distante da iluminação quanto alguém que usou cada momento para o mal”.

Por mais estranho que pareça isso é muito lógico. Sempre que estou me esforçando para fazer o bem, demonstro que  mal está presente e esse vai e vem estre os opostos mantém um nível de tensão que inviabiliza esse estado de paz. Existe uma tendência de igualarmos bondade e Deus, mas o bem é cármico como diz Chopra. Isso quer dizer que o bem é resultado de ações e não é nada que seja a priori ou apareça do nada. Assim, o” bem” é resultado de evolução e não algo que nos seja natural. Da mesma forma a ação errada também gera seus resultados.

Bem e mal fazem parte de uma mesma dança como disse no post   “a importância do mal”. Assim sempre que desejo o “bem”  isso me levará ao mal e vice versa. Para ilustrar vou usar aqui o mesmo exemplo de Chopra:

… desejar A ou B sempre levará a seu oposto. Se eu nasci rico, posso ficar maravilhado no começo; posso satisfazer qualquer desejo, atender a qualquer capricho. Mas no fim o tédio se instala; ficarei desassossegado e, em muitos casos, a minha vida ficará sobrecarregada.”

Isso nem é tão difícil de perceber, afinal quem já não ouviu ou disse que “daria tudo” para… Esse “tudo” é algo que se imaginava antes de se ter que resolveria todos os problemas. Mas por ser um extremo, traz o outro em si, assim como a mais profunda escuridão na noite antecipa o dia que ira raiar, em questão de tempo. Como dizem os budistas, minha mente sempre desejará o oposto que tenho. Entender isso pode até ser como achar o endereço de Deus.

Portanto, se Deus existe, é uma possibilidade, ou algo que precisamos para não nos sentirmos abandonados no mundo. Na verdade,  pouco importa. O que é possível de tornar verdade é ampliarmos nossa compreensão para sairmos dessa situação mental de angústia, sempre atrás de alguma coisa, inclusive de Deus.

Como diz no Gênesis, tudo, no princípio era escuridão, logo Deus já existia, então era lá que ele morava.

Imagino que Deus esteja escondido em um lugar escuro, dentro de nós esperando que possamos iluminá-lo com alguma compreensão e, principalmente, atitude de quem busca ultrapassar os limites do ego.

Muitos para isso buscam renunciar a tudo e isso já traz o outro extemo que é o apego. Só posso querer renunciar a algo que para mim é valioso e isso já mostra como, seja o que for, é importante.

Na verdade, a sugestão é abandonar. A própria palavra já soa mais leve e não traz a separação que está implícita na renúncia. Você pode ter as coisas que abandona sempre perto, foi sua relação com elas que mudou. Na renúncia isso não é possível. Não é um jogo de palavras, experimente e constate por si mesmo.

Noto quando em prática de relaxamento como as pessoas se sentem bem, em paz e isso dura dias. A resposta para isso é que relaxar é, em primeiro lugar manter a mente focada na prática, impedindo suas viagens sofridas, mas principalmente, porque a pessoa se abandona, se entrega totalmente e o bem estar físico e mental é uma consequência natural.

Essa sensação de leveza, paz e serenidade nada mais é que Deus. Quando se está assim, não se pensa em problemas, dificuldades, futuras doenças e outras bobagens. Simplesmente se “está”. Alguns até relatam que nos primeiros segundos enquanto retomam a mente, chegam até a esquecer de quem são, enquanto “eu” ou ego.

Depois da primeira experiência, todos querem novamente  esse estado. O que já pode gerar uma tensão que atrapalha a próxima tentativa e o relaxamento pode ter resultado inferior. Já está de novo o problema; o medo (mente, ansiedade, sofrimento) de não conseguir atingir o resultado esperado.

Kabir, Sidarta e outros chegaram lá, sem a ajuda de Deus. Eles não estavam procurando por Ele, e só por isso conseguiram compreender tudo tão profundamente. Foi assim que Deus passou a ser um detalhe.

E é mesmo!

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*Pantâjali ou Pátañjali – Se dá o nome de Pátañjali ao mítico codificador do Yoga Clássico, autor do Yoga Sútra. Tudo sobre esta figura histórica é um verdadeiro mistério. Para começar, a data em que ele teria vivido é fonte de discrepâncias. Há autores que afirmam que viveu no século IV a.C. e outros que pensam que tenha vivido entre os séculos II e VI d.C.

Disponível em: http://www.yoga.pro.br/artigos/334/3022/quem-foi-patanjali

**Como conhecer Deus – Deepack Chopra  ed.Rocco

SUFISMO

sufismo

“ Falo com meu amor interior e digo: por que tanta pressa?
Sentimos que há algum tipo de espírito que ama os pássaros, os
animais e as formigas – talvez o mesmo que deu a você uma cen-
telha no útero de sua mãe.

Você acha lógico estar andando inteiramente
órfão agora? A verdade é que você mesmo se afastou e
decidiu ir sozinho para a escuridão. Agora está emaranhado em
outros e esqueceu que um dia já soube, e é por isso que tudo que
você faz tem em si algum tipo de falha.”
Kabir

sufismo

Falar sobre sufismo é falar de um caso de amor à vida, da alegria de ser e estar consciente e sem medo dessa aventura que é viver. Muitos são sufis sem necessariamente terem sido iniciados diretamente, mas porque seu jeito de sentir a existência os torna assim. Buda era um sufi, Cristo e Maomé também. Mais do que um método, o sufismo é uma maneira de viver. Apesar de ser conhecido como a corrente mística do islamismo, já existia antes de Maomé.

O Sufismo pertence ao milenar grupo de “Escolas da Tradição”, ou seja, são escolas que trabalham para desenvolver a consciência de seus membros com métodos comprovadamente eficientes, alguns milenares, outros adaptados ao que de mais moderno a ciência nos traz. Nesse ponto o Sufismo é único, pois está sempre aberto e em movimento. Em artigo anterior, já falei o sobre o Zen Budismo que, para mim, são as duas Escolas mais eficientes por serem simples e diretas em seu objetivo, cada uma a seu estilo.

O Sufismo é um mundo e não uma visão de mundo, busca a transcendência sem ser uma filosofia de transcendência. Nesse ponto é importante entender o que é “transcendência”. Aqui no ocidente significa algo que não é desse mundo, enquanto que para o oriente, logo, para o sufismo, significa algo que é além do pensamento, e isso faz toda a diferença. O que importa não é diretamente chegar a Deus, mas o caminho até Ele. Muitos sufis não falam de Deus, assim como Buda não falava, mas mostram que a “estrada” até Ele é o que realmente transforma!

Está longe de ser especulativo, porque é prático, com os pés bem fincados na terra, tendo a ação no mundo como meta. Também não é um sistema, na medida em que respeita cada membro, dando-lhe o tempo necessário para ultrapassar etapas, respeitando, portanto, a individualidade. Importante lembrar que todo um sistema busca uma explicação seja para o que venha a se propor. O Sufismo não é assim porque sabe que a explicação está dentro de cada buscador. Portanto, respeita esse Mistério que somos. Como diz Bhagwan Shree Rajneesh, “e’ como um dedo apontando para a lua, o dedo não é a lua, mas nos mostra a direção”.

Esse “método”, se assim podemos chamar, passa pelos contos, poesia, música e silêncios que acompanham os encontros e práticas pessoais. São indícios, favorecem insights, lampejos, não para tornar o “desconhecido” conhecido, porque dessa forma, estaria impondo verdades, mas para que cada um mergulhe em seu próprio Mistério. Os contos, poemas e histórias não são filosóficos, mas indicações (dedos que apontam) e que, além de uma profunda mensagem para reflexão e ensinamento, respeitam, suavemente, o momento de cada um, como uma semente que plantada corretamente escolhe a melhor hora para brotar com vigor.

Os sufis gostam de sentar, conversar e buscar o entendimento escondidos nessas estórias, de pensar livre e profundamente reunidos em um círculo, imagem mais antiga de Deus.

Aquela estória que foi tema de algum encontro, entendida naquele momento, tempos após ganha outro significado, outra profundidade. Por isso, tem por séculos, alavancado consciências e despertando buscadores.

Outras escolas (a maioria delas) têm seu foco na mente, vencê-la e transcendê-la, como o Zen, que é a Escola dos Samurais. O símbolo dos Sufis é o coração. O coração não briga com a mente, é indiferente a ela porque a entende e sabe porque ela é assim, tão mentirosa e insegura. Sua meta é a amorosidade com plena consciência, não são guerreiros, mas amantes, amigos de Deus. Sendo que esse Deus não é uma personificação, mas essa inteligência que cria e faz fluir o universo e que habita como uma centelha no interior de todos nós. O Sufismo busca desobstruir dentro de cada um essa distância e fazer florescer a centelha na sua consciência plena.

Sua pedagogia é feita de lições, histórias e poemas, que para serem apreciadas corretamente precisam de relaxamento, entrega e ausência de tensão. É como tomar um vinho especial ou um chá com um querido e antigo amigo. O caminho é o da leveza, do riso e da confiança.

Os sufis não tem crenças, afinal respeitam todas as correntes e tiram dela o que há de melhor se permitirmos descartar o que sobra, simplesmente porque são pessoas livres, já que crenças significam falta de flexibilidade, tensão e pouca tolerância. Como o caminho é o do coração, buscam a confiança. Crença é da mente, confiança é do coração, por isso que o membro de qualquer religião pode ser um Sufi, desde que esteja de coração aberto e consciência límpida de dogmas e verdades definitivas. A confiança é gentil e livre, a crença agressiva porque está presa. Quando não conseguimos confiar, precisamos de crenças para acalmar nossos medos.

O Sufismo não faz jogos mentais, é prático! Por isso além dos ensinamentos, são oferecidos exercícios que permitem mergulhos profundos no interior, práticas que,  de forma lenta e segura, levam ao autoconhecimento que é o outro nome para Deus. Em suas reuniões, partilham seus sentimentos e percepções. Com isso sempre saem enriquecidos, já que, além do entendimento próprio, ouvem o “sentir” dos demais e a cada sentimento colocado, ampliam e aprofundam o seu.

Sua ritualística é simples, mas de profundo significado. As iniciações são verdadeiros momentos de “despertar” e todo o ensinamento busca manter seus membros perceptivos, vivendo em paz e, por buscarem estar conscientes, aproveitando o que de melhor a vida oferece: o momento presente!

Quando falam de Deus, mostram maneiras de chegar a Ele. Não dizem onde fica o paraíso, mas buscam vivê-lo aqui e agora. Os sufis sabem que fugir do mundo não traz nenhuma descoberta, já que se estão nesse mundo, é para dentro dele, do jeito que ele é que buscam encontra a plenitude. Para o Sufismo qualquer livro é bom; pode ser alcorão, bíblia, Gita, Vedas, Torá etc. Por isso não são nem de longe uma religião, porque sabem onde todas erram, mas trabalham a religiosidade, na medida que sabem que Deus está tão próximo quanto nossa veia jugular. Como dito anteriormente, investigam o essencial de cada religião, filosofia e pensamento, descartando o não essencial, afinal toda essência é eterna, só o que perece é o não essencial.

As estórias sufis não pretendem buscar o status de filosóficas, portanto não existem para serem “discutas”, apenas as ouça como uma criança e vá penetrando no âmago e seu ensinamento vai se revelando. Quando Cristo disse que só as crianças encontrarão o Reino, estava se referindo a essa percepção inocente, viver com leveza em uma saudável brincadeira.

Logo abaixo, uma dessas estórias, assim como o poema de Kabir que ilustra esse texto. Uma das mais curtas e profundas que mostram que a busca é sair dos condicionamentos que nos fazem vagar pela vida sem percepção, apenas repetindo, morrendo sem nunca ter nascido para o que realmente são. Ao final de seus encontros, a despedida não é um “até logo” ou “fique bem”. É um abraço e uma lembrança: Permaneça acordado!!

-Um homem se aproximou de um sufi e perguntou:
-Como se sente?
-Como alguém que acordou pela manhã e não sabe se estará vivo à tarde. Respondeu o sufi.
– Mas isso acontece com todos! Afirmou o homem.
Ao que o sufi respondeu: – Mas quantos tem consciência disso?

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Para saber mais: “A sabedoria das Areias – discursos sobre sufismo” OSHO

Espiritualidade: difícil definição

“Hasan procurou Rabia, num dia em que ela estava sentada entre diversos contempladores, e disse: – Eu tenho a capacidade de andar sobre a água. Venha, vamos ali para aquela água e, sentados sobre ela, poderemos ter uma discussão espiritual.

Rabia disse: – Se você deseja se separar dessa augusta companhia, por que não vem comigo para voarmos e conversarmos sentados no ar?

Hasan respondeu: – Não posso fazer isso, pois o poder que você menciona eu não possuo.

Rabia disse: – Seu poder de permanecer imóvel sobre a água é o mesmo que o peixe possui. Minha capacidade de voar pode ser realizada por uma mosca. Essas habilidades não fazem parte da verdade real – elas podem se tornar o alicerce da egolatria e da competição, não da espiritualidade.”

          Bhagwan Shree Rajneesh – Sufis o povo do caminho

Gravura de Rabia

Gravura de Rabia

Em uma cultura centrada no Ego, como a que vivemos, essa velha estória Sufi permanece mais atual que nunca. De um lado, continuamos com essa velha ideia de que a pessoa dita “espiritualizada” é medida pelas dificuldades que passa, ou aparenta passar, em sua relação com o aspecto material.  Precisará mesmo ser alguém pobre para ter desenvolvido sua consciência pela via do sofrimento ou da privação? Será que as coisas materiais tem mesmo essa capacidade de iludir o verdadeiro “buscador” a ponto de, necessariamente, serem rejeitadas como uma prova ou tentação?

É claro que todos já conhecemos pessoas humildes que conseguiram altos níveis de consciência, mas isso não me parece uma obrigatoriedade, você, caro leitor, o que acha?

Particularmente, penso que uma pessoa que se realiza financeiramente tem muito mais facilidade de perceber que não é o material que explica e dá sentido a vida, justamente por possuir isso e não sentir-se “completa” e em sintonia com o mundo que a cerca. O que vemos, justamente por ser incentivado pela cultura dominante, é que os bens materiais nos trarão a total realização e completude. Justamente por se acreditar nisso, é que vemos as pessoas destruindo sua saúde para poder adquirir essas expressões de poder que dão status e reconhecimento.

Só existe mesmo o desapego quando ele é real e não uma divagação que fica bonito de se dizer, buscando uma imagem perante os demais de que traga essa aura espiritual, como um guru. Para poder se dizer desapegado a condição inicial é poder ter o objeto em questão. Os próprio sufis dizem que por ser esse mundo material, devemos mostrar nossa competência também nesse aspecto, mas que, se por ventura tudo for perdido, seja pelo motivo que for, tudo poderá ser reconquistado, não sendo, portanto, motivo para grandes tristezas. Essa relativização da materialidade é uma concepção que se adéqua muito bem aos nossos tempos, apesar de muito antiga.

Nessa bela estória, Rabia coloca o ego de Hasan no seu lugar, mostrando como ele havia perdido a direção, achando que se pudesse andar sobre a água isso representaria uma grande evolução se diferenciando dos demais. Puro ego! Para ele, conseguir esse feito representava uma grande conquista e a Mestre mostrou que ele havia, na realidade, involuído, já que um simples peixe era capaz de tal “façanha”.

Conheço pessoas muito evoluídas espiritualmente que vivem com conforto, frequentam restaurantes e viajam pelo mundo. Para mim, sem tirar o mérito das demais, isso é a espiritualidade do século XXI. E é muito importante ressaltar que não há nada de errado, que de vez em quando, elas não possam ter seus momentos de raiva, medo e angústia. A diferença é que essas pessoas sabem muito bem a diferença entre o que elas realmente são e o corpo que elas habitam, muito ligado a esses sentimentos. Justamente por isso, logo conseguem trazer-se de volta ao equilíbrio.

Ser Humano compreende saber-se habitando um corpo que faz parte dessa natureza e que, como o de qualquer animal, busca sobreviver e tem o medo como norma. Afinal, é justamente lidando diretamente com esses sentimentos nada nobres que, ao observá-los, vamos conseguindo lidar melhor com eles.

Ser “espiritual”, em minha opinião, é tocar a vida sem medo, focado no presente, relativizando o futuro já que não sabemos o que virá, nem apegado a um passado que não existe mais e muito menos voltará um dia. É estar relaxado muito mais tempo do que tenso. É saber a hora de trabalhar, de se divertir e ter em si mesmo uma ótima companhia. O que torna uma pessoa assim ótima de se ter por perto, não acha?

Ser “espiritual” é não sofrer por pensamentos ilusórios e estar sempre longe dos extremos, aceitando os outros como são sem tentar salvá-los ou mudá-los, já que reconhece que não existe apenas uma verdade ou caminho, aliás, eles são tantos quantos os habitantes desse mundo.

Portanto, para ser “espiritual” não é obrigatório pertencer a nada, fazer parte de nada. Até pode acontecer, mas essa pessoa é totalmente LIVRE, não condicionável, simplesmente porque não tem medo de ser punido nem se sente culpada caso não atenda alguma ordem “superior”. Sua ética é ampla, justamente por valorizar a casa (planeta) que vive e todos os seres vivos, respeitando o direito a vida e a liberdade.

Ser “espiritual” é reconhecer suas qualidades e ter sempre bem presente o mal que pode causar, afinal isso é conhecer-se verdadeiramente, não se iludindo consigo mesmo, o que mantém todo seu Ser em harmonia que justamente significa paz e guerra em equilíbrio.

Penso que tudo isso esteja ao nosso alcance, se realmente quisermos e me parece bem mais difícil que andar em cima da água, afinal a sociedade sempre cobrou um preço caro por quem fugiu do rebanho.

                                                          maria-vai-com-as-outras

A Tortura dos Desejos

ceu_inferno

Essa é uma estória muito antiga que vem a séculos ajudando a entender como vivemos. Guarde-a com carinho:

“Um dia um anjo apareceu diante de um homem bom e correto e disse:

– Homem bom, venho em nome de Deus, avisar-lhe que, dentro de uma semana, ele mudará a água e todos vão enlouquecer.

Depois de o anjo desaparecer, esse homem bom começou a estocar toda a água que pode para não ser afetado pela loucura que iria se instalar. Realmente, depois de uma semana, todos ficaram loucos.

 Passados mais alguns dias, começou a correr na cidade o boato de que um homem havia enlouquecido…

Nosso homem bom começou a se sentir cada dia mais triste, afinal todos o olhavam com estranheza, os amigos se afastaram e ele não era mais convidado para nada. Foi ficando cada vez mais difícil viver assim.

Um dia, na hora de sua prece, o homem bom agradeceu a Deus por ter enviado o anjo e disse que não aguentava mais viver triste, isolado de todos, e sendo, muitas vezes, motivos de risos e fofocas. Disse que esse sofrimento o havia feito decidir que, a partir do dia seguinte, iria tomar a água que todos bebiam.

Dias depois, um novo boato começou a correr de boca em boca: de que o louco havia se curado…”

Conto da sabedoria Sufi.

                                                                                                                                                                                       

Diz-se no oriente, que um dos primeiros passos em busca de extinguir o sofrimento é “desejar não desejar”. Esse conceito é proveniente da doutrina budista e quero refletir um pouco mais sobre ele.

O ser humano é movido a desejos constantemente e isso é natural. Se não estivermos desejando algo e se não tivermos medo de não conseguir esse desejo, perdemos a motivação de viver, e, provavelmente, não teremos vontade de levantar pela manhã. A questão que coloco é que, dependendo do tipo e direcionamento dos nossos desejos, entraremos em um processo de infelicidade e frustração constante.

Existe, então, um tipo de desejo certo ou que não me coloque em angústia? Penso que somente aquele que tem a ver com uma busca evolutiva e não esteja ligado a aspectos materiais. Aprendemos, pela cultura em que estamos inseridos, que a “felicidade” será atingida quando cumprimos a aquisição de bens que, demonstrarão (para ou outros, sempre é assim), que somos competentes e de sucesso. É só observar em volta de suas relações e ver como algumas pessoas, por exemplo, se colocam em dívidas que as fazem sofrer, já que as impedem de curtir melhor a vida, para mostrar que possuem símbolos de sucesso. Isso na verdade, como é da nossa natureza, a busca da felicidade, de ser reconhecido e admirado (a).

O grande problema dessa maneira de se viver é que essa “felicidade” nunca chegará, justamente porque, como não conseguimos esse bem estar nesses objetos depois de adquiri-los, transferimos para a próxima compra essa expectativa, e assim até o fim da vida.

Seremos felizes quando tivermos o corpo perfeito, o carro do ano, a casa elegante, a piscina, a promoção, a viagem, a “pessoa certa” ao nosso lado (esse é tema para outro artigo), a roupa da grife chique, etc. Pare um pouco para pensar e use sua própria vida como exemplo e veja como esse tipo de maneira de viver nos contamina. Estamos sempre sendo estimulados pela mídia, e ela está em todos os lugares, nos bombardeando com a informação de que aquele artigo nos tornará pessoas melhores.

Não é nada fácil nos livrarmos disso, afinal todos a nossa volta são assim, e, portanto, nos cobram isso com perguntas, olhares e julgamentos. Isso se chama cultura e serve a interesses bem específicos. Assim o rebanho passa pela vida correndo atrás do que não existe, em agonia constante, privilegiando com seu trabalho e a riqueza que dele se origina, aqueles que controlam o paradigma. O que quero dizer é que o pensamento que controla a sociedade não tem nenhuma preocupação com o ser humano e seu desenvolvimento, apenas com produção de riqueza. Essa competição é alimentada desde cedo na escola, que sempre está a serviço da ideologia, afinal é dela que vem o salário ( no ensino público) e a mensalidade do cliente (aluno) na escola privada. Desde criança somos educados a desejar esses símbolos de prosperidade, sem nenhuma preocupação com formar um cidadão com senso crítico e com capacidade de usar sua liberdade e de descobrir seus talentos naturais. De lá vem o que é “certo” e “errado”. Como se as pessoas que são o modelo desse modo de viver fossem exemplos de felicidade…

O desejo que nos faz bem é aquele de atingirmos uma libertação, aprendendo a viver nesse mundo sem ser contaminado pelo pensamento doente. Quantos que buscam essa evolução ou não conseguem atingir a posse desses bens, encontram refúgio na alienação das drogas, e compulsões de toda a ordem. Muitos pensam nisso em um ou outro momento, como se fosse um sonho, mas no momento seguinte estão lá com suas atitudes fomentando a angústia e o sofrimento sem fim.

Não há nada que esteja fora de você que possa lhe trazer essa paz interior (isso é felicidade). Da sabedoria antiga aos mestres da atualidade, todos são unânimes em afirmar que precisamos encontrar dentro de nós esse ponto de quietude. Consta que Jesus tenha dito que “o reino dos céus está dentro de vós”.

Sei que isso está longe de ser fácil, ser diferente dos outros tem sempre um preço caro. Ainda mais se seu objetivo for atingido, e sua simples presença mostrar aos demais o sofrimento a que eles estão submetidos. A força do pensamento dominante estará se esforçando para trazê-lo de volta ao aconchego do grupo.

Não há nada de errado em se possuir o quer que seja, o erro é transferir para isso seu bem estar. Possua tudo, lembrando que nada possui. Não torne qualquer objeto, pessoa, ideologia ou religião o chão sobre o qual caminha. Quando é assim, estamos sempre com medo de que isso acabe de uma hora para outra, afinal como não depende de mim  o medo está sempre ao meu lado.

Toda e qualquer viagem é feita com mais conforto quando a bagagem não é grande.

Mas não é fácil, e nem o homem bom de nossa história resistiu…

A Prisão que nunca existiu

 

Preste atenção nessa história! Entendê-la não é difícil, mas se você conseguir colocá-la em prática é bem possível que sua vida mude e muito! É uma das mais belas e tem um significado muito especial. Faz parte do sufismo, que é uma das mais antigas Escolas que buscam a elevação da consciência dos seus adeptos. Depois de lê-la espere um pouco antes de continuar. É para ser absorvida como um velho e raro vinho:

Um homem veio até Al-Hallaj Mansoor e fez a pergunta:

O que é libertação?

O sábio Sufi estava em sentado em uma mesquita com belas colunas por toda parte. Ao ouvir a pergunta Mansoor dirigiu-se imediatamente a uma daquelas colunas e, segurando-a com ambas as mãos começou a gritar: – Ajude-me!

O homem não compreendia o que estava acontecendo. Ele apenas tinha perguntado sobre libertação e o outro parecia louco.

Mansoor, segurando a coluna pedia ao homem: – Por favor, ajude-me! A coluna está me segurando e não me solta, liberte-me!

E o homem respondeu: – Você está louco! Você está segurando a coluna e não ela segurando você!

Mansoor disse: Eu respondi. Ninguém o está amarrando…

Parece que é bem mais cômodo e fácil estar preso, ser livre requer ousadia!

Falamos de uma liberdade de ”ser” como se estivéssemos, sem escolha, presos a alguma situação, pessoa, trabalho, etc., como se a condenação fosse definitiva e só um milagre, ou algum acontecimento fora do meu âmbito de ação me trouxesse a liberdade almejada.

Na verdade não precisamos buscar uma liberdade que já existe. Precisamos assumir que seja o que for que esteja nos prendendo é porque queremos estar ali, consciente ou inconscientemente. Só alguém com a estatura de Mansoor poderia, de forma tão simples, mostrar essa verdade. Pessoas como ele ao longo da história precisaram ser assassinadas (ele foi esquartejado) porque são perigosas demais! Um homem livre é sempre um grande perigo, porque ele pode contaminar os demais de forma muito rápida, afinal ser livre é da essência do ser humano. A presença de alguém assim sempre traz duas situações: A primeira é que tomo consciência de meu estado estagnado e aprisionado a algo, e a segunda, traz o perfume da liberdade, que se torna um anseio.

Se os animais, que são inferiores em termos de consciência, quando privados de sua liberdade adoecem e morrem, porque nós poderíamos conviver com alguma espécie de cativeiro? Não seriam os sintomas, que se transformam em doenças, indícios de algum aprisionamento?

Preferimos aspirar a essa libertação porque nos seguramos nas situações e dizemos que estamos presos a ela. O velho hábito, cômodo, de ser vítima!!! Como seria bom se… Quando isso vai terminar? Até quando meu deus? E outras lamúrias…

Já escrevi em artigos anteriores que é muito difícil assumir um estado de liberdade, porque requer muita coragem. Vou me segurando na minha coluna e meus braços vão se tornando parasitas que vão crescendo e se enrolando cada vez mais naquilo que eu estou segurando desde o início. Chega uma hora que minha busca por inocência e o tempo que estou ali, me faz crer que foi a coluna que me pegou. Como pode? Ela está lá, parada e não tem braços…

Você não está preso a nada! Nunca esteve!

É provável que tenha visto pessoas importantes na sua vida segurando também a sua coluna e, é ate´ normal achar que isso estava certo. Só que, a partir do momento em que o desconforto e a tristeza chegaram, permanecer é sempre uma escolha e a responsabilidade é só sua! Não compartilhe, assuma a autoria da sua história! Não espere que seu “sacrifício” vá contar como crédito em algum momento. Não há nada de errado se estiver confortável, se for bom e você estiver feliz, só que não há prisão nesse caso.

Existe uma lei que diz que ninguém pode alegar o desconhecimento da Lei como desculpa por descumpri-la. Da mesma forma, a evolução, o universo em que vivemos também tem as suas leis e essa é uma delas: não existem vítimas!

O filósofo grego Heráclito disse que “A guerra é o pai de todas as coisas”. Sabemos que a grande e verdadeira guerra é travada no nosso íntimo. A tensão que geramos em nós na busca por estarmos bem, lutando contra o que “nos prende” libera a energia do nosso desenvolvimento.

No artigo anterior, encerrei perguntando se seria possível vivermos sem sofrer. Isso só será possível quando assumir minha liberdade e, principalmente, minha responsabilidade pelo que me acontece. Para isso, preciso lembrar que nada me prende, estou iludido, confortavelmente, pensando que estou preso. Por mais que parece que esteja em uma cela, a porta sempre esteve aberta! Por algum motivo, vantagem ou condicionamento me mantenho aqui! Tomar consciência disso é fundamental!

Se, durante esse texto, deixei você irritado (a) ou você pensou que “no meu caso é diferente”, dizendo que a situação está assim (seja qual for) por culpa e acomodação sua, então toquei na verdade! Desculpe-me por querer tirar sua ilusão! Eu sei, desiludir-se é tão desagradável…

Nunca se esqueça de que somente a desilusão é que pode nos impulsionar adiante, já que nos coloca de frente com a verdade. Nossas mudanças sempre são difíceis porque nos levam ao desconhecido, mas isso é do padrão de funcionamento da mente essa acomodação, esse medo de mudar, mesmo que não estejamos felizes. Precisamos aprender a lidar com isso, usando a consciência como guia, mas isso só vai funcionar se não esquecer de que nada vem de graça, tudo é conquistado!

Espero que você agora se sinta mais responsável pelo seu destino.

*Escrevi um artigo com o título: “Você é livre?” que é leitura complementar sobre o tema.