Agenda

Os mundos

De longe, dava somente para ver os olhos grandes e arregalados. Um bico azul escondia a boca e fazia uma boa combinação com as bochechas rosadas. Eu estava do outro lado da rua, esperando a boa vontade de alguém parar e deixar que atravessasse na faixa de segurança.

Ele estava na parada de ônibus, no colo da sua mãe. Ela o sacudia e isso o deixava desconfortável. Queria ver o mundo, mas como fazê-lo subindo e descendo sem parar? Dava para notar que a jovem mãe não estava ali. Estava no mundo dela, pensando no trabalho, nas dificuldades e sonhos que não deram certo. Seu olhar perdido poderia também estar no futuro, imaginando seu filho crescido, naquele mesmo lugar indo para o trabalho, quem sabe com sua mesma tristeza. Nela, não havia brilho.

Poucos segundos depois ela parou e ele pode olhar o mundo. Olhos brilhantes vendo as pessoas que passavam, carros coloridos e, quem sabe, alguém o observando do outro lado da calçada.

Do pouco dos seus dois anos o mundo é uma novidade. Nessa idade não temos passado nem futuro e até respiramos diferente. Quando não estamos alucinando, o tempo é outro e dá até para esquecer quem e o que pensamos que somos.

A mãe com suas preocupações, eu com as minhas. Ambos querendo controlar a vida, medo que nunca acaba. Ele não tem nada para esquecer, nada para pensar a não ser ir juntando as peças desse quebra-cabeça que sempre muda a imagem final.

Estávamos ali, os três no mesmo lugar, ao mesmo tempo, em mundos diferentes.

Percebi um carro passando vagarosamente. O motorista maneia a cabeça ao me olhar. Provavelmente parou para que eu atravessasse e, perdido em outro mundo, não percebi.

“Gente louca”, deve ter pensado.

Agora, nossos olhares se cruzaram.

Outro carro diminui a velocidade, acende as luzes para avisar aos outros e a mim que chegou minha vez. Enquanto atravessava a faixa ele me olhava fixamente, só o bico fazia pequenos movimentos.

O que acontecia na cabeça dele? Curiosidade que nunca terá resposta, assim como tantas que insistimos em encontrar. Perda de tempo em um mundo que só tem graça pelas perguntas.

Vivemos cada um em seu mundo com nossa interpretação particular, onde um final feliz é questão de tempo, de sorte ou quem sabe de um sonho que finalmente se realizará. Sentimo-nos especiais, pensando que o mundo foi feito para nós em um enredo com oito bilhões de coadjuvantes.

Seu mundo está recém sendo construído, mosaico com peças que colhe da família, das alegrias e tristezas que fazem parte dessa contabilidade que poderá tornar o enredo mais ou menos doloroso. Um dia, de alguma forma, os significados que lhe deram não farão sentido quando confrontados com a vida real. Restará rever e refazer o enredo como todos que descobriram que a crueza dos embates no mundo é bem menos romântica e épica, comparados as histórias que crescemos ouvindo onde o tudo dará certo no final.

 Como todos, ele criará cenários ideais para finalmente poder relaxar. Poderá um dia dizer que perdeu a oportunidade de sentir-se feliz, assim como eu perdi a chance de atravessar enquanto estava em outro mundo.

A mãe nada percebeu. Estava no celular, entretida com as notícias e a vida espetacular dos amigos que, com certeza, tiveram dias perfeitos. Aquela manhã trazia sol e pouca nebulosidade, e  tudo estava mais colorido. Hora de postar fotos, enaltecendo a obra da criação e a graça por recebermos um dia tão lindo!

 Provavelmente, nesse mundo redondo e cheio de diferenças, em algum outro lugar uma chuva forte, vento ou tremor poderia estar desabrigando e matando, mas aí é a fúria da natureza que sempre divide o poder com cenários espetaculares, arco íris, praias ensolaradas e finais de tarde de tirar o fôlego.

Quando passei por ele dei um sorriso e quase balbuciei um “boa sorte”. Os olhos grandes apenas me acompanharam até que desaparecesse na esquina.

O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.

Para que(m) serve a Verdade?

“Tive, portanto, que suprimir o saber para obter lugar para a fé”

     Kant – Prefácio da segunda edição da “Crítica da razão pura”

                   

“Convicções são prisões”.

                         Nietzsche

                                                                            comunicação-persuasiva-marketing-com-digital

No prólogo de “Além do bem e do mal” Nietzsche afirma, como sua primeira frase, que a verdade é como uma mulher. Como prever uma mulher, o que há de objetivo em uma essência subjetiva? Penso que o seu desejo foi dizer que “verdades” não existem.

Como poderiam existir verdades se não existem duas pessoas iguais?

Para Nietzsche, a verdade é algo que faz mal, já que ela estanca a vida, ou seja, toda verdade é uma espécie de morte. Uma verdade é o fim de qualquer processo. Fácil observar que ele tem razão, e para isso basta observarmos o próprio desenvolvimento da ciência. Nada deixa de ser verdade com tanta frequência como na ciência, afinal ela está sempre em movimento, como tudo que está vivo. Manteiga, café, banha de porco, a forma da terra, Deus Sol e tantas outras verdades que viraram mentiras.

Quem já não fez promessas e percebeu que o tempo não nos ajuda a mantê-las? Mesmo as que fizemos a nós mesmos, sem que ninguém saiba, já não as revogamos por nos tornarmos pessoas diferentes? O próprio conceito de “culpa” não é a mais derradeira confirmação de que verdades não existem? Quando nos sentimos culpados de qualquer coisa, significa apenas que a pessoa que nos tornamos faria diferente do que já fomos. Sempre fazemos o que é “verdade” a cada momento de nossa vida, pelo que somos. Mudamos inevitavelmente, mudam as verdades.

O que podemos refletir é que, seja qual for a verdade, ela tem só uma finalidade: nos oferecer estabilidade em um contexto instável. Ao nos depararmos com um mundo caótico, onde o absurdo é sua natureza, as verdades que escolhemos nos ajudam a explicá-lo e trazer algum conforto, parecido com o colo de mãe. Desde a primeira tempestade que presenciamos na infância e corremos para a cama dos pais, descobrimos que esse mundo tem muito mais força que nós e a única saída é uma explicação, normalmente acima da razão, para darmos a isso tudo algum sentido. O que muitas vezes esquecemos é que só em um mundo sem sentido poderemos ser individuais, exercermos nosso direito à diferença.

Atualmente as religiões, sejam as que têm um Deus, ou mesmo as que não têm, como o Budismo, recebem e perdem adeptos todos os dias, simplesmente porque fatos da vida (que por ser caótica não tem nada a ver com justiça), trazem decepções que as pessoas esperam não ter, por sentirem-se protegidas pela sua religião. Assim como trocamos de fornecedor quando ele nos decepciona, essa alta rotatividade religiosa é resultado de um mercado cada vez mais aquecido. Quem sabe a próxima verdade não me garanta uma vida sem atropelos?

Esse sentido não vem só das superstições que escolhemos, ou nos são impostas, mas também de um artifício de dominação muito sutil, a linguagem. Como diz com muita propriedade Viviane Mosé (em seu livro sobre a filosofia de Nietzsche) sobre o assunto: “Não há unidade nem identidade no sujeito, toda identidade resulta da palavra…a identidade do sujeito é a ficção que tem como função atribuir identidade as coisas. Mas a identidade somente existe na linguagem. E é a linguagem que permite a construção da ficção de um outro mundo, um mundo de identidades estáveis, de coisas e sujeitos de valores eternos”.

Se a vida é movimento e mudança, toda e qualquer verdade (que sempre vem pela linguagem) é uma tentativa de oferecer uma ideia de mundo que traga estabilidade e alguma segurança. O problema é que quando recebemos uma palavra com seu significado estamos sendo, por isso, obrigados a vermos tudo com o mesmo olhar. Isso é uma afronta a única diferença que temos diante dos animais; escolhermos, pela nossa liberdade intrínseca, a maneira como queremos ver o mundo. O uso da linguagem para atribuir significados a priori é a mais violenta forma de escravidão.

Nada na natureza se repete, nem uma folha sequer, e todas têm o mesmo nome! Independentes de serem triangulares, mais ou menos verdes, todas são folhas. E mesmo as folhas da mesma árvore nenhuma é igual a outra. A natureza não se repete, seja nas folhas, pedras, animais e o que dirá na sua forma mais exuberante, o ser humano. Mesmo que a biologia já saiba que nunca existiram duas pessoas iguais, quando, por exemplo, submetemos todos aos mesmo método de ensino, com as mesmas aulas, parte-se do pressuposto de uma igualdade.

 É um sistema que busca sufocar as diferenças, ou seja, tirar a humanidade de cada um. Pergunte a um engenheiro o que ele achava das aulas de história e filosofia. Da mesma forma que a um jornalista ou advogado sobre as aulas de química e física. Felizmente, a Europa já tem escolas onde o aluno escolhe o que vai querer aprender, respeitando a individualidade. Ao atribuir significado às palavras, universalizando currículos escolares, tornamos isso verdades e assim criamos pessoas que passam no Brasil doze anos entre o ensino fundamental e médio tendo aulas que nunca serão úteis em suas vidas e o que é pior, tornando o aprender um sofrimento.

E isso vale para tudo, inclusive conceitos como: certo, errado, Deus, moral, juventude, educação e toda e qualquer palavra. A quem interessa sermos todos iguais, a vermos o mundo de um mesmo jeito? A resposta é simples; a quem quer manter o poder e o controle sobre seres que, tendo como essência a liberdade, precisam ser aprisionados em seu pensamento.

No aforismo 17 de “Além do bem e do mal”, Nietzsche afirma: “Um pensamento vem quando ele quer e não quando eu quero; de modo que é um falseamento da realidade afetiva dizer: o sujeito ‘eu’ é condição do predicado ‘penso’”. Não há, portanto, alguém que pense, o pensamento é tudo, ou como diz Nietzsche “não é o homem quem pensa, mas a vida”. Com isso, Descartes precisaria rever-se, mas já era tarde.

Obviamente não pensamos o que queremos, o pensamento é o resultado do corpo na sua relação com a vida, seja aumentando sua vontade de viver pela alegria, seja diminuindo essa vontade pela tristeza. O pensamento então é resultado de um conflito intenso entre o corpo e o mundo. Quando, por exemplo, recebemos algumas “verdades” como: viver é sofrer, o sofrimento purifica, o reino dos céus será dos que sofrem, felicidade dura pouco, etc. imagine o que esse tipo de significado faz com nosso metabolismo. Não é à toa, que à medida que o ser humano evolui, ganhando mais consciência, “verdades” como essas só aumentam a ansiedade e suas consequências, como o uso de drogas legais e ilegais e o crescente aumento dos índices de suicídio, por exemplo. Essa cultura nega a vida em sua essência, com seus significados que tentam explicá-la e dizendo como devemos viver. Vou usar o exemplo de Nietzsche: “Por fim trata-se de saber com que finalidade se está mentindo. As finalidades são ruins: envenenamento, negação da vida, desprezo pelo corpo , o aviltamento e a autoviolação do homem pelo conceito de pecado”.

Como afirma Nietzsche em “O Anticristo”, os ideais de como devemos ser para atingirmos a santidade aqui na terra precisam negar a realidade, a saúde, a alegria, a beleza, a valentia e o espírito. Precisamos ser anêmicos, doentes e abrirmos mão de toda alegria.

Vida não se explica, vive-se!

Nietzsche afirma que o quanto se pode avaliar em um espírito é o quanto de verdade ele suporta. Sendo que a “verdade” a que ele se refere é o de ver e agir na vida com olhos e interpretações próprias. A vida como ela é, sem explicações metafísicas. Se estamos frágeis diante do mundo, é o medo que nos leva a busca de conhecer para podermos sobreviver. E isso é a vida, conhecer por si.

Diferente de Sócrates que pregava um não saber que somente levava à dúvida, poderemos ir além, em um não saber para podermos dar significados pessoais ao mundo. Toda regra, moral e lei, busca nivelar por baixo, solapando instintos da vida e aumentando a tristeza. Os resultados estão nas farmácias!

Somos o que somos e o que deveríamos ser, como dizia Kierkegaard. Quando o que deveríamos ser fica distante, essa lacuna é preenchida pela doença, seja emocional ou física.

Nada errado em acreditarmos em conceitos ou saídas que estejam além da razão, mas o que não se pode é perder o que existe pelo que é apenas uma expectativa que nem é nossa, mas vem de interesses que nem sempre são sadios. Um dos artifícios do domínio pela linguagem, por exemplo, é nos vender futuras vidas em troca da anulação desta. Vivemos essa barbárie sem sequer questionar, duvidar. Incrível!

Nietzsche é o filósofo que mais vende livros há décadas. Suas ideias são “perigosas” para todo o status quo vigente. Lê-lo pode ser inicialmente um ato de rebeldia ou de encontrar uma saída para esse sistema que já faliu. Mas cuidado, ninguém o lê impunemente. Ele é um fogo de vida e não se fica impune a esse encontro. Como uma previsão que um dia ele seria entendido, afirma: “Só o depois de amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos”.

Para quem gosta de “verdades” ou lembra com saudade da cama dos pais depois das tempestades e pesadelos ou do colo da mamãe sugiro que fique longe dele!

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Para arriscar-se mais:

Nietzsche e a grande política da linguagem – Viviane Mosé. Ed. Civilização Brasileira.

Além do Bem e do mal – Nietzsche – L&PM editores

O Anticristo – Nietzsche. L&PM editores

A velha TV

Nem todo mundo que faz sua caminhada cedo pela manhã, necessariamente acorda cedo. Eu, começo a despertar no final do primeiro quilômetro, lá pela terceira música que toca no celular com o volume bem baixo, para não irritar. Como nada é somente ruim, o automatismo das ações antes de sair e do mesmo trajeto, ajudam a fazer tudo isso sem precisar estar, necessariamente, acordado. Diria algum especialista em sono que este estado, nem lá nem cá, chama-se hipnopômpico.

Pois assim estava, “hipnopompicamente” caminhando quando me deparei com uma televisão jogada fora. Como hoje, somos todos fotógrafos e cinegrafistas, resolvi clicar, mas sem nem saber o motivo. A esperança é que quando acordasse aquilo faria algum sentido ou seria mais uma dessas ações que terminam em nada.

Alguns minutos depois, não sei se levado pela música que ouvia ou por falta do que pensar, a imagem da televisão na calçada me veio à mente e junto com ela algumas sensações e pensamentos. Somos movidos por tantos estímulos que nem nos damos conta que nossas escolhas e suposta liberdade, até mesmo de apenas pensar, sejam realmente nossas?

A televisão nem era tão antiga assim, pensei. Era do tempo do tubo de imagem, o que sempre exigia um espaço para que o aparelho “respirasse”, não podendo encostá-la na parede. Hoje, as televisões ultramodernas, pelo visto, dispensam o oxigênio. Lembro das primeiras, na minha infância com a parte de cima em madeira, antena longa e seletor de canais redondo, que girávamos como uma maçaneta. Naquela época, mudávamos pouco de canal, não só por termos poucas opções, mas precisávamos levantar e dava preguiça. Controle remoto só veio mais tarde, causando um assombro de tecnologia. Por ali fomos ficando mais preguiçosos, e logo em seguida, os carros tinham os vidros elétricos. Viramos reis, vontades atendidas em um toque!

Para os mais jovens, onde tudo é touch screem, isso é tão fora da realidade quanto um selo de carta, mas como diziam os antigos: Recordar é viver…

Como não era tão antiga assim? Foi um pensamento abrupto.

 Caí na realidade e percebi que ultimamente nada para mim é “tão antigo assim”. Depois de uma idade, precisamos encurtar o tempo, fazer de conta que os anos têm seis meses, ou que tudo é mais veloz do que realmente é. Mente e corpo vão se separando depois dos cinquenta. Um dói aqui e ali e o outro insiste em uma juventude onde tudo é mais fácil, sem joelhos, dores de coluna ou óculos que aumentam o grau a cada ano.

Hoje, onde tudo é Smart, essa velha senhora perdeu a validade. Tomara que tenha morrido, tenha sido largada na rua por não funcionar mais. Seria desrespeitoso pô-la fora ainda funcionando, apenas por não oferecer os recursos modernos. Mais ou menos como se faz com as pessoas no mercado de trabalho.

Por mais que ela não tenha sido brilhante, tenha só servido para novelas, os jornais de sempre e os imortais programas dominicais que, pasmem, já existiam antes dela e continuarão até os modelos que ainda nem imaginamos, ela conseguiu aumentar o tamanho do mundo de quem assistia.  Mas nem isso garantiu-lhe algum respeito. Não serve mais, ninguém quer e, se estava doente, não valia a pena pelo preço do conserto.

Triste fim.

Quem sabe, um dia não esteve conectada às primeiras parabólicas, tão grandes quanto a que a NASA usa para receber mensagens do espaço. Imagem limpa, mas nada como o HD de hoje em dia, onde as atrizes precisam de muito mais maquilagem para que eventuais espinhas e falhas na pele não as denunciem como mulheres iguais às que vemos nas ruas.

Um dia, essa televisão era o que tinha de mais moderno, mas o tempo, que torna tudo cada vez mais obsoleto rapidamente, a fez chegar a velhice sem sequer ter terminado de ser jovem.

Nós, da geração do seletor de canal, do celofane azul e amarelo para transformar o preto e branco em bicolor estamos passando como ela. Só o que permanece é a Maizena e o Sílvio Santos, holograma que ainda imaginamos vivo.

Na volta da caminhada ela não estava mais lá. Levada pelo caminhão do reciclável, reencarnará em algum plástico e nunca ninguém poderá imaginar sua vida passada, quando ver apenas uma torradeira ou um ventilador. Já o tubo de imagem, por onde assistíamos a emoção e a tragédia, esse não tem mais jeito. Precisará terminar, vida única, sem paraíso ou inferno.

Hoje também vamos para a reciclagem como doadores de órgãos, ato sublime de despedida, dando utilidade ao que temos de plástico. Mas nossas histórias, alegrias e tristezas não têm chance. Desaparecerão e terão algum eco na memória dos que ficam, cada um com seu jeito de lembrar de nós.

No fim, posso só ter usado essa televisão para ficar pensando, talvez imaginando tudo apenas para ocupar a cabeça.

 Mas afinal, isso não tem problema, fazemos isso o tempo todo com tudo e todos que estão a nossa volta.

Ambição e Necessidade

“ Poucos veem o que somos, mas todos veem o que aparentamos”.

                                                    Maquiavel

 

“O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.”

                                                     Nietzsche

“Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho.”

                                                     Ambrose Bierce in Dicionário do Diabo

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Maquiavel foi um dos muitos injustiçados da história. Ter seu nome vinculado a atos de maldade e interesses escusos é no mínimo uma constatação de que não foi lido. Seu grande mérito, em meu entender, foi transformar Reis e Príncipes que, em sua época, só prestavam contas a Deus, em políticos. Políticos são pessoas comuns, como eu e você, que querem o poder e, para tanto, fazem o que deve ser feito. E aqui cabe já uma curiosidade: Maquiavel nunca escreveu que “os fins justificam os meios”. Essa frase famosa nada mais é do que uma interpretação ou tradução malfeita. Poucos em tão poucas linhas (seu livro O Príncipe é pequeno) desnudou a natureza humana com tanta precisão e sem afetamentos. Maquiavel nunca falou de um homem idealizado mas do real, que quer atender seus desejos e busca a felicidade pelo caminho que sua capacidade de percepção permite.

Aliás, é nesse ponto que podemos começar: existe mesmo uma “natureza humana”?

Alguns, como Heidegger, dizem que não; que nossa natureza se faz na medida em que vivemos, que somos sempre uma possibilidade muito moldada pelo contexto onde estamos inseridos. Que o fato de vivermos em grandes conglomerados nos empurram para sermos muito parecidos uns com os outros e isso se dá pelos limites de expressão cada vez menores que temos como condição de podermos viver junto a uma grande quantidade de pessoas. Heidegger diz que o homem que vive mais junto a natureza e com menos pessoas a sua volta consegue uma originalidade maior em seu Ser, na medida em que está menos pressionado. Poderemos, para apoiar essa ideia, nos perguntarmos se existe um número menor de doenças emocionais em quem vive em lugares menores em comparação a centros urbanos mais povoados.

Seria lícito observarmos que, à medida que a sociedade se “desenvolve”, cada vez mais aumenta o número de pessoas com doenças ligadas a ansiedade, visto que o cerco está se fechando cada vez mais em termos de expressões individuais. Cada vez precisamos seguir mais um padrão de normalidade, o que negaria a biologia, já que para esse ramo da ciência não existem duas pessoas iguais.

A ansiedade, conhecida como o “mal do século”, é definida como um sentimento de apreensão em relação ao futuro, um medo constante de que algo que tememos venha a acontecer. Aqui poderemos, usando da liberdade, dar mais um passo e dizer que em um nível mais profundo, a ansiedade é o medo de nunca sermos únicos em relação aos demais, da originalidade que nunca se expressa.

Para quem entende que existe uma natureza comum a todos os humanos se apoia na ideia que temos semelhanças entre os homens, e isso só poderá acontecer se houver algo em comum.  Podemos, em tese, sermos tudo que outros seres humanos já foram, colocando até um toque pessoal. Mas mesmo que possamos ser qualquer coisa, não quer dizer, necessariamente, que realmente seremos isso ou aquilo. É como se a ideia de uma natureza comum se baseasse em um potencial que todos temos, mas sabemos que um potencial não quer dizer sua efetiva realização.

Esse é um assunto polêmico que não chegaríamos a uma conclusão, mas Maquiavel faz uma dura assertiva que nos coloca dentro de um padrão comum; que os seres humanos só agem por ambição ou necessidade. Se ele estiver certo, mais do que termos algo em comum, além da constituição física, somos todos prisioneiros.

Quando agimos por necessidade não temos escolha. A necessidade está ligada a sobrevivência e isso tem vários níveis, não só não morrer de fome. Necessidade também está ligada a um desejo que precisa ser atendido rapidamente, sob pena de nos trazer sofrimento. A necessidade não nos dá muitas escolhas e o que muda é a categoria: urgente ou emergência. Assim, não temos muita liberdade e nossas ações são mais reativas, já que estão sendo impulsionadas por uma pressão interna. Agir por necessidade não é um ato livre ou proativo já que é um desejo extremo a ser satisfeito que está na origem do ato.

Já ambição, ah…a ambição! Maquiavel diz que somos todos ambiciosos, e até querer não ter ambição alguma não deixa de ser uma espécie de ambição. Quando quero ser visto, por exemplo,  como alguém “superior”, que é desapegado da materialidade, quase um santo, a ambição de ser admirado e elogiado é o desejo a ser satisfeito.  Aqui também está presente uma necessidade que se ambiciona.  Afinal o homem é um ser desejante, age por desejo, busca realizá-los e é isso que o move na vida. Quando dizemos que não desejamos algo é somente por dois motivos: não entender que aquilo possa fazer-nos mais felizes ou não nos achamos em condições de obter tal desejo. Temos uma forte tendência de dissimular nossas ambições, até como uma condição para que elas possam se realizar um dia. Ambicionar viver longe de todos em uma praia deserta ou em um bosque lindo é simplesmente um desejo de fugir de constatações sobre nós mesmo que, por não serem muito agradáveis, projetamos sobre os outros.

 Ambição é tão institucional em nossa sociedade de consumo que não pega bem em uma entrevista para auxiliar de escritório de uma multinacional dizer que você não almeja ser o CEO no futuro.

Júlio Pompeu, em seu ótimo livro sobre Maquiavel diz com precisão:

“Nossos desejos são ilimitados. Eles não são uma demanda do corpo pelo que lhe falta, mas muito mais do que isso, são demandas por tudo que não possuímos. Se os desejos fossem apenas uma demanda do corpo físico, uma busca pelo que ele necessita para viver, como água, alimento, etc., então a saciedade do corpo seria o limite dos desejos. Mas nosso desejo não tem limites. Eles são a demanda do homem como um todo. De sua inteireza: corpo físico e psíquico. Desejamos não apenas o que falta ao corpo, mas também o que falta ao espírito, como riquezas, prestígio, honrarias, poder, etc.

O corpo físico é saciável, o espírito não. ”

E arremata dizendo que “a ambição é apenas uma valoração cínica ou alienada do desejo.” E nunca podemos esquecer que junto com a ambição nasce a esperança de que ela se realize. Para Maquiavel, essa combinação leva o homem para o abismo, já que ele pode perder a capacidade de avaliar seus riscos.

Assim, ambição e necessidade são como tijolos unidos pelo desejo. Essa para Maquiavel é a nossa natureza comum e isso não deve ser visto como bom ou ruim, simplesmente é assim.

A ambição nos faz maus, já que não queremos ser assim e os desejos nos enfraquecem por não os conseguir, todos.

Ter essa consciência é o que pode mover o homem para evitar que seja arrastado como tantos outros já foram, e são diariamente, por atitudes que os desonram. Se Maquiavel fosse vivo em nossos dias ele seria muito previdente contra essa fúria que pede a execução em praça pública dos corruptos. Ele simplesmente diria que os que desejam a execução sumária nunca tiveram milhões à sua frente para poder recusar.

As ideias de Maquiavel sobre como somos não são o que nosso ego gostaria de ouvir. Mas a atualidade dos seus pensamentos, tantos séculos depois, mostra que poucos foram tão efetivos e objetivos em nos desnudar. Muitos outros, falaram de um tipo de homem idealizado, potencialmente bom, piedoso e com outras qualidades difíceis de encontrar na realidade. Kant com seu imperativo categórico de uma ação universalmente boa e totalmente desinteressada ou Rousseau, com uma certa ingenuidade, quando diz que o que nos torna maus é a sociedade e que é ela que devemos mudar para que nossa natureza piedosa aflore, falam de utopias. Nossa capacidade de fazer o bem é a mesma de fazermos o mal, e isso, para Maquiavel, serão ações sempre tomadas por desejo ou necessidade.

Somente nos aceitando como somos que poderemos ir além ou, apesar de ser como somos, sermos melhores.

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Para saber mais:

Somos todos maquiavélicos – Júlio Pompeu. Editora Objetiva, 2011.

O Príncipe – Maquiavel – obra de domínio público.