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Cortina de fumaça

“É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.”   

                                                                  Clarice Lispector  –  Outros escritos

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber.”

                                                         Markus Zusak – A menina que roubava livros

 inconsciente

É comum dentro do processo da psicoterapia a pessoa conseguir resolver rapidamente o problema que a levou a procurar ajuda. Claro que isso não acontece sempre, afinal nada é mais imprevisível do que uma terapia, onde duas pessoas estão sempre em transformação (cliente e terapeuta). Existem obviamente situações que demandam mais tempo, mas quero me referir aqui a esse aspecto em particular.

A própria pessoa reconhece que o problema não é tão grave ou difícil (lembrando que todo problema é importante), mas tem dificuldade em entender o motivo de não conseguir resolvê-lo, ou conclui que a questão pode ser mais complexa e esse seja o motivo da demora.

Minha percepção mostra que essa “dificuldade” nada mais é que o problema em questão está sendo mantido ativo por atender a uma necessidade que está inconsciente (na maioria das vezes). Mas, afinal, qual o motivo de mantermos problemas que reconhecemos como simples no catálogo dos insolúveis em nossa vida?

A resposta é simples: os mantemos assim para não precisarmos enfrentar o verdadeiro problema, esse sim, mais difícil de resolver por sua solução, normalmente, afetar vários campos que estão estáveis na vida da pessoa e ser antevisto como muito sofrido.

Como diz o título desse artigo, é uma “cortina de fumaça” que esconde ou ajuda a nos entretermos com algo bem menos perigoso, enquanto esperamos duas coisas pouco prováveis de acontecer:

A primeira, é o dito problema se resolver sozinho, sem que seja necessário mover as montanhas que imaginamos que existem para sua solução, ou não precisemos sujar nossas mãos de sangue (é uma metáfora). Quando digo isso é por termos a ideia que nossa ação na mudança pretendida vai trazer sofrimento a outras pessoas e nos tirar alguns confortos. Além disso, sempre tem o medo da nova situação ser pior que a atual e que a mudança não teria sido um bom lance no jogo da vida. Como já frisei em outras oportunidades, dificilmente o que está ruim pode melhorar por si, enquanto a mudança traz a possibilidade de um quadro muito melhor no futuro.

Tudo que é vivo se caracteriza por ser instável, imprevisível e estar em risco, mas nossa mente detesta aventuras. Nunca esqueça que ela só gosta do “de sempre”, mesmo que esteja ruim ou esteja nos fazendo sofrer. O que se pensa nesse caso vem do ditado popular, que, como outros, estão no nosso subconsciente, como leis em nossa vida: “não se troca o certo pelo duvidoso”. Particularmente penso que se o que chamamos de “certo” é ruim, o “duvidoso”, pelo menos, abre algumas possibilidades.

Quando o caso é relacionamento tem o não menos famoso “ruim sem ele(a), pior sem”. Esse ditado afeta mais as mulheres, que na nossa cultura, infelizmente, só se explicam se estiverem acompanhadas. Parece que estar com alguém é um atestado de competência feminina, e esse “alguém” pode não ser tão bom assim. Se você é mulher e está me lendo, quero deixar claro que isso não a inclui, sei que isso não acontece com você e nem é assim que pensa, estou falando das outras…

Já no caso dos homens a palavra que comanda é a acomodação. Os homens, na sua maioria, lidam com o regular como sendo bom e mudar dá trabalho, despesas e um recomeço que, se o sofrimento não for insuportável, pode esperar uma outra oportunidade (que normalmente nunca chega).

A segunda maneira de não enfrentar diretamente o problema é uma pequena variação “mística” da primeira, só que mais absurda: entregar para “Deus” ou para o “Universo” a solução do imbróglio. Nesse modelo a situação fica risível, já que tudo fica resolvido de um jeito ou de outro.  Afinal, se a situação não muda (claro que não vai) é porque Deus não quer, e isso é um “sinal” de que se precisa continuar como está. Com certeza, tem a ver com “vidas passada” ou “carma” a ser resolvido e o sofrimento é uma purificação ou acerto de contas com a vida. Assim, meu sofrimento se torna algo útil que vai tornar minha próxima vida melhor, ou me encaminhar ao paraíso. Olha que inteligente: minha dor fica sendo uma maneira de me tornar uma pessoa melhor!

Você pode me perguntar: de que ditado vem essa abordagem confortável e de entregar para nosso deus a solução?

“Deus sabe o que faz”, ou, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mas, você pode preferir o inigualável: “Todo sofrimento é enviado por Deus para nos purificar e expiar nossas culpas”. Sofrer fica bom, traz vantagens e não preciso fazer nada para mudar!

Nossa inteligência não tem mesmo limites e a criatividade pode nos levar a lugares, realmente, inimagináveis!

Por isso, caso esteja acontecendo de você estar com um problema antigo, que você mesmo não consegue entender o motivo de persistir por tanto tempo, investigue se ele não está servindo para distrai-lo do que realmente seja o motivo da sua tristeza.

Isso é muito mais comum do que se possa imaginar e ninguém faz por mal ou covardia. Lembre que nossa mente não lida bem com nada que nos faça sofrer e isso sempre a deixa em estado de alerta. Nessa hora, mudar o foco e ficar olhando para “outro lado” é uma saída saudável do ponto de vista da mente.

Quando isso acontece no consultório, a pessoa sempre diz que não entende porque resolveu tão rápido essa questão que a incomodava a tanto tempo e tende a dar todo o mérito ao terapeuta. Por isso, sempre digo a meus alunos e futuros colegas que nem toda vitória da terapia é um mérito exclusivo do terapeuta, aliás,  nunca é.

Assim, uma solução rápida muito mais do que um resultado surpreendente pode ser apenas um aviso que o realmente importante e decisivo esteja por vir. O problema anterior foi removido e agora ficar-se-á cara a cara com o verdadeiro inimigo.

Como frisei, não é sempre assim e não são todos os casos, mas os consultórios, comumente, sempre tem um habitual cheiro de fumaça.

O terceiro fator

           “Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe”

Oscar Wilde

 

  “ Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma.

     Vivo em uma dualidade dilacerante.

     Eu tenho   uma aparente liberdade,  mas  estou presa dentro de mim.

      Clarice Lispector

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Muito se fala desse mundo de dualidade, do bem e do mal, da saúde e da doença, alegria e tristeza, etc. Todos já cansamos de ouvir que o caminho do meio é a solução para o sofrimento desse paradoxo. Sempre que estamos fixos em um dos polos estamos sofrendo, justamente por excluir o outro. Assim, por exemplo, sofremos se estamos doentes, mas também sofremos quando estamos saudáveis pelo medo da doença chegar. Isso vale para tudo.

A sabedoria do caminho do meio é inclusiva, nada despreza e atende o equilíbrio pela interação dos opostos. Ainda alguns pensam que estar “bem” é estar livre de problemas, pura ilusão! Estar “bem” é lidar com os problemas de forma evolutiva e pouco sofrida. Ansiamos por um dia em que nada nos preocupe. Se esse dia chegar (peça para o Papai Noel), estaremos preocupados pensando que preocupação teremos em seguida e qual será.

Mas existe ainda a, talvez, mais profunda e enigmática dualidade: entre a mente e o espírito (Self, ou qualquer outro nome que designe o imaterial ou eterno em nós). Qual seria então o caminho do “meio” entre esses antagônicos?

Em numerologia dizemos que o Três é o número perfeito, já que traz em si a completude ou a expressão da ideia. Assim os cristãos dizem “Pai, Filho e Espírito Santo”, os egípcios “Isis, Osíris e Hórus”, os Indus “Shiva, Brahma e Vishnu”. Fora da religião, temos o dia que se manifesta no amanhecer, entardecer e anoitecer. Da mesma forma temos o alto e médio e o baixo, o quente o morno e o frio e assim por diante.

Falta então para o entendimento da dualidade seu terceiro elemento, que  abrange e elimina o contraditório pela síntese.

Como sabemos, a mente se caracteriza pelo medo com objetivo da manutenção da vida. Isso explica sua função de nos manter constantemente negativos e apreensivos, mesmo nos melhores momentos. De outro lado, temos aquela “voz” interior que nos pede o novo, o arriscado, ou em outras palavras, a evolução. Para a mente o conhecido, para o espírito o desconhecido, afinal como crescer sem avançar? Avançar é ir além e buscar mais, vencer desafios e correr riscos, como consequência óbvia.

Nossa vida sempre é resultado dessa fricção entre os opostos e o destino é o outro nome que damos as nossas decisões. Poderia então haver algo mais do que a mente e o espiritual? Haveria esse meio termo que abarcasse ambos e nos aliviasse do sofrimento?

Se formos  pelos conselhos da nossa mente, ficaremos sempre na mesma. Ela precisa do conhecido e quer nos manter vivos, independente da qualidade dessa vida ou se estamos crescendo ou não. Mudança, só na necessidade quando não tem mais jeito.

Já o espírito, eterno e  “imagem e semelhança” da criação, não está muito aí para os cálculos e receios e quer mais que vivamos intensamente, pedindo novidades, que o leve para novos caminhos e descobertas, seja qual for.

Assim, imagine-se como um empresário que tem dois assessores, um extremamente conservador e cuidadoso e outro completamente “louco” que só pensa em arriscar e inovar. Todas as decisões desse empresário passam por ouvir seus dois assessores e ele sempre busca a melhor escolha.

Se os dois assessores são a mente e o espírito, quem será o empresário, aquele que dá a palavra final?

Precisa ser alguém que não seja nem um nem o outro, ou os dois ao mesmo tempo, buscando o acordo.

Esse grande chefe chama-se, para mim, nossa Consciência, o terceiro elemento que completa o Humano.

Tenho certeza que já foram muitos momentos em que todos  internamente já ouvimos nossos “assessores” discutindo sobre nossa vida, se deveríamos ou não fazer isso ou aquilo. Quanto mais a discussão fica acirrada, mais vamos achando que vamos enlouquecer ou que entramos em um beco sem saída. Cabe lembrar que eles nunca chegarão a um acordo. Isso não é possível pela total oposição, deixando o entendimento entre ambos, impossível.

Atualmente com um alto nível de decepção com as religiões e seus resultados, e aqui cabe afirmar que elas não têm culpa, o problema é a expectativa ou essa transferência que fazemos para “alguém” resolver nossas questões, experimentamos um mundo cada vez mais ansioso. Essa ansiedade e suas consequências, como aumento das compulsões alimentares, álcool e drogas e tudo mais se dá para os que só ouvem a mente, procurando estancar o sofrimento, está adoecendo a humanidade. O medo advindo dos pensamentos negativos sem fim bloqueia o processo criativo e evolutivo, já que ficamos acuados por medo de que as mudanças que ansiamos não deem certo e viemos a passar necessidades ou privações. Quem tem na mente sua única maneira de viver, trata os pedidos do espírito com desdém, chamando-os de “viagem”, bobagens e outros nomes pejorativos.

Para os que só ouvem o espírito, muitas vezes as decisões são pouco trabalhadas, baixa persistência e mudanças constantes que também têm suas consequências, como por exemplo, a perda da capacidade de se ir até o final dos processos e correr riscos desnecessários. Tudo atrás das constantes mudanças imaginando cada uma como o que falta para atingirmos essa felicidade. Para eles, as precauções que a mente solicita são consideradas como covardia ou receios, a quem  não se deve dar ouvidos.

Assim, cabe ao grande gestor interno, a Consciência, saber avaliar e escolher o melhor caminho, dando razão ora a um, ora a outro e às vezes contemplando ambos.

Porém isso só é possível se entendermos ou soubermos qual assessor está falando e qual é a sua natureza. Lembre que um nunca trará pensamentos do outro. Esse exercício de observação não é difícil de ser feito, mas exige atenção a si mesmo e, principalmente, tomar essa posição de neutralidade e observação.

Nossa ligação com o corpo que habitamos nos empurra de forma natural e instintiva para a mente, afinal ela nos mantém vivos e isso é muito importante. Pode-se começar prestando mais atenção aos pedidos de novidade do espírito, permitindo que se manifestem livremente. Não os julgue, apenas observe a mensagem até o final. Nunca exclua pensamentos ou intuições que fazem seu coração vibrar de emoção e imaginar a sensação de realização. Aliás, sentir-se realizado é outro nome para a coragem de ter vencido as precauções da mente.

Depois, procure conciliar levando em consideração a natureza dos conselhos e encontre esse caminho do meio que nos recomenda Lao Tse.  Busque seu crescimento sem desprezar ou analisar as circunstâncias e tome a decisão como um juiz ou o empresário. Como essa sentença (escolha) afetará a sua vida, responsabilize-se por ela e não se lamente pelo que não fez.

 Mudança sempre dá medo, mas é sempre necessário avançar. Tudo que chega ao seu limite inicia o processo de estagnação e é questão de tempo para começar o protesto da nossa parte que precisa avançar se mostrando em angústia e um vazio interior que nenhuma recompensa material consegue suprir. Nos alimentamos espiritualmente de sonhos e conquistas que nos façam melhores que somos. O que não quer dizer não refletir, ponderar e saber, vez por outra, esperar.

Lembre que tudo que está em processo de mudança cresce e está vivo, mas esse mundo material que vivemos exige ponderação misturada com coragem. Pratique e quando isso for uma experiência verá que na verdade não existem opostos, mas uma coisa só que se manifesta de duas formas.

Essa percepção da unidade só se dará pelo olhar do terceiro e decisivo elemento, a consciência.

Ao findar esse texto, é lícito pensar que tínhamos um problema quando começamos a leitura que era dar fim a essa divisão e agora o problema pode parecer maior, já que um novo integrante precisa ser ouvido. Não é isso.

A consciência não precisa ser ouvida, é ela que ouve!

 

 

 

 

A vitória do mais fraco

“A fim de superar um sentimento de vazio interior e impotência o homem escolhe o objeto no qual projeta todas as suas qualidades humanas: seu amor, sua inteligência, sua coragem, etc. Ao submeter-se a esse objeto, ele se sente em contato com suas próprias qualidades; sente-se forte, inteligente, corajoso e seguro. Perder o objeto significa o perigo de perder a si mesmo.”

                                              Erich Fromm

                                                                                                                                                    Davi e Golias

Uma das coisas que chama a atenção nos esportes é a torcida a favor do mais fraco, mais pobre, menos favorecido em detrimento do mais qualificado, poderoso ou mais rico dos competidores.

Esportes que não ofereçam essa possibilidade não caem muito no gosto popular, já que torna a possibilidade da vitória heroica menos possível. Talvez possa ser interessante refletirmos sobre essa tendência e porque quando acontece nos emocionamos tanto.

Costumo sempre pensar que o encantamento da vitória do mais fraco seja a de nos mostrar que nossos sonhos também são possíveis. Projetamos no esporte, por exemplo, essa realização que nós mesmos achamos impossível em nossas vidas e é por isso que traz tanta emoção quando o mais fraco vence como nos mostra a metáfora da luta entre Davi e Golias. Transferimos nosso poder a um ídolo daquilo que não conseguimos concretizar em nossa vida.

Temos medo das mudanças que queremos, justamente por não termos a certeza que teremos sucesso. Nunca pensamos que nosso desejo se realizará, pelo contrário, esperamos sempre o pior e isso é que impede que muitos sequer façam uma tentativa.

Acostumamo-nos com esse jeito que queremos mudar e depois não conseguimos nos desapegar de parte de nós mesmos que sabemos que não está indo bem e está atrapalhando nossa vida. Isso nem é tão difícil de entender; somos como somos por muito tempo e mudar significa nos tornarmos algo desconhecido para nós mesmos. Pode parecer estranho, mas pare para pensar um pouco e verá que posso ter  razão.

Sonhamos com mudanças que, para acontecerem, necessitam que sejamos diferentes do que somos hoje e aí é que mora o perigo ou o medo. Essa mudança tão necessária para criar as condições para a transformação significa, em outras palavras, perdermos parte de nossa identidade (normalmente a que não está dando certo), e isso gera muita insegurança.

Como aprendemos que não devemos trocar o certo pelo duvidoso, tendemos a preferir ficar como somos a irmos em direção ao desconhecido, mesmo que essa pessoa esteja infeliz ou frustrada com sua vida hoje. Mesmo que seja claro que não haja quase nenhuma possibilidade das coisas melhorarem por si mesmas – quase nunca há, apesar de sonharmos com mudanças em que não precisemos nos esforçar – continuamos com a tendência de ficarmos onde já conhecemos.

Daí, adoramos ver as histórias de vida das pessoas que venceram dificuldades grandiosas, dos desprezados que se indignam com sua situação e transformam suas vidas, ou dos pequenos times que vencem os “grandes” e fazem história. Tendemos a não lembrar das vitórias comuns, onde o previsto acontece, mas tornamos verdadeiras lendas as vitórias consideradas impossíveis.

O leitor poderá argumentar que essas grandes vitórias contra o “destino” são em pequeno número se compararmos com as vitórias dos considerados “melhores” e é justamente aí que quero chegar. Porque sempre, ou na esmagadora maioria das vezes vence o melhor e mais preparado? Justamente por ser melhor e mais bem preparado!

Muito dos grandes de hoje, quase a maioria, foi pequeno antes de se tornar vitorioso e isso tem a ver com enfrentar o medo e acreditar que o impossível é possível. Até penso que muitos desses pararam para observar que, como isso acontece com certa frequência, nem deve ser tão difícil assim.

E aí eu faço uma pergunta: será que me sentir inferior,  achar que não consigo,  que o sucesso não é mesmo para mim ou que não nasci com a bunda virada para a lua, seja uma maneira com que me identifico e sobre a qual estruturei toda a minha vida e visão de mundo? Se for assim que me vejo ou me disseram que devo pensar, nunca mesmo vou conseguir. O mais perto que se chega, nesses casos, é chorar no cinema, no último capítulo do livro ou nos estádios pela vitória dos outros.

O grande sucesso que essas histórias fazem é justamente fazer-nos vibrar com a vitória dos outros, que venceram por “nós”. Tornamos esses vencedores nossos ídolos, compramos os produtos que eles anunciam, usamos suas camisas com orgulho, mas infelizmente, para a esmagadora maioria, não muda nada em suas vidas.

Esses vencedores parecem ser de outro mundo, onde o impossível acontece, não do nosso, das dificuldades e da esperança de uma recompensa no céu por todas as dificuldades que passamos.

Parece que a vitória dos “heróis” nos basta, ficamos preenchidos por elas e isso nos acomoda nas derrotas cotidianas. Vingar-nos-emos quando assistirmos outra superação ou quando algum Golias cair de cara no chão.

Palestras motivacionais estão sempre cheias porque nos dão uma dose de algumas horas de que é possível entrarmos para o Olimpo dos bem sucedidos, mas isso dura pouco e, em poucos dias, a rotina nos recoloca de novo na poltrona a espera do nosso milagre.

De outra forma, isso também pode ter a ver como as pessoas gostam de acompanhar escândalos com pessoas famosas, onde a queda é grande. Inconscientemente, isso pode mostrar como é bom ser um anônimo, desconhecido e desfavorecido. Quanto mais perto do chão estiver, a queda nem machuca. Preferimos acreditar que o “reino dos céus” será o pagamento por ser uma ovelha obediente, e com certeza, passaremos sem dificuldade pelo “buraco da agulha” que separa os que merecem daqueles que vivem bem e confortavelmente no pecado de serem bem sucedidos.

Estamos sempre transferindo nossos sonhos e frustrações em outros lugares, pessoas e situações com o objetivo de tirar o foco e a responsabilidade sobre nós mesmos. Como disse Willian Silverberg * em uma clássica definição psicanalítica da transferência:

 “A transferência indica uma necessidade de exercer um controle total sobre as circunstâncias externas com toda a sua variedade e multiplicidade  de manifestações. A transferência pode ser considerada como o duradouro monumento à profunda rebelião do homem contra a realidade e a sua teimosa persistência nos caminhos da imaturidade.”

Portanto, penso que ser Golias é melhor e dá mais resultado. Vez por outra ele encontra um Davi pela frente, mas isso chega a ser tão raro que vira história e a vida bem vivida é sempre feita de mais vitórias que derrotas. Perder faz parte e é do jogo, nos ensina os caminhos a serem corrigidos, para podermos continuar vencendo na maioria das vezes.

Como bem diz uma propaganda em voga durante a copa do mundo, o negócio é menos discurso (desculpas) e mais atitude. Nunca esqueça que o pior dos arrependimentos é o de não ter buscado sua realização, seja no campo que for.

Só assim teremos histórias para contar onde seremos os protagonistas. É muito melhor falarmos de nossas conquistas do que contar as vitórias emocionantes dos outros.

*Citado por Ernest Becker em “A negação da morte”.

Psicopatas

 “Quanto maior o homem, tanto maior também o seu potencial de maldade.”

Sabedoria  Judaica

Psicopata

Quando falamos em psicopatas a primeira coisa que nos vem à mente são os mais famosos, os assassinos frios, que viram motivo de filmes e séries americanas, ou então aqueles que cometem crimes cruéis e, muitas vezes em série, os famosos serial killers. Mas, como tudo, a psicopatia existe em vários níveis e nem todos ficam “famosos”, aliás, a maioria deles continua por aí, provocando seus danos e ninguém pensa na possibilidade de ter em sua convivência próxima algum deles, já que o que se tem em mente são os casos mais graves.

Independente do nível, se diet, light ou hard, psicopata é psicopata e a ideia desse artigo é fornecer alguns indícios que possam ajudar a reconhecê-los e começar a tomar cuidado, e a primeira informação que quero dar é que psicopatia não tem cura, ou seja, se convive com ele(a) e se você descobrir que tem um por perto e for uma pessoa importante, não fique na esperança que um dia ele (a) irá melhorar, isso não é possível, já que hoje a ciência identifica que nos psicopatas as áreas do cérebro responsáveis pela empatia, remorso (sentir o sofrimento do outro e se compadecer), apresentam um desenvolvimento menor ou uma diminuída capacidade de funcionamento. Porém, suas capacidades cognitivas e racionais funcionam perfeitamente, o que os torna frios e calculistas ao extremo. Isso quer dizer que são somente racionais, sem capacidade de sentir emoção, ou seja, os meios justificam totalmente os fins.

Os dados estatísticos falam que três homens e uma mulher para cada cem pessoas são psicopatas. Eles nunca e jamais experimentarão qualquer tipo de constrangimento, sentimento de culpa ou lamentarão o fato de enganarem, magoarem e simplesmente usarem as pessoas para atender seus interesses. Eles acham isso a coisa mais natural, justamente pela parte do cérebro, principalmente a parte relativa a sentimentos, praticamente não funcionar. Por outro lado, eles têm um encanto natural, são charmosos (a) e sedutores (a), e como são ótimos atores, afinal só assim conseguem seus objetivos, fazem com que suas vítimas levem muito tempo até se darem conta de com quem estão metidas.

Um dos sinais que podem ser percebidos é que eles não conseguem o tempo todo esconder sua face má. Ao mesmo tempo em que são simpáticos e agradáveis, às vezes deixam escapar ações ou pensamentos impulsivos, violentos ou preconceituosos. Como ótimos atores, o psicopata se faz de “coitado” para captar a pena e simpatia de sua vítima. Aliás, é importante colocar que as principais presas são justamente pessoas de bom coração, muito solidárias, sentimentais e carentes de afeto e atenção. Eles criam fortes vínculos de amizade ou de relacionamentos afetivos com o objetivo de, no momento apropriado, dar o bote certeiro. Para se aproximar, criam histórias muitas vezes mirabolantes sobre si mesmo, cheias de encanto e o mais engraçado é que quando um psicopata é pego em suas mentiras, é como se nada tivesse acontecido, nem se importam.

Todo o seu encanto está em se apresentarem muito bem articulados (lembre que normalmente são muito inteligentes), divertidos e muito simpáticos. Apresentam conhecimentos sobre várias áreas como filosofia, artes e atualidades, muitas vezes usando alguns termos técnicos com o objetivo de se tornarem mais convincentes e atraentes. Mas se forem questionados por alguém que seja do ramo específico do conhecimento podem ser logo desmascarados, mas como são hábeis em mudar de assunto, normalmente demoram a ser descobertos.

Nos seus relacionamentos são controladores, sempre com  mania de grandeza e fazem sempre o outro sentir-se culpado, assim vão exercendo seu domínio e manipulação de forma sutil e profunda, deixando sempre a outra pessoa em “dívida” emocional.

Apresentam também uma capacidade bastante reduzida de autocontrole e baixíssima tolerância com frustrações, explodindo com violência, ameaças e desaforos. Porém, logo se recompõem como se nada houvesse, sempre explicando sua reação desmedida como uma resposta ao comportamento inadequado de outra pessoa. Lembre que o psicopata é sempre vítima!

De forma geral demonstram uma total ausência de sentimento de culpa por suas ações, apesar de se dizerem comovidos, suas atitudes demonstram o contrário. Aqui, faço um parêntese para reforçar algo que já citei em artigos anteriores; esqueça o que a pessoa diz, avalie apenas suas atitudes. A maioria é ótima de discurso e muito ruim de ação.

Infelizmente, por serem pessoas que convivem normalmente em sociedade, os estudos com psicopatas só podem ser feitos com aqueles que cometeram crimes e estão presos, portanto, nos casos mais graves. Assim, nos EUA, foi feito um experimento com alguns deles, onde era mostrado um vídeo com cenas de extrema violência e crueldade que, em pessoas normais, afetavam (aceleravam) os batimentos cardíacos, justamente pela empatia. Nos psicopatas testados, as piores cenas não alteravam em nada sua emoção, é como se estivessem vendo desenhos animados…

Os psicopatas não gostam muito de rotina, pois tem vício em excitação, logo não se sentirão bem em atividades que exijam muito compromisso e concentração por longos períodos. Não gostam de obrigações de nenhuma espécie, logo são incapazes de serem confiáveis e responsáveis em qualquer área da vida. Se não for do seu interesse, simplesmente não aparecem ou descumprem os compromissos estabelecidos.

Por se tratar de um problema de funcionamento da estrutura do cérebro, o psicopata já nasce assim e assim permanecerá. Seu comportamento doentio já pode ser identificado desde a infância: maltratam animais e outras crianças, mentiras recorrentes, pequenos roubos, trapaças nos jogos e brincadeiras (ignoram as regras para obter vantagens), violência e vandalismo. Todas as pesquisas demonstram que esses tipos de comportamentos na infância e adolescência são fortes indicadores da criminalidade na idade adulta, assim como os estupradores em série normalmente atendem ao diagnóstico de psicopatia. Mas aí você poderia argumentar que nem todos que apresentam esse tipo de comportamento são psicopatas necessariamente. É verdade, mas nunca esqueça que o fator que, somado a esses indícios que indicam a psicopatia, é a ausência de sentimento de culpa e afetividade.

Pela legislação vigente o psicopata só pode receber esse diagnóstico após os 18 anos, antes disso normalmente recebe o nome de “transtorno de conduta”. Esse ponto pode até remeter a discussão da maioridade penal que hoje e de tempos em tempos, volta a baila no Brasil. Como curiosidade, a responsabilidade criminal em alguns países atende a idades bem diferenciadas; Austrália e Suíça é de 7 anos. Dinamarca, Finlândia e Noruega, 15 anos. Na Inglaterra, dependendo do crime com 10 anos ou menos. A questão óbvia é que, em qualquer dessas idades a pessoa sabe o que está fazendo. A educação é sempre caminho, mas no caso do psicopata nada vai cura-lo, e mantê-lo solto (nos casos mais graves) é saber que os crimes se sucederão inevitavelmente.

O que as famílias podem fazer quando, por exemplo, um filho (a) atende aos quesitos e é diagnosticado como “transtorno de conduta”? Nada, além de uma disciplina dura e rígida sempre! Rédea curtíssima, vigilância e um sistema de punição que funcione, poderá, nos casos mais leves e moderados ajustar de alguma forma, mas para a cura ainda não se tem notícia, infelizmente.

A seguir, repasso os comportamentos frequentes que indicam a presença de psicopatia, tendo como fonte o livro “Mentes Perigosas” de Ana Beatriz Barbosa Silva (editora Fontanar), onde mais informações e relatos de casos poderão ser encontrados para maior entendimento do problema:

-Mentiras frequentes

-Crueldade com animais e pessoas

-Não aceita a autoridade

-Impulsividade e irresponsabilidade

-Culpa sempre os outros (papel de vítima)

-Insensibilidade e frieza emocional

-Ausência de culpa ou remorso

-Falta de constrangimento ou vergonha quando pegos nas mentiras ou em flagrante delito

-Dificuldade de manter amizades

-Faltas constantes no trabalho e escola

-violação constante de regras sociais

Evidente que esse é um tema que mereceria mais espaço, mas a finalidade é trazer alguma informação que possa ser útil a identificar se em suas relações possa existir um psicopata e ajudar e entender como são e funcionam essas pessoas. Evidentemente que só um profissional habilitado pode fazer o diagnóstico, mas se preenche a maioria dos quesitos acima, mantenha-se atento!

Nunca esqueça que a grande maioria dos psicopatas não é assassino, mas pode feri-lo material e emocionalmente, sem dó nem piedade, basta ele perceber em você alguma utilidade para seus fins. Eles não tem cara de assassinos ou bandidos, aliás, o mal não tem rosto.

Nem isso, nem aquilo

 

“Tocar o mal acarreta o grave perigo de sucumbir a ele, precisamos, portanto, deixar de sucumbir a qualquer coisa, inclusive ao bem. Um bem ao qual sucumbimos perde seu caráter ético. Qualquer forma de vício é nociva, quer se trate de álcool, narcóticos ou idealismo. Precisamos evitar em pensar o bem e o mal como opostos absolutos. O reconhecimento da realidade do mal, necessariamente torna relativo o bem – e também o mal – convertendo cada um deles na metade de um todo paradoxal.”

Carl G. Jung – O problema do mal no nosso tempo.

“Bem e mal são os preconceitos de Deus; dizia a serpente.”

Nietzsche

bem e mal

A filosofia sempre se debateu sobre essas questões básicas como o conceito de verdade, de moral e do que se considera o “bem”. Todo o julgamento que fizemos se dá, em meu entender, porque nossa mente sempre precisa de definições já que isso a deixa segura por, digamos, entender o que se passa e a de formar uma ideia a respeito seja do que for. Não é difícil de exemplificar: quem já não conheceu uma pessoa e só de vê-la (interpretá-la seria a palavra correta) fez todo um julgamento, simpatizando ou não. Passado algum tempo, convivendo, essa ideia inicial foi totalmente reformulada. A questão seria mais simples se esperássemos um tempo para depois dizer o que achamos dessa pessoa. Mas nossos julgamentos são automáticos e isso não podemos evitar, mas, não levar esse julgamento em consideração, sabendo que o tempo é mas sábio que a mente, isso sim já é uma evolução.

Quando estamos falando do que é o “bem” e o “mal” isso também acontece, só que nesse caso, foi à cultura que nos forneceu as bases desse entendimento automático da mente, e lá estamos nós julgando rapidamente, de novo!

Jung diz que o julgamento moral, pelos motivos acima, está sempre presente e isso também traz consequências psicológicas. De certa forma, ele poderia estar tratando do conceito de carma quando afirma: “Assim como no passado, também no futuro, o erro que cometemos, pensamos ou intencionamos, se vingará de nossa alma.”

Mas qual a certeza que temos que a base desses conceitos que nos foram introjetados por educação ou porque não dizer, por punição, são realmente corretos? Tudo é subjetivo e tem sofrido mudanças, dependendo da época ou necessidade. Isso quer simplesmente dizer que a base do conceito de “bem” e de “mal”, como todos os outros, é incerta e relativa, muito relativa.

Aprendemos que nenhum valor pode ser maior que vida humana, certo? Depende, já que se entrarmos em guerra contra outro país (isso ainda acontece, por mais incrível que pareça), se em uma determinada ação eu vier a tirar a vida de muitos “inimigos” serei condecorado, considerado herói e até terei no futuro uma estátua em alguma praça. Aliás, a maioria das figuras nessas praças são de heróis de guerra, que, dependendo do ponto de vista, poderia chamar de assassinos, ou não?

Todos amam seus animais de estimação, os tratam como pessoas, gastam fortunas com eles, mas daqui a algumas horas de voo, eles fazem parte do cardápio de restaurantes caros. Quando alguém aparece ou é denunciado por maltratar um cachorro, pode até ir preso, mas de outro lado não se importa muito com a rotina dos abatedouros, onde animais com o mesmo cérebro emocional (capacidade de sentir e sofrer) de seu amigo “que só falta falar” são trucidados diariamente, para nosso deleite gastronômico. Em outros lugares, esses mesmos animais são sagrados e arderemos no inferno se os maltratarmos. Diante de tantas incoerências, porque poderemos afirmar que alguma coisa ou ação é realmente boa ou má?

Torna-se necessária muita coragem para exercer a liberdade de evitar aquilo que é considerado “certo” e termos a ação de fazer o que se entende por “errado” se nossa decisão interior (poderemos chamar de ética pessoal) assim o entender. Conforme a filosofia hindu, neti neti (nem isso, nem aquilo). Penso tornar-se necessária uma elevada dose de confiança e autoconhecimento para fazer o mal, quando se sente necessário. A maioria das pessoas sucumbirá aos condicionamentos sociais e a opinião normótica sobre o tema.

Na verdade, quando a ação é consciente ela é sempre certa para quem age, a questão da avaliação moral dessa atitude fica por conta da cultura vigente e dos limites que essa cultura pode impor. Como a esmagadora maioria das pessoas é totalmente inconsciente (no que se refere aos “porquês” de suas atitudes), torna-se fundamental um manual de conduta ou código moral para nortear o que se pode ou não fazer, já que, como as ovelhas, precisamos de quem nos leve.

O grande problema é que vagamos pela vida com essa profunda inconsciência, destituídos de liberdade de pensamento, estamos sempre nos apoiando nessas velhas frases e não tomamos nossas decisões de forma lúcida e isso nos leva a projetá-las nos demais. Se todos temos uma sombra que nada mais é do que esses conteúdos não vivenciados e reprimidos, nós enquanto coletividade também os temos, e nos responsabilizamos pelas consequências da cultura que vivemos e que ajudamos a manter, seja pelo nosso conveniente silêncio ou total ignorância.

Nossa educação não se preocupa em formar pessoas que se conheçam e que, portanto, tenham recursos de encontrar suas decisões conscientes, mas apenas se preocupa em formar mão de obra e tornar todos incapazes de realmente saberem o que querem de si mesmos, transformando os diamantes individuais em pedras comuns, condicionáveis e manipuláveis. É uma alquimia às avessas.

A resposta para sabermos o que seria o “bem” ou o “mal” precisa que saibamos quem somos e isso, infelizmente, nunca será fornecido pelo Estado (leia-se “educação” que sempre trabalha pela ideologia que está no poder), seja de que lugar for. Não se formam pessoas livres, isso é perigoso demais!

Como já escrevi artigos anteriores, conhecer-se significa saber o bem que se é capaz de fazer e os crimes também. Aliás, o que seria da sociedade sem as leis e punições? A maioria das pessoas só quer ver como real o bem de que são capazes. Penso que ele só será mesmo real, quando a consciência das nossas “capacidades” para o mal estiverem bem visíveis, tanto quanto as qualidades. O crescimento se dá quando, por escolha, e não por imposição, decido não fazer o mal e não projetá-lo, fazendo o bem. Esse autoconhecimento é da maior importância, pois através dele nos aproximamos daquele extrato fundamental, ou âmago da natureza humana onde se situam os instintos, como diz Jung.

Se o conceito de Deus é de totalidade, sem divisões, seus filhos também deveriam ser assim e esse é nosso destino evolutivo, mas enquanto fracionados pelo “certo” e “errado” estaremos em constante sofrimento e assim não teremos como continuar a caminhar em busca dessa totalidade.

Assim e só assim, será fácil decidir que é verdade ou mentira, fora disso, continuaremos como crianças pequenas, perguntando com os olhos arregalados e esperando que nossos “educadores” nos digam o que posso ou não posso ser ou fazer, se sou “bom” ou “mal”.

Tudo tem um preço e ser inocente é um dos mais caros.