Agenda

A Criatividade

 

“Criar é matar a morte.”

 Romain Rolland

Estive pensando que a criatividade, por ter sua raiz na palavra “criador” não pode ser algo desse mundo, de dualidade onde impera o ego, o criado. Assim, depois de algumas leituras de relatos sobre como algumas obras foram criadas, cheguei à conclusão de que, para termos uma percepção, insight ou ideia criativa, precisamos nos desconectar desse mundo.

Vou relatar alguns exemplos e depois continuamos nossa reflexão sobre esse assunto, mas procure perceber a semelhança nos relatos. Vou citar apenas cinco, poderiam ser muito mais, mas qualquer pesquisa mais a fundo e até mesmo suas experiências pessoais poderão fazer o caro leitor (a)  abraçar essa teoria.

Começamos por Paul McCartney, músico inglês, que em uma bela manhã do ano de 1964 acordou inspirado por um sonho e compôs a música “Yesterday”. Esse sucesso ficou na história e agora você já sabe que essa música tocou primeiro no sonho que ele teve naquela noite.

Passando para o mundo da ciência, temos o caso de Dmitri Mendeleev (1834-1907), químico Russo que realizava estudos sobre os elementos químicos e suas propriedades. Uma noite do ano de 1869 inspirou a organização da Tabela Periódica, o cientista sonhou com um diagrama em que todos os componentes se encaixavam, e criou assim a Tabela Periódica moderna. Graças a Mendeleev os elementos foram organizados em períodos e famílias para facilitar seus estudos.

No mundo das artes, podemos citar o pintor Salvador Dali (1904-1989), que teve todas as suas obras inspiradas em sonhos. Para Dali nos sonhos estamos livres de toda e qualquer amarra e essa liberdade o inspirava e o resultado são suas fantásticas obras que, para mim, não são mesmo desse mundo.

Já, em época remota Arquimedes (287 A.C a 212 A.C), a história conta sobre como ele inventou um método para determinar o volume de um objeto de forma irregular. De acordo com Vitrúvio, uma coroa votiva para um templo tinha sido feita para o Rei Hierão II, que tinha fornecido ouro puro para ser usado, e Arquimedes foi solicitado a determinar se alguma prata tinha sido usada na confecção da coroa pelo possivelmente desonesto ferreiro. Arquimedes tinha que resolver o problema sem danificar a coroa, de forma que ele não poderia derretê-la. Enquanto tomava um banho, ele percebeu que o nível da água na banheira subia enquanto ele entrava, e percebeu que esse efeito poderia ser usado para determinar o volume da coroa. Para efeitos práticos, a água é incompressível, assim a coroa submersa deslocaria uma quantidade de água igual ao seu próprio volume. Dividindo a massa da coroa pelo volume de água deslocada, a densidade da coroa podia ser obtida. Essa densidade seria menor do que a do ouro se metais mais baratos e menos densos tivessem sido adicionados. Arquimedes teria ficado tão animado com sua descoberta que teria esquecido de se vestir e saído nu gritando pelas ruas “Eureka!” (em grego: “εὕρηκα!,” significando “Encontrei!”). O teste foi realizado com sucesso, provando que prata realmente tinha sido misturada.

Outro caso curioso é de Madame Curie que recebeu dois prêmios Nobel e foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne. Conta-se que uma de suas descobertas deu-se de forma “estranha”. Ela deixou suas anotações sobre a mesa do quarto e foi dormir. Na manhã seguinte elas estavam preenchidas e com os problemas todos resolvidos. Depois de investigar se alguém havia entrado ou, como todo o cientista, avaliado racionalmente como aquilo poderia ter acontecido, observou que a letra que completava as análises e teoremas era a sua. Isso a levou a conclusão de que, dormindo, ela levantou da cama e resolveu os intrincados problemas que estavam pendentes de solução.

Mas qual a coincidência nos relatos acima? Em nenhum desses momentos privilegiados, nossos artistas e cientistas estavam de posse do seu ego. O momento era de relaxamento e entrega, seja nos sonhos ou no relaxante banho que Arquimedes tomava em sua banheira. Evidente que, só mesmo quem não está de posse do seu ego sairia gritando nu e molhado pela rua, assim como nos sonhos estamos entregues ao nosso inconsciente, que segundo Jung está ligado ao “todo”, ou seja, a Criação.

Nesses momentos em que “esquecemo-nos de nós mesmos” é que poderemos nos conectar com essa inteligência que cria e permeia todo o universo. Esse abandono nada mais é do que nos afastarmos do que é desse mundo, ou seja, a ansiedade, a expectativa, os desejos e tudo que se baseia em vivermos em um corpo que perece. Quando acessamos esse infinito, essa eternidade que é nossa essência, estamos  em uno com o Todo. Quando criamos, somos deuses, mas para isso precisamos nos desconectar do que é finito e buscarmos o infinito. Tantos outros gênios fazem os mesmos relatos de que, muitas vezes, não estavam “pensando” no assunto quando veio a solução.

Hoje alguns teóricos da física quântica, baseados nos estudos de Jung, afirmam que existe um “campo” onde toda a informação estaria disponível e em determinados momentos, sob algumas condições, esses saberes seriam acessados. O que explica o fato de muitas descobertas terem sido feitas quase que simultaneamente por mais de uma pessoa. Uma descobriu, a informação ficou liberada em nível humano e outros que estavam nessa mesma busca horas, ou poucos dias depois também fizeram a “descoberta”. Talvez o mais famoso exemplo desse tipo de “coincidência” seja da paternidade do cálculo entre Isaac Newton e Leibniz que, cada um a seu modo, chegaram quase que simultaneamente ao mesmo resultado praticamente juntos.  Imagino que devam estar em algum restaurante chique, lá na eternidade, tomando um vinho e ainda discutindo quem chegou primeiro.

Isso tudo para mim significa que só poderemos acessar nossa divindade, se é que posso usar esse nome, quando nos desligarmos desse “eu” vinculado à matéria onde estamos habitando nessa etapa de nossa eternidade.

Todos temos esse tipo de momento em nossa vida, quando nos desligamos e relaxamos e, de repente,  “descobrimos” ou chegamos a alguma definição importante para nossa vida. Isso sempre acontece em momentos de “abandono” desse eu que está sempre com medo, baseado em sua finitude. Até mesmo a sociologia já entende o ócio como criativo como nos mostra o trabalho de Domenico de Masi.

Quer ser Criador (criativo)? Esqueça-se de si mesmo! Divirta-se, relaxe e se preocupe menos. Não precisa ser como Arquimedes e sair pelado pela rua gritando, mas aprenda com ele e com os demais que seu ego nunca vai levá-lo a nenhum outro lugar em que as companhias não sejam as preocupações e as dúvidas. Criar algo assim, angustiado, é mesmo impossível.

É claro que precisamos trabalhar e buscar nossos objetivos, mas o que erroneamente fazemos é colocar nosso lazer em segundo plano como se fosse algo supérfluo. Sempre digo aos meus clientes viciados em trabalho que o descanso e o divertimento é uma forma de trabalhar melhor, de ser criativo em encontrar novas soluções e métodos. Nunca ninguém descobriu nada importante pensando nisso o tempo todo. Nem aquele nome que está na “ponta da língua” conseguimos lembrar se pensamos nisso demais. Precisamos esquecer do assunto, mudar o foco e o nome vem a mente suavemente. Isso vale para tudo.

Até porque é na diversão que a vida mostra seu lado agradável e quem acha que isso não é importante, que só os compromissos contam é sempre uma pessoa com quem não gostamos muito de estar, chata, em outras palavras…

É na alegria (recomendo a leitura de artigo anterior com esse título) que nos desconectamos, rimos e nos “soltamos” e essa palavra diz tudo o que quero transmitir sobre a principal fonte da criatividade.

Bernard Shaw disse certa vez que as pessoas morrem cedo, apesar de serem enterradas muito tempo depois, quase quarenta ou cinquenta anos se passam entre a morte e o funeral. A criatividade pode matar a morte ou fazê-lo ressuscitar.

E você que está lendo esse artigo, permita-me perguntar: está morto ou vivo?

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Os dados sobre as descobertas foram obtidas no site “Brasil Escola” e “Wikipedia”

O EGO

                 “Todos nós nascemos originais e morremos cópias.”

Carl G. Jung

Em algum momento o caro leitor (a) já se perguntou quem é que fala dentro da sua cabeça? Esse “alguém” é o Ego*, que significa “eu”, se formos procurar nos dicionários, mas, na verdade, ele (o ego) não é você! Afinal, se fosse, não conversaríamos com ele nem ele conosco, não é mesmo?

Dos autores modernos, Eckhart Tolle é quem mais se dedica ao tema em seus livros. Em alguns momentos ele diz que o ser humano é “possuído” por sua mente, no caso seu ego. Ele tem razão se levarmos em consideração o fato de que, na maioria do tempo, estamos inconscientes de nós mesmos, nas eternas viagens alucinatórias entre nosso passado e futuro, nos mares infindáveis da negatividade. Como estamos fora da realidade nesses momentos, ficamos realmente dominados por nossos pensamentos e é natural acharmos que nós somos esses pensamentos.

Esses pensamentos são formados pela nossa educação, cultura, sociedade, religiões, etc. Como tudo isso nos foi dado pelo que chamamos de “educação” desde que nascemos, esses paradigmas formam nosso ego e não temos muitas defesas em relação a isso em nossa infância.  Somos cobrados para  vivermos esses conceitos que recebemos e temos medo de não gostarem de nós se não seguimos a cartilha recebida. Com o tempo, de tanto pensar baseado nesses conceitos, nos viciamos neles e, eles passam a ser a maneira como interpretamos a vida, ou seja, nossos pensamentos. Como toda a história repetida incessantemente se torna uma verdade (nossa mente funciona assim) nos viciamos a pensar desse modo e depois quando quisermos romper com alguns desses pensamentos, vem a culpa e o medo. Sem os problemas causados pelo ego a psicoterapia ficaria quase sem função, já que, como veremos, o sofrimento mental e emocional provém do ego. E desse sofrimento nasce a ansiedade que, em minha opinião é responsável por quase todos os problemas emocionais e a maioria dos somáticos.

Com o passar do tempo, para nos adaptarmos a vida social, vamos desenvolvendo papéis, que encenamos conforme a necessidade e, não tem como não nos identificarmos com eles. Observe, só por curiosidade, como nossos personagens têm estilos, vocabulário e vestimentas diferentes. Sempre que um precisa ser substituído por outro, trocamos de roupa, postura, fala e tudo mais.

Como o ego significa “eu”, esse conceito para existir precisa de seu oposto dentro da dualidade que vivemos, ou seja, para ter um “eu” precisa também da existência do “outro”. E é um dos motivos por termos esse vício de estarmos sempre julgando os outros, pois é na hora em critico alguém que meu ego tem a oportunidade de sentir-se superior. Palavras como egoísmo, que tem a mesma raiz, explicam-se por si só. Agora é mais fácil de entender o gosto que a maioria das pessoas tem por notícias e falar sobre acontecimentos trágicos e escândalos. Vendo isso a todos os momentos, sempre nos acomodamos em nossas misérias pessoais, afinal poderia ser bem pior, e isso explica, em muito, a dificuldade das pessoas de realizarem mudanças importantes. Esse “consolo” pela desgraça alheia ajuda a aceitarmos a nossa como boa e nos acomodamos.

Assim, o ego também adora se queixar e se fazer de vítima. A auto piedade, de certa forma, nos fortalece pela atenção e carinho que recebemos. Repetimos a várias pessoas nossa história trágica, onde estamos sendo vitimados por um algoz – pessoa ou situação – e, com o tempo, nos tornamos essa história e nos acostumamos com suas vantagens, afinal todos demonstram tanta preocupação conosco, nos ligam, postam frases de auto ajuda, rezam por nós, etc. O ego adora isso tanto quanto quando está no lado oposto, o da crítica feroz, fofoca e julgamento, que, muitas vezes, faz surgir o grito e a violência como forma do ego se impor sobre o outro.

Observe quando alguém diz que determinado acontecimento ou pessoa “estragou” seu dia. Nessa hora o ego dessa pessoa está remoendo a raiva ou rancor, o que inevitavelmente faz com que tudo que  fizer, ver e ouvir durante esse dia, será com sua percepção completamente alterada por esse estado emocional negativo. É importante observarmos o grande perigo disso: baseados nesse estado alterado, tomaremos decisões e faremos escolhas que podem ter resultado de longa duração em nossa vida e, lá na frente, só nos lamentaremos do que estivermos colhendo, sem lembrar que estávamos “fora de nós” na hora em que essa semente foi plantada.

Baseado nisso é que me permito não acreditar em “destino”. Quando algum acontecimento inesperado (colheita) surge é porque não me lembro quando plantei. Isso vale até quando, por exemplo, torço o pé na rua. Onde eu estava (consciência) que não percebi o buraco no chão? Estava nas garras do ego, imaginando coisas, me preocupando com resultados que nunca acontecem, ou seja, em estado alucinado, possuído mesmo! Difícil discordar da tese de Tolle.

Outra faceta do nosso ego é levar tudo para o lado pessoal, como se fossemos o centro do mundo, de um lado, ou a pessoa mais miserável, por outro.  Paranoia pura! O ego adora sofrimento e nada melhor para isso do que os extremos. O caminho do meio, do equilíbrio, só mesmo para quem está consciente de si, em franca caminhada evolutiva.

Nos casos mais graves temos os egos doentios que causam estragos sem fim. O ex-ditador Pol Pot que governou(?) o Camboja mandou matar mais de um milhão de pessoas, inclusive, pasmem, todos que usassem óculos! Isso mesmo, você leu bem! Esse doente acreditava que as pessoas que usavam óculos eram cultas e questionariam as “verdades” da teoria marxista que, segundo ele, era perfeita… Outro maluco famoso, Hitler pensava que os Judeus, ciganos a outras raças ameaçavam a pureza ariana e precisavam ser eliminadas para o bem da humanidade. Outros egos doentes, segurando livros religiosos mataram milhões e ainda matam em nome do seu deus achando que estão fazendo o que é certo. E o pior, é que ainda se respeita esse tipo de doença, como “respeito” religioso. Esses egos deformados conseguiram seguidores porque seus discursos eram cheios de emoção e eram repetidos incansavelmente. Egos fracos precisam de egos fortes para se sentirem seguros e os seguem sem pensar.

Assim, toda insanidade e sofrimento humano estão baseados no ego, e transcendê-lo é a tarefa evolutiva primeira. Isso só é possível, em primeiro lugar, com o entendimento de sua formação e funcionamento, ou seja, autoconhecimento! Estudá-lo não basta, precisamos enfrentá-lo, nos opondo a ele com consciência e irmos nos descobrindo a cada nova percepção.

Ken Wilber, certa vez perguntado se as crianças, por não terem ainda um ego, eram iluminadas (baseadas na frase de Jesus onde dizia que só as crianças entrariam no reino dos céus), respondeu que não. Primeiro precisamos formar um ego e, depois, nos livrarmos dele para atingirmos esse último estágio evolutivo. Essa é toda ironia e beleza disso que chamamos de vida. Nascemos puros, copiamos outros, e precisamos nos libertar dessa cópia e encontrarmos nosso verdadeiro Eu.

Se não fizermos essa dura caminhada, Jung estará certo na frase que abre esse texto.

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*Para Jung o Ego é o centro da consciência (mas não a consciência) e um dos maiores Arquétipos da personalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes para nos adaptarmos a realidade.

A VONTADE

vontade

   “Somos dominados por tudo aquilo com que nos identificamos. Podemos dominar e controlar   tudo aquilo com que nos desindentificamos.”

                                                                Roberto Assagioli.

Para a psicossíntese* a vontade não é um atributo disponível facilmente para quando precisemos usa-la. Na verdade, é considerada uma força que guia nossa intuição, impulso, emoção, imaginação, sensação e pensamento em direção a objetivos imediatos e transcendentes. Isso quer dizer que a vontade é um atributo do Self, ou seja, de nossa porção conhecida por Eu superior, não ligada ao corpo físico. Nessa hora torna-se importante diferenciar vontade de desejo. Desejo é emoção, impulso instintivo, mais ligado ao biológico, ao eu pessoal ou inferior.

Dentro desse enfoque, a vontade é a força central da nossa individualidade e precisa ser descoberta dentro de cada um para poder se falar em autoconhecimento. É no exercício da vontade, e não dos desejos, que realmente colocamos nosso verdadeiro Ser em ação. É a vontade que nos faz querer, muitas vezes, além da própria razão, que nos faz acreditar algo ser possível quando para os demais não é. Portanto, só pode ter esperança (nunca deixar de ter atitude em busca de algo), quem tem uma vontade forte. E justamente por não estar ligada ao corpo físico e sua sobrevivência, que a vontade é uma força transhumana em minha opinião. Não é uma satisfação de um desejo, mas a conquista de um sonho ou objetivo!

A verdadeira liberdade do ser humano é seu poder de escolha, e isso precisa incluir sua interpretação dos acontecimentos. Para isso é necessária a vontade, e é só com ela que poderemos nos libertar dos paradigmas e condicionamentos que nos aprisionam, nos proporcionando a oportunidade de realmente podermos dizer que “vivemos nossa própria vida”. Só a vontade, portanto, pode vencer o medo e a insegurança que nos impedem de evoluir, diante dos obstáculos naturais do crescimento.

Dentro desse raciocínio, enquadro a vontade como pré-requisito para a determinação e a confiança. Portanto, caso você esteja esperando um dia acordar com “vontade”, “confiança”, ou sentir uma forte “determinação” para dar o passo que falta, lamento informar que isso nunca vai acontecer. Por ser um atributo superior, a vontade só pode ser exercitada diante do medo e da insegurança que são atributos inferiores, como já frisei, ligados ao físico. Não dá para chegar ao segundo andar sem subir as escadas que estão no primeiro andar. No caminho evolutivo não tem elevador nem milagres. Se existissem, isso seria uma injustiça aos que se dispõem a avançar e não existe injustiça na “Lei” que rege a existência.

Para Assagioli, a vontade é uma experiência direta, portanto indescritível, acima da multiplicidade. Não há como falar da vontade, por ser superior, em palavras que reduzem significados. É como querer explicar a cor verde a um cego, por exemplo. Para ele, a vontade tem uma polaridade masculina (assertividade, agressividade e controle) e uma feminina (aquiescência**, complacência e dedicação). Como tudo que contém em si em igual força o masculino e feminino, a vontade é completa em si mesma, demonstrando seu caráter superior.

Assim, é a vontade humana que nos permite direcionar nossa vida (não existe destino), e se, certas situações estão fora de nosso controle, poderemos escolher como enfrentá-las; seja com coragem ou medo, alegria ou tristeza, tranquilidade ou desespero. Uma se escolhe (superior) a outra é automática (inferior), já percebeu?

Em interessante artigo sobre a vontade, Marina Pereira R. Boccalandro***, afirma que, “…como as animais são mais livres que os vegetais, porque podem mover-se no mundo físico, os humanos são ainda mais livres porque podem mover-se no mundo das ideias. O sistema nervoso humano está capacitado para ser o menos previsível de todas as espécies. Muitas vezes podemos agir automaticamente, seguindo velhos hábitos, mas podemos também inventar, criar e modificar não só os comportamentos, como também o nível das ideias dentro das artes, ciências, filosofia, religião e tantas outras áreas.”

Nesse ponto, me sinto à vontade e, sem constrangimento, para me opor a Descartes com sua famosa frase “Penso, logo existo”, já que esse “pensar” muitas vezes é automatizado pela programação a que estamos sujeitos e dos desejos, sempre ligados  a necessidade de alguma satisfação imediata. Pensar, em minha opinião, não é, necessariamente, “existir”, já que ninguém tem controle sobre seus pensamentos. Insurjo-me a redefinir a famosa frase para: “Tenho Vontade, logo existo!”.

Assim, se sua Vontade anda em baixa, pode observar que sua vida também não está em bom momento, ou “tudo vai indo”…

Todos temos um dom que é necessário ser vivido para que possamos nos tornar realizados e felizes, e se não cumprimos essa missão nos tornamos mais sofridos. Para a maioria das pessoas, viver esse talento só é possível com o exercício pleno dessa vontade que está acima de tudo que nos mantém estagnados, vencendo até mesmo os próprios preconceitos contra aquilo que gostamos em nós mesmos. Essa mesma vontade é a que, por exemplo, supera diagnósticos médicos, levando a sobrevida por objetivos superiores e que deixa a ciência sem explicação, ou mesmo quando alguém faz um “milagre” que podemos dizer, porque não, como um pleno exercício da vontade. Afinal, só com uma força acima do humano se pode agir como um deus.

Para Willian James, a vontade é um ponto central por onde a ação significativa pode ocorrer. Para ele, é a vontade que mantém  uma escolha entre alternativas o tempo suficiente para permitir que a ação ocorra. Isso é muito interessante, já que podemos interpretar esse pensamento da seguinte forma: Tenho vontade de algo, e preciso mantê-la firme, enquanto ela caminha ao lado do medo e da dúvida (certo ou errado), até que minha ação se manifeste no sentido de por em prática a ação necessária. É outra maneira de ver, mas de acordo com o que já foi dito anteriormente. Interessante lembrar que muitas pessoas auto-realizadas, que atingiram grandes objetivos pessoais, relatam que não “pensaram” muito para fazer o que fizeram. Isso mostra que o pensamento, muito ligado aos condicionamentos, é inimigo da vontade, estando ela, realmente, em nível acima do que é normal. Por isso, só pensar está longe de “existir”.

Portanto, a vontade como qualidade é necessária ser trabalhada, como tudo que queremos desenvolver, mas nunca se deve esquecer seu caráter superior, ou seja, que não é algo que se conquista facilmente sem esforço. Precisa se querer muito, e sempre!

Maslow, famoso psicólogo transpessoal disse certa vez que “se você deliberadamente planejar ser menos do que você é capaz de ser, então eu o previno que você será profundamente infeliz pelo resto de sua vida.”

Não é uma condenação, mas uma constatação de que sem a vontade, a evolução ou felicidade não é possível.

Afinal, já que me dei ao direito de enfrentar Descartes, posso lhe perguntar:

                                                     Você Existe?

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*Psicossíntese – A Psicossíntese ajuda ao entendimento e ao controle dos problemas, à melhoria dos relacionamentos, à compreensão das potencialidades criativas, à contribuição interior para um amplo contexto social e planetário e, ainda, à busca do significado e finalidade da vida. Isso leva ao reconhecimento daquilo que é básico na natureza transpessoal ou espiritual de cada ser humano, sugerindo que esse auto-controle começa com o auto-conhecimento e a auto-compreensão. A Psicossíntese utiliza princípios e técnicas relevantes da consciência pessoal de forma a proporcionar uma abordagem holística centrada no crescimento e desenvolvimento humanos. Foi criada pelo psiquiatra italiano Roberto Assagioli.  Fonte: Wikipedia

** Aquiescência- Estar ou pôr-se de acordo. Dicionário Caldas Aulete.

*** Livro “Espiritualidade na Prática Clínica” ed. Thomson

 

 

 

A utilidade da Morte

morte

“Lembra-te do teu Criador nos dias da mocidade, antes que venham os dias da desgraça e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho mais prazer. Antes que o pó volte à terra de onde veio e o sopro a Deus que o concedeu.”

Eclesiastes, 2ª parte, capítulo 12, 1-7 , Bíblia de Jerusalém.

Falar sobre a morte é sempre difícil e dizer que ela pode ser útil, talvez seja uma ousadia. Não é o tipo de assunto que se esgote em um artigo, mas de qualquer forma, quero abordá-lo sob um ângulo em especial.

A morte, ou uma das perguntas sem resposta, “para onde vamos” é um dos enigmas insondáveis do homem e essa questão nunca será esclarecida e o modo que lidamos com ela é, sem dúvida, muito estranho. Sabemos (em tese, já que não agimos assim), que a morte pode chegar a qualquer momento, sem nenhum respeito a qualquer ordem específica; crianças, adultos, velhos, ninguém tem nenhum controle sobre ela. Alguns pensadores, dizem até que passamos nossa vida inteira fugindo dela ou nos preparando para tentar vencê-la. Para isso, servem os “planos” para a velhice, poupança para os momentos de necessidade e, é claro, os planos de saúde, que na verdade são de doença, para termos os hospitais e médicos aptos e não deixarem que ela chegue.

Apesar de todos dizerem que a morte é certa, nossas atitudes demonstram que a ignoramos completamente, uns por medo, outros por negá-la. Digo isso, porque temos em nossa vida uma série de adiamentos de toda a ordem como se tivéssemos a certeza de que não morreremos. Não há nada de errado em fazermos planos, mas alguns deles, contam com tantos anos de espera, que chega até ser uma desculpa para não fazermos esse ato. Desde uma simples viagem, até algum reencontro ou mesmo alguma experiência pessoal, tudo pode esperar o famoso “momento certo”.

Como a questão do que é morrer está nos domínios da fé, ou seja, acreditamos em alguma teoria, mas não temos nenhuma comprovação, penso ser importante que toda pessoa tenha a sua teoria, que pode ser de alguma religião, filosofia, ou mesmo a sua própria, inédita ou uma mistura de várias outras. Tanto faz, o que realmente importa é termos uma ação na vida baseada no que entendemos da morte. Só assim ela pode nos ser útil.

Pouco importa se você vai para algum julgamento e depois sentar-se à direita (ou será esquerda) do seu deus, se irá para algum umbral ou mesmo passar quarenta e nove dias avaliando suas boas e más ações para depois nascer de novo, o que precisamos é entender que, de alguma forma, essa vida terminará. Assim devemos fazer dela algo útil, divertido e, mesmo os momentos de tristeza devem ser relevados, afinal tudo vai mesmo passar de alguma forma.

Certa vez uma mestre Zen disse que, para acabar com o sofrimento é preciso entrar em contato com o mundo do não-nascimento e da não-morte. Indagado pelo seu discípulo onde seria esse mundo do não-nascimento e da não-morte, ele respondeu: Ele está bem aqui no mundo do nascimento e da morte. Isso quer dizer que é possível ingressar no mundo do não-nascimento e da não-morte através da prática de viver conscientemente a cada momento da vida. Para isso é fundamental levarmos em consideração o fato de que poderemos morrer a qualquer momento!

Para monge e escritor Thich Nhat Hanh, o bom teólogo é aquele que não diz nada sobre Deus, embora a palavra teologia signifique “discurso sobre Deus”. Como escrevemos no artigo anterior, não se deve falar muito o sobre o que não se sabe e acredito que deve se tratar da morte da mesma forma. É simplesmente um evento, que faz parte da vida, sobre o qual nada se sabe.  Muito do desespero que se tem nas perdas, advém não só da ideia de que não se verá mais essa pessoa, mas por também não sabermos o que é isso, que pode a qualquer momento retirar do nosso convívio, seja do jeito que for, pessoas queridas. A falta desse entendimento é a base do medo e do desespero diante da morte.

É sempre bom pensarmos até que ponto estamos, direta ou indiretamente, pautando nossa vida pela morte. Chega-se até a querer relacionamentos para, caso nos “aconteça alguma coisa”, tenhamos alguém para nos socorrer!

Não seria lícito pensarmos o seguinte: a melhor forma de enfrentarmos e até de vencermos a morte é vivermos uma boa vida! Independente de recursos financeiros questione-se sobre isso: Os frutos do seu trabalho estão esperando pela morte, ou estão à disposição da vida? Lembre que o futuro pode até ser planejado, mas ele na realidade não existe, já que são tantos fatores aleatórios e que operam além de nós que devemos saber que tudo pode ser de outro jeito e, quase sempre é assim.

Uma das melhores definições da morte e que faz parte da minha teoria é do filósofo grego Epícuro. Dizia ele: Não temo a morte, afinal quando estou ela não está e quando ela estiver, eu não estarei mais.

Nem eu nem você sabemos o que vai acontecer depois e isso na verdade não importa. Na hora certa saberemos se continuaremos vivos de alguma forma ou se tudo será uma profunda escuridão. Até que essa pergunta seja respondida pela sua própria experiência, lembre-se de cumprir essa etapa que faz parte da eternidade da melhor maneira que puder. Nada contra ser previdente, desde que, procure evitar seus adiamentos. A vida é agora, e a morte é depois.

Faça, portanto, do fato de você e todos que você conhece morrerem em algum momento, algo extremamente útil para que se viva melhor, muito melhor nesse exato instante!

Quando nos perdemos…

    “Tem uma pergunta que me inquieta: o louco sou eu ou são os outros?”

Albert Einstein

 

 

Talvez tenhamos nos perdido quando nos expulsaram do paraíso por termos comido do fruto do conhecimento. Ao me ligar ao “mental” e transitório perdi o contato com a unicidade do divino. De lá pra cá, fico buscando a paz no conflito diabólico do que vejo e me obrigam a acreditar e do que sinto, mas que me dizem que não existe…

Talvez tenhamos nos perdido quando acreditamos que nosso amigo invisível (para os outros) da minha infância não existia, mas como? Se eu o via e falava com ele?

Talvez tenhamos nos perdido quando deixamos de ser crianças, quando víamos sentido em tudo sem nos preocuparmos com o certo e errado. Quando nos permitíamos sermos verdadeiros e não fazíamos concessões, afinal não tínhamos medo de não sermos amados, porque não víamos maldade nas pessoas.

Talvez tenhamos nos perdido nessas confusões que nem nos damos conta; quando lemos que Jesus teria dito que só as crianças merecem o reino dos céus, mas todos ao meu redor dizem que preciso ser um adulto responsável e, portanto, preocupado e angustiado… Quando na escola e na igreja dizem que somos todos iguais e vejo meus ídolos cheios de preconceitos e me cobrando que seja como eles, afinal isso é certo! Quando me dizem que devemos trabalhar em conjunto e depois me dizem que o mundo é competitivo e escasso, que se não chegar na frente, me faltará comida e abrigo. Mas se isso for verdade, não somos irmãos, mas competidores…

Talvez tenhamos nos perdido quando, na Idade Média quando as bruxas e os magos que sempre fomos, foram queimados porque viam uma ligação em  tudo que os rodeava e os papas e cardeais diziam que nosso Deus traçava nosso destino à revelia de nós mesmos e que só existia uma verdade…

Talvez tenhamos nos perdido quando acreditamos que o mundo tem fronteiras e milhões morrem lutando para manter essas divisões que só trazem sofrimento e separatividade. Quando aceitamos as barbáries das religiões passivamente porque devemos respeitá-las. Perdemos a nós mesmos quando acreditamos que possa existir só uma maneira de se viver e que quem não acredita na minha, está errado.

Nos perdemos quando não temos paciência de fechar os olhos e encarar nossos fantasmas, achando que todas as saídas estão do lado de fora, e não paramos de buscar essas soluções em uma ânsia sem fim.

Nos perdemos quando precisamos anestesiar a infelicidade, achando que uma dose, um doce ou algum remédio milagroso me trarão a paz que procuro.

Nos perdemos quando achamos que tudo pode ser adiado; uma visita, uma viagem, um abraço e um reencontro. Mesmo na eternidade não há tempo para tudo, meu egocentrismo nega a verdade de que são minhas escolhas que fazem minha estrada, me fazendo crer que tem “alguém” que guia meus passos e que sabe para onde está me levando.

Nos perdemos quando nos ensinaram que só a ciência é verdadeira, já que pode ser “comprovada”, quando crio ídolos humanos perfeitos. Galileu em sua genialidade dizia que os cometas eram apenas ilusão de ótica e hoje morremos de medo de que uma dessas ilusões nos destrua. Ele estava errado! A gramática e as metas da ciência são incompatíveis com certa espécie de verdade. Há níveis de realidade que são por demais misteriosos para o bom senso científico. A própria física que tem se encontrado com a filosofia demostra que o visível é apenas 1% da realidade que vemos. Continuamos perdidos preferindo desacreditar no 99% que os poetas, crianças e sábios povos primitivos habitam.

Nos perdemos quando perdemos a capacidade de me observar no outro, apenas me preocupando em criticar o que vejo nele e não gosto de lembrar que também sou, mas quando não percebo que tudo que admiro também é meu e ele está me mostrando para onde devo rumar.

Nos perdemos quando não observamos nosso corpo, que, cuidando da nossa evolução, nos diz que não estamos felizes e fora de rota através dos sintomas que insistimos em negar ou amenizar, persistindo um trajeto imposto de fora para dentro e que nem percebemos que não escolhemos.

Nos perdemos quando não assumimos que somos inigualáveis, e anulamos o que temos único para sermos iguais, padecendo da doença da normalidade que nos faz um rebanho. Pensando assim, precisamos mesmo que alguém nos conduza.

Nos perdemos quando temos medo de assumir as consequências de sermos livres e vivemos um roteiro e não é a toa que precisemos de muitos personagens para seguir passando pela vida sem viver.

Nos perdemos, como diziam os antigos gregos, quando não nos “espantamos” mais com as belezas e os milagres que passam diante de nós todos os dias porque estamos vivendo uma rotina doentia que não nos levará a nenhum lugar, a não ser a um médico e uma farmácia, justamente por vivermos dormindo quando deveríamos estar acordados para apreciar.

Nos perdemos quando reverenciamos homens que pregaram a liberdade de sermos quem somos aos domingos e, no demais dias, nos anulamos seguindo os conselhos dos que se dizem representantes deles…

Enfim…
Vivemos todos com medo, medo de não sermos amados, reconhecidos, acarinhados, protegidos, de perdermos as pessoas que amamos, de passarmos fome, etc. Mas é normal, afinal sempre é o medo o sentimento que temos quando estamos perdidos…