Agenda

Verdadeiramente órfãos

“Ser agnóstico é como enfim tirar a venda, mas descobrir-se cego.”

                                                                                 Rodrigo Quito

Ograndepensador

Essa foi uma daquelas notícias que ninguém dá importância:

“O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, alertou que até 2030 quase metade da população global terá problema de abastecimento. Isso vai acontecer porque, daqui a 17 anos, a demanda por água vai superar a oferta em mais de 40%.”*

Poderia citar tantas outras sobre outros tipos de esgotamento do planeta, mas vou deixar apenas essa, já serve para nossa reflexão.

Em outros artigos desse blog já  falei que a ideia que temos de Deus, como sendo um “pai” ou uma figura quase humana nos mantêm infantis por toda uma vida, já que no nosso inconsciente (estou sendo otimista), temos a ideia de um Deus que está cuidando de nós; aquela história de crianças que não sabem o que fazem. Como tudo que é dito mil vezes…

Assim, vivemos achando que se algo bom acontece é “graças a Deus”, e se for sofrimento “Deus sabe o que faz”, ou a ótima: “cada um carrega uma cruz que suporta o peso”.

Interessante observar que isso nos coloca sempre na condição de uma vítima, sem autonomia, ou seja, sempre terá quem me cuide, seja Deus ou um Anjo da Guarda qualquer designado para esse fim. De forma coletiva pensamos da mesma forma, e isso pode estar por trás do nosso descaso ou falta de consciência ecológica.

Esse alerta da ONU é baseado em dados científicos e existem outros estudos que mostram que até 2040, mais da metade da população mundial poderá morrer por problemas ligados a exaustão do planeta. Esses dados não são ficção científica, estamos falando daqui a 25 anos e, se não fosse pela destruição, provavelmente todos nós poderíamos estar vivos nessa data.

Cabe lembrar que o ser humano não faz parte da cadeia alimentar. Alguns dizem que estamos no topo, mas na verdade somos a única espécie que, se deixasse de existir, garantiria que esse pequeno planeta azul duraria  muito mais. Somos desnecessários aqui e deve ser por isso que só fazemos mal.

Existe um equilíbrio na natureza que o Homem insiste por ignorância e ganância, que no fim é a mesma coisa, afetar com sua conduta destrutiva. Nenhuma espécie destrói seu habitat, só mesmo o humano.

O sonho do mundo é viver uma vida de consumo, como os EUA,  por exemplo. Só que  se isso ocorrer fará com que precisemos de outros planetas iguais ao nosso só para dar conta da demanda dos recursos necessários para gerar energia e matéria prima para produzir tudo que queremos comprar.

Fico pensando se tudo isso não está acontecendo por termos a ideia de que nenhuma tragédia acontecerá, que nada se esgotará porque “Papai do Céu” está cuidando e certamente intervirá de alguma forma para que seus filhos não morram pelas suas burradas. Vai que Deus é um daqueles pais que não colocou o filho no mundo para sofrer.

Penso que não seja.

A história da humanidade está repleta de erros que custaram milhões de vidas e não percebi nenhuma intervenção divina. E se o conceito que temos de Deus enquanto humanidade estiver errado? Afinal foram pessoas como eu e você, algumas que hoje em dia certamente estariam acompanhadas por um psiquiatra, inventoras dessa ideia de um pai protetor, que nos cuida como crianças, a quem pedimos ajuda para atender aquilo que não nos sentimos capazes de conseguir ou para termos a desculpa para os erros crassos em nome do desenvolvimento e da felicidade geral.

Estamos destruindo o planeta e não teremos ajuda “externa”, pois se ela existisse teria evitado muitas das bobagens que já fizemos, como duas guerras mundiais e tantas outras no decorrer da história, para dizer o mínimo.

Qualquer ecologista principiante sabe que não existe crescimento sustentável, isso é uma mentira. Todo o crescimento ou destruição não pode ser recomposto. Da atmosfera aos lençóis freáticos, estamos matando esse organismo vivo que é o planeta Terra e morreremos juntos, esperando uma redenção. Temos prognósticos nada animadores sobre doenças que estão por vir, justamente pelo desequilíbrio que estamos produzindo em larga escala.

Então, estive pensando e cheguei a uma conclusão que uma das saídas filosóficas para o problema seria mudar o conceito de Deus. Já que ninguém pode discutir crenças, lá vai mais uma:

E se Deus apenas seja um impulso de vida e que depois estamos cada um por nossa conta? A isso damos o nome de “livre arbítrio”. Seja individualmente, seja coletivamente, estamos fazendo coisas para atender nossos desejos de riqueza e poder,  gerando resultados que teremos que assumir. Se a lei do Carma existir, estamos ferrados!

Dessa forma, talvez a solução possa ser nos tornarmos todos Agnósticos**.

Sei que isso faria com que as Igrejas de todos os tipos perdessem finalidade e muita gente teria que arrumar outro programa para os domingos pela manhã. Alguns canais de televisão perderiam parte ou toda sua programação, além é claro de muita gente, mais muita mesmo teria que fazer outra coisa para sobreviver.

O agnosticismo é a visão que mais tem crescido ultimamente no mundo, principalmente nos países mais desenvolvidos onde o nível cultural é o mais elevado. Obviamente, isso não é uma coincidência; afinal quanto mais se estuda, mais se consegue pensar com alguma lucidez e observar que algumas histórias de ninar fazem parte do mundo da fantasia.

Reconhecer que a natureza como um todo  é movida por uma “inteligência “ superior e que a vida é algo tão magnifico que não poderia ser causada por nenhum acidente, é um conceito religioso em si mesmo. Mas saber que isso possa ser tão grandioso que não possamos entender é muito justo pela nossa insignificância. Vivemos em um planetinha minúsculo em uma galáxia pequena diante de milhões de outras em um Universo sem fim. É como querer que uma ameba entendesse  os textos de Kant.

Sei que isso nos deixaria desamparados em um primeiro momento, afinal estamos acostumados à ideia de sermos cuidados, mas em seguida começaremos a assumir nossa responsabilidade de forma totalmente diferente. Viraríamos adultos e rápido.

Isso poderia trazer uma nova visão ecológica, bem mais fatalista, já que tomaríamos consciência de que somos responsáveis e estamos caminhando para a autodestruição. Toda e qualquer prática que levasse ao esgotamento dos recursos seria rechaçada de pronto e teríamos um lugar para viver por mais tempo. Mas a condição é assumirmos que estamos por nossa conta, sem ajuda.

Tenho um filho de 5 anos e saber que ele poderá morrer jovem por falta de água e ar para respirar atesta que somos um fracasso enquanto humanidade. Muito da falta de consciência vem não só da ignorância, mas da ideia que nada nos acontecerá, que estamos protegidos por sermos a “imagem e semelhança” do criador.

Tudo que existe é assim, de certa forma entregue ao acaso e a grande maioria das espécies que já habitaram esse mundo desapareceram. As poucas que podem ser consideradas antigas não sobreviveram por serem fortes ou qualquer qualidade superior, mas pela sua capacidade de adaptação. Isso é uma forma de inteligência que precisamos aprender com os lagartos, tartarugas e moluscos. Se eles estão aqui há muito mais tempo do que nós, é por possuírem um tipo de inteligência que nos falta. É uma questão de lógica,  é só observarmos os fatos e não há como negar.

Nosso problema, como diz sabiamente o filósofo Mario Sérgio Cortella ***, é nos acharmos “grande coisa”, de estarmos acima das consequências da destruição que promovemos.

Esse tipo de pensamento tem fundo religioso, de nos acharmos quase deuses, quando na verdade somos só um pouco melhores do que os macacos, com bem nos mostrou e provou Darwin.

Assumir nossa ignorância mais essencial, que nada sabemos sobre esse Criador, levar em conta que tudo pode ser totalmente diferente do que esperamos confortavelmente, possa ser a alternativa mais rápida para não nos destruirmos.

Não somos crianças que não sabem o que fazem, somos autores e responsáveis por cada ato e nisso não há quem possa nos perdoar.

Quando o Papa Bento XVI esteve visitando os campos de concentração de Auschwitz saiu de lá abalado e perguntou em voz alta: Deus onde você estava que deixou isso acontecer? Via-se no seu rosto que ele estava em dúvida na sua ideia de Deus e teve seu momento agnóstico.

Essa Força criadora estava no lugar de sempre, aquele que não tenho noção de onde seja e que pode ser em todos os lugares, para o que entendemos por bem e mal. E não fez nada, porque mesmo que Ele exista, não é da conta dele. Só mesmo estando cego por alguma crença para não perceber. Observe a história e me diga que se o meteoro que dizimou os dinossauros, as pestes e nossa ganância que matou milhões e continua matando tem sido impedida por alguém.

Sinceramente, você acha mesmo que tem alguém cuidando do seu ou do nosso destino?

                                 homem com ursinho de pelúcia

______________________________________________________________________

*http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2013/03/22/quase-metade-do-mundo-pode-ficar-sem-agua-ate-2030-alerta-onu.htm

**Agnosticismo – doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica.

*** Palestra disponível em:

Imagem de Amostra do You Tube

Sobre a questão da história do planeta e dos seres mais adaptados sugiro a leitura do livro: “Uma breve história de quase tudo” de Bill Bryson editado pela Companhia das Letras.

O terceiro fator

           “Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe”

Oscar Wilde

 

  “ Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma.

     Vivo em uma dualidade dilacerante.

     Eu tenho   uma aparente liberdade,  mas  estou presa dentro de mim.

      Clarice Lispector

dualidade-yin-yang

 

Muito se fala desse mundo de dualidade, do bem e do mal, da saúde e da doença, alegria e tristeza, etc. Todos já cansamos de ouvir que o caminho do meio é a solução para o sofrimento desse paradoxo. Sempre que estamos fixos em um dos polos estamos sofrendo, justamente por excluir o outro. Assim, por exemplo, sofremos se estamos doentes, mas também sofremos quando estamos saudáveis pelo medo da doença chegar. Isso vale para tudo.

A sabedoria do caminho do meio é inclusiva, nada despreza e atende o equilíbrio pela interação dos opostos. Ainda alguns pensam que estar “bem” é estar livre de problemas, pura ilusão! Estar “bem” é lidar com os problemas de forma evolutiva e pouco sofrida. Ansiamos por um dia em que nada nos preocupe. Se esse dia chegar (peça para o Papai Noel), estaremos preocupados pensando que preocupação teremos em seguida e qual será.

Mas existe ainda a, talvez, mais profunda e enigmática dualidade: entre a mente e o espírito (Self, ou qualquer outro nome que designe o imaterial ou eterno em nós). Qual seria então o caminho do “meio” entre esses antagônicos?

Em numerologia dizemos que o Três é o número perfeito, já que traz em si a completude ou a expressão da ideia. Assim os cristãos dizem “Pai, Filho e Espírito Santo”, os egípcios “Isis, Osíris e Hórus”, os Indus “Shiva, Brahma e Vishnu”. Fora da religião, temos o dia que se manifesta no amanhecer, entardecer e anoitecer. Da mesma forma temos o alto e médio e o baixo, o quente o morno e o frio e assim por diante.

Falta então para o entendimento da dualidade seu terceiro elemento, que  abrange e elimina o contraditório pela síntese.

Como sabemos, a mente se caracteriza pelo medo com objetivo da manutenção da vida. Isso explica sua função de nos manter constantemente negativos e apreensivos, mesmo nos melhores momentos. De outro lado, temos aquela “voz” interior que nos pede o novo, o arriscado, ou em outras palavras, a evolução. Para a mente o conhecido, para o espírito o desconhecido, afinal como crescer sem avançar? Avançar é ir além e buscar mais, vencer desafios e correr riscos, como consequência óbvia.

Nossa vida sempre é resultado dessa fricção entre os opostos e o destino é o outro nome que damos as nossas decisões. Poderia então haver algo mais do que a mente e o espiritual? Haveria esse meio termo que abarcasse ambos e nos aliviasse do sofrimento?

Se formos  pelos conselhos da nossa mente, ficaremos sempre na mesma. Ela precisa do conhecido e quer nos manter vivos, independente da qualidade dessa vida ou se estamos crescendo ou não. Mudança, só na necessidade quando não tem mais jeito.

Já o espírito, eterno e  “imagem e semelhança” da criação, não está muito aí para os cálculos e receios e quer mais que vivamos intensamente, pedindo novidades, que o leve para novos caminhos e descobertas, seja qual for.

Assim, imagine-se como um empresário que tem dois assessores, um extremamente conservador e cuidadoso e outro completamente “louco” que só pensa em arriscar e inovar. Todas as decisões desse empresário passam por ouvir seus dois assessores e ele sempre busca a melhor escolha.

Se os dois assessores são a mente e o espírito, quem será o empresário, aquele que dá a palavra final?

Precisa ser alguém que não seja nem um nem o outro, ou os dois ao mesmo tempo, buscando o acordo.

Esse grande chefe chama-se, para mim, nossa Consciência, o terceiro elemento que completa o Humano.

Tenho certeza que já foram muitos momentos em que todos  internamente já ouvimos nossos “assessores” discutindo sobre nossa vida, se deveríamos ou não fazer isso ou aquilo. Quanto mais a discussão fica acirrada, mais vamos achando que vamos enlouquecer ou que entramos em um beco sem saída. Cabe lembrar que eles nunca chegarão a um acordo. Isso não é possível pela total oposição, deixando o entendimento entre ambos, impossível.

Atualmente com um alto nível de decepção com as religiões e seus resultados, e aqui cabe afirmar que elas não têm culpa, o problema é a expectativa ou essa transferência que fazemos para “alguém” resolver nossas questões, experimentamos um mundo cada vez mais ansioso. Essa ansiedade e suas consequências, como aumento das compulsões alimentares, álcool e drogas e tudo mais se dá para os que só ouvem a mente, procurando estancar o sofrimento, está adoecendo a humanidade. O medo advindo dos pensamentos negativos sem fim bloqueia o processo criativo e evolutivo, já que ficamos acuados por medo de que as mudanças que ansiamos não deem certo e viemos a passar necessidades ou privações. Quem tem na mente sua única maneira de viver, trata os pedidos do espírito com desdém, chamando-os de “viagem”, bobagens e outros nomes pejorativos.

Para os que só ouvem o espírito, muitas vezes as decisões são pouco trabalhadas, baixa persistência e mudanças constantes que também têm suas consequências, como por exemplo, a perda da capacidade de se ir até o final dos processos e correr riscos desnecessários. Tudo atrás das constantes mudanças imaginando cada uma como o que falta para atingirmos essa felicidade. Para eles, as precauções que a mente solicita são consideradas como covardia ou receios, a quem  não se deve dar ouvidos.

Assim, cabe ao grande gestor interno, a Consciência, saber avaliar e escolher o melhor caminho, dando razão ora a um, ora a outro e às vezes contemplando ambos.

Porém isso só é possível se entendermos ou soubermos qual assessor está falando e qual é a sua natureza. Lembre que um nunca trará pensamentos do outro. Esse exercício de observação não é difícil de ser feito, mas exige atenção a si mesmo e, principalmente, tomar essa posição de neutralidade e observação.

Nossa ligação com o corpo que habitamos nos empurra de forma natural e instintiva para a mente, afinal ela nos mantém vivos e isso é muito importante. Pode-se começar prestando mais atenção aos pedidos de novidade do espírito, permitindo que se manifestem livremente. Não os julgue, apenas observe a mensagem até o final. Nunca exclua pensamentos ou intuições que fazem seu coração vibrar de emoção e imaginar a sensação de realização. Aliás, sentir-se realizado é outro nome para a coragem de ter vencido as precauções da mente.

Depois, procure conciliar levando em consideração a natureza dos conselhos e encontre esse caminho do meio que nos recomenda Lao Tse.  Busque seu crescimento sem desprezar ou analisar as circunstâncias e tome a decisão como um juiz ou o empresário. Como essa sentença (escolha) afetará a sua vida, responsabilize-se por ela e não se lamente pelo que não fez.

 Mudança sempre dá medo, mas é sempre necessário avançar. Tudo que chega ao seu limite inicia o processo de estagnação e é questão de tempo para começar o protesto da nossa parte que precisa avançar se mostrando em angústia e um vazio interior que nenhuma recompensa material consegue suprir. Nos alimentamos espiritualmente de sonhos e conquistas que nos façam melhores que somos. O que não quer dizer não refletir, ponderar e saber, vez por outra, esperar.

Lembre que tudo que está em processo de mudança cresce e está vivo, mas esse mundo material que vivemos exige ponderação misturada com coragem. Pratique e quando isso for uma experiência verá que na verdade não existem opostos, mas uma coisa só que se manifesta de duas formas.

Essa percepção da unidade só se dará pelo olhar do terceiro e decisivo elemento, a consciência.

Ao findar esse texto, é lícito pensar que tínhamos um problema quando começamos a leitura que era dar fim a essa divisão e agora o problema pode parecer maior, já que um novo integrante precisa ser ouvido. Não é isso.

A consciência não precisa ser ouvida, é ela que ouve!

 

 

 

 

Meditação

“Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela.”

                                                 Albert Einstein

“Existem atitudes do homem que o leva ao amadurecimento, uma delas é a meditação.”

                                           Tailini Girardi

                                                                                                                                                                                                                 MEDITAÇÃO

Tem sido cada vez mais comum nos últimos anos a procura pela meditação como uma solução para problemas como a ansiedade, depressão ou com o objetivo de buscar mais equilíbrio diante dos, cada vez maiores, desafios da vida moderna. O problema é uma grande expectativa (e toda a expectativa de hoje é a frustração certa de amanhã) de que, em poucos dias, uma grande mudança acontecerá. Como meditar é mudar e isso leva tempo, faz com que não haja a persistência necessária para que os resultados apareçam.

Falar em meditação é saber que existem muitas definições, técnicas variadas e toda ordem de misticismos envolvidos o que sempre pode atrapalhar.  Meditar é algo simples, mas alguns pontos precisam ser entendidos.

Para os leitores de “Céu e Inferno”, lembro que  meditar é buscar sair do inferno da mente e buscar o céu da consciência eterna e isenta de sofrimento. Lembre que o conceito de eternidade  é da ausência de tempo, ou seja, não há passado nem futuro, origem de todas as angústias e preocupações.

Então, para começar, o processo da meditação pede que durante a prática, renunciemos a tudo que for exterior, com o objetivo de criar a condição de interiorização, para isso, fechar os olhos é necessário. Vivemos e fomos criados pensando que somos aquilo que temos e queremos ter. Não é fácil se perceber sem “nada”, mas nunca esqueça que sofremos sempre pelo que dizemos que “temos” ou chamamos de “meu”, incluindo tudo que imaginamos que, quando tivermos, seremos mais felizes. A meditação, com o tempo, mostrará que você é um saudável “ninguém”, que na verdade não é dono de nada nem de outras pessoas. Com isso o fardo fica leve e a alegria ganha espaço!

Mostra a natureza nas suas leis simples e verdadeiras que não há progresso sem empenho e esse estado de se perceber livre, nem que seja pelos poucos minutos de prática, leva algum tempo e saber esperar é sabedoria. Queremos tudo para já, e para isso temos dinheiro, cheque, cartão de crédito, débito e imprimimos boletos. Mas estados evoluídos são conquistados e não comprados.

Como bem dizem os budistas, o objetivo da meditação é simplesmente o silêncio sublime, a tranquilidade e a clareza mental, mas como conseguir isso com a mente trazendo lembranças e preocupações sobre o futuro a todo o momento? A resposta é a renúncia a tudo que somos e temos, conforme descrevi acima.

Sidarta Gautama disse certa vez que: “Um meditador, cuja mente se incline para a renúncia, com facilidade alcança o Samadhi* (objetivo final da meditação)”. Mas isso não é você doar suas coisas, terminar seus relacionamentos e amizades e viver na pobreza. É apenas, durante os minutos de meditação se desvencilhar disso tudo, para voltar a sua origem de “ser”. Manter o domínio da mente evitando os pensamentos sobre família, trabalho, compromissos, responsabilidades e, principalmente, as previsões escabrosas sobre o futuro. Para aqueles que gostam de lembrar das situações ruins que já passaram, também evitar afundar na lembrança e sofrer de novo. Imagine, apenas imagine, que você é alguém desprovido de história como ensina Ajaan Brahmavamso.

Para isso, existem alguns recursos, cabe experimentar para descobrir com o que mais se adapta:

– Utilizar uma frase ou palavra (a isso chamamos “mantra”) e ficar conscientemente repetindo essa frase/palavra com o objetivo de manter a mente presa, sem que ela possa “fugir” para os assuntos que citei acima.

– Manter-se conscientemente focado na sua respiração, observando atentamente a entrada e saída do ar.

– Visualizar alguma situação ou imaginar-se em local agradável e evitar “sair” desse lugar.

– Visualizar alguma imagem fixa, que pode ser um símbolo de seu agrado ou qualquer outro (a isso chamamos de Yantra), mantendo a atenção fixa nessa imagem.

Existem infinidades de outras técnicas, e nada impede que você crie a sua, lembrando que o importante é manter a mente “presa” em algo. Obviamente que isso não será conseguido com facilidade, mas a persistência traz o resultado. Cada vez que se perceber divagando entre passado e futuro, simplesmente retorne sem brigar consigo mesmo e retome o processo. Milhares de vezes isso acontecerá. Como você já foi avisado, não dê importância, é assim mesmo.

Procure manter sempre a coluna ereta e para isso pode usar uma cadeira onde apoiar as costas. Ficar sentado em posição de lótus é uma imagem clássica de meditação mas está longe de ser obrigatória. Caso Sidarta e outros que atingiram o máximo onde um ser humano pode chegar morassem em um lugar frio, garanto que sentado no chão não daria certo. Muitos procuram copiar a posição e outras coisas achando que isso os levará ao mesmo lugar. Bobagem!

Quem chegou “lá”, foi com anos de prática e de colocar sua vida dentro de uma perspectiva menos sofrida e isso só aprendendo a estar fora da mente para conseguir.

Manter a coluna ereta ajuda com alguma tensão a ficar atento. Perceber que a cabeça inclinou para baixo ou que as costas curvaram é um sinal de que precisa retomar a atenção na meditação.

O fato de um determinado dia a meditação ser gratificante, de experienciar uma calma profunda e paz interior, não quer dizer absolutamente que isso é algo conquistado e que sempre será assim. No dia seguinte pode ser tudo difícil e frustrante, e isso faz parte. Não existem garantias, é a prática pela prática, sem expectativas. Faça porque é bom, reconhecidamente traz resultados, mas não espere nada.

Esse é o ponto, não é um negócio ou uma troca. Não existe ninguém nesse ou de outro mundo para recompensá-lo. Portanto, não é alguma negociação, como muitos fazem com as religiões esperando que nada vá acontecer com eles nem com os seus entes queridos por fazer parte dessa ou daquela crença e, quando acontece algo ruim, trocam de papa, ministro ou pastor.

Esse desapego dos resultados é decisivo, mas a mente é essencialmente dúvida e  medo, logo ela nunca vai ajudá-lo. Aliás, vencê-la é a meta. A mente nunca vai parar, o que acontecerá é descobrir que esses pensamentos não são seus, enquanto consciência, mas das necessidades do corpo e do medo do sofrimento e da morte.

Com o tempo, poderá acontecer de perceber-se cada vez mais fora dos processos da mente, se tornando um “observador” dos conteúdos que ela traz. Obviamente, quem observa só pode fazê-lo por estar do lado de fora e estar assim é não sofrer.

A meditação também pode ser ativa, ou seja, fazendo algo. Pode ser correndo, nadando ou até mesmo fazendo alguma atividade criativa. Como saber que esteve meditando? A resposta é: se perdeu a noção do tempo e não ter pensado em mais nada além da atividade em si. Esse é o tipo de meditação que as pessoas mais fazem, sem saber que estavam em meditação e é tão válida quando a outra, com uma diferença importante: a atividade evitou as distrações da mente enquanto a passiva ou sentada é uma busca de dominá-la e entende-la.

Depois da sua prática, volte a fazer suas coisas e pensar no futuro é uma delas, mas vá procurando evitar viver nele. Uma das possibilidades é que irá acontecer o que imaginamos, mas pode ser tudo diferente e quase sempre é. Perguntado sobre isso certa vez Sidarta respondeu: “O que quer que vocês pensem que assim vai ser, sempre será algo distinto. O sábio compreende que o futuro é incerto, desconhecido e portanto imprevisível”.  Deixe sempre aberta a possibilidade de que o melhor aconteça, porque para a mente serão apenas tragédias e sofrimentos.

Inicie com dez a quinze minutos, no máximo, por dia por uns seis meses. Aumente o tempo quando se sentir confortável, e não fique anunciando ou divulgando o quanto você medita. Já vi até “selfie” de pessoas meditando. Isso é puro ego e infantilidade. Pessoas assim podem dizer que ficam horas em meditação, mas provavelmente ainda não saíram do lugar. A auto compreensão vai pela via contrária da exposição.

Quanto mais você for se aprofundando, imagino que as fotos, palavras, angústia e medos irão diminuindo em troca de clareza e mais silêncio interior.

Por isso, meditar é perder o desnecessário e ganhar o imprescindível.

___________________________________________________________________

*Samadhi – é a unidade com o Espírito, é o estado mais elevado que se alcança pela meditação prolongada e profunda. Consiste em dissolver a bolha do ego no oceano do espírito. É o estado onde não existe distinção entre o “eu” e o “objeto”, experimenta-se a unicidade com o Todo.

Para saber mais: O método básico de meditação. Ajaan Brahmavamso – ed. Orbi

Terapia, para quê?

“O principal objetivo da terapia psicológica, não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade.”

                                                                       Carl G. Jung

Nós, seres humanos, parecemos ser criaturas em busca de significados que tiveram o infortúnio de serem lançadas num mundo destituído de significado intrínseco”

                                                                      Irvin D. Yalom

                                                                                                                                                            terapia

Afinal, para que serve a terapia?

É natural que a motivação de alguém a procurar a psicoterapia seja um problema, novo ou antigo, que de alguma forma esteja importunando sua vida e dificultando seu processo de crescimento.

Mesmo que pareça simples, esse movimento inicial de buscar ajuda ainda é obstaculizado por um preconceito antigo que liga a terapia a doenças mentais ou a loucura, como incrivelmente ainda hoje se escuta.  Salvo que alguma pessoa importante incentive, com o exemplo pessoal de ter tido uma experiência verdadeira e gratificante com a terapia, existe uma demora motivada pelo preconceito que faz com que essa procura seja adiada até o ponto limite de sustentar ou suportar a situação aflitiva.

O passo seguinte ainda depende de um golpe de sorte; que o terapeuta procurado tenha uma linha de atuação que se encaixe com a pessoa e, de alguma forma, atenda sua expectativa sobre o “como funciona” o processo terapêutico  ou a surpreenda de tal forma a mudar positivamente seu conceito anterior. Infelizmente, muitas pessoas não têm a sorte desse primeiro encontro ser agradável ou atender seus anseios e faz com que, por desconhecimento, coloque a terapia em um novo preconceito; onde todos os terapeutas são iguais e só existe um tipo de terapia, aquela que experimentou e não gostou.

Costumo dizer que existem tantas terapias quantos terapeutas no mundo e isso é fácil de explicar; mesmo os modelos mais ortodoxos, que impõe aos profissionais rigorosas formas de se conduzir e de interpretar os conteúdos trazidos pelo cliente, não deixam de serem pessoas com sua própria individualidade, em que esse modelo que aprenderam sofreu alguma mudança ao ser assimilado. Dessa forma, cada um dá o seu toque pessoal e interpretação individual ao que aprendeu e isso se mostra na sua conduta profissional.

Portanto, se você que me lê está pensando em fazer terapia, saiba que faz parte do processo a procura pelo profissional que se encaixará com seu jeito de ser. Quando essa procura termina? Quando se sentir entendido, profundamente entendido pelo profissional e que a abordagem, ou seja, o jeito de conduzir a terapia faça com que se sinta confortável e seguro. Isso passa também e principalmente, pela  visão que ele tenha do seu problema e da maneira de encarar as circunstâncias que envolvem o cliente, fazendo com que rapidamente uma nova visão da situação venha  e com ela saídas e soluções ainda não vislumbradas surjam no horizonte.

A partir desse momento, o caminho da mudança começa a se definir e, esse relacionamento entre o terapeuta e o cliente, vai sendo a base desse processo, onde os pensamentos, inquietações e dificuldades de se chegar ao objetivo vão sendo avaliadas em todos seus aspectos,  até que o novo quadro se cristalize.

Assim, não existe um tempo definido para terapia. Quando esse processo é bem entendido e vivenciado o resultado obtido teve como ingrediente principal um aumento do autoconhecimento, que tornou o cliente uma nova pessoa e essa nova pessoa foi que conseguiu o sucesso. Quanto mais nos conhecemos, mais diferentes vamos ficando e os problemas que levaram a pessoa a procurar a terapia, no final, foram um aviso de que uma mudança precisaria ocorrer, para que, só assim, o obstáculo fosse transposto.

Em uma terapia bem sucedida nenhum dos dois que começa no processo permanece o mesmo. Essa troca entre terapeuta e cliente sempre traz mudanças dos dois lados, inevitavelmente. Assim, é normal que um vínculo forte de confiança se estabeleça, o que permitirá que o cliente vá cada vez mais profundamente em si mesmo. Como não existe limite para o autoconhecimento, não há para a terapia.

Sei que existe ainda outro preconceito muito forte, vindo da linha mais famosa e antiga da psicoterapia, de que esse processo precisa ser obrigatoriamente demorado, que leva anos. Pode ser verdade, para essa linha especificamente, mas está longe de valer para todos. Nunca esqueça que existem muitas maneiras diferentes de se ver e entender o ser humano, seu comportamento e o funcionamento de sua mente.  Nada impede, absolutamente, que em pouco tempo, as condições de mudança se cristalizem o os resultados venham. Cada pessoa é um universo particular, logo não existe um padrão.

Algumas linhas, mais voltadas à questão do que o ser humano pode tornar-se (e isso sempre é diferente do que ele é hoje), são baseadas em autoconhecimento podendo mesmo nunca ter um fim, já que se estamos sempre mudando. Então,  conhecer-se é um trabalho a ser feito sempre. Claro, que o começo é motivado para resolver um problema, e essa solução pode representar o fim da terapia e não há nada de errado nisso. Porém, esse tipo de abordagem pode continuar pelo tempo que o cliente se dispuser, e posso garantir que os problemas serão percebidos com antecedência e até deixam de ser problemas em si, já que essa ampliação do senso de Eu, onde a pessoa se percebe mais completa, também amplia e, em muito, seus recursos para enfrentar todas as questões que a vida lhe impõe.

Durante algum tempo procurei encontrar um nome para esse momento, porque o termo “terapia” está vinculado à resolução de conflitos e dificuldades. Passei a ver esse processo com o nome de “Psicoterapia evolutiva”*, onde o passado tão valorizado por outras linhas passa a ter uma importância relativa, mas onde a base é o conhecimento de si, as novas atitudes que, com certeza, trarão novos resultados.

Entender os motivos e os processos que nos levam a agir de determinada forma e o vislumbre de novas possibilidades de, com um novo olhar, reinterpretar e dar um novo sentido ao que nos ocorre é a busca que se empreende. Essa visão não é nova nem inédita, mas sempre contemplará uma transformação. Deixar que o antigo se vá para que o novo possa surgir, essa é a questão.

Todos padecem da falta de autoconhecimento, muito pouco incentivado desde sempre, já que pessoas que não se conhecem ou recebem “de fora” suas definições são sempre mais fáceis de serem controladas.

Independente da linha, do jeito e dos conceitos, a terapia é um espaço onde a pessoa pode ser sincera consigo mesma, onde não será julgada nem avaliada e só por isso já vale muito a pena. Ter um tempo para si, para ser verdadeiro, inevitavelmente ampliará os horizontes pessoais e compreensão de si e do mundo que o cerca.

Com certeza, existe uma terapia que se encaixará com você. Portanto, procurar e experimentar não são tempo perdido, mas um grande investimento.

 Quanto custa viver melhor? Existe mesmo um preço para isso?

__________________________________________________________________________________________________

  • A visão não é “evolucionista” no sentido dos nossos ancestrais e dos costumes, mas como desenvolvimento de uma consciência ampliada.

Amor e Ódio

“É como um pêndulo de um relógio. O pêndulo vai até a esquerda, a extrema esquerda, então, para a extrema direita… Aparentemente ele parece estar indo para a esquerda, mas ele está gerando impulso para ir para a direita.

Assim é na sua vida. Quando você ama uma pessoa, você está gerando impulso para odiar a pessoa. Eis porque a pessoa a quem você ama e a  que você odeia não são duas pessoas diferentes”.

                                       Osho – Teologia mística

 

“Nascemos com necessidades, essas necessidades nunca serão inteiramente supridas, mas amamos nada mais que nossas necessidades.

 As necessidades quase sempre aparecem inexplicavelmente ligadas à raiva, em geral dirigidas a alguém que as evoca sem satisfazê-las plenamente”.

                                          Laura Knipis – Contra o Amor

                                                                                                                                                                                                                amor e ódio

Como pode o amor se transformar em ódio?

Na verdade, tudo que é uno se manifesta de forma dual, amor e ódio são as duas maneiras de expressar uma mesma coisa. Como alguém que amamos (ou pensamos isso) pode ser alguém que nos  gere ódio, raiva ou decepção algum tempo depois?

Muitos estudiosos da psicologia defendem a tese que estamos nos projetando todo o tempo na outra pessoa. Como padecemos da falta de autoconhecimento, o que vemos a todo instante no outro nada mais é do que  nós mesmos. É como se  a outra pessoa fosse um espelho onde me vejo o tempo todo. Como a função  do espelho é apenas refletir uma imagem, oscilamos tão bruscamente de sentimento ao nos vermos por vários ângulos.

Podemos até arriscar dizer que o que chamamos de “gostar” ou “amar” nada mais  são que as nossas próprias qualidades que estamos recebendo de volta desse espelho chamado relacionamento. E aqui não falo somente dos relacionamentos afetivos, mas entre amigos, pais e filhos e tudo mais.

Quando, porém, vemos no outro aquilo que não gostamos em nós, que afeta a imagem que temos de nós mesmos, o sentimento se transforma em ódio e no momento em que isso acontece parece que estamos diante de outra pessoa. A identificação é tão profunda que o “espelho” reflete uma imagem distorcida e, em momentos assim, dizemos até que a pessoa em questão estava transfigurada.

Como que alguém que conhecemos há anos (e, às vezes, são muitos anos) pode nos surpreender? Como pode acontecer de ficarmos chocados depois de tanto tempo?

A resposta só pode ser uma: realmente não conhecíamos a pessoa, pensávamos isso. A surpresa de ver o outro tão diferente advém de, na verdade, nunca termos realmente “visto”  como ela realmente é. Víamos a nós mesmo o tempo todo e não percebíamos.

Quando estudamos o fenômeno da “Sombra” fica mais fácil de entendermos esse processo. Segundo esse conceito, só podemos ver no outro aquilo que somos ou poderemos ser.

Observo na prática clínica com frequência essa mudança brusca de quadro quando estamos trabalhando com a terapia de casais. É comum a frase: “Nunca pude imaginar que ele(a) poderia agir assim. Depois de tantos anos…”

Toda a expectativa que desenvolvemos em relação a outras pessoas sempre tem uma base, que sou eu mesmo. Expectativa significa esperar que a outra pessoa aja como eu em determinada situação. Dessa forma, estou novamente diante do espelho esperando do outro a minha ação. Assim, não fica difícil entender como as decepções são algo que certamente ocorrerão e só o que muda é o tempo que isso vai levar.

É muito difícil não agir assim, exigiria um tamanho conhecimento de si que não está disponível para a maioria dos mortais. Torna-se necessário um tamanho conhecimento do conteúdo reprimido que carregamos desde a formação do nosso Ego que precisa uma busca de, quem sabe, uma vida inteira.

Assim, o que podemos fazer para evitarmos tudo isso?

Penso que o primeiro passo é tomar consciência de como as coisas são. Uma boa autoanálise já ajuda. Para tanto,  basta respondermos seriamente algumas perguntas:

– O que admiro na pessoa?

– O que me irrita nela?

– Em que momento tenho vontade de uma aproximação?

– Quando prefiro estar a quilômetros de distância?

Procurar ver o outro  (e lembre que isso vale para todos os tipos de relacionamento), como alguém realmente novo, que não conheço e quero verdadeiramente descobrir. Claro que essa busca pode trazer boas e más notícias, mas veja por  outro lado; é bem melhor a verdade que a ilusão.

Pode ser um dia, oxalá, possamos nos responsabilizar pelo nosso gostar ou não gostar de alguém, por aquilo que o outro realmente é ao invés do que esperamos que a pessoa seja.

Caso contrário vamos de relacionamento em relacionamento nos encontrando e desencontrado de nós mesmos, sem termos tido a oportunidade de realmente conhecermos aquela pessoa que cruzou em nosso caminho, voluntária ou involuntariamente, como no caso da família.

Quando os orientais dizem que vivemos uma grande ilusão o tempo todo (maya), é lícito pensarmos que tem a ver com isso também, ou seja, nos iludimos vendo a nós mesmos quando deveríamos ver o outro. Ficamos projetando nossos sonhos internos o tempo todo para fora, criando uma realidade particular vista apenas pelos olhos de quem somos.

Justamente por isso a frase; “jamais poderia imaginar…” tem um profundo significado. A situação não pode ser imaginada justamente por isso, não faz parte da minha realidade interior. Vez por outra a vida nos assusta, tirando-nos do sonho da imaginação do dia a dia quando constatamos que alguma coisa não foi como imaginávamos ou pensávamos.

Portanto, tanto o amor como o ódio é uma só coisa; aquilo que as pessoas que estão o tempo todo me mostrando; quem sou, minhas qualidades e meus defeitos.

Para muitos místicos essa nossa identidade além do ego é um imenso vazio. Para o Zen, isso é chamado de “ninguém”. Enquanto acharmos e nos identificarmos com esse alguém que pensamos ser, chamado de Ego, também pensamos que não somos a nossa Sombra e vamos vivendo na escuridão, compartilhando a vida com pessoas que imaginamos ser algo, de  quem gostamos ou não.

Isso, no final, é uma grande injustiça.

Quem sabe, só no pensamento, quando nos perguntarem que somos, nosso nome ou coisa parecida, respondêssemos:

– Sou ninguém.

Dessa forma, poderemos ir, aos poucos, abrindo nossos olhos internos para nosso Ser inteiro, única maneira de podermos realmente ver quem está na nossa frente.