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Bom tempero

Crônica publicada na FolhaSC em 26 de Janeiro de 2016

O grande dramaturgo e cronista brasileiro Nelson Rodrigues foi quem mais escancarou nossas mazelas nos seus personagens. Em um deles, falando um vizinho da infância, dizia que o homem era um santo. Nunca soubera de alguma má ação do rapaz e descrevia que “ele caminhava com passarinhos nos ombros”. Quando casou, depois de algum tempo, sua esposa teria dito: “Eu queria um marido, não um santo. Se você não arrumar algum defeito vou me separar”.

Buscamos nos tornarmos pessoas cada vez melhores e isso, na nossa concepção, só chegará quando extinguirmos ou minimizarmos nossos defeitos. A esposa, desiludida com a perfeição do marido, nos mostra que alguém perfeito deve ser muito chato.

Nossos defeitos são na verdade nosso melhor tempero e os mais acentuados são os que nos aproximam e afastam das pessoas. Uma passada pela história mostra que muitos dos grandes vitoriosos só se tornaram conhecidos e admirados por estarem longe da perfeição. Ser totalmente bom traz uma sensação de assepsia humana, assim como uma sopa de hospital. Nutre, dizem que faz bem, mas, convenhamos, não tem graça nenhuma!

Na mesa, onde o que faz mal nos enche de prazer e culpa por nos fazer gulosos, mostra  que o bom e gostoso está muito ligado ao erro ou pecado.

Se pensarmos no orgulho, que, segundo alguns,  é o primeiro dos pecados capitais, fica um pouco misturado com autoconfiança e a certeza que os sonhos serão possíveis. Grandes vencedores sempre relatam que apostaram tudo em suas ideias e nem pensaram nas consequências. Quem pensa demais, normalmente é vencido pela dúvida e questiono se a prudência é mesmo uma virtude. Um mundo de pessoas cuidadosas e que pensam demais seria sem novidades. Olha quanto tempo demorou para a geladeira deixar de ser branca!

Flertamos com o mal ou errado todo tempo, nas diversas formas de arte. Ouvimos rock fazendo aquele sinal com a mão e as estampas de caveiras, demônios e bruxas não saem de moda. Somos uma agradável mistura de anjo e demônio, e expressamos ora um, ora outro, no espaço de poucas horas.

Ah, se nossos pensamentos pudessem ser ouvidos…

Temos a mania de comentar nossos defeitos e minimizar nossas qualidades como se elas fossem nossa obrigação. O limite entre a qualidade se tornar sem graça e um defeito trazer o que nos torna únicos é muito tênue. Pessoas que se mostram muito corretas mantêm o ambiente a seu redor sempre tenso. Todos se esforçam em não cometer erros diante de quem detém o ideal de como devemos ser. Dá um alívio quando o baluarte  da virtude  sai da sala ou vai dormir.

Parece que ser bom, de acordo com o padrão, exige um esforço doído e isso vem do medo de nos mostrarmos imperfeitos. Imagine o que seriam das festas se o álcool não desligasse o medo do nosso cérebro? Provavelmente desistiríamos delas, já que só sobraria solidão para podermos relaxar.

O sofá de casa ou mesmo a cama onde desabamos no final de um dia, pode ser o momento de nos aceitarmos inteiramente como somos, sem representações. É o que explica o profundo suspiro que nos acompanha quando nos permitimos relaxar.

Cumprir todas as regras de como devemos ser, vindas normalmente dos deuses, segundo dizem, deveria tornar a vida em sociedade perfeita.  Mas não é o que acontece e quando a noite cai, como uma metáfora, podemos, acobertados pela escuridão, buscar a inteireza de pecar sem ser visto. Nos desenhos animados a tentação fica de um lado e o anjo bom no outro ouvido. Como o olho brilha quando o diabinho fala!

Prazer e culpa se misturam, pois um leva ao outro. Isso pode ser a receita dos exageros que cometemos por todos os lados. Dizem os sábios que um exagero é um extremo, e nele o sofrimento está presente.

Justamente por isso os deuses gregos não saem de moda. Ao estudar sobre eles descobrimos desde o início que eles são imperfeitos e com os piores defeitos humanos. Por isso são lembrados com carinho, até para nos mostrar que a imperfeição nos acompanhará para todo sempre. Que alívio!

Talvez isso seja tão difícil de conseguir porque o caminho a ser percorrido está bloqueado pela ideia de certo e errado que ouvimos desde o nascimento. Tem uma frase de Mark Twain que diz: ”A única maneira de conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer”.

O casamento do personagem de Nelson Rodrigues terminou logo depois e conta a lenda que ele nunca mais encontrou outra esposa. Parece que a perfeição está até hoje procurando entender o motivo de não ser feliz.

Pior que o preconceito

Coluna publicada no Folha SC dia 12 de Janeiro de 2016.

Diz textualmente o jornal SINEPE/SC (Sindicato das Escolas Particulares de Santa Catarina) na sua edição de novembro 2015 na página 19: “O Sinep/SC manifesta o reconhecimento pelo trabalho de universalização do ensino e o esforço coletivo na consolidação de uma sociedade onde todas as pessoas sejam respeitadas, mas repudia com veemência quaisquer tentativas de descontruir o conceito antropológico de família, cujo fundamento é a união entre homem e mulher.” Como se não bastasse afirma pela escrita do professor Felipe Aquino:  “A genética prova, por nossos cromossomos, que só existem dois sexos: XX (mulher) ou XY (Homem).”

Depois, durante o texto, se contradiz ou busca amenizar, quando afirma que: “Discriminar uma pessoa em virtude de seus hábitos sexuais, origem étnica, religião ou qualquer outra característica análoga é não apenas estúpido como também imoral.”

Para começar,  a posição do Sindicato é claramente homofóbica, na medida em que afirma que a única união “certa” é entre homem e mulher. Essa é uma postura que não respeita os avanços sociais não só aqui, mas no mundo desenvolvido.

Qualquer pessoa minimamente informada e que viva no século XXI, sabe que a união afetiva não se dá por sexo, mas por psicologia. Qualquer casal é composto por um jeito de se expressar Masculino e Feminino,  não tendo a ver com o corpo. A expressão sexual é uma escolha, que, felizmente já é respeitada por lei. Discriminar um casal de pessoas do mesmo sexo é crime!

 A ideia de que uma família só pode dar certo com a presença de um homem e uma mulher não resiste a dez segundos de ponderação; se assim fosse os casamentos não terminariam, seriam eternos. Para procriar sim, você precisa de um macho e uma fêmea, como qualquer espécie. Mas uma olhada atenta mostra que a homossexualidade está presente na raça humana desde sempre e em praticamente todos os mamíferos, fazendo, portanto, parte da natureza. Tudo que existe, só existe por ser natural.

O problema é sempre a moralidade, normalmente ligada a crenças religiosas.

Imoral é ser infeliz, é não poder se expressar livremente.

 Imoral é abdicar das escolhas pessoais em nome de uma cultura que com seus “princípios” gera cada vez mais pessoas doentes, depressivas e angustiadas. E o pior; cada vez mais jovens.

Ser moral é ser feliz!

Ser homossexual ou heterossexual é uma escolha de como se sente melhor em relação ao ato sexual e de que companhia quer para viver ou para formar uma família. Casais homossexuais podem cometer os mesmos erros de casais de sexos diferentes, afinal somos humanos. Pensar que só um homem e uma mulher podem construir um lar saudável basta dar uma passada no Conselho Tutelar e dar uma olhada nos números que talvez mude de ideia.

Discordo do artigo quando diz que o governo quer impor para sociedade a força uma nova ordem, o que vejo é irmos à direção do que acontece nos países mais desenvolvidos. O ideal é olhar quem está na frente no IDH, onde ocupamos o “honroso” 85º lugar. Esse tipo de posição está mais para a “segunda divisão”.

E, se a religião está por trás desse tipo de posição retrógrada, podemos recorrer a Bíblia. Todos conhecem a passagem em que uma “pecadora” foi levada diante de Jesus e os que a trouxeram (os moralistas) perguntaram se ela deveria ser apedrejada, como mandava a lei na ocasião.

Jesus, perguntou em outras palavras, quem eram eles para acusa-la? Saíram todos com rabo entre as pernas.

Fico pensando; porque isso incomoda tanto? Qual o problema?

Sexualidade é escolha, e como tal deve ser respeitada. Se a justiça, que sempre anda mais lentamente, já reconhece em vários países a união entre pessoas do mesmo sexo, é natural que o Brasil, como país emergente, rume nessa direção. Essa posição preconceituosa está mais para Talibã do que para Noruega.

Recentemente nos EUA, uma cartorária, alegando questões religiosas (sempre isso), não quis homologar o casamento de pessoas do mesmo sexo. O que aconteceu com ela? Foi levada para a cadeia junto com sua crença. A Suprema Corte Americana deu a pá de terra que faltava para enterrar essa perversidade medieval.

Não cabe a nenhuma escola ou professor dizer para uma criança que só existe um jeito certo de se expressar sexualmente, uma religião melhor ou regime político ideal. A função da escola deve ser formar cidadãos críticos e isso é ensinar-lhes a pensar e dar-lhes liberdade de se posicionar como quiserem sobre qualquer assunto. Parece que existe um medo que nos “percamos”, como se todos fossemos homossexuais reprimidos e essa liberação acabaria com a sociedade. Sempre teremos hetero e homossexuais, porque isso é assim, naturalmente.

Precisamos de pessoas livres, não de ovelhas.

O historiador Leandro Karnal, uma das mentes mais lúcidas da atualidade brasileira, disse em uma palestra que a primeira grande revolução que a educação brasileira precisará experimentar é acabar com o preconceito dos professores.

Pelo que percebo, infelizmente, ele está certo!

Aceitação

“Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da aceitação. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceita-lo.”

Eckhart Tolle – O despertar de uma nova consciência

 

“ O sofrimento é a não compreensão da dor.”

Dulce Magalhães

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Qual o limite do sofrimento?

Essa resposta é difícil e por isso penso que seja interessante refletirmos sobre ela. Muitas vezes, o sofrimento termina por irmos até o seu final, esgotá-lo. Para isso o corpo tem seus mecanismos. Noto na prática da psicoterapia que a pessoa experimenta uma melhora súbita depois de um sofrimento intenso, normalmente passado alguns dias. Isso ocorre justamente por irmos tão fundo nele que não há como prosseguir, já que nosso próprio sistema tem uma limitação, afinal, precisamos continuar vivos.

Essa também é uma espécie de técnica terapêutica defendida por alguns que tem o objetivo de viver o sentimento intensamente por um tempo curto com esse fim; de esgotá-lo o mais rapidamente possível. Do jeito como somos, preferimos sofrer longamente, pois isso nos dá, inconscientemente, essa sensação de justificá-lo.

O âmbito do sofrimento normalmente está abaixo da nossa racionalidade, justamente porque, na maioria das vezes, seu simples entendimento poderia dirimi-lo. Mas como na nossa cultura sofrer é algo que entendemos que nos purifica ou nos faz evoluir a via longa parece ser a escolhida.

Vamos analisar algo extremo: a perda (morte) de uma pessoa muito querida.

É inevitável e muito normal sentir uma dor profunda. Mesmo os adeptos do reencarnacionismo não estão isentos a ela, afinal, essa pessoa sairá de nossa convivência e não a veremos mais, nem teremos a possibilidade de estar com ela pelo restante de nossa vida.

Aqui, entra o ditado popular: “ A dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional”.

Mas como colocar isso em prática? É muito difícil e precisamos entender o porquê.

Em primeiro lugar, o que acontece é que aprendemos que uma forma de demonstrar amor é pelo sofrimento. Esse conceito é levado muito a sério nos relacionamentos afetivos, por exemplo, onde tendemos a avaliar o quanto gostamos de alguém pelo sofrimento que essa pessoa é capaz de nos trazer. É como fossemos cobrados em sofrer para demonstrar o quanto gostamos da pessoa que partiu.

Sejamos racionais: A morte é definitiva para o corpo e, seja por uma doença, acidente ou qualquer outro motivo, não tem como voltar atrás. O sofrimento muitas vezes vem de procurarmos respostas para perguntas como:

Por que aconteceu com ele(a)?

Não merecia, pois era uma ótima pessoa.

Por que agora e dessa forma?

Por que alguém merece passar por isso?

Essas perguntas nunca serão respondidas, já que para isso a vida precisaria ter uma lógica, um sentido que não tem. Em artigos anteriores já discutimos esse assunto. Dessa forma, ficamos procurando um sentido onde não há e isso mantém o sofrimento por longo tempo, até que a pessoa chegue à conclusão que não terá essas respostas e vai recolocando sua vida nos trilhos. Essa forma, digamos, natural, demora muito. No caso de uma morte, por exemplo, é aceito que a pessoa enlutada tenha prejuízo na sua vida por até um ano depois da perda. Somente após desse período é que se considera a necessidade de procurar alguma espécie de tratamento.

O que podemos questionar é se precisa esperar tanto tempo, se esse sofrimento não poderia ser dirimido pela simples aceitação da infalibilidade da morte. Muitos procuram em si alguma responsabilidade, se poderiam ou deixaram de fazer alguma coisa que evitaria o ocorrido.

Nesse caso, já entramos em mais um aspecto, onde o sofrimento se encontra com a culpa. Sentir-se culpado ou ficar remoendo pensamentos de que algo poderia ter sido feito, nada mais é do que encontrar finalmente uma resposta para entender essa perda: Eu fui culpado, pois poderia ter percebido ou feito isso ou aquilo.

Se, por um lado a pessoa simplifica a situação ao se culpar, por outro essa solução traz o outro problema. Já que a culpa existe, é porque algo errado foi feito e isso exige uma punição. Para isso, não precisa de nenhum juiz ou tribunal; nós mesmos nos impomos algum tipo de pena. Mais tempo passa onde essa punição é cumprida para expiarmos nosso “erro”.

Quando não é uma morte, necessariamente, mas uma perda material onde precisaremos retroceder socialmente ou abrindo mão de algum conforto, sempre vem junto um abatimento do ego que, tem sua autoimagem afetada. Quantos já foram ao limite do suicídio por terem ficado repentinamente pobres e não suportaram lidar com essa nova realidade?

Em outros casos, algum segredo vem à tona e essa descoberta afeta a imagem que a pessoa luta por defender. Daí, acontece de pensar que a morte a eximirá de passar pela responsabilização do seu ato e da mudança que provocará em seu círculo de amizades com a perda do reconhecimento que viria.

Seja qual for o caso, e poderia citar outros tantos, a simples racionalização pura e simples já teria, em tese, a força de tornar o sofrimento sem sentido ou diminuí-lo. Seja para prestar contas à sociedade do nosso amor, seja para defender uma posição ou conceito que temos de nós mesmos, as perdas em geral nos remetem a um longo período de abatimento que pode nos levar a abandonarmos caminhos ou fazermos escolhas que mudarão nosso futuro.

É claro que a dor, seja pela perda que for, até mesmo de um emprego que gostamos e que jamais imaginaríamos que fossemos nos afastar, causa um baque inicial que devemos aceitar. Mas compreender e usar a racionalização poderá ajudar a diminuir o tempo do sofrimento.

Quem sofre pouco, pode parecer aos olhos comuns como alguém insensível, que não se importa ou que não gostava tanto assim da pessoa falecida, que não dava importância ao relacionamento, etc.

Será?

Pode ser simplesmente que essa pessoa tenha optado por não sofrer, desistiu de ficar procurando respostas lógicas para perguntas que nasceram para não serem respondidas.

Seja a perda que for, não tem como não doer, e isso é normal, faz parte e como diz  Eckhart Tolle pode ajudar a transcender, ou seja,  ir além do sofrimento.  Só que isso só será possível se simplesmente aceitarmos que, por exemplo, nada nunca está sólido, seguro ou garantido em qualquer aspecto da vida.

Isso, por um lado pode gerar angústia, por outro é justamente o oposto; se é assim, que seja;  já que sofrer não vai tornar nada mais seguro ou evitar que o inesperado aconteça.

O animal que somos necessita se sentir seguro, por isso lidamos mal com as mudanças, principalmente as inesperadas ou incompreensíveis, como sabemos. Mas entender o sofrimento e ir além nunca foi coisa de bicho.

Temos um cérebro emocional e é dele que vem tudo isso. Mas nunca é demais lembrar que desenvolvemos uma nova parte, chamada Néo Cortex, que nos permite entender, racionalizar e colocar uma compreensão mais profunda.

Só que esse novo cérebro precisa de consciência para ser utilizado e precisaremos ir além do nosso emocional, muito automático, reativo e programado desde o dia do nosso nascimento.

No final, aceitação é muito mais do que dobrar os joelhos diante do desconhecido, pode ser simplesmente aceitarmos que tem coisas que, simplesmente, não devemos saber.

Imaginação

A felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação.”

Immanuel Kant

 

“A imaginação tem todos os poderes: ela faz a beleza, a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes do mundo.”

Blaise Pascal

 

“É a imaginação que governa os homens.”

Napoleão Bonaparte

 

imaginação

Em artigos anteriores procurei refletir sobre o fato de sermos seres com potenciais infinitos, habitando um corpo que, por ser de natureza animal, tende ao envelhecimento e a morte. Isso faz com que a inteligência do corpo seja baseada no medo, afinal, é isso que nos mantêm vivos.

Essa fricção entre o eterno e o que perece, transcendente e imanente, explica o que definimos por “humano”. Na parte mecânica desse humano está o cérebro, que também atende, de certa forma, a essa divisão. Duas das suas três partes, ligadas a manutenção da vida, cérebro reptiliano e límbico, e a outra, Neo Córtex, esconde nossa divindade possível.

No Neo Córtex, está a linguagem, o simbolismo e, principalmente, a nossa capacidade de imaginação. Quando usamos nossos atributos de criatura (capaz de criar) é a imaginação que nos permite visualizar o que poderá existir no mundo manifesto, depois que transformarmos o pensamento em matéria. Assim, tudo que hoje existe, produzido pelo homem e que podemos tocar e sentir foi, primeiramente, imaginado pelo seu criador ou, se preferir, inventor.

Portanto, imaginar é atributo exclusivo do bicho homem, e aí pode começar a surgir os problemas. Mas, antes deles, podemos definir o que é imaginar?

O poeta Victor Hugo disse que a imaginação é a inteligência em ereção. Menos erótico, eu a definiria como um pensamento que ganha vida. Pensamos a todo momento, mas só naqueles em que ficamos mais tempo vira uma imaginação, com imagens, roteiro e um final que pode ser alegre, triste ou simplesmente emocionante.

Podemos pensar, porque não, a imaginação como sendo uma energia, que, por fazer parte da nossa natureza está disponível e funcionando continuamente. Essa disponibilidade atende as duas forças que compartilham nosso corpo; a parte animal e a espiritual (ou o nome que você queira dar).

Quando estamos inconscientes a imaginação atende a nossa animalidade. Assim funciona o que a cultura popular costuma chamar de “oficina do diabo”. Sempre que estamos em atividades absolutamente rotineiras, cumprido mecanicamente nossas vidas e sem perceber a passagem do tempo, nossa imaginação funciona em sua parte negativa. Ficamos “pensando” nos problemas que poderemos ter no futuro, doenças, dificuldades de toda ordem, abandonos, etc.

Para quem acompanha o blog, já escrevi inúmeras vezes que essa negatividade tem por objetivo nos trazer uma inquietação para que evitemos que essas previsões aconteçam, pois o sofrimento que advirá delas poderá nos levar a morte. Eu e você já sabemos que isso quase nunca acontece. Mas as pessoas pensam (se é que posso dizer que isso é um pensamento), que essas “pré” ocupações da mente não acontecem justamente por termos nos preocupados com elas. Isso é uma bobagem sem fim, pois a vida é algo totalmente alheio e sem previsibilidade. Mesmo aquilo que esperamos que aconteça, quando ocorre, sempre foi de um jeito completamente diferente do que esperávamos.

Assim, a imaginação, quando não usada com direcionamento, atende ao animal que somos, e isso sempre será ruim. Todos que experimentam algum tempo sem uma ocupação ou têm sua vida muito rotinizada, sabem que a negatividade dos pensamentos só aumenta.

Aqueles que se dão o trabalho de perceberem nitidamente seus pensamentos se assustam com sua impossibilidade ou até  mesmo com a capacidade de transformarmos coisas pequenas em grandes tragédias e isso é a imaginação quem faz. O animal só imagina besteiras e isso explica porque alguns animais são usados em experimentos de comportamento humano e porque esses mesmo animais podem testar os remédios que iremos tomar.

De outro lado, quando usamos essa energia chamada de imaginação de forma focada e criativa somos testemunhas de onde podemos chegar e só observarmos toda a tecnologia disponível e novidades e criações que acontecem diariamente. Não há mesmo limite para isso.

Mas observe como precisamos dominar essa energia para conseguirmos usá-la de modo positivo. Sempre que não fazemos isso com frequência, ou abandonamos a criatividade, como temos dificuldade de foco e até de retermos o que lemos em uma página de um livro qualquer, por exemplo. A imaginação precisa ser “domesticada” e quando isso é feito, paramos de pensar em problemas e situações sofridas.

Parece que só podemos imaginar livremente quando somos crianças, depois só o que nos ensinam ou mandam. Toda a pessoa criativa se permite imaginar livremente, não aceitou nenhuma regra. Querer enquadrar a imaginação em certo e errado é um absurdo sem fim.

Evolutivamente precisamos entender que se a imaginação não for dominada e usada em seu lado positivo, ela se voltará contra nós. E o que temos visto? Cada vez mais gente com ansiedade, depressão e compulsões. Isso só acontece porque a imaginação saiu do controle e ao invés de servir a seu dono e encaminhá-lo à evolução, voltou-se contra ele e o adoeceu (possuiu).

Nossa imaginação é, na verdade, nosso maior obsessor e quando está de posse de nós, até pela sua natureza criativa, pode inventar um outro nome ou se dizer passar por um antepassado ou ficar nos trazendo pensamentos delirantes, paranoicos e tantas outras coisas.

Todas as energias que movem o cosmo não são positivas nem negativas, simplesmente se manifestam pela dualidade e podem ser usadas de igual forma por qualquer um desses aspectos.

O que quero dizer é que será o domínio da imaginação que fará diferença no processo evolutivo. Justamente por isso é que sempre estou repetindo que devemos nos esforçar para estarmos sempre conscientes do que fazemos a cada momento. É claro que isso é muito difícil, mas não tem outro jeito. Se a imaginação não for primeiramente entendida e depois dominada, a realidade que vivemos hoje, cada vez mais ampliada pela informação e pelo sistema econômico que nos cobra cada vez mais, não escaparemos dessa epidemia de doenças nervosas que atingem a maioria das pessoas. Olhe em volta, não é difícil perceber.

Em estado livre e sem domínio, apenas pensamentos ruins em relação ao futuro e ao passado, inevitavelmente, já que essa é a natureza do animal. Não repetir sofrimentos passados e evitar possíveis no futuro.

Na atenção consciente isso não acontece, pois a imaginação está controlada com a rédea curta da consciência e só vai para onde deixarmos e ali é ela que nos serve. Esse é nosso potencial e que realmente nos faz dominar o planeta. Do outro jeito, estamos doentes e destruindo tudo a nossa volta.

Precisaria mudar toda a estrutura que vivemos para que possamos evoluir como espécie, já que, por exemplo, na educação temos apenas a finalidade de formar mão de obras e pessoas competitivas. Toda a pessoa competitiva é movida pelo medo da derrota e de imaginar o que poderá lhe acontecer se não atingir o “sucesso”. Isso por si só é a utilização da imaginação de forma negativa, voltada apenas ao interesse da produção e do consumo.

Isso é tão “furado” que as classes mais abastadas apresentam índices altíssimos de doenças psiquiátricas e de consumo de entorpecentes. Esse medo pode realmente gerar grandes fortunas, mas a grande fortuna também significa desigualdade e miséria para muitos. O que surge dessa diferença? A violência.

A imaginação sempre é o primeiro passo da ação consciente, mas não podemos ficar só nela. Como o próprio nome diz:

                             imagem+ação = imaginação.

Domine sua imaginação, antes que ela o domine e apenas imagine o que  mandam aqueles que não estão preocupados com você.

 

 

 

O gene do mal

” A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições que ela impõe […] É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.”

Freud

” É evidente que a maldade e a crueldade são inventos da razão humana, da sua capacidade para mentor, para destruir.”

                                                                   José Saramago

                                                                                                                                                                                          maldade

Thomas Hobbes (1588 – 1679) foi um dos filósofos que se debruçaram sobre o difícil tema da natureza humana. Segundo ele, o homem em seu estado natural está sempre em guerra, movido por dois objetivos; manter-se vivo e fugir da dor, indo sempre que possível na direção do prazer.

Diferente de outros, Hobbes defendia que em sua natureza o homem é solitário, na medida em que seu interesse individual sempre vem em primeiro lugar. Conviver, ou ser um ser “social” é apenas uma conveniência para atingir seus objetivos, que nunca são alcançados, afinal, depois da satisfação de um desejo vem outro, logo a seguir.

Instintivamente isso é bem fácil de observar, afinal a defesa da vida não pertence à esfera do pensamento, mas da ação imediata. Depois se pensa sobre o que ocorreu, e se for o caso, podemos nos arrepender de não ter sido solidário.

Ao observarmos o comportamento do homem primitivo, os estudiosos dizem que só se agrupavam com o objetivo de estarem aptos a enfrentar invasores de seus territórios, ou seja, juntos somos fortes; sós nem tanto.  Dessa forma, o convívio social que muitos defendem como natural, só ocorre para defender interesses.

O filósofo defende a ideia de que a violência humana não tem limites, desde que seja para defender o que lhe pertença ou conquistar algo que o torne mais poderoso e o ajude a viver por mais tempo. Como podemos observar, não só homens agem assim, mais políticas de governo se explicam pela teoria de Hobbes, afinal, o governante é a média da maioria do pensamento de seu povo.

Mas quando o “outro” é necessário?

Precisamos uns dos outros para não somente cumprir um instinto de sobrevivência,  mas também para validar nossa percepção de mundo. A realidade existe no convívio, na troca e nos ajustes que precisamos fazer para conviver. Justamente por isso os relacionamentos tendem ao desgaste.

Depois de quatro séculos, Freud também via o homem da mesma forma  e dizia que só um rígido sistema de punição nos permitia viver uns com os outros. Quantas vezes a lembrança do prejuízo que um ato pode trazer impediu que ele fosse cometido? A resposta é: muitas,  sempre que ocorre o ato impensado, dizemos que “perdemos a cabeça” ou que algo se apossou de nós. Na verdade é essa natureza má que nos “possuiu”  e os freios que a educação, religião  e sociedade nos impuseram não foram suficientes, naquele momento, para pensarmos nas consequências.

Desde pequenos, precisamos educar nossas crianças para aprenderem a compartilhar e respeitar o outro.  Muitas vezes é a punição ou castigo que as esperam que impedem de agirem como realmente querem.

Muito mais do que um pessimista sobre como realmente somos, Hobbes percebeu nossa natureza mais primitiva. Todo tempo decorrido de seus escritos não mudaram sua validade. Observem os países que invadem e destroem populações inteiras pelo domínio de riquezas naturais, ou em ataques de fúria movidas pelas crenças religiosas e políticas.

Precisamos de esforço para nos tornar bons, sociáveis e preocupados com o ser humano. Por mais que as religiões cumpram seu papel de nos afastar da animalidade é muitas vezes em seu nome que se mata e a história antiga e atual está recheada de exemplos.

Nossa humanidade é um potencial que precisa ser desenvolvido, tem a ver com evolução e não ocorre naturalmente.

No meio de tudo isso, as exceções que comprovam a regra buscam colocar peso no outro lado da balança. Mas se fossem pelo menos metade da população mundial nossa convivência seria outra e não veríamos do conforto dos nossos sofás milhares padecerem de fome diariamente enquanto se produz alimento para se jogar fora em grande quantidade, por exemplo.

Essa minoria de voluntários do bem, que dedica sua vida a minorar o sofrimento dos semelhantes, animais e natureza são sempre motivos de notícia, pois são espécimes raros de uma raça que destrói em nome de satisfazer seu ego.

A criminalidade avança e um dos motivos é a distância cada vez maior entre os que têm e nada tem. Esse abismo empurra os que ficam de fora para buscarem seu direito à sobrevivência e a violência é o caminho natural, como bem já nos avisaram Hobbes e Freud.

Cada ser humano que nasce tem um potencial infinito e uma pergunta a responder:

Tornar-se-á verdadeiramente humano, ou viverá para atender suas necessidades e desejos sem fim a custa do sofrimento e exclusão de muitos outros?

Tudo começa com a ideia, que precisa ser questionada, de um mundo  escasso, que precisamos ser competitivos, que não há para todos e a luz do sol é uma conquista a ser feita e não um direito.

Os jornais nos mostram diariamente que esse modelo faliu, mas o mais fácil é aumentarmos o tamanho das cercas e colocarmos alarmes por todos os lados, para nos avisar que tem um ser humano por perto.

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Crônica publicada no jornal Folha SC em 21 de Abril 2015