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Ambição e Necessidade

“ Poucos veem o que somos, mas todos veem o que aparentamos”.

                                                    Maquiavel

 

“O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.”

                                                     Nietzsche

“Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho.”

                                                     Ambrose Bierce in Dicionário do Diabo

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Maquiavel foi um dos muitos injustiçados da história. Ter seu nome vinculado a atos de maldade e interesses escusos é no mínimo uma constatação de que não foi lido. Seu grande mérito, em meu entender, foi transformar Reis e Príncipes que, em sua época, só prestavam contas a Deus, em políticos. Políticos são pessoas comuns, como eu e você, que querem o poder e, para tanto, fazem o que deve ser feito. E aqui cabe já uma curiosidade: Maquiavel nunca escreveu que “os fins justificam os meios”. Essa frase famosa nada mais é do que uma interpretação ou tradução malfeita. Poucos em tão poucas linhas (seu livro O Príncipe é pequeno) desnudou a natureza humana com tanta precisão e sem afetamentos. Maquiavel nunca falou de um homem idealizado mas do real, que quer atender seus desejos e busca a felicidade pelo caminho que sua capacidade de percepção permite.

Aliás, é nesse ponto que podemos começar: existe mesmo uma “natureza humana”?

Alguns, como Heidegger, dizem que não; que nossa natureza se faz na medida em que vivemos, que somos sempre uma possibilidade muito moldada pelo contexto onde estamos inseridos. Que o fato de vivermos em grandes conglomerados nos empurram para sermos muito parecidos uns com os outros e isso se dá pelos limites de expressão cada vez menores que temos como condição de podermos viver junto a uma grande quantidade de pessoas. Heidegger diz que o homem que vive mais junto a natureza e com menos pessoas a sua volta consegue uma originalidade maior em seu Ser, na medida em que está menos pressionado. Poderemos, para apoiar essa ideia, nos perguntarmos se existe um número menor de doenças emocionais em quem vive em lugares menores em comparação a centros urbanos mais povoados.

Seria lícito observarmos que, à medida que a sociedade se “desenvolve”, cada vez mais aumenta o número de pessoas com doenças ligadas a ansiedade, visto que o cerco está se fechando cada vez mais em termos de expressões individuais. Cada vez precisamos seguir mais um padrão de normalidade, o que negaria a biologia, já que para esse ramo da ciência não existem duas pessoas iguais.

A ansiedade, conhecida como o “mal do século”, é definida como um sentimento de apreensão em relação ao futuro, um medo constante de que algo que tememos venha a acontecer. Aqui poderemos, usando da liberdade, dar mais um passo e dizer que em um nível mais profundo, a ansiedade é o medo de nunca sermos únicos em relação aos demais, da originalidade que nunca se expressa.

Para quem entende que existe uma natureza comum a todos os humanos se apoia na ideia que temos semelhanças entre os homens, e isso só poderá acontecer se houver algo em comum.  Podemos, em tese, sermos tudo que outros seres humanos já foram, colocando até um toque pessoal. Mas mesmo que possamos ser qualquer coisa, não quer dizer, necessariamente, que realmente seremos isso ou aquilo. É como se a ideia de uma natureza comum se baseasse em um potencial que todos temos, mas sabemos que um potencial não quer dizer sua efetiva realização.

Esse é um assunto polêmico que não chegaríamos a uma conclusão, mas Maquiavel faz uma dura assertiva que nos coloca dentro de um padrão comum; que os seres humanos só agem por ambição ou necessidade. Se ele estiver certo, mais do que termos algo em comum, além da constituição física, somos todos prisioneiros.

Quando agimos por necessidade não temos escolha. A necessidade está ligada a sobrevivência e isso tem vários níveis, não só não morrer de fome. Necessidade também está ligada a um desejo que precisa ser atendido rapidamente, sob pena de nos trazer sofrimento. A necessidade não nos dá muitas escolhas e o que muda é a categoria: urgente ou emergência. Assim, não temos muita liberdade e nossas ações são mais reativas, já que estão sendo impulsionadas por uma pressão interna. Agir por necessidade não é um ato livre ou proativo já que é um desejo extremo a ser satisfeito que está na origem do ato.

Já ambição, ah…a ambição! Maquiavel diz que somos todos ambiciosos, e até querer não ter ambição alguma não deixa de ser uma espécie de ambição. Quando quero ser visto, por exemplo,  como alguém “superior”, que é desapegado da materialidade, quase um santo, a ambição de ser admirado e elogiado é o desejo a ser satisfeito.  Aqui também está presente uma necessidade que se ambiciona.  Afinal o homem é um ser desejante, age por desejo, busca realizá-los e é isso que o move na vida. Quando dizemos que não desejamos algo é somente por dois motivos: não entender que aquilo possa fazer-nos mais felizes ou não nos achamos em condições de obter tal desejo. Temos uma forte tendência de dissimular nossas ambições, até como uma condição para que elas possam se realizar um dia. Ambicionar viver longe de todos em uma praia deserta ou em um bosque lindo é simplesmente um desejo de fugir de constatações sobre nós mesmo que, por não serem muito agradáveis, projetamos sobre os outros.

 Ambição é tão institucional em nossa sociedade de consumo que não pega bem em uma entrevista para auxiliar de escritório de uma multinacional dizer que você não almeja ser o CEO no futuro.

Júlio Pompeu, em seu ótimo livro sobre Maquiavel diz com precisão:

“Nossos desejos são ilimitados. Eles não são uma demanda do corpo pelo que lhe falta, mas muito mais do que isso, são demandas por tudo que não possuímos. Se os desejos fossem apenas uma demanda do corpo físico, uma busca pelo que ele necessita para viver, como água, alimento, etc., então a saciedade do corpo seria o limite dos desejos. Mas nosso desejo não tem limites. Eles são a demanda do homem como um todo. De sua inteireza: corpo físico e psíquico. Desejamos não apenas o que falta ao corpo, mas também o que falta ao espírito, como riquezas, prestígio, honrarias, poder, etc.

O corpo físico é saciável, o espírito não. ”

E arremata dizendo que “a ambição é apenas uma valoração cínica ou alienada do desejo.” E nunca podemos esquecer que junto com a ambição nasce a esperança de que ela se realize. Para Maquiavel, essa combinação leva o homem para o abismo, já que ele pode perder a capacidade de avaliar seus riscos.

Assim, ambição e necessidade são como tijolos unidos pelo desejo. Essa para Maquiavel é a nossa natureza comum e isso não deve ser visto como bom ou ruim, simplesmente é assim.

A ambição nos faz maus, já que não queremos ser assim e os desejos nos enfraquecem por não os conseguir, todos.

Ter essa consciência é o que pode mover o homem para evitar que seja arrastado como tantos outros já foram, e são diariamente, por atitudes que os desonram. Se Maquiavel fosse vivo em nossos dias ele seria muito previdente contra essa fúria que pede a execução em praça pública dos corruptos. Ele simplesmente diria que os que desejam a execução sumária nunca tiveram milhões à sua frente para poder recusar.

As ideias de Maquiavel sobre como somos não são o que nosso ego gostaria de ouvir. Mas a atualidade dos seus pensamentos, tantos séculos depois, mostra que poucos foram tão efetivos e objetivos em nos desnudar. Muitos outros, falaram de um tipo de homem idealizado, potencialmente bom, piedoso e com outras qualidades difíceis de encontrar na realidade. Kant com seu imperativo categórico de uma ação universalmente boa e totalmente desinteressada ou Rousseau, com uma certa ingenuidade, quando diz que o que nos torna maus é a sociedade e que é ela que devemos mudar para que nossa natureza piedosa aflore, falam de utopias. Nossa capacidade de fazer o bem é a mesma de fazermos o mal, e isso, para Maquiavel, serão ações sempre tomadas por desejo ou necessidade.

Somente nos aceitando como somos que poderemos ir além ou, apesar de ser como somos, sermos melhores.

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Para saber mais:

Somos todos maquiavélicos – Júlio Pompeu. Editora Objetiva, 2011.

O Príncipe – Maquiavel – obra de domínio público.

Dois de novembro

O túmulo era em mármore negro. A antiga foto preto e branco mostrava um rosto jovem e sorridente em uma moldura dourada. Abaixo, as datas que marcam a passagem, sempre efêmera para quem fica com a dor da morte; os vivos.

Ela carregava um pequeno vaso com flores de plástico, que, hoje sabemos, também morrem, como tudo. Nas lágrimas mais escassas a cada ano, lembranças de pessoas que já não existem mais, independente de terem ou não morrido. Os filhos não vieram, de novo. Compromissos com a vida, sempre mais urgentes. Parece que eles pensam que os mortos sempre podem esperar. A cada ano, uma oportunidade de resgatar as ausências anteriores que nunca se cumprem.

Transformou seu pensamento em som, murmurando baixo, querendo enganar a si mesma e ao falecido:

– No ano que vem eles virão.

Lembrava da sua infância enquanto passava um pano umedecido na lápide. Naquela época, não se ouvia música nesse dia. Era proibido falar alto, e todos tinham a obrigação de se mostrarem tristes, inclusive as crianças, quem nem sabiam ao certo o que era morrer. Não via a hora desse dia terminar. Na manhã seguinte podia voltar a sorrir e a brincar. Demorou a entender o dia de finados.

Tudo foi ganhando significado com o tempo; os avós, depois os pais. Perdas que vão nos empurrando para um canto, onde estamos sós no mundo. Os filhos salvam a angústia, pois poderemos viver na vida deles e dos que virão. Eternidade garantida pela ciência que pouco consola.

Quando se despediu, lembrou com um arrepio que a idade já não poderia garantir a visita do próximo ano. Quem sabe? Ao lado, um túmulo vazio que ela se recusava a olhar. Encontro marcado, cada vez mais próximo. Engoliu em seco.

Enquanto caminhava em direção ao portão, observou que cada ano tem menos gente nesse dia no cemitério. Muitos vão antes, principalmente se o feriado fica perto de um final de semana. O dia de finados não é dia dois, mas começa ou termina sempre mais tarde ou cedo, dependendo dos compromissos. Concessões em favor do trabalho ou de uma folga para descansar. Primeiro a vida e por que não?

No noticiário, os comerciantes de flores dizem que o movimento caiu muito. Um post no Facebook divide a dor da saudade com mais gente, um smile chora por nós e dá menos trabalho. Facilidades inegáveis da vida moderna.

Na rua, pessoas caminhando, outras correndo e bicicletas com gente colorida. Namorados de mãos dadas, vivendo momentos em que a morte nunca existiu e existirá. Cinemas lotados, lojas abertas no shopping e futebol à noite na televisão.

Olhou para si, em um susto. Percebeu que nesse ano não veio com sua saia e blusa preta. Pensou em se sentir culpada com sua calça jeans, tênis e camiseta amarela. Está calor, pensou, enquanto lembrava a si que nunca deixou de visitá-lo nesse dia e que a roupa pouco importava. Percebeu uma certa raiva, quando um pensamento maldoso lhe perguntou se ele viria todo ano se fosse ela que tivesse morrido.

– Perigava trazer a outra junto. Nunca ele iria respeitar a viuvez como eu. Também não sei se tivesse me casado de novo se viria todo ano. Guardaria as fotos em uma caixa, a vida precisa continuar.

Pensamento que consola e se vinga de situações impossíveis, por nunca terem se tornado reais. Como vivenciamos e imaginamos saídas e soluções mágicas, que não combinam com a realidade!  Sonhos de olhos abertos que colocam algum brilho na vida real, tão áspera e injusta.

Sua vida continuou, mas sem um novo amor ou companhia, que no fim da vida se tornam sinônimos.  Ainda ostentava o título de viúva, solteira por imposição do destino e falta de novas chances.

Chegou em casa e caiu no sofá. Nas paredes em cima do balcão, muitas fotos para fazer de conta que a família existe. A verdade é a solidão. Talvez um filho “dê uma passada” no final de semana, quem sabe? Visitas cada vez mais rápidas, às vezes trocadas por duas ou três palavras no Whats que ela finge entender e mostrar que não precisa de nada, sempre que vem essa pergunta protocolar.

Um dia, ela também será só um retrato e, quem sabe, uma lembrança a cada dia dois de novembro.

A última desilusão

 

Ficou paralisada diante da tela do computador.

Nunca dá para dizer que algo é inacreditável, já que se acontece, torna-se necessário acreditar. Lutar contra a realidade não dá, é um romantismo placebo. A notícia teve o efeito de uma grande desilusão, mais uma.

Mais de cinquenta anos juntos! Como pode?

De uns tempos para cá, as uniões estão sofrendo um golpe atrás de outro. Isso não faz bem para as pessoas, nós precisamos acreditar que os compromissos podem durar para sempre. O amor precisa ser invencível! Precisa!

 Tem palavras que deveríamos tirar do dicionário; para começar, todo e qualquer juramento e “para sempre”. Jurar, no fim das contas, é prometer que nunca mudaremos, e o que é pior, independente das circunstâncias. Isso não é possível!

Talvez o problema seja mesmo falta de experiência. Quem pediu para jurar, algum dia jurou para alguém de carne e osso?

Tem juramentos que não tem graça. Sem conviver é fácil!

Isso de estarmos sempre mudando tem dois lados; não existe nenhuma condenação, por outro, sei lá quem vou ser e o que esse que serei pensara e irá querer da vida?

 Isso tira a tranquilidade, dá uma ansiedade de um futuro incerto. Por outro lado, que graça teria um futuro certo? Se nunca mudássemos, gostaríamos sempre da mesma coisa…chato por um lado, já que nunca conheceria coisas novas, seguro por outro.

Que confusão!

Melhor não pensar. Mas a cabeça não para de falar.

A vida não está mais nos dando os exemplos de que é possível, que dá para, mesmo mudando, gostar de estar sempre junto.

O Willian e a Fátima?

Tantos filhos, sucesso, dinheiro, fama. Mas o tempo, ou a previsão do tempo mudam tudo! Jamais se poderia imaginar!

Mesmo um homem sério pode se abalar e as esperanças das pessoas comuns sofreram um duro golpe.

Como ele pode deixar de gostar dela? Tão simpática, sempre sorrindo!

Será que ela pode tê-lo cansado? De tanto sorrir?

Mal tínhamos nos acostumado com esse duro golpe, quando de repente, a pá de cal: O Brad e a Angelina, e agora?

Ela que sempre é muito decidida, mais uma vez tirou da sua vida tudo que poderia, mesmo que somente um dia, vir a incomodá-la. Dos seios ao Brad, a mesma regra. Não teve dó.

Ele pediu para voltar e ela irredutível. Diz que não quer mais e até apareceu na internet que bloqueou o telefone para não receber chamadas dele.

Como uma mulher pode não gostar de receber ligações do Brad? É o sonho de todas, menos dela.

O que ela sabe que não sabemos?

Pode alguém tão perfeito ter defeitos? Seria a perfeição uma expectativa que nos mantém motivados?

 A realidade não ajuda. Por isso não vou a palestras motivacionais, pensou ela, fico toda empolgada e dois ou três dias depois, o mundo não percebeu meu entusiasmo e volta a ser como sempre foi. Dá até ressaca, que nem bebedeira.

Decepção, mais uma!

Mas mesmo o Willian e Fátima, o Brad e a Angelina não ficaram cinquenta anos juntos. Chega um tempo que, mesmo que esteja ruim, as pessoas ficam pela companhia. No fim sempre foi uma grande amizade, temperada com carinho e uma briga, vez por outra. Mas depois de mais de meio século, os laços deveriam ser tão fortes que não dá para imaginar um sem o outro. Dias atrás saiu a notícia que um casal que estavam juntos a mais de sessenta anos morreram com horas de diferença; um de doença e o outro, por não querer ficar nesse mundo sozinho.

Que lindo, o amor vencendo a morte!

Mas como eles foram se separar nessa hora? Será que não perceberam que o casamento está sofrendo duros golpes? O que custava pensar no quanto isso é importante para as pessoas continuarem a acreditar que pode dar certo, para sempre? Depois de cinquenta anos, recomeçar?

Agora não acredito em mais nada!

Levantou e foi fazer o almoço, secando as lágrimas com o avental.

Na tela do computador continuava estampada a notícia: Bob’s e Ovomaltine se separaram. Mal terminaram o e Ovomaltine anunciou que vai ser só do MacDonald’s.

Os relacionamentos não são mais os mesmos!

Que pena!

 

 

 

Um chá com Espinosa

Fazia frio naquela tarde onde o céu era límpido e o sol não conseguia ser mais do que uma leve sensação agradável. Enquanto caminhava pelas ruas, a temperatura ia mudando, na medida em que as marquises e os prédios altos faziam sombra. Já era meio da tarde e o vento gelado parecia fazer das roupas e cachecóis uma tímida defesa.

Quando chegou na casa de chá que frequentava, surpreendentemente não encontrou fila. Era uma casa antiga, da metade do século XX, que um extremo bom gosto fez de suas salas ambientes agradáveis e muito bem decorados. De todos esses pequenos espaços, o que mais gostava tinha na parede dezenas de pequenas luminárias que, mesmo acesas, deixavam uma leve penumbra. As mesas e cadeiras misturavam estilos e até os pequenos rasgos no tecido de um sofá estilo rococó faziam parte de um charme proposital. Em outra sala, malas antigas cortadas na metade eram colocadas na parede e a sensação que tinha era que elas vomitavam o tempo. Ao fundo, jazz instrumental.

A jovem e bela atendente de olhos verdes brilhantes trouxe o cardápio em uma mão e um tablet na outra, e o lembrou de apertar um pequeno botão na mesa quando tivesse escolhido. A tecnologia combina bem com o estilo antigo do ambiente, já que esse botão acionava uma luz no relógio do garçom avisando a mesa que estava chamando.

Estava sem pressa e o próprio clima do lugar ajudava. Parecia que lá dentro o tempo nada tinha a ver com a velocidade da grande cidade, onde milhões de pessoas correm atrás da sobrevivência, em uma luta que também envolve  insegurança e  violência. Nada mais comum a todo lugar onde a riqueza e a miséria são a condição da existência uma da outra.

Na mesa ao lado, um casal de enamorados tinha seu mundo dentro daquele ambiente. Mãos dadas descansando sobre a mesa e olhos nos olhos. Um dia, esse mundo será aumentado quando descobrirem que essa perfeição foi uma imaginação, uma expectativa. Como é bom pensarmos que tem coisas que, conosco, nunca acontecerão. Tudo que outros seres humanos passaram foi só com eles e a desilusão sempre será o resultado de uma expectativa exagerada, de nos tornarmos um pouco como todo mundo.

Diferente das outras vezes, trouxe consigo o livro que estava lendo. Não foi proposital, como um ato consciente, apenas ao sair de casa levou-o junto, sem motivo. Devia ser por estar pensativo sobre o que estava lendo. Sempre gostou de filosofia, mas de uns tempos para cá, que resolveu ir mais a fundo, talvez por buscar uma nova maneira de entender a vida. Na verdade, o fato dos humanos terem consciência de um dia morrer, os obriga a que suas vidas tenham um sentido, algo que os faça ter certeza que sua passagem não foi em vão. Certa vez, o grande Saramago disse em um de seus romances que as lápides são essa última tentativa de não sermos esquecidos, quando a vida foi comum e o desejo de criança de sermos algum tipo de herói não se realizou.

Suspirou para trazer a atenção de volta ao cardápio. Escolheu um chá de frutas e especiarias. Para acompanhar, um brioche levemente doce. Depois de fazer seu pedido olhou para o livro. A capa azul era um resumo da Ética de Espinosa, comentada por seus discípulos contemporâneos.

O livro o impressionara desde o início, com a primeira de suas proposições:

“Uma única substância para todos os atributos”.

Se fosse verdade, e parecia ser se pensarmos bem, tudo que aprendera desde a infância ruíra. Recebemos uma maneira de pensar e ver o mundo e nem sequer a questionamos. Espinosa mostra com clareza o erro de Platão ao nos oferecer sua dualidade primeira; o mundo dos sentidos e o mundo das ideias ou dentro e fora da sua famosa caverna. Foi justamente por aí que as religiões criaram seus paraísos, uma ótima forma de aceitarmos pouco dessa vida e dela desviarmos atenção. Claro que Platão pensava em um Universo finito e perfeito, coisa que Espinosa, quando filosofou, já sabia não ser verdade, lá por 1650. O caos que já naquela época percebíamos no espaço era uma das faces de uma inteligência criadora que Espinosa percebeu muito além de uma ideia de como controlar as pessoas pelo medo e pela culpa.

De qualquer forma, o Deus que ele mostra seria mais factível e menos improvável do que aprendemos a imaginar. Tudo nessa imanência que vivemos é uma emanação da transcendência eterna. Morremos para que Deus possa continuar Sendo, e apenas mudamos de forma. Nossa finitude é o atestado da eternidade de Deus, na ausência de tempo. Tempo que nossa mente cria para separar o nascimento da morte.

Incrível como um homem que viveu menos de cinquenta anos, teve tamanha percepção da vida, quase sem nenhuma tecnologia.

Quando o chá foi servido, sua atenção se voltou para o bule de porcelana pintado à mão. Impossível não lembrar da casa da sua avó. A xícara seguia o conjunto e a colher pesada só podia ser de prata. Para adoçar, um pequeno pote de mel. Deixou que o aroma do chá invadisse suas narinas. Uma delícia!

“Aumento de potência”, diria Espinosa, quando algo no mundo nos dá alegria. Claro que a tristeza, seu oposto, um dia no levará a morte, mas a vida longa, como um combustível é movida por trocas que nos tragam essa alegria. A cada encontro com o mundo, com pessoas e situações afetamos e somos afetados. Sabemos que o mundo é grande demais para nós e um dia não suportaremos, mas esses encontros alegres, a mudança que se dá em cada relação com a vida é o que conta em uma contabilidade em que o bem-estar precisa estar em vantagem.

Enquanto degustava o primeiro gole, sua mente martelava: “Um só mundo, tudo uma só coisa”. Espinosa trouxe o prazer de descobrir. Para ele, a essência da mente é o conhecimento (como Aristóteles, de certa forma, também dizia). Quanto mais se conhece, mais se realiza a grande virtude, ou, como ele mesmo diz: “quando a mente contempla a si própria e sua potência de agir, alegra-se”.

Deus tem misteriosos fins, dizia o Filósofo. Queremos compreende-Lo, e isso não é possível. Vontade divina é apenas o nome que a imaginação encontra para buscar entender o que não podemos, e o medo que temos diante do incompreensível. Tudo que existe possui causa determinada e necessária para existir tal como é, e os encontros com a vida é que serão por fim, nossa liberdade de alegria ou tristeza. Tudo é esse Deus; tudo que existe. Isso inclui sua dupla expressão: o bem e mal, que nada mais são do que maneiras de entendermos e darmos um rosto para o que acontece.

Pensou o quanto isso mudaria sua maneira de viver.

Encheu novamente a xícara. Percebeu que até hoje correu atrás de desejos e o que queria, na verdade, era só entender-se. Nos relacionamentos, mais do que desejar o outro, na verdade, queria ser o desejo do outro. Ah, os desejos…

Aristóteles dizia que parar de desejar era adoecer, já para os estoicos, desejar é estar doente. Vai entender…

Espinosa caminha por outra percepção. Desejo é força criadora, energia de vir a ser outro, novo e evoluído, enfim. Não percebemos isso e transferimos para os objetos, pessoas e ideias essa responsabilidade, da mesma forma que fizemos ao médico quando não conseguimos dormir. Mais do que buscar o motivo da angústia que leva à insônia, pedimos um remédio que nos devolva o sono e mantenha a tristeza que nos afeta intacta. Espinosa sacudiria a cabeça, com desânimo.

Comeu seu brioche com o último gole de chá. Espinosa evoluiu no pensamento rebelde e complexo de Nietzsche e, a partir do final dos anos sessenta com Deleuze e sua Esquizoanálise.

Agora pode entender o motivo de Espinosa e seus seguidores estarem à margem da cultura, afinal eles nos mostram uma maneira de ver a vida que nunca imaginamos. Quase um clamor para que vivamos intensamente o que temos, sem futuro, já que o futuro nos fará diferente do que somos e seremos outro, portanto.

Enquanto pagava sua conta, pensou o que Espinosa poderia dizer-lhe depois desse encontro. Talvez ele apenas diria:

-Alegre-se pelo que tens. Que bom que podes vir nesse belo lugar e poder tomar esse chá quente em um dia frio. Mais do que pensar no que te falta, veja o que a vida te proporciona e valorize! Seus desejos serão amenizados. Sempre haverá uma insatisfação, mas o que esperar de quem tem apenas um tempo para viver? Esse espaço em aberto que chamamos desejo, é por onde nasce a criatividade, que nos empurra avante, para sermos o que ainda não somos.

Quando voltou para a rua a noite já chegara. No inverno os dias são menores e uma golfada de vento gelado crispou seu rosto. Mas por dentro estava quente, não só pelo chá, mas por ter percebido que há um mistério chamado vida para ser vivido e descoberto, até que mudemos de forma, como afirma Espinosa.

Lembrou de ligar o celular e a internet lhe avisou de mais um atentado com mortes na Europa. Resolveu não deixar a tristeza diminuir sua potência de viver. São os que matam em nome de um deus que querem empurrar goela abaixo, ou simplesmente serem heróis de alguma coisa e dar sentido a vidas medíocres.

O que virá depois?

Não importa, pois enquanto pensar nisso, a vida “agora” não é vivida. Pensou que Nietzsche lhe daria um tapa na cara se estivesse diante dele.

Seria mais que merecido!

O Roubo

Depois que abriu a porta levou tempo para entender o que tinha acontecido.

Quando se mora só, as coisas não mudam de lugar nem desaparecem, ainda mais ele, que era metódico. Uma sensação física passava a informação que alguma coisa ruim tinha acontecido. Sentiu uma rajada de vento. A Janela estava escancarada e os pedaços de vidro no chão completaram o quadro.

Olhou à direita e viu que sua televisão de 42 polegadas não estava mais lá. Um arrepio percorreu seu corpo. Largou a pasta no chão e correu para o quarto, direto para as caixas de sapato que ficavam embaixo do guarda roupa. Freneticamente empurrou todas para o lado e foi direto a última delas, onde um chinelo velho era o último obstáculo que encobria suas economias de anos.

Nada…

O dinheiro fora retirado e o chinelo e os papeis que ficavam embaixo foram recolocados no lugar.  Desabou no chão, mas não conseguia nem chorar.

Depois de alguns minutos foi até o canto da sala e a garrafa do seu melhor whisky também tinha sido levada. Somente a marca do pó em forma circular lembrava que nessa semana a diarista não tinha passado por ali.

Com o tempo, avaliou os prejuízos e só pode pensar que muitos anos de trabalho que tinham se transformado em pequenos confortos desapareceram e agora estavam sendo desfrutados ou trocados por ninharias, por pessoas que nunca saberiam o quanto tudo tinha sido sofrido.

A sensação de ser roubado é de raiva e impotência. Raiva por ter conquistas subtraídas como se nada valessem e a impotência de nada poder fazer para que isso seja reparado. Resta apenas a lamentação e a frustração. Agora entendia as pessoas que reagiam a assaltos. É uma invasão, uma profanação à individualidade.

Foi até a delegacia e fez a queixa. O funcionário de plantão, provavelmente cansado de descrever injustiças e crimes em formulários, não demostrou simpatia pela sua angústia. Fez perguntas sonolentas e digitava movido a suspiros, provavelmente resultado de uma longa jornada de trabalho.

Quando terminou, coçou o queixo e mostrou um aviso grudado no vidro que os separavam, onde constava que esse tipo de queixa poderia ser feita pela internet e o boletim de ocorrência impresso em casa.

Nem respondeu, mas sua vontade era gritar se ele não tinha percebido que seu computador também tinha sido roubado!

Pensou que era difícil imaginar que alguém além dele se preocuparia com sua perda. Queria compartilhar sua indignação nem que fosse com o plantonista. Ninguém pensa que sua queixa  registrada em alguma “nuvem”,  seria investigada em algum momento.

Por isso, quase perguntou se o roubo mereceria alguma atenção, mas desistiu. Sabia que a resposta seria a de sempre; outros crimes graves não conseguiam ser apurados por falta de pessoal e equipamento. Além disso, esse tipo de ladrão nem na cadeia ficava por falta de espaço.

 Sua raiva silenciosa chegou ao limite, misturada ao cansaço.

Os pensamentos giravam com grande velocidade e só o que lhe vinha à mente era fazer mais uma varredura em casa para descobrir se mais coisas tinham sido roubadas.

Quando retornou, viu os vizinhos com suas luzes acessas e televisões ligadas. Para eles, era apenas mais um dia, dos tantos que ele mesmo teve, sem nunca imaginar que algo assim um dia poderia acontecer.

A vida dá reviravoltas inesperadas e essa falta de segurança é o que mais incomoda. As boas notícias nunca conseguem chegar nem perto das más, no que se refere a importância que damos a elas.

O saldo desse dia era muitas prestações a pagar de coisas que não tinha mais. Como sempre acontece nessas horas, perguntou onde estava Deus? Porque tantas pessoas corretas eram atingidas como ele?

Isso era alguma “mensagem” divina? Com certeza não.

Vai que não existe nada e estamos sempre sós, a mercê da sorte. Não existe ninguém que cuida de ninguém. Decidiu trocar o dízimo por um sistema de vigilância, esse sim poderia, pelo menos, ser cobrado por ineficiência! Ao pensar em abandonar sua religião por ter sido roubado percebeu que sua fé também era uma espécie de troca.

Chegou a rir quando foi jantar ao notar que a única cerveja que tinha na geladeira também fora levada. Miséria pouca é bobagem, diz o sábio ditado. Pegou o celular para ligar a um amigo e contar mas desistiu. Já imaginava que ouviria aquelas consolações que só servem aos outros como “vão-se os anéis e ficam os dedos”, “poderia ter sido pior, imagina se você está em casa? ” Ou a inigualável: “Deus sabe o que faz, confie! ”

Nunca mais esqueceria desse dia, principalmente dessa indignação e desamparo. A violência havia entrado no seu reduto mais sagrado. Foi doloroso perceber-se igual a todo mundo.