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Arrume seus armários

   “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.”

                                                            Fernando Pessoa

mudança

Mudanças são difíceis e, na maioria das vezes, ocorrem sem nossa concordância; são necessidades impostas pela vida. Portanto, a famosa frase “resistir a mudança” tem sua lógica. Nosso instinto de sobrevivência quer a manutenção do que nos mantêm vivos, afinal, estar vivo é uma pré-condição da almejada felicidade poder ser alcançada.

Uma mudança, seja ela imposta ou escolhida sempre será um processo de alguma dor, ou como dizia Nietzsche, de “rasgar a alma”. Isso porque, saímos do terreno conhecido em direção a essa nova etapa que não controlamos (por ainda não termos vivido algum tempo nela), com o receio que nossa máquina corporal nos impõe sempre que estamos diante do que não conseguimos prever; o medo.

É justamente aí que reside a origem e a necessidade de todos os deuses e superstições: uma mão forte diante do medo do desconhecido e de um mundo repleto de acasos e variáveis que escapam à nossa lógica e compreensão.

Assim, diante de uma mudança necessária (as desnecessárias adiamos até se tornarem imperativas), ficamos à espera de uma força que nos anime para adentrar nessa selva desconhecida. Vale fazer uma promessa, beijar a medalhinha do santo protetor e confiar no apoio do Grande Pai, que sempre sabe o que faz e quer o nosso bem. Então, munidos dessa “força”, respiramos fundo e vamos adiante, seja para uma cidade nova, um relacionamento, um novo projeto profissional, um regime ou abandonar velhas rotinas que já não servem mais.

Nossa realidade externa sempre é reflexo do nosso interior, da ordem e desordem emocional que estamos vivendo. Esse conceito não é novo, frequenta a filosofia de autoajuda faz tempo e nos serve muito, quando estamos falando de processos de mudança.

Como já tive a oportunidade de escrever em outros textos, ansiamos por estarmos emocionalmente aptos a enfrentar esse processo de ir em direção a uma nova realidade. Queremos estar animados para o novo começo e isso não é possível, como expliquei acima. O máximo que se consegue, quando a mudança pode representar o fim de uma longa agonia é uma alegria misturada com tensão, que é esse medo diante do novo. Dizemos a nós mesmos: “Vai dar certo, eu sei !”

Não, não sabe. Se soubesse não precisaria estar repetindo segurando a medalhinha. Lembrando que “fé” é acreditar no que não sabemos.

Voltando ao começo desse texto, digo que a saída é a seguinte: se não tem como termos essa alegria/força/ânimo puro, diante do que nos espera, então, como fazer?

A resposta é simples, faça “por fora”, ou seja, mesmo a confiança e a certeza estando ausentes, tome as atitudes (ações) que representem que essa mudança já está em curso e sendo bem-sucedida. Mudando nossa realidade externa, nosso interior acompanhará essa mudança.

Tudo que esperamos que venha de dentro nunca é algo que sentiremos antes, mas somente depois. A “confiança”, qualidade aspirada por muitos, sempre é resultado de atitudes que deram certo. As primeiras, normalmente acompanhadas do medo. Por isso, não tem como se sentir confiante sem ter feito ainda. Parece óbvio, mas está longe de ser.

A “alegria” é sempre depois, nunca antes. É resultado de algo que aconteceu e ninguém fica alegre por algo que acontecerá, visto que isso está no futuro, sujeito a variáveis que podem não resultar no que se espera. Nesse caso, chamamos de “esperança”, sempre acompanhada do medo de não se concretizar.

Portanto, qualidades são depois, resultado de ações que tomamos sentindo receio e cheio de dúvidas. Em toda história de sucesso, sempre encontraremos no começo do relato o momento em que um grande risco foi corrido. O orgulho de quem conta a história nem é do resultado em si, mas de ter vencido a angústia diante da possibilidade de naufragar.

Dificilmente quem está em desordem interna, seja pelo que for, estará com suas coisas pessoais arrumadas. Nós e o mundo somos uma só coisa, indivisível. Justamente por isso, como já disse, o mundo precisa ser um caos. Temos oito bilhões de “mundos” convivendo e para que cada um possa Ser, nenhuma ordem deve estar pré-estabelecida.

Mudamos a mente pelo corpo e o corpo pela mente. A Yoga traz calma a mente, justamente por tirar a tensão dos músculos pelo alongamento, e uma criança é flexível  por não ter uma mente repleta de medos e crenças. Não há corpo saudável em uma mente desordenada e vice-versa.

Dificilmente atraímos para qualquer tipo de relacionamento alguém que seja oposto. Um mau momento pressupõe um mau encontro e escolhas idem.

Assim, mudar o externo é uma maneira mais rápida de mudar internamente mas, como tudo, precisa de compreensão. Quem age sabendo o motivo de estar fazendo tem um resultado mais sólido. De nada adianta repetir mil vezes que se é confiante, por exemplo, se não temos atitudes de confiança. Você poderá dizer que estaríamos mentindo a nós mesmos fazendo isso. Pode ser, no começo. Mas nunca esqueça que tudo que repetimos vira uma verdade pessoal. Mas isso só vale para atitudes, nunca para frases.

Observe como é difícil manter nossa vida financeira em ordem quando estamos em desequilíbrio, assim como nossos armários estão tão desarrumados quanto nossos pensamentos e emoções.

Tudo é resultado de ações ou da falta delas em nosso universo particular.

Outros mundos colidem com o nosso a todo momento e esse entrechocar de vontades e ânimos torna os resultados sempre imprevisíveis. Mas o que nos compete é fazer o que nos cabe para termos o que desejamos.

Quem toma uma ação nova já é “outro”, mesmo que seja com algum receio. O tornar-se outro, maior do que se era, seja por escolha ou imposição das circunstâncias precisa de uma alma maior. A antiga rasga por não se caber mais nela.

Portanto, pare de esperar que a confiança e todos os bons ventos se façam presentes para sua travessia. O bom marinheiro veleja com todo tipo de vento e só é bom porque sabe para onde vai.

Eu e o Mundo

“Saiba,

Todo mundo foi neném

Einstein, Freud e Platão também

Hitler, Bush e Sadam Hussein

Quem tem grana e quem não tem

 Saiba:

Todo mundo teve infância

Maomé já foi criança

Arquimedes, Buda, Galileu

e também você e eu

Saiba,

Todo mundo teve medo

Mesmo que seja segredo

Nietzsche e Simone de Beauvoir

Fernandinho Beira-Mar

 Saiba,

Todo mundo vai morrer

Presidente, general ou rei

Anglo-saxão ou muçulmano

Todo e qualquer ser humano

 Saiba,

Todo mundo teve pai

Quem já foi e quem ainda vai

Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé

Ghandi, Mike Tyson, Salomé

 Saiba,

Todo mundo teve mãe

Índios, africanos e alemães

Nero, Che Guevara, Pinochet

e também eu e você”.

                                                         Saiba – Arnaldo Antunes

Estamos a todo momento, quer queiramos ou não, sendo mudados pelo mundo e provocando mudanças. Em um primeiro momento dessa reflexão, parece que o mundo nos muda mais, afinal é mais forte e avassalador. Mas quem é, afinal, o Mundo?

O Mundo são as pessoas que encontro todo dia e que me modificam. Diz Deleuse, que só pensamos em conjunto e é verdade! É no encontro com o outro e com tudo que me rodeia e penso que me torno novo, imprevisível e indefinível. Existem encontros que nos enchem de alegria e essas pessoas nos mostram o que temos de melhor. Nelas, nos eternizamos positivamente, já que nos afetam para melhor e vice-versa. Nas que nos incomodam ou nos despertam raiva, poderíamos aproveitar para procurar entender o que temos em comum com elas que preferimos não ver. No fim, todas nos fazem ir adiante em cada encontro, sempre novo na essência já que chegamos ali trazendo mudanças de outras pessoas e da vida.

Aliás, buscamos definir tudo e todos com objetivo de termos alguma segurança e previsibilidade. Medo da mente que a vida ri com desdém, trazendo surpresas a cada segundo, bastando olhar em volta. Mas não adianta, queremos definir, explicar e congelar os outros, seja em uma definição seja em uma explicação boba sobre os porquês de tudo, seja por nos empurrarem uma reverência sem sentido a deuses com pés de barro, como bem disse Nietzsche.

O Mundo é o clima, o acidente que aconteceu em algum lugar que a internet informou em tempo real para que imaginasse que poderia acontecer comigo. O Mundo é a angústia que dá assistindo um idiota sentado no trono dizendo que produzir é mais importante que o ar que respiramos. O Mundo também é um sorriso de indisfarçável alegria quando um touro mata o toureiro na Espanha e mostra que o torturador também encontra uma réstia de justiça em algum momento. E o mundo é, principalmente, aquelas pessoas que fazem você descobrir coisas a seu respeito que nem imagina que é ou sabe.

O Mundo me muda quando noto que tudo está sempre por um triz em um eterno jogo de coincidências bizarras que dá uma sensação de ignorância só de tentar entender algum nexo entre elas. O Mundo me muda em uma paisagem do final de tarde onde me permito parar e ver como a natureza funciona com perfeição em um belo quadro de cores, mas que ela também deve ter seus motivos para as enchentes e terremotos que podem me mudar e tirar a vida e sonhos de tantos sem que encontremos um motivo. Na verdade, tudo muda quando percebo que procurar os motivos de forças maiores que eu, é uma grande perda de tempo, aliás, pode nem ter mesmo algum motivo.

O mundo me muda quando a realidade mostra que as histórias que ouvi desde pequeno, contadas por pessoas queridas que tinham tanto medo desse desamparo, que podem ter feito mais mal do que bem, quando tiraram de mim a capacidade de mudar meus caminhos, sujeitando minhas decisões a alguma benção superior vindo de um lugar onde, pelo visto, não tem ninguém e se tiver, só assiste, não sei se rindo ou chorando.

O mundo me muda em pequenos gestos carinhosos, em olhares assustados e de pessoas que me criticam por tê-las de alguma forma, feito perder o encanto dos mundos de “faz de conta” que posso ter mostrado que nunca existiram.

E, no fim, é nisso que eu e você mudamos o Mundo. Sendo do jeito que somos, levando alegria e tristeza na forma em que os outros nos interpretam, apesar do mundo e suas forças gigantescas. Quando estamos no Mundo o mudamos, quer queiramos ou não, sejamos percebidos ou não, alteramos o destino do planeta e de muita gente todos os dias. Gente que conheço e nunca conhecerei, mas que será afetado por alguém que um dia me conheceu. Mas não esqueça, falo de mim e de você, que também tem essa força e pode, de alguma forma, escolher como quer afetar o mundo e ser afetado por ele. Escolha que tem pouco alcance sobre forças tão poderosas, mas afinal, fazer nossa parte é uma chance real de que aconteça o que desejo.

Mesmo quando em pequenos encontros, desencontros, acidentes e até mesmo em um “bom dia” podemos mudar a vida de quem nos viu e ouviu. Poderemos até em nosso último ato, quando alguns souberem que nos retiramos do mundo para ir morar em outro ou em nenhum, que lembrarão de nós com alegria ou tristeza e que, no segundo seguinte esse sentimento os fará fazer isso ou aquilo. Sem que percebam que estamos por trás dessa escolha e de tantas outras que virão, em um eco de eternidade.

O Mundo ou a vida é o resultado de todos que já viveram, vivem e de tudo que já aconteceu, acontece e até do que imaginamos que poderá acontecer. Aliás, imaginar muda mais o mundo do que a realidade, pois somos e sentimos não o que o mundo é, mas só o que imaginamos que o mundo seja.

E assim vamos mudando e sendo mudados a cada instante e fico pensando como alguém pode acreditar em destino com tantas coisas incontroláveis a nossa volta nos tornando um resultado cada vez mais improvável dessa química entre cada um de nós e o Mundo.

Nem percebo que posso escolher lembrar que tudo isso torna a vida algo sempre inédito. Afinal, se nem eu e mundo somos os mesmos por estarmos nos mudando o tempo todo, conseguir ver tudo como se fosse a primeira vez, e é, pode no fim dar a única explicação que a razão aceita.

Deve ser por isso que só as crianças e os loucos não têm medo, já que para eles passado e futuro simplesmente não existem, são alucinações dessa gente normal que afeta o mundo e o deixa desse jeito triste, que nos adoece só de pensar.

O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.

A velha TV

Nem todo mundo que faz sua caminhada cedo pela manhã, necessariamente acorda cedo. Eu, começo a despertar no final do primeiro quilômetro, lá pela terceira música que toca no celular com o volume bem baixo, para não irritar. Como nada é somente ruim, o automatismo das ações antes de sair e do mesmo trajeto, ajudam a fazer tudo isso sem precisar estar, necessariamente, acordado. Diria algum especialista em sono que este estado, nem lá nem cá, chama-se hipnopômpico.

Pois assim estava, “hipnopompicamente” caminhando quando me deparei com uma televisão jogada fora. Como hoje, somos todos fotógrafos e cinegrafistas, resolvi clicar, mas sem nem saber o motivo. A esperança é que quando acordasse aquilo faria algum sentido ou seria mais uma dessas ações que terminam em nada.

Alguns minutos depois, não sei se levado pela música que ouvia ou por falta do que pensar, a imagem da televisão na calçada me veio à mente e junto com ela algumas sensações e pensamentos. Somos movidos por tantos estímulos que nem nos damos conta que nossas escolhas e suposta liberdade, até mesmo de apenas pensar, sejam realmente nossas?

A televisão nem era tão antiga assim, pensei. Era do tempo do tubo de imagem, o que sempre exigia um espaço para que o aparelho “respirasse”, não podendo encostá-la na parede. Hoje, as televisões ultramodernas, pelo visto, dispensam o oxigênio. Lembro das primeiras, na minha infância com a parte de cima em madeira, antena longa e seletor de canais redondo, que girávamos como uma maçaneta. Naquela época, mudávamos pouco de canal, não só por termos poucas opções, mas precisávamos levantar e dava preguiça. Controle remoto só veio mais tarde, causando um assombro de tecnologia. Por ali fomos ficando mais preguiçosos, e logo em seguida, os carros tinham os vidros elétricos. Viramos reis, vontades atendidas em um toque!

Para os mais jovens, onde tudo é touch screem, isso é tão fora da realidade quanto um selo de carta, mas como diziam os antigos: Recordar é viver…

Como não era tão antiga assim? Foi um pensamento abrupto.

 Caí na realidade e percebi que ultimamente nada para mim é “tão antigo assim”. Depois de uma idade, precisamos encurtar o tempo, fazer de conta que os anos têm seis meses, ou que tudo é mais veloz do que realmente é. Mente e corpo vão se separando depois dos cinquenta. Um dói aqui e ali e o outro insiste em uma juventude onde tudo é mais fácil, sem joelhos, dores de coluna ou óculos que aumentam o grau a cada ano.

Hoje, onde tudo é Smart, essa velha senhora perdeu a validade. Tomara que tenha morrido, tenha sido largada na rua por não funcionar mais. Seria desrespeitoso pô-la fora ainda funcionando, apenas por não oferecer os recursos modernos. Mais ou menos como se faz com as pessoas no mercado de trabalho.

Por mais que ela não tenha sido brilhante, tenha só servido para novelas, os jornais de sempre e os imortais programas dominicais que, pasmem, já existiam antes dela e continuarão até os modelos que ainda nem imaginamos, ela conseguiu aumentar o tamanho do mundo de quem assistia.  Mas nem isso garantiu-lhe algum respeito. Não serve mais, ninguém quer e, se estava doente, não valia a pena pelo preço do conserto.

Triste fim.

Quem sabe, um dia não esteve conectada às primeiras parabólicas, tão grandes quanto a que a NASA usa para receber mensagens do espaço. Imagem limpa, mas nada como o HD de hoje em dia, onde as atrizes precisam de muito mais maquilagem para que eventuais espinhas e falhas na pele não as denunciem como mulheres iguais às que vemos nas ruas.

Um dia, essa televisão era o que tinha de mais moderno, mas o tempo, que torna tudo cada vez mais obsoleto rapidamente, a fez chegar a velhice sem sequer ter terminado de ser jovem.

Nós, da geração do seletor de canal, do celofane azul e amarelo para transformar o preto e branco em bicolor estamos passando como ela. Só o que permanece é a Maizena e o Sílvio Santos, holograma que ainda imaginamos vivo.

Na volta da caminhada ela não estava mais lá. Levada pelo caminhão do reciclável, reencarnará em algum plástico e nunca ninguém poderá imaginar sua vida passada, quando ver apenas uma torradeira ou um ventilador. Já o tubo de imagem, por onde assistíamos a emoção e a tragédia, esse não tem mais jeito. Precisará terminar, vida única, sem paraíso ou inferno.

Hoje também vamos para a reciclagem como doadores de órgãos, ato sublime de despedida, dando utilidade ao que temos de plástico. Mas nossas histórias, alegrias e tristezas não têm chance. Desaparecerão e terão algum eco na memória dos que ficam, cada um com seu jeito de lembrar de nós.

No fim, posso só ter usado essa televisão para ficar pensando, talvez imaginando tudo apenas para ocupar a cabeça.

 Mas afinal, isso não tem problema, fazemos isso o tempo todo com tudo e todos que estão a nossa volta.

Um chá com Espinosa

Fazia frio naquela tarde onde o céu era límpido e o sol não conseguia ser mais do que uma leve sensação agradável. Enquanto caminhava pelas ruas, a temperatura ia mudando, na medida em que as marquises e os prédios altos faziam sombra. Já era meio da tarde e o vento gelado parecia fazer das roupas e cachecóis uma tímida defesa.

Quando chegou na casa de chá que frequentava, surpreendentemente não encontrou fila. Era uma casa antiga, da metade do século XX, que um extremo bom gosto fez de suas salas ambientes agradáveis e muito bem decorados. De todos esses pequenos espaços, o que mais gostava tinha na parede dezenas de pequenas luminárias que, mesmo acesas, deixavam uma leve penumbra. As mesas e cadeiras misturavam estilos e até os pequenos rasgos no tecido de um sofá estilo rococó faziam parte de um charme proposital. Em outra sala, malas antigas cortadas na metade eram colocadas na parede e a sensação que tinha era que elas vomitavam o tempo. Ao fundo, jazz instrumental.

A jovem e bela atendente de olhos verdes brilhantes trouxe o cardápio em uma mão e um tablet na outra, e o lembrou de apertar um pequeno botão na mesa quando tivesse escolhido. A tecnologia combina bem com o estilo antigo do ambiente, já que esse botão acionava uma luz no relógio do garçom avisando a mesa que estava chamando.

Estava sem pressa e o próprio clima do lugar ajudava. Parecia que lá dentro o tempo nada tinha a ver com a velocidade da grande cidade, onde milhões de pessoas correm atrás da sobrevivência, em uma luta que também envolve  insegurança e  violência. Nada mais comum a todo lugar onde a riqueza e a miséria são a condição da existência uma da outra.

Na mesa ao lado, um casal de enamorados tinha seu mundo dentro daquele ambiente. Mãos dadas descansando sobre a mesa e olhos nos olhos. Um dia, esse mundo será aumentado quando descobrirem que essa perfeição foi uma imaginação, uma expectativa. Como é bom pensarmos que tem coisas que, conosco, nunca acontecerão. Tudo que outros seres humanos passaram foi só com eles e a desilusão sempre será o resultado de uma expectativa exagerada, de nos tornarmos um pouco como todo mundo.

Diferente das outras vezes, trouxe consigo o livro que estava lendo. Não foi proposital, como um ato consciente, apenas ao sair de casa levou-o junto, sem motivo. Devia ser por estar pensativo sobre o que estava lendo. Sempre gostou de filosofia, mas de uns tempos para cá, que resolveu ir mais a fundo, talvez por buscar uma nova maneira de entender a vida. Na verdade, o fato dos humanos terem consciência de um dia morrer, os obriga a que suas vidas tenham um sentido, algo que os faça ter certeza que sua passagem não foi em vão. Certa vez, o grande Saramago disse em um de seus romances que as lápides são essa última tentativa de não sermos esquecidos, quando a vida foi comum e o desejo de criança de sermos algum tipo de herói não se realizou.

Suspirou para trazer a atenção de volta ao cardápio. Escolheu um chá de frutas e especiarias. Para acompanhar, um brioche levemente doce. Depois de fazer seu pedido olhou para o livro. A capa azul era um resumo da Ética de Espinosa, comentada por seus discípulos contemporâneos.

O livro o impressionara desde o início, com a primeira de suas proposições:

“Uma única substância para todos os atributos”.

Se fosse verdade, e parecia ser se pensarmos bem, tudo que aprendera desde a infância ruíra. Recebemos uma maneira de pensar e ver o mundo e nem sequer a questionamos. Espinosa mostra com clareza o erro de Platão ao nos oferecer sua dualidade primeira; o mundo dos sentidos e o mundo das ideias ou dentro e fora da sua famosa caverna. Foi justamente por aí que as religiões criaram seus paraísos, uma ótima forma de aceitarmos pouco dessa vida e dela desviarmos atenção. Claro que Platão pensava em um Universo finito e perfeito, coisa que Espinosa, quando filosofou, já sabia não ser verdade, lá por 1650. O caos que já naquela época percebíamos no espaço era uma das faces de uma inteligência criadora que Espinosa percebeu muito além de uma ideia de como controlar as pessoas pelo medo e pela culpa.

De qualquer forma, o Deus que ele mostra seria mais factível e menos improvável do que aprendemos a imaginar. Tudo nessa imanência que vivemos é uma emanação da transcendência eterna. Morremos para que Deus possa continuar Sendo, e apenas mudamos de forma. Nossa finitude é o atestado da eternidade de Deus, na ausência de tempo. Tempo que nossa mente cria para separar o nascimento da morte.

Incrível como um homem que viveu menos de cinquenta anos, teve tamanha percepção da vida, quase sem nenhuma tecnologia.

Quando o chá foi servido, sua atenção se voltou para o bule de porcelana pintado à mão. Impossível não lembrar da casa da sua avó. A xícara seguia o conjunto e a colher pesada só podia ser de prata. Para adoçar, um pequeno pote de mel. Deixou que o aroma do chá invadisse suas narinas. Uma delícia!

“Aumento de potência”, diria Espinosa, quando algo no mundo nos dá alegria. Claro que a tristeza, seu oposto, um dia no levará a morte, mas a vida longa, como um combustível é movida por trocas que nos tragam essa alegria. A cada encontro com o mundo, com pessoas e situações afetamos e somos afetados. Sabemos que o mundo é grande demais para nós e um dia não suportaremos, mas esses encontros alegres, a mudança que se dá em cada relação com a vida é o que conta em uma contabilidade em que o bem-estar precisa estar em vantagem.

Enquanto degustava o primeiro gole, sua mente martelava: “Um só mundo, tudo uma só coisa”. Espinosa trouxe o prazer de descobrir. Para ele, a essência da mente é o conhecimento (como Aristóteles, de certa forma, também dizia). Quanto mais se conhece, mais se realiza a grande virtude, ou, como ele mesmo diz: “quando a mente contempla a si própria e sua potência de agir, alegra-se”.

Deus tem misteriosos fins, dizia o Filósofo. Queremos compreende-Lo, e isso não é possível. Vontade divina é apenas o nome que a imaginação encontra para buscar entender o que não podemos, e o medo que temos diante do incompreensível. Tudo que existe possui causa determinada e necessária para existir tal como é, e os encontros com a vida é que serão por fim, nossa liberdade de alegria ou tristeza. Tudo é esse Deus; tudo que existe. Isso inclui sua dupla expressão: o bem e mal, que nada mais são do que maneiras de entendermos e darmos um rosto para o que acontece.

Pensou o quanto isso mudaria sua maneira de viver.

Encheu novamente a xícara. Percebeu que até hoje correu atrás de desejos e o que queria, na verdade, era só entender-se. Nos relacionamentos, mais do que desejar o outro, na verdade, queria ser o desejo do outro. Ah, os desejos…

Aristóteles dizia que parar de desejar era adoecer, já para os estoicos, desejar é estar doente. Vai entender…

Espinosa caminha por outra percepção. Desejo é força criadora, energia de vir a ser outro, novo e evoluído, enfim. Não percebemos isso e transferimos para os objetos, pessoas e ideias essa responsabilidade, da mesma forma que fizemos ao médico quando não conseguimos dormir. Mais do que buscar o motivo da angústia que leva à insônia, pedimos um remédio que nos devolva o sono e mantenha a tristeza que nos afeta intacta. Espinosa sacudiria a cabeça, com desânimo.

Comeu seu brioche com o último gole de chá. Espinosa evoluiu no pensamento rebelde e complexo de Nietzsche e, a partir do final dos anos sessenta com Deleuze e sua Esquizoanálise.

Agora pode entender o motivo de Espinosa e seus seguidores estarem à margem da cultura, afinal eles nos mostram uma maneira de ver a vida que nunca imaginamos. Quase um clamor para que vivamos intensamente o que temos, sem futuro, já que o futuro nos fará diferente do que somos e seremos outro, portanto.

Enquanto pagava sua conta, pensou o que Espinosa poderia dizer-lhe depois desse encontro. Talvez ele apenas diria:

-Alegre-se pelo que tens. Que bom que podes vir nesse belo lugar e poder tomar esse chá quente em um dia frio. Mais do que pensar no que te falta, veja o que a vida te proporciona e valorize! Seus desejos serão amenizados. Sempre haverá uma insatisfação, mas o que esperar de quem tem apenas um tempo para viver? Esse espaço em aberto que chamamos desejo, é por onde nasce a criatividade, que nos empurra avante, para sermos o que ainda não somos.

Quando voltou para a rua a noite já chegara. No inverno os dias são menores e uma golfada de vento gelado crispou seu rosto. Mas por dentro estava quente, não só pelo chá, mas por ter percebido que há um mistério chamado vida para ser vivido e descoberto, até que mudemos de forma, como afirma Espinosa.

Lembrou de ligar o celular e a internet lhe avisou de mais um atentado com mortes na Europa. Resolveu não deixar a tristeza diminuir sua potência de viver. São os que matam em nome de um deus que querem empurrar goela abaixo, ou simplesmente serem heróis de alguma coisa e dar sentido a vidas medíocres.

O que virá depois?

Não importa, pois enquanto pensar nisso, a vida “agora” não é vivida. Pensou que Nietzsche lhe daria um tapa na cara se estivesse diante dele.

Seria mais que merecido!