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Aceitação

“Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da aceitação. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceita-lo.”

Eckhart Tolle – O despertar de uma nova consciência

 

“ O sofrimento é a não compreensão da dor.”

Dulce Magalhães

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Qual o limite do sofrimento?

Essa resposta é difícil e por isso penso que seja interessante refletirmos sobre ela. Muitas vezes, o sofrimento termina por irmos até o seu final, esgotá-lo. Para isso o corpo tem seus mecanismos. Noto na prática da psicoterapia que a pessoa experimenta uma melhora súbita depois de um sofrimento intenso, normalmente passado alguns dias. Isso ocorre justamente por irmos tão fundo nele que não há como prosseguir, já que nosso próprio sistema tem uma limitação, afinal, precisamos continuar vivos.

Essa também é uma espécie de técnica terapêutica defendida por alguns que tem o objetivo de viver o sentimento intensamente por um tempo curto com esse fim; de esgotá-lo o mais rapidamente possível. Do jeito como somos, preferimos sofrer longamente, pois isso nos dá, inconscientemente, essa sensação de justificá-lo.

O âmbito do sofrimento normalmente está abaixo da nossa racionalidade, justamente porque, na maioria das vezes, seu simples entendimento poderia dirimi-lo. Mas como na nossa cultura sofrer é algo que entendemos que nos purifica ou nos faz evoluir a via longa parece ser a escolhida.

Vamos analisar algo extremo: a perda (morte) de uma pessoa muito querida.

É inevitável e muito normal sentir uma dor profunda. Mesmo os adeptos do reencarnacionismo não estão isentos a ela, afinal, essa pessoa sairá de nossa convivência e não a veremos mais, nem teremos a possibilidade de estar com ela pelo restante de nossa vida.

Aqui, entra o ditado popular: “ A dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional”.

Mas como colocar isso em prática? É muito difícil e precisamos entender o porquê.

Em primeiro lugar, o que acontece é que aprendemos que uma forma de demonstrar amor é pelo sofrimento. Esse conceito é levado muito a sério nos relacionamentos afetivos, por exemplo, onde tendemos a avaliar o quanto gostamos de alguém pelo sofrimento que essa pessoa é capaz de nos trazer. É como fossemos cobrados em sofrer para demonstrar o quanto gostamos da pessoa que partiu.

Sejamos racionais: A morte é definitiva para o corpo e, seja por uma doença, acidente ou qualquer outro motivo, não tem como voltar atrás. O sofrimento muitas vezes vem de procurarmos respostas para perguntas como:

Por que aconteceu com ele(a)?

Não merecia, pois era uma ótima pessoa.

Por que agora e dessa forma?

Por que alguém merece passar por isso?

Essas perguntas nunca serão respondidas, já que para isso a vida precisaria ter uma lógica, um sentido que não tem. Em artigos anteriores já discutimos esse assunto. Dessa forma, ficamos procurando um sentido onde não há e isso mantém o sofrimento por longo tempo, até que a pessoa chegue à conclusão que não terá essas respostas e vai recolocando sua vida nos trilhos. Essa forma, digamos, natural, demora muito. No caso de uma morte, por exemplo, é aceito que a pessoa enlutada tenha prejuízo na sua vida por até um ano depois da perda. Somente após desse período é que se considera a necessidade de procurar alguma espécie de tratamento.

O que podemos questionar é se precisa esperar tanto tempo, se esse sofrimento não poderia ser dirimido pela simples aceitação da infalibilidade da morte. Muitos procuram em si alguma responsabilidade, se poderiam ou deixaram de fazer alguma coisa que evitaria o ocorrido.

Nesse caso, já entramos em mais um aspecto, onde o sofrimento se encontra com a culpa. Sentir-se culpado ou ficar remoendo pensamentos de que algo poderia ter sido feito, nada mais é do que encontrar finalmente uma resposta para entender essa perda: Eu fui culpado, pois poderia ter percebido ou feito isso ou aquilo.

Se, por um lado a pessoa simplifica a situação ao se culpar, por outro essa solução traz o outro problema. Já que a culpa existe, é porque algo errado foi feito e isso exige uma punição. Para isso, não precisa de nenhum juiz ou tribunal; nós mesmos nos impomos algum tipo de pena. Mais tempo passa onde essa punição é cumprida para expiarmos nosso “erro”.

Quando não é uma morte, necessariamente, mas uma perda material onde precisaremos retroceder socialmente ou abrindo mão de algum conforto, sempre vem junto um abatimento do ego que, tem sua autoimagem afetada. Quantos já foram ao limite do suicídio por terem ficado repentinamente pobres e não suportaram lidar com essa nova realidade?

Em outros casos, algum segredo vem à tona e essa descoberta afeta a imagem que a pessoa luta por defender. Daí, acontece de pensar que a morte a eximirá de passar pela responsabilização do seu ato e da mudança que provocará em seu círculo de amizades com a perda do reconhecimento que viria.

Seja qual for o caso, e poderia citar outros tantos, a simples racionalização pura e simples já teria, em tese, a força de tornar o sofrimento sem sentido ou diminuí-lo. Seja para prestar contas à sociedade do nosso amor, seja para defender uma posição ou conceito que temos de nós mesmos, as perdas em geral nos remetem a um longo período de abatimento que pode nos levar a abandonarmos caminhos ou fazermos escolhas que mudarão nosso futuro.

É claro que a dor, seja pela perda que for, até mesmo de um emprego que gostamos e que jamais imaginaríamos que fossemos nos afastar, causa um baque inicial que devemos aceitar. Mas compreender e usar a racionalização poderá ajudar a diminuir o tempo do sofrimento.

Quem sofre pouco, pode parecer aos olhos comuns como alguém insensível, que não se importa ou que não gostava tanto assim da pessoa falecida, que não dava importância ao relacionamento, etc.

Será?

Pode ser simplesmente que essa pessoa tenha optado por não sofrer, desistiu de ficar procurando respostas lógicas para perguntas que nasceram para não serem respondidas.

Seja a perda que for, não tem como não doer, e isso é normal, faz parte e como diz  Eckhart Tolle pode ajudar a transcender, ou seja,  ir além do sofrimento.  Só que isso só será possível se simplesmente aceitarmos que, por exemplo, nada nunca está sólido, seguro ou garantido em qualquer aspecto da vida.

Isso, por um lado pode gerar angústia, por outro é justamente o oposto; se é assim, que seja;  já que sofrer não vai tornar nada mais seguro ou evitar que o inesperado aconteça.

O animal que somos necessita se sentir seguro, por isso lidamos mal com as mudanças, principalmente as inesperadas ou incompreensíveis, como sabemos. Mas entender o sofrimento e ir além nunca foi coisa de bicho.

Temos um cérebro emocional e é dele que vem tudo isso. Mas nunca é demais lembrar que desenvolvemos uma nova parte, chamada Néo Cortex, que nos permite entender, racionalizar e colocar uma compreensão mais profunda.

Só que esse novo cérebro precisa de consciência para ser utilizado e precisaremos ir além do nosso emocional, muito automático, reativo e programado desde o dia do nosso nascimento.

No final, aceitação é muito mais do que dobrar os joelhos diante do desconhecido, pode ser simplesmente aceitarmos que tem coisas que, simplesmente, não devemos saber.

Como fazer para falar com Deus

Gilberto Gil diz que essa letra não é dele, mas não diz de quem. Claramente é uma “inspiração”. Dizem que Deus fala pela boca e age pela mão dos homens. Nessa música está um manual de instruções para entrar em contato. Você perceberá que a receita passa por entrar dentro de nós mesmos. Será que Ele não está lá?

 

 

Imagem de Amostra do You Tube

A Depressão de NATAL

Por detrás da Alegria e do Riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas, por detrás do Sofrimento, há sempre Sofrimento. Ao contrário do Prazer , a Dor não tem máscara.

(Oscar Wilde)

Todo o ano é assim: quando o comércio monta as árvores e o clima de natal começa a chegar é comum ouvir de alguns clientes no consultório a seguinte frase: “Se pudesse, dormiria dia 23 de dezembro e só acordaria dia 2 de Janeiro…” Mas porque isso acontece?

Segundo alguns estudos, cerca de 30% da população ocidental (onde a data é mais tradicional e comemorada) sofre do mal conhecido como depressão de natal ou “Christmas Blues”. As pessoas acometidas desse “mal” sentem na época das festas de final de ano uma angústia, sensação de desamparo, aumento dos níveis de ansiedade e alguns outros sintomas que se assemelham a um quadro depressivo. Penso ser, portanto, oportuno, discutirmos esse tema, já que caso algum leitor seja vítima desse mal estar, possa fazer uso dessa reflexão para melhorar seu quadro.

Existe uma série de fatores que podem provocar essa sensação, mas vou colocar os principais:

Tudo começa com o “clima” de natal, onde todos precisam (?) estar felizes, fraternos, além de outros nobres sentimentos que, nos são impostos de cima para baixo. Caso não nos sintamos assim, é como ficarmos de fora de uma festa em que todos participam e se divertem menos nós. Claramente nos dias que antecedem a data as pessoas são tomadas de uma espécie de euforia que se cristaliza nas lojas onde se realizam as compras dos presentes. Nota-se uma grande ansiedade, correria e pressa, muitas vezes claramente desnecessária, já que muitas pessoas estão até mesmo de férias. Fica-se contagiado negativamente, já que se não me sinto assim, penso que devo ter algo de errado comigo, o que acarreta, no mínimo, uma sensação de solidão.

Também é uma época de convivência obrigatória e alegre, seja com familiares ou colegas de trabalho de quem eventualmente não gostamos ou simpatizamos (não há mal nenhum nisso), mas precisamos estar transbordando de felicidade e, “é tempo de perdoar”, seja o que for, apesar  de podermos ainda não estarmos prontos para esse nobre ato. Essa obrigação de se estar em família, originária da tradição cristã, muitas vezes exige esse sacrifício de se ter que estar com quem não se quer estar. É sempre importante lembrar que não é raro, eventualmente, não termos afinidade ou mesmo não gostarmos de algum familiar próximo. Se desavenças e afastamentos acontecem com amigos (que escolhemos), também podem acontecer na família (onde não escolhemos). Evidentemente que isso provoca ansiedade (toda a ansiedade é sofrimento) e a pessoa não vê a hora de se livrar desse compromisso. Mas o medo de desagradar os demais familiares, não querendo ser o motivo de uma eventual tristeza, faz com que se sinta obrigado a estar presente, afinal, vai que durante o próximo ano alguém importante morre e vem a culpa de ter se dado esse desgosto a  essa pessoa querida…

Não podemos esquecer também das perdas pessoais de familiares que sempre são mais sentidas no natal, já que a família está reunida e a pessoa não está mais presente, o que sempre traz mais um peso emotivo para a data e para a noite de natal. A lembrança dessa perda dura muito tempo e a salvação de uma noite mais animada fica a cargo da presença de crianças, que pelo encantamento dos presentes e até mesmo pela própria condição de criança, ainda não aprenderam com os adultos essas tristezas obrigatórias. Lembrando sempre que, como em nossa cultura, o amor está ligado ao sofrimento, não fica bem ficar muito alegre se os demais estão sofrendo pela ausência de alguém.

Situações e emoções reprimidas com familiares, colegas e amigos precisam ser esquecidas para que a festa não seja estragada, o que aumenta o nível de tensão e faz da noite de natal para muitas pessoas um sofrimento inescapável.

Projetos e metas que estipulamos no ano anterior e, pelo motivo que seja não puderam ser cumpridas, baixam a auto-estima e nos lembram de que, de alguma forma, fracassamos, trazendo um sentimento de inadequação.

E, ainda para piorar, algumas pessoas têm nas compras um escape para suas ansiedades e fazem no natal dívidas que terão que cumprir no ano seguinte por alguns meses, com o objetivo de se sentirem melhores, o que nunca acontece…

Enfim, poderia ainda elencar outras razões para esse fenômeno que tem crescido a cada ano, mas penso que os citados já são suficientes para uma reflexão sobre o tema e, para aqueles atingidos, o consolo de saber que estão acompanhados nos seus sentimentos por muita gente. Nessa hora, procure rever a maneira como você lida com essa data, se dê, de presente, um natal diferente, revogando algumas obrigações que não fazem mais nenhum bem. Procure ser honesto consigo e evite fingir o mais que puder, já que, quando não estamos naturais a tensão está presente e terminamos exagerando na comida, bebida ou compras para nos anestesiarmos. Portanto, se você não sofre dessa depressão de época, pode conhecer alguém assim, torne-se mais compreensivo sem a necessidade de estar perguntado: O que você tem? Porque está com essa cara?

Mas quando isso começa? Pode ser desde a infância, com dias de natal tristes, onde muitas vezes a criança não entende racionalmente, mas sente  o clima e a cada ano, mesmo depois de adulto, a cada natal volta a sentir a mesma tristeza. Mas também isso pode começar a partir de um natal em especial, pelo motivo que for, criando um trauma revivido a cada ano.

Nossa mente, na sua parte ligada a sobrevivência, nos remete ao passado com facilidade, seja por alguma data, música, aroma, etc. Ainda mais se for para a negatividade. Dessa forma, sentimos a mesma sensação da primeira vez mesmo que já tenha se passado muito tempo, e isso tem a finalidade de não repetirmos nada que nos fez sofrer com o objetivo de nos manter vivos. Não existe análise qualitativa nisso. Observe que os bons momentos são lembrados com pouca emoção, como se estivéssemos contando um filme que vimos, mas os ruins…

Aliás, um dos grande problemas dos nossos sofrimentos estão ligados ao fato de não sabermos como nossa mente funciona, o que impede mudanças importantes nos padrões de comportamento. Como poderemos arrumar ou ajustar uma máquina que não sabemos seus princípios de funcionamento?

Para encerrar, console-se com o papai Noel dos trópicos, no calor escaldante com roupa grossa, barba e tendo a obrigação profissional de estar sempre sorrindo, batendo sua sineta dando o fundo musical dessa data que faz tanto bem e mal…

 

DEPRESSÃO – O grande Vazio

” Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas”

Martha Medeiros

 

 

A depressão é uma doença que compromete o organismo em todas as suas esferas, ou seja; a parte física, os estados de humor e, em conseqüência, o pensamento. Dessa forma a depressão muda completamente a maneira como a pessoa percebe o mundo e interpreta a realidade, expressa suas emoções e, principalmente vê suas perspectivas em relação ao futuro. Um dos grandes problemas é que, quando nesse estado, a pessoa tem absoluta certeza que essa maneira de ver e sentir a vida de forma tão negativa nunca terminará. Em outras palavras, ela pensa que  não existe possibilidade de mudança, é uma condenação perpétua a tristeza e a negatividade.

Nessa hora, infelizmente, muitas pessoas ligadas diretamente à pessoa deprimida não conseguem entender que se trata de uma doença, ficam forçando uma maneira de ver a vida mais otimista, acusam a pessoa de estar fazendo “cena” e dão conselhos dos mais diversos que só atrapalham. Procuram, por exemplo, citar pessoas ou situação profundamente tristes e desesperadoras para que o deprimido faça comparações com seu atual momento, dando a entender que sua situação nem é tão ruim… Isso só faz piorar as coisas. Os mais ignorantes ainda dizem que é “falta do que fazer”, precisa “de um tanque de roupa para lavar” e outras barbaridades similares.

É muito importante entender que mesmo parecendo apática, a pessoa deprimida está em uma ansiedade profunda.  A ansiedade, como já dissemos em artigos anteriores, é um pensamento negativo ligado ao futuro. Assim a pessoa deprimida só consegue  pensar seu amanhã da pior forma possível. É justamente por isso, que nos quadros depressivos a pessoa pensa na morte como uma solução para o sofrimento que, no entender dela, nunca mais vai ter fim.

Assim, se o futuro é visto de forma tão negativa qual é a alternativa? Simplesmente voltar-se ao presente, a atividades que exijam atenção. Não importa muito o que seja essa tarefa, desde de que exija concentração. Ler, caminhar, conversar, um trabalho não tão rotineiro; tudo ajuda muito quando mantemos o cérebro completamente ativo, impedindo que os pensamentos viajem em direção ao futuro e a sensação ruim volte. Já sabemos que nosso metabolismo está ligado diretamente aos pensamentos, ou seja, pensamento negativo é igual a sensações físicas desagradáveis e isso se torna um círculo vicioso.

Todos nós devemos evitar o tédio, já que a ciência prova que o cérebro se aborrece com a ociosidade. É como diz o provérbio popular: “mente vazia (entediada, rotinizada) é a oficina do diabo”. Quando as células cinzentas do cérebro não têm nada em que se ocupar, vêm os pensamentos negativados, o medo e o desânimo como conseqüência inevitável. Fugimos instintivamente disso, basta perceber que, quando o momento da vida não é dos melhores, evitamos ficar sozinhos e ligamos a televisão, o rádio do carro, etc. Nem percebemos, mas sabemos que estar em ócio mental é pensamentos negativos na certa!

Os estudos mostram que nosso cérebro desalinha sempre que temos tarefas fáceis demais ou que tenha uma complexidade acima da nossa capacidade. Assim, nossa capacidade de concentração cai sempre quandp o que fazemos é fácil ou difícil demais. Sempre que estamos concentrados o cérebro libera um hormônio chamado dopamina, que é um lubrificante do intelecto e também nos dá a sensação de prazer de estarmos fazendo algo que nos faz melhores.

Por isso, quando estamos fazendo algo que realmente gostamos, por mais que o corpo físico seja exigido, descansamos mentalmente. Isso se dá pela concentração que a atividade prazeirosa traz em comparação como o sofrimento e angústia da ansiedade. Evite, portanto, aconselhar férias para alguém deprimido, já que terá mais tempo para sentir-se mal pelos pensamentos negativos.

Trabalhos feitos na Europa demonstram que o melhor remédio antidepressivo é uma caminhada de 45 minutos 3 vezes por semana*. Além dos efeitos físicos e químicos que essa simples atividade física produz, estamos tomando uma atitude de enfrentar a tristeza e buscarmos uma melhora. No caso da depressão, a atitude é tudo!

Quem está deprimido não tem ânimo nem motivação, isso só vem como resultado do esforço inicial buscando a melhora, portanto entenda e não cobre demais caso você esteja convivendo com alguém em depressão.

Aliás, sobre depressão poderíamos escrever um infinidade de artigos abordando suas diversas faces, mas a idéia é buscamos um entendimento mínimo, já que pela quantidade de remédios vendidos é provável que sempre tenhamos por perto alguém nessa situação.

Infelizmente hoje em dia, em minha opinião, os remédios antidepressivos são prescritos com muita facilidade. Com quadros de tristeza, de uma distimia, os pacientes já saem dos consultórios com uma receita e, obviamente, assumindo que estão depressivos. A vida é feita de momentos tristes e alegres, e aprender a lidar com eles faz parte do desenvolvimento. Já a depressão é um vazio, uma ausência, falta ânimo para tudo, levantar, tomar banho, cuidar de si minimamente e outros sintomas que nada tem a ver com não estarmos tão felizes por uma fase da vida, uma perda etc. Por favor, não entenda que sou contra os remédios, sou a favor, desde que aplicados nos casos realmente indicados. O remédio não cura, ele apenas busca uma estabilidade mínima para que a pessoa leve adiante seus compromissos. Se o motivo que provocou a depressão não for enfrentado e mudado, a vida será sempre na faixa cinza do “vou indo…”.

Não se anestesiam emoções, aprendemos com elas fazendo-as de ponte para um futuro melhor!

 

  • Para saber mais sobre essas pesquisas leia “A fórmula da Felicidade” – Stefan Klein. Ed. Sextante

 

 

A Primavera e o princípio Feminino

“Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher.”

Super Homem, a música –  Gilberto Gil

 

Começou a primavera, a mais feminina das estações, sendo uma boa oportunidade para falarmos do princípio feminino e para isso me valerei da mitologia grega e duas personagens femininas que se completam.

 

Conta a mitologia que havia uma deusa chamada Deméter, soberana da natureza, responsável pelas colheitas, flores e tudo que era gerado pela terra. Regia os ciclos da natureza e todas as coisas vivas. Deméter era uma deusa matriarcal, simbolizando o poder das entranhas da terra, que para os gregos, não necessitava de nenhum reconhecimento espiritual dos céus. Diz-se que ela ensinou aos homens como plantar e arar a terra e, as mulheres, como moer trigo e fazer o pão.

 

Deméter morava com sua filha chamada Perséfone em completa harmonia e felicidade, razão pela qual, tudo frutificava e a natureza brindava a todos com sua abundância. Porém, como nada persiste, um dia Perséfone saiu para passear e conheceu Hades, o temível senhor das trevas   (símbolo da morte) que se encantou por sua beleza. Hades, ofereceu a Perséfone uma romã (fruta utilizada por escolas iniciáticas por seu simbolismo) e a bela jovem apaixonou-se por Hades e foi morar com ele nas profundezas da terra. Ocorre que Perséfone foi embora com Hades sem avisar sua mãe, que pensou ter ela sido raptada. A paixão, às vezes é mesmo assim…

 

Enfurecida pelo desaparecimento da filha Deméter ordenou que a terra secasse, recusando-se a devolver-lhe a abundância enquanto não encontrasse sua filha, saindo pelo mundo a procurá-la. Deméter nesse momento nos mostra como temos dificuldade de aceitar as mudanças bruscas em nossa vida, já que, mesmo depois de saber que sua filha tinha ido de vontade própria e que estivesse sendo tratada com todas as honras de rainha pelo esposo, permanecia irredutível em sua posição.

 

Os deuses do Olímpo, preocupados que todos morressem de fome pela postura de Deméter, pediram que Hermes intercedesse e tentasse um acordo. Hermes, faz-tudo e padroeiro dos embusteiros, encontrou uma saída  mediada para o fim do conflito.

 

Assim, ficou decidido que durante nove meses do ano Perséfone ficaria com a mãe e durante três meses, desceria às profundezas da terra para estar ao lado do marido.

 

Embora o acordo esteja sendo mantido, até hoje Deméter ainda não se conforma totalmente com ele. Assim, durante os três meses que a filha fica longe, sua tristeza faz com que as folhas caiam, a terra esfrie e nada produza… Porém, quando Perséfone vem ficar com sua mãe, a alegria de Deméter faz as flores desabrocharem e, estamos na primavera…

 

Os ritmos dos ciclos menstruais, as mudanças de humor que o acompanham, fazem da mulher intuitiva, aceitando e mostrando que é possível entender o lado irracional da existência. O temperamento da mulher, somatório de Deméter e Perséfone, estão relacionados aos ciclos da natureza, muito mais do que com a lógica, afeita ao princípio masculino. Por isso, quando um homem se liga de forma criativa as emoções, está em contato com seu lado feminino que Jung chamava de Ânima.

 

Simbolicamente, Perséfone representa o espírito preso no ventre da matéria (por isso se apaixonou pelo Deus da morte), enquanto Deméter simboliza o espírito renascido da carne, dando origem a uma nova entidade que resulta de ambas. Perséfone é a intuição, afinal ela mora três meses em “outro mundo” e Deméter é a ação e conclusão, representada pela colheita, final do processo.

 

Enfim, sobre isso poderíamos falar muito, mas a proposta é sempre uma reflexão para enriquecer nosso auto conhecimento. Por isso, sempre que a primavera chegar, lembre que a filha que habita o mundo dos mortos vem visitar sua mãe que mostra sua felicidade na exuberância das flores e frutos. Pode acontecer dos primeiros dias demorarem a chegar, mas não se preocupe, Perséfone sempre vem, mas também faz parte do princípio feminino um atraso, vez por outra…