Agenda

O peso da Solidão

“ Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é um Deus.”

Aristóteles

“ A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.”

Arthur Schopenhauer

“ A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

Fernando Pessoa

 

solidao

 

Um estudo recente promovido pela Universidade de Virgínia*, nos Estados Unidos, publicado na revista Science, traz interessantes conclusões sobre a solidão.

Os voluntários eram colocados em uma sala, sozinhos, por 15 minutos, sem fazer nada, sem seus celulares ou qualquer outra distração. Não havia televisão, som ou qualquer estímulo que pudesse dividir a atenção. A pessoa ficava acompanhada apenas dos seus pensamentos.

Mas havia uma saída, caso apertassem um botão poderiam usar o que quisessem como pegar seu celular, por exemplo. O detalhe era que esse botão, que possibilitaria voltar a ficar conectado dava um choque elétrico. Em outras palavras, para sair da solidão o preço era levar um choque, que, segundo a pesquisa, era dolorido o suficiente para, em princípio, desestimular essa iniciativa.

Os resultados foram surpreendentes: 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram a dor do choque a ficarem os 15 minutos completamente sós. Alguns, inclusive, preferiram tomar mais de um choque nesse curto período.

O resultado não deixa dúvidas;  o ser humano (na sua média, afinal toda a regra tem exceção) vê a solidão como algo negativo. O simples fato de estar conectado a internet, já abranda essa angústia. Isso explica muito bem como os celulares modernos ocupam muito do espaço que antes era da televisão, ou seja, de nos entreter e evitar que a pessoa se perceba só.

Alguns estudiosos como John Cacioppo que é diretor do centro de neurociência da Universidade de Chicago, defendem a ideia que a solidão trabalha em nosso cérebro da mesma maneira que percebemos a dor, fome ou sede. Isso quer dizer, que, quando sozinhos nosso cérebro entende que corremos risco de vida, afinal os estímulos citados acima têm a ver com sobrevivência.

Todos os estudos mostram que as pessoas sozinhas, ou que assim se sentem, têm, em média,  um aumento da pressão arterial e o processo de envelhecimento acelerado, se comparado com pessoas não afetadas. Já as pesquisas sobre suicídio dão conta de que as pessoas consideradas “cronicamente sós” atentam mais contra sua vida do que as que não pertencem a esse grupo.

A explicação para o resultado dessa pesquisa tem suas raízes em nosso processo evolutivo. Nos primórdios, mesmo antes da podermos dizer que havia algum rudimento de civilização, a sobrevivência do “bicho” homem só era possível em bandos, ou seja, estar com mais pessoas ajudava a manter a vida. O grupo proporcionava essa segurança de uns defenderem os outros, a conseguir alimento e dividir tarefas.

Mas, pelo visto, nem todas as mudanças nesses muitos milhares de anos trouxeram grandes acréscimos em relação ao nosso modelo original. Talvez porque a própria teoria evolucionista mostra que temos em nossos genes contato com esse homem das cavernas, de quem somos descendentes.

O fato de sermos animais sociais, não tem a ver com não podermos estar sós. A solidão é um problema que a pessoa tem consigo, é interior. É de alguma forma sentir-se a parte, desconectada da vida. Quantos se dizem sós, mesmo rodeado de pessoas?

Hoje, com toda a tecnologia disponível a maioria das pessoas teme a solidão como uma doença letal. A mente sempre agitada e negativa deixa a pessoa atordoada com suas maquinações de medo em relação ao futuro ou culpa pelo passado e, na verdade, o outro ou algo que prenda minha atenção cumpre a tarefa de  salvar desse inferno de ficar ouvindo esses pensamentos ruins o tempo todo.

Não vejo como possamos estar realmente bem com alguém sem que tenhamos a experiência agradável da solidão. Parece que as pessoas não entendem que não “são” sua mente e  não há nada que faça essa negatividade acabar, afinal essa é a sua natureza. Ter medo ajuda o bicho homem a sobreviver, como já enfatizei em artigos anteriores.

Mas isso não impede que minha companhia me seja agradável, que possa curtir a solidão como algo prazeroso e profundamente evolutivo. Quem fica bem sozinho transcendeu ao bicho que também faz parte de si, e, provavelmente, entendeu sua mente e convive bem com ela, apesar de tudo.

A solidão será um problema na medida em que pensamos que esse “vazio” só pode ser preenchido por outra pessoa ou por estar em contato com outras. Aí, já entramos no perigoso terreno do apego e da dependência emocional que sempre é facilmente confundido com amor. Se dependo da presença de outra pessoa para me sentir bem, é porque me falta algo, que espero que seja preenchido pelo outro. Nunca será, e é por isso que muitas pessoas pulam de relacionamento em relacionamento atrás de si mesmas e  nunca sossegam. Procuram  no outro o que falta em si e isso nunca será possível.

Assim, vamos imaginando nas outras pessoas ou esperando em um futuro relacionamento “perfeito” a peça que falta no quebra cabeça do meu autoconhecimento.

A grande vantagem de encontrar essa paz em si mesmo é nunca cobrar do outro essa responsabilidade, além de facilitar e nivelar sempre “por cima” as escolhas que fazemos, não só afetivamente, mas em todos os campos de relacionamento. Se não preciso, escolho melhor e sempre me relaciono de forma mais saudável. Parece óbvio, mas,  infelizmente, não é.

Os choques que as pessoas preferiram levar nesses apenas 15 minutos, mostram que preferem sofrer a ficar sós com seus pensamentos. Daí é bem fácil entender porque também sofrem em suas relações. O outro é alguém que me salva dessa sensação de inadaptação que nos faz sofrer e ativa nosso sistema como um perigo letal.

É claro que se estou morrendo qualquer um que me salve resolve meu problema, mas ninguém está doente ou morrendo por estar só. Hoje, com a internet, temos milhares de contatos na palma da mão e ter a possibilidade de conversar com pessoas on line e saber o que ocorre um tempo real virou também um substituto para a convivência.

É tão mais seguro se relacionar atrás da tela, já que nos isenta das frustrações possíveis de ocorrer em relacionamentos reais. Sempre será importante lembrar que dificilmente um relacionamento entre pessoas emocionalmente saudáveis dará errado. Vamos de um extremo a outro, sempre fugindo da dor e buscando a felicidade.

Como nosso lado instintivo é  forte!  Somos ainda mais bichos que humanos.

Pelo visto, evolutivamente, a pré-história ainda não terminou.

_________________________________________________________________________________

*Os resultados dessa pesquisa foram publicado no Jornal de Santa Catarina na edição de 21/07/2014

O Sétimo dia

      “ E Deus descansa e abençoa o sétimo dia…”

                                              Gênesis

“Tudo está fechado

Tudo está fechado

Domingo é sempre assim

E quem não está acostumado?

É dia de descanso

Nem precisava tanto

É dia de descanso

Programa Sílvio santos

E antes que eu confunda todo mundo

Antes que eu confunda o domingo

O domingo com a segunda

Domingo eu quero ver o domingo passar

Domingo eu quero ver o domingo acabar

Domingo eu quero ver o domingo passar

Domingo eu quero ver o domingo acabar

Até o próximo, até o próximo, até o próximo domingo

Até o próximo, até o próximo, até o próximo domingo”

Titãs – Domingo

triste

De todos os dias da semana, existe um que talvez seja aquele que, se nele acordássemos de um estado de coma de muitos anos, saberíamos identificar sem muitas dificuldades. O domingo se caracteriza por manter suas trilhas sonoras, cheiros e jeitos de se acordar, almoçar, jantar e rotinas até de pensamentos, imagino, desde tempos imemoriais, tamanha a dificuldade de nos libertarmos dessa verdadeira condenação.

Se Deus realmente criou o mundo e começou na segunda-feira, teria muita curiosidade de saber como ele se sentiu na tarde de seu dia de descanso.

Existe uma certa aura facilmente reconhecível e até já se fala de um termo que se não fosse sério, poderia ser uma maneira de expressá-lo chamado “depressão de domingo”. Parece que esse estado de tristeza e ansiedade tem até uma hora para começar, lá pelas 17 horas, quando o dia se encaminha para o entardecer e a sombra da segunda feira começa a atormentar com o pensamento do início de mais uma semana de trabalho, compromissos, e tudo que envolve essa maneira de encarar a vida como se fosse uma batalha feita de sacrifícios.

De alguma forma, poderemos comparar com o que acontece com muitas pessoas nos feriados de final de ano (se ainda não leu, sugiro a leitura do artigo “Depressão de natal”), claro que de forma mais reduzida, mas com grande semelhança no conteúdo emocional.

Mesmo para aqueles que fazem de seu dia de descanso algo prazeroso, o início da noite traz consigo uma melancolia que se pode quase respirar. A televisão mantém programas há décadas, com alguns personagens que parecem imortais, mantidos por uma audiência hipnotizada que entra em transe nos mesmos horários sempre que tocam as músicas de abertura, que, apesar de alguma variação nos arranjos, vez por outra, nos chamam para os pensamentos de sempre e soam como se fossem alarmes que nos despertam para uma sensação de cansaço do que só começará amanhã.

As crianças vão aprendendo com seus pais a se sentirem tristes e ansiosas quando os veem se preparando desde cedo para esse dia que parece tão importante que decreta o início da semana, sem entender o que acontece de tão especial. Tenho a impressão que nesses horários nos lembramos dos sonhos que não se realizaram, dos amores que se perderam e da vida que se escoa cada vez mais rapidamente. Metaforicamente ou não dormimos na segunda feira pela manhã, acordamos no sábado e tudo está passando tão depressa porque percebemos apenas dois dias dos sete de cada semana.

O domingo torna a segunda feira tão pesada que não deve ser mesmo fácil começar nesse dia aquele regime há tanto adiado, os exercícios físicos ou um novo enfoque nos estudos ou trabalho. Isso pode explicar as estatísticas que mostram a manhã de segunda feira com a maior incidência de infartos e suicídios.

E se mudássemos o nome dos dias, trocar o nome pode dar um novo sentido, por que não? Hoje a quinta feira, por exemplo, ganhou o status do dia preferido da semana, afinal trabalhar na sexta feira fica mais leve sabendo-se que depois vêm os dois dias de descanso para a maioria das pessoas. Na quinta, as pessoas saem à noite e se preparam pouco para sexta, afinal chegam tarde em casa da diversão. Só que isso não incomoda tanto quanto dormir tarde no domingo. Ali precisamos ver os melodramas dos programas do final de tarde e da noite, mas é claro que quando nosso time vence isso traz um certo consolo, mas quando perde…

Mergulhamos nas rotinas para não pensarmos em tudo que nos angustia, para fugirmos das dúvidas do futuro, afinal nossas desculpas para tudo que abandonamos, seja por medo ou falta de persistência, já não nos convencem mais.  As horas que antecedem mais uma semana, nos confrontam com uma espécie de realidade cinza e da nossa falibilidade. No domingo, a morte é uma certeza e se isso acontecer rapidamente deixaremos para trás muito do que daria sentido a vida que sonhávamos na época que éramos imortais.

Se você, caro leitor, é vítima dessa depressão de domingo, sugiro que tome medidas urgentes para mudar essa situação. Esperar que a televisão, por exemplo, tire esses programas do ar para que algo mude, pode esquecer!  Comece por agendar para esse dia atividades agradáveis, principalmente para à tardinha e a noite. Que diferença faz se amanhã é segunda feira ou sexta? Se tiver que trabalhar igual no outro dia, quebre esse paradigma e corte mais isso da sua lista de sofrimentos. Alguns podem argumentar que o fato de estarem sós agrava o problema. Afirmo que não, já que posso dizer que é um condicionamento coletivo que atinge os solitários e os acompanhados, afinal temos os momentos que não podemos fugir de nós mesmos e o domingo para isso chega ser perfeito.

Porque não um bom cinema no domingo à noite? Aquela pizza com os amigos, ou mesmo a caminhada que se faz durante a semana a noite, pode transformar o limão em limonada. Só de saber que terá algo que goste para fazer no final do dia, isso já trará certa leveza para o dia todo.

Vá almoçar na casa da sua sogra no sábado, pelo menos vez por outra, e quebre essa rotina que mais parece um encantamento da bruxa má. Lembre que  atitudes novas, resultados novos!

Conta a lenda que  Jesus ressuscitou em um domingo, faça isso com você também!

A SOLIDÃO

 

 

“Se a demanda do autoconhecimento for desejada pelo destino e recusada, essa atitude negativa pode acabar em morte verdadeira. A demanda não teria chegado à pessoa se ela ainda fosse capaz de guiar para algum atalho promissor. Mas ela está presa a um beco sem saída, do qual somente o autoconhecimento pode arrancá-la.”

                                                            C.G. Jung

 

Há quem diga que a solidão é uma arte esquecida.

O temor de se estar só pode ser visto de algumas formas; uma delas poderia ser o medo de estar ou sentir-se abandonado, o que poderia significar que as pessoas não gostam da nossa companhia, que somos inadequados ou esquisitos. Outra opção pode ter a ver com a ideia de que não nascemos para vivermos em solidão, por sermos animais “sociais”. Quantas pessoas, em momentos de raiva, lançam maldições como essa: “seu destino é ser solitário, ninguém consegue conviver com você!”.

Uma terceira alternativa pode representar o fato de não sermos compreendidos pelos demais, o que nos afastaria do convívio pelo simples fato de falarmos um “outro idioma”, ininteligível pelos outros. Existem tantas outras, mas a chance de se chegar ao autoconhecimento sem passar pela boa convivência consigo mesmo é quase nula.

É interessante observar como em nossos dias tem aumentado o número de pessoas que procuram atividades como retiros, por exemplo, onde faz parte dessa prática muitas horas de solidão e silêncio. Mesmo nos momentos mais angustiados e difíceis de nossas vidas, clamamos para fugirmos ou nos transportarmos para algum lugar, longe de tudo ou de todos, onde possamos encontrar paz. Chega-se ao ponto de, nos momentos de grande tensão, dizermos que precisamos ficar sós, para podermos chegar a alguma espécie de acordo interno sobre a situação que nos aflige. Ficar só, portanto, é bom e saudável, mas sem exageros como manda a receita do “caminho do meio”.

Somos cobrados de alguma forma se queremos ficar sozinhos. Estar só pode significar que nossas companhias não estejam nos fazendo bem, nos trazendo sofrimento, ou até mesmo nos atrapalhando de alguma forma. Nos relacionamentos afetivos, por exemplo, na época da paixão, fundimos nosso “eu” na outra pessoa e só pensamos no “nós”. Passado algum tempo, nosso “eu” volta a clamar por atenção, o que é mais do que normal. Nessa hora, por ignorância, alguns chegam a pensar que não estão gostando mais tanto do seu companheiro(a). O que ocorre, é que estamos voltando ao normal, e a relação saudável passa a se estabelecer em cima de dois “eus” saudáveis e não mais em cima de um “nós” patológico que sufoca a expressão da individualidade.

Nada é mais pessoal e individual que a solidão. Pode até parecer redundante, mas se pensarmos bem, se chega à conclusão que muitas vezes já nos sentimos sozinhos mesmo com pessoas a nossa volta, muitas delas muito chegadas. A solidão que sentimos quando estamos com os outros é completamente diferente da experiência individual. Posso até afirmar que a solidão “acompanhada” é mais dolorosa, justamente por sentirmos isso próximo a pessoas onde esse sentimento não poderia estar acontecendo. Em um artigo intitulado “ego e arquétipo”, Edward Edinger mostra que o significado da palavra “solitário”, no grego original significa “solteiro” ou “unificado”. Como curiosidade ele cita trecho do Evangelho Gnóstico de Tomás: “..Eu (Jesus) digo isto: quando (uma pessoa) se encontra solitária, estará cheia de luz; mas enquanto se encontra dividida estará cheia de trevas.

 Evidente que essa unificação, que nada mais é do que o autoconhecimento, tem como preço o sofrimento, solidão e culpa. Essa culpa vem justamente do paradigma que diz que só estamos completos ou certos, em meio a outras pessoas. A base desse pensamento errôneo é que não estamos inteiros ou completos por nós mesmos, só com alguém ao nosso lado poderemos nos sentir bem e aceitos por todos. Não tem como esquecer o clamor de Sallie Nichols que, ao falar do arquétipo do Eremita (solitário) diz: “Teremos, acaso, aberrado tanto nosso âmago interior de ser, que só existimos em relação aos outros”?

Sem o tempo para si, nossas projeções em relação às outras pessoas e delas sobre nós, vão aos poucos nos afastando de nossa identidade essencial, nos levando a uma infinidade de concessões para estarmos no grupo, querido e respeitado pelos demais.

Sempre digo a meus clientes que a condição básica de bom relacionamento com outras pessoas é um ótimo relacionamento intrapessoal, ou seja, conviver bem consigo e em solidão. É justamente nos momentos que estamos sós que conseguimos avaliar com mais clareza e calma nossos relacionamentos, o que realmente gostamos e queremos para nossa vida, juntando com entendimento nossos “cacos”.

Porém isso precisa ser equilibrado, já que o extremo de não se conseguir estar com os demais, tendo na solidão uma fuga ou solução para relacionamentos frustrados e mal-resolvidos, está longe de ser saudável. A base de tudo é o ponto central entre estar-se bem só e com os demais.

Quando esse ponto é atingido, não se precisa estar longe das pessoas e de todo o caos reinante, já que no silêncio encontramos nosso cosmos, nossa ordem. Ensina-nos a filosofia Zen que no momento que se atinge a auto-percepção, aceitamos a própria vida, por mais simples que seja, cumprindo nossas tarefas, fazendo o que gostamos e administrando muito bem o que fazemos sem gostar tanto assim.

Difícil? Nem tanto, basta querer, fazendo o necessário para chegar lá!

É evidente que quando uma pessoa consegue esse autoconhecimento ela será mesmo uma solitária, já que toda a multidão que a rodeia continua vagando às cegas pelo mundo, comandada por princípios e normas que não só não escolheu, mas que nem pensa sobre eles. Será um solitário blindado por uma identidade completa, em harmonia interior e exterior.

Tirar momentos para si para se “curtir”, fazendo o que gosta no seu ritmo de tempo, saindo da “massa”, se permitindo ser quem se É em total descompromisso. Essa é uma receita para se por em prática e o resultado será um equilíbrio maior, mais tranquilidade e paz interior; precisa mais do que isso?

Curiosamente, nas etapas da evolução, o Eremita, ou aquele que busca a solidão para encontrar a verdade interior, aparece depois do domínio das forças antagônicas interiores (O Carro) e da justiça em relação a si mesmo e aos demais (Justiça). Logo depois desse retiro voluntário vem a mudança inevitável representada pelo arcano da Roda da Fortuna, mostrando a mudança do caminho na existência de quem se arriscou a buscar-se.

Carl Jung dizia que se fugirmos ao chamado dessa introversão, essencial ao nosso desenvolvimento, poderemos encontrar o isolamento forçado de uma moléstia física ou mental. Precisamos partir e voltar, aprendendo a transitar bem entre esse dois mundos: o interno e o externo.

De alguma forma, penso que esse encontro com nossa verdadeira identidade pode representar, porque não, a “jornada do herói” de Campbell. Sairmos sozinhos, vencermos as dificuldades, o medo da solidão, enfrentando nossos “monstros interiores” para voltarmos mais fortes, como heróis de nós mesmos.

Alguns poucos dias por ano, algumas horas por semana, um tempinho todo dia para estar em harmonia, consciente e verdadeiramente lúcido… Lembre que isso não deve ser algo a ser conquistado, mas é o primeiro passo para qualquer verdadeira conquista!

_________________________________________________________________________________

Como podem observar, nesse artigo não tem uma imagem ilustrativa, já que encontrei enorme dificuldade de achar uma onde alguém estivesse solitário e feliz. Isso mostra o paradigma citado acima. Fica então essa bela frase de Fernando Pessoa, que vale por mil imagens.

Que tal um bom filme?

Nesse semana sugiro um filme que tem muita ligação com vários de nossos artigos. “Tão forte e tão perto” é um filme de atores e conteúdo! Três gerações de atores contam uma estória que mostra que não existe certo nem errado na maneira que interpretamos qualquer acontecimento, basta assumirmos essa versão como verdadeira para nós. Do menino (Tomas Horn) , passando por Tom Hanks e Sandra Bullock e tendo a emocionante participação do veteraníssimo Max Von Sydow (que não precisa dizer nada para transmitir muita emoção), esse filme mostra que não precisamos de efeitos especiais, perseguições e cenas “picantes” para mostrar que o cinema ainda e sempre será um dos melhores meios de nos fazer pensar.

Seja por que caminho for, quando temos um “sentido”, sempre chegamos lá!

Segue abaixo a resenha oficial e o link para o trailer.

 

O trailer mostra o começo da história do pequeno Oskar (Thomas Horn) desde o doloroso sentimento de perda ao poder de cura da autodescoberta, no trágico cenário dos acontecimentos de 11 de setembro.

Em “Tão Forte e Tão Perto”, Oskar Schell, aos 11 anos de idade, é uma criança excepcional: inventor amador, admirador da cultura francesa, pacifista. Depois de encontrar uma misteriosa chave que pertencia a seu pai, que morreu no World Trade Center no 11/09, ele embarca em uma incrível jornada — uma urgente e secreta busca por um segredo pelas cinco regiões de Nova York. Enquanto Oskar vaga pela cidade, ele encontra pessoas de topos os tipos, todos sobreviventes em seus próprios caminhos. Por fim, a jornada de Oskar termina onde começou, mas com o consolo da experiência mais humana de todas: o amor.

Imagem de Amostra do You Tube

Existe “destino”?

encruzilhada1

“Vem por aqui”- dizem-me alguns com olhos doces

Estendendo-me os braços seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há nos meus olhos ironia e cansaço)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

…Não, não vou por aí

Só vou por onde me levam meus próprios passos…

Se, ao que busco saber, nenhum de vós responde,

Por que repetis: “Vem por aqui”?

Prefiro escorregar por becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo,

Foi só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada.

O que mais faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem,

Para eu derrubar meus obstáculos?

Corre, nas vossas veias, sangue velhos dos avós

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o longe e a miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tende canteiros,

Tendes pátrias, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos e sábios.

Eu tenho a minha loucura!

Levanto-a como um facho a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios…

Deus e o diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre deus e o diabo.

Ah, que ninguém me de piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “Vem por aqui!”

A minha vida é um vendaval que se soltou

É uma onda que se levantou

É um átomo a mais que se animou…

Não sei para onde vou

Não sei para aonde vou

Só sei que não vou por aí!

 

José Regis –poeta português

A questão do “destino” sempre foi tema de reflexão, seja para os filósofos, místicos e pensadores de todas as vertentes. Seria nosso “destino” algo traçado ou escrevemos de próprio punho nossos passos pela vida?

A corrente conhecida como “fatalista” afirma que tudo que nos acontece foi programado com o objetivo de nos fazer evoluir e que nossa trajetória, do dia do nascimento até a morte está previamente definida. Esse tipo de pensamento tira de nós o que conhecemos por livre arbítrio, a não ser que, para aceitarmos essa corrente, concordemos que também nossas escolhas de como agir diante do que nos ocorre também está previamente estabelecida. Dessa forma, o processo evolutivo, em termos de avançarmos e termos uma consciência mais clara depende do ritmo que esse destino determinou. Não há nada que possa fazer para alavancar o processo, é assim e pronto!

Se você concorda com isso, não há nada a ser feito e tudo que lhe acontece de bom ou ruim tem por fim leva-lo à evolução, aceite de bom grado, não reclame e, ainda por cima, fique grato, já que a “existência”, Deus, ou seja, lá quem for, está cuidando de tudo que você precisa passar para atingir o aprendizado necessário para sentar-se ao lado do Criador na eternidade.

De outra parte, temos a corrente que defende a tese de que nossa evolução é responsabilidade exclusivamente  pessoal e intransferível. Dessa forma, se ficarmos na “esperança” de que tudo anda por si, não sairemos do jardim da infância evolutivo, repetindo infinitamente os mesmos erros e sofrimentos, seja em uma só vida, como prega o Cristianismo, ou em várias, pela corrente reencarnacionista. Por esse enfoque, precisamos estar atentos a nós mesmos e com uma insatisfação constante, não que nos impeça de sentirmo-nos bem em qualquer estágio da vida, mas que essa inquietude nos leve a sempre estarmos buscando patamares mais elevados. Assim, entra o conhecimento que se adquire em livros, cursos, etc. Isso tudo, evidentemente, somados a mudanças constantes em nosso dia a dia, colocando em prática esses ensinamentos.

Se você prefere essa segunda opção, aceitar a impermanência em todos os aspectos é fundamental, já que suas mudanças também estarão trazendo alterações constantes e todas as suas relações e a instabilidade será constante. Evolução é sinônimo de mudança e, incrivelmente, estamos eternamente buscando que nossas principais ações na vida (trabalho, afetivo e social), estejam em segurança (certeza), o que quer dizer que elas não evoluem, justamente por não mudarem. Como já escrevemos em vários artigos anteriores essa tendência à busca por estabilidade é inerente ao nosso sistema de sobrevivência e não em relação ao desenvolvimento, já que essa palavra, também por si só, esta ligada a transformação constante.

Essa corrente que nos traz a responsabilidade, é muito melhor, já que por nos tornar autores, nos afasta do fatalismo e da resignação sem enfrentamento. Não penso a vida como um teatro em que todos façam papel de coadjuvante!

Ação, reação. Ação consciente, resultado esperado!

Tudo volta então a desembocar na consciência, de estar e buscar um estado permanente de atenção que me permita encaminhar minhas ações de forma lúcida e isso inclui sair dos condicionamentos que recebi, para ter resultados diferentes, escolhidos pelas ações que tomei conscientemente.

Aliás, sabemos que todos fomos e somos condicionados constantemente e só saindo disso, através da plena atenção é que conseguiremos assumir a direção do filme que contará nossa história. Também é importante lembrar que se tiver “continuação” seguiremos de onde paramos, por isso, de qualquer forma, ser responsável é fundamental.

Sempre é bom falarmos em condicionamentos. Às vezes penso que as crianças deveriam perguntar para as pessoas que as educam se elas são e foram felizes. Se a resposta for um “não”, “mais ou menos”, “a vida nunca é fácil”, etc, caberá sempre perguntar se não deu certo para ela, é porque essa fórmula já demonstrou não ser muito boa…

Leia com muita atenção esse poema que ilustra nosso artigo!

Saia dos caminhos conhecidos e que não levaram nem quem os indicam à plenitude! Arrisque-se! Ter medo é normal, mas se ficar onde está certamente esse filme pode não ter um final feliz, e será só responsabilidade sua!