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Amor e Ódio

“É como um pêndulo de um relógio. O pêndulo vai até a esquerda, a extrema esquerda, então, para a extrema direita… Aparentemente ele parece estar indo para a esquerda, mas ele está gerando impulso para ir para a direita.

Assim é na sua vida. Quando você ama uma pessoa, você está gerando impulso para odiar a pessoa. Eis porque a pessoa a quem você ama e a  que você odeia não são duas pessoas diferentes”.

                                       Osho – Teologia mística

 

“Nascemos com necessidades, essas necessidades nunca serão inteiramente supridas, mas amamos nada mais que nossas necessidades.

 As necessidades quase sempre aparecem inexplicavelmente ligadas à raiva, em geral dirigidas a alguém que as evoca sem satisfazê-las plenamente”.

                                          Laura Knipis – Contra o Amor

                                                                                                                                                                                                                amor e ódio

Como pode o amor se transformar em ódio?

Na verdade, tudo que é uno se manifesta de forma dual, amor e ódio são as duas maneiras de expressar uma mesma coisa. Como alguém que amamos (ou pensamos isso) pode ser alguém que nos  gere ódio, raiva ou decepção algum tempo depois?

Muitos estudiosos da psicologia defendem a tese que estamos nos projetando todo o tempo na outra pessoa. Como padecemos da falta de autoconhecimento, o que vemos a todo instante no outro nada mais é do que  nós mesmos. É como se  a outra pessoa fosse um espelho onde me vejo o tempo todo. Como a função  do espelho é apenas refletir uma imagem, oscilamos tão bruscamente de sentimento ao nos vermos por vários ângulos.

Podemos até arriscar dizer que o que chamamos de “gostar” ou “amar” nada mais  são que as nossas próprias qualidades que estamos recebendo de volta desse espelho chamado relacionamento. E aqui não falo somente dos relacionamentos afetivos, mas entre amigos, pais e filhos e tudo mais.

Quando, porém, vemos no outro aquilo que não gostamos em nós, que afeta a imagem que temos de nós mesmos, o sentimento se transforma em ódio e no momento em que isso acontece parece que estamos diante de outra pessoa. A identificação é tão profunda que o “espelho” reflete uma imagem distorcida e, em momentos assim, dizemos até que a pessoa em questão estava transfigurada.

Como que alguém que conhecemos há anos (e, às vezes, são muitos anos) pode nos surpreender? Como pode acontecer de ficarmos chocados depois de tanto tempo?

A resposta só pode ser uma: realmente não conhecíamos a pessoa, pensávamos isso. A surpresa de ver o outro tão diferente advém de, na verdade, nunca termos realmente “visto”  como ela realmente é. Víamos a nós mesmo o tempo todo e não percebíamos.

Quando estudamos o fenômeno da “Sombra” fica mais fácil de entendermos esse processo. Segundo esse conceito, só podemos ver no outro aquilo que somos ou poderemos ser.

Observo na prática clínica com frequência essa mudança brusca de quadro quando estamos trabalhando com a terapia de casais. É comum a frase: “Nunca pude imaginar que ele(a) poderia agir assim. Depois de tantos anos…”

Toda a expectativa que desenvolvemos em relação a outras pessoas sempre tem uma base, que sou eu mesmo. Expectativa significa esperar que a outra pessoa aja como eu em determinada situação. Dessa forma, estou novamente diante do espelho esperando do outro a minha ação. Assim, não fica difícil entender como as decepções são algo que certamente ocorrerão e só o que muda é o tempo que isso vai levar.

É muito difícil não agir assim, exigiria um tamanho conhecimento de si que não está disponível para a maioria dos mortais. Torna-se necessário um tamanho conhecimento do conteúdo reprimido que carregamos desde a formação do nosso Ego que precisa uma busca de, quem sabe, uma vida inteira.

Assim, o que podemos fazer para evitarmos tudo isso?

Penso que o primeiro passo é tomar consciência de como as coisas são. Uma boa autoanálise já ajuda. Para tanto,  basta respondermos seriamente algumas perguntas:

– O que admiro na pessoa?

– O que me irrita nela?

– Em que momento tenho vontade de uma aproximação?

– Quando prefiro estar a quilômetros de distância?

Procurar ver o outro  (e lembre que isso vale para todos os tipos de relacionamento), como alguém realmente novo, que não conheço e quero verdadeiramente descobrir. Claro que essa busca pode trazer boas e más notícias, mas veja por  outro lado; é bem melhor a verdade que a ilusão.

Pode ser um dia, oxalá, possamos nos responsabilizar pelo nosso gostar ou não gostar de alguém, por aquilo que o outro realmente é ao invés do que esperamos que a pessoa seja.

Caso contrário vamos de relacionamento em relacionamento nos encontrando e desencontrado de nós mesmos, sem termos tido a oportunidade de realmente conhecermos aquela pessoa que cruzou em nosso caminho, voluntária ou involuntariamente, como no caso da família.

Quando os orientais dizem que vivemos uma grande ilusão o tempo todo (maya), é lícito pensarmos que tem a ver com isso também, ou seja, nos iludimos vendo a nós mesmos quando deveríamos ver o outro. Ficamos projetando nossos sonhos internos o tempo todo para fora, criando uma realidade particular vista apenas pelos olhos de quem somos.

Justamente por isso a frase; “jamais poderia imaginar…” tem um profundo significado. A situação não pode ser imaginada justamente por isso, não faz parte da minha realidade interior. Vez por outra a vida nos assusta, tirando-nos do sonho da imaginação do dia a dia quando constatamos que alguma coisa não foi como imaginávamos ou pensávamos.

Portanto, tanto o amor como o ódio é uma só coisa; aquilo que as pessoas que estão o tempo todo me mostrando; quem sou, minhas qualidades e meus defeitos.

Para muitos místicos essa nossa identidade além do ego é um imenso vazio. Para o Zen, isso é chamado de “ninguém”. Enquanto acharmos e nos identificarmos com esse alguém que pensamos ser, chamado de Ego, também pensamos que não somos a nossa Sombra e vamos vivendo na escuridão, compartilhando a vida com pessoas que imaginamos ser algo, de  quem gostamos ou não.

Isso, no final, é uma grande injustiça.

Quem sabe, só no pensamento, quando nos perguntarem que somos, nosso nome ou coisa parecida, respondêssemos:

– Sou ninguém.

Dessa forma, poderemos ir, aos poucos, abrindo nossos olhos internos para nosso Ser inteiro, única maneira de podermos realmente ver quem está na nossa frente.

Nem isso, nem aquilo

 

“Tocar o mal acarreta o grave perigo de sucumbir a ele, precisamos, portanto, deixar de sucumbir a qualquer coisa, inclusive ao bem. Um bem ao qual sucumbimos perde seu caráter ético. Qualquer forma de vício é nociva, quer se trate de álcool, narcóticos ou idealismo. Precisamos evitar em pensar o bem e o mal como opostos absolutos. O reconhecimento da realidade do mal, necessariamente torna relativo o bem – e também o mal – convertendo cada um deles na metade de um todo paradoxal.”

Carl G. Jung – O problema do mal no nosso tempo.

“Bem e mal são os preconceitos de Deus; dizia a serpente.”

Nietzsche

bem e mal

A filosofia sempre se debateu sobre essas questões básicas como o conceito de verdade, de moral e do que se considera o “bem”. Todo o julgamento que fizemos se dá, em meu entender, porque nossa mente sempre precisa de definições já que isso a deixa segura por, digamos, entender o que se passa e a de formar uma ideia a respeito seja do que for. Não é difícil de exemplificar: quem já não conheceu uma pessoa e só de vê-la (interpretá-la seria a palavra correta) fez todo um julgamento, simpatizando ou não. Passado algum tempo, convivendo, essa ideia inicial foi totalmente reformulada. A questão seria mais simples se esperássemos um tempo para depois dizer o que achamos dessa pessoa. Mas nossos julgamentos são automáticos e isso não podemos evitar, mas, não levar esse julgamento em consideração, sabendo que o tempo é mas sábio que a mente, isso sim já é uma evolução.

Quando estamos falando do que é o “bem” e o “mal” isso também acontece, só que nesse caso, foi à cultura que nos forneceu as bases desse entendimento automático da mente, e lá estamos nós julgando rapidamente, de novo!

Jung diz que o julgamento moral, pelos motivos acima, está sempre presente e isso também traz consequências psicológicas. De certa forma, ele poderia estar tratando do conceito de carma quando afirma: “Assim como no passado, também no futuro, o erro que cometemos, pensamos ou intencionamos, se vingará de nossa alma.”

Mas qual a certeza que temos que a base desses conceitos que nos foram introjetados por educação ou porque não dizer, por punição, são realmente corretos? Tudo é subjetivo e tem sofrido mudanças, dependendo da época ou necessidade. Isso quer simplesmente dizer que a base do conceito de “bem” e de “mal”, como todos os outros, é incerta e relativa, muito relativa.

Aprendemos que nenhum valor pode ser maior que vida humana, certo? Depende, já que se entrarmos em guerra contra outro país (isso ainda acontece, por mais incrível que pareça), se em uma determinada ação eu vier a tirar a vida de muitos “inimigos” serei condecorado, considerado herói e até terei no futuro uma estátua em alguma praça. Aliás, a maioria das figuras nessas praças são de heróis de guerra, que, dependendo do ponto de vista, poderia chamar de assassinos, ou não?

Todos amam seus animais de estimação, os tratam como pessoas, gastam fortunas com eles, mas daqui a algumas horas de voo, eles fazem parte do cardápio de restaurantes caros. Quando alguém aparece ou é denunciado por maltratar um cachorro, pode até ir preso, mas de outro lado não se importa muito com a rotina dos abatedouros, onde animais com o mesmo cérebro emocional (capacidade de sentir e sofrer) de seu amigo “que só falta falar” são trucidados diariamente, para nosso deleite gastronômico. Em outros lugares, esses mesmos animais são sagrados e arderemos no inferno se os maltratarmos. Diante de tantas incoerências, porque poderemos afirmar que alguma coisa ou ação é realmente boa ou má?

Torna-se necessária muita coragem para exercer a liberdade de evitar aquilo que é considerado “certo” e termos a ação de fazer o que se entende por “errado” se nossa decisão interior (poderemos chamar de ética pessoal) assim o entender. Conforme a filosofia hindu, neti neti (nem isso, nem aquilo). Penso tornar-se necessária uma elevada dose de confiança e autoconhecimento para fazer o mal, quando se sente necessário. A maioria das pessoas sucumbirá aos condicionamentos sociais e a opinião normótica sobre o tema.

Na verdade, quando a ação é consciente ela é sempre certa para quem age, a questão da avaliação moral dessa atitude fica por conta da cultura vigente e dos limites que essa cultura pode impor. Como a esmagadora maioria das pessoas é totalmente inconsciente (no que se refere aos “porquês” de suas atitudes), torna-se fundamental um manual de conduta ou código moral para nortear o que se pode ou não fazer, já que, como as ovelhas, precisamos de quem nos leve.

O grande problema é que vagamos pela vida com essa profunda inconsciência, destituídos de liberdade de pensamento, estamos sempre nos apoiando nessas velhas frases e não tomamos nossas decisões de forma lúcida e isso nos leva a projetá-las nos demais. Se todos temos uma sombra que nada mais é do que esses conteúdos não vivenciados e reprimidos, nós enquanto coletividade também os temos, e nos responsabilizamos pelas consequências da cultura que vivemos e que ajudamos a manter, seja pelo nosso conveniente silêncio ou total ignorância.

Nossa educação não se preocupa em formar pessoas que se conheçam e que, portanto, tenham recursos de encontrar suas decisões conscientes, mas apenas se preocupa em formar mão de obra e tornar todos incapazes de realmente saberem o que querem de si mesmos, transformando os diamantes individuais em pedras comuns, condicionáveis e manipuláveis. É uma alquimia às avessas.

A resposta para sabermos o que seria o “bem” ou o “mal” precisa que saibamos quem somos e isso, infelizmente, nunca será fornecido pelo Estado (leia-se “educação” que sempre trabalha pela ideologia que está no poder), seja de que lugar for. Não se formam pessoas livres, isso é perigoso demais!

Como já escrevi artigos anteriores, conhecer-se significa saber o bem que se é capaz de fazer e os crimes também. Aliás, o que seria da sociedade sem as leis e punições? A maioria das pessoas só quer ver como real o bem de que são capazes. Penso que ele só será mesmo real, quando a consciência das nossas “capacidades” para o mal estiverem bem visíveis, tanto quanto as qualidades. O crescimento se dá quando, por escolha, e não por imposição, decido não fazer o mal e não projetá-lo, fazendo o bem. Esse autoconhecimento é da maior importância, pois através dele nos aproximamos daquele extrato fundamental, ou âmago da natureza humana onde se situam os instintos, como diz Jung.

Se o conceito de Deus é de totalidade, sem divisões, seus filhos também deveriam ser assim e esse é nosso destino evolutivo, mas enquanto fracionados pelo “certo” e “errado” estaremos em constante sofrimento e assim não teremos como continuar a caminhar em busca dessa totalidade.

Assim e só assim, será fácil decidir que é verdade ou mentira, fora disso, continuaremos como crianças pequenas, perguntando com os olhos arregalados e esperando que nossos “educadores” nos digam o que posso ou não posso ser ou fazer, se sou “bom” ou “mal”.

Tudo tem um preço e ser inocente é um dos mais caros.

Espelho, espelho meu…

espelho

“A triste verdade é que a vida humana consiste num complexo de opostos inseparáveis – dia e noite, nascimento e morte, felicidade e miséria, bem e mal. Nem sequer estamos certos de que um prevalecerá sobre o outro, de que o bem superará o mal ou a alegria derrotará a dor. A vida é um campo de batalha. Ela sempre foi e sempre será um campo de batalha. E, se assim não fosse, a existência chegaria ao fim.”

C. G. Jung

Em alguns artigos anteriores passamos rapidamente sobre um importante assunto no que se refere ao autoconhecimento e vamos nos aprofundar um pouco mais nessa oportunidade. Esse assunto chama-se “Sombrae nos convida a reconhecer a abraçar nosso outro lado, afinal só assim poderemos nos perceber completos.

Tudo que recebe luz faz sombra. Se o Ego (face exterior) é a luz, a Sombra representa as trevas, e é isso que nos torna humanos, possíveis das maiores bondades e das mais cruéis perversidades. Se temos no ego essa imagem de perfeição que queremos transmitir para que nos sintamos adaptados e respeitados,  é na sombra que está o que não aceitamos em nós mesmos e que gostamos de ocultar – nossa agressividade, vergonha, inveja, raiva, etc. Como podemos concluir, nunca na verdade sabemos quem nos comanda, não é mesmo? Justamente por isso que a divisão (diabolos em grego) é nosso inferno, e evolutivamente buscamos a unidade (divinus) para atingirmos nossa completude.

Usamos muito sinônimos quando falamos dessa nossa parte tão desagradável: nossos demônios internos, luta contra o diabo, descida ao inferno, noite escura da alma e até de “crise da meia idade”, quando nos enfurecemos e ficamos “possuídos” fazendo e dizendo coisas nunca antes imaginadas nem mesmo pelas pessoas que nos conhecem desde sempre.

Portanto, a Sombra é nosso lado negativo, soma de todos os atributos que pretendemos esconder, já que se aparecerem oferecerão risco à imagem ideal que temos de nós mesmos e que desejamos que os outros também tenham. Lidar diretamente com a sombra é uma jornada que certamente leva a pessoa a patamares superiores e, realmente, nos transforma definitivamente.

A sombra começa a se formar na infância quando, principalmente a partir dos 2 anos, a criança começa a descobrir que, para conservar o amor de seus pais e outras figuras referenciais, precisa começar a esconder partes suas que eles não gostam. Quem já não ouviu essas frases entre tantas outras:

– Que feio! Você precisa aprender a dividir as coisas!

– Papai e mamãe ficam muito tristes quando você não fica quieto!

– Meninos não choram!

– Não é bonito agir assim!

Assim, vamos colocando todas essas partes nossas em um canto escuro de nossa psique, onde fica tudo que nos dizem que é “errado” e “feio”.  Aqui no ocidente, por exemplo, a cultura cristã jogou durante séculos a sexualidade na sombra de todos nós e o que vemos hoje é justamente uma exacerbada  sexualização em tudo (até em desenhos animados) porque nossa Sombra sempre está a nossa espreita para tomar conta de nós quando abrimos o flanco.

E como ela aparece, ou seja, como nos damos conta de nossa Sombra? Simples: sempre que estamos criticando alguém ou determinada situação! Em psicologia, Freud chamava isso de projeção, que acontece quando lançamos sobre as outras pessoas nossos conteúdos inconscientes. Nunca se esqueça: os outros são apenas espelhos nos quais nos vemos o tempo todo!

Imagino que você já deve ter comentado com algum amigo determinado “defeito” de alguém e esse seu amigo disse que isso não o incomodava. Mas afinal, porque incomoda a você e não a ele? Justamente porque esse “defeito” faz parte de você e não dele!

Quando, lá na infância, por exemplo, você foi reprimido(a) por não compartilhar seus brinquedos com o amiguinho e foi forçado a fazê-lo, seu egoísmo foi jogado na Sombra e é por isso que hoje um ato egoísta que você presencia causa tanta ira e, às vezes, uma reação desproporcional. Espero que esse exemplo ajude a entender a questão da projeção.

Para ajuda-lo a descobrir suas projeções e sua Sombra, faça o seguinte exercício:

Faça uma lista sincera de todas as qualidades que não aprecia nos outros (vaidade, ciúme, ambição, etc.). Quando sua lista estiver pronta (não se assuste se ficar muito longa, é assim mesmo), destaque as características que além de desagradar, mais repudia e despreza nos outros. Essa segunda lista será um relatório bem próximo da verdade sobre sua Sombra, quer você goste ou não, acredite ou não.

Evidente que nem tudo que criticamos nos outros são projeções nossas (a maioria é), mas sempre que nossa reação é demasiadamente forte é sinal de que algo foi mexido nas profundezas do nosso inconsciente. Fica fácil então perceber que quando estamos muito bravos com alguém, estamos dominados pela Sombra e não é a toa que precisamos pedir desculpas dizendo: ”perdi a cabeça e falei bobagens…” Na verdade, o que foi dito não foi pelo seu Eu de consumo externo, mas pela sua Sombra, e é o que realmente você pensa, só que se envergonha.

Outra oportunidade de nos conhecermos melhor em relação à Sombra é nos shows humorísticos e piadas. Quando todos riem e você não acha graça e ainda fica bravo, é sinal de que uma parte sua foi exposta pela piada. Já quando rimos muito, significa que a história fala da parte da nossa Sombra que gostaríamos de ser e não conseguimos, já que não combinaria com nosso Ego.

Mas como tudo tem dois lados, a Sombra também tem seu aspecto positivo. Quando admiramos determinadas qualidades em outras pessoas também estamos nos vendo no espelho. São potencialidades nossas que poderemos desenvolver se trabalharmos sobre elas. Isso acontece quando nos projetamos em ídolos, professores, artistas, etc. Assim também acontece nos relacionamentos afetivos, onde projetamos sobre o outro, e vice-versa, os atributos positivos inconscientes. É claro que, com o tempo, vamos nos “decepcionando”, que nada mais é do que descobrir que o outro (a) não é o que esperava, ou seja, igual a mim.

A Sombra é um assunto para um grande número de artigos, mas penso poder ter ajudado a ampliar sua percepção de si mesmo. Só as pessoas que trazem sua Sombra para luz é que conseguem seguir o preceito do “não julgarás”. Se minha Sombra estiver escondida, aparece o julgamento, se estiver consciente dela, ao invés da crítica, me solidarizo com alguém que sofre do mesmo mal que eu.

Tem um ditado popular que diz: quando apontamos um dedo para alguém, três apontam para nós.  Pura verdade, para o bem e para o mal!

Seminário de Prática Clínica e um vídeo

Restam ainda algumas vagas para o seminário de prática clínica que estarei ministrando em São Bento do Sul. Aberto a estudantes, terapeutas e público em geral interessado no tema. Lá, estaremos trocando idéias e falando dos fundamentos de como vejo a psicoterapia e três dos principais assuntos que levam as pessoas ao consultório.

Será um final de semana de troca de idéias e de discussão dos problemas humanos. Mais detalhes ao lado, na “agenda”.

Segue abaixo um trailer do filme sobre a sombra. Se gostar, pode assistí-lo completo no Youtube.

 

Imagem de Amostra do You Tube

 

O estudo do ONZE

A Força

 

“Ah, se fosse assim tão simples! Se houvesse pessoas más em um lugar, insidiosamente  cometendo más ações, e se nos bastasse separá-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal atravessa o coração de todo o ser humano. E quem se disporia a destruir uma parte do seu próprio coração?”

Alexander Solzhenitsyn

Tivemos nessa semana uma daquelas datas que povoam o imaginário das pessoas e que é importante para muitas correntes místicas. Diz-se que em datas com números repetidos como esse 11/11/2011 abrem-se “portais” por onde aqueles que estão conectados ou preparados podem ter um aumento do seu nível consciencial pela sabedoria transmitida por seres mais elevados. Nesses dias nos horários completos como tivemos às 11hs, 11min e 11 segundos essa comunicação é feita pela abertura dos referidos portais. Caso isso tenha realmente ocorrido será muito bom, visto que, como sabemos, até por experiências já realizadas, quando um grupo de pessoas se “eleva” isso provoca um efeito no restante da população, já que parte-se do pressuposto que existe uma “mente coletiva” partilhada por todos nós. O lema é: tudo está em tudo, ou o que está no alto também está embaixo.

Porém, quero aproveitar essa data para falar do número que ficou em evidência, o onze, que, como os demais, tem um profundo simbolismo que pode nos ser útil em nossa caminhada em busca do autoconhecimento.

O onze é uma variação do número 2 (1+1), sendo, portanto um número eminentemente feminino. Tradicionalmente o onze é representado por três figuras a saber: uma mão fechada, um leão amordaçado ou a mais conhecida e que ilustra nosso artigo; uma mulher abrindo a boca de um leão. O onze é também chamado de “A Força”.

A nível psicológico o onze nos remete a mediação (entendimento) entre o ego e nossas forças mais primitivas. Como sabemos, o Leão é um animal selvagem e ameaçador e simboliza que não podemos enfrentá-lo (dominá-lo) de forma tradicional e violenta (masculina), nem podemos simplesmente ignorá-lo. Justamente por isso que esse importante conflito precisa ser realizado de forma subjetiva, interior e sutil, o que justifica plenamente a presença da mulher na gravura. Notem que ela abre a boca do leão sem esforço e não aparenta nenhum medo…

Mas o que é essa nossa parte simbolizada pelo leão? É o que o psicólogo Carl G. Jung chamava de “sombra”, ou seja, cada um de nós tem um personagem agradável para o uso cotidiano que busca a adaptação, respeito e acolhimento dos outros. Mas, também temos um “eu” oculto e noturnal que permanece amordaçado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos como raiva, ciúme, inveja, vergonha, falsidade, ressentimentos, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas, etc., ficam escondidas logo abaixo da superfície, encobertas pelo nosso “eu” de consumo externo, mais apropriado às conveniências. Como não gostamos de também ser assim, mantemos essa parte escondida (nos causa vergonha) e a negamos. Dessa forma esse importante território de nosso interior permanece inexplorado.

O grande problema é que esse lado escuro, por não ser dominado, sempre aparece em um momento de raiva, quando bebemos demais ou “perdemos a cabeça”. Nessa hora, nos mostramos mais completos e dizemos o que realmente sentimos e fazemos o que realmente queremos. Mas como isso não combina com a idéia que nós mesmos queremos passar, nos desculpamos dizendo que não sabíamos o que estávamos fazendo, etc…

O ensinamento do onze nos ensina que não podemos voltar às costas para nosso leão, já que sempre que isso acontece ele fica mais feroz e incontrolável. Se não o dominarmos, seremos visitados por doenças psicossomáticas, crises nervosas e são a causa da maioria dos crimes passionais.

Ocorre que esse leão só pode ser domado de forma sutil e acolhedora, reconhecendo meu lado obscuro. É muito fácil saber o que está escondido em nós, basta perceber o que mais me incomoda e me irrita no comportamento dos outros. Como o outro é sempre um espelho onde me reflito, minhas críticas e irritações com outras pessoas só acontecem porque elas me mostram esse meu lado que não quero lembrar que tenho. Também é importante entender o outro lado: tudo que admiro em outras pessoas são potenciais que também tenho que precisam apenas ser desenvolvidos.

Enquanto não domarmos nossa “fera” ainda não teremos atingido nossa plena humanidade, sendo, na melhor das hipóteses um animal que se desenvolveu um pouco mais que os outros da natureza. Só quando me conheço por completo, posso realizar o principal conselho de todas as religiões: o não julgamento! Afinal, quando tomo essa consciência, ao invés de criticar, vejo o outro como alguém que sofre como eu…

Reputo fundamental a reflexão sobre a frase de Jung: “Aquilo que não fazemos aflorar a consciência, aparece em nossa vida como destino.”

Agora algumas curiosidades:

No Sepher Yetzirah*, o décimo primeiro caminho é o da inteligência cintilante, pois diz-se que aquele que o percorre até o fim com “verdadeiro entendimento” pode ser autorizado a ver a face de Deus e continuar vivendo. Para a Cabala, portanto, o ensinamento desse caminho proporciona a verdadeira liberdade.

Para os Taoístas o onze também e representado pela união do 5 e 6, que são o macrocosmo e microcosmo, céu e terra, sendo o número que constitui a totalidade, a via do céu e da terra. É o número do Tao.

*O Sepher Yetzirah é um dos mais antigos e misteriosos textos da Cabala. As primeiras referências datam do século I. Tem uma chamada “versão curta” com 1300 palavras e uma “versão longa” com 2.500 palavras. Sua autoria é atribuída a Abrahão.

Se perdeu esse portal não se preocupe, ano que vem teremos o 12/12/2012. Enquanto isso, pense nos conselhos que o número onze traz…

 

Para saber mais:

Números, magia e mistério: ed Três

Ao encontro da sombra: ed Cultrix

Jung e o Tarô: ed Cultrix

Dicionário de Símbolos: ed José Olimpo