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O cavalo e a carroça

“A felicidade é inacreditável. Parece que o homem não pode ser feliz. Se você fala da sua depressão, tristeza, amargura, todo mundo acredita, parece natural. Se você fala da sua felicidade ninguém acredita, parece antinatural”.

                                                                      Osho – O Homem que amava as gaivotas

A religião é comparável a uma neurose da infância”.

                                                                     Freud

“ Conhecimento sempre nos expulsa de algum paraíso”.

                                                                     Melaine Klein

                                                                                                                                                                                         carroça e bois

Freud é considerado o pai da psicologia moderna, note que falei “moderna”. A psicologia existe desde que alguém teve um pensamento. Evoluiu quando esse pensamento foi compartilhado. Portando, a psicologia existe a milhões de anos. Você pode argumentar que a ciência fala de 30 ou 40 mil anos do Homo sapiens, mas alguns estudos de paleoantropologia (sim, isso existe) datam artefatos descobertos que exigiram inteligência para serem feitos há, pelo menos, dois milhões de anos.

Antes de Freud a filosofia acumulou a função de psicologia nas reflexões dos gregos de 600 anos AC ou dos textos védicos, muito mais antigos ainda. Essa pequena introdução serve para dizer que o homem pensa sobre si e a vida faz tempo, e pelo visto ainda sem um resultado concreto.

O que está faltando ou estamos fazendo de forma errada?

Vivemos em um mundo tecnológico, praticamente sem fronteiras físicas e o que vemos é a humanidade cada vez mais angustiada e doente.

 Depois de mais de quarenta anos de pesquisa, Freud chegou à conclusão de que o homem não consegue ou não seria da sua natureza a felicidade. Chegou a dizer que: “A nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”.

Nosso medo da morte pela sua falta de sentido e de uma explicação que nos conforte, criou as religiões. Desde daí, passamos a aceitar o sofrimento como algo inerente a vida e que a felicidade é uma utopia, ou feita de raros momentos, que “duram pouco” como diz a cultura popular. Já o sofrimento pode ser diário e é encarado como fazendo parte da vida.

Incrivelmente, muitas pessoas tem até vergonha de dizer que estão bem ou felizes. Parece que é um “peixe fora d’água”, e traz até constrangimento diante de tanta infelicidade e sofrimento por todos os lados.

Ninguém que está feliz precisa de uma religião, ou sente a necessidade de buscar algum deus, apesar de sempre dizer que seu estado positivo é “graças a Deus”. Pensando assim, a única coisa que podemos conseguir por nosso próprio esforço é estar mal, o bem vem de uma graça ou dádiva divina.

As religiões que conhecemos vivem dos nossos medos e angústias, principalmente no ocidente. Uma criança, que vive plenamente não precisa acreditar em deus ou em algum anjo da guarda de plantão e vê-las correndo e brincando nas igrejas nos deveria fazer pensar. Pedimos para que elas se calem, falem baixo ou se comportem diante da introspecção e melancolia que se respira dentro de um templo. Igrejas são feitas para ritos de pecados, culpas, dores e muita tristeza.

A tristeza precisa de um templo, a felicidade faz da vida como um todo seu templo. Você já viu alguém feliz entrar em uma igreja e ficar orando, pedindo um milagre ou intervenção divina?

Enquanto continuarmos ignorantes em relação a nós mesmos e nossas possibilidades, viveremos como crianças, pedindo proteção aqui e ali nesse grande supermercado que virou a fé hoje em dia. Aliás, a fé possível é a que cada um carrega em si, acreditando e confiando nas suas capacidades de realizar seus sonhos apesar das dificuldades. Pedimos o que já temos, afinal somos humanos e deveríamos ser mais conscientes de como somos, funcionamos e, portanto, entendendo de onde vem nossas limitações e dos potenciais criativos que dispomos, naturalmente.

Se pararmos para refletir, veremos que os momentos de felicidade que experimentamos, ou de uma gostosa gargalhada que relaxa todo corpo tem em si apenas uma coisa em comum: o não pensamento!

Pensar é angustiar-se com as perspectivas de um futuro sombrio ou de lembranças de um passado de sofrimento. Não conseguimos lembrar de bons momentos e trazer de volta a alegria, mas das tristezas que passamos, choramos novamente e a dor é como se estivesse acontecendo agora. Isso é a mente funcionando e a falta de autoconhecimento faz pensar que só somos nossa mente. Qualquer libertação parte do pressuposto da percepção que se está preso.

O homem é o único animal que pensa e isso deveria nos fazer o único ser desse planeta a ser plenamente feliz, pois temos a possibilidade de termos consciência do fenômeno da vida e de apreciá-la. Mas ficamos somente com a parte do pensamento que é automática, negativa. Ser automático não tem a ver com inteligência, mas o contrário.

 Estar consciente é um esforço que nos afasta do lado sombrio e pode nos fazer sentir a felicidade, que só é possível se dissociando ou se afastando da nossa parte animal, que busca apenas sobreviver. Nos preocupamos em saber de onde viemos, o que acontecerá depois da morte, se temos algum “carma” de vidas passadas a cumprir, se quando fomos concebidos nossos pais se amavam ou estavam brigando e algumas outras bobagens que nos mantêm em constante tensão.

Quem está consciente no “aqui e agora” não tem nenhum carma para pagar e sai dessa roda de inconsciência, onde um sofrimento leva a outro como a sombra segue o corpo. Não há futuro, afinal nada sabemos sobre o que virá, já que a vida é constante movimento e imprevisibilidade. Passado também não existe, já que mudamos e nunca realmente passamos pelo  que a pessoa que já fomos  fez.  Até nossa memória, já está comprovado pela ciência, é composta de coisas que imaginamos, muito mais do que realmente aconteceu. Só pode mesmo ser assim, afinal, como disse anteriormente, não fomos nós.

Portanto, me permitam a ousadia, quero dizer que não existe “carma”, já que não é a mesma pessoa que cometeu algum ato no passado. São conceitos que sustentam religiões, muitas que se acobertam com o nome de filosofia, que nos mantêm eternamente culpados e com medo da punição divina de algum deus que nem se sabe se existe. Isso sem falar que pode alguma entidade estar perseguindo-o por algo que, uma pessoa que você hipoteticamente foi e nem lembra, ter cometido algum ato bárbaro na idade média. Por favor!

Todas essas crenças são possibilidades e existem tantas que deveríamos, pelo menos, usando a razão, duvidar de todas. Enquanto isso deixamos a vida real se esvair enquanto “viajamos” o tempo todo nas nossas preocupações.

Temos um potencial de felicidade inesgotável, mas nosso subconsciente foi programado por pessoas que também foram vítimas dessas bobagens e não há tecnologia que nos salve desse desconforto existencial. Isso sem falar na cultura, que inclui o senso comum e as religiões que só faz nos sentirmos em dívida. Ouço pessoas que me perguntam se o mal que lhes está acometendo tem a ver com alguma punição divina ou cármica por eventuais erros do passado. Isso não existe! Se existisse, seríamos marionetes e o livre arbítrio não teria nenhuma razão.

As melhores crenças que conheço (e respeito todas), são aquelas que conseguem resistir a, pelo menos, cinco minutos de análise racional.

Quem está consciente de si e se compreende de forma ampla já pagou os seus “pecados”. O maior sofrimento é a inconsciência e estar vivendo sob condicionamentos e medos que foram passados por pessoas também inconscientes. Devemos avaliar se quem nos educou ou ensinou é alguém que atingiu um bom patamar de desenvolvimento. Se não foi, desconsidere e esqueça tudo!

Só podemos ensinar o que sabemos e vivenciamos. Quem leva uma vida de tristeza e sofrimento só pode ensinar isso, mais nada. Não posso ensinar raiz quadrada se nem somar direito sei. Isso vale para tudo. Fico pensando no valor de algum conselho sobre relacionamentos, por exemplo, de quem nunca teve um ou conviveu com alguém tempo suficiente para saber, pelo menos um pouco do que está falando.

Estar consciente é a única forma de atingirmos essa felicidade, afinal só assim temos escolha, que até pode ser de sentir-me mal. Na inconsciência só a infelicidade é possível, já que a mente nunca nos presenteará com algum bom pensamento e existem muitos textos nesse blog falando e explicando isso.

Muitas pessoas procuram a meditação, por exemplo. Isso só acontece por estarem infelizes e procurando um remédio não farmacológico para seu problema. Osho diz que meditação e medicina tem a mesma raiz e isso é muito interessante. A meditação é, de certa forma, um remédio que se busca para uma mente agitada que já está trazendo doenças para o corpo.

Não é necessário meditar quando estamos bem, pois estar bem requer consciência e é isso que a meditação busca trazer. Estar em paz com você e com a vida, com toda sua loucura, já o torna alguém meditativo, não precisa fazer mais nada, apenas viver e isso inclui tudo: trabalho, aprendizados novos e das experiências que tivemos e até pensar no futuro como uma possibilidade, afinal, quem sabe? Mas ficar tenso ou sofrendo quando nada realmente está acontecendo nos coloca abaixo de onde deveríamos estar na hierarquia desse planeta pouco importante e até mesmo no nosso discreto sistema solar.

Muitos comentam que não sabem o que querem fazer nas suas vidas, que nunca se encontraram. O motivo é simples: estão vivendo a vida e fazendo as escolhas que lhe mandaram fazer, nunca as suas. Fazer as próprias escolhas é ser desobediente às vezes, é fazer o que se quer, sendo o que se é. Se somos cópias, como descobriremos quem somos? E o pior; na maioria das vezes, cópia de pessoas infelizes.

Não existe nenhum paraíso ou inferno para ir, afinal a vida é aqui e não em algum outro lugar. Estamos querendo garantir uma próxima vida ou um lugar em algum paraíso e abrimos mão de viver o que temos hoje. Isso supera qualquer tipo de insanidade.

Pode ser que não haja outra vida. E se não houver ou for de outro jeito que ninguém descobriu ainda? Essas respostas nada mais são que crenças que visam trazer algum sentido o nos dar alguma perspectiva, mas isso ninguém pode afirmar.

Quem está apostando no futuro para viver melhor,  em outra encarnação ou viver em alguma nuvem tocando harpa está esperando, evolutivamente, que uma carroça colocada na frente de um cavalo vá sair do lugar.

Se for, é só para ir para trás.

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Para saber mais:

O Homem que amava as gaivotas – Osho ed. Versus

A história secreta da raça humana – Thompson, Richard L, Cremo Michael – ed. Aleph

O Futuro de uma Ilusão – Freud S. –  ed. L&PM pocket

A chance de sobreviver

            “É estupidez pedir aos deuses o que se pode conseguir sozinho.”

                                                         Epicuro – Filósofo Grego

                                                                                                                                                                reencarnacao (1)

E se a teoria da reencarnação que tanto nos consola não for bem como pensamos?

Vivemos no maior país católico do mundo e mais da metade dos que se dizem cristãos frequentam religiões (algumas abrigadas com o nome de filosofias) que dizem que nasceremos de novo. Essa incoerência só pode ser explicada pela nossa busca de saídas fáceis. De um lado o condicionamento cultural, de outro a esperança de uma nova oportunidade para ser feliz, finalmente!

E se existir uma terceira possibilidade entre as religiões orientais e ocidentais? As primeiras defendendo vidas seguidas e a segunda com apenas uma existência, onde depois da morte rumaremos para “outra” casa.

Penso que o ser humano não é algo definível, conforme já escrevi em artigos anteriores. De um lado nossa biologia Darwiniana, muito fácil de ser constada pelos nossos instintos e de outro nosso potencial para o divino, que também vemos diariamente em ações solidárias e fraternas por todos os lados. Vivemos essa constante oscilação entre um e outro, e nosso potencial está mesmo em desenvolvermos uma consciência, conforme escrevi no texto “O terceiro fator”. O despertar dessa consciência, isso sim nos definiria enquanto humanos, um ser entre o animal e o divino, com uma vida própria, no sentido do contexto e identidade evolutiva.

Se esse corpo biológico precisa de uma mente que o faça ter medo e preocupações para garantir que sobreviva o maior tempo possível, também necessita do “espírito”, ou seja, um impulso para o novo, desconhecido, onde realmente podemos evoluir, já que no conhecido não se aprende mais nada.

Essa fricção entre o medo o e impulso é o que leva o ser humano a avançar ou permanecer estagnado em suas crenças e condicionamentos limitantes, outro nome para a palavra “medo”. Como já disse, nossa parte espiritual não está muito preocupada com as coisas desse mundo e se só a ouvirmos os problemas serão tão grandes quanto as alegrias, fora o risco que esses lampejos de liberdade impensada podem nos trazer. Os dois são impulsos, não fazendo parte da individualidade, como equipamentos de um carro fabricado em série, ou seja, mente e espírito são itens de série, sem vida própria, ambos finalizando junto com o corpo no momento da morte.

O desenvolvimento da consciência, que media e une essa dualidade em uma trindade só pode ser dada por dois caminhos; o primeiro é saber que ela existe em potencial e que pode ser desenvolvida. E o segundo, é a determinação, somada aos esforços corretos para obtê-la. Esse “querer” nada mais é do que  outra definição para a palavra “vontade”, que em última análise é o que nos move a enfrentar o medo, matéria prima da mente.

Essa consciência, se for desenvolvida, adquirindo portanto uma identidade, poderá sim, reencarnar. Não é nossa parte espiritual que passaria a ocupar outros corpos no futuro, mas nossa consciência, essa sim uma identidade conquistada pelo mérito de pôr o saber em prática, como uma forma de viver e entender a existência. O espírito nada mais é que um impulso, necessário para fazer oposição à mente puramente animal. Mente e espírito são claramente antagônicos, conforme citei acima, não sendo, portanto, a verdade.

Dentro dessa abordagem, a reencarnação só seria possível se essa consciência for desenvolvida, caso contrário, no momento da morte nada se desprenderia, como uma semente, que por nunca ter germinado, não chegou a nascer no sentido evolutivo.

Como na natureza nada se perde, essa essência retornaria à sua origem, um potencial de vida, sem forma, sem nada! De onde veio esse potencial que não tenha frutificado, para lá voltaria, mas sem uma identidade, já que o potencial de consciência não se oportunizou e a identidade não foi atingida.

É muito cômodo e pouco lógico que todos, independentes ou não de esforço, evoluam em direção ao divino. Em um universo onde o movimento e a impermanência são a verdadeira Lei, como entender a estagnação? Essa recusa precisa de um preço ou reação.

Sei que você, caro leitor(a), poderá perguntar como que as pessoas que moram em lugares miseráveis, tanto materialmente como socialmente e encaixariam nessa ideia? Minha resposta é que mesmo nesses lugares, e a história está repleta de exemplos,  há muitas pessoas que avançam consciencialmente. Sempre com muito esforço, remando contra uma maré muito mais forte que a dos outros lugares privilegiados. Na verdade é mais fácil de desenvolver ali, onde o sofrimento é epidérmico e a busca por compreende-lo, dar-lhe um sentido é quase uma necessidade.

Já, quem tem melhores condições, sofre justamente por uma fácil acomodação e uma crença em um deus “papai” que nunca vai deixar nada acontecer a seu filho, aquela eterna criança. Mas mesmo o conforto não impediu Sidarta de se tornar um Buda nem Francisco de Assis de atingir a santidade e poderia trazer outros exemplos.

Assim, de um jeito ou de outro, sempre sofremos com uma força contrária, que nos empurra para a estagnação (medo), nos desafiando a buscar o outro lado e, finalmente, encontrar o meio termo, esse sim a Verdade, por incluir os opostos.

Conta a história que quando Sidarta Gautama chegou à iluminação, disse ter se lembrado das suas últimas mil vidas, ou seja, depois de ter despertado essa consciência (terceiro fator), esse foi o tempo que precisou para encerrar sua jornada reencarnatória. Da mesma forma poderíamos falar de Cristo, por que não?

Como diz Osho em “Destino, Liberdade e Alma”, o que sabemos de Jesus foi sua última encarnação. Assim como Sidarta, ele deve ter vivido muitas vidas antes do seu clímax. Sei que para os cristãos, Jesus só nasceu essa vez e voltará. Mas se você gosta da ideia da reencarnação, na medida em que vidas seguidas nos levam à evolução, a ideia de Jesus ter vivido vidas anteriores deveria ser óbvia e fazer todo sentido.

O que constato é que mais de dois mil anos se passaram e esse retorno esperado não aconteceu. O planeta está morrendo pela exploração desenfreada e inconsciente de uma humanidade  ainda primária no aspecto evolutivo, como também comentei no texto “Verdadeiramente órfãos”, e Ele ainda não apareceu.

Não virá, por não estar mais ligado a essa etapa evolutiva. Ele se “salvou”, tentou salvar a todos como fizeram outros grandes Mestres da história, sem sucesso. Não há salvação fora da consciência, mesmo que ela esteja estampada na frente da pessoa, ela não poderá reconhecer. Como ela poderá ver algo que não tenha em si?

Vejo o processo como individual, precisamos desse “despertar” para que através do pensamento racional, de uma observação atenta à realidade e práticas pessoais se busque uma nova abordagem que não seja a dos dois impulsos que conhecemos. Estar em um extremos é estar com apenas meia percepção.

Quando se diz que Deus está dentro de cada um, vejo como esse potencial que precisamos  buscar de uma consciência mais desenvolvida que nos faz operar o maior dos milagres;  mudar a realidade  que cada um experiencia sua existência. O mundo nunca muda, só o que pode ser alterado é nossa relação com ele e isso só vem se morrermos para inconsciência e ressuscitarmos mais lúcidos, no “caminho do meio”.

Nossa reencarnação pode não ser garantida, para muito menos o paraíso. Podemos, porque não, abrir o leque de possibilidades para algo que nos motive a ir adiante. Do jeito que pensamos como cristãos ou reencarnacionistas de um jeito ou de outro tudo se resolverá um dia, seja vivendo infinitamente, seja indo morar no “céu”. Esse pensamento acomodado carece de lógica e é no fim das contas muito cômodo.

Como tudo são teorias e sempre serão, fique com mais essa. Nesse primeiro post de 2016 porque não começar o ano pensando diferente?

Sei que ela tem um problema, um desconforto que nos responsabiliza diante da evolução.

Mas vai que essa seja mesmo a certa?

O reencontro

Crônica publicada no Folha SC em 05 de Janeiro de 2016.

O cinema estava lotado. Eram os antigos e os novos participantes da saga Star Wars, que depois de alguns anos voltou com alguns dos heróis dos primeiros episódios que datam do começo dos anos 80.

 Ouviram-se murmúrios quando Han Solo entrou em cena, eram os pais contando para seus filhos que Harrison Ford estava no episódio lá detrás e que o tempo passa para todos. Da mesma forma, a  princesa mostrou que lá nas galáxias distantes, apesar de muita tecnologia,  as mulheres envelhecem e não tem mesmo jeito.

No mais é a boa e velha luta do bem contra o mal, mas isso não importa. O legal era nos reencontrarmos como quando éramos há décadas e o filme soube explorar isso muito bem. Já no começo as letras que situam os mais novos sobre toda história, afinal os antigos nunca esqueceram, começam a correr pela tela como nos velhos tempos e isso trouxe a sensação que estávamos em casa.

As naves, como se esperava, eram grandiosas e as lutas no espaço eram com as mesmas pequenas e ágeis dos episódios antigos, com pilotos heroicos e imortais. Só morrem os desconhecidos e imagino que os que assistiram em 3D aproveitaram cada tiro e explosão.

Nossa heroína se mostra mais homem e corajosa do que os protagonistas que servem de escada para sua astúcia e inteligência. O primeiro episódio da nova série em tempos de igualdade e fim de preconceitos deixa em aberto seu romance com um sub-herói negro e penso que a reação do público (afinal isso é um negócio), deverá decidir se vai ser namoro ou amizade.

Tudo que deu certo nos episódios anteriores foi preservado e talvez o maior mérito do diretor tenha sido de não abusar da tecnologia.  Parece que tudo foi gravado nos anos 80 e só os personagens antigos envelheceram. Como não poderia deixar de ser, o famoso bar com figuras estranhas e uma banda muito engraçada fazendo o fundo musical não poderia faltar. Talvez ninguém tenha pensado nisso, mas as cenas desse bar, onde habitantes de todas as galáxias se encontram para um happy hour, tenha sido o primeiro manifesto a favor da diversidade no cinema.

As espadas luminosas são as mesmas e a novidade é que o mal agora usa uma luz vermelha e o novo Darth Vader oscila entre o bem o mal com pinta de galã, mas perde em convencimento se comparado ao original, mais elegantemente cruel.

As críticas oscilaram do “cansativo” ao “adorei”, mostrando a clara diferença entre os antigos que encontraram exatamente o que queriam e os outros, que só foram assistir  a um filme como qualquer outro e nesse caso não tem como chegar a um acordo.

Imagino que, quem não tenha uma ligação afetiva com a história não deve ter achado nada demais, afinal temos filmes de dez anos atrás com mais efeitos especiais, mas isso só faz sentido para quem estava no cinema nos anos 80.  Um casal sentado uma ou duas poltronas ao lado, ficou falando das lembranças de quando assistiram os episódios na época do começo do namoro. Para eles se a história é boa ou não, está longe de ser o mais importante.

Para os jovens que não entraram no clima, posso assegurar que um dia os vampiros da saga Crepúsculo aparecerão com seus netos lobinhos e com certeza, arrancarão os mesmo momentos de nostalgia.  Mas para isso, precisa ser cinquentão e ter um passado para lembrar.

O setor do entretenimento já percebeu esse filão faz tempo e quantos remakes já tivemos? Os “lá de trás” já tem sua vida feita e não vão se preocupar em pagar o que for para reviver emoções e pensamentos que a vida já os fez esquecer. Basta ver as grandes bandas que nunca conseguem se aposentar, pois seus fãs simplesmente não deixam, lotando seus shows e usando camisetas pretas desbotadas ou de um tamanho bem menor que a barriguinha que a prosperidade trouxe consegue esconder.

Claro que tem muita coisa legal hoje em dia, mas para nós ninguém vai se comparar aos Rolling Stones, AC/DC, Pink Floyd, Led Zepellin e tantos outros. Os músicos já estão na casa dos setenta, que somado a “vida louca” os fazem quase verdadeiras aparições. Mas o que importa é que seja nos filmes ou na guitarra de quem teve uma cabeleira e hoje usa mega hair para não decepcionar os fãs, a grande viagem é podermos nos sentir jovens com a vida toda pela frente novamente.

Se você está na casa dos 20 a 30 anos, um dia vai me entender, é questão de tempo.

Mas a vida segue e os bons sempre voltam. Já soube que em janeiro volta o inigualável “Arquivo X”, e seja como for, não estou muito preocupado se a “verdade” virá à tona. O que quero é ver a cara de tédio do agente Mulder e o charme misterioso da Scully.

Já estou na expectativa!

Cortina de fumaça

“É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.”   

                                                                  Clarice Lispector  –  Outros escritos

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber.”

                                                         Markus Zusak – A menina que roubava livros

 inconsciente

É comum dentro do processo da psicoterapia a pessoa conseguir resolver rapidamente o problema que a levou a procurar ajuda. Claro que isso não acontece sempre, afinal nada é mais imprevisível do que uma terapia, onde duas pessoas estão sempre em transformação (cliente e terapeuta). Existem obviamente situações que demandam mais tempo, mas quero me referir aqui a esse aspecto em particular.

A própria pessoa reconhece que o problema não é tão grave ou difícil (lembrando que todo problema é importante), mas tem dificuldade em entender o motivo de não conseguir resolvê-lo, ou conclui que a questão pode ser mais complexa e esse seja o motivo da demora.

Minha percepção mostra que essa “dificuldade” nada mais é que o problema em questão está sendo mantido ativo por atender a uma necessidade que está inconsciente (na maioria das vezes). Mas, afinal, qual o motivo de mantermos problemas que reconhecemos como simples no catálogo dos insolúveis em nossa vida?

A resposta é simples: os mantemos assim para não precisarmos enfrentar o verdadeiro problema, esse sim, mais difícil de resolver por sua solução, normalmente, afetar vários campos que estão estáveis na vida da pessoa e ser antevisto como muito sofrido.

Como diz o título desse artigo, é uma “cortina de fumaça” que esconde ou ajuda a nos entretermos com algo bem menos perigoso, enquanto esperamos duas coisas pouco prováveis de acontecer:

A primeira, é o dito problema se resolver sozinho, sem que seja necessário mover as montanhas que imaginamos que existem para sua solução, ou não precisemos sujar nossas mãos de sangue (é uma metáfora). Quando digo isso é por termos a ideia que nossa ação na mudança pretendida vai trazer sofrimento a outras pessoas e nos tirar alguns confortos. Além disso, sempre tem o medo da nova situação ser pior que a atual e que a mudança não teria sido um bom lance no jogo da vida. Como já frisei em outras oportunidades, dificilmente o que está ruim pode melhorar por si, enquanto a mudança traz a possibilidade de um quadro muito melhor no futuro.

Tudo que é vivo se caracteriza por ser instável, imprevisível e estar em risco, mas nossa mente detesta aventuras. Nunca esqueça que ela só gosta do “de sempre”, mesmo que esteja ruim ou esteja nos fazendo sofrer. O que se pensa nesse caso vem do ditado popular, que, como outros, estão no nosso subconsciente, como leis em nossa vida: “não se troca o certo pelo duvidoso”. Particularmente penso que se o que chamamos de “certo” é ruim, o “duvidoso”, pelo menos, abre algumas possibilidades.

Quando o caso é relacionamento tem o não menos famoso “ruim sem ele(a), pior sem”. Esse ditado afeta mais as mulheres, que na nossa cultura, infelizmente, só se explicam se estiverem acompanhadas. Parece que estar com alguém é um atestado de competência feminina, e esse “alguém” pode não ser tão bom assim. Se você é mulher e está me lendo, quero deixar claro que isso não a inclui, sei que isso não acontece com você e nem é assim que pensa, estou falando das outras…

Já no caso dos homens a palavra que comanda é a acomodação. Os homens, na sua maioria, lidam com o regular como sendo bom e mudar dá trabalho, despesas e um recomeço que, se o sofrimento não for insuportável, pode esperar uma outra oportunidade (que normalmente nunca chega).

A segunda maneira de não enfrentar diretamente o problema é uma pequena variação “mística” da primeira, só que mais absurda: entregar para “Deus” ou para o “Universo” a solução do imbróglio. Nesse modelo a situação fica risível, já que tudo fica resolvido de um jeito ou de outro.  Afinal, se a situação não muda (claro que não vai) é porque Deus não quer, e isso é um “sinal” de que se precisa continuar como está. Com certeza, tem a ver com “vidas passada” ou “carma” a ser resolvido e o sofrimento é uma purificação ou acerto de contas com a vida. Assim, meu sofrimento se torna algo útil que vai tornar minha próxima vida melhor, ou me encaminhar ao paraíso. Olha que inteligente: minha dor fica sendo uma maneira de me tornar uma pessoa melhor!

Você pode me perguntar: de que ditado vem essa abordagem confortável e de entregar para nosso deus a solução?

“Deus sabe o que faz”, ou, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mas, você pode preferir o inigualável: “Todo sofrimento é enviado por Deus para nos purificar e expiar nossas culpas”. Sofrer fica bom, traz vantagens e não preciso fazer nada para mudar!

Nossa inteligência não tem mesmo limites e a criatividade pode nos levar a lugares, realmente, inimagináveis!

Por isso, caso esteja acontecendo de você estar com um problema antigo, que você mesmo não consegue entender o motivo de persistir por tanto tempo, investigue se ele não está servindo para distrai-lo do que realmente seja o motivo da sua tristeza.

Isso é muito mais comum do que se possa imaginar e ninguém faz por mal ou covardia. Lembre que nossa mente não lida bem com nada que nos faça sofrer e isso sempre a deixa em estado de alerta. Nessa hora, mudar o foco e ficar olhando para “outro lado” é uma saída saudável do ponto de vista da mente.

Quando isso acontece no consultório, a pessoa sempre diz que não entende porque resolveu tão rápido essa questão que a incomodava a tanto tempo e tende a dar todo o mérito ao terapeuta. Por isso, sempre digo a meus alunos e futuros colegas que nem toda vitória da terapia é um mérito exclusivo do terapeuta, aliás,  nunca é.

Assim, uma solução rápida muito mais do que um resultado surpreendente pode ser apenas um aviso que o realmente importante e decisivo esteja por vir. O problema anterior foi removido e agora ficar-se-á cara a cara com o verdadeiro inimigo.

Como frisei, não é sempre assim e não são todos os casos, mas os consultórios, comumente, sempre tem um habitual cheiro de fumaça.

O Básico

“Se você ama uma pessoa, projeta coisas que não estão ali. Se odeia uma pessoa, novamente você projeta coisas que não estão ali. No amor, uma pessoa se torna um deus, no ódio ela se torna um demônio, a pessoa é simplesmente a mesma.

Esses demônios e deuses são projeções. Se você ama não consegue enxergar claramente. Se odeia, não consegue ver com clareza”.

                             Osho –  Zen, sua história e ensinamentos.

espelho

Não é fácil aceitar que na verdade nunca conhecemos ninguém.

Quantas vezes você já se decepcionou ou encantou com alguém que gostava, seja em algum romance, amizade ou relação familiar e profissional? Com certeza muitas e o grande problema é que essas pessoas não tiveram absolutamente nada a ver com isso, o problema sempre é de quem se encanta e decepciona.

Um dos assuntos mais falados em psicologia é a projeção, ou seja, quando transferimos para o outro nossos conteúdos. Isso acontece por não termos muita ideia de quem somos, daí a única coisa que podemos ver e identificar nos relacionamentos somos nós mesmos.

Essa oscilação do amor para o ódio ou da expectativa para a decepção acontece toda hora. Inconscientemente sempre espero que todo mundo seja como eu, sinta como eu e vá fazer as mesmas coisas que eu faria em cada situação. Conscientemente, todos dizem que “ninguém é igual a ninguém”, ou a pérola biológica que se cada um tem um DNA diferente é justamente porque não existem duas pessoas iguais no mundo.

Tudo da boca para fora!

O que se vê, é “amar” e “odiar” o tempo todo. Da mesma forma que tem horas que exageramos em alguma coisa e depois precisamos nos abster por um tempo para compensar, oscilamos entre gostar e não gostar. Essa oscilação é simples de explicar; esse espelho que é cada pessoa que nos relacionamos, ora nos mostra nosso lado que gostamos em nós e queremos que os outros vejam, ora mostra o que não queremos que saibam a nosso respeito.

Já quando a paixão surge, pensamos que encontramos a pessoa “certa” nossa “alma gêmea” por quem teremos amor eterno, que superaremos todas as vicissitudes da vida, até porque é bem provável que já tenhamos nos apaixonados na vida passada…

Passado um tempo todos esses 100 tons de rosa vão esmaecendo, até porque só nos apaixonamos pelo que gostamos em nós que esse outro(a) nos mostra nesse início entusiasmante. Na verdade, nos apaixonamos por nós mesmos. Mas como nenhuma ilusão é duradoura, nosso lado menos glamouroso começa a aparecer com o tempo. A isso damos o nome de desgaste ou rotina.

Algum tempo depois queremos intimamente nos apaixonar de novo, voltar a sentir vibrar o coração. Lá estamos à procura de quem me mostre de novo meu melhor ângulo, assim como fazia aquele cantor famoso que só se deixava fotografar de perfil, onde ficava “melhor”.

Desde a infância, quem teve ou tem um irmão  com pouca diferença de idade pode observar que os dois são opostos um do outro, com temperamentos antagônicos. Isso ocorre em uma grande quantidade de vezes. Na verdade, é como se conseguíssemos juntar os dois daria um “perfeito”. Um se projeta no outro e vice versa e aí as brigas e discussões são diárias.

Depois levamos isso para todos os âmbitos dos nossos relacionamentos, quando simpatizamos com pessoas e antipatizamos com outras. De novo, todos são espelhos e, dependendo do ângulo, quero distância ou proximidade.

Quando alguém faz alguma coisa que nos deixa chocados, é justamente por termos descoberto que nunca realmente conhecemos essa pessoa. Imagina apresentarem alguém a você, sendo que “conhece” essa pessoa há vinte anos?

A terapia de casal e familiar trazem essas surpresas todo o dia nos consultórios de psicoterapia.

Portanto, o básico em relação à busca pelo autoconhecimento é começar a parar de imaginar os outros, de usar a minha medida (lembra do DNA?), esperando que todos sejam uma cópia de mim mesmo.

Pode parecer uma loucura, mas a única maneira de encontrarmos um dia esse amor verdadeiro talvez seja por alguém que não amamos nem odiamos. Essa talvez seja a condição básica de realmente podermos “ver” outra pessoa de verdade. Já reparou como uma pessoa com quem você convive, mas que lhe é indiferente, nunca te decepcionou ou surpreendeu positivamente?

Eu sei que seria difícil amarmos (essa palavra é sempre perigosa e exagerada) alguém de quem não gostamos, mas estou falando em tese.

Por outro lado, uma coisa é certa; do jeito que está, comprovadamente não dá certo. Essa constatação se dá pelo número de divórcios cada vez maior, principalmente depois que as mulheres conquistaram sua independência financeira.

Na verdade, penso que não conseguimos conviver conosco muito tempo. Daqui a pouco, precisamos de um espelho novo, com uma moldura diferente.

Como nos ensina o Zen budismo, estamos sós o tempo todo. Qualquer relacionamento seja de que nível for só terá êxito se assumirmos essa responsabilidade essencial. Ninguém me fará feliz, ou será um amigo maravilhoso, nem pai, nem mãe.

Ficamos procurando o tempo todo alguém que finalmente nos compreenda profundamente. Essa é a tese da “tampa da panela” ou da “outra metade da laranja”. Nunca dará certo  me procurar em qualquer pessoa, como posso me encontrar em alguém? Talvez o medo de assumir  responsabilidade  faça com que tenhamos essa fuga de procurar alguém especial, para quem transferiremos essa tarefa.

É como se todos fôssemos estranhos, vagando mundo a fora atrás de algo que nos explique e dê sentido.

O poeta persa Rumi disse certa vez que esteve por longo tempo batendo a porta e quando viu estava do lado de dentro. No caso, ele falava de seu relacionamento com Deus, mas cabe bem aqui.

Portanto, naqueles momentos de angústia, quando nos perguntamos se, algum dia, alguém irá nos compreender, a resposta é não!

Como que alguém poderá compreendê-lo, se nem mesmo você se entende ou compreende verdadeiramente outra pessoa, já que se projeta o tempo todo?

Podemos começar por quebrar os espelhos e ver quem realmente está do outro lado.