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A anatomia da CULPA

O que é mais terrível na culpa é que ela atribui ao medo, o maior mal que existe, um enorme direito.

Hugo Hofmannsthal

                                                                                                                                                               

Falar sobre a culpa é falar sobre um dos sentimentos mais dolorosos, algumas vezes eternos, que trazem dor e sofrimento ao ser humano. Apesar de, como uma metástase, espalhar-se por todos os âmbitos da vida, sua origem é simples e precisa ser entendida para que possamos colocá-la no lugar adequado.

A culpa, essencialmente, faz parte do nosso processo de defesa e sobrevivência. Sua natureza está ligada ao passado (não existe culpa quando se pensa no futuro, mas de sentirmos culpa hoje, ao estarmos escolhendo um caminho que pode dar errado, sim!) e sua finalidade é não cometermos atitudes que venham a nos trazer risco à manutenção de nossa vida. O grande problema é que o processo da culpa, assim como o do medo (que falaremos oportunamente) não tem uma análise qualitativa, ou seja, trata tudo de forma igual. Não importa se me sinto culpado por ter causado, ou quase, algum grave acidente ou não ter aceito um convite de emprego; o processo é o mesmo!

Freud, em sua topografia da mente, chamou de Super ego esse “juiz interior” que nos acusa de estarmos fazendo alguma coisa fora da norma e nos punindo com várias formas de sofrimento, por estarmos ou termos agido de forma “errada”. Quando muitas vezes, estamos discutindo interiormente se determinadas atitudes que queremos tomar, ou analisando algo que já fizemos se está, ou foi certo ou errado, se é justo ou injusto, etc, estamos negociando com nosso “juiz” sobre nossa culpa.

Mas afinal, quando sentimos culpa? Normalmente em duas situações:

Quando analisamos alguma atitude no passado que entendemos errada, tendo, portanto, nos trazido prejuízo ou arrependimento de alguma forma. Ora, me permito dizer que, apesar de entender que isso acontece, já que a culpa faz parte dos nossos instintos, punir-se por atos do passado é um grande absurdo! Esse absurdo reside em apenas uma única verdade: não sou mais a pessoa que cometeu aquele ato. Mesmo que, naquela época, eu tivesse a noção de que não era correto o que foi feito, por algum motivo realmente importante a atitude foi tomada.

Como penso que todos concordam que estamos em constante evolução, não posso me culpar por não ser no passado como sou hoje! Esse raciocínio seria involutivo. É claro que podemos alegar que conhecemos pessoas que, com o tempo, estão piores do que estavam há tempos atrás, mas isso é tirar uma conclusão pessoal e projetiva sobre o processo de crescimento. Sabemos que esse processo não se dá em linha reta para todos, que cada um tem seu caminho, portanto, podemos, com certeza, analisar um eventual retrocesso (isso sempre é uma opinião, um conceito) como uma etapa evolutiva. Assim, como costumo sempre dizer, é me culpar por ter tomado uma atitude qualquer no passado quando só sabia somar e diminuir, vendo com os olhos de hoje, quando a multiplicação, divisão, potenciação etc, já fazem parte do meu “saber”. É óbvio que faríamos hoje de outro jeito, mas só pensamos assim porque nos distanciamos do que já fomos, vivemos e aprendemos mais. O que nos pode ser útil é buscarmos as razões de nossa ação, independente de ter sido há  muito tempo, meses atrás ou ontem. O que vale a pena é buscar esse “porque” naquele momento a minha ação foi a melhor que pude executar.  Para isso, portanto, a culpa é muito útil, já que ajuda no auto conhecimento. Assim, culpar-se por ações passadas é na grande maioria das vezes sem fundamento e utilidade, já que estamos tratando de “pessoas diferentes”. O passado é caminho, aprendizado e inexistente (assim como o futuro), a não ser na minha memória. Dessa forma estou punindo com a culpa um inocente: quem sou hoje!

A segunda forma de me sentir culpado é quando ofendo um princípio que está arraigado em meu subconsciente. Desde que nascemos e enquanto estamos vivos, mas principalmente na primeira infância, recebemos uma série de conceitos que advém da família, religião, sociedade, etc. Esses conceitos, que viram decretos lei dentro de nós, chamamos de paradigmas. Não discutimos, apenas cumprimos, já que como disse anteriormente, temos um juiz de plantão que nunca dorme nem tira férias, pronto a nos julgar e sentenciar. Isso é muito interessante já que, na maioria das vezes, nós mesmos nos damos a sentença e iniciamos a pena.

Por exemplo, não estamos satisfeitos no trabalho que executamos, mas nosso paradigma tem seus decretos: “a vida não é fácil”, “Não se troca o certo pelo duvidoso”, “Apesar de não estar bom, seu salário está garantido” e outros tantos. Mas como o processo evolutivo é inevitável, e quero mudar de emprego, demoro muitos meses ou fico me sabotando inconscientemente até que sofra o suficiente para pagar pelo ato de desafiar o paradigma e só depois me permito mudar. É a famosa desculpa:  “sofri o que pude, chega, não aguento mais!”  Esse tempo todo de sofrimento para fazer o que já sabemos que deveríamos ter feito chama-se culpa, e toda a culpa precisa de punição. Há quem diga que a culpa é um belo tempero que sempre poderemos adicionar para tornar tudo pior, mais doloroso, principalmente a auto punição.

Porém, lembre que esses conceitos de certo e errado são relativos, mudam com o tempo e com a cultura vigente. Ao ler qualquer livro de história, nota-se que os seres humanos que fizeram a diferença e que idolatramos através dos séculos, tem um aspecto em comum: desafiaram os paradigmas em busca do que acreditavam! Independente se o status quo concordava ou não. Muitos foram julgados, condenados etc., mas são exemplos que admiramos, pela sua sabedoria e, principalmente, coragem.

Portanto, muitas vezes a culpa está apenas cumprindo sua função e é importante que tenhamos a capacidade de usá-la a nosso favor. Pessoas que não sentem culpa de absolutamente nada, muitas vezes causam danos a si e aos outros. Precisamos, como em tudo, usar a culpa na medida certa, onde ela pode ser importante, mas o excesso ou a falta é sempre um erro. Evite que ela seja um obstáculo a seu crescimento pelo julgamento do “juiz” interior, e que passos em busca de realização e felicidade sejam adiados. A questão é: Você está feliz?

Atribui-se a Cristo a seguinte frase: “Seja quente, ou seja frio, o morno eu vomito!”

A culpa pode até eventualmente ajudá-lo a buscar esse “Ser” como ferramenta de auto conhecimento, mas não mais do que isso.

Cuidado como você lida com a culpa… Ela é morna!

Cuidado com você mesmo!!

Há uma vitória e uma derrota – a maior e a melhor das vitórias, a mais baixa e pior das derrotas -, que cada homem conquista ou sofre não pelas mãos dos outros, mas pelas próprias mãos.

Platão, Protágoras

Há quem diga, e eu concordo, que nunca cuidamos suficientemente de nosso pior inimigo; nós mesmos. Freud dizia que sofremos de uma compulsão à repetição de comportamentos e que isso era como um instinto. Apesar de ser uma teoria que se sujeita a inúmeros questionamentos, minha experiência profissional mostra que ela é verdadeira. Temos consciência muitas vezes de que determinada ação, relacionamento, conduta, etc. não é mais, ou nunca foi boa para nós, mas não conseguimos nos libertar! Se isso não acontece com você (me permito dizer que de um jeito ou de outro, todos temos isso) certamente conhece alguém para quem já disse não entender o porquê dessa pessoa se manter em determinado sofrimento.

Isso acontece baseado em um pressuposto de que esse(s) comportamento(s) é motivado por fatores dinâmicos que escapam ao controle de nossa consciência, ou seja, não sabemos realmente porque o fazemos. Sempre encontramos desculpas e racionalizações para nos sentirmos no controle de nós mesmos, daí encontrarmos explicações mirabolantes para nossas condutas sofredoras que teimamos em manter.

Quando a pessoa toma consciência e realmente quer mudar, começa a entrar em um conflito, já que ela está tentando mudar o comportamento em si que a faz sofrer, mas não percebe que esse comportamento é causado por uma maneira de ver e vivenciar sua experiência, sendo, portanto, uma conseqüência (sintoma). Essa é a razão de muitas vezes ouvirmos a frase: “já tentei, mas não adianta”. Enquanto a causa profunda não for enfrentada, não será possível a mudança. É a mesma coisa que tomar um remédio para dor de cabeça, quando a causa está na coluna, por exemplo. A dor poderá passar, mas por pouco tempo, já que a real (gerador do sintoma) causa não foi tratada.

E como cada pessoa é realmente única, não existe uma fórmula pronta para essa mudança. Como diz Stanley Rosner* no livro que trata da auto sabotagem, o terapeuta e o cliente entram juntos em uma selva desconhecida. A vantagem que tem o terapeuta é já ter conhecido outras selvas, o que ajuda a antever os obstáculos e dificuldades da aventura.

Todo o problema consiste em que recebemos por educação na primeira infância (até os sete anos em média) uma maneira de entender e interpretar a vida que recebemos das pessoas ou da cultura vigente que tem vários nomes: programa de vida, identificação arcaica, script, etc.

Dessa forma, mesmo querendo superficialmente promover alguma mudança, fico preso a essa interpretação que recebi, me fazendo não ter muito espaço para a mudança, a inovação e nem mesmo imaginar outro jeito. E não há nada de errado, afinal a criança precisa aprender uma maneira de sobreviver e busca isso nos pais, que são seus líderes e heróis. Com o tempo, vamos crescendo e vendo que tem outras maneiras de viver, que até achamos melhor, mas a tendência é termos medo ou nos sentirmos culpados por mudar o que nossos pais achavam correto. Freud disse certa vez que temos uma dificuldade de superar nossos pais, sermos melhores, porque inconscientemente temos medo de perder o amor deles. Apesar de não poder dizer que isso é comum, já presenciei muitas pessoas se sabotando para poder manter seu ídolo acima dela.

Daí justamente começa o conflito. Quero mudar, preciso mudar esse modelo herdado que não me satisfaz, mas sinto uma tensão e um medo de afetar meu relacionamento com a família de origem, formas de viver que adotei baseado nos conceitos de certo e errado que recebi. Quantas vezes já vi o próprio pai ou mãe trazer a criança/adolescente para terapia, na esperança de “ajustá-la” ao que eles (pais) entendem que seja o certo para o adolescente, ou seja, que o jovem se conforme com o que é o “certo” dentro do conceito dos pais.

A questão crucial disso é que esse querer mudar, muitas vezes, é impedido pela própria pessoa, por motivos inconscientes. Veja e medite sobre a figura que está ilustrando esse artigo. Enquanto a luta pela mudança for somente contra o que parece ser (a parte visível do iceberg), nunca será vencida, já que não estamos tendo e verdadeira percepção do que somos de forma completa.

O místico indiano Rajneesh comenta sobre isso dizendo que a infância de todo mundo foi errada de certa forma. Sua analogia é interessante: se o mundo não é como deveria (poderia) ser, é porque as pessoas não são como deveriam (poderiam) ser. Nossos pais foram condicionados pelos seus pais e assim por diante. Assim, diz ele, pessoas mortas estão controlando as vivas. Pessoas que já morreram estão controlando através dos pais que elas condicionaram.

Ele tem toda a razão!!

Se você não perceber e não fizer a sua mudança, estará condenando também seus filhos aos mesmos paradigmas. Se olhar por esse ângulo, vale a pena pensar que sua libertação transcende a você mesmo.

Vá mais fundo na sua auto análise, não tenha medo de enfrentar os fantasmas, esse combate só trará o crescimento e a verdadeira idade adulta. Enquanto isso, ficamos paralisados; o anjinho (o que você realmente quer) e o demônio (o seu programa de vida, juiz interior) ficarão discutindo e o tempo vai passando…..

 

 

*Para aprofundar: O ciclo da auto-sabotagem. Stanley Rosner e Patrícia Hermes. Editora Best Seller

 

Porque DECIDIR é tão difícil

O pior naufrágio é não partir…

Lema dos navegadores espanhóis da idade média

 

 

Tomamos decisões a cada momento, mesmo que nem percebamos que estamos fazendo isso. Nossas ações rotineiras nos tiram essa consciência, mas cada caminho, ligação telefônica, olhar para um lado ou outro, enfim, a cada ato nossa vida pode tomar rumos inimagináveis.

Porém existem ocasiões em que temos uma maior consciência de que estamos optando por um caminho, e até ocasiões da vida que são marcadas por escolhas. Nessas horas, a maioria de nós hesita muito antes de tomar uma decisão. Mas, afinal, porque essas decisões são tão difíceis e, às vezes, demoramos tanto para fazer a opção?

Penso que nossa grande intenção é ter a certeza de que estamos optando pelo caminho correto. Buscamos ter certeza de que não nos arrependeremos no futuro da escolha feita. Mas isso é realmente possível?

Claro que não! E essa impossibilidade leva em consideração dois aspectos absolutamente imaginários e irreais: o passado e o futuro.

O passado, através de minhas vivências anteriores, tem contra si o fato de que não sou mais aquela pessoa que teve as experiências em questão. Ocorreram em etapas anteriores de minha caminhada evolutiva, quando tomei decisões com os recursos que dispunha naquele momento, o que, com o tempo muda, já que aprendi com as experiências vividas.

O futuro muito menos, já que tento antever uma série de eventos e conexões futuras que dêem base a minha opção. É quase como acertar em uma loteria, já que espero ter controle sobre uma grande quantidade de eventos, muitas vezes envolvendo pessoas, situações, etc. Tudo isso precisa dar certo para que minha decisão seja coroada de êxito.

Qual então a saída? Já que não podemos levar em conta o que não mais existe (passado) e o que não sei se acontecerá (futuro) a única maneira é usar apenas o presente, quem sou hoje, o que quero hoje, o que gosto e prefiro hoje. Só que para isso, existe um ingrediente fundamental: o auto conhecimento. Se ainda nem sei quem sou, como posso fazer uma escolha coerente? Esse, em minha opinião, é o principal motivo que leva as pessoas a “empacarem” diante de algumas escolhas. Conversam muito, ouvem tantas opiniões que aumentam a dúvida ainda mais.

Qualquer decisão é melhor que a indecisão! Depois de iniciada a caminhada, não há nenhum problema em corrigir rumos, mas decidir é muito importante, com consciência do meu presente, o único aspecto realmente existente e confiável.

Além é claro de que a escolha, nos compromete com seu êxito, já que rumamos em direção ao objetivo. Decida e não olhe para trás, afinal, como dizem, caminhar olhando para trás nos impede de vermos os obstáculos que estão à frente, na sua maioria, fáceis de vencer. De mais a mais, quando não estou convicto, qualquer mínimo entrave já é visto como “sinal” de que escolhi errado.

Assuma a responsabilidade de suas escolhas! Só assim vem a confiança e o prêmio de nos sentirmos dono de nossa vida.