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Tela vazia

Estava lendo Foucault e deu vontade de escrever.

Parado diante da tela, lembrei de um filme sobre Pelé que vi quando tinha 12 ou 13 anos.  Uma hora e meia de gols e jogadas geniais. Sai do cinema com muita vontade de jogar bola. Não lembro se joguei, mas mesmo que isso tenha acontecido, o resultado não foi tão bom que valesse a pena lembrar. Era jogador e plateia ao mesmo tempo e o esquecimento foi o veredito.

Mais tarde, já na fase adulta, vi um show de João Bosco. Ele levou apenas seu violão, parecia que aquele instrumento era uma extensão natural do corpo. Plateia hipnotizada pelo talento. Acontece sempre que vemos alguém viver sua vocação. Deu uma vontade louca de aprender a tocar. Depois de muitas aulas, sofrimento dos dedos que não foram feitos para acariciar cordas, ficou um violão para lá e para cá dentro de casa, sem cumprir sua função. Começou encostado na parede, esperando que a força de vontade vencesse a realidade. Tempos depois, foi parar em cima de um armário. Ficou anos dentro de uma capa como os gênios nas lamparinas nas histórias das mil e uma noites. Pelé e João Bosco mostraram que a natureza, como diziam os antigos gregos, não distribui dons com justiça.

Quando uma criança compra a chuteira do Neymar, sonha em jogar como ele e isso vale para o corte de cabelo da atriz ou da marca de roupa que a modelo mostra no outdoor. Aristóteles e seus seguidores diziam que a vida só vale a pena ser vivida se buscarmos melhorar os dons que trouxemos ao nascer. Mesmo com dons menos favorecidos deveríamos melhorá-los o máximo possível. Fazer o que viemos fazer, daria sentido a nossa vida e tornaria o mundo melhor, afinal, seríamos felizes e realizados dentro do possível. Enquanto não descobrimos o nosso, vamos vivendo vocações dos mais afortunados, buscando sem perceber no que somos realmente bons.

Enquanto o cursor pisca na minha frente não sei sobre o que escrever. Fico pensando se o próprio Foucault, Saramago, Érico Veríssimo e outros como eles também travavam diante da folha em branco. Se uns ganham mais facilidades que outros, com os sonhos isso não acontece. Sonhamos sem parar sobre tudo e um mundo diferente, que nos faria felizes por ser de outro jeito, é o mais comum a todos. Mas, se tem gente feliz sendo o mundo como é, o problema talvez não seja o mundo, mas não se sentir parte dele, fazendo alguma diferença.

O mundo no qual crescemos nos diz o que devemos fazer para ajudar a funcionar pelo bem de todos e é aí que nos perdemos dos gregos, para quem é a vida de cada um que conta. Do jeito que é não tem muito a ver com o fato de gostarmos disso ou não. Precisamos fazer dinheiro para financiar sonhos alternativos que substituem a alegria verdadeira. Deve ser por isso que altos salários e fortunas não são garantia de alegria por uma realização.

Por outro lado, nem todo talento que a natureza deu exageradamente para alguém é uma garantia de felicidade, Van Gogh que o diga. Quantos talentos se perdem em situações de famílias desestruturadas, de falta de condições mínimas? Temos “Neymares” que ficarão a vida no anonimato, por terem que ajudar em casa ao invés de terem a oportunidade de melhorar seus dons. Jogadores de fim de semana, que viverão sua alegria sem reconhecimento ou remuneração. Tudo para ser famoso no bairro e contar os feitos no bar, aos domingos à tarde.

Sonhamos o passado para tentar reescrever nossa história, buscando entender erros de forma que nos inocente um pouco e imaginamos o futuro para poder esperar que tudo dê certo no final. Sonhos que só existem por estarmos um tanto desconfortáveis com a falta de sentido, diria o velho Aristóteles.

Talvez se insistisse com o futebol e o violão?

O mundo valoriza os esforçados, maneira de tentar compensar a falta de dons exuberantes e de não nos deixar perder a esperança. Cafu e Dunga ergueram copas do mundo, assim como Pelé, Zidane e Maradona. Quem sabe ser coadjuvante não consegue atenuar a incapacidade para o protagonismo? Lembro sempre disso quando vejo um coral, a soma torna todos melhores do que individualmente, roupas iguais para ser um só; o todo é maior que a soma das partes, e assim a força de vontade vence a matemática.

Agora percebo porque falo disso, era o que Foucault estava dizendo; somos aprisionados de certa forma nesse jeito de pensar. Ao comparar escolas com presídios ele não deixa dúvidas e escancara sua ideia de forma inquestionável.

 Já não sei se a vontade era escrever sobre isso ou se foi como ele escreveu que me fez lembrar a emoção que Pelé e João Bosco produziram; que havia encontrado o que a natureza esperava de mim.

Como o cursor ainda pisca na tela branca, o melhor é continuar procurando.

O sorriso do Padre Anselmo

É como se soubesse que um dia voltaria ali. Todos voltam e o que se diz nas conversas privadas é que, quem ainda não voltou, não escapará. Estar de volta, portanto, não parece ser um demérito ou fraqueza.

Seu superior já tinha notado que estava diferente a algum tempo. Seus sermões dominicais tinham perdido fôlego, como se falasse por que tinha que falar. Estava tão automático, sem ânimo, como se ele já não acreditasse mais. Parecia que esses anos em contato direto com a realidade haviam suprimido sua fé. Os argumentos a favor dos sonhos não eram mais suficientes nem para seu próprio consumo. O que tinha a oferecer para as queixas comuns das pessoas comuns lhe parecia vazio e carente de um sentido real. Difícil de passar uma confiança que tudo dará certo no final se essa data poderia ser amanhã ou na eternidade. Tempo demais para quem sofre as violências da vida e quer uma explicação ou reparação das injustiças. Pessoas que fazem tudo certo, esperando que isso resulte em algo bom e que, quando não acontece, precisam de uma explicação que as conforte. Fazer o que é “certo” precisa valer a pena e ninguém se sente bem enganado.

Quando chegou encontrou tudo igual. O mesmo cheiro, sons, sopas à noite e os mesmos quadros nas paredes de rostos sisudos, contraídos por uma vida, que agora conhecia, de muitas abstenções e rigidez. Faltava alegria ali.

Por coincidência ou não, foi-lhe dado o mesmo quarto que frequentou na sua formação. Cama de solteiro com colchão de palha, curta demais para seu tamanho. Nos invernos rigorosos forçava a cabeça contra a parede para tentar manter os pés aquecidos. Passados muitos anos, a pergunta era a mesma: Precisava ser assim? No que dormir mal em um lugar sem nenhum conforto aumentaria sua fé? Desapego não precisa rimar com sofrimento. Se é para se ter poucas posses, por que não serem as melhores possíveis?

Perguntas demais, respostas de menos e sempre tão vagas. Esse sempre fora o problema.

Passaria uns dias por lá ou o tempo que fosse necessário. A ideia era reavivar seus compromissos e também suas crenças, obviamente. Nos primeiros dias, fora instruído a ficar em silêncio, conversando consigo. Não achou uma boa opção e chegou a iniciar uma argumentação, mas desistiu. Recebeu um olhar fulminante, que dizia claramente que se ele não dava mais conta de si, precisava fazer exatamente o que lhe mandavam. Quem mandava, mandava porque sabia mais do que quem era mandado, pelo menos pensavam assim.

Deu de ombros, afinal, poderiam até ter razão.

 As horas e dias iam passando e sua ansiedade só aumentava. Ele não era um bom interlocutor para essa situação, já que foram seus próprios pensamentos que trouxeram as dúvidas. Nos corredores, passava por jovens que tinham o mesmo brilho no olhar que ele nessa fase. Aquela certeza que a sua revelação mudaria o mundo. Se via neles, tinha vontade de avisá-los, preveni-los. Engolia essa vontade com um suspiro.

Participava dos momentos de oração com os demais, mas sentia que não estava ali. Era como se testemunhasse a si e aos outros orando. Em outra situação, essa sensação poderia ser vista como algum problema psicológico, mas ali, só o entristecia e aumentava seus questionamentos sobre o futuro. Até bem pouco tempo não tinha dúvida sobre o que queria para sua vida, agora via-se diante de um entroncamento onde muitas estradas se encontravam.

Terminado o tempo do silêncio, notava que as conversas com os superiores não surtiam efeito. Sentia-se mal, traindo a si mesmo, pois quando perguntado sobre o que acreditava, não sabia se o que respondia era mesmo verdade. Duplicou seu tempo de oração e estudo como se quisesse se auto convencer de que o que sentia não era a perda da fé. Era uma fase, iria passar. Todos passaram por dúvidas e se questionaram, pelo menos é o que diziam as biografias.

Em uma tarde, percebeu que não sabia mais exatamente a quanto tempo estava ali, duas, três semanas talvez. Naquele lugar, exceção aos domingos, todos os dias são iguais. Tempo que se arrasta como as reticências que nos dão liberdade de preencher significados.

Quando a porta do seu quarto abriu levou um susto. Estava tão absorvido em seus pensamentos que chegou a sobressaltar. A visão do seu instrutor mais querido trouxe lágrimas aos olhos. Padre Anselmo fazia parte daquelas raras unanimidades positivas; sempre bem-humorado, afável e com uma incrível capacidade de entender, de se colocar no lugar do outro, só para sentir o que o outro sente. Nunca impôs verdades, pois falava de sentimentos, lugar onde elas não combinam. Devia ser por isso que nunca subiu na hierarquia, sorria demais para isso. Como em todas as empresas, os cargos mais disputados são poucos para tantos pretendentes e a luta era intensa e surda, como devia a quem precisa dizer-se o tempo todo humilde e desinteressado de alguma forma de poder.

Um longo abraço! Finalmente alguém com quem sentia que poderia se abrir sem medo, falar abertamente sobre perguntas e não sobre certezas.

Toca o sino para a hora da oração. Sem ainda trocarem palavra foram juntos para a pequena capela do outro lado do monastério. Ali, era o lugar das orações particulares e quem queria ter essa privacidade precisava se antecipar. Naquele dia, ela estava disponível para os dois.

Ajoelhou-se e começou sua prece. Sentindo algo estranho, notou que Padre Anselmo continuava sentado, de olhos fechados.

Ficaram ali, em silêncio, por muito tempo.

Pensou em perguntar ao antigo professor o motivo de não ter ajoelhado. Quando ia fazê-lo, deu-se conta que estava recebendo mais uma lição. A que precisava agora. Todas as peças se juntaram e muita coisa fez sentido naquele momento. Era isso, todo esse ritual o estava distanciando do que realmente acreditava por não fazer mais sentido.

Muitos dos seus momentos de desencanto aconteciam por querer entender essa lógica divina de resultados tão distantes e improváveis. Não via justiça nenhuma em os erros ou acertos terem um desfecho em outro lugar, assim como o sofrimento se transformar em fé. O que é humano nessas situações é só desencanto. Jó era um exemplo que não vingava mais; dores e sofrimentos pensados por um Deus sugestionado pelo mal. Não, não poderia ser assim! A rigidez dos rituais estava acabando com sua sensibilidade, criando uma barreira, queria dizer o que sentia não o que “deveria”.

Padre Anselmo parece que lia seus pensamentos. Esboçou um leve sorriso.

Era por isso que ele exalava uma verdade! Ele não se rendia ao que não acreditava. Tinha sua relação com Deus do jeito dele e isso nunca o faria sair dali. Não abria mão do que realmente acreditava em troca de poder ou prestígio. Só a admiração dos alunos o mantinha lá. Ele tentou ensiná-lo, mas na época não entendeu. O “pacote pronto” parecia fazer mais sentido que receitas individuais, maneira arriscada, punida com dureza por quem precisa que todos anulem suas diferenças. Mais fácil, mais seguro.

O Deus em que sempre acreditou tinha menos cerimônia, porta aberta para quem precisasse, dispensando intermediários. E muitas vezes, porque não, uma resposta de simplesmente não ter resposta, de aceitar que tudo pode ser somente o que é.

Na saída da pequena capela, mais um abraço e apenas um “obrigado”.

Arrumou suas coisas e quando estava saindo, voltou-se para ver a porta que se fechava as suas costas. Esteve em uma bolha de tempo e realidade. O ar da rua o trouxe de volta à vida, a que acontece, imprevisível a cada instante.

Tudo que se aprende como certo, serve apenas como uma maneira de chegarmos mais rápido ao nosso próprio jeito de pensar e fazer. Teorias, programas e técnicas servem para pessoas que não existem, que deveriam ser desse ou daquele jeito. A vida é tão móvel que tudo que a prende e engessa vai tirando-lhe a graça, porque afeta sua natureza.

Enquanto caminhava, lembrou que tinha voltado a sonhar, o único sonho que valia a pena ser sonhado; aquele do seu próprio jeito. Padre Anselmo tinha ensinado a difícil arte de responder perguntas complexas; não disse nada, apenas deixou que ele mesmo respondesse.

Cortina de fumaça

“É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.”   

                                                                  Clarice Lispector  –  Outros escritos

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber.”

                                                         Markus Zusak – A menina que roubava livros

 inconsciente

É comum dentro do processo da psicoterapia a pessoa conseguir resolver rapidamente o problema que a levou a procurar ajuda. Claro que isso não acontece sempre, afinal nada é mais imprevisível do que uma terapia, onde duas pessoas estão sempre em transformação (cliente e terapeuta). Existem obviamente situações que demandam mais tempo, mas quero me referir aqui a esse aspecto em particular.

A própria pessoa reconhece que o problema não é tão grave ou difícil (lembrando que todo problema é importante), mas tem dificuldade em entender o motivo de não conseguir resolvê-lo, ou conclui que a questão pode ser mais complexa e esse seja o motivo da demora.

Minha percepção mostra que essa “dificuldade” nada mais é que o problema em questão está sendo mantido ativo por atender a uma necessidade que está inconsciente (na maioria das vezes). Mas, afinal, qual o motivo de mantermos problemas que reconhecemos como simples no catálogo dos insolúveis em nossa vida?

A resposta é simples: os mantemos assim para não precisarmos enfrentar o verdadeiro problema, esse sim, mais difícil de resolver por sua solução, normalmente, afetar vários campos que estão estáveis na vida da pessoa e ser antevisto como muito sofrido.

Como diz o título desse artigo, é uma “cortina de fumaça” que esconde ou ajuda a nos entretermos com algo bem menos perigoso, enquanto esperamos duas coisas pouco prováveis de acontecer:

A primeira, é o dito problema se resolver sozinho, sem que seja necessário mover as montanhas que imaginamos que existem para sua solução, ou não precisemos sujar nossas mãos de sangue (é uma metáfora). Quando digo isso é por termos a ideia que nossa ação na mudança pretendida vai trazer sofrimento a outras pessoas e nos tirar alguns confortos. Além disso, sempre tem o medo da nova situação ser pior que a atual e que a mudança não teria sido um bom lance no jogo da vida. Como já frisei em outras oportunidades, dificilmente o que está ruim pode melhorar por si, enquanto a mudança traz a possibilidade de um quadro muito melhor no futuro.

Tudo que é vivo se caracteriza por ser instável, imprevisível e estar em risco, mas nossa mente detesta aventuras. Nunca esqueça que ela só gosta do “de sempre”, mesmo que esteja ruim ou esteja nos fazendo sofrer. O que se pensa nesse caso vem do ditado popular, que, como outros, estão no nosso subconsciente, como leis em nossa vida: “não se troca o certo pelo duvidoso”. Particularmente penso que se o que chamamos de “certo” é ruim, o “duvidoso”, pelo menos, abre algumas possibilidades.

Quando o caso é relacionamento tem o não menos famoso “ruim sem ele(a), pior sem”. Esse ditado afeta mais as mulheres, que na nossa cultura, infelizmente, só se explicam se estiverem acompanhadas. Parece que estar com alguém é um atestado de competência feminina, e esse “alguém” pode não ser tão bom assim. Se você é mulher e está me lendo, quero deixar claro que isso não a inclui, sei que isso não acontece com você e nem é assim que pensa, estou falando das outras…

Já no caso dos homens a palavra que comanda é a acomodação. Os homens, na sua maioria, lidam com o regular como sendo bom e mudar dá trabalho, despesas e um recomeço que, se o sofrimento não for insuportável, pode esperar uma outra oportunidade (que normalmente nunca chega).

A segunda maneira de não enfrentar diretamente o problema é uma pequena variação “mística” da primeira, só que mais absurda: entregar para “Deus” ou para o “Universo” a solução do imbróglio. Nesse modelo a situação fica risível, já que tudo fica resolvido de um jeito ou de outro.  Afinal, se a situação não muda (claro que não vai) é porque Deus não quer, e isso é um “sinal” de que se precisa continuar como está. Com certeza, tem a ver com “vidas passada” ou “carma” a ser resolvido e o sofrimento é uma purificação ou acerto de contas com a vida. Assim, meu sofrimento se torna algo útil que vai tornar minha próxima vida melhor, ou me encaminhar ao paraíso. Olha que inteligente: minha dor fica sendo uma maneira de me tornar uma pessoa melhor!

Você pode me perguntar: de que ditado vem essa abordagem confortável e de entregar para nosso deus a solução?

“Deus sabe o que faz”, ou, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mas, você pode preferir o inigualável: “Todo sofrimento é enviado por Deus para nos purificar e expiar nossas culpas”. Sofrer fica bom, traz vantagens e não preciso fazer nada para mudar!

Nossa inteligência não tem mesmo limites e a criatividade pode nos levar a lugares, realmente, inimagináveis!

Por isso, caso esteja acontecendo de você estar com um problema antigo, que você mesmo não consegue entender o motivo de persistir por tanto tempo, investigue se ele não está servindo para distrai-lo do que realmente seja o motivo da sua tristeza.

Isso é muito mais comum do que se possa imaginar e ninguém faz por mal ou covardia. Lembre que nossa mente não lida bem com nada que nos faça sofrer e isso sempre a deixa em estado de alerta. Nessa hora, mudar o foco e ficar olhando para “outro lado” é uma saída saudável do ponto de vista da mente.

Quando isso acontece no consultório, a pessoa sempre diz que não entende porque resolveu tão rápido essa questão que a incomodava a tanto tempo e tende a dar todo o mérito ao terapeuta. Por isso, sempre digo a meus alunos e futuros colegas que nem toda vitória da terapia é um mérito exclusivo do terapeuta, aliás,  nunca é.

Assim, uma solução rápida muito mais do que um resultado surpreendente pode ser apenas um aviso que o realmente importante e decisivo esteja por vir. O problema anterior foi removido e agora ficar-se-á cara a cara com o verdadeiro inimigo.

Como frisei, não é sempre assim e não são todos os casos, mas os consultórios, comumente, sempre tem um habitual cheiro de fumaça.

O terceiro fator

           “Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe”

Oscar Wilde

 

  “ Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma.

     Vivo em uma dualidade dilacerante.

     Eu tenho   uma aparente liberdade,  mas  estou presa dentro de mim.

      Clarice Lispector

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Muito se fala desse mundo de dualidade, do bem e do mal, da saúde e da doença, alegria e tristeza, etc. Todos já cansamos de ouvir que o caminho do meio é a solução para o sofrimento desse paradoxo. Sempre que estamos fixos em um dos polos estamos sofrendo, justamente por excluir o outro. Assim, por exemplo, sofremos se estamos doentes, mas também sofremos quando estamos saudáveis pelo medo da doença chegar. Isso vale para tudo.

A sabedoria do caminho do meio é inclusiva, nada despreza e atende o equilíbrio pela interação dos opostos. Ainda alguns pensam que estar “bem” é estar livre de problemas, pura ilusão! Estar “bem” é lidar com os problemas de forma evolutiva e pouco sofrida. Ansiamos por um dia em que nada nos preocupe. Se esse dia chegar (peça para o Papai Noel), estaremos preocupados pensando que preocupação teremos em seguida e qual será.

Mas existe ainda a, talvez, mais profunda e enigmática dualidade: entre a mente e o espírito (Self, ou qualquer outro nome que designe o imaterial ou eterno em nós). Qual seria então o caminho do “meio” entre esses antagônicos?

Em numerologia dizemos que o Três é o número perfeito, já que traz em si a completude ou a expressão da ideia. Assim os cristãos dizem “Pai, Filho e Espírito Santo”, os egípcios “Isis, Osíris e Hórus”, os Indus “Shiva, Brahma e Vishnu”. Fora da religião, temos o dia que se manifesta no amanhecer, entardecer e anoitecer. Da mesma forma temos o alto e médio e o baixo, o quente o morno e o frio e assim por diante.

Falta então para o entendimento da dualidade seu terceiro elemento, que  abrange e elimina o contraditório pela síntese.

Como sabemos, a mente se caracteriza pelo medo com objetivo da manutenção da vida. Isso explica sua função de nos manter constantemente negativos e apreensivos, mesmo nos melhores momentos. De outro lado, temos aquela “voz” interior que nos pede o novo, o arriscado, ou em outras palavras, a evolução. Para a mente o conhecido, para o espírito o desconhecido, afinal como crescer sem avançar? Avançar é ir além e buscar mais, vencer desafios e correr riscos, como consequência óbvia.

Nossa vida sempre é resultado dessa fricção entre os opostos e o destino é o outro nome que damos as nossas decisões. Poderia então haver algo mais do que a mente e o espiritual? Haveria esse meio termo que abarcasse ambos e nos aliviasse do sofrimento?

Se formos  pelos conselhos da nossa mente, ficaremos sempre na mesma. Ela precisa do conhecido e quer nos manter vivos, independente da qualidade dessa vida ou se estamos crescendo ou não. Mudança, só na necessidade quando não tem mais jeito.

Já o espírito, eterno e  “imagem e semelhança” da criação, não está muito aí para os cálculos e receios e quer mais que vivamos intensamente, pedindo novidades, que o leve para novos caminhos e descobertas, seja qual for.

Assim, imagine-se como um empresário que tem dois assessores, um extremamente conservador e cuidadoso e outro completamente “louco” que só pensa em arriscar e inovar. Todas as decisões desse empresário passam por ouvir seus dois assessores e ele sempre busca a melhor escolha.

Se os dois assessores são a mente e o espírito, quem será o empresário, aquele que dá a palavra final?

Precisa ser alguém que não seja nem um nem o outro, ou os dois ao mesmo tempo, buscando o acordo.

Esse grande chefe chama-se, para mim, nossa Consciência, o terceiro elemento que completa o Humano.

Tenho certeza que já foram muitos momentos em que todos  internamente já ouvimos nossos “assessores” discutindo sobre nossa vida, se deveríamos ou não fazer isso ou aquilo. Quanto mais a discussão fica acirrada, mais vamos achando que vamos enlouquecer ou que entramos em um beco sem saída. Cabe lembrar que eles nunca chegarão a um acordo. Isso não é possível pela total oposição, deixando o entendimento entre ambos, impossível.

Atualmente com um alto nível de decepção com as religiões e seus resultados, e aqui cabe afirmar que elas não têm culpa, o problema é a expectativa ou essa transferência que fazemos para “alguém” resolver nossas questões, experimentamos um mundo cada vez mais ansioso. Essa ansiedade e suas consequências, como aumento das compulsões alimentares, álcool e drogas e tudo mais se dá para os que só ouvem a mente, procurando estancar o sofrimento, está adoecendo a humanidade. O medo advindo dos pensamentos negativos sem fim bloqueia o processo criativo e evolutivo, já que ficamos acuados por medo de que as mudanças que ansiamos não deem certo e viemos a passar necessidades ou privações. Quem tem na mente sua única maneira de viver, trata os pedidos do espírito com desdém, chamando-os de “viagem”, bobagens e outros nomes pejorativos.

Para os que só ouvem o espírito, muitas vezes as decisões são pouco trabalhadas, baixa persistência e mudanças constantes que também têm suas consequências, como por exemplo, a perda da capacidade de se ir até o final dos processos e correr riscos desnecessários. Tudo atrás das constantes mudanças imaginando cada uma como o que falta para atingirmos essa felicidade. Para eles, as precauções que a mente solicita são consideradas como covardia ou receios, a quem  não se deve dar ouvidos.

Assim, cabe ao grande gestor interno, a Consciência, saber avaliar e escolher o melhor caminho, dando razão ora a um, ora a outro e às vezes contemplando ambos.

Porém isso só é possível se entendermos ou soubermos qual assessor está falando e qual é a sua natureza. Lembre que um nunca trará pensamentos do outro. Esse exercício de observação não é difícil de ser feito, mas exige atenção a si mesmo e, principalmente, tomar essa posição de neutralidade e observação.

Nossa ligação com o corpo que habitamos nos empurra de forma natural e instintiva para a mente, afinal ela nos mantém vivos e isso é muito importante. Pode-se começar prestando mais atenção aos pedidos de novidade do espírito, permitindo que se manifestem livremente. Não os julgue, apenas observe a mensagem até o final. Nunca exclua pensamentos ou intuições que fazem seu coração vibrar de emoção e imaginar a sensação de realização. Aliás, sentir-se realizado é outro nome para a coragem de ter vencido as precauções da mente.

Depois, procure conciliar levando em consideração a natureza dos conselhos e encontre esse caminho do meio que nos recomenda Lao Tse.  Busque seu crescimento sem desprezar ou analisar as circunstâncias e tome a decisão como um juiz ou o empresário. Como essa sentença (escolha) afetará a sua vida, responsabilize-se por ela e não se lamente pelo que não fez.

 Mudança sempre dá medo, mas é sempre necessário avançar. Tudo que chega ao seu limite inicia o processo de estagnação e é questão de tempo para começar o protesto da nossa parte que precisa avançar se mostrando em angústia e um vazio interior que nenhuma recompensa material consegue suprir. Nos alimentamos espiritualmente de sonhos e conquistas que nos façam melhores que somos. O que não quer dizer não refletir, ponderar e saber, vez por outra, esperar.

Lembre que tudo que está em processo de mudança cresce e está vivo, mas esse mundo material que vivemos exige ponderação misturada com coragem. Pratique e quando isso for uma experiência verá que na verdade não existem opostos, mas uma coisa só que se manifesta de duas formas.

Essa percepção da unidade só se dará pelo olhar do terceiro e decisivo elemento, a consciência.

Ao findar esse texto, é lícito pensar que tínhamos um problema quando começamos a leitura que era dar fim a essa divisão e agora o problema pode parecer maior, já que um novo integrante precisa ser ouvido. Não é isso.

A consciência não precisa ser ouvida, é ela que ouve!

 

 

 

 

A vitória do mais fraco

“A fim de superar um sentimento de vazio interior e impotência o homem escolhe o objeto no qual projeta todas as suas qualidades humanas: seu amor, sua inteligência, sua coragem, etc. Ao submeter-se a esse objeto, ele se sente em contato com suas próprias qualidades; sente-se forte, inteligente, corajoso e seguro. Perder o objeto significa o perigo de perder a si mesmo.”

                                              Erich Fromm

                                                                                                                                                    Davi e Golias

Uma das coisas que chama a atenção nos esportes é a torcida a favor do mais fraco, mais pobre, menos favorecido em detrimento do mais qualificado, poderoso ou mais rico dos competidores.

Esportes que não ofereçam essa possibilidade não caem muito no gosto popular, já que torna a possibilidade da vitória heroica menos possível. Talvez possa ser interessante refletirmos sobre essa tendência e porque quando acontece nos emocionamos tanto.

Costumo sempre pensar que o encantamento da vitória do mais fraco seja a de nos mostrar que nossos sonhos também são possíveis. Projetamos no esporte, por exemplo, essa realização que nós mesmos achamos impossível em nossas vidas e é por isso que traz tanta emoção quando o mais fraco vence como nos mostra a metáfora da luta entre Davi e Golias. Transferimos nosso poder a um ídolo daquilo que não conseguimos concretizar em nossa vida.

Temos medo das mudanças que queremos, justamente por não termos a certeza que teremos sucesso. Nunca pensamos que nosso desejo se realizará, pelo contrário, esperamos sempre o pior e isso é que impede que muitos sequer façam uma tentativa.

Acostumamo-nos com esse jeito que queremos mudar e depois não conseguimos nos desapegar de parte de nós mesmos que sabemos que não está indo bem e está atrapalhando nossa vida. Isso nem é tão difícil de entender; somos como somos por muito tempo e mudar significa nos tornarmos algo desconhecido para nós mesmos. Pode parecer estranho, mas pare para pensar um pouco e verá que posso ter  razão.

Sonhamos com mudanças que, para acontecerem, necessitam que sejamos diferentes do que somos hoje e aí é que mora o perigo ou o medo. Essa mudança tão necessária para criar as condições para a transformação significa, em outras palavras, perdermos parte de nossa identidade (normalmente a que não está dando certo), e isso gera muita insegurança.

Como aprendemos que não devemos trocar o certo pelo duvidoso, tendemos a preferir ficar como somos a irmos em direção ao desconhecido, mesmo que essa pessoa esteja infeliz ou frustrada com sua vida hoje. Mesmo que seja claro que não haja quase nenhuma possibilidade das coisas melhorarem por si mesmas – quase nunca há, apesar de sonharmos com mudanças em que não precisemos nos esforçar – continuamos com a tendência de ficarmos onde já conhecemos.

Daí, adoramos ver as histórias de vida das pessoas que venceram dificuldades grandiosas, dos desprezados que se indignam com sua situação e transformam suas vidas, ou dos pequenos times que vencem os “grandes” e fazem história. Tendemos a não lembrar das vitórias comuns, onde o previsto acontece, mas tornamos verdadeiras lendas as vitórias consideradas impossíveis.

O leitor poderá argumentar que essas grandes vitórias contra o “destino” são em pequeno número se compararmos com as vitórias dos considerados “melhores” e é justamente aí que quero chegar. Porque sempre, ou na esmagadora maioria das vezes vence o melhor e mais preparado? Justamente por ser melhor e mais bem preparado!

Muito dos grandes de hoje, quase a maioria, foi pequeno antes de se tornar vitorioso e isso tem a ver com enfrentar o medo e acreditar que o impossível é possível. Até penso que muitos desses pararam para observar que, como isso acontece com certa frequência, nem deve ser tão difícil assim.

E aí eu faço uma pergunta: será que me sentir inferior,  achar que não consigo,  que o sucesso não é mesmo para mim ou que não nasci com a bunda virada para a lua, seja uma maneira com que me identifico e sobre a qual estruturei toda a minha vida e visão de mundo? Se for assim que me vejo ou me disseram que devo pensar, nunca mesmo vou conseguir. O mais perto que se chega, nesses casos, é chorar no cinema, no último capítulo do livro ou nos estádios pela vitória dos outros.

O grande sucesso que essas histórias fazem é justamente fazer-nos vibrar com a vitória dos outros, que venceram por “nós”. Tornamos esses vencedores nossos ídolos, compramos os produtos que eles anunciam, usamos suas camisas com orgulho, mas infelizmente, para a esmagadora maioria, não muda nada em suas vidas.

Esses vencedores parecem ser de outro mundo, onde o impossível acontece, não do nosso, das dificuldades e da esperança de uma recompensa no céu por todas as dificuldades que passamos.

Parece que a vitória dos “heróis” nos basta, ficamos preenchidos por elas e isso nos acomoda nas derrotas cotidianas. Vingar-nos-emos quando assistirmos outra superação ou quando algum Golias cair de cara no chão.

Palestras motivacionais estão sempre cheias porque nos dão uma dose de algumas horas de que é possível entrarmos para o Olimpo dos bem sucedidos, mas isso dura pouco e, em poucos dias, a rotina nos recoloca de novo na poltrona a espera do nosso milagre.

De outra forma, isso também pode ter a ver como as pessoas gostam de acompanhar escândalos com pessoas famosas, onde a queda é grande. Inconscientemente, isso pode mostrar como é bom ser um anônimo, desconhecido e desfavorecido. Quanto mais perto do chão estiver, a queda nem machuca. Preferimos acreditar que o “reino dos céus” será o pagamento por ser uma ovelha obediente, e com certeza, passaremos sem dificuldade pelo “buraco da agulha” que separa os que merecem daqueles que vivem bem e confortavelmente no pecado de serem bem sucedidos.

Estamos sempre transferindo nossos sonhos e frustrações em outros lugares, pessoas e situações com o objetivo de tirar o foco e a responsabilidade sobre nós mesmos. Como disse Willian Silverberg * em uma clássica definição psicanalítica da transferência:

 “A transferência indica uma necessidade de exercer um controle total sobre as circunstâncias externas com toda a sua variedade e multiplicidade  de manifestações. A transferência pode ser considerada como o duradouro monumento à profunda rebelião do homem contra a realidade e a sua teimosa persistência nos caminhos da imaturidade.”

Portanto, penso que ser Golias é melhor e dá mais resultado. Vez por outra ele encontra um Davi pela frente, mas isso chega a ser tão raro que vira história e a vida bem vivida é sempre feita de mais vitórias que derrotas. Perder faz parte e é do jogo, nos ensina os caminhos a serem corrigidos, para podermos continuar vencendo na maioria das vezes.

Como bem diz uma propaganda em voga durante a copa do mundo, o negócio é menos discurso (desculpas) e mais atitude. Nunca esqueça que o pior dos arrependimentos é o de não ter buscado sua realização, seja no campo que for.

Só assim teremos histórias para contar onde seremos os protagonistas. É muito melhor falarmos de nossas conquistas do que contar as vitórias emocionantes dos outros.

*Citado por Ernest Becker em “A negação da morte”.