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A sabedoria de Zeus

Era uma vez, centenas e centenas de milhares de anos atrás…

– Preciso falar com o Senhor.

Zeus já era Deus antes dos outros deuses que conhecemos. Já nessa época, onde parece que só existia a Grécia, ele já era antigo. Sendo antigo, sabia que a paciência era o que separava os humanos dos semideuses e esses dos deuses, onde ele reinava absoluto.

Uma das duas outras qualidades como administrador do Olimpo, era justamente colocar as pessoas certas no lugar certo, exemplo que se segue por eras desde então. Alguns aprenderam essa lição, como Tite e outros não, como nossos últimos presidentes. A outra é saber lidar com as vaidades, condição para gerir tanta gente importante, seja por ser ou se achar.

 Hermes é seu ajudante de ordens, uma espécie de “faz tudo”. Adotado posteriormente como padroeiro dos embusteiros, seria hoje facilmente chamado de lobista. Hermes era bom de conchavos e fazia alguns acertos políticos quando as coisas pareciam perder-se por falta de bom senso. Zeus sabia que, quando Hermes estava com essa cara, o problema seja qual for, não tinha sido resolvido nas instâncias inferiores.

– Entra Hermes, pelo visto aconteceu alguma coisa…

– Na verdade sim Zeus. Temos um problema inesperado e um tanto estranho.

– Querido Hermes, os problemas normalmente são inesperados e estranhos. Mas me diga, o que ainda falta acontecer por aqui?

-Na verdade não é aqui, no Olimpo.

– É em Gaia então? Quando pedi para Prometeu criar os seres humanos, ele devia estar com a cabeça em outro lugar. O que foi que eles fizeram dessa vez?

– Também não é em Gaia.

Zeus olhou fixo para Hermes como não fazia a muito tempo. A última vez tinha sido quando Persófane fora raptada por Hades e Demeter secou todas as plantações de planeta.

 Mostrando agora impaciência, Zeus ficou com olhar parado, esperando que Hermes contasse.

– Na verdade Zeus, o problema é no céu.

– No céu? Como assim? No céu só tem as estrelas, o Sol e a Lua. Explica logo!

Hermes precisava escolher as palavras, afinal deixar Zeus irritado nunca é bom, ainda mais quando ele pensa que o erro é por falta de atenção.

-Bom Zeus, com as estrelas está tudo bem. São milhões delas e tudo vai indo sem problemas.

Zeus agora ficou com o cenho mais franzido como se não estivesse entendendo.

Hermes pigarreou com medo de gaguejar, o que seria fatal.

– Na verdade, temos um problema com a Lua e o Sol.

-Como assim Hermes? Como pode ter problema?  Um fica de dia e outro à noite, fiz isso com perfeição, aliás como tudo que faço!

– Claro Zeus, o senhor fez tudo perfeito!

– Então Hermes, conta logo!

– Na verdade eles pediram permissão para namorar, senhor.

– Como assim namorar? Eles têm uma função a cumprir, pelo menos por alguns milhões de anos! Dei  ao Sol a luz e o calor e a Lua o poder sobre a agricultura, as marés e tantas outras coisas. Não tem nem como terem um relacionamento, isso seria um desastre e tiraria tudo da ordem.  Me explica Hermes!

– Pois é Zeus, eles estão se olhando há milhares de anos, criou um clima. Me entende?

– Clima? Como assim?

– Eles ficam se olhando, a Lua vê o Sol todos os dias e quando é ela  que vai trabalhar, ele fica olhando também e, sei lá, eles devem ficar imaginando como seria.

Zeus agora, estava realmente bravo!

– Como seria o que?

– Se ficassem juntos, assim como um casal, entende? Essa coisa de só ficar olhando, decerto um fica imaginando o outro perfeito. Quem não tem tempo de ficar junto para saber a verdade, só imagina.  Também achava que Afrodite era perfeita por ser tão linda. Eu acho que é isso.

– Você “acha” Hermes?

Lá no Olimpo foi um grito, aqui embaixo ouviu-se um trovão.

– Calma Zeus, eu vim aqui porque não encontrei uma saída. O Senhor sabe que normalmente resolvo essas coisas, mas dessa vez fiquei sem saber o que fazer. É que a Lua já está apaixonada e como não pode ficar com o Sol, está já há quinze dias na minguante. Com isso as plantações em Gaia correm risco. Se ela não melhorar para vir a crescente e a cheia podemos ter muitos muito problemas.

– Mas você falou com ela Hermes?

– Falei e ela disse que sem o Sol não vive. Só chora.

– E o Sol, disse o que Hermes?

– O Sol também está abatido, mas sabe como são os masculinos. Ele trabalha normal, afinal uma coisa não tem a ver com outra.

– Menos mal, suspirou Zeus. Menos mal.

– Mas e a Lua? O que o senhor sugere?

 Zeus coçou a cabeça. Tinha pensado em um universo ordenado, que funcionasse em perfeita harmonia. Depois, mudou de ideia, afinal para que serviriam aquele monte de deuses? Ócio nunca é bom, seja onde for.

Depois de um tempo, abriu um sorriso. Quando viu Zeus sorrir Hermes sentiu um alívio. Já sabia que iria ouvir de novo de que ninguém servia para nada, que quando um problema estourava era só ele mesmo que resolvia.

– Sabe Hermes, não canso de gostar cada vez mais de mim. Tenho um monte de deuses, centenas de semideuses que não servem para nada. Quando alguma coisa acontece, que saia um pouco do dia a dia, ninguém dá conta.

Hermes sussurrou:

-Claro!  É por isso que o senhor é o chefe!

-Não ouvi, o que você disse Hermes?

-Nada Zeus, nada. Qual é a sua ideia?

Fazendo o charme habitual, quase teatral de quem vai mostrar toda sua sabedoria, Zeus ficou olhando para a imensidão do espaço da janela do seu escritório. Começou a falar lentamente, como que saboreando suas próprias palavras:

– Sabe Hermes, não sou quem sou por acaso. Pense comigo; seja aqui no Olimpo como em Gaia, já reparou o que tem em comum os casais que se separam?

Quando Hermes ia abrir a boca, Zeus ergueu o dedo indicador, isso quer significar que ele não quer ser interrompido.

– Eles deixam de se gostar Hermes. Mas isso até um humano sabe, você poderá pensar. Mas o que eu, Zeus, já percebi é que é o fato de estarem juntos com frequência que acaba com o amor.

Hermes estava entendendo, mas quando Zeus estava em momento criativo, era mesmo um espetáculo. Nem imaginou em interrompê-lo.

– Então Hermes querido, anote o decreto de Zeus!

Hermes imediatamente se preparou para anotar. Zeus impostou a voz e decretou:

– Anuncie que, devido a minha bondade infinita, maior que todo universo, autorizo Sol e Lua de manterem um relacionamento.

Hermes estava chocado! Não teve forças nem para balbuciar. Zeus tinha enlouquecido?

Zeus parecia que lia o pensamento de Hermes, sorrindo com o canto da boca. Continuou a falar:

– Porém, como na minha sabedoria, sei que a harmonia e o amor entre o Sol e a Lua são fundamentais para que Gaia prospere, mesmo no futuro quando se chamar Terra, eu os autorizo a se verem em ocasiões especiais, as quais chamarei de eclipse! Ocorrerão de tempos em tempos que serão devidamente marcados por Cronos, ministro celestial do tempo. Cumpra-se!

Zeus, se aproxima de Hermes e sussurra em seu ouvido:

– É assim que os manterei apaixonados para toda eternidade Hermes. Será sempre namoro, sempre namoro.

Quatro linhas

Crônica publicada no Jornal Folha SC em 19 de Janeiro de 2016

O bilhete ainda estava sobre a mesa no mesmo lugar que quando chegou em casa.

Já tinha lido dezenas de vezes na esperança de estar tendo um sonho. Agora sentia uma exaustão, como se tivesse participado de uma maratona sem nunca ter corrido antes. Esse cansaço, pensou, só pode ser o esforço desses últimos anos para que a relação desse certo. Sentia um misto de tristeza, mágoa e um alívio que parecia não combinar com os outros sentimentos.

O esforço terminou, mas de nada adiantou.

Quando começou o namoro ele havia prometido a si mesmo que dessa vez daria certo. Tinha aprendido nos relacionamentos anteriores a dar mais atenção e ser menos egoísta. Suas “ex” tinham as mesmas queixas e se deu conta que o problema era mesmo ele.

Mas e agora? Onde errou?

De uns tempos para cá, sentia que ela estava mais distante e desmotivada. Nada que fazia era suficiente, qualquer mínima coisa servia para uma insatisfação rancorosa. Procurou leva-la mais para sair, propôs viagens e percebia que quanto mais tentava, mais fria ela ficava. Quando ela começou com evasivas para não fazer planos para o futuro, uma sensação de perda começou a ficar cada dia mais forte.

Um amigo mais experiente com quem conversou, disse que ele estava exagerando com tantos cuidados e agrados,  e que isso fazia mais mal que bem. Lembra-se de ter argumentado que carinho e zelo demais não poderiam ser um problema e que essas atitudes eram provas de amor e ela saberia valorizar.

Parece que o amigo estava certo.

Só conseguia pensar agora que ele foi de um extremo a outro; se importava pouco e agora demais. O resultado foi o mesmo. Como é difícil?

Respirou fundo e ganhou forças para levantar da cadeira e foi na direção do quarto. As roupas, perfumes e bijuterias não estavam mais. Só um frasco de perfume, ainda na caixa, estava no centro da penteadeira. Foi o que ele havia dado de presente na semana passada, o preferido dela. Chegou à conclusão que nesse dia ela já tinha decidido ir embora.

– Mas por que não falou comigo? Gritou sozinho no quarto diante do guarda roupa vazio.

Lembrou-se do bilhete. A  resposta poderia estar lá, não diretamente, mas nas entrelinhas.

Voltou para a sala, pegou o papel e jogou-se no sofá. Leu novamente:

“Vou embora. Era para ter falado com você nos últimos dias e não deu, então vai por aqui mesmo. Já não sou mais feliz e não tenho esperança que isso mude. Espero que entenda e não me queira mal. Você é boa pessoa, mas preciso respirar. Tenho certeza que serás feliz no futuro.”

Nem assinatura havia. Como se o bilhete fosse apenas uma formalidade. Parece que ela precisava sair correndo. Na verdade ela não tinha motivos e esse foi o motivo; ele fez pelos dois e ela não precisou lutar por nada. Gostar só pode estar ligado a algum tipo de sofrimento, de luta e conquista.

Olhou em volta e reparou que todo apartamento havia sido decorado por ela. Não havia nada do gosto dele ali. Pensou nela o tempo todo e deixou que isso acontecesse para que ela nunca tivesse queixas, como um mundo perfeito. Perfeição é o que se persegue e só é conseguida com alguma espécie de erro. Mundos perfeitos fazem parte da fantasia.

Ligou para o amigo e contou-lhe o que aconteceu. Do outro lado da linha, um silêncio respeitoso esperou até que ele conseguiu controlar a emoção. O amigo apenas disse:

– Venha até aqui e vamos tomar um vinho. Saia de casa, ficar aí não ajuda em nada.

Desligou e foi tomar um banho e percebeu o silêncio que agora seria seu companheiro junto a toda essa decoração que teria que trocar. Sentiu raiva pela primeira vez.

Antes de sair pegou novamente o bilhete e só conseguiu pensar que todos esses anos terminaram em quatro linhas. Parece que sonhou sozinho todo tempo.

Apagou a luz e saiu.

Quando entrou no carro, lembrou que havia deixado o bilhete na mesa e se questionou do motivo de não tê-lo rasgado.

Aquela frase não saia da cabeça: “vai por aqui mesmo…”.

Ficou com raiva pela segunda e última vez.

O Básico

“Se você ama uma pessoa, projeta coisas que não estão ali. Se odeia uma pessoa, novamente você projeta coisas que não estão ali. No amor, uma pessoa se torna um deus, no ódio ela se torna um demônio, a pessoa é simplesmente a mesma.

Esses demônios e deuses são projeções. Se você ama não consegue enxergar claramente. Se odeia, não consegue ver com clareza”.

                             Osho –  Zen, sua história e ensinamentos.

espelho

Não é fácil aceitar que na verdade nunca conhecemos ninguém.

Quantas vezes você já se decepcionou ou encantou com alguém que gostava, seja em algum romance, amizade ou relação familiar e profissional? Com certeza muitas e o grande problema é que essas pessoas não tiveram absolutamente nada a ver com isso, o problema sempre é de quem se encanta e decepciona.

Um dos assuntos mais falados em psicologia é a projeção, ou seja, quando transferimos para o outro nossos conteúdos. Isso acontece por não termos muita ideia de quem somos, daí a única coisa que podemos ver e identificar nos relacionamentos somos nós mesmos.

Essa oscilação do amor para o ódio ou da expectativa para a decepção acontece toda hora. Inconscientemente sempre espero que todo mundo seja como eu, sinta como eu e vá fazer as mesmas coisas que eu faria em cada situação. Conscientemente, todos dizem que “ninguém é igual a ninguém”, ou a pérola biológica que se cada um tem um DNA diferente é justamente porque não existem duas pessoas iguais no mundo.

Tudo da boca para fora!

O que se vê, é “amar” e “odiar” o tempo todo. Da mesma forma que tem horas que exageramos em alguma coisa e depois precisamos nos abster por um tempo para compensar, oscilamos entre gostar e não gostar. Essa oscilação é simples de explicar; esse espelho que é cada pessoa que nos relacionamos, ora nos mostra nosso lado que gostamos em nós e queremos que os outros vejam, ora mostra o que não queremos que saibam a nosso respeito.

Já quando a paixão surge, pensamos que encontramos a pessoa “certa” nossa “alma gêmea” por quem teremos amor eterno, que superaremos todas as vicissitudes da vida, até porque é bem provável que já tenhamos nos apaixonados na vida passada…

Passado um tempo todos esses 100 tons de rosa vão esmaecendo, até porque só nos apaixonamos pelo que gostamos em nós que esse outro(a) nos mostra nesse início entusiasmante. Na verdade, nos apaixonamos por nós mesmos. Mas como nenhuma ilusão é duradoura, nosso lado menos glamouroso começa a aparecer com o tempo. A isso damos o nome de desgaste ou rotina.

Algum tempo depois queremos intimamente nos apaixonar de novo, voltar a sentir vibrar o coração. Lá estamos à procura de quem me mostre de novo meu melhor ângulo, assim como fazia aquele cantor famoso que só se deixava fotografar de perfil, onde ficava “melhor”.

Desde a infância, quem teve ou tem um irmão  com pouca diferença de idade pode observar que os dois são opostos um do outro, com temperamentos antagônicos. Isso ocorre em uma grande quantidade de vezes. Na verdade, é como se conseguíssemos juntar os dois daria um “perfeito”. Um se projeta no outro e vice versa e aí as brigas e discussões são diárias.

Depois levamos isso para todos os âmbitos dos nossos relacionamentos, quando simpatizamos com pessoas e antipatizamos com outras. De novo, todos são espelhos e, dependendo do ângulo, quero distância ou proximidade.

Quando alguém faz alguma coisa que nos deixa chocados, é justamente por termos descoberto que nunca realmente conhecemos essa pessoa. Imagina apresentarem alguém a você, sendo que “conhece” essa pessoa há vinte anos?

A terapia de casal e familiar trazem essas surpresas todo o dia nos consultórios de psicoterapia.

Portanto, o básico em relação à busca pelo autoconhecimento é começar a parar de imaginar os outros, de usar a minha medida (lembra do DNA?), esperando que todos sejam uma cópia de mim mesmo.

Pode parecer uma loucura, mas a única maneira de encontrarmos um dia esse amor verdadeiro talvez seja por alguém que não amamos nem odiamos. Essa talvez seja a condição básica de realmente podermos “ver” outra pessoa de verdade. Já reparou como uma pessoa com quem você convive, mas que lhe é indiferente, nunca te decepcionou ou surpreendeu positivamente?

Eu sei que seria difícil amarmos (essa palavra é sempre perigosa e exagerada) alguém de quem não gostamos, mas estou falando em tese.

Por outro lado, uma coisa é certa; do jeito que está, comprovadamente não dá certo. Essa constatação se dá pelo número de divórcios cada vez maior, principalmente depois que as mulheres conquistaram sua independência financeira.

Na verdade, penso que não conseguimos conviver conosco muito tempo. Daqui a pouco, precisamos de um espelho novo, com uma moldura diferente.

Como nos ensina o Zen budismo, estamos sós o tempo todo. Qualquer relacionamento seja de que nível for só terá êxito se assumirmos essa responsabilidade essencial. Ninguém me fará feliz, ou será um amigo maravilhoso, nem pai, nem mãe.

Ficamos procurando o tempo todo alguém que finalmente nos compreenda profundamente. Essa é a tese da “tampa da panela” ou da “outra metade da laranja”. Nunca dará certo  me procurar em qualquer pessoa, como posso me encontrar em alguém? Talvez o medo de assumir  responsabilidade  faça com que tenhamos essa fuga de procurar alguém especial, para quem transferiremos essa tarefa.

É como se todos fôssemos estranhos, vagando mundo a fora atrás de algo que nos explique e dê sentido.

O poeta persa Rumi disse certa vez que esteve por longo tempo batendo a porta e quando viu estava do lado de dentro. No caso, ele falava de seu relacionamento com Deus, mas cabe bem aqui.

Portanto, naqueles momentos de angústia, quando nos perguntamos se, algum dia, alguém irá nos compreender, a resposta é não!

Como que alguém poderá compreendê-lo, se nem mesmo você se entende ou compreende verdadeiramente outra pessoa, já que se projeta o tempo todo?

Podemos começar por quebrar os espelhos e ver quem realmente está do outro lado.

Amor e Ódio

“É como um pêndulo de um relógio. O pêndulo vai até a esquerda, a extrema esquerda, então, para a extrema direita… Aparentemente ele parece estar indo para a esquerda, mas ele está gerando impulso para ir para a direita.

Assim é na sua vida. Quando você ama uma pessoa, você está gerando impulso para odiar a pessoa. Eis porque a pessoa a quem você ama e a  que você odeia não são duas pessoas diferentes”.

                                       Osho – Teologia mística

 

“Nascemos com necessidades, essas necessidades nunca serão inteiramente supridas, mas amamos nada mais que nossas necessidades.

 As necessidades quase sempre aparecem inexplicavelmente ligadas à raiva, em geral dirigidas a alguém que as evoca sem satisfazê-las plenamente”.

                                          Laura Knipis – Contra o Amor

                                                                                                                                                                                                                amor e ódio

Como pode o amor se transformar em ódio?

Na verdade, tudo que é uno se manifesta de forma dual, amor e ódio são as duas maneiras de expressar uma mesma coisa. Como alguém que amamos (ou pensamos isso) pode ser alguém que nos  gere ódio, raiva ou decepção algum tempo depois?

Muitos estudiosos da psicologia defendem a tese que estamos nos projetando todo o tempo na outra pessoa. Como padecemos da falta de autoconhecimento, o que vemos a todo instante no outro nada mais é do que  nós mesmos. É como se  a outra pessoa fosse um espelho onde me vejo o tempo todo. Como a função  do espelho é apenas refletir uma imagem, oscilamos tão bruscamente de sentimento ao nos vermos por vários ângulos.

Podemos até arriscar dizer que o que chamamos de “gostar” ou “amar” nada mais  são que as nossas próprias qualidades que estamos recebendo de volta desse espelho chamado relacionamento. E aqui não falo somente dos relacionamentos afetivos, mas entre amigos, pais e filhos e tudo mais.

Quando, porém, vemos no outro aquilo que não gostamos em nós, que afeta a imagem que temos de nós mesmos, o sentimento se transforma em ódio e no momento em que isso acontece parece que estamos diante de outra pessoa. A identificação é tão profunda que o “espelho” reflete uma imagem distorcida e, em momentos assim, dizemos até que a pessoa em questão estava transfigurada.

Como que alguém que conhecemos há anos (e, às vezes, são muitos anos) pode nos surpreender? Como pode acontecer de ficarmos chocados depois de tanto tempo?

A resposta só pode ser uma: realmente não conhecíamos a pessoa, pensávamos isso. A surpresa de ver o outro tão diferente advém de, na verdade, nunca termos realmente “visto”  como ela realmente é. Víamos a nós mesmo o tempo todo e não percebíamos.

Quando estudamos o fenômeno da “Sombra” fica mais fácil de entendermos esse processo. Segundo esse conceito, só podemos ver no outro aquilo que somos ou poderemos ser.

Observo na prática clínica com frequência essa mudança brusca de quadro quando estamos trabalhando com a terapia de casais. É comum a frase: “Nunca pude imaginar que ele(a) poderia agir assim. Depois de tantos anos…”

Toda a expectativa que desenvolvemos em relação a outras pessoas sempre tem uma base, que sou eu mesmo. Expectativa significa esperar que a outra pessoa aja como eu em determinada situação. Dessa forma, estou novamente diante do espelho esperando do outro a minha ação. Assim, não fica difícil entender como as decepções são algo que certamente ocorrerão e só o que muda é o tempo que isso vai levar.

É muito difícil não agir assim, exigiria um tamanho conhecimento de si que não está disponível para a maioria dos mortais. Torna-se necessário um tamanho conhecimento do conteúdo reprimido que carregamos desde a formação do nosso Ego que precisa uma busca de, quem sabe, uma vida inteira.

Assim, o que podemos fazer para evitarmos tudo isso?

Penso que o primeiro passo é tomar consciência de como as coisas são. Uma boa autoanálise já ajuda. Para tanto,  basta respondermos seriamente algumas perguntas:

– O que admiro na pessoa?

– O que me irrita nela?

– Em que momento tenho vontade de uma aproximação?

– Quando prefiro estar a quilômetros de distância?

Procurar ver o outro  (e lembre que isso vale para todos os tipos de relacionamento), como alguém realmente novo, que não conheço e quero verdadeiramente descobrir. Claro que essa busca pode trazer boas e más notícias, mas veja por  outro lado; é bem melhor a verdade que a ilusão.

Pode ser um dia, oxalá, possamos nos responsabilizar pelo nosso gostar ou não gostar de alguém, por aquilo que o outro realmente é ao invés do que esperamos que a pessoa seja.

Caso contrário vamos de relacionamento em relacionamento nos encontrando e desencontrado de nós mesmos, sem termos tido a oportunidade de realmente conhecermos aquela pessoa que cruzou em nosso caminho, voluntária ou involuntariamente, como no caso da família.

Quando os orientais dizem que vivemos uma grande ilusão o tempo todo (maya), é lícito pensarmos que tem a ver com isso também, ou seja, nos iludimos vendo a nós mesmos quando deveríamos ver o outro. Ficamos projetando nossos sonhos internos o tempo todo para fora, criando uma realidade particular vista apenas pelos olhos de quem somos.

Justamente por isso a frase; “jamais poderia imaginar…” tem um profundo significado. A situação não pode ser imaginada justamente por isso, não faz parte da minha realidade interior. Vez por outra a vida nos assusta, tirando-nos do sonho da imaginação do dia a dia quando constatamos que alguma coisa não foi como imaginávamos ou pensávamos.

Portanto, tanto o amor como o ódio é uma só coisa; aquilo que as pessoas que estão o tempo todo me mostrando; quem sou, minhas qualidades e meus defeitos.

Para muitos místicos essa nossa identidade além do ego é um imenso vazio. Para o Zen, isso é chamado de “ninguém”. Enquanto acharmos e nos identificarmos com esse alguém que pensamos ser, chamado de Ego, também pensamos que não somos a nossa Sombra e vamos vivendo na escuridão, compartilhando a vida com pessoas que imaginamos ser algo, de  quem gostamos ou não.

Isso, no final, é uma grande injustiça.

Quem sabe, só no pensamento, quando nos perguntarem que somos, nosso nome ou coisa parecida, respondêssemos:

– Sou ninguém.

Dessa forma, poderemos ir, aos poucos, abrindo nossos olhos internos para nosso Ser inteiro, única maneira de podermos realmente ver quem está na nossa frente.

Quando o mal faz bem

O que mantém um comportamento são os resultados.

pessoas espertas

“Ganho secundário” é o nome que se dá quando alguém se beneficia de algum problema, ou seja, o mal que está acometendo a pessoa está sendo útil de alguma forma.

Certa vez conheci uma cliente que chegou ao consultório com um histórico antigo de depressão. Passadas algumas sessões percebi que ela estava claramente sabotando o trabalho da terapia, encontrando uma série de desculpas para não tomar as novas atitudes. Perguntei a ela qual era a diferença na vida dela antes e depois da doença e ela respondeu sem pensar:

-Naquela época ninguém se preocupava muito comigo…

Obviamente não era do interesse dela melhorar, afinal, se isso ocorresse o nível de atenção que ela estava recebendo iria diminuir, até porque curada, não precisaria de tantos cuidados.

Muitas vezes os ganhos secundários são mais explícitos; quando, por exemplo, uma determinada doença ou incapacidade temporária afasta a pessoas de atividades que claramente não gosta ou a mantém com remuneração em casa. Pode ocorrer de um determinado sintoma ou mesmo doença ser o motivo para se adiar compromissos desagradáveis. Quantos de nós, na infância, já não apresentamos uma febre ou dor de barriga para não irmos à escola quando nos esperava alguma prova ou por ser a data de entrega de algum trabalho que não fizemos? Além é claro, de imaginarmos como uma doença nos ajudaria em determinadas situações, sendo a solução fácil de um problema.

Isso é muito mais comum do que se pode imaginar e ocorre em vários níveis. Nem sempre é um processo consciente, mas mesmo quando ocorre abaixo do nível de percepção, quando confrontada com o problema, a grande maioria das pessoas reconhece que isso está ocorrendo, apesar de negar no começo, já que isso não é uma atitude que faz bem à autoimagem.

A doença ou o problema se torna um aliado e quando isso ocorre sempre a pessoa tem um aumento de seu poder e influência sobre os demais. Quem já não ouviu alguém encerrar uma discussão alegando que se o assunto continuasse poderia fazer “mal” ou causar algum problema grave?

Por mais duro que possa parecer, toda a relação em si é uma troca de interesses, seja de que nível for. Negar isso é esconder a cabeça no buraco, como bem faz o avestruz.

Só nos relacionamos baseados em algum tipo interesse, que pode ser de transformarmos o outro no que achamos correto (pais e filhos), ou de termos vantagens e seguranças sejam afetivas, comerciais ou mesmo de poder, simplesmente. Mesmo quando estamos apaixonados ou dizemos que amamos alguém, temos o interesse (necessidade) dessa pessoa ao nosso lado para sermos mais felizes; em outras palavras, “precisamos” desse relacionamento e isso também é um tipo de interesse. Dai a usarmos as armas disponíveis para isso nem precisa se pensar muito. No final, é a luta pela felicidade que impulsiona o ganho secundário.

Só que isso vai muito além e abrange também os comportamentos. Pessoas, depois de construírem determinada imagem passam a usufruir de benefícios. Poderemos usar como exemplo aquela pessoa que criou fama de agressiva. Ela passa a ser poupada de uma série de assuntos, justamente por ser assim. Ninguém conversa com ela para tentar demovê-la de seu ponto de vista, já que ninguém quer se incomodar. O que normalmente ocorre é tudo se encaixar no jeito dela, justamente por ter esse tipo de atitude que tanto desagrada às pessoas. Isso só reforça esse tipo de comportamento, afinal, porque ela mudaria se tem vantagem e controla situações sendo assim?

Também não podemos esquecer que muitas doenças, sejam emocionais ou físicas, mudam a vida da pessoa, no começo para pior e depois para “melhor”. Imaginem, por exemplo, o caso de alguém que se afasta do trabalho por motivos emocionais que o estejam incapacitando, independente da origem do problema. No começo a pessoa se sente mal pela situação, mas não tem mesmo forças para retomar suas atividades e precisa mesmo do repouso. O problema é que passado algum tempo, a própria família se adequa a situação e tudo vai se encaixando com a ideia de que essa pessoa não poderá contribuir com o orçamento por algum tempo. Se a situação perdura por alguns meses (o que no caso da depressão, problemas graves de ansiedade e acidentes é comum), essa pessoa tem sua vida readaptada dentro dessa nova perspectiva e se percebe com suas necessidades atendidas e sem a necessidade de trabalhar.

Quero deixar bem claro que isso acontece, na maioria das vezes, inconscientemente, ou seja, não existe uma premeditação. Ninguém gosta dessa situação de dependência, já que a autoestima também acaba, mas por ser um processo de acomodação, termina se consolidando pela repetição dos dias. É aquela história; acostumamo-nos com tudo até mesmo com o que não concordamos ou gostamos, basta repetir.

Imagino que a essa altura da leitura, você deve estar se perguntando o que fazer para lidar com isso?

A resposta é simples e tem seu fundamento em um princípio: todo comportamento só é mantido enquanto dá resultado.

Assim, se a pessoa não conseguir mais ter controle das situações, seja pelos seu sintomas, seja pela sua doença, ela, obrigatoriamente irá mudar. Isso porque ela tentará manter seus resultados, só que terá de agir de outra forma e isso abre a possibilidade de uma mudança positiva, que poderá ser negociada. É como fazer um novo acordo de convivência.

Assim, a questão “ganho secundário” é muito ampla e pode ocorrer de diversas formas pelos exemplos que dei, não envolvendo apenas doenças como se pensa normalmente. Imagino que lendo esse artigo você tenha pensado em várias pessoas que conhece que se encaixam nesse tipo de comportamento e elas não são mesmo difíceis de serem encontradas.

Porém, a finalidade desse texto, muito mais do que ajudar a entender o “ganho secundário” e identificar pessoas da sua relação que se utilizam dele de alguma forma é também, e, principalmente, trazer a reflexão de se cada um de nós também não se aproveita de alguma forma.

A melhor maneira de conhecer qualquer pessoa é aumentando cada vez mais o autoconhecimento. Inicie, portanto, sempre por você mesmo!