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Psicopatas

 “Quanto maior o homem, tanto maior também o seu potencial de maldade.”

Sabedoria  Judaica

Psicopata

Quando falamos em psicopatas a primeira coisa que nos vem à mente são os mais famosos, os assassinos frios, que viram motivo de filmes e séries americanas, ou então aqueles que cometem crimes cruéis e, muitas vezes em série, os famosos serial killers. Mas, como tudo, a psicopatia existe em vários níveis e nem todos ficam “famosos”, aliás, a maioria deles continua por aí, provocando seus danos e ninguém pensa na possibilidade de ter em sua convivência próxima algum deles, já que o que se tem em mente são os casos mais graves.

Independente do nível, se diet, light ou hard, psicopata é psicopata e a ideia desse artigo é fornecer alguns indícios que possam ajudar a reconhecê-los e começar a tomar cuidado, e a primeira informação que quero dar é que psicopatia não tem cura, ou seja, se convive com ele(a) e se você descobrir que tem um por perto e for uma pessoa importante, não fique na esperança que um dia ele (a) irá melhorar, isso não é possível, já que hoje a ciência identifica que nos psicopatas as áreas do cérebro responsáveis pela empatia, remorso (sentir o sofrimento do outro e se compadecer), apresentam um desenvolvimento menor ou uma diminuída capacidade de funcionamento. Porém, suas capacidades cognitivas e racionais funcionam perfeitamente, o que os torna frios e calculistas ao extremo. Isso quer dizer que são somente racionais, sem capacidade de sentir emoção, ou seja, os meios justificam totalmente os fins.

Os dados estatísticos falam que três homens e uma mulher para cada cem pessoas são psicopatas. Eles nunca e jamais experimentarão qualquer tipo de constrangimento, sentimento de culpa ou lamentarão o fato de enganarem, magoarem e simplesmente usarem as pessoas para atender seus interesses. Eles acham isso a coisa mais natural, justamente pela parte do cérebro, principalmente a parte relativa a sentimentos, praticamente não funcionar. Por outro lado, eles têm um encanto natural, são charmosos (a) e sedutores (a), e como são ótimos atores, afinal só assim conseguem seus objetivos, fazem com que suas vítimas levem muito tempo até se darem conta de com quem estão metidas.

Um dos sinais que podem ser percebidos é que eles não conseguem o tempo todo esconder sua face má. Ao mesmo tempo em que são simpáticos e agradáveis, às vezes deixam escapar ações ou pensamentos impulsivos, violentos ou preconceituosos. Como ótimos atores, o psicopata se faz de “coitado” para captar a pena e simpatia de sua vítima. Aliás, é importante colocar que as principais presas são justamente pessoas de bom coração, muito solidárias, sentimentais e carentes de afeto e atenção. Eles criam fortes vínculos de amizade ou de relacionamentos afetivos com o objetivo de, no momento apropriado, dar o bote certeiro. Para se aproximar, criam histórias muitas vezes mirabolantes sobre si mesmo, cheias de encanto e o mais engraçado é que quando um psicopata é pego em suas mentiras, é como se nada tivesse acontecido, nem se importam.

Todo o seu encanto está em se apresentarem muito bem articulados (lembre que normalmente são muito inteligentes), divertidos e muito simpáticos. Apresentam conhecimentos sobre várias áreas como filosofia, artes e atualidades, muitas vezes usando alguns termos técnicos com o objetivo de se tornarem mais convincentes e atraentes. Mas se forem questionados por alguém que seja do ramo específico do conhecimento podem ser logo desmascarados, mas como são hábeis em mudar de assunto, normalmente demoram a ser descobertos.

Nos seus relacionamentos são controladores, sempre com  mania de grandeza e fazem sempre o outro sentir-se culpado, assim vão exercendo seu domínio e manipulação de forma sutil e profunda, deixando sempre a outra pessoa em “dívida” emocional.

Apresentam também uma capacidade bastante reduzida de autocontrole e baixíssima tolerância com frustrações, explodindo com violência, ameaças e desaforos. Porém, logo se recompõem como se nada houvesse, sempre explicando sua reação desmedida como uma resposta ao comportamento inadequado de outra pessoa. Lembre que o psicopata é sempre vítima!

De forma geral demonstram uma total ausência de sentimento de culpa por suas ações, apesar de se dizerem comovidos, suas atitudes demonstram o contrário. Aqui, faço um parêntese para reforçar algo que já citei em artigos anteriores; esqueça o que a pessoa diz, avalie apenas suas atitudes. A maioria é ótima de discurso e muito ruim de ação.

Infelizmente, por serem pessoas que convivem normalmente em sociedade, os estudos com psicopatas só podem ser feitos com aqueles que cometeram crimes e estão presos, portanto, nos casos mais graves. Assim, nos EUA, foi feito um experimento com alguns deles, onde era mostrado um vídeo com cenas de extrema violência e crueldade que, em pessoas normais, afetavam (aceleravam) os batimentos cardíacos, justamente pela empatia. Nos psicopatas testados, as piores cenas não alteravam em nada sua emoção, é como se estivessem vendo desenhos animados…

Os psicopatas não gostam muito de rotina, pois tem vício em excitação, logo não se sentirão bem em atividades que exijam muito compromisso e concentração por longos períodos. Não gostam de obrigações de nenhuma espécie, logo são incapazes de serem confiáveis e responsáveis em qualquer área da vida. Se não for do seu interesse, simplesmente não aparecem ou descumprem os compromissos estabelecidos.

Por se tratar de um problema de funcionamento da estrutura do cérebro, o psicopata já nasce assim e assim permanecerá. Seu comportamento doentio já pode ser identificado desde a infância: maltratam animais e outras crianças, mentiras recorrentes, pequenos roubos, trapaças nos jogos e brincadeiras (ignoram as regras para obter vantagens), violência e vandalismo. Todas as pesquisas demonstram que esses tipos de comportamentos na infância e adolescência são fortes indicadores da criminalidade na idade adulta, assim como os estupradores em série normalmente atendem ao diagnóstico de psicopatia. Mas aí você poderia argumentar que nem todos que apresentam esse tipo de comportamento são psicopatas necessariamente. É verdade, mas nunca esqueça que o fator que, somado a esses indícios que indicam a psicopatia, é a ausência de sentimento de culpa e afetividade.

Pela legislação vigente o psicopata só pode receber esse diagnóstico após os 18 anos, antes disso normalmente recebe o nome de “transtorno de conduta”. Esse ponto pode até remeter a discussão da maioridade penal que hoje e de tempos em tempos, volta a baila no Brasil. Como curiosidade, a responsabilidade criminal em alguns países atende a idades bem diferenciadas; Austrália e Suíça é de 7 anos. Dinamarca, Finlândia e Noruega, 15 anos. Na Inglaterra, dependendo do crime com 10 anos ou menos. A questão óbvia é que, em qualquer dessas idades a pessoa sabe o que está fazendo. A educação é sempre caminho, mas no caso do psicopata nada vai cura-lo, e mantê-lo solto (nos casos mais graves) é saber que os crimes se sucederão inevitavelmente.

O que as famílias podem fazer quando, por exemplo, um filho (a) atende aos quesitos e é diagnosticado como “transtorno de conduta”? Nada, além de uma disciplina dura e rígida sempre! Rédea curtíssima, vigilância e um sistema de punição que funcione, poderá, nos casos mais leves e moderados ajustar de alguma forma, mas para a cura ainda não se tem notícia, infelizmente.

A seguir, repasso os comportamentos frequentes que indicam a presença de psicopatia, tendo como fonte o livro “Mentes Perigosas” de Ana Beatriz Barbosa Silva (editora Fontanar), onde mais informações e relatos de casos poderão ser encontrados para maior entendimento do problema:

-Mentiras frequentes

-Crueldade com animais e pessoas

-Não aceita a autoridade

-Impulsividade e irresponsabilidade

-Culpa sempre os outros (papel de vítima)

-Insensibilidade e frieza emocional

-Ausência de culpa ou remorso

-Falta de constrangimento ou vergonha quando pegos nas mentiras ou em flagrante delito

-Dificuldade de manter amizades

-Faltas constantes no trabalho e escola

-violação constante de regras sociais

Evidente que esse é um tema que mereceria mais espaço, mas a finalidade é trazer alguma informação que possa ser útil a identificar se em suas relações possa existir um psicopata e ajudar e entender como são e funcionam essas pessoas. Evidentemente que só um profissional habilitado pode fazer o diagnóstico, mas se preenche a maioria dos quesitos acima, mantenha-se atento!

Nunca esqueça que a grande maioria dos psicopatas não é assassino, mas pode feri-lo material e emocionalmente, sem dó nem piedade, basta ele perceber em você alguma utilidade para seus fins. Eles não tem cara de assassinos ou bandidos, aliás, o mal não tem rosto.

Nem isso, nem aquilo

 

“Tocar o mal acarreta o grave perigo de sucumbir a ele, precisamos, portanto, deixar de sucumbir a qualquer coisa, inclusive ao bem. Um bem ao qual sucumbimos perde seu caráter ético. Qualquer forma de vício é nociva, quer se trate de álcool, narcóticos ou idealismo. Precisamos evitar em pensar o bem e o mal como opostos absolutos. O reconhecimento da realidade do mal, necessariamente torna relativo o bem – e também o mal – convertendo cada um deles na metade de um todo paradoxal.”

Carl G. Jung – O problema do mal no nosso tempo.

“Bem e mal são os preconceitos de Deus; dizia a serpente.”

Nietzsche

bem e mal

A filosofia sempre se debateu sobre essas questões básicas como o conceito de verdade, de moral e do que se considera o “bem”. Todo o julgamento que fizemos se dá, em meu entender, porque nossa mente sempre precisa de definições já que isso a deixa segura por, digamos, entender o que se passa e a de formar uma ideia a respeito seja do que for. Não é difícil de exemplificar: quem já não conheceu uma pessoa e só de vê-la (interpretá-la seria a palavra correta) fez todo um julgamento, simpatizando ou não. Passado algum tempo, convivendo, essa ideia inicial foi totalmente reformulada. A questão seria mais simples se esperássemos um tempo para depois dizer o que achamos dessa pessoa. Mas nossos julgamentos são automáticos e isso não podemos evitar, mas, não levar esse julgamento em consideração, sabendo que o tempo é mas sábio que a mente, isso sim já é uma evolução.

Quando estamos falando do que é o “bem” e o “mal” isso também acontece, só que nesse caso, foi à cultura que nos forneceu as bases desse entendimento automático da mente, e lá estamos nós julgando rapidamente, de novo!

Jung diz que o julgamento moral, pelos motivos acima, está sempre presente e isso também traz consequências psicológicas. De certa forma, ele poderia estar tratando do conceito de carma quando afirma: “Assim como no passado, também no futuro, o erro que cometemos, pensamos ou intencionamos, se vingará de nossa alma.”

Mas qual a certeza que temos que a base desses conceitos que nos foram introjetados por educação ou porque não dizer, por punição, são realmente corretos? Tudo é subjetivo e tem sofrido mudanças, dependendo da época ou necessidade. Isso quer simplesmente dizer que a base do conceito de “bem” e de “mal”, como todos os outros, é incerta e relativa, muito relativa.

Aprendemos que nenhum valor pode ser maior que vida humana, certo? Depende, já que se entrarmos em guerra contra outro país (isso ainda acontece, por mais incrível que pareça), se em uma determinada ação eu vier a tirar a vida de muitos “inimigos” serei condecorado, considerado herói e até terei no futuro uma estátua em alguma praça. Aliás, a maioria das figuras nessas praças são de heróis de guerra, que, dependendo do ponto de vista, poderia chamar de assassinos, ou não?

Todos amam seus animais de estimação, os tratam como pessoas, gastam fortunas com eles, mas daqui a algumas horas de voo, eles fazem parte do cardápio de restaurantes caros. Quando alguém aparece ou é denunciado por maltratar um cachorro, pode até ir preso, mas de outro lado não se importa muito com a rotina dos abatedouros, onde animais com o mesmo cérebro emocional (capacidade de sentir e sofrer) de seu amigo “que só falta falar” são trucidados diariamente, para nosso deleite gastronômico. Em outros lugares, esses mesmos animais são sagrados e arderemos no inferno se os maltratarmos. Diante de tantas incoerências, porque poderemos afirmar que alguma coisa ou ação é realmente boa ou má?

Torna-se necessária muita coragem para exercer a liberdade de evitar aquilo que é considerado “certo” e termos a ação de fazer o que se entende por “errado” se nossa decisão interior (poderemos chamar de ética pessoal) assim o entender. Conforme a filosofia hindu, neti neti (nem isso, nem aquilo). Penso tornar-se necessária uma elevada dose de confiança e autoconhecimento para fazer o mal, quando se sente necessário. A maioria das pessoas sucumbirá aos condicionamentos sociais e a opinião normótica sobre o tema.

Na verdade, quando a ação é consciente ela é sempre certa para quem age, a questão da avaliação moral dessa atitude fica por conta da cultura vigente e dos limites que essa cultura pode impor. Como a esmagadora maioria das pessoas é totalmente inconsciente (no que se refere aos “porquês” de suas atitudes), torna-se fundamental um manual de conduta ou código moral para nortear o que se pode ou não fazer, já que, como as ovelhas, precisamos de quem nos leve.

O grande problema é que vagamos pela vida com essa profunda inconsciência, destituídos de liberdade de pensamento, estamos sempre nos apoiando nessas velhas frases e não tomamos nossas decisões de forma lúcida e isso nos leva a projetá-las nos demais. Se todos temos uma sombra que nada mais é do que esses conteúdos não vivenciados e reprimidos, nós enquanto coletividade também os temos, e nos responsabilizamos pelas consequências da cultura que vivemos e que ajudamos a manter, seja pelo nosso conveniente silêncio ou total ignorância.

Nossa educação não se preocupa em formar pessoas que se conheçam e que, portanto, tenham recursos de encontrar suas decisões conscientes, mas apenas se preocupa em formar mão de obra e tornar todos incapazes de realmente saberem o que querem de si mesmos, transformando os diamantes individuais em pedras comuns, condicionáveis e manipuláveis. É uma alquimia às avessas.

A resposta para sabermos o que seria o “bem” ou o “mal” precisa que saibamos quem somos e isso, infelizmente, nunca será fornecido pelo Estado (leia-se “educação” que sempre trabalha pela ideologia que está no poder), seja de que lugar for. Não se formam pessoas livres, isso é perigoso demais!

Como já escrevi artigos anteriores, conhecer-se significa saber o bem que se é capaz de fazer e os crimes também. Aliás, o que seria da sociedade sem as leis e punições? A maioria das pessoas só quer ver como real o bem de que são capazes. Penso que ele só será mesmo real, quando a consciência das nossas “capacidades” para o mal estiverem bem visíveis, tanto quanto as qualidades. O crescimento se dá quando, por escolha, e não por imposição, decido não fazer o mal e não projetá-lo, fazendo o bem. Esse autoconhecimento é da maior importância, pois através dele nos aproximamos daquele extrato fundamental, ou âmago da natureza humana onde se situam os instintos, como diz Jung.

Se o conceito de Deus é de totalidade, sem divisões, seus filhos também deveriam ser assim e esse é nosso destino evolutivo, mas enquanto fracionados pelo “certo” e “errado” estaremos em constante sofrimento e assim não teremos como continuar a caminhar em busca dessa totalidade.

Assim e só assim, será fácil decidir que é verdade ou mentira, fora disso, continuaremos como crianças pequenas, perguntando com os olhos arregalados e esperando que nossos “educadores” nos digam o que posso ou não posso ser ou fazer, se sou “bom” ou “mal”.

Tudo tem um preço e ser inocente é um dos mais caros.

A HORA DE AVANÇAR

A semente nunca está em perigo, lembre-se disso. Que perigo haveria para a semente? Ela está completamente protegida. Mas a planta está sempre em perigo, a planta é muito delicada. A semente é como uma rocha, dura, protegida por uma crosta grossa. Mas a planta precisa enfrentar mil e um perigos. E nem todas as plantas atingirão o estágio em que poderão florescer em mil e uma flores…

Poucos seres humanos atingem o segundo estágio e, desses, muito poucos atingem o terceiro, o estágio da flor. Por que não podem atingir o estágio da flor? Por causa da ganância, por causa da miséria, não estão prontos para dividir…Por causa de um estado em que há falta de amor. É necessário coragem para tornar-se uma planta, e é necessário amor para tornar-se uma flor.

Uma flor significa que a árvore está abrindo seu coração, liberando seu perfume, oferecendo sua alma, vertendo seu ser na existência. Não continue sendo apenas uma semente. Reúna coragem: coragem para deixar para trás o ego, coragem para deixar para trás sua segurança, coragem para se tornar vulnerável.

Osho – O Livro da Transformação

 

Existem alguns requisitos que se fazem necessários para que as pessoas iniciem sua “jornada” em busca de elevar seu nível de entendimento, buscando fugir da normose e encontrar paz em si mesmas nesse mundo caótico. A cada época evolutiva, a humanidade, dentro do que era possível, sempre, em sua maioria, fez da vida uma grande confusão; seja na época de guerras sem sentido (isso ainda não mudou), seja quando a intolerância religiosa matava milhares e milhões (isso ainda continua), ou atualmente, onde a busca de satisfação e prazeres materiais estão levando todos a um nível altíssimo de ansiedade.

E o mundo sempre será mesmo um caos, justamente para que cada um, por mérito, encontre o cosmo dentro de si. Estar nesse mundo sem ser desse mundo é o princípio das principais Escolas iniciáticas ao longo da história. Se a afirmativa de que somos seres espirituais em uma jornada material for verdadeira, e é, justifica o tumulto exterior (materialidade) e busca interior (espiritual). Assim caro leitor, não perca tempo em esperar que a vida melhore, que as pessoas se tornem mais conscientes e mais fraternas, que acabem os conflitos por interesses econômicos, políticos e religiosos. Isso nunca vai acabar porque a esmagadora maioria das pessoas mantêm-se alheias a tudo, seguindo pela vida como verdadeiros zumbis, mortos evolutivamente, mas parecendo vivas, já que seus corpos continuam funcionando.

Mas, para aqueles que se deram conta de que o modo de se viver e pensar a vida atualmente é doentio, surgirá dentro de si uma necessidade de buscar esse entendimento superior, e isso passa por algumas condições, sem as quais essa busca não poderá ser empreendida.

A primeira delas é ter uma vida ordenada, e o que isso significa? Isso significa que é necessário cuidar de si mesmo, da saúde do corpo e emocional. Ter um sono reparador e não se entorpecer com drogas de todos os tipos, nem buscar compensações em comida, compras e bebidas. Sem que o corpo esteja saudável, não há como a sensibilidade e a percepção possam assimilar o conhecimento e, ao mesmo tempo, tirar proveito das práticas que serão exigidas no processo evolutivo.

A segunda é ter um bom nível intelectual, afinal, para ler e entender é preciso ter uma mente treinada e receptiva às novas informações que chegarão. E isso é dado por leituras variadas, apreciar bons filmes, curtir música de qualidade, ir a um teatro e outras atividades que desenvolvem a percepção e ampliam a sensibilidade. A leitura é fundamental, afinal pensamos em palavras e quanto mais palavras soubermos mais nosso pensamento fica abrangente. E nessas leituras incluem-se biografias de pessoas que se admire, pensadores importantes com quem se afine, ficção, livros que tragam as mais recentes descobertas científicas e aqueles textos que passam pelo tempo sem perder validade e importância. É claro que depois que você se identificar com alguma ideia ou filosofia, ler e ler cada vez mais! Dentro do quesito leitura, também recomendo saber sobre outras correntes de pensamento, mesmo as antagônicas, para sempre estar reavaliando se continuamos onde estamos ou fazemos ajustes em nosso entendimento, já que mudar de ideia é coisa de gente sábia. Ficar preso a qualquer conceito ou crença sempre desenvolve o apego e o medo, afinal poderemos sofrer muito se descobrirmos que não era bem o que pensávamos. Lembre que a vida é baseada em flexibilidade e a rigidez (que tem a ver com nunca mudar de ideia) está ligada a morte.

O terceiro quesito é ser uma pessoa livre. Quando falo de liberdade, não falo de estarmos fora da cadeia, mas de possuirmos as condições de ir e vir no mundo com qualidade. Evidentemente que essa liberdade está muito ligada ao aspecto financeiro. Nenhum dos dois requisitos anteriores será útil se o buscador não dispuser de recursos para comprar os livros, fazer seminários e outras atividades que inevitavelmente surgirão ao longo desse percurso. Mesmo que venha a ser convidado a participar de alguma Escola ou grupo dedicado a estudos com os objetivos acima, isso necessitará de dinheiro, afinal o local de encontro e os livros ou apostilas tem um custo, que sempre é rateado entre os membros.

No mundo que vivemos, e de certa forma sempre foi assim, só é mesmo livre quem tem recursos para poder fazer o que quer. Poderíamos até questionar se, nesse caso, não estaríamos presos ao dinheiro. Na verdade, se não geramos os recursos, não temos liberdade, o que significa que o conceito de liberdade está “preso” ao compromisso de se trabalhar para consegui-lo. É um paradoxo, mas perfeitamente fácil de compreender.

Então, será que termos uma vida ordenada, bom nível cultural e recursos são suficientes para buscarmos essa evolução? Sim, mas desde que estejamos profundamente insatisfeitos com nosso estado de percepção atual e não queiramos assim permanecer. Para isso precisaremos não aceitar mais e nem negociarmos nossos passos evolutivos e estejamos dispostos a enfrentar, sem medo, todas as consequências que as grandes mudanças sempre trazem. Os nossos relacionamentos sempre sofrerão algum atrito, afinal não há como não mudarmos sem afetar nossos relacionamentos e isso sempre tem um preço.

A partir daí, almejar um estado evolutivo maior, buscar e encontrar esse cosmo pessoal e poder compartilhar com pessoas que tenham os mesmos objetivos comporá o que se precisa para a “grande viagem” que se empreenderá até o âmago de nosso ser, onde nada que for externo nos tirará do caminho.

Gurdjieff sempre disse que o ser humano tem muito medo de fazer esse caminho, justamente por ser muito mais cômodo e sem riscos ficar como está, em uma vida mecânica, cumprindo a cartilha do status quo, esperando que a promessa de que se for uma boa ovelha, o grande pai será benevolente com ela no juízo final.

Posso observar que muitas pessoas sonham com essa busca, mas, infelizmente não conseguem ainda, cumprir os pré-requisitos necessários. Talvez elas esperem que algum milagre torne tudo mais fácil ou ainda não sofreram o suficiente para se permitirem embarcar na única viagem que elas vieram cumprir, verdadeiramente, em suas existências.

O Ponto de Des-Conexão

“Nossas vidas são condicionadas pelo carma e são caracterizadas por sucessivos ciclos de problemas. Um problema começa, termina e logo tem início outro problema.” Dalai – Lama

Seríamos tão vulneráveis a ponto de sermos influenciados por boas e más “marés”, ou isso é mais uma das nossas intermináveis desculpas para nos eximirmos de nossas responsabilidades?

Não existiria nenhum sentido na vida, de estarmos experimentando uma existência se fossemos joguetes nas mãos do destino. A única lógica possível é de que somos responsáveis por tudo que nos acontece e a “sorte” ou “azar” fazem parte do nível de consciência que experimentamos. Dizem os psicanalistas que a grande parte de nossos atos é totalmente inconsciente de suas verdadeiras razões. É como se justificássemos nossas ações explicando que o motivo é como uma boia que flutua, enquanto a verdade é aquilo que prende essa boia no fundo do mar. Concordo plenamente com isso!

Enquanto não entendermos que a grande verdade é que tudo realmente só depende de nós, estaremos “vagando” pela vida ao sabor dos ventos. Se soprarem a nosso favor, tudo acontece de maneira tranquila, tudo dá certo, e a fase é chamada de “maré de sorte”. De outra parte, tem aqueles momentos em que nada dá certo, que nossos dias já iniciam tortos e já começamos a torcer para que ele chegue logo ao final. Não tem outro jeito a não ser torcermos para tudo dar certo?

Mas afinal, o que é carma? Segundo o Dalai-Lama “Carma é uma palavra sânscrita que significa ação. Designa uma força ativa, significando que o resultado dos acontecimentos futuros pode ser influenciado por nossas ações. Supor que o carma é uma espécie de energia independente que predestina o curso de toda a nossa vida é incorreto. Quem cria o carma? Nós mesmos!” Os sublinhados são meus.

Tudo que fazemos, pensamos, desejamos e, principalmente, nossas ações, sejam elas ativas ou reativas geram o que chamamos de destino, sorte ou azar. Achar que devemos apenas lamentar e dizer que algum acontecimento desagradável ou infortúnio é algo que devemos estar “merecendo” é não saber o que significa carma, mas uma auto piedade, uma lamúria sem sentido e resultado.

Evidente que existem acontecimentos, aparentemente sem nenhum sentido, mas mesmo eles que parecem não ter uma lógica é porque os estamos observando diante de uma pequena fresta que é o tempo presente, ou seja, não temos os dados que os antecedem e sucedem e que, com certeza, os dará o devido sentido e lógica. A categoria de “humano” nos cobra essa atitude pró-ativa diante dos acontecimentos e da liberdade de interpretar o que nos sucede de forma positiva. Isso, como todo o ato e pensamento, gera carma! Só que consciente. Quando a vida lhe oferece uma laranja, pode ter certeza que foi você que plantou a semente de laranjeira. O que normalmente acontece, é que estávamos tão inconscientes que não lembramos que plantamos essa semente (acontecimento) em determinado momento de nossa vida. Quando temos a lucidez de saber o que estamos fazendo, a surpresa ou acidente quase inexistem.

Se formos observar bem, todas as práticas e métodos ensinados pelas mais antigas Escolas da Tradição buscam apenas nos manter conscientes na maior parte do tempo. Isso e apenas isso, faz a diferença entre um animal e um Humano, mas é fruto de trabalho e perseverança. Como sempre friso, nenhum desenvolvimento é involuntário ou algum brinde da natureza. Não existe “almoço grátis”, em nenhum lugar, dimensão ou galáxia. Pode ter certeza disso!

Nossa tendência natural à inconsciência é que nos tira dos trilhos evolutivos e nossa vida nos mostra isso de várias formas, como as marés de azar ou algum sintoma que causa desconforto e dor no corpo que os exames clínicos demoram a detectar.

Nós aprendemos tudo baseados em erro. Todos nós aprendemos a caminhar pelos inúmeros tombos que levamos quando criança e isso vale para todas as etapas. Todo o sistema de aprendizagem leva em conta o erro porque isso é da nossa natureza. O que mais observo é quando as pessoas caem, o que é mais do que normal, ficam muito tempo no chão se lamentando e procurando respostas e explicações, ao invés de se erguerem em atitude positiva e seguirem adiante. Podemos até ao levantar e seguindo, errarmos o caminho, mas temos todas as chances de recomeçar se for o caso, mas em atitude de lamentação e caídos é mais do que certo que o rumo nunca será encontrado.

Nossa desconexão se dá por essa perda de percepção do que realmente queremos, quando ficamos prostrados diante dos obstáculos, aceitando passivamente a dificuldade, quando ela serve para dar o valor e o mérito a conquista que almejamos.

Se seu dia começa errado desde os primeiros minutos da manhã, simplesmente pare e tire um tempo para si. Feche seus olhos, respire conscientemente, retome o controle de si mesmo e não permita que só o final do dia ou da “fase” ponha termo a seu sofrimento. Coloque-se no lugar, ficando muito mais atento aos seus atos e reações, sendo pró-ativo e você verá que terminará seu dia sentindo-se muito bem por ter assumido o domínio de si mesmo e nada vai acontecer a não ser esse bem-estar.

As consequências do carma não precisam de outras vidas para aparecerem, algumas vezes o resultado de nossas ações vem em segundos, aliás sempre vem rápido demais. Nós é que não percebemos, afinal estamos desconectados da realidade, vagando nos pensamentos alucinados que nunca estão no presente e essa é a razão de não percebermos as sementes que plantamos a cada segundo.

Ninguém nasceu pré-determinado para sofrer ou ter sorte, isso é sempre resultado de ação e isso é carma. Certa vez ouvi o técnico da seleção brasileira de vôlei, Bernardinho, que foi perguntado pelo repórter se tinha “sorte” pelos inúmeros títulos que havia ganhado. Ele respondeu que sua “sorte” vinha de muito trabalho. E isso é pura verdade, quem busca com atitude sempre colhe frutos. Essa é a metáfora da frase de que “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Não há necessidade de levantar cedo para ter sucesso, mas é o símbolo de ter atitude e perseverança.

Imagine que você está em um barco com os remos em suas mãos. Sabendo para onde vai, terá momentos de ventos favoráveis e irá sem tanto esforço. Quando os ventos mudam, precisará segurar os remos com mais força para se manter no caminho e com certeza chegará forte a seu destino escolhido. Mas se não assumir os remos e não tiver sua rota definida, vagará infinitamente pelo oceano. Como disse certa vez Roberto Crema; “nenhum vento é favorável para o marinheiro que não sabe para onde vai”.

Por fim, lembre-se que você só pode estar de duas formas: conectado ou desconectado. Se estiver conectado, tudo estará diante de sua possibilidade; seus atos, reações e pensamentos. Isso tornará seu carma algo que foi escolhido conscientemente, ou seja, não haverá sorte ou azar.

 Mas se você estiver desconectado, precisará mesmo de sorte, de bons ventos que o carreguem. Mas lembre de que os ventos sempre mudam de rumo e podem não estar indo para onde você gostaria, nunca estarão! E nem seria justo que você chegasse porque isso é mérito!

Se você está me lendo, certamente já passou da idade de ter alguém que não seja você mesmo remando o barco da sua vida, ou de esperar que chegue a algum bom lugar sem remar!

A BUSCA DO HEROÍSMO

“O instinto comum da humanidade pela realidade sempre achou que o mundo era, essencialmente, um palco para o heroísmo.”

Willian James

Nelson Mandela

Nelson Mandela

Diferente, ou nem tanto, dos animais que buscam sua supremacia sobre os demais membros, o ser humano necessita buscar se destacar pelo heroísmo, ou seja, vencer-se de alguma forma e com isso, metaforicamente, buscar sua eternidade.

Esse conceito de heroísmo tem sua raiz contemporânea na ideia de narcisismo de Freud que, resumidamente, defendia que estamos sempre e perdidamente absortos em nós mesmos, negando a evidência da morte, pensando que isso só acontecerá com os outros. Não tenho nenhuma dúvida que essa percepção faz parte de nossa natureza animal. O narcisismo, inevitavelmente ligado à autoestima, é o que nos dá segurança em nosso amor próprio.

Quando na primeira infância, até os cinco anos em média, antes da formação completa do ego, observe que a criança não tem nenhuma vergonha de clamar em voz alta o que mais precisa, sem as avaliações de se preocupar se o que ela está querendo é certo ou errado. Isso passa a acontecer posteriormente, onde encobriremos nossos desejos e egoísmo atrás de um “personagem” que buscará, além de se sobressair, o carinho e respeito dos demais.

É da nossa natureza buscar nos destacarmos, de sermos algo na criação, como diz com propriedade Ernest Becker*, dando como exemplo as disputas entre irmãos para terem as vantagens e mais atenção dos pais. Brigam no mínimo reclamando que o irmão ganhou mais ou foi privilegiado. É como se precisássemos desde o primeiro momento nos tornar melhores, especiais.

Na idade adulta, seguindo a receita pronta do paradigma vigente, buscamos através de conquistas materiais e acúmulo de valores, muito mais do que atingir uma “felicidade”, queremos demonstrar nosso heroísmo de ter “vencido” a grande maioria das pessoas sendo mais rica ou mais poderosa que elas. E esse é o conceito do grande herói; é mais capaz e tem mais poderes que os demais. Nunca esqueça que o homem é um bicho simbólico e a sociedade, por consequência, um sistema de ação regido por símbolos, uma estrutura de condições sociais e de papéis, de costumes e regras de comportamento, destinada a servir de veículo para o heroísmo dos seres terrestres, como afirma Becker.

Analisando esse aspecto, como fica fácil entendermos as “vocações” heroicas, as profissões que se destinam a salvar vidas, onde quem morre em serviço tem as honras dadas aqueles que entregam suas vidas pelo bem dos demais. É raro quem toma para si um ato de entregar a própria vida se, para ele, se isso não representar um heroísmo, um feito que resistirá ao tempo e será lembrado para sempre na boca dos homens. Isso é imortalidade! Isso é vencer a morte!

 Portanto, isso faz parte da natureza humana e é por isso que uma criança sempre dirá que será um bombeiro, policial, jogador de futebol ou médico “quando crescer”, ou seja, desejamos a admiração e o poder de “salvar” as pessoas! Observe, que desde tenra idade, o terror da morte, de sermos aniquilados para sempre já está enraizado em nossas profundezas. Isso nos empurra para, pelo menos, uma saída simbólica para minimizarmos nossa angústia essencial e nunca mais sermos esquecidos. Ainda não vi nenhuma criança dizendo que será administrador, economista, comerciante ou empresário.  Pena que Freud tenha chegado a essa conclusão no final de sua vida!

Essa busca de reconhecimento, chamado de “sucesso” é que move as pessoas a buscarem a qualquer custo ser admirado pelos outros, já que, de outro lado, a grande massa precisa de seus ídolos para, vivendo suas vidas nos filmes e novelas, encontrar algum sossego do seu sofrimento diário por terem abandonado suas próprias buscas heroicas e se entregarem a uma vida sem sentido, vagando no dia a dia rotineiro. Esse sobreviver do “vou indo” é uma migalha para essa maioria que, simbolicamente, já morreu. A saída é no sofrimento dos “vilões” justiçados pelos heróis perfeitos, no grito de “gol” onde nossos ídolos nos redimem e nos ajudam a esquecer por breves momentos que tudo que fazemos é, pela cultura cristã ocidental, esperarmos nosso juízo final e termos nossa “vida eterna” sem sobressaltos, garantida pelo nosso bom comportamento no rebanho terrestre. Não é por acaso que muitos dos heróis divinos como Osíris e Cristo, por exemplo, ressuscitaram dos mortos. Todas as religiões e algumas que se vestem como “filosofias” se dedicam, essencialmente, a como suportar o fim da vida sem heroísmo e do que acontecerá depois. Algumas delas nos prometendo novas oportunidades e outras dizendo que se a felicidade não for atingida, nosso sofrimento nos purificará. Em qualquer uma dessas escolhas podemos ficar acomodados, perceberam?

Quando o destaque não vem, quando o heroísmo não acontece, ainda assim tentamos sobreviver a nós mesmos escrevendo nosso nome, data de nascimento e morte em uma pedra com o objetivo de vencer o tempo e o esquecimento. Esquecemos que nossa natureza animal já se encarrega dessa sobrevivência simbólica nos genes que passamos a nossos filhos. Deve ser por isso que se olhe com alguma estranheza a pessoa que decide não ter filhos, e mesmo os que assim escolhem se sentem estranhos. Seria, simbolicamente não querer “continuar” nesse mundo?

Saindo do conceito simbólico em direção à vida prática, podemos cumprir nossa jornada heroica quando nos arriscamos em busca de evolução, de felicidade. Quando decidimos abandonar o que já não nos preenche em busca de nossa vocação, de vivermos quem somos, ouvindo nossa vontade, estamos nos tornando heróis! E isso sempre é muito difícil, já que nossa natureza primitiva adora a acomodação, o conhecido.

Justamente por isso, observo muitas pessoas esperarem anos para empreenderem sua “jornada”; fazem de um longo tempo de sofrimento o pagamento por abandonarem o conhecido, a opinião dos demais e rumarem evolutivamente para a emoção de se estar vivo!

Toda a pessoa que está feliz tem um ato de heroísmo pessoal para contar; seja o quanto se arriscou, do medo da mudança que superou ou do desespero de se sentir completamente só em sua ideia, como se fosse um louco (a).

Não há necessidade de ser reconhecido pela mídia, de se tornar famoso ou admirado. No fim, faz sentido a natureza humana nos empurrar para o comum, nos acomodar no medo de mudar e de buscarmos uma segurança doentia, afinal assim poderemos sobreviver mais tempo! Isso precisa ser assim para que possamos evoluir. A busca desse encontro consigo mesmo não é do bicho homem, mas de quem o habita, não é do imanente mas do transcendente!

Todo o herói que empreende sua jornada precisa de uma causa, algo que o faça vencer todos os perigos e retornar aos seus, ressuscitado pelo seu ato. Nelson Mandela, um dos heróis contemporâneos, disse certa vez que temos um medo natural de assumirmos nossa grandeza.

Tudo fará sentido se vencermos a nós mesmos, mas nunca se esqueça de que esse medo não é “seu”, mas do “bicho” onde sua consciência reside! Superar esse obstáculo é o que, por fim, nos tornará Humanos!

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* “A negação da morte” – Ernest Becker, ed. Record

Recomendo a leitura dos artigos anteriores “A dificuldade de mudar“, “Paradigmas“, “Os quatro pilares da realização“, “O Sentido da Vida“, “E agora?“, que ilustram e ampliam o tema desse artigo.