Agenda

  • Nenhum evento

Só uma resposta

No começo, foi só o silêncio.

O terapeuta já estava acostumado. O primeiro encontro é feito de expectativas, mas além delas, o cliente precisa sentir que pode falar, se expor com segurança e para isso não tem regra ou método. Intimidade que na vida real leva muito tempo, se constrói em minutos.

Depois de um breve suspiro, o homem começou a falar sobre sua vida. Da infância sem sustos em uma família que, como todas as outras, atravessava boas e más fases que nada impediram que ele e a irmã pudessem chegar à idade adulta. Falou como conheceu sua esposa, da dificuldade de terminar a faculdade e do emprego onde estava desde sempre, agora, como nunca, cheio de perspectivas. Viagens ao exterior pela empresa, cargo de chefia e, quem sabe um dia, tornar-se um diretor.

Em casa, o casamento estava indo muito bem com o filho de três anos que surpreendia a cada dia com suas descobertas e da lógica de pensamento que só as crianças podem ter.

Silêncio.

De repente, uma dor de garganta que não passava. Médicos comuns, receitas comuns. Passado um tempo, uma investigação mais profunda encontra nódulos e uma doença comum, que só de dizer o nome dá medo, em uma manifestação rara.

Em um dia, tudo desaba; sonhos, medo de deixar de existir quando a vida parecia sorrir todos os dias.

O médico das más notícias disse que ele não deveria deixar de acreditar. Mal prognóstico. Sem olhar nos olhos disse que ele poderia ter vinte por cento de chance e que o tratamento precisava começar imediatamente.

Enquanto o médico falava ele só conseguia sentir saudade da esposa, do filho e dos pais. Como dizer para mãe, para a esposa? Imaginar não ver o filho crescer lhe tirava o ar.

As lágrimas, represadas pela coragem masculina finalmente encontraram um porto seguro. Soluçava em desespero.

O terapeuta sustentava o olhar. Era o que podia fazer. Todos os livros que lera viraram em nada diante da vida real, como ele já sabia, faz tempo.

Quando a emoção lavou o que podia, um novo suspiro.

– Meu amigo me disse que você poderia me ajudar. Eu só queria entender.

Silêncio.

Precisamos de respostas. Elas são uma espécie de consolo, afinal, tudo precisa ter uma razão! O problema é justamente esse; muitas vezes não existe uma razão. Nossa imaginação busca onde pode preencher os espaços vazios da compreensão como uma forma de encontrar alguma justiça ou justificativa. Palavras que não começam iguais por coincidência.

O terapeuta moveu lentamente a cabeça.

– Não tem como entender, não é? Nunca fumei. Não tem sentido!

Choro.

Comentou que o filho não queria mais ir para a escola. Dizia que queria ficar em casa com pai, apesar de nunca falarem do assunto na presença dele. Nunca se engana uma criança e é fácil de entender o motivo: se para ela não existe passado e muito menos futuro, toda sua percepção se concentra no que está acontecendo. A professora, informada da situação, relata que o filho já não brincava e mostrava abatimento.

A esposa apenas dizia que tudo isso era um pesadelo que iria terminar. Como uma pessoa boa passaria por isso? A mãe sofria silenciosamente e o pai estava ao lado nas sessões de quimioterapia, mas não conseguia falar. Nos olhos, o medo do absurdo que devasta a razão.

Em duas semanas tudo estava desabando e o tratamento intensivo já mostrava suas marcas.

– Agarre-se a seus vinte por cento. O mesmo absurdo pode ser a sua chance. Disse-lhe o terapeuta.

– E se os oitenta vencerem?

– Você fez sua parte. O que contarão a seu filho é que você lutou, fez o que pode. Se em algum momento da vida, ele superar dificuldades baseados na sua luta, pode ser que tudo isso ganhe o sentido que você procura. Mesmo não sendo uma garantia de nada, é como pode dar certo. O mistério da vida é não ter lógica.

– Mas e o motivo, tem algum para isso estar acontecendo?

– Não tem, é o que nos diz a razão. O resto nós nunca saberemos. Pode ser só o que sabemos; uma doença infelizmente comum em uma manifestação rara.

Olhando para o chão ele parecia absorver essa resposta. De algum modo o acaso o absolvia.

– Isso me dá um alívio, de certa forma. Pode não ter mesmo um motivo.

O terapeuta demorou alguns segundos para responder:

– Carregamos culpa demais. É assim que se mantêm as pessoas sob controle. Faça o que deve ser feito, use sua força e fé. Se às vezes não existe uma razão, porque não usar o que está fora dela? Lute por cada dia a mais. Os milagres sempre são feitos por nós, no final.

– Só sinto saudade. Saudade de quem vejo todo o dia, tenho saudade até de mim.

Choro.

Silêncio.

Quando se despediram, um aperto de mão. Nos olhos uma leveza de quem pode falar, só falar. O homem que procurava respostas e o que não as tinha apertaram as mãos.

– Interessante, vim procura-lo atrás de entender. Você não tinha a resposta, mas de alguma forma estou melhor. Obrigado por não responder, talvez se me dissesse alguma coisa que eu precisasse acreditar, poderia aumentar minha angústia. Como saber se sua teoria era a certa? Ser simplesmente como é, foi a melhor resposta que encontrei.

Do aperto de mão, veio um abraço, rejeitado pelos manuais. Bobagens que não respeitam o que acontece em um encontro, na vida.

Um sorriso mútuo encerrou esse único encontro, que mudou os dois, cada um a seu jeito.

 Quando a porta abriu, o próximo cliente já esperava.

O terapeuta tinha alguns minutos. Molhou o rosto enquanto imaginava a dor sem sentido.

Ao olhar-se no espelho, pensou em perguntar para a imagem refletida: Por quê?

O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.

Aceitação

“Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da aceitação. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceita-lo.”

Eckhart Tolle – O despertar de uma nova consciência

 

“ O sofrimento é a não compreensão da dor.”

Dulce Magalhães

aceitação

Qual o limite do sofrimento?

Essa resposta é difícil e por isso penso que seja interessante refletirmos sobre ela. Muitas vezes, o sofrimento termina por irmos até o seu final, esgotá-lo. Para isso o corpo tem seus mecanismos. Noto na prática da psicoterapia que a pessoa experimenta uma melhora súbita depois de um sofrimento intenso, normalmente passado alguns dias. Isso ocorre justamente por irmos tão fundo nele que não há como prosseguir, já que nosso próprio sistema tem uma limitação, afinal, precisamos continuar vivos.

Essa também é uma espécie de técnica terapêutica defendida por alguns que tem o objetivo de viver o sentimento intensamente por um tempo curto com esse fim; de esgotá-lo o mais rapidamente possível. Do jeito como somos, preferimos sofrer longamente, pois isso nos dá, inconscientemente, essa sensação de justificá-lo.

O âmbito do sofrimento normalmente está abaixo da nossa racionalidade, justamente porque, na maioria das vezes, seu simples entendimento poderia dirimi-lo. Mas como na nossa cultura sofrer é algo que entendemos que nos purifica ou nos faz evoluir a via longa parece ser a escolhida.

Vamos analisar algo extremo: a perda (morte) de uma pessoa muito querida.

É inevitável e muito normal sentir uma dor profunda. Mesmo os adeptos do reencarnacionismo não estão isentos a ela, afinal, essa pessoa sairá de nossa convivência e não a veremos mais, nem teremos a possibilidade de estar com ela pelo restante de nossa vida.

Aqui, entra o ditado popular: “ A dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional”.

Mas como colocar isso em prática? É muito difícil e precisamos entender o porquê.

Em primeiro lugar, o que acontece é que aprendemos que uma forma de demonstrar amor é pelo sofrimento. Esse conceito é levado muito a sério nos relacionamentos afetivos, por exemplo, onde tendemos a avaliar o quanto gostamos de alguém pelo sofrimento que essa pessoa é capaz de nos trazer. É como fossemos cobrados em sofrer para demonstrar o quanto gostamos da pessoa que partiu.

Sejamos racionais: A morte é definitiva para o corpo e, seja por uma doença, acidente ou qualquer outro motivo, não tem como voltar atrás. O sofrimento muitas vezes vem de procurarmos respostas para perguntas como:

Por que aconteceu com ele(a)?

Não merecia, pois era uma ótima pessoa.

Por que agora e dessa forma?

Por que alguém merece passar por isso?

Essas perguntas nunca serão respondidas, já que para isso a vida precisaria ter uma lógica, um sentido que não tem. Em artigos anteriores já discutimos esse assunto. Dessa forma, ficamos procurando um sentido onde não há e isso mantém o sofrimento por longo tempo, até que a pessoa chegue à conclusão que não terá essas respostas e vai recolocando sua vida nos trilhos. Essa forma, digamos, natural, demora muito. No caso de uma morte, por exemplo, é aceito que a pessoa enlutada tenha prejuízo na sua vida por até um ano depois da perda. Somente após desse período é que se considera a necessidade de procurar alguma espécie de tratamento.

O que podemos questionar é se precisa esperar tanto tempo, se esse sofrimento não poderia ser dirimido pela simples aceitação da infalibilidade da morte. Muitos procuram em si alguma responsabilidade, se poderiam ou deixaram de fazer alguma coisa que evitaria o ocorrido.

Nesse caso, já entramos em mais um aspecto, onde o sofrimento se encontra com a culpa. Sentir-se culpado ou ficar remoendo pensamentos de que algo poderia ter sido feito, nada mais é do que encontrar finalmente uma resposta para entender essa perda: Eu fui culpado, pois poderia ter percebido ou feito isso ou aquilo.

Se, por um lado a pessoa simplifica a situação ao se culpar, por outro essa solução traz o outro problema. Já que a culpa existe, é porque algo errado foi feito e isso exige uma punição. Para isso, não precisa de nenhum juiz ou tribunal; nós mesmos nos impomos algum tipo de pena. Mais tempo passa onde essa punição é cumprida para expiarmos nosso “erro”.

Quando não é uma morte, necessariamente, mas uma perda material onde precisaremos retroceder socialmente ou abrindo mão de algum conforto, sempre vem junto um abatimento do ego que, tem sua autoimagem afetada. Quantos já foram ao limite do suicídio por terem ficado repentinamente pobres e não suportaram lidar com essa nova realidade?

Em outros casos, algum segredo vem à tona e essa descoberta afeta a imagem que a pessoa luta por defender. Daí, acontece de pensar que a morte a eximirá de passar pela responsabilização do seu ato e da mudança que provocará em seu círculo de amizades com a perda do reconhecimento que viria.

Seja qual for o caso, e poderia citar outros tantos, a simples racionalização pura e simples já teria, em tese, a força de tornar o sofrimento sem sentido ou diminuí-lo. Seja para prestar contas à sociedade do nosso amor, seja para defender uma posição ou conceito que temos de nós mesmos, as perdas em geral nos remetem a um longo período de abatimento que pode nos levar a abandonarmos caminhos ou fazermos escolhas que mudarão nosso futuro.

É claro que a dor, seja pela perda que for, até mesmo de um emprego que gostamos e que jamais imaginaríamos que fossemos nos afastar, causa um baque inicial que devemos aceitar. Mas compreender e usar a racionalização poderá ajudar a diminuir o tempo do sofrimento.

Quem sofre pouco, pode parecer aos olhos comuns como alguém insensível, que não se importa ou que não gostava tanto assim da pessoa falecida, que não dava importância ao relacionamento, etc.

Será?

Pode ser simplesmente que essa pessoa tenha optado por não sofrer, desistiu de ficar procurando respostas lógicas para perguntas que nasceram para não serem respondidas.

Seja a perda que for, não tem como não doer, e isso é normal, faz parte e como diz  Eckhart Tolle pode ajudar a transcender, ou seja,  ir além do sofrimento.  Só que isso só será possível se simplesmente aceitarmos que, por exemplo, nada nunca está sólido, seguro ou garantido em qualquer aspecto da vida.

Isso, por um lado pode gerar angústia, por outro é justamente o oposto; se é assim, que seja;  já que sofrer não vai tornar nada mais seguro ou evitar que o inesperado aconteça.

O animal que somos necessita se sentir seguro, por isso lidamos mal com as mudanças, principalmente as inesperadas ou incompreensíveis, como sabemos. Mas entender o sofrimento e ir além nunca foi coisa de bicho.

Temos um cérebro emocional e é dele que vem tudo isso. Mas nunca é demais lembrar que desenvolvemos uma nova parte, chamada Néo Cortex, que nos permite entender, racionalizar e colocar uma compreensão mais profunda.

Só que esse novo cérebro precisa de consciência para ser utilizado e precisaremos ir além do nosso emocional, muito automático, reativo e programado desde o dia do nosso nascimento.

No final, aceitação é muito mais do que dobrar os joelhos diante do desconhecido, pode ser simplesmente aceitarmos que tem coisas que, simplesmente, não devemos saber.

Meditação

“Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela.”

                                                 Albert Einstein

“Existem atitudes do homem que o leva ao amadurecimento, uma delas é a meditação.”

                                           Tailini Girardi

                                                                                                                                                                                                                 MEDITAÇÃO

Tem sido cada vez mais comum nos últimos anos a procura pela meditação como uma solução para problemas como a ansiedade, depressão ou com o objetivo de buscar mais equilíbrio diante dos, cada vez maiores, desafios da vida moderna. O problema é uma grande expectativa (e toda a expectativa de hoje é a frustração certa de amanhã) de que, em poucos dias, uma grande mudança acontecerá. Como meditar é mudar e isso leva tempo, faz com que não haja a persistência necessária para que os resultados apareçam.

Falar em meditação é saber que existem muitas definições, técnicas variadas e toda ordem de misticismos envolvidos o que sempre pode atrapalhar.  Meditar é algo simples, mas alguns pontos precisam ser entendidos.

Para os leitores de “Céu e Inferno”, lembro que  meditar é buscar sair do inferno da mente e buscar o céu da consciência eterna e isenta de sofrimento. Lembre que o conceito de eternidade  é da ausência de tempo, ou seja, não há passado nem futuro, origem de todas as angústias e preocupações.

Então, para começar, o processo da meditação pede que durante a prática, renunciemos a tudo que for exterior, com o objetivo de criar a condição de interiorização, para isso, fechar os olhos é necessário. Vivemos e fomos criados pensando que somos aquilo que temos e queremos ter. Não é fácil se perceber sem “nada”, mas nunca esqueça que sofremos sempre pelo que dizemos que “temos” ou chamamos de “meu”, incluindo tudo que imaginamos que, quando tivermos, seremos mais felizes. A meditação, com o tempo, mostrará que você é um saudável “ninguém”, que na verdade não é dono de nada nem de outras pessoas. Com isso o fardo fica leve e a alegria ganha espaço!

Mostra a natureza nas suas leis simples e verdadeiras que não há progresso sem empenho e esse estado de se perceber livre, nem que seja pelos poucos minutos de prática, leva algum tempo e saber esperar é sabedoria. Queremos tudo para já, e para isso temos dinheiro, cheque, cartão de crédito, débito e imprimimos boletos. Mas estados evoluídos são conquistados e não comprados.

Como bem dizem os budistas, o objetivo da meditação é simplesmente o silêncio sublime, a tranquilidade e a clareza mental, mas como conseguir isso com a mente trazendo lembranças e preocupações sobre o futuro a todo o momento? A resposta é a renúncia a tudo que somos e temos, conforme descrevi acima.

Sidarta Gautama disse certa vez que: “Um meditador, cuja mente se incline para a renúncia, com facilidade alcança o Samadhi* (objetivo final da meditação)”. Mas isso não é você doar suas coisas, terminar seus relacionamentos e amizades e viver na pobreza. É apenas, durante os minutos de meditação se desvencilhar disso tudo, para voltar a sua origem de “ser”. Manter o domínio da mente evitando os pensamentos sobre família, trabalho, compromissos, responsabilidades e, principalmente, as previsões escabrosas sobre o futuro. Para aqueles que gostam de lembrar das situações ruins que já passaram, também evitar afundar na lembrança e sofrer de novo. Imagine, apenas imagine, que você é alguém desprovido de história como ensina Ajaan Brahmavamso.

Para isso, existem alguns recursos, cabe experimentar para descobrir com o que mais se adapta:

– Utilizar uma frase ou palavra (a isso chamamos “mantra”) e ficar conscientemente repetindo essa frase/palavra com o objetivo de manter a mente presa, sem que ela possa “fugir” para os assuntos que citei acima.

– Manter-se conscientemente focado na sua respiração, observando atentamente a entrada e saída do ar.

– Visualizar alguma situação ou imaginar-se em local agradável e evitar “sair” desse lugar.

– Visualizar alguma imagem fixa, que pode ser um símbolo de seu agrado ou qualquer outro (a isso chamamos de Yantra), mantendo a atenção fixa nessa imagem.

Existem infinidades de outras técnicas, e nada impede que você crie a sua, lembrando que o importante é manter a mente “presa” em algo. Obviamente que isso não será conseguido com facilidade, mas a persistência traz o resultado. Cada vez que se perceber divagando entre passado e futuro, simplesmente retorne sem brigar consigo mesmo e retome o processo. Milhares de vezes isso acontecerá. Como você já foi avisado, não dê importância, é assim mesmo.

Procure manter sempre a coluna ereta e para isso pode usar uma cadeira onde apoiar as costas. Ficar sentado em posição de lótus é uma imagem clássica de meditação mas está longe de ser obrigatória. Caso Sidarta e outros que atingiram o máximo onde um ser humano pode chegar morassem em um lugar frio, garanto que sentado no chão não daria certo. Muitos procuram copiar a posição e outras coisas achando que isso os levará ao mesmo lugar. Bobagem!

Quem chegou “lá”, foi com anos de prática e de colocar sua vida dentro de uma perspectiva menos sofrida e isso só aprendendo a estar fora da mente para conseguir.

Manter a coluna ereta ajuda com alguma tensão a ficar atento. Perceber que a cabeça inclinou para baixo ou que as costas curvaram é um sinal de que precisa retomar a atenção na meditação.

O fato de um determinado dia a meditação ser gratificante, de experienciar uma calma profunda e paz interior, não quer dizer absolutamente que isso é algo conquistado e que sempre será assim. No dia seguinte pode ser tudo difícil e frustrante, e isso faz parte. Não existem garantias, é a prática pela prática, sem expectativas. Faça porque é bom, reconhecidamente traz resultados, mas não espere nada.

Esse é o ponto, não é um negócio ou uma troca. Não existe ninguém nesse ou de outro mundo para recompensá-lo. Portanto, não é alguma negociação, como muitos fazem com as religiões esperando que nada vá acontecer com eles nem com os seus entes queridos por fazer parte dessa ou daquela crença e, quando acontece algo ruim, trocam de papa, ministro ou pastor.

Esse desapego dos resultados é decisivo, mas a mente é essencialmente dúvida e  medo, logo ela nunca vai ajudá-lo. Aliás, vencê-la é a meta. A mente nunca vai parar, o que acontecerá é descobrir que esses pensamentos não são seus, enquanto consciência, mas das necessidades do corpo e do medo do sofrimento e da morte.

Com o tempo, poderá acontecer de perceber-se cada vez mais fora dos processos da mente, se tornando um “observador” dos conteúdos que ela traz. Obviamente, quem observa só pode fazê-lo por estar do lado de fora e estar assim é não sofrer.

A meditação também pode ser ativa, ou seja, fazendo algo. Pode ser correndo, nadando ou até mesmo fazendo alguma atividade criativa. Como saber que esteve meditando? A resposta é: se perdeu a noção do tempo e não ter pensado em mais nada além da atividade em si. Esse é o tipo de meditação que as pessoas mais fazem, sem saber que estavam em meditação e é tão válida quando a outra, com uma diferença importante: a atividade evitou as distrações da mente enquanto a passiva ou sentada é uma busca de dominá-la e entende-la.

Depois da sua prática, volte a fazer suas coisas e pensar no futuro é uma delas, mas vá procurando evitar viver nele. Uma das possibilidades é que irá acontecer o que imaginamos, mas pode ser tudo diferente e quase sempre é. Perguntado sobre isso certa vez Sidarta respondeu: “O que quer que vocês pensem que assim vai ser, sempre será algo distinto. O sábio compreende que o futuro é incerto, desconhecido e portanto imprevisível”.  Deixe sempre aberta a possibilidade de que o melhor aconteça, porque para a mente serão apenas tragédias e sofrimentos.

Inicie com dez a quinze minutos, no máximo, por dia por uns seis meses. Aumente o tempo quando se sentir confortável, e não fique anunciando ou divulgando o quanto você medita. Já vi até “selfie” de pessoas meditando. Isso é puro ego e infantilidade. Pessoas assim podem dizer que ficam horas em meditação, mas provavelmente ainda não saíram do lugar. A auto compreensão vai pela via contrária da exposição.

Quanto mais você for se aprofundando, imagino que as fotos, palavras, angústia e medos irão diminuindo em troca de clareza e mais silêncio interior.

Por isso, meditar é perder o desnecessário e ganhar o imprescindível.

___________________________________________________________________

*Samadhi – é a unidade com o Espírito, é o estado mais elevado que se alcança pela meditação prolongada e profunda. Consiste em dissolver a bolha do ego no oceano do espírito. É o estado onde não existe distinção entre o “eu” e o “objeto”, experimenta-se a unicidade com o Todo.

Para saber mais: O método básico de meditação. Ajaan Brahmavamso – ed. Orbi

O sacrifício final

“ O homem precisa aprender a sacrificar seu sofrimento…abdicamos do que nos faz bem em prol do sofrimento…o homem faz isso por pensar que o sofrimento é enviado por Deus.

P.D. Ouspensky

 

sofrendo

 

Esse é 100º artigo postado, e, justamente por isso, quero enfatizar um assunto que tem de alguma forma permeado grande parte dos textos que é o sofrimento.

Um dos motivos mais comuns que o ser humano tem para valorizar o sofrimento e fazer dele algo útil (se é que isso possa ser lógico ou possível) vem da cultura cristã. Foi-nos “ensinado” que o sofrimento, ou uma palavra similar “sacrifício” tem o poder de nos purificar, nos aproximando de Deus.

Isso traz consigo uma atitude inconsciente que nos fala o seguinte; se não estou sofrendo ou fazendo algum sacrifício, não estou me “purificando” ou me aproximando o suficiente de Deus e ser recompensado depois de minha morte. Assim, estar de bem com a vida e sem preocupações passa ser uma coisa que faz com que as pessoas se sintam inadequadas, estranhas, como se algo estivesse errado. Nesse momento, não podendo perder tempo, torno algum acontecimento rotineiro ou insignificante fonte de grandes preocupações. Dessa forma, volto a me preocupar ou estar me sacrificando por algo e meu processo de “limpeza” prossegue.

Se você se perguntar ou for fundo nessa história, verá que sua raiz está na crucificação de Jesus, do qual eu e você somos culpados (já nascemos assim) precisando sofrer bastante para expiar nossas culpas.

Mas na verdade, isso é uma forma de dominação muito bem pensada. Assim, ser explorado, por exemplo, é algo com que tenho que me conformar, até mesmo agradecer inconscientemente, já que ajuda no processo de purificação de todas as coisas ruins que nasceram comigo.

De sofrimento velho ou novo, vou vivendo (será?) a vida, pensando que as coisas desagradáveis que me sucedem sejam obra divina, que sabe o que faz, com a finalidade de me encaminhar ao paraíso.

Como se já não bastasse tudo isso, temos um problema ou um “efeito colateral” desse modo de pensar que está incrustrado profundamente em nós. Como já escrevi anteriormente, as emoções se manifestam em nosso corpo pela liberação de hormônios, o que as torna algo que, pela repetição, nos faz dependentes químicos. Lembre que nos viciamos em emoções e por isso as mantemos por uma vida toda, justamente por criarmos uma dependência desse respectivo hormônio que, por uso constante, passa a ser necessário. Em outras palavras: ser “eu” mesmo, ou a minha identidade passa a incluir essa emoção ou sofrimento. Depois de algum tempo passo a “precisar” dela e consciente ou inconscientemente crio as condições para que ela aconteça.

Espero que agora seja possível entender o motivo de sempre estarmos preocupados por alguma coisa. Não é à toa que muitas vezes você deve ter notado e até expressado para algum amigo ou familiar que o que o está preocupando é algo realmente pouco importante, mas não entende o motivo de esse assunto “pequeno” estar se tornando grande.

É vício mesmo, como o de qualquer droga, álcool ou uma compulsão qualquer.

Mas, como quem pensou tudo isso de bobo não tem nada, além desse paradigma ridículo de que o sofrimento faz bem, para nos deixar sem saída, incluiu um outro pensamento que qualquer criança de cinco anos já relata ter ouvido de seus pais, o que garante a continuidade do “sistema”: Felicidade dura pouco!

Assim, de geração em geração, vamos sofrendo, sendo feitos de trouxas, achando que estamos fazendo grande coisa. Pense nas penitências, promessas que incluem as mais várias formas de privações e tudo mais.

A grande desilusão com as religiões mais ortodoxas vem justamente disso; preocupo-me por tudo, me sacrifico e como pode acontecer algo ruim comigo? Eu não mereço!

Daí, você se sente abandonado por Deus e vira um descrente ou faz o mais fácil; troca de religião, que essa nova sim, garantirá que todo o sofrimento terá um resultado e valerá a pena!

Quer saber? Tudo isso termina virando uma negociata divina. Faço e cumpro tudo e Deus me garante que nada de ruim me acontecerá.

Não vai dar certo!

Portanto caro leitor, se você não consegue parar de sofrer, de estar sempre preocupado por algo, temendo uma desgraça que pode se abater a qualquer momento por ser um pecador contumaz, mas quer se libertar de tudo isso, assuma seu vício de qual foste vítima e toma a única decisão possível:

SE ABSTENHA!

Não se cura nenhum vício sem a abstenção da “droga” não é mesmo?

Sei como será difícil, um “sacrifício” mesmo. Procure não se sentir culpado ou responsável por nada que não seja seu, se divirta mais e viva mais sua vida. Vai que tudo isso que  acreditou a vida inteira não passa de uma grande besteira, uma forma de condicioná-lo. Se determine, pelo menos, a só se preocupar com situações realmente importantes e que tenha uma condição: só dependa de você mesmo o resultado. Se não for, faça sua parte e esqueça.

Vai que, a única coisa que garanta seu futuro depois da morte seja um passaporte: a vida que foi vivida!

Afinal, se o carma existe mesmo ele funciona assim: você sofreu muito então é porque gosta e merece continuar. Se viveu bem, trabalhou, se divertiu e curtiu tudo de bom que a vida oferece, também merece continuar. Pensando de outro jeito: o que você espera (vida futura) se plantou (na vida presente) um pé de pitanga?

Mas essa mudança passa pelo corpo que precisa se acostumar a ter cada vez menos hormônios de sofrimento na sua corrente sanguínea. É com o tempo e novas atitudes que se chega lá!

Por falar em tempo, quando eu tiver mais, seguindo o exemplo dos AA (alcoólicos anônimos) vou crias o SA (sofredores anônimos).

As reuniões acontecerão nos estádios da copa e serão transmitidas em tempo real via televisão e internet para que todos os inscritos no “clube” possam participar. Tenho certeza que você se orgulhará de usar o botom que ganhará depois de algum tempo de abstinência do vício por ter ficado uma semana sem sofrer, um mês…imagine!!!

 

medalhas

 

Que seu último sacrifício (sacro ofício ou trabalho sagrado) seja o de sacrificar seu sofrimento.