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Espiritualidade: difícil definição

“Hasan procurou Rabia, num dia em que ela estava sentada entre diversos contempladores, e disse: – Eu tenho a capacidade de andar sobre a água. Venha, vamos ali para aquela água e, sentados sobre ela, poderemos ter uma discussão espiritual.

Rabia disse: – Se você deseja se separar dessa augusta companhia, por que não vem comigo para voarmos e conversarmos sentados no ar?

Hasan respondeu: – Não posso fazer isso, pois o poder que você menciona eu não possuo.

Rabia disse: – Seu poder de permanecer imóvel sobre a água é o mesmo que o peixe possui. Minha capacidade de voar pode ser realizada por uma mosca. Essas habilidades não fazem parte da verdade real – elas podem se tornar o alicerce da egolatria e da competição, não da espiritualidade.”

          Bhagwan Shree Rajneesh – Sufis o povo do caminho

Gravura de Rabia

Gravura de Rabia

Em uma cultura centrada no Ego, como a que vivemos, essa velha estória Sufi permanece mais atual que nunca. De um lado, continuamos com essa velha ideia de que a pessoa dita “espiritualizada” é medida pelas dificuldades que passa, ou aparenta passar, em sua relação com o aspecto material.  Precisará mesmo ser alguém pobre para ter desenvolvido sua consciência pela via do sofrimento ou da privação? Será que as coisas materiais tem mesmo essa capacidade de iludir o verdadeiro “buscador” a ponto de, necessariamente, serem rejeitadas como uma prova ou tentação?

É claro que todos já conhecemos pessoas humildes que conseguiram altos níveis de consciência, mas isso não me parece uma obrigatoriedade, você, caro leitor, o que acha?

Particularmente, penso que uma pessoa que se realiza financeiramente tem muito mais facilidade de perceber que não é o material que explica e dá sentido a vida, justamente por possuir isso e não sentir-se “completa” e em sintonia com o mundo que a cerca. O que vemos, justamente por ser incentivado pela cultura dominante, é que os bens materiais nos trarão a total realização e completude. Justamente por se acreditar nisso, é que vemos as pessoas destruindo sua saúde para poder adquirir essas expressões de poder que dão status e reconhecimento.

Só existe mesmo o desapego quando ele é real e não uma divagação que fica bonito de se dizer, buscando uma imagem perante os demais de que traga essa aura espiritual, como um guru. Para poder se dizer desapegado a condição inicial é poder ter o objeto em questão. Os próprio sufis dizem que por ser esse mundo material, devemos mostrar nossa competência também nesse aspecto, mas que, se por ventura tudo for perdido, seja pelo motivo que for, tudo poderá ser reconquistado, não sendo, portanto, motivo para grandes tristezas. Essa relativização da materialidade é uma concepção que se adéqua muito bem aos nossos tempos, apesar de muito antiga.

Nessa bela estória, Rabia coloca o ego de Hasan no seu lugar, mostrando como ele havia perdido a direção, achando que se pudesse andar sobre a água isso representaria uma grande evolução se diferenciando dos demais. Puro ego! Para ele, conseguir esse feito representava uma grande conquista e a Mestre mostrou que ele havia, na realidade, involuído, já que um simples peixe era capaz de tal “façanha”.

Conheço pessoas muito evoluídas espiritualmente que vivem com conforto, frequentam restaurantes e viajam pelo mundo. Para mim, sem tirar o mérito das demais, isso é a espiritualidade do século XXI. E é muito importante ressaltar que não há nada de errado, que de vez em quando, elas não possam ter seus momentos de raiva, medo e angústia. A diferença é que essas pessoas sabem muito bem a diferença entre o que elas realmente são e o corpo que elas habitam, muito ligado a esses sentimentos. Justamente por isso, logo conseguem trazer-se de volta ao equilíbrio.

Ser Humano compreende saber-se habitando um corpo que faz parte dessa natureza e que, como o de qualquer animal, busca sobreviver e tem o medo como norma. Afinal, é justamente lidando diretamente com esses sentimentos nada nobres que, ao observá-los, vamos conseguindo lidar melhor com eles.

Ser “espiritual”, em minha opinião, é tocar a vida sem medo, focado no presente, relativizando o futuro já que não sabemos o que virá, nem apegado a um passado que não existe mais e muito menos voltará um dia. É estar relaxado muito mais tempo do que tenso. É saber a hora de trabalhar, de se divertir e ter em si mesmo uma ótima companhia. O que torna uma pessoa assim ótima de se ter por perto, não acha?

Ser “espiritual” é não sofrer por pensamentos ilusórios e estar sempre longe dos extremos, aceitando os outros como são sem tentar salvá-los ou mudá-los, já que reconhece que não existe apenas uma verdade ou caminho, aliás, eles são tantos quantos os habitantes desse mundo.

Portanto, para ser “espiritual” não é obrigatório pertencer a nada, fazer parte de nada. Até pode acontecer, mas essa pessoa é totalmente LIVRE, não condicionável, simplesmente porque não tem medo de ser punido nem se sente culpada caso não atenda alguma ordem “superior”. Sua ética é ampla, justamente por valorizar a casa (planeta) que vive e todos os seres vivos, respeitando o direito a vida e a liberdade.

Ser “espiritual” é reconhecer suas qualidades e ter sempre bem presente o mal que pode causar, afinal isso é conhecer-se verdadeiramente, não se iludindo consigo mesmo, o que mantém todo seu Ser em harmonia que justamente significa paz e guerra em equilíbrio.

Penso que tudo isso esteja ao nosso alcance, se realmente quisermos e me parece bem mais difícil que andar em cima da água, afinal a sociedade sempre cobrou um preço caro por quem fugiu do rebanho.

                                                          maria-vai-com-as-outras

Quando o NADA é TUDO

     “A desgraça do ser humano é nunca estar em casa”

Pascal

“Quando a mente cessa, Deus começa”

Yogananda

vazio

Nossa cultura, baseada na produção, materialismo e racionalismo é toda alicerçada em ter no material a identidade que faz uma pessoa ser ou não respeitada, ter ou não poder. Assim, desde os primeiros anos de escola, somos ensinados para “sermos” alguma coisa um dia. Mesmo nossos pais, que foram educados por pessoas que também sofriam desse mal, nos perguntam: o que você vai ser quando crescer?

Quanto mais crescemos, aprendemos a mesma teoria mentirosa de que o mundo é escasso e que devemos estar aptos a disputar nosso espaço e, para termos essa tal riqueza que nos trará admiração dos demais, precisaremos ser competitivos, fortes e hábeis para chegarmos à frente dos concorrentes (que aos domingos em Igrejas e Templos são chamados de irmãos). Até hoje as escolas se preocupavam em preparar seus alunos para o vestibular (competição) e nunca se preocuparam em seus currículos em fazer dessa criança alguém que se conheça, que domine algum tipo de arte (que sempre é um dos remédios para a angústia, por acalmar e superar a mente) e assim possa compreender a existência, encontrando sua paz sem depender de nada que tenha alguma marca.

Precisamos, incansavelmente, “ser” alguém na vida e estarmos sempre em atividade “fazendo” alguma coisa, ou seja, produzindo. Assim, essa cultura criou a ansiedade que é o medo de chegarmos ao final da vida sem termos “sido” ou “feito” algo importante que nos traga a riqueza material e o respeito dos demais, que ficaram para trás na corrida e na luta pela sobrevivência. Por fim, apenas “sobrevivemos” baseados no fazer e no ser. Mas o que é esse “ser”? Refiro-me às identidades e personagens que criamos para nos adaptarmos ao meio e conseguirmos sobreviver e sermos aceitos pelos demais. Isso é sobrevivência, até mesmo uma simples bactéria ou inseto também sobrevive sem tanto sofrimento. Evidente que sobreviver é importante, mas isso nos traz alguma realização interior? Se assim fosse, o mundo seria o que é hoje?

Mas o que está por trás e na essência de quem “faz” e “é” alguém?

Um vazio!

Na simbologia numérica o algarismo “zero” tem um profundo significado. Nada começa pelo “um”, afinal para que ele possa existir, precisará não ter tido existência anterior, onde só havia o “zero” que representa o vazio. Não é à toa, que os antigos herméticos simbolizavam Deus por um “zero”, ou vazio.

É justamente nesse vazio que tudo se origina, é o terreno fértil da criação e nossa cultura nos exilou de nossa verdadeira natureza vazia, por onde surgiu nosso “eu” ou Ego, que é representado pela nossa metade que “é” e “faz” alguma coisa. Ficamos mancos existencialmente como se só houvesse o Ego. O resultado disso é a ignorância existencial e o medo. Esse Ego, que nasceu do vazio, um dia morrerá, justamente por ter nascido, mas o vazio é o eterno que sempre fomos e esquecemos quando aprendemos com outros esquecidos que só existe um Eu, material (corpo) que vive em um mundo de aparência material, sendo transitório e efêmero tanto quanto nossa beleza ou feiúra.

Para recuperarmos nossa outra perna e termos o equilíbrio precisaremos dessa reconexão com nossa natureza que é destituída de Ego. Ninguém nos ensina a tirarmos, pelo menos, algum tempo por dia para nos despirmos de nosso Ego e não sermos “ninguém” e não fazermos “nada”.

É fundamental dedicarmos um tempo para nos voltarmos para dentro, sair do “um” e voltarmos ao “zero” que o originou. Não ser ninguém, não ter nome, profissão, família, amigos, religião, time de futebol, partido político, etc. Simplesmente não ser e não saber nada! Tornar-se um santo ignorante, que por nada saber não sofre, não deseja e não tem medo ou angústia, características do que passa, não sendo portanto verdadeiro. Apenas “não ser” sem passado e sem futuro que são puras alucinações, coisas que a eternidade desconhece, justamente por viver sempre no presente.

É um exercício simples, feche seus olhos por dez ou quinze minutos por dia, respire natural e calmamente e abra as brechas que Yogananda nos sugere para que o “milagre” de realmente Ser aconteça.

Nesse final de semana, tive a oportunidade de participar de um seminário em Florianópolis, onde Roberto Crema fez um interessante raciocínio. Disse que a palavra “aposentar” significa voltar aos aposentos e que as pessoas tem dificuldade de se aposentar porque não podem voltar a algum lugar onde nunca estiveram. Na hora fiz essa analogia com nossa natureza vazia e a frase de Pascal também se tornou obrigatória para abrir esse artigo.

Nosso medo de morrer, que em muitas tradições é chamado de “volta para casa”, só causa tanto medo e tanto desespero quando pensamos que vamos morrer ou quando alguém querido morre, justamente por não conhecermos essa “casa”, de onde saímos para essa aventura existencial habitando um corpo transitório. Falta-nos, durante essa passagem, nos re-conectarmos com nossa “casa” e lembrarmo-nos de nossa eternidade. Sem isso, continuaremos presos e receosos de tudo, buscando certezas e seguranças que só existem no que não mais evolui, no que está morto!

Alguém que por seu mérito se “recorda”, perde o medo e torna-se livre! Livre para fazer da vida o que ela realmente é: uma aventura, com ganhos, perdas, risos e lágrimas em constante mudança e contradição.

Tire um tempo para você, feche seus olhos e por alguns poucos minutos se livre dos seus personagens, títulos, planos e mesmo do seu nome. Simplesmente não seja, não faça e se preencha do vazio! Procure o silêncio interior (com o tempo você conseguirá), deixando sua mente (ego) se debater por não ter sua atenção e ela irá se cansando e abrindo espaços entre seus pensamentos.

O poeta Fernando Pessoa disse que Deus era um intervalo, um vazio que está escondido atrás da mente que, evolutivamente, nos cabe afastar. Agora espero que você tenha entendido a metáfora da expulsão do paraíso e porque fomos punidos a ganhar nosso “pão” com o suor do nosso rosto, fazendo e fazendo. Estamos pagando o preço de termos esquecidos de nós mesmos.

Nosso mundo exige o ser e o fazer e não há nada de errado nisso, desde que também  possamos não ser e não fazer, encontrando a síntese entre as necessidades do corpo e de quem nele habita.

Depois de algum tempo, essa prática desse retorno às origens, um amigo poderá encontrá-lo e percebe-lo mais sereno, tranquilo e perguntar o que você tem feito para estar assim. Seja sincero e simplesmente responda: Nada!

Agora, se não houver no seu dia alguns minutos para isso, porque você tem muitas coisas para fazer, lamento informar que passarás pela vida apenas sobrevivendo, mesmo que rico materialmente ou não, e nisso não há nenhum mérito e nem precisa ser humano para essa façanha tão pequena.

FOBIA

“A fobia específica é um medo exacerbado e persistente de objetos ou situações nitidamente discerníveis. A exposição ao objeto ou situação temida (chamada de estímulo fóbico) desencadeia uma resposta de ansiedade que pode chegar à intensidade de um ataque de pânico.”

   DSM-IV-TR  (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais)

                                                                                                                                                           medo de altura

Depois de termos falado no artigo anterior sobre a dificuldade que é perdoar, torna-se mais fácil falar do processo fóbico. O leitor pode até estar se perguntando o porquê que a dificuldade de perdoar tem a ver com fobia? Tenho certeza que até o final do presente texto isso se tornará bem mais claro.

Falar de fobia é falar de medo e, por consequência, de ansiedade. Por isso torna-se importante que possamos estabelecer essa diferença, que existe, apesar de sutil. O medo é um sentimento (emoção) de inquietação diante de um perigo real ou imaginário.

Imaginário?

Sim, já que como nosso corpo responde, através de suas reações somente ao que imaginamos, nada precisa estar ocorrendo verdadeiramente para que sintamos o medo. Já a ansiedade nada mais é do que uma sensação de apreensão sem uma causa evidente ou uma perturbação causada por alguma incerteza (insegurança).  Assim, poderemos resumidamente dizer que o medo é medo de algo e a ansiedade é esse mesmo medo, sem ser específico para alguma coisa. Nos casos das fobias essa diferença é bem mais perceptível.

Mas afinal, o que é uma fobia?

As fobias compõem um grupo de transtornos nos quais uma ansiedade intensa é desencadeada por situações determinadas e que não representam algum perigo real, já que estão sendo imaginadas. Assim, por exemplo, a pessoa que tem medo de altura não frequenta lugares altos porque, dentro dela, existe uma “certeza” de que ela irá cair. Quem tem fobia à água, imagina que se afogará e assim por diante. Dessa forma, quando imagino, meu sistema de defesa (estresse) entra em ação, já que ele acredita em tudo que passa pela nossa cabeça é real naquele momento. Assim, nem pensar de entrar na água se é “certo” que me afogarei, por exemplo. Nosso corpo luta pela vida, lembrem-se disso sempre!

Justamente por isso, estas situações fóbicas são evitadas sempre que possível ou com uma angústia tremenda quando não temos escapatória. As preocupações (pré – ocupação da mente ou imaginação) da pessoa podem se manifestar com sintomas como palpitações, sudorese, falta de ar, tremores, boca seca, extremidades frias, etc, ou uma sensação iminente de desmaio. Frequentemente este tipo de ansiedade se associa com medo de morrer, de vir a passar muito mal, de perder o autocontrole ou de ficar louco, já que nos tornarmos muito mais bichos do que humanos, afinal, nosso sistema de sobrevivência é muito parecido com os dos animais.

Geralmente a simples lembrança ou evocação da situação que causa fobia já é suficiente para desencadear uma ansiedade antecipatória, e aqui o sistema explicado no artigo anterior entra em funcionamento.  Para a medicina, a ansiedade Fóbica frequentemente se associa a uma depressão, o que, me permito, não concordar integralmente.

A diferença entre o sintoma fóbico e o Transtorno Fóbico, pode ser entendida como a diferença que se faz entre o que é sintoma e doença. A Fobia, enquanto sintoma, faz parte da alteração do pensamento, aparece como um medo imotivado e patológico, ilógico e especificamente orientado para um determinado objeto ou situação. Normalmente é acompanhada de intensa ansiedade e outros sintomas que citei anteriormente. O Transtorno Fóbico-Ansioso se caracteriza, exatamente, pela prevalência da Fobia, sintoma, entre os demais sintomas de ansiedade, ou seja, um medo anormal, desproporcional e persistente diante de um objeto ou situação específica.*

Como começa uma fobia?

Diferente de um trauma, que precisa de um acontecimento que o gere, a fobia pode surgir sem que nada precise ter acontecido anteriormente. Para uma fobia aparecer torna-se necessário que o nível de ansiedade esteja alto. Como a ansiedade é um medo inespecífico, tudo pode virar uma fobia. Assim, mesmo que uma pessoa tenha já realizado inúmeras viagens aéreas, por exemplo, em uma crise de ansiedade pode surgir um medo terrível de entrar em um avião, seja pela “certeza” de que ele cairá, seja por imaginar-se preso, sem possibilidade de sair. Lembre que sempre o medo de morrer é o pano de fundo.

Já conheci pessoas que desenvolveram processos fóbicos por histórias ou estórias que ouviram durante a infância e mesmo em idade adulta. Basta o nível de ansiedade estar elevado e você, por exemplo, assistir um programa ou ouvir um relato (não importa se verdadeiro ou falso) que se “entre” na história e se imagine passando por aquilo que pode surgir uma fobia.

Por isso, sempre que uma pessoa tem alguma fobia ou transtorno ansioso de qualquer espécie, torna-se fundamental entender o que é e como funciona a ansiedade para começar a sair do seu problema. Aprender a dominar a mente que está contaminada pelo medo e saber como trazer para si o controle é a única saída, fora isso, é estar tendo seus sintomas mascarados por medicamentos. Os medicamentos podem e devem ser utilizados quando a crise surge, até como condição da pessoa ter um mínimo de equilíbrio, para poder entender a psicoterapia. Depois, penso que ela deve querer se livrar das bengalas e voltar a andar com suas próprias pernas.

Nos artigos que escrevi sobre ansiedade, procurei demonstrar seu funcionamento, sendo as fobias um dos galhos dessa árvore. Em crise aguda de ansiedade, que chamados de transtorno de pânico (tema de um futuro artigo), a pessoa experimenta uma fobia quase generalizada, ficando, normalmente, fechada em sua casa, onde a chance de morrer é bem reduzida. Procure nunca esquecer que nosso sistema de defesa procura sobreviver a qualquer preço, mesmo que seja o da qualidade da vida.

Toda a fobia “vive” da atenção que se dá a ela e na verdadeira alucinação que acreditamos. Quem disse que o avião vai cair? Que certeza é essa que o elevador ficará preso e a pessoa morrerá sufocada? Quem disse que naquele show onde estarão muitas pessoas vai haver um corre – corre e se morrerá pisoteado?

Quando a ansiedade “passa do ponto” nosso pensamento fica contaminado pelo medo e daí qualquer coisa serve. Como é difícil da pessoa entender que o medo pode não ser específico, passa a imaginar que tudo pode acontecer de errado. Justamente por isso é que se pode ter uma fobia em relação a algo que sempre fizemos sem problema algum durante toda a vida.

Todos estamos suscetíveis a desenvolvermos um processo fóbico, basta a ansiedade sair do controle. Para que isso não aconteça, precisamos ter descanso, divertimento e saber relaxar. Sem esse “tempero” somos engolidos pelo mundo que vivemos e sua cultura doente, toda baseada no medo e não é a toa que ansiedade seja o mal do século.

Toda a pessoa que tem uma fobia vai desenvolvendo o que se chama de comportamento de esquiva, ou seja, procura fugir da situação, dando desculpas ou tomando caminhos que evitem a situação que sua imaginação dá como certa. Preferir subir muitos andares a utilizar o elevador, longas viagens de ônibus em troca do avião, não sair de casa alegando frio ou calor, etc…

Qual é a hora de procurar ajuda?

Quando perceber que sua qualidade de vida está sendo afetada. Não demore, toda a pessoa que tem sua vida limitada, com o tempo vai se entristecendo e aí sim, a depressão pode chegar. Não é a toa que em mais de 80% dos casos de depressão a ansiedade é um componente relevante.

Se você tem alguma fobia ou conhece alguém que tem, não faça pouco caso. Toda a pessoa que sofre com uma fobia está sempre em estado de alerta, com um medo constante. Estima-se que 11% das pessoas tenham algum tipo de fobia, e a prevalência é maior em mulheres.

A saída é lutar contra a imaginação e buscar diminuir o nível de ansiedade. Fora isso esse fantasma não nos abandona. Os sintomas físicos de medo e pavor quando se imagina o que pode acontecer paralisa a pessoa e depois de um determinado nível, fica-se irracional, como um bicho acuado e aí não tem bom senso que resolva.

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* site http://www.psiqweb.med.br/site/

A utopia chamada PERDÃO

“E, quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no, para que também o Pai celestial perdoe os seus pecados. Mas, se vocês não perdoarem, também o seu Pai que está nos céus não perdoará os seus pecados”.

Marcos 11:25-26

                                                                                                                                                                    perdao3

Uma das coisas mais difíceis é perdoar, justamente por que o tipo de perdão que as religiões exigem é tão complicado que se torna quase impossível de ser conseguido, já que nossa mente não foi projetada para isso. E, nesses casos, torna-se algo muito irônico, já que a pessoa que foi machucada ou ofendida por outrem, sente-se culpada por não conseguir o tipo de perdão que se exige e que se pede para ter validade. Assim, o prejuízo é dobrado; além da ofensa recebida ainda mais a culpa de não perdoar. Haja sofrimento!!

Para entendermos como é difícil, precisamos entender o funcionamento do cérebro, para, por fim, procurarmos o perdão “possível” de ser conseguido. Toda a vez que vemos ou sentimos algum objeto, o processamento dessa informação é realizado no córtex que fica na área externa do cérebro e se parece com uma grande lesma, toda enrolada. Ao receber o estímulo, o córtex faz o trabalho de detalhar o objeto usando seus registros de memória para saber se ele já é conhecido, tendo, portanto um nome. Se não for, sua atenção é despertada e, por medo (preservação) você verificará cuidadosamente se oferece ou não algum perigo.

Agora, imagine que uma vez você foi atacado e mordido por um cachorro e, além do susto, esse incidente tenha trazido muita dor. Esse momento ficará então gravado nas amígdalas* (não são as da garganta), que por não terem um programa muito sofisticado, não analisam se o perigo é algum animal pequeno ou que realmente possa feri-lo novamente. Assustaremos-nos em qualquer lugar, seja no cinema, parque de diversões, casa de amigos, etc, sempre que ouvirmos ou percebermos qualquer sinal da presença de um cachorro, mesmo sabendo que nossa saúde não corre risco algum. As amígdalas dão o alarme ainda que o córtex insista em afirmar que está tudo bem.

 Assim, toda a vez que seu córtex detectar algum estímulo que se chame “cachorro” seu sistema de defesa entra em ação provocando medo, já que isso fez sofrer no passado e pode fazer de novo, e sofrer, para nosso sistema, pode causar nossa morte. É claro que, passado alguns segundos, o córtex, mais sofisticado que as amígdalas, avisará que, eventualmente, o cachorro não oferece risco, por exemplo, por estar preso. Mas do susto você não escapa! Isso explica porque muito dos medos serem irracionais e até motivo de graça por quem não entende o processo.

Toda essa explicação, bem simples, foi dada para dizer que não precisa ser mordida de cachorro, afogamento, acidente de carro ou qualquer outra coisa desse tipo. Pode ser também uma ofensa, uma traição, uma agressão verbal ou física, etc. Todo e qualquer evento que traga susto ou sofrimento ficará gravado no nosso computador chamado cérebro, sem análise de qualidade ou conteúdo. É um sistema igual ao dos irmãos animais que fazem parte da natureza, assim como nós.

E acontece de alguém nos fazer sofrer, seja pelo que for, e depois vem o pessoal do “deixa disso”, dando aquele conselho: Perdoe! Esqueça! Não vale a pena ficar assim! E tantas outras bobagens desse tipo. E você, um ser humano que tem o cérebro funcionando, fica fazendo uma tremenda força para conseguir algo muito difícil, que é apagar do seu sistema o ocorrido para que você possa “amar” aquela pessoa, desejar-lhe toda a felicidade do mundo e, como se já não bastasse, você deveria fazer de tudo para ajudá-la para mostrar que tudo foi “esquecido”.  Por favor!!!! E o pior, como já foi colocado, é que nos sentimos culpados por não conseguirmos perdoar, afinal, se, por exemplo, Jesus nos perdoou, como que não conseguiríamos fazer isso com essa pessoa?

Então, para não parecer tão perverso, você engana a si mesmo, fingindo que esqueceu tudo, que está tudo bem, afinal é isso que Deus, ou seja lá quem for, quer de nós. Depois de um tempo, essa repressão pode muito bem se transformar em alguma doença autoimune (provocadas pelo próprio organismo), por fazermos de conta que nada houve, isso ainda temperado pela culpa (consciência pesada) de não conseguirmos esquecer.

Assim como o latido ativa o sistema, qualquer situação semelhante ou mesmo ver somente a foto do agressor fará com que o ocorrido volte a nossa percepção para que possamos nos defender. Isso é automático, faz parte do corpo e nem quinhentas ou mil preces resolverão, muito menos confessar esse “pecado” para outra pessoa, que também tem um sistema igual ao nosso, possa nos perdoar.

Então qual é o perdão possível?

O que dá para fazer é o que chamamos de ressignificação, que nada mais é do que darmos uma outra versão do acontecimento, entendendo por outro ângulo, encontrando razões e até mesmo, por que não, vantagens no que aconteceu. Podemos entender o mau momento da pessoa, buscarmos entender que ela projetou sobre nós seus problemas e frustrações ou que isso nos ajudará no futuro como um aprendizado que nos tornará mais fortes, etc.

 Isso, com o tempo vai minimizando o efeito, simplesmente, porque nós colocamos isso de outro jeito dentro da nossa consciência. Agora, voltar a ser como antes, esqueça! Se já viu, estamos diante de uma rara exceção ou de um grande ator ou atriz. É a metáfora do copo rachado. Dá para ficar com ele por vários motivos, mas ele não será mais como era antes do evento. Esqueça e nem faça força para isso, que só vai colocar fora energia e ainda se sentir mal por não conseguir o impossível.

Existe uma infinidade de maneiras de dar esse outro sentido, e qualquer uma é totalmente verdadeira, você é livre para isso! Depois de encontrar essa nova “versão”, basta ter atitudes que demonstrem isso e seu perdão possível poderá ser atingido. Mas lembre de que só conseguirá o possível, nada mais!

Conta-nos a história que minutos antes de morrer, Jesus teria olhado para os céus e teria dito: “Pai, perdoe porque eles não sabem o que estão fazendo!”.

Me permito pensar: se Jesus, ao ressignificar o que estava ocorrendo com ele, dando uma desculpa para aplacar uma eventual ira de seu Pai ou mesmo na citação que abre esse artigo, onde Deus não nos perdoará se não perdoarmos, não estaria demonstrando que até Deus tem córtex e amígdalas?

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*Amígdalas – A amígdala, uma pequena mas importante porção do cérebro, está envolvida na produção de uma resposta ao medo e outras emoções negativas. A amígdala é fundamental para a auto-preservação da espécie por ser o centro identificador do perigo, gerando medo e ansiedade e colocando o animal em situação de alerta, aprontando-se para se evadir ou lutar.

Disponível:

http://www.psiqweb.med.br/site/DefaultLimpo.aspx?area=ES/VerDicionario&idZDicionario=72

Os Quatro Pilares da Realização

“Não acredite em mim, não acredite no seu pai, não acredite no seu mestre, não acredite no seu professor! Não acredite em ninguém, somente em aquilo que você experimentou e que, portanto, seja verdade para você!”

Buda

Vivemos em uma época em que a informação está disponível de forma rápida e muito barata. Quem tem acesso à internet dispõe de uma quantidade praticamente ilimitada de saberes de todos os campos de conhecimento e os livros nunca foram tão acessíveis como hoje. Além disso, todo o ser humano sempre tira um tempo, normalmente nas horas mais difíceis, para pensar sobre si, o que quer, deseja e seus caminhos para atingir seus objetivos.

Todo esse preâmbulo é para chegarmos a uma pergunta que se impõe: se sabemos o que precisamos fazer para estarmos melhor (sempre sabemos), porque não fazemos?

Como já escrevemos em vários artigos anteriores todas as nossas mudanças passam pelo enfrentamento da dúvida de: se conseguiremos o objetivo a que nos propomos e se esse novo caminho nos levará a resultados melhores.

Os antigos diziam que a Realização passava por quatro etapas, a saber: querer, saber, ousadia e silêncio.

Querer, todo mundo quer! Seja em que ramo da vida for, sempre estamos querendo (desejando) alguma coisa. Sempre temos na cabeça o que estamos querendo, ou seja, até aqui tudo bem.

Saber, já exige um pouco mais. Nem todo mundo consegue saber conscientemente as razões mais profundas dos seus desejos. Normalmente não se chega a isso sem uma reflexão realmente profunda. Nossos motivos, via de regra, são mais superficiais, poucos conseguem ir mais a fundo. Buscar essas verdadeiras razões dos nossos desejos é muito importante, é o que dá consistência a etapa seguinte do processo de realização.

Agora chegamos na “encruzilhada” que sempre deixa os desejosos pelo caminho… A ousadia é o que realmente difere os que chegam a algum lugar dos que hesitam diante do momento da escolha. Ousar significa enfrentar o medo de dar errado, de buscar seus sonhos sem nenhuma garantia de sucesso. Precisa realmente coragem, afinal quem não enfrenta o medo nunca sai do lugar. Nunca se esqueça, querido leitor (a), que devemos agradecer o medo que sentimos, já que sem ele, não há crescimento. Se alguém acha que poderá chegar a seus objetivos (sonhos) sem ousar, nem uma loteria poderá ganhar, já que para isso, também precisa comprar um bilhete…

É na ousadia que demonstramos através de ações diretas que realmente sabemos o que queremos! Nesses atos, muitas vezes nos expomos e deixamos de lado as hesitações anteriores, mesmo sentindo uma insegurança que é natural, mas que demonstra nossa capacidade de enfrentamento. Mesmo que, eventualmente, não de certo, mesmo assim houve um crescimento e nunca passaremos pelo pior dos arrependimentos: o de nunca ter tentado! Dificilmente quem ousa não atinge seus resultados, já que, mesmo com dúvidas está nascendo a confiança, qualidade indispensável ao sucesso de qualquer empreitada.

 A ousadia é muitas vezes substituída por orações e promessas. São ações que podem ajudar, mas são sempre complementares, coadjuvantes. Quem “entrega” sua ousadia a esses processos, está esperando que algum anjo, santo ou deus faça o trabalho por si. Com todo o respeito, não vai acontecer. Fé significa acreditar no que não se sabe concretamente, então ninguém tem mais fé do que a pessoa que se lança atrás de seus objetivos, afinal, não há garantias de sucesso, como dissemos anteriormente. Depois de atingido o sucesso da empreitada, cada um pode dedicar a quem quiser. As preces e orações ajudam, na medida em que nos sentimos amparados espiritualmente para a jornada que estamos por iniciar.

Por fim, a última etapa do processo da realização é o silêncio. É muito importante que, de preferência, pouquíssimas pessoas (só mesmo as necessárias) saibam do que está sendo feito. Normalmente fomos educados a dar importância demais à opinião dos outros e tendemos a buscar “apoio” a nossa mudança. Nessa hora, estamos dando a clara noção de que não temos certeza se o que estamos buscando está certo. Aqui cabe a pergunta: Para que perguntar se você já passou pelas duas primeiras etapas do “querer” e “saber”? Mesmo com o intuito de ajudar, você certamente será atrapalhado já que cada pessoa a quem a consulta for feita usará a si mesma como parâmetro e nenhuma delas é você, tem suas percepções de mundo e suas experiências anteriores que o trouxeram até esse momento. Manter o silêncio é também adubar a confiança em nós! Comentar demais significar incentivar a insegurança, já que é certo que se as opiniões não forem favoráveis em sua esmagadora maioria, você desistirá!

Confie, confie e confie naquilo que sente ser necessário, e isso passará pela qualidade de contar só com você mesmo! Qual o problema? É pouco? Todas as pessoas que alcançaram a eternidade de serem lembradas através dos tempos foram ousadas e não contaram com nenhum apoio nos seus momentos cruciais. Já os bilhões e bilhões que já habitaram esse planeta através dos tempo e passaram “em branco” queriam e sabiam que queriam muitas coisas, mas….

As quatro etapas do processo de realização são na verdade o grande “segredo”. Visualizar, se imaginar tendo conseguido atingir o objetivo é muito bom porque incentiva à primeira etapa, a do “querer”. Mas se não houver um entendimento do “saber” e não tivermos a “ousadia” de buscar através de atitudes, mantendo o “silêncio” que fortalece a confiança, nada acontecerá!

E de tanto querer e nada acontecer, o que acontece? Vai se firmando uma profunda frustração e a pior certeza de todas: de que não somos capazes, porque nada do que queremos acontece. Mas lembre, não dará nada certo até que se dobre a esquina dos vitoriosos, que se chama ousadia.

Sempre brinco com meus amigos e clientes quando estamos falando sobre isso, dizendo que qualquer pessoa pode dar um salto mortal no trapézio se tiver uma rede de segurança em baixo, e isso quase não chama atenção. Mas veja como nossos olhos se fixam e ficamos tensos só de olhar quem faz o mesmo salto sem nenhuma rede que simboliza a garantia, segurança e certeza de que não vai sofrer.

São quatro passos, porque esse é um número que indica uma mudança de etapa. Um ano tem quatro estações, a lua tem quatro fases, o mês tem quatro semanas, quatro eram os cavaleiros do apocalipse e quatro os evangelistas. Concretizar a “alquimia” de nos tornarmos realizados também tem seus quatro pilares: QUERER, SABER, OUSAR E CALAR.

Você nunca estará “pronto” para esse processo do “nada”, ou seja, ninguém acorda confiante. Isso é, como tudo, resultado de ação e enfrentamento da insegurança.

Cada mudança é uma corrida contra si mesmo, e logo após a linha de chegada você se encontrará, mais forte e confiante, pronto para a próxima, afinal a evolução não tem limites.

E isso é o “segredo do segredo”. Pronto, já não é mais, porque acabei de contar!