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Lá e cá

Praticar Yoga na fifth Avenue ou em outro lugar qualquer ao alcance do telefone é uma mentira espiritual.”

                                        Carl G. Jung – Psicologia e Religião Oriental  – 1963

                                                                                                                                                                         yoga executivo

O que fez Jung ir além de Freud, em minha opinião, foi sua busca pela cultura e religião oriental. Lá ele formulou toda sua teoria que, a cada dia que passa se mantém atual e estabelece os pontos de divergência e convergência entre o homem que habita os dois lados do planeta.

Ele defende a ideia de que o homem oriental é tipicamente um introvertido, já o ocidental extrovertido e, por aí, começa toda uma diferença cultural que, hoje em dia, por modismo tentamos equiparar. Essa diferença também torna-se importante quando falamos da religião onde diz: “ O ocidente cristão considera o homem inteiramente dependente da graça de Deus ou da Igreja, na sua qualidade de instrumento terreno exclusivo da obra da redenção sancionada por Deus. O Oriente, pelo contrário, sublinha o fato de que o homem é a única causa eficiente de sua evolução superior; o Oriente, com efeito, acredita na auto-redenção”.

Também é importante ressaltar que o ponto de vista religioso, via de regra, sempre representará a atitude psicológica do sujeito, mesmo para quem não pratica a religião, já que essa influência se dá na cultura e costumes. Assim, no ocidente somos cristãos, queiramos ou não.

Dessa forma, nosso jeito de viver nos tempos atuais está nos adoecendo cada vez mais, e como é normal oscilarmos de um extremo a outro, buscamos cada vez mais no outro lado (oriente) a solução para a nossa angústia. Buscamos na Yoga, medicina ou alimentação a calma que imaginamos no homem oriental. Também é verdade o fato de que, antes do processo de globalização, algumas doenças tipicamente ocidentais, principalmente psicológicas, eram desconhecidas no oriente. Por pensar a vida diferente, o resultado só pode ser outro.

Quando Jung percebeu essa busca, já na década de 60 avisou: “Se nos apropriarmos diretamente dessas coisas do Oriente, teremos de ceder nossa capacidade ocidental de conquista…teremos aprendido alguma coisa com o Oriente no dia em que entendermos que nossa alma possui em si riquezas suficientes que nos dispensam fecunda-la com elementos tomados de fora, e quando nos sentirmos capazes de desenvolver-nos por nossos próprios meios, com ou sem a graça de Deus.”

Assim, ele mostra essa diferença com a qual precisamos nos entender e chegar a um acordo; ou somos ocidentais, vivendo como tal e esperando a “graça divina” ou nos assumimos com uma autonomia evolutiva que nos foi negada desde a primeira missa.

Nosso modo de viver, social e competitivo não se adequam em nada à cultura oriental. Como ressalta Jung, para a medicina de cá, a introversão oriental é considerada até uma patologia.

Assim, não há nada de errado em introduzir toda uma prática oriental em nossa vida, desde que entendamos que o resultado nunca será o mesmo, pela diferença cultural. Como bem ressalta Kierkegaard, estamos sempre em dívida com Deus aqui no ocidente. Isso se dá pela impossibilidade de conseguirmos cumprir os mandamentos e os pecados capitais por sermos, simplesmente, humanos. Esse débito (culpa) nos impossibilita da vivência da experiência religiosa, e assim ficamos parados no mesmo lugar. Como temos algo em nós que nos pede essa evolução interior, estamos vendo no oriente nossa saída. Viajamos para a Índia e achamos tudo lindo, a cultura, a religiosidade, a sujeira das ruas e o caos do trânsito.

Junto com as fotos diante dos templos em postura de lótus, também está a preocupação com as contas a pagar quando voltarmos da viagem. Por aqui, convivemos com um tipo de religião que, como diz Jung: “A fé implica, potencialmente, um sacrificium intellectus, desde que o intelecto exista para ser sacrificado”. Assim, esse modo de viver traz um paradoxo que, se não for resolvido, impede que o que se busca na cultura oriental possa ser encontrado.

Tudo que importamos de lá está dentro de um contexto de milhares de anos. Aqui, somos educados, desde a infância, para sermos agressivos e competidores, enquanto a Índia, por exemplo, foi dominada por um povo que tinha tamanho e população infinitamente menor. Não estou julgando quem está certo ou errado, apenas mostrando que são diametralmente opostos e que o mais possível é uma aproximação, um meio termo, que inclua práticas sem a utopia de nos transformarmos em quem não temos como ser.

Quando buscamos a paz em um retiro de meditação, por exemplo, nos são oferecidas todas as condições como um lugar bonito em contato com a natureza, silêncio e uma alimentação saudável. Três dias depois, caímos na correria, na música alta do vizinho, no cheiro de fumaça e um fast food no almoço, pois estamos atrasados para um compromisso profissional.

Portanto, não há nada de errado em experimentarmos tudo isso, mas precisamos ter a consciência de saber o que podemos esperar como resultado. Somos bombardeados covardemente pela mídia para comprarmos coisas o tempo todo e a lutarmos pela sobrevivência nessa sociedade capitalista e extremamente competitiva. Dá para amar o concorrente à promoção na empresa?

Do lado de cá, jogamos tudo para fora, seja em Deus, no destino ou na boa ou má sorte. No oriente tudo está dentro de nós, nas ilusões das quais precisamos nos desvencilhar para enxergarmos a verdade. Diferenças como essas são irreconciliáveis e não será passando um mês se banhando no Ganges ou ficando de cabeça para baixo em um ásana que encontraremos esse equilíbrio.

Precisamos mudar o jeito não só como vivemos, mas como pensamos e colocando alguns pontos, como quem tempera uma comida, em nossas ações para podermos trazer um pouco do Oriente para nossa vida por aqui. Tudo dentro do que é possível, só isso, sem grandes expectativas.

Assim, Jung encerra o pensamento com uma sentença, atualíssima, mais de meio século depois; “Mas é impossível ser um bom cristão na fé, na moral e no desempenho intelectual e, ao mesmo tempo, praticar honestamente a Yoga…ou seja: o homem ocidental não é capaz de se desligar tão facilmente de sua história, com sua memória de pernas curtas. Ele possui a história como que no sangue. Não aconselharia ninguém a ocupar-se com a Yoga sem uma cuidadosa análise de suas reações inconscientes. Que sentido tem imitar um yogue, se o lado obscuro do homem continua tão cristão e medieval quanto antes?”

Um Buda, não é possível no Ocidente, mas um filósofo sim.

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As partes em itálico são transcrições do livro.

A Yoga aqui é usada como uma metáfora da cultura oriental no ocidente e no sentido da sua prática mais profunda, como uma filosofia. Sou particularmente favorável a sua prática e a incentivo, enquanto essa busca de equilíbrio.

C.G. Jung Psicologia e Religião Oriental . ed. Círculo do Livro 1989.

Destino escolhido

“O colonialismo visível te mutila sem disfarce: te proíbe de dizer, te proíbe de fazer, te proíbe de ser.

 O colonialismo invisível, por sua vez, te convence de que a servidão é um destino, e a impotência a tua natureza: te convence de que não se pode dizer, não se pode fazer, não se pode ser”.

                                                   Eduardo Galeano – O livro dos abraços

                                                                                                                                                                              homem robo

Lutar contra o colonialismo visível é fácil, ele é escrachado e reprime com a força das armas, na maioria das vezes. Já vivemos isso aqui no Brasil e os com mais de 50 perceberam e os mais velhos sentiram na pele. A ordem é  concordar e discordar é ser do contra, não amar, e não querer o bem. Criticar nem pensar e pessoas assim merecem morrer. Recentemente na Coréia do Norte, alguns foram executados por terem sido descobertos vendo novela, coisa que o ditador de plantão não gosta e não acha que seja bom, já que “aliena” as pessoas.

Sempre temos grandes inteligências, doentes é claro, que dizem saber o que é bom para todas as pessoas. São eles que, ao longo dos tempos foram responsáveis pelo nosso super desenvolvimento tecnológico e um quase inexistente desenvolvimento da consciência. Pessoas que elevam sua percepção atingem uma liberdade impossível de ser tirada por quem quer que seja e morrer para um homem livre é mero detalhe, como nos mostra a biografia de Sócrates e Mansoor. Poderíamos falar de tantos outros que fizeram da sua liberdade de pensar, querer e Ser sua vida, atingindo assim a eternidade possível. Dos outros, dos que aprisionam, as lembranças são só as do mal que fizeram e se tornam exemplos do que de pior um ser humano pode fazer com sua inteligência e sensibilidade às avessas.

Mas o colonialismo moderno, fora essas bizarras exceções é mais sutil e, portanto, eficiente. Ele vem pela cultura, pela mídia e pelos olhares de reprovação dos condicionados que não suportam ver o livre ou aspirante à liberdade. Existe uma força terrível que nos impulsiona para voltar ao cativeiro da inconsciência, criticando e fazendo “do que os outros vão pensar” uma chantagem tão grave como se faz com as crianças, quando dizemos que se elas não fizerem o que é “certo” nos farão chorar ou entristecer.

Basta um mínimo de percepção para sentir-se um peixe fora d’agua em meio ao pensamento comum, das metas iguais e das avaliações rasas sobre quem é bom, certo ou referência. Vivemos uma época da vitimização, seja do governo, do destino ou de deus e isso é tão fácil de entender; as pessoas cumprem seu script cultural e esperam, é claro, os resultados. Essa recompensa é sentir-se bem, respeitado e admirado pelos outros, nem que seja por ter um corpo perfeito à custa de privações e mutilações ou alguns bens de consumo, cada vez mais perecíveis pela moda, que são a prova de uma vida de sucesso.

Essa cultura sempre leva aos extremos, onde o sofrimento é inevitável. Negar parte de qualquer coisa é percebê-la pela metade e com a vida esse conceito é mais válido ainda. O “caminho” é do meio, composto por tudo sem nada excluir.

Talvez esses bilhões de dólares investidos por homens e mulheres para manterem sua juventude, criando seres caricatos, pois nada é mais estranho do que uma pessoa de 40  parecendo-se como uma de 20, pode ser uma metáfora de se ganhar mais algum tempo para que a vida faça sentido.

O colonialismo invisível tem feito vítimas em progressão geométrica e a verdadeira epidemia de doenças emocionais como a depressão e a ansiedade é a prova mais cabal disso. Assim, comer, beber, drogar-se e consumir vira o anestésico possível para se continuar no dia a dia absurdo e sem conteúdo. Somos convidados, pelo pensamento dominante, a buscarmos uma resposta externa à evolução interna e é por isso que a angústia coletiva aumenta como a temperatura de uma chaleira no fogo. A ebulição que estamos vivendo está nas estatísticas de cada vez mais casos de doenças originadas desses “escapes” citados acima.

Ninguém se importa, afinal o importante é gerar riqueza, comprar e buscar ser visto como alguém bem-sucedido. Na contra mão dessa maneira de pensar(?), as pessoas percebendo que os remédios, as roupas, músculos, carros, eletrônicos e viagens apenas as anestesiam, começam a buscar alternativas. O problema é que essa busca não é movida pelo amadurecimento de sua percepção, mas pelo aumento do sofrimento e angústia mental que nada faz parar. E quando isso acontece é o de sempre: uma pequena melhora para poder voltar a ser o que era, como se o problema fosse a pessoa e não o contexto onde ela está inserida.

Era melhor que tivéssemos tanques na rua ou uma vigilância nos moldes de Orwell no ótimo “1984”. Nesses momentos, pelo menos aqui no Brasil, tivemos Chico Buarque, Caetano Veloso  e Elis Regina (para citar poucos) a cantar os poemas que nos convidavam a reagir contra a prisão de pensar e ser. O modo “invisível” é tão mais eficiente, pois se traveste de liberdade e o que temos para ouvir na grande massa é o tipo de arte sexualizada que nos retrocede à adolescência e aos prazeres menos sofisticados ou inteligentes.

Ouça, por exemplo, as “dez mais” da parada de sucessos e analise as letras para entender o nível onde estamos. Ir para frente não é automático. Natural e sem esforço é retroceder.

A alienação hoje é muito mais grave, já que é o resultado do que somos, por regressão, diferente do que é claramente imposto goela abaixo.

No final, é como sempre; precisamos chegar ao fundo do poço para percebermos que isso não funciona. Mas como se sabe, as massas têm na ignorância sua natureza e são apenas individualidades, lá e cá, que se elevam acima do comum. Mas assim que isso acontece, vem o medo da solidão e a força que traz para baixo, questionando se a pessoa está sã por pensar diferente.

A revolução que se pede hoje contra a ditadura do status quo, não pede armas ou guerrilhas, mas uma atitude nova de resistência lúcida e manter-se firme contra a correnteza.

Pense e se repense. Avalie para onde o caminho que está sendo trilhado pode levar e qual o final que cada um de nós está escrevendo para sua história.

Não há como alegar a ignorância da lei. Evolutivamente pagamos pelo que fizemos e não fizemos.

Nada está escrito, mas sendo escrito.

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Voltamos em Janeiro. Um ótimo período de descanso e aproveite para ler os textos e comentá-los à vontade, bem como as crônicas que escrevo na Folha SC.

O sacrifício final

“ O homem precisa aprender a sacrificar seu sofrimento…abdicamos do que nos faz bem em prol do sofrimento…o homem faz isso por pensar que o sofrimento é enviado por Deus.

P.D. Ouspensky

 

sofrendo

 

Esse é 100º artigo postado, e, justamente por isso, quero enfatizar um assunto que tem de alguma forma permeado grande parte dos textos que é o sofrimento.

Um dos motivos mais comuns que o ser humano tem para valorizar o sofrimento e fazer dele algo útil (se é que isso possa ser lógico ou possível) vem da cultura cristã. Foi-nos “ensinado” que o sofrimento, ou uma palavra similar “sacrifício” tem o poder de nos purificar, nos aproximando de Deus.

Isso traz consigo uma atitude inconsciente que nos fala o seguinte; se não estou sofrendo ou fazendo algum sacrifício, não estou me “purificando” ou me aproximando o suficiente de Deus e ser recompensado depois de minha morte. Assim, estar de bem com a vida e sem preocupações passa ser uma coisa que faz com que as pessoas se sintam inadequadas, estranhas, como se algo estivesse errado. Nesse momento, não podendo perder tempo, torno algum acontecimento rotineiro ou insignificante fonte de grandes preocupações. Dessa forma, volto a me preocupar ou estar me sacrificando por algo e meu processo de “limpeza” prossegue.

Se você se perguntar ou for fundo nessa história, verá que sua raiz está na crucificação de Jesus, do qual eu e você somos culpados (já nascemos assim) precisando sofrer bastante para expiar nossas culpas.

Mas na verdade, isso é uma forma de dominação muito bem pensada. Assim, ser explorado, por exemplo, é algo com que tenho que me conformar, até mesmo agradecer inconscientemente, já que ajuda no processo de purificação de todas as coisas ruins que nasceram comigo.

De sofrimento velho ou novo, vou vivendo (será?) a vida, pensando que as coisas desagradáveis que me sucedem sejam obra divina, que sabe o que faz, com a finalidade de me encaminhar ao paraíso.

Como se já não bastasse tudo isso, temos um problema ou um “efeito colateral” desse modo de pensar que está incrustrado profundamente em nós. Como já escrevi anteriormente, as emoções se manifestam em nosso corpo pela liberação de hormônios, o que as torna algo que, pela repetição, nos faz dependentes químicos. Lembre que nos viciamos em emoções e por isso as mantemos por uma vida toda, justamente por criarmos uma dependência desse respectivo hormônio que, por uso constante, passa a ser necessário. Em outras palavras: ser “eu” mesmo, ou a minha identidade passa a incluir essa emoção ou sofrimento. Depois de algum tempo passo a “precisar” dela e consciente ou inconscientemente crio as condições para que ela aconteça.

Espero que agora seja possível entender o motivo de sempre estarmos preocupados por alguma coisa. Não é à toa que muitas vezes você deve ter notado e até expressado para algum amigo ou familiar que o que o está preocupando é algo realmente pouco importante, mas não entende o motivo de esse assunto “pequeno” estar se tornando grande.

É vício mesmo, como o de qualquer droga, álcool ou uma compulsão qualquer.

Mas, como quem pensou tudo isso de bobo não tem nada, além desse paradigma ridículo de que o sofrimento faz bem, para nos deixar sem saída, incluiu um outro pensamento que qualquer criança de cinco anos já relata ter ouvido de seus pais, o que garante a continuidade do “sistema”: Felicidade dura pouco!

Assim, de geração em geração, vamos sofrendo, sendo feitos de trouxas, achando que estamos fazendo grande coisa. Pense nas penitências, promessas que incluem as mais várias formas de privações e tudo mais.

A grande desilusão com as religiões mais ortodoxas vem justamente disso; preocupo-me por tudo, me sacrifico e como pode acontecer algo ruim comigo? Eu não mereço!

Daí, você se sente abandonado por Deus e vira um descrente ou faz o mais fácil; troca de religião, que essa nova sim, garantirá que todo o sofrimento terá um resultado e valerá a pena!

Quer saber? Tudo isso termina virando uma negociata divina. Faço e cumpro tudo e Deus me garante que nada de ruim me acontecerá.

Não vai dar certo!

Portanto caro leitor, se você não consegue parar de sofrer, de estar sempre preocupado por algo, temendo uma desgraça que pode se abater a qualquer momento por ser um pecador contumaz, mas quer se libertar de tudo isso, assuma seu vício de qual foste vítima e toma a única decisão possível:

SE ABSTENHA!

Não se cura nenhum vício sem a abstenção da “droga” não é mesmo?

Sei como será difícil, um “sacrifício” mesmo. Procure não se sentir culpado ou responsável por nada que não seja seu, se divirta mais e viva mais sua vida. Vai que tudo isso que  acreditou a vida inteira não passa de uma grande besteira, uma forma de condicioná-lo. Se determine, pelo menos, a só se preocupar com situações realmente importantes e que tenha uma condição: só dependa de você mesmo o resultado. Se não for, faça sua parte e esqueça.

Vai que, a única coisa que garanta seu futuro depois da morte seja um passaporte: a vida que foi vivida!

Afinal, se o carma existe mesmo ele funciona assim: você sofreu muito então é porque gosta e merece continuar. Se viveu bem, trabalhou, se divertiu e curtiu tudo de bom que a vida oferece, também merece continuar. Pensando de outro jeito: o que você espera (vida futura) se plantou (na vida presente) um pé de pitanga?

Mas essa mudança passa pelo corpo que precisa se acostumar a ter cada vez menos hormônios de sofrimento na sua corrente sanguínea. É com o tempo e novas atitudes que se chega lá!

Por falar em tempo, quando eu tiver mais, seguindo o exemplo dos AA (alcoólicos anônimos) vou crias o SA (sofredores anônimos).

As reuniões acontecerão nos estádios da copa e serão transmitidas em tempo real via televisão e internet para que todos os inscritos no “clube” possam participar. Tenho certeza que você se orgulhará de usar o botom que ganhará depois de algum tempo de abstinência do vício por ter ficado uma semana sem sofrer, um mês…imagine!!!

 

medalhas

 

Que seu último sacrifício (sacro ofício ou trabalho sagrado) seja o de sacrificar seu sofrimento.

 

Verdade e Mentira

“Quando um homem pisa no pé de um estranho

 desculpa-se educadamente.

 Se um irmão mais velho

 pisa no pé do mais moço

 Diz: “desculpe” e fica por isso mesmo.

 Quando um pai pisa no pé do filho,

 não lhe diz nada.

 A mais perfeita polidez

 está livre de qualquer formalidade.

 A perfeita conduta

 está livre de preocupação.

 A perfeita sabedoria não é premeditada.

 O perfeito amor

 dispensa demonstrações.

A perfeita sinceridade não oferece

 nenhuma garantia.”

                                              Chuang Tsu

                                                                                                                                                         mentira

O Taoísmo e o Zen têm ganhado cada vez mais adeptos no ocidente.  Dispensam escrituras sagradas e se dedicam mais a meditação deixando outras práticas como secundárias. Não se preocupam em falar de nenhum deus e buscam suplantar a mente, praticamente desprezando-a. Mas isso só é mesmo possível pela observação e entendimento de seu funcionamento. A mente é astuta, trabalha com medo, planejamento e busca tirar sempre o melhor proveito de tudo. Aspira à segurança, respeito e por isso é ardilosa.

Dificilmente é possível ser espontâneo em uma sociedade que vive pelos ditames da mente. Tudo precisa ser “pensado” e isso significa a busca de  uma estratégia para atingir o objetivo, seja qual for. A mente e a sociedade não gostam de surpresas. Tudo precisa ser conforme se espera, segundo as normas. Assim, as pessoas mais sinceras são as crianças e por isso não são levadas muito a serio. Sua sinceridade é tratada como se fossem ofensas ditas por quem não sabe o que diz. Deve ser mesmo por isso que em alguns lugares não devemos levar crianças. Elas são perigosas porque dizem o que pensam – a verdade – e isso é mesmo constrangedor.

Passados alguns anos, depois que sua inocência e sinceridade são esmagadas pela educação (domesticação) elas já estão prontas para conviver em sociedade, ou seja, já prenderam a mentir e a fingir como os demais.

Como já escrevi em artigo anterior, é praticamente impossível conviver sem mentir. Deve ser por isso que em determinados momentos da vida, quando depois de termos cumprido tudo que nos pediram e ensinaram e o sofrimento continua, alguns rompem com tudo e querem abrir mão de toda sua história em busca de uma mudança. Uma mudança que proporcione uma vida mais simples ou sincera.

As pessoas precisam se embriagar ou se deixarem ser levadas ao extremo para se permitirem dizer o que pensam e isso as sufoca, e as verdades saem aos gritos. Depois, a mente e o social voltam, pelo medo das consequências, a retomar o controle e os pedidos de desculpas vem na busca de, em primeiro lugar, dizer que as “verdades” eram mentiras ditas em momentos de destempero.

Para grandes Mestres como Chuang Tsu ser sincero e espontâneo é um pontos mais altos que se pode chegar em termos de evolução espiritual. E isso é muito interessante; ser espiritual é ser verdadeiro.

Osho diz em seu livro “O barco Vazio”:  até hoje, mais de dois mil anos depois, as “técnicas” cristãs não conseguiram que nenhum outro Jesus aparecesse. Permito-me completar, lembrando que ninguém que tenha seguidos preceitos de Sidarta Gautama tenha se tornado um novo Buda, passados dois mil e seiscentos anos de sua morte.

E, se formos ver bem, no cristianismo, por exemplo, todos ou a grande maioria dos mandamentos ou do que se considera “pecados” graves ou capitais, são coisas que não podemos fazer. Toda essa cultura baseada no “não” é limitante, tirando, portanto, a espontaneidade das pessoas.

Cabe colocar, que entendo a necessidade de limitar as ações das pessoas, já que isso tem o objetivo de criar condições de vivermos em grupo e evitar que a própria raça corra perigo. Infelizmente, devido ao precário ou quase inexistente desenvolvimento da consciência, precisamos de leis e punições, sejam dos homens ou de algum deus para nos mantermos minimamente na linha. O problema é que isso se torna necessário porque estamos sempre reprimidos, ou seja, existe uma energia que precisa ser controlada.

E aí encontramos toda contradição, já que, para ser espontâneo não posso planejar. Não temos a experiência de deixar que nossos pensamentos se tornem ações. Tudo que nos seja natural são barrados pelos conceitos proibitivos a que fomos submetidos desde a infância.

Já em seu livro* reflexivo, praticamente indispensável para o entendimento do desenvolvimento, Ernest Becker lembra: dissemos que o estilo de vida de uma pessoa é uma mentira vital…é uma desonestidade necessária e básica a cerca da sua própria pessoa e de toda sua situação. Não queremos admitir que somos fundamentalmente desonestos no que se refere a realidade, que não controlamos realmente nossas vidas. Não queremos admitir que não ficamos sozinhos, que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um certo sistemas de ideias e poderes no qual estamos mergulhados e que nos sustenta.

Todas as relações que estabelecemos tem o objetivo de obtermos resultados, que nosso plano dê certo, e tenhamos sucesso no que quer que seja. Começamos isso na infância e essa é a descoberta, junto com o inconsciente, que torna Freud um marco, apesar de outros conceitos que já se mostraram insuficientes e pouco úteis em nosso tempo.

Dessa forma, vamos à medida que crescemos  nos anulando cada vez mais. Não é  atoa que os números de suicídios, alcoolismo e drogas estejam se multiplicando ano a ano no mundo. Isso pode ser interpretado pela perda da originalidade ou da sinceridade, como diz Chuang Tsu. Por isso, para entendermos seu sutra, precisamos sair da superfície e buscar sua enorme profundidade.

Escolhemos com cuidado as pessoas que pagam o preço de nossa anulação. São os filhos, empregados, pais ou aquele cônjuge ou amigo que sabemos não nos penalizarão com seu abandono. Sobre eles projetamos nossa ira e frustração pela perda de nossa naturalidade, culpando-os pelo nosso próprio desconhecimento, pelo fato de sermos obrigados mentir desde que nascemos, praticamente.

A mente medrosa e insegura tem medo de morrer e nos reduz a algo que apodrecerá. Do outro lado está o homem religioso de Jung, capaz de estabelecer um entendimento superior sobre essa triste realidade, a que parte de nós está sujeita; a de morrer e virar comida de vermes (cadáver). O problema é justamente esse, para vencer essa morte da carne precisamos transcender e os “pacotes prontos” das religiões já se mostram insuficientes. Aqui, encontramos a beleza dos ensinamentos de Sidarta, de aceitarmos as mudanças, de nos desapegarmos (não é afastamento) e pararmos de achar que algo que possamos ter nos salvará do nosso triste destino enquanto habitantes de um corpo perecível.

 Obviamente somos mais, muito mais, mas isso só é possível com a “sinceridade” de Chang Tsu, que, por ser honesta não pode oferecer nenhuma garantia. Garantir significa dizer que não ocorrerão mudanças. Impossível para a sinceridade!

A mente precisa dessa garantia, dos contratos e das promessas. Isso é ou não, outra definição para a palavra MEDO?

*”A negação da morte” – Ernest Becker ed. Record

“ O barco Vazio” – Osho ed. Cultrix

Mentalidade doentia

“Mentes brilhantes provocam ações que causam sofrimento e dor. É preciso, também, educar os corações”.

                                               Dalai Lama, 1999

O ser humano ao longo da história tem sido educado (condicionado) pelo  paradigma da escassez. Quem de nós não ouviu o que nossos antepassados sempre disseram para seus filhos, que depois disseram para nós:

 hipocrisia

“Dinheiro não nasce em árvores!”

“Não acho dinheiro na rua”

“A vida não é fácil”

E tantas outras frases que impregnam nossa maneira de ver o mundo de forma limitante. Esse conceito de miséria traz sérias consequências, afinal, se manifesta na forma como vivemos, nos relacionamos, administramos o tempo e até mesmo como tratamos o planeta. Nossa exterioridade é reflexo do que pensamos.

Já que, dentro dessa mentalidade,  tudo é escasso, significa que vai faltar, então preciso cuidar primeiro de mim. Logo, pela mesma escassez, preciso competir, com isso, criam-se padrões de divisões sociais onde há vencedores e perdedores, ou seja, a exclusão. Também, se vai faltar, preciso acumular e isso leva ao consumo exacerbado, o que significa que vai sobrar para mim e faltar para o outro. Parece básico, mas na verdade o que está por trás da ambição é o medo da escassez.

Esse círculo vicioso da miséria tem como resultado o processo de violência instaurado hoje, não só entre países, mas também na porta de nossas casas. Com isso sempre desconfiamos das pessoas e precisamos de muita atenção para não sermos “passados para trás”, ou seja, alguém quer tirar vantagem e sairei perdendo. Será?

Pode ser conveniente lembrar a oração mais famosa do cristianismo que nos convida a pedir apenas o “pão que nos dai hoje”, sem a necessidade exagerada de ter tanto pão que nem conseguirei comer. Quero deixar claro que não sou contra qualquer tipo de poupança ou investimento, mas falo aqui de uma questão conceitual de como vive e pensa  a sociedade.

Precisamos mudar o paradigma da escassez que gera medo e sofrimento. Isso significa que preciso parar de pensar de forma pobre e medrosa. Se assim fosse, em muitas  áreas de atuação não poderiam formar novos profissionais, já que o mercado estaria esgotado. O que vemos é que quem é bom no que faz e tem talento sempre consegue um bom lugar ao sol e prospera. Portanto a escassez não existe!

Constam nos livros bíblicos, que Moisés levou quarenta anos para levar seu povo que era escravo no Egito para a terra prometida. Ocorre que se observamos em um mapa, temos um trecho de poucos quilômetros que poderiam ser percorridos em alguns dias apenas. Isso é a representação simbólica da mudança de mentalidade. Afinal, o povo que ele levava à terra prometida era composto de pessoas acostumadas à escravidão, ao sofrimento e escassez. Por isso esse tempo de quarenta anos (uma metáfora, já que o número quatro está ligado a uma mudança de ciclo), significou que nenhum dos que saiu do Egito chegou à terra prometida. Essa era a condição para ser entendido quando disse: “O Manah vem dos céus e não haverá escassez”. Precisava ser outra geração para sua mensagem poder ser não só absorvida, mas vivenciada. Já que os filhos dos escravos não tinham vivido a escravidão, não estava neles essa ideia de que sofrer e passar dificuldades fosse normal.

Em outro momento bíblico, quando Jesus fez a “multiplicação dos pães”, foi uma lição de divisão e solidariedade. Quando ele disse que haveria o suficiente para todos, que não se preocupassem, cada um pegou apenas o que necessitava, sem ganância nem egoísmo e a quantidade existente foi satisfatória.  Dessa forma, o verdadeiro milagre não foi “multiplicar” o alimento, foi a mudança de paradigma, da escassez para a abundância, ou se preferirem, de perder-se o medo de que faltaria alimento. Nunca me canso de repetir que a necessidade de acumulação sempre tem como motivação o medo, mas no fim o medo passa a ser outro: de perder o que se acumulou.

Uma mentalidade mais saudável pode nos levar  a uma sociedade pacífica, muito menos violenta e dividida, mas para isso será necessário mudar como pensamos o que seja, afinal, viver. Isso é possível? A resposta pode ser “sim” se for uma atitude individual, que pelo poder do exemplo pode multiplicar-se, mas será “não”, se esperarmos essa mudança de pensamento venha pelo status quo, afinal isso mudaria o sistema de competição que alimenta todo o mercado de produção e acumulação que experimentamos.

A cultura dominante, devido a essa mentalidade de escassez, se estrutura ao redor da vontade de dominação da natureza (riquezas), dos outros povos e do mercado. Essa é a lógica que criou a cultura do medo e da guerra, modelo antigo, que desenvolve cada mais tecnologia, separando o mundo em dois: os que podem usufruir e os excluídos e que precisam lutar, usando bons e maus métodos para continuar a sobreviver. Enquanto isso, temos armamentos de última geração que podem destruir o mundo centenas de vezes e cada vez mais pessoas vivendo em imensa miséria.

Leonardo Boff nos mostra com clareza essa situação quando diz: “A manutenção desse modelo nos levará em pouco tempo, a uma divisão cada vez mais abissal entre ricos e pobres, a quem tem acesso e não tem.  Surgirá então uma ruptura biológica na espécie humana, uns vivendo mais, com mais saúde física e inteligência e outra parcela, a maioria, vivendo menos, fisicamente debilitada e sem educação. O resultado será a tragédia moral da exclusão aceita, pelo sentimento de dessemelhança, que já conhecemos pelas discriminações raciais, só que agora, muito mais do que antes,  entre ricos e pobres. Os primeiros (ricos), livres para a violência do desprezo de usufruir riquezas e do avanço tecnológico sem solidariedade, e os outros, livres também, mas para se rebelarem sob todas as formas de violência, como já acontece hoje”.

Vemos um planeta que está se esgotando pela ganância e morreremos todos. É simplesmente inacreditável que o homem ainda se veja à parte do planeta, como um ente separado. A Terra (gaia) é um ser vivo e fazemos parte dela. Os rios e mares são o sangue, as florestas os pulmões e nós, seres “humanos” seu cérebro. Como nosso pensamento está doente estamos matando o corpo. As células de câncer querem crescer, mesmo que isso as leve a morte também, por isso são uma doença.

Dos mais de 3.000 anos de história da humanidade que podemos datar, praticamente em todos presenciamos povos em guerra. Se observarmos bem, veremos que todos os países em suas festas nacionais, a grande maioria de seus heróis e monumentos das praças são de heróis de guerra, ou seja, onde comemoramos conquistas territoriais, e, consequentemente, muitas mortes do “inimigo”.  Como bem diz Maurício Andrés Ribeiro: “Nessa cultura, o militar, o materialista o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. É evidente que nesses processos de socialização formal e informal, a cultura da violência não cria condições para uma cultura de paz”. Estamos há milhares de anos em conflito interno, mas é bem mais fácil projetá-lo no “outro” que vive diferente ou que tem um deus que não combina com o meu.

Ainda vivemos uma educação  patriarcal (masculina) que criou instituições assentadas sobre mecanismos de opressão como o Estado, o exército, a guerra e meios de produção vinculados à destruição da natureza. Um dos filósofos mais famosos da história, Francis Bacon em momento de rara infelicidade (ou porque não foi devidamente entendido), disse que deveríamos submeter a natureza ao nosso domínio. Hoje, nos invernos e verões rigorosos, no ar sem qualidade, na escassez de água, para não estender demais, são o pagamentos que todos, enquanto carma coletivo, estamos assumindo pela ignorância de “técnicos e especialistas” que esquecem a mais elementar verdade: não somos mais do que a natureza a ponto de dominá-la, mas parte dela e deveríamos nos esforçar para entende-la.

Pense que essa maneira doentia de viver não se aplica a nenhum lugar longínquo ou a uma profecia, mas já faz parte do dia a dia de todos nós. E o pior, vamos nos acostumando e, como tudo que se repete, vira “normal”.

 Afinal, como já nos ensinou Sua Santidade o Dalai Lama, a educação voltada somente para a mente ao longo da história da humanidade é um sistema que teve como resultado ações que significaram milhões de mortes, misérias, sofrimento, dor e depredação ambiental. Precisamos entender que educar a mente é  importante, mas  educar nossos corações é a única solução.

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Fragmentos de discursos de: Leonardo Boff, Dalai Lama, Maurício Andrés Ribeiro que constam do livro “ A paz como Caminho” tendo Dulce Magalhães como organizadora editado pela Qualitymark, com o patrocínio da Unipaz.