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O cavalo e a carroça

“A felicidade é inacreditável. Parece que o homem não pode ser feliz. Se você fala da sua depressão, tristeza, amargura, todo mundo acredita, parece natural. Se você fala da sua felicidade ninguém acredita, parece antinatural”.

                                                                      Osho – O Homem que amava as gaivotas

A religião é comparável a uma neurose da infância”.

                                                                     Freud

“ Conhecimento sempre nos expulsa de algum paraíso”.

                                                                     Melaine Klein

                                                                                                                                                                                         carroça e bois

Freud é considerado o pai da psicologia moderna, note que falei “moderna”. A psicologia existe desde que alguém teve um pensamento. Evoluiu quando esse pensamento foi compartilhado. Portando, a psicologia existe a milhões de anos. Você pode argumentar que a ciência fala de 30 ou 40 mil anos do Homo sapiens, mas alguns estudos de paleoantropologia (sim, isso existe) datam artefatos descobertos que exigiram inteligência para serem feitos há, pelo menos, dois milhões de anos.

Antes de Freud a filosofia acumulou a função de psicologia nas reflexões dos gregos de 600 anos AC ou dos textos védicos, muito mais antigos ainda. Essa pequena introdução serve para dizer que o homem pensa sobre si e a vida faz tempo, e pelo visto ainda sem um resultado concreto.

O que está faltando ou estamos fazendo de forma errada?

Vivemos em um mundo tecnológico, praticamente sem fronteiras físicas e o que vemos é a humanidade cada vez mais angustiada e doente.

 Depois de mais de quarenta anos de pesquisa, Freud chegou à conclusão de que o homem não consegue ou não seria da sua natureza a felicidade. Chegou a dizer que: “A nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”.

Nosso medo da morte pela sua falta de sentido e de uma explicação que nos conforte, criou as religiões. Desde daí, passamos a aceitar o sofrimento como algo inerente a vida e que a felicidade é uma utopia, ou feita de raros momentos, que “duram pouco” como diz a cultura popular. Já o sofrimento pode ser diário e é encarado como fazendo parte da vida.

Incrivelmente, muitas pessoas tem até vergonha de dizer que estão bem ou felizes. Parece que é um “peixe fora d’água”, e traz até constrangimento diante de tanta infelicidade e sofrimento por todos os lados.

Ninguém que está feliz precisa de uma religião, ou sente a necessidade de buscar algum deus, apesar de sempre dizer que seu estado positivo é “graças a Deus”. Pensando assim, a única coisa que podemos conseguir por nosso próprio esforço é estar mal, o bem vem de uma graça ou dádiva divina.

As religiões que conhecemos vivem dos nossos medos e angústias, principalmente no ocidente. Uma criança, que vive plenamente não precisa acreditar em deus ou em algum anjo da guarda de plantão e vê-las correndo e brincando nas igrejas nos deveria fazer pensar. Pedimos para que elas se calem, falem baixo ou se comportem diante da introspecção e melancolia que se respira dentro de um templo. Igrejas são feitas para ritos de pecados, culpas, dores e muita tristeza.

A tristeza precisa de um templo, a felicidade faz da vida como um todo seu templo. Você já viu alguém feliz entrar em uma igreja e ficar orando, pedindo um milagre ou intervenção divina?

Enquanto continuarmos ignorantes em relação a nós mesmos e nossas possibilidades, viveremos como crianças, pedindo proteção aqui e ali nesse grande supermercado que virou a fé hoje em dia. Aliás, a fé possível é a que cada um carrega em si, acreditando e confiando nas suas capacidades de realizar seus sonhos apesar das dificuldades. Pedimos o que já temos, afinal somos humanos e deveríamos ser mais conscientes de como somos, funcionamos e, portanto, entendendo de onde vem nossas limitações e dos potenciais criativos que dispomos, naturalmente.

Se pararmos para refletir, veremos que os momentos de felicidade que experimentamos, ou de uma gostosa gargalhada que relaxa todo corpo tem em si apenas uma coisa em comum: o não pensamento!

Pensar é angustiar-se com as perspectivas de um futuro sombrio ou de lembranças de um passado de sofrimento. Não conseguimos lembrar de bons momentos e trazer de volta a alegria, mas das tristezas que passamos, choramos novamente e a dor é como se estivesse acontecendo agora. Isso é a mente funcionando e a falta de autoconhecimento faz pensar que só somos nossa mente. Qualquer libertação parte do pressuposto da percepção que se está preso.

O homem é o único animal que pensa e isso deveria nos fazer o único ser desse planeta a ser plenamente feliz, pois temos a possibilidade de termos consciência do fenômeno da vida e de apreciá-la. Mas ficamos somente com a parte do pensamento que é automática, negativa. Ser automático não tem a ver com inteligência, mas o contrário.

 Estar consciente é um esforço que nos afasta do lado sombrio e pode nos fazer sentir a felicidade, que só é possível se dissociando ou se afastando da nossa parte animal, que busca apenas sobreviver. Nos preocupamos em saber de onde viemos, o que acontecerá depois da morte, se temos algum “carma” de vidas passadas a cumprir, se quando fomos concebidos nossos pais se amavam ou estavam brigando e algumas outras bobagens que nos mantêm em constante tensão.

Quem está consciente no “aqui e agora” não tem nenhum carma para pagar e sai dessa roda de inconsciência, onde um sofrimento leva a outro como a sombra segue o corpo. Não há futuro, afinal nada sabemos sobre o que virá, já que a vida é constante movimento e imprevisibilidade. Passado também não existe, já que mudamos e nunca realmente passamos pelo  que a pessoa que já fomos  fez.  Até nossa memória, já está comprovado pela ciência, é composta de coisas que imaginamos, muito mais do que realmente aconteceu. Só pode mesmo ser assim, afinal, como disse anteriormente, não fomos nós.

Portanto, me permitam a ousadia, quero dizer que não existe “carma”, já que não é a mesma pessoa que cometeu algum ato no passado. São conceitos que sustentam religiões, muitas que se acobertam com o nome de filosofia, que nos mantêm eternamente culpados e com medo da punição divina de algum deus que nem se sabe se existe. Isso sem falar que pode alguma entidade estar perseguindo-o por algo que, uma pessoa que você hipoteticamente foi e nem lembra, ter cometido algum ato bárbaro na idade média. Por favor!

Todas essas crenças são possibilidades e existem tantas que deveríamos, pelo menos, usando a razão, duvidar de todas. Enquanto isso deixamos a vida real se esvair enquanto “viajamos” o tempo todo nas nossas preocupações.

Temos um potencial de felicidade inesgotável, mas nosso subconsciente foi programado por pessoas que também foram vítimas dessas bobagens e não há tecnologia que nos salve desse desconforto existencial. Isso sem falar na cultura, que inclui o senso comum e as religiões que só faz nos sentirmos em dívida. Ouço pessoas que me perguntam se o mal que lhes está acometendo tem a ver com alguma punição divina ou cármica por eventuais erros do passado. Isso não existe! Se existisse, seríamos marionetes e o livre arbítrio não teria nenhuma razão.

As melhores crenças que conheço (e respeito todas), são aquelas que conseguem resistir a, pelo menos, cinco minutos de análise racional.

Quem está consciente de si e se compreende de forma ampla já pagou os seus “pecados”. O maior sofrimento é a inconsciência e estar vivendo sob condicionamentos e medos que foram passados por pessoas também inconscientes. Devemos avaliar se quem nos educou ou ensinou é alguém que atingiu um bom patamar de desenvolvimento. Se não foi, desconsidere e esqueça tudo!

Só podemos ensinar o que sabemos e vivenciamos. Quem leva uma vida de tristeza e sofrimento só pode ensinar isso, mais nada. Não posso ensinar raiz quadrada se nem somar direito sei. Isso vale para tudo. Fico pensando no valor de algum conselho sobre relacionamentos, por exemplo, de quem nunca teve um ou conviveu com alguém tempo suficiente para saber, pelo menos um pouco do que está falando.

Estar consciente é a única forma de atingirmos essa felicidade, afinal só assim temos escolha, que até pode ser de sentir-me mal. Na inconsciência só a infelicidade é possível, já que a mente nunca nos presenteará com algum bom pensamento e existem muitos textos nesse blog falando e explicando isso.

Muitas pessoas procuram a meditação, por exemplo. Isso só acontece por estarem infelizes e procurando um remédio não farmacológico para seu problema. Osho diz que meditação e medicina tem a mesma raiz e isso é muito interessante. A meditação é, de certa forma, um remédio que se busca para uma mente agitada que já está trazendo doenças para o corpo.

Não é necessário meditar quando estamos bem, pois estar bem requer consciência e é isso que a meditação busca trazer. Estar em paz com você e com a vida, com toda sua loucura, já o torna alguém meditativo, não precisa fazer mais nada, apenas viver e isso inclui tudo: trabalho, aprendizados novos e das experiências que tivemos e até pensar no futuro como uma possibilidade, afinal, quem sabe? Mas ficar tenso ou sofrendo quando nada realmente está acontecendo nos coloca abaixo de onde deveríamos estar na hierarquia desse planeta pouco importante e até mesmo no nosso discreto sistema solar.

Muitos comentam que não sabem o que querem fazer nas suas vidas, que nunca se encontraram. O motivo é simples: estão vivendo a vida e fazendo as escolhas que lhe mandaram fazer, nunca as suas. Fazer as próprias escolhas é ser desobediente às vezes, é fazer o que se quer, sendo o que se é. Se somos cópias, como descobriremos quem somos? E o pior; na maioria das vezes, cópia de pessoas infelizes.

Não existe nenhum paraíso ou inferno para ir, afinal a vida é aqui e não em algum outro lugar. Estamos querendo garantir uma próxima vida ou um lugar em algum paraíso e abrimos mão de viver o que temos hoje. Isso supera qualquer tipo de insanidade.

Pode ser que não haja outra vida. E se não houver ou for de outro jeito que ninguém descobriu ainda? Essas respostas nada mais são que crenças que visam trazer algum sentido o nos dar alguma perspectiva, mas isso ninguém pode afirmar.

Quem está apostando no futuro para viver melhor,  em outra encarnação ou viver em alguma nuvem tocando harpa está esperando, evolutivamente, que uma carroça colocada na frente de um cavalo vá sair do lugar.

Se for, é só para ir para trás.

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Para saber mais:

O Homem que amava as gaivotas – Osho ed. Versus

A história secreta da raça humana – Thompson, Richard L, Cremo Michael – ed. Aleph

O Futuro de uma Ilusão – Freud S. –  ed. L&PM pocket

Meditação

“Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela.”

                                                 Albert Einstein

“Existem atitudes do homem que o leva ao amadurecimento, uma delas é a meditação.”

                                           Tailini Girardi

                                                                                                                                                                                                                 MEDITAÇÃO

Tem sido cada vez mais comum nos últimos anos a procura pela meditação como uma solução para problemas como a ansiedade, depressão ou com o objetivo de buscar mais equilíbrio diante dos, cada vez maiores, desafios da vida moderna. O problema é uma grande expectativa (e toda a expectativa de hoje é a frustração certa de amanhã) de que, em poucos dias, uma grande mudança acontecerá. Como meditar é mudar e isso leva tempo, faz com que não haja a persistência necessária para que os resultados apareçam.

Falar em meditação é saber que existem muitas definições, técnicas variadas e toda ordem de misticismos envolvidos o que sempre pode atrapalhar.  Meditar é algo simples, mas alguns pontos precisam ser entendidos.

Para os leitores de “Céu e Inferno”, lembro que  meditar é buscar sair do inferno da mente e buscar o céu da consciência eterna e isenta de sofrimento. Lembre que o conceito de eternidade  é da ausência de tempo, ou seja, não há passado nem futuro, origem de todas as angústias e preocupações.

Então, para começar, o processo da meditação pede que durante a prática, renunciemos a tudo que for exterior, com o objetivo de criar a condição de interiorização, para isso, fechar os olhos é necessário. Vivemos e fomos criados pensando que somos aquilo que temos e queremos ter. Não é fácil se perceber sem “nada”, mas nunca esqueça que sofremos sempre pelo que dizemos que “temos” ou chamamos de “meu”, incluindo tudo que imaginamos que, quando tivermos, seremos mais felizes. A meditação, com o tempo, mostrará que você é um saudável “ninguém”, que na verdade não é dono de nada nem de outras pessoas. Com isso o fardo fica leve e a alegria ganha espaço!

Mostra a natureza nas suas leis simples e verdadeiras que não há progresso sem empenho e esse estado de se perceber livre, nem que seja pelos poucos minutos de prática, leva algum tempo e saber esperar é sabedoria. Queremos tudo para já, e para isso temos dinheiro, cheque, cartão de crédito, débito e imprimimos boletos. Mas estados evoluídos são conquistados e não comprados.

Como bem dizem os budistas, o objetivo da meditação é simplesmente o silêncio sublime, a tranquilidade e a clareza mental, mas como conseguir isso com a mente trazendo lembranças e preocupações sobre o futuro a todo o momento? A resposta é a renúncia a tudo que somos e temos, conforme descrevi acima.

Sidarta Gautama disse certa vez que: “Um meditador, cuja mente se incline para a renúncia, com facilidade alcança o Samadhi* (objetivo final da meditação)”. Mas isso não é você doar suas coisas, terminar seus relacionamentos e amizades e viver na pobreza. É apenas, durante os minutos de meditação se desvencilhar disso tudo, para voltar a sua origem de “ser”. Manter o domínio da mente evitando os pensamentos sobre família, trabalho, compromissos, responsabilidades e, principalmente, as previsões escabrosas sobre o futuro. Para aqueles que gostam de lembrar das situações ruins que já passaram, também evitar afundar na lembrança e sofrer de novo. Imagine, apenas imagine, que você é alguém desprovido de história como ensina Ajaan Brahmavamso.

Para isso, existem alguns recursos, cabe experimentar para descobrir com o que mais se adapta:

– Utilizar uma frase ou palavra (a isso chamamos “mantra”) e ficar conscientemente repetindo essa frase/palavra com o objetivo de manter a mente presa, sem que ela possa “fugir” para os assuntos que citei acima.

– Manter-se conscientemente focado na sua respiração, observando atentamente a entrada e saída do ar.

– Visualizar alguma situação ou imaginar-se em local agradável e evitar “sair” desse lugar.

– Visualizar alguma imagem fixa, que pode ser um símbolo de seu agrado ou qualquer outro (a isso chamamos de Yantra), mantendo a atenção fixa nessa imagem.

Existem infinidades de outras técnicas, e nada impede que você crie a sua, lembrando que o importante é manter a mente “presa” em algo. Obviamente que isso não será conseguido com facilidade, mas a persistência traz o resultado. Cada vez que se perceber divagando entre passado e futuro, simplesmente retorne sem brigar consigo mesmo e retome o processo. Milhares de vezes isso acontecerá. Como você já foi avisado, não dê importância, é assim mesmo.

Procure manter sempre a coluna ereta e para isso pode usar uma cadeira onde apoiar as costas. Ficar sentado em posição de lótus é uma imagem clássica de meditação mas está longe de ser obrigatória. Caso Sidarta e outros que atingiram o máximo onde um ser humano pode chegar morassem em um lugar frio, garanto que sentado no chão não daria certo. Muitos procuram copiar a posição e outras coisas achando que isso os levará ao mesmo lugar. Bobagem!

Quem chegou “lá”, foi com anos de prática e de colocar sua vida dentro de uma perspectiva menos sofrida e isso só aprendendo a estar fora da mente para conseguir.

Manter a coluna ereta ajuda com alguma tensão a ficar atento. Perceber que a cabeça inclinou para baixo ou que as costas curvaram é um sinal de que precisa retomar a atenção na meditação.

O fato de um determinado dia a meditação ser gratificante, de experienciar uma calma profunda e paz interior, não quer dizer absolutamente que isso é algo conquistado e que sempre será assim. No dia seguinte pode ser tudo difícil e frustrante, e isso faz parte. Não existem garantias, é a prática pela prática, sem expectativas. Faça porque é bom, reconhecidamente traz resultados, mas não espere nada.

Esse é o ponto, não é um negócio ou uma troca. Não existe ninguém nesse ou de outro mundo para recompensá-lo. Portanto, não é alguma negociação, como muitos fazem com as religiões esperando que nada vá acontecer com eles nem com os seus entes queridos por fazer parte dessa ou daquela crença e, quando acontece algo ruim, trocam de papa, ministro ou pastor.

Esse desapego dos resultados é decisivo, mas a mente é essencialmente dúvida e  medo, logo ela nunca vai ajudá-lo. Aliás, vencê-la é a meta. A mente nunca vai parar, o que acontecerá é descobrir que esses pensamentos não são seus, enquanto consciência, mas das necessidades do corpo e do medo do sofrimento e da morte.

Com o tempo, poderá acontecer de perceber-se cada vez mais fora dos processos da mente, se tornando um “observador” dos conteúdos que ela traz. Obviamente, quem observa só pode fazê-lo por estar do lado de fora e estar assim é não sofrer.

A meditação também pode ser ativa, ou seja, fazendo algo. Pode ser correndo, nadando ou até mesmo fazendo alguma atividade criativa. Como saber que esteve meditando? A resposta é: se perdeu a noção do tempo e não ter pensado em mais nada além da atividade em si. Esse é o tipo de meditação que as pessoas mais fazem, sem saber que estavam em meditação e é tão válida quando a outra, com uma diferença importante: a atividade evitou as distrações da mente enquanto a passiva ou sentada é uma busca de dominá-la e entende-la.

Depois da sua prática, volte a fazer suas coisas e pensar no futuro é uma delas, mas vá procurando evitar viver nele. Uma das possibilidades é que irá acontecer o que imaginamos, mas pode ser tudo diferente e quase sempre é. Perguntado sobre isso certa vez Sidarta respondeu: “O que quer que vocês pensem que assim vai ser, sempre será algo distinto. O sábio compreende que o futuro é incerto, desconhecido e portanto imprevisível”.  Deixe sempre aberta a possibilidade de que o melhor aconteça, porque para a mente serão apenas tragédias e sofrimentos.

Inicie com dez a quinze minutos, no máximo, por dia por uns seis meses. Aumente o tempo quando se sentir confortável, e não fique anunciando ou divulgando o quanto você medita. Já vi até “selfie” de pessoas meditando. Isso é puro ego e infantilidade. Pessoas assim podem dizer que ficam horas em meditação, mas provavelmente ainda não saíram do lugar. A auto compreensão vai pela via contrária da exposição.

Quanto mais você for se aprofundando, imagino que as fotos, palavras, angústia e medos irão diminuindo em troca de clareza e mais silêncio interior.

Por isso, meditar é perder o desnecessário e ganhar o imprescindível.

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*Samadhi – é a unidade com o Espírito, é o estado mais elevado que se alcança pela meditação prolongada e profunda. Consiste em dissolver a bolha do ego no oceano do espírito. É o estado onde não existe distinção entre o “eu” e o “objeto”, experimenta-se a unicidade com o Todo.

Para saber mais: O método básico de meditação. Ajaan Brahmavamso – ed. Orbi

Uma possibilidade chamada Deus

“Eu ansiei  profundamente e busquei durante longo tempo por Deus, mas não pude encontra-Lo. Então, certo dia, abandonei aquele anseio, aquele desejo, aquela busca, e desde tal momento Ele vem me seguindo. Ele está sempre comigo. Na verdade, Ele esteve sempre comigo, mas eu estava tão ocupado pela busca que jamais O via.”

Kabir

                                                                                                                                                   interrogação

Deus é algo que só existe na mente das pessoas, por isso é  que precisa ser alcançado, ou para quem nos dirigimos nas preces, sendo, portando uma “outra” entidade, ou um Tu.

É atribuída a Jesus uma fala onde ele teria dito que o caminho (ponte) é direto e estreito e que só uma pessoa passa. Interpreto essa passagem como que não há espaço para o “eu” e o “tu”. Só quando  se fundem, Deus poderá ser encontrado. Assim, o ego, representado pela mente, é o que impede a clara percepção. Fora disso é a escuridão  que Sidarta falou ter se libertado quando atingiu a iluminação.

Assim, Sidarta negou a existência de Deus, e ele está correto, já que Ele não é possível enquanto existir esse “eu” que separa de tudo, praticamente colocando-se fora do mundo e desconectado, mergulhado em seus pensamentos.

Outros como Pantâjali*, diziam ser Deus apenas uma hipótese, que não traz nenhuma verdade em si, mas pode ser usada como um caminho na meditação, como uma espécie de mapa que leve a algum lugar onde esse ego seja suplantado e o sofrimento termine. Esse pensamento não é necessariamente uma afirmação da inexistência de Deus, mas apenas uma forma de dizer que poderemos usar Deus como uma desculpa para conseguirmos suplantar o diversionismo da mente e encontrá-Lo atrás dela.

Na verdade, essa liberdade de viver sem medo é o que os budistas chamam de Nirvana, mas que também é traduzido por “esquecimento”. Mas que esquecimento? Poderíamos dizer que é esquecer do meu Eu?  Atrás da mente está a eternidade propagada por muitas religiões, mas que, estranhamente, mantém as pessoas aprisionadas em seus mandamentos e punições, trazendo a culpa e o medo que, em essência, é a verdadeira definição de mente.

Trata-se de uma espécie de estelionato espiritual, já que diz que existe, cobra a passagem, mas nunca leva ao lugar prometido. E isso se explica pelo fato de que todos que lá chegaram atingiram a verdadeira religiosidade.  Esse nível de compreensão e liberdade, obviamente dispensa a necessidade de uma religião que lhe diga como deve agir, pensar e o que deve fazer. Essa é, na verdade, a conduta que temos com as crianças que não sabem o que fazem e precisam ser guiadas.

Kabir, o místico sufi que abre esse texto, parou de procurar e encontrou. Pode parecer um paradoxo, mas é assim que as coisas funcionam e isso vale também para Deus. Quem já não ouviu alguma história de uma mulher que de tanto querer engravidar nunca conseguia. Ao desistir da ideia, seja por resolver adotar ou outro motivo, quando já não mais se preocupava com isso terminou engravidando.

Esse “querer”, seja o que for, traz embutido em si o medo de não conseguir e todo o processo é paralisado. Aliás, sobre isso Deepack Chopra** conta que um Mestre disse a seu discípulo:

“Se você passar cada momento transformando todo o pensamento e ação em bem, continuaria exatamente tão distante da iluminação quanto alguém que usou cada momento para o mal”.

Por mais estranho que pareça isso é muito lógico. Sempre que estou me esforçando para fazer o bem, demonstro que  mal está presente e esse vai e vem estre os opostos mantém um nível de tensão que inviabiliza esse estado de paz. Existe uma tendência de igualarmos bondade e Deus, mas o bem é cármico como diz Chopra. Isso quer dizer que o bem é resultado de ações e não é nada que seja a priori ou apareça do nada. Assim, o” bem” é resultado de evolução e não algo que nos seja natural. Da mesma forma a ação errada também gera seus resultados.

Bem e mal fazem parte de uma mesma dança como disse no post   “a importância do mal”. Assim sempre que desejo o “bem”  isso me levará ao mal e vice versa. Para ilustrar vou usar aqui o mesmo exemplo de Chopra:

… desejar A ou B sempre levará a seu oposto. Se eu nasci rico, posso ficar maravilhado no começo; posso satisfazer qualquer desejo, atender a qualquer capricho. Mas no fim o tédio se instala; ficarei desassossegado e, em muitos casos, a minha vida ficará sobrecarregada.”

Isso nem é tão difícil de perceber, afinal quem já não ouviu ou disse que “daria tudo” para… Esse “tudo” é algo que se imaginava antes de se ter que resolveria todos os problemas. Mas por ser um extremo, traz o outro em si, assim como a mais profunda escuridão na noite antecipa o dia que ira raiar, em questão de tempo. Como dizem os budistas, minha mente sempre desejará o oposto que tenho. Entender isso pode até ser como achar o endereço de Deus.

Portanto, se Deus existe, é uma possibilidade, ou algo que precisamos para não nos sentirmos abandonados no mundo. Na verdade,  pouco importa. O que é possível de tornar verdade é ampliarmos nossa compreensão para sairmos dessa situação mental de angústia, sempre atrás de alguma coisa, inclusive de Deus.

Como diz no Gênesis, tudo, no princípio era escuridão, logo Deus já existia, então era lá que ele morava.

Imagino que Deus esteja escondido em um lugar escuro, dentro de nós esperando que possamos iluminá-lo com alguma compreensão e, principalmente, atitude de quem busca ultrapassar os limites do ego.

Muitos para isso buscam renunciar a tudo e isso já traz o outro extemo que é o apego. Só posso querer renunciar a algo que para mim é valioso e isso já mostra como, seja o que for, é importante.

Na verdade, a sugestão é abandonar. A própria palavra já soa mais leve e não traz a separação que está implícita na renúncia. Você pode ter as coisas que abandona sempre perto, foi sua relação com elas que mudou. Na renúncia isso não é possível. Não é um jogo de palavras, experimente e constate por si mesmo.

Noto quando em prática de relaxamento como as pessoas se sentem bem, em paz e isso dura dias. A resposta para isso é que relaxar é, em primeiro lugar manter a mente focada na prática, impedindo suas viagens sofridas, mas principalmente, porque a pessoa se abandona, se entrega totalmente e o bem estar físico e mental é uma consequência natural.

Essa sensação de leveza, paz e serenidade nada mais é que Deus. Quando se está assim, não se pensa em problemas, dificuldades, futuras doenças e outras bobagens. Simplesmente se “está”. Alguns até relatam que nos primeiros segundos enquanto retomam a mente, chegam até a esquecer de quem são, enquanto “eu” ou ego.

Depois da primeira experiência, todos querem novamente  esse estado. O que já pode gerar uma tensão que atrapalha a próxima tentativa e o relaxamento pode ter resultado inferior. Já está de novo o problema; o medo (mente, ansiedade, sofrimento) de não conseguir atingir o resultado esperado.

Kabir, Sidarta e outros chegaram lá, sem a ajuda de Deus. Eles não estavam procurando por Ele, e só por isso conseguiram compreender tudo tão profundamente. Foi assim que Deus passou a ser um detalhe.

E é mesmo!

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*Pantâjali ou Pátañjali – Se dá o nome de Pátañjali ao mítico codificador do Yoga Clássico, autor do Yoga Sútra. Tudo sobre esta figura histórica é um verdadeiro mistério. Para começar, a data em que ele teria vivido é fonte de discrepâncias. Há autores que afirmam que viveu no século IV a.C. e outros que pensam que tenha vivido entre os séculos II e VI d.C.

Disponível em: http://www.yoga.pro.br/artigos/334/3022/quem-foi-patanjali

**Como conhecer Deus – Deepack Chopra  ed.Rocco

Quando o NADA é TUDO

     “A desgraça do ser humano é nunca estar em casa”

Pascal

“Quando a mente cessa, Deus começa”

Yogananda

vazio

Nossa cultura, baseada na produção, materialismo e racionalismo é toda alicerçada em ter no material a identidade que faz uma pessoa ser ou não respeitada, ter ou não poder. Assim, desde os primeiros anos de escola, somos ensinados para “sermos” alguma coisa um dia. Mesmo nossos pais, que foram educados por pessoas que também sofriam desse mal, nos perguntam: o que você vai ser quando crescer?

Quanto mais crescemos, aprendemos a mesma teoria mentirosa de que o mundo é escasso e que devemos estar aptos a disputar nosso espaço e, para termos essa tal riqueza que nos trará admiração dos demais, precisaremos ser competitivos, fortes e hábeis para chegarmos à frente dos concorrentes (que aos domingos em Igrejas e Templos são chamados de irmãos). Até hoje as escolas se preocupavam em preparar seus alunos para o vestibular (competição) e nunca se preocuparam em seus currículos em fazer dessa criança alguém que se conheça, que domine algum tipo de arte (que sempre é um dos remédios para a angústia, por acalmar e superar a mente) e assim possa compreender a existência, encontrando sua paz sem depender de nada que tenha alguma marca.

Precisamos, incansavelmente, “ser” alguém na vida e estarmos sempre em atividade “fazendo” alguma coisa, ou seja, produzindo. Assim, essa cultura criou a ansiedade que é o medo de chegarmos ao final da vida sem termos “sido” ou “feito” algo importante que nos traga a riqueza material e o respeito dos demais, que ficaram para trás na corrida e na luta pela sobrevivência. Por fim, apenas “sobrevivemos” baseados no fazer e no ser. Mas o que é esse “ser”? Refiro-me às identidades e personagens que criamos para nos adaptarmos ao meio e conseguirmos sobreviver e sermos aceitos pelos demais. Isso é sobrevivência, até mesmo uma simples bactéria ou inseto também sobrevive sem tanto sofrimento. Evidente que sobreviver é importante, mas isso nos traz alguma realização interior? Se assim fosse, o mundo seria o que é hoje?

Mas o que está por trás e na essência de quem “faz” e “é” alguém?

Um vazio!

Na simbologia numérica o algarismo “zero” tem um profundo significado. Nada começa pelo “um”, afinal para que ele possa existir, precisará não ter tido existência anterior, onde só havia o “zero” que representa o vazio. Não é à toa, que os antigos herméticos simbolizavam Deus por um “zero”, ou vazio.

É justamente nesse vazio que tudo se origina, é o terreno fértil da criação e nossa cultura nos exilou de nossa verdadeira natureza vazia, por onde surgiu nosso “eu” ou Ego, que é representado pela nossa metade que “é” e “faz” alguma coisa. Ficamos mancos existencialmente como se só houvesse o Ego. O resultado disso é a ignorância existencial e o medo. Esse Ego, que nasceu do vazio, um dia morrerá, justamente por ter nascido, mas o vazio é o eterno que sempre fomos e esquecemos quando aprendemos com outros esquecidos que só existe um Eu, material (corpo) que vive em um mundo de aparência material, sendo transitório e efêmero tanto quanto nossa beleza ou feiúra.

Para recuperarmos nossa outra perna e termos o equilíbrio precisaremos dessa reconexão com nossa natureza que é destituída de Ego. Ninguém nos ensina a tirarmos, pelo menos, algum tempo por dia para nos despirmos de nosso Ego e não sermos “ninguém” e não fazermos “nada”.

É fundamental dedicarmos um tempo para nos voltarmos para dentro, sair do “um” e voltarmos ao “zero” que o originou. Não ser ninguém, não ter nome, profissão, família, amigos, religião, time de futebol, partido político, etc. Simplesmente não ser e não saber nada! Tornar-se um santo ignorante, que por nada saber não sofre, não deseja e não tem medo ou angústia, características do que passa, não sendo portanto verdadeiro. Apenas “não ser” sem passado e sem futuro que são puras alucinações, coisas que a eternidade desconhece, justamente por viver sempre no presente.

É um exercício simples, feche seus olhos por dez ou quinze minutos por dia, respire natural e calmamente e abra as brechas que Yogananda nos sugere para que o “milagre” de realmente Ser aconteça.

Nesse final de semana, tive a oportunidade de participar de um seminário em Florianópolis, onde Roberto Crema fez um interessante raciocínio. Disse que a palavra “aposentar” significa voltar aos aposentos e que as pessoas tem dificuldade de se aposentar porque não podem voltar a algum lugar onde nunca estiveram. Na hora fiz essa analogia com nossa natureza vazia e a frase de Pascal também se tornou obrigatória para abrir esse artigo.

Nosso medo de morrer, que em muitas tradições é chamado de “volta para casa”, só causa tanto medo e tanto desespero quando pensamos que vamos morrer ou quando alguém querido morre, justamente por não conhecermos essa “casa”, de onde saímos para essa aventura existencial habitando um corpo transitório. Falta-nos, durante essa passagem, nos re-conectarmos com nossa “casa” e lembrarmo-nos de nossa eternidade. Sem isso, continuaremos presos e receosos de tudo, buscando certezas e seguranças que só existem no que não mais evolui, no que está morto!

Alguém que por seu mérito se “recorda”, perde o medo e torna-se livre! Livre para fazer da vida o que ela realmente é: uma aventura, com ganhos, perdas, risos e lágrimas em constante mudança e contradição.

Tire um tempo para você, feche seus olhos e por alguns poucos minutos se livre dos seus personagens, títulos, planos e mesmo do seu nome. Simplesmente não seja, não faça e se preencha do vazio! Procure o silêncio interior (com o tempo você conseguirá), deixando sua mente (ego) se debater por não ter sua atenção e ela irá se cansando e abrindo espaços entre seus pensamentos.

O poeta Fernando Pessoa disse que Deus era um intervalo, um vazio que está escondido atrás da mente que, evolutivamente, nos cabe afastar. Agora espero que você tenha entendido a metáfora da expulsão do paraíso e porque fomos punidos a ganhar nosso “pão” com o suor do nosso rosto, fazendo e fazendo. Estamos pagando o preço de termos esquecidos de nós mesmos.

Nosso mundo exige o ser e o fazer e não há nada de errado nisso, desde que também  possamos não ser e não fazer, encontrando a síntese entre as necessidades do corpo e de quem nele habita.

Depois de algum tempo, essa prática desse retorno às origens, um amigo poderá encontrá-lo e percebe-lo mais sereno, tranquilo e perguntar o que você tem feito para estar assim. Seja sincero e simplesmente responda: Nada!

Agora, se não houver no seu dia alguns minutos para isso, porque você tem muitas coisas para fazer, lamento informar que passarás pela vida apenas sobrevivendo, mesmo que rico materialmente ou não, e nisso não há nenhum mérito e nem precisa ser humano para essa façanha tão pequena.

O Segredo da Flor de Ouro – Um livro de vida chinês

Eventualmente estarei presente em um vídeo para apresentar um livro, tema ou filme no intervalo entre um artigo e outro. Aqui recomento esse livro muito interessante que engloba temas como psicologia e meditação chinesa. O interessante dessa obra é termos Carl Jung e Richard Wilhelm juntos em um texto muito rico.

O livro está disponível para aqueles que quiserem enriquecer sua biblioteca nos sites das grandes livrarias.

Os vídeos tem a intenção de trazer mais agilidade ao blog e poder estreitar o contato com os assinantes e seguidores que se espalham pelos vários estados e por brasileiros que moram no exterior.

 

Imagem de Amostra do You Tube