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Formigas que pensam

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Eles estavam lá. Lado a lado, eram mais de trinta.

Altos e imponentes, eucaliptos tem características próprias; os adultos, como esses que estavam à minha frente, tinham troncos altos e lisos. Só lá em cima, galhos e folhas. Pareciam um muro, uma cerca, de quarenta metros de altura demarcando limites, foi o pensamento que me ocorreu.

Foi quando começou a ventar. Vento e eucaliptos tem tudo a ver, apesar de não precisarem um do outro. Os galhos começam a se mover e fazer um som todo especial.

Fiquei observando.

Enquanto essa “dança” acontecia, percebi que não era uma ação de domingo, dia de descanso para contemplação. Dias da semana, horários, são coisas dessa gente pequena, como nós. Eles, os que vivem vendo no alto, devem ter conosco a mesma relação que temos com as formigas.

Eles estão acima disso, não precisam de nada, só da chuva vez por outra e do vento, para cantar e dançar. De vez em quando, o tronco se libera da roupa velha e eles ficam lisos e nus, para recomeçar. Ano a ano, décadas, sem pressa. Tudo vai acontecendo no instante, sem horário, sem nada que precise ser controlado, esperado ou necessário. Nós, humanos, somos seres que se pressupõem livres. Essa liberdade nos faz agir na natureza como se ela fosse nossa, que estivéssemos acima dela.

Dias, noites, calor, frio, vida e morte. Isso existe só para nós e só pode ser por não entendermos. Deve ser por isso que queremos controlar tudo; o medo que a ignorância traz.

O movimento era lento e os pássaros que também passam rapidamente pela vida, característica de corações acelerados, estavam mais preocupados em cantar seus solos e cada um vivia por si e dava certo no conjunto. Orquestra de estranhos, sem ensaio. Nada tinha a ver o vento com a árvore e os pássaros, tudo age por si, pois essa é a natureza de cada coisa.  Tudo ali estava certo e uma sensação de harmonia era possível, porque ela não era necessária. Quando precisamos de alguma coisa, a tensão e a falta de naturalidade são invitáveis.

Há quem diga que tudo ocorre por necessidade, mas se essa necessidade for natural o nome está errado. Para nós, aqui em baixo, a necessidade é uma espécie de urgência e toda urgência precisa ganhar espaço e prioridade. É quando somos mais importantes que tudo.

Pensei em contar aos eucaliptos sobre alguns pensamentos, coisas que poderiam ser diferentes do que são. Lá estava eu, de novo, querendo que tudo fosse do jeito que eu achava certo. Os eucaliptos talvez não rissem, já que devem saber como somos, mas ficariam impassíveis para que me desse conta que tudo isso é grande demais para ser entendido, ou que não há nada para ser entendido, tudo é como é e pronto. Tanto faz!

Tudo ficou pequeno naquele momento; minhas preocupações, a maldade, a bondade, as grandes e más ações, os crimes, a angústia de não saber isso ou aquilo, o futuro… Não estava acontecendo nada, só o vento de sempre, balançando os galhos, como sempre. Talvez o que não fosse o de sempre foi perceber que não há nada para ser mudado, descoberto ou decifrado.

Eu sei que os eucaliptos não pensam, não ambicionam ou desejam. Estão abaixo na hierarquia desse mundo. Talvez seja por isso que o resultado deles é melhor, assim como o dos pássaros, das formigas e de todo o resto. Somos muito melhores, mais capazes e criativos, mas isso não tem nos ajudado a vivermos melhor. Estamos destruindo a nós e ao mundo. Precisamos atender nossa necessidade, afinal.

Quando eu não estiver mais, seja do jeito que for, o vento vai passar por lá, naturalmente, movendo essas grandes árvores esguias fazendo esse barulho gostoso e poderá ter alguém como eu, esteja lá perdendo tempo pensando em vez de só ver, só ver.

Eu e o Mundo

“Saiba,

Todo mundo foi neném

Einstein, Freud e Platão também

Hitler, Bush e Sadam Hussein

Quem tem grana e quem não tem

 Saiba:

Todo mundo teve infância

Maomé já foi criança

Arquimedes, Buda, Galileu

e também você e eu

Saiba,

Todo mundo teve medo

Mesmo que seja segredo

Nietzsche e Simone de Beauvoir

Fernandinho Beira-Mar

 Saiba,

Todo mundo vai morrer

Presidente, general ou rei

Anglo-saxão ou muçulmano

Todo e qualquer ser humano

 Saiba,

Todo mundo teve pai

Quem já foi e quem ainda vai

Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé

Ghandi, Mike Tyson, Salomé

 Saiba,

Todo mundo teve mãe

Índios, africanos e alemães

Nero, Che Guevara, Pinochet

e também eu e você”.

                                                         Saiba – Arnaldo Antunes

Estamos a todo momento, quer queiramos ou não, sendo mudados pelo mundo e provocando mudanças. Em um primeiro momento dessa reflexão, parece que o mundo nos muda mais, afinal é mais forte e avassalador. Mas quem é, afinal, o Mundo?

O Mundo são as pessoas que encontro todo dia e que me modificam. Diz Deleuse, que só pensamos em conjunto e é verdade! É no encontro com o outro e com tudo que me rodeia e penso que me torno novo, imprevisível e indefinível. Existem encontros que nos enchem de alegria e essas pessoas nos mostram o que temos de melhor. Nelas, nos eternizamos positivamente, já que nos afetam para melhor e vice-versa. Nas que nos incomodam ou nos despertam raiva, poderíamos aproveitar para procurar entender o que temos em comum com elas que preferimos não ver. No fim, todas nos fazem ir adiante em cada encontro, sempre novo na essência já que chegamos ali trazendo mudanças de outras pessoas e da vida.

Aliás, buscamos definir tudo e todos com objetivo de termos alguma segurança e previsibilidade. Medo da mente que a vida ri com desdém, trazendo surpresas a cada segundo, bastando olhar em volta. Mas não adianta, queremos definir, explicar e congelar os outros, seja em uma definição seja em uma explicação boba sobre os porquês de tudo, seja por nos empurrarem uma reverência sem sentido a deuses com pés de barro, como bem disse Nietzsche.

O Mundo é o clima, o acidente que aconteceu em algum lugar que a internet informou em tempo real para que imaginasse que poderia acontecer comigo. O Mundo é a angústia que dá assistindo um idiota sentado no trono dizendo que produzir é mais importante que o ar que respiramos. O Mundo também é um sorriso de indisfarçável alegria quando um touro mata o toureiro na Espanha e mostra que o torturador também encontra uma réstia de justiça em algum momento. E o mundo é, principalmente, aquelas pessoas que fazem você descobrir coisas a seu respeito que nem imagina que é ou sabe.

O Mundo me muda quando noto que tudo está sempre por um triz em um eterno jogo de coincidências bizarras que dá uma sensação de ignorância só de tentar entender algum nexo entre elas. O Mundo me muda em uma paisagem do final de tarde onde me permito parar e ver como a natureza funciona com perfeição em um belo quadro de cores, mas que ela também deve ter seus motivos para as enchentes e terremotos que podem me mudar e tirar a vida e sonhos de tantos sem que encontremos um motivo. Na verdade, tudo muda quando percebo que procurar os motivos de forças maiores que eu, é uma grande perda de tempo, aliás, pode nem ter mesmo algum motivo.

O mundo me muda quando a realidade mostra que as histórias que ouvi desde pequeno, contadas por pessoas queridas que tinham tanto medo desse desamparo, que podem ter feito mais mal do que bem, quando tiraram de mim a capacidade de mudar meus caminhos, sujeitando minhas decisões a alguma benção superior vindo de um lugar onde, pelo visto, não tem ninguém e se tiver, só assiste, não sei se rindo ou chorando.

O mundo me muda em pequenos gestos carinhosos, em olhares assustados e de pessoas que me criticam por tê-las de alguma forma, feito perder o encanto dos mundos de “faz de conta” que posso ter mostrado que nunca existiram.

E, no fim, é nisso que eu e você mudamos o Mundo. Sendo do jeito que somos, levando alegria e tristeza na forma em que os outros nos interpretam, apesar do mundo e suas forças gigantescas. Quando estamos no Mundo o mudamos, quer queiramos ou não, sejamos percebidos ou não, alteramos o destino do planeta e de muita gente todos os dias. Gente que conheço e nunca conhecerei, mas que será afetado por alguém que um dia me conheceu. Mas não esqueça, falo de mim e de você, que também tem essa força e pode, de alguma forma, escolher como quer afetar o mundo e ser afetado por ele. Escolha que tem pouco alcance sobre forças tão poderosas, mas afinal, fazer nossa parte é uma chance real de que aconteça o que desejo.

Mesmo quando em pequenos encontros, desencontros, acidentes e até mesmo em um “bom dia” podemos mudar a vida de quem nos viu e ouviu. Poderemos até em nosso último ato, quando alguns souberem que nos retiramos do mundo para ir morar em outro ou em nenhum, que lembrarão de nós com alegria ou tristeza e que, no segundo seguinte esse sentimento os fará fazer isso ou aquilo. Sem que percebam que estamos por trás dessa escolha e de tantas outras que virão, em um eco de eternidade.

O Mundo ou a vida é o resultado de todos que já viveram, vivem e de tudo que já aconteceu, acontece e até do que imaginamos que poderá acontecer. Aliás, imaginar muda mais o mundo do que a realidade, pois somos e sentimos não o que o mundo é, mas só o que imaginamos que o mundo seja.

E assim vamos mudando e sendo mudados a cada instante e fico pensando como alguém pode acreditar em destino com tantas coisas incontroláveis a nossa volta nos tornando um resultado cada vez mais improvável dessa química entre cada um de nós e o Mundo.

Nem percebo que posso escolher lembrar que tudo isso torna a vida algo sempre inédito. Afinal, se nem eu e mundo somos os mesmos por estarmos nos mudando o tempo todo, conseguir ver tudo como se fosse a primeira vez, e é, pode no fim dar a única explicação que a razão aceita.

Deve ser por isso que só as crianças e os loucos não têm medo, já que para eles passado e futuro simplesmente não existem, são alucinações dessa gente normal que afeta o mundo e o deixa desse jeito triste, que nos adoece só de pensar.

Meditação

“Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela.”

                                                 Albert Einstein

“Existem atitudes do homem que o leva ao amadurecimento, uma delas é a meditação.”

                                           Tailini Girardi

                                                                                                                                                                                                                 MEDITAÇÃO

Tem sido cada vez mais comum nos últimos anos a procura pela meditação como uma solução para problemas como a ansiedade, depressão ou com o objetivo de buscar mais equilíbrio diante dos, cada vez maiores, desafios da vida moderna. O problema é uma grande expectativa (e toda a expectativa de hoje é a frustração certa de amanhã) de que, em poucos dias, uma grande mudança acontecerá. Como meditar é mudar e isso leva tempo, faz com que não haja a persistência necessária para que os resultados apareçam.

Falar em meditação é saber que existem muitas definições, técnicas variadas e toda ordem de misticismos envolvidos o que sempre pode atrapalhar.  Meditar é algo simples, mas alguns pontos precisam ser entendidos.

Para os leitores de “Céu e Inferno”, lembro que  meditar é buscar sair do inferno da mente e buscar o céu da consciência eterna e isenta de sofrimento. Lembre que o conceito de eternidade  é da ausência de tempo, ou seja, não há passado nem futuro, origem de todas as angústias e preocupações.

Então, para começar, o processo da meditação pede que durante a prática, renunciemos a tudo que for exterior, com o objetivo de criar a condição de interiorização, para isso, fechar os olhos é necessário. Vivemos e fomos criados pensando que somos aquilo que temos e queremos ter. Não é fácil se perceber sem “nada”, mas nunca esqueça que sofremos sempre pelo que dizemos que “temos” ou chamamos de “meu”, incluindo tudo que imaginamos que, quando tivermos, seremos mais felizes. A meditação, com o tempo, mostrará que você é um saudável “ninguém”, que na verdade não é dono de nada nem de outras pessoas. Com isso o fardo fica leve e a alegria ganha espaço!

Mostra a natureza nas suas leis simples e verdadeiras que não há progresso sem empenho e esse estado de se perceber livre, nem que seja pelos poucos minutos de prática, leva algum tempo e saber esperar é sabedoria. Queremos tudo para já, e para isso temos dinheiro, cheque, cartão de crédito, débito e imprimimos boletos. Mas estados evoluídos são conquistados e não comprados.

Como bem dizem os budistas, o objetivo da meditação é simplesmente o silêncio sublime, a tranquilidade e a clareza mental, mas como conseguir isso com a mente trazendo lembranças e preocupações sobre o futuro a todo o momento? A resposta é a renúncia a tudo que somos e temos, conforme descrevi acima.

Sidarta Gautama disse certa vez que: “Um meditador, cuja mente se incline para a renúncia, com facilidade alcança o Samadhi* (objetivo final da meditação)”. Mas isso não é você doar suas coisas, terminar seus relacionamentos e amizades e viver na pobreza. É apenas, durante os minutos de meditação se desvencilhar disso tudo, para voltar a sua origem de “ser”. Manter o domínio da mente evitando os pensamentos sobre família, trabalho, compromissos, responsabilidades e, principalmente, as previsões escabrosas sobre o futuro. Para aqueles que gostam de lembrar das situações ruins que já passaram, também evitar afundar na lembrança e sofrer de novo. Imagine, apenas imagine, que você é alguém desprovido de história como ensina Ajaan Brahmavamso.

Para isso, existem alguns recursos, cabe experimentar para descobrir com o que mais se adapta:

– Utilizar uma frase ou palavra (a isso chamamos “mantra”) e ficar conscientemente repetindo essa frase/palavra com o objetivo de manter a mente presa, sem que ela possa “fugir” para os assuntos que citei acima.

– Manter-se conscientemente focado na sua respiração, observando atentamente a entrada e saída do ar.

– Visualizar alguma situação ou imaginar-se em local agradável e evitar “sair” desse lugar.

– Visualizar alguma imagem fixa, que pode ser um símbolo de seu agrado ou qualquer outro (a isso chamamos de Yantra), mantendo a atenção fixa nessa imagem.

Existem infinidades de outras técnicas, e nada impede que você crie a sua, lembrando que o importante é manter a mente “presa” em algo. Obviamente que isso não será conseguido com facilidade, mas a persistência traz o resultado. Cada vez que se perceber divagando entre passado e futuro, simplesmente retorne sem brigar consigo mesmo e retome o processo. Milhares de vezes isso acontecerá. Como você já foi avisado, não dê importância, é assim mesmo.

Procure manter sempre a coluna ereta e para isso pode usar uma cadeira onde apoiar as costas. Ficar sentado em posição de lótus é uma imagem clássica de meditação mas está longe de ser obrigatória. Caso Sidarta e outros que atingiram o máximo onde um ser humano pode chegar morassem em um lugar frio, garanto que sentado no chão não daria certo. Muitos procuram copiar a posição e outras coisas achando que isso os levará ao mesmo lugar. Bobagem!

Quem chegou “lá”, foi com anos de prática e de colocar sua vida dentro de uma perspectiva menos sofrida e isso só aprendendo a estar fora da mente para conseguir.

Manter a coluna ereta ajuda com alguma tensão a ficar atento. Perceber que a cabeça inclinou para baixo ou que as costas curvaram é um sinal de que precisa retomar a atenção na meditação.

O fato de um determinado dia a meditação ser gratificante, de experienciar uma calma profunda e paz interior, não quer dizer absolutamente que isso é algo conquistado e que sempre será assim. No dia seguinte pode ser tudo difícil e frustrante, e isso faz parte. Não existem garantias, é a prática pela prática, sem expectativas. Faça porque é bom, reconhecidamente traz resultados, mas não espere nada.

Esse é o ponto, não é um negócio ou uma troca. Não existe ninguém nesse ou de outro mundo para recompensá-lo. Portanto, não é alguma negociação, como muitos fazem com as religiões esperando que nada vá acontecer com eles nem com os seus entes queridos por fazer parte dessa ou daquela crença e, quando acontece algo ruim, trocam de papa, ministro ou pastor.

Esse desapego dos resultados é decisivo, mas a mente é essencialmente dúvida e  medo, logo ela nunca vai ajudá-lo. Aliás, vencê-la é a meta. A mente nunca vai parar, o que acontecerá é descobrir que esses pensamentos não são seus, enquanto consciência, mas das necessidades do corpo e do medo do sofrimento e da morte.

Com o tempo, poderá acontecer de perceber-se cada vez mais fora dos processos da mente, se tornando um “observador” dos conteúdos que ela traz. Obviamente, quem observa só pode fazê-lo por estar do lado de fora e estar assim é não sofrer.

A meditação também pode ser ativa, ou seja, fazendo algo. Pode ser correndo, nadando ou até mesmo fazendo alguma atividade criativa. Como saber que esteve meditando? A resposta é: se perdeu a noção do tempo e não ter pensado em mais nada além da atividade em si. Esse é o tipo de meditação que as pessoas mais fazem, sem saber que estavam em meditação e é tão válida quando a outra, com uma diferença importante: a atividade evitou as distrações da mente enquanto a passiva ou sentada é uma busca de dominá-la e entende-la.

Depois da sua prática, volte a fazer suas coisas e pensar no futuro é uma delas, mas vá procurando evitar viver nele. Uma das possibilidades é que irá acontecer o que imaginamos, mas pode ser tudo diferente e quase sempre é. Perguntado sobre isso certa vez Sidarta respondeu: “O que quer que vocês pensem que assim vai ser, sempre será algo distinto. O sábio compreende que o futuro é incerto, desconhecido e portanto imprevisível”.  Deixe sempre aberta a possibilidade de que o melhor aconteça, porque para a mente serão apenas tragédias e sofrimentos.

Inicie com dez a quinze minutos, no máximo, por dia por uns seis meses. Aumente o tempo quando se sentir confortável, e não fique anunciando ou divulgando o quanto você medita. Já vi até “selfie” de pessoas meditando. Isso é puro ego e infantilidade. Pessoas assim podem dizer que ficam horas em meditação, mas provavelmente ainda não saíram do lugar. A auto compreensão vai pela via contrária da exposição.

Quanto mais você for se aprofundando, imagino que as fotos, palavras, angústia e medos irão diminuindo em troca de clareza e mais silêncio interior.

Por isso, meditar é perder o desnecessário e ganhar o imprescindível.

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*Samadhi – é a unidade com o Espírito, é o estado mais elevado que se alcança pela meditação prolongada e profunda. Consiste em dissolver a bolha do ego no oceano do espírito. É o estado onde não existe distinção entre o “eu” e o “objeto”, experimenta-se a unicidade com o Todo.

Para saber mais: O método básico de meditação. Ajaan Brahmavamso – ed. Orbi

O Segredo da Flor de Ouro – Um livro de vida chinês

Eventualmente estarei presente em um vídeo para apresentar um livro, tema ou filme no intervalo entre um artigo e outro. Aqui recomento esse livro muito interessante que engloba temas como psicologia e meditação chinesa. O interessante dessa obra é termos Carl Jung e Richard Wilhelm juntos em um texto muito rico.

O livro está disponível para aqueles que quiserem enriquecer sua biblioteca nos sites das grandes livrarias.

Os vídeos tem a intenção de trazer mais agilidade ao blog e poder estreitar o contato com os assinantes e seguidores que se espalham pelos vários estados e por brasileiros que moram no exterior.

 

O TAO

chuva

“Assim que o toque da individuação entra no nascimento, o Ser e a Vida dividem-se em dois. Desde esse momento – se a maior tranquilidade não for atingida -, ser e vida não tornam a encontrar-se.”

LÜ DSU

Para quem já acompanha o blog, percebe que, de vez em quando, coloco uma estória ou metáfora das mais antigas Tradições com o objetivo de ampliar nossa percepção e trazer um entendimento que nos ajude a entender a nós e a natureza, que sempre é a mesma coisa.

Ao mergulhar na profundidade da estória desse artigo, poderá ficar mais claro sobre o que se fundamenta o Taoísmo que, assim como outras fontes, tem muito a nos ensinar. Ela é simples, mas de grande ensinamento:

Houve uma grande seca. Durante meses não caíra uma gota de chuva e a situação tornava-se catastrófica. Os católicos faziam procissões, os protestantes oravam e os chineses queimavam varetas de incenso e disparavam canhões para afugentar os demônios da seca. Finalmente, depois de tudo ser tentado, os chineses disseram: “Buscaremos o fazedor de chuvas”. E apareceu um velhinho magérrimo, vindo de outra província. A única coisa que pediu foi uma casa tranquila onde, depois de andar pela cidade e conversar com as pessoas se trancou durante três dias. No quarto dia, formaram-se nuvens e houve uma grande tempestade de neve, numa época do ano onde a neve era inesperada e em quantidade inusitada. A cidade começou a fervilhar de comentários e, depois dos agradecimentos e homenagens, o prefeito perguntou ao “fazedor de chuvas” como ele havia conseguido provocar tamanho feito. O velho e magro chinês respondeu: – Eu não fiz a neve, não sou o responsável! Então o prefeito perguntou: – Mas o que você fez durante esses três dias? Ao que o chinês respondeu:  – Ah, isso eu posso explicar. Venho de um país distante onde as coisas estão em ordem. Aqui, as coisas estão em desordem; não são como devem, de acordo com a disposição do céu. Por isso, todo o país não está no Tao, e eu também não estou inserido na ordem natural das coisas, porque me encontro num país em desordem. Tive então que esperar três dias, até estar novamente no Tao; então, naturalmente, a chuva caiu…

O taoísmo acompanha em seus fundamentos muito das demais filosofias milenares da China e a que mais gosto é a versão de R. Wilhelm que as estudou profundamente, tanto que fez a melhor leitura do I Ching para o ocidente. Essa obra também se tornou famosa pelos comentários introdutórios de Jung.

O pressuposto inicial dessas filosofias (algumas ganharam o status de religião), é  que tanto o Cosmo como o Homem obedecem as mesmas leis; sendo o Homem um cosmo em miniatura, não estando em separado do macrocosmo por obstáculos que não possam ser retirados por uma percepção e conduta adequadas. São regidos pelas mesmas leis com pontes que os ligam.

Portanto o homem participa por sua natureza de todo o acontecimento cósmico e está sendo afetado por ele interna e externamente. Por aí, imagino, que você já esteja entendo o que essa estória quer nos ensinar. A proposta é refletir sobre ela, oportunamente, escreveremos especificamente sobre o Taoísmo.

Nosso “fazedor de chuva”, ao andar pela cidade e conversar com os moradores entrou em sintonia com ela, com a desordem reinante que, nada mais era, que a desordem interna de seus habitantes. Imagino que você já tenha estado em algum lugar onde uma pessoa chega e consegue rapidamente “contaminar” o ambiente com sua baixa vibração, fazendo com que comecem a surgir discussões sem nenhum propósito e o clima do ambiente vai por água abaixo. De outro ponto é bem possível que você conheça uma versão dos trópicos do nosso herói chinês; aquela pessoa que ao chegar traz equilíbrio e bom senso onde reinava a falta de entendimento.

Nós somos, exteriormente, o resultado do nosso interior e o que nos cerca é resultado disso. Os países, cidades, empresas, etc., nada mais são do que a emanação da soma das mentes das pessoas que os compõe. O mundo que vivemos hoje está em nítida desordem e nem precisa procurar muito para perceber. Desde o clima, passando pela ecologia, desembocando na verdadeira epidemia de ansiedade que vivemos, com um número recorde de doenças autoimunes e números alarmantes de suicídios, está a nos mostrar que saímos do “ponto” de equilíbrio.

O Taoísmo nos mostra com clareza que precisamos nos “encontrar” e trazer o cosmos (ordem) ao caos (desordem) que estamos vivendo. Nossas emoções estão em completa confusão porque o Ego, que deveria ser nada mais do que um bom empregado, com seus medos e crenças condicionadas, assumiu o controle e as empresas individuais (que somos cada um de nós) estão indo a bancarrota porque o Ego não tem capacidade de gerenciar nossa vida.

O “fazedor de chuvas” encontrou a si mesmo em seu recolhimento, entendeu-se porque se sintonizou com se Self (eu superior) e, quando isso acontece, tudo funciona como deve funcionar, nem chuva demais, nem de menos! A saúde de uma pessoa mostra sua ordem interna e os sintomas e as doenças, sua desordem.

Continuamos buscando fora de nós, através da ânsia material o que só pode ser encontrado internamente, e nosso ego (eu) vai entrando em colapso, porque nada que possamos por ventura adquirir, poderá cumprir a função de fazer nosso Ser e a Vida voltarem a se unir como quando nascemos, como ensina o Mestre nas palavras de abertura. Desculpem, mas nunca vou me cansar de repetir isso!

 Essa divisão é natural, já que nossa busca é de encontrar essa reunificação e encontrarmos a “paz sob o céu” é a comunhão da minha vida com meu ser, vivendo quem realmente sou.

Por estarmos todos nesse caos interno, o mundo em que vivemos apenas espelha isso, afinal as leis são as mesmas!

“O Tao (sentido do mundo, Caminho), domina o homem, do mesmo modo que a natureza invisível e visível”. Essas palavras foram ditas há mais de 700 anos. O que ainda falta para percebermos isso ainda mais claramente?

No livro de Long Yen (sutra budista), encontramos o seguinte ensinamento: “Mediante a concentração dos pensamentos podemos voar, mediante a concentração dos apetites, caímos”. Penso ser fácil interpretar, já que a concentração nos pensamentos tem por finalidade diminuir o poder dos condicionamentos sobre minhas decisões, trazendo a clareza de se estar no domínio, facilitando a manifestação do Self, enquanto que os apetites representam os desejos exteriores que inocentemente imaginamos que vão nos trazer o Tao interior.

Quem sabe as pessoas poderão começar a se dar conta de que esse não é o Caminho e possamos dar um fim a esse mundo que vivemos atualmente, que realmente precisa acabar. Estamos vivendo uma seca de lucidez, de cuidado e de amorosidade.

Acredito que se algumas pessoas se colocarem em ordem, assim como a pedra jogada no lago cria ondas a partir do centro, possamos acabar com essa aridez e fazer mudança, do individual para o coletivo. Tudo começa sempre por você; faça “chover” encontrando seu Tao que é seu Caminho e o sentido de sua vida.

 Esse é um milagre possível!