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Reflexões sobre a Religião

“ E se Deus é canhoto, e criou com a mão esquerda?

Isso explica, talvez, as coisas desse mundo.”

Carlos Drummond de Andrade, Hipótese (In: Corpo)

Tenho intenção de escrever alguns artigos sobre as questões que envolvem os tipos de religiões, porque as pessoas as escolhem, o que procuram, etc. Mas como esse é um assunto de grande abrangência, penso em fazê-lo aos poucos e não de forma seqüencial, já que pode não interessar a todos. Entendo, porém, ser um assunto sobre o qual devemos nos debruçar para ampliar não só nosso autoconhecimento (finalidade desse site) mas para entendermos melhor os outros e melhorar nossos relacionamentos.  Esses artigos, serão normalmente inspirados em três livros (principalmente), que recomendo a leitura para quem se interessar mais: A Morte da Fé de Sam Harris, Deus um delírio de Richard Dawkins e Religião, psicopatologia e saúde mental de Paulo Dalgalarrondo, além e principalmente de minhas opiniões sobre o assunto e das experiências no consultório.

O psicólogo americano Gordon Allport (especialista em psicologia da personalidade), publicou nas décadas de 1950 e 1960 importantes trabalhos onde o que para nós  interessa mais é a definição de conceitos de religião extrínseca e intrínseca. A motivação de Allport foi tentar responder uma inquietante questão: como, no seio das religiões, que em suas doutrinas pregam o amor e respeito entre os homens podem surgir intensas manifestações de ódio racial e discriminação?

Para ele, os sentimentos religiosos da maioria das pessoas são nitidamente imaturos, sendo, na verdade, remanescentes da infância. Entendia que esses sentimentos são construções egóicas em que as pessoas adotam uma divindade para ajudá-los em seus interesses imediatos, em outras palavras, buscam um pai benevolente. Também tendem a ter uma visão de que a sua religião é melhor do que as demais e que deus prefere os seguidores dessa religião em detrimento das outras. Nesse caso, a religião seria um instrumento de autoestima, sendo utilitarista e incidental. Nesse caso, a escolha religiosa seria um mecanismo de defesa da personalidade que ainda não amadureceu completamente. Definia esse tipo como extrínseco, pois a pessoa crê que sendo religiosa, isso seria útil para seus objetivos imediatos. Isso é perfeitamente comprovável, já que todos conhecemos alguma pessoa que abandonou sua religião quando diante de um revés na vida ou de alguma perda importante. Quando isso acontece, claramente havia por parte dessa pessoa uma “negociação”, na medida em que, ao não ser “protegida” pelo seu Deus desse infortúnio, não tem por que continuar nessa religião… Interessante notar que pesquisas demonstram que o preconceito racial é mais comum entre os que freqüentam dos que não freqüentam igrejas. A religião extrínseca dá apoio a exclusões, preconceitos e ódios que deixam claro a imaturidade, já que não existe uma ampliação do “eu” porque inexiste a relação afetuosa com o outro (que não pertence a minha religião), segurança emocional, percepção realista e muito menos autocompreensão. Esse tipo de pessoa nem sequer pensa que a fé é uma questão de crença, portanto não comprovada. Se “fecha” em sua doutrina excluíndo qualquer outro tipo de contraponto a seus dogmas, tentando converter outros e lamentando que sua “verdade” não seja seguida pelos demais.

Em contrapartida, existe uma forma de sentimento religioso que oferece ao indivíduo uma solução compreensiva, não sectária, por meio de uma teoria inteligível para os problemas da vida. Nesse caso a busca religiosa é vista como um fim em si mesma, como um valor subjacente a todas as coisas. Ela é mais desejável, já que não tem um fim pragmático, egoístico e de uso. A religião madura intrínseca é uma teoria mais compreensiva da vida, sem a preocupação de ser provada em seus pormenores. Podemos dizer que aqui encontramos os seguidores de religiões mais cultas e daqueles que tem uma religiosidade, ou seja, não pertencem a uma religião especificamente, mas procuram em conhecimentos variados, sua visão de vida e morte. Encontramos aqui, aqueles que são mais tolerantes, aceitando a idéia que cada um pode “ver” de um jeito diferente. A mesma pesquisa citada anteriormente mostra que pessoas com um tipo de religiosidade intrínseco revelaram-se menos preconceituosas.

O psicólogo social Hans Mol disse que o fator fundamental de se pertencer a uma religião é a busca por uma identidade. Para ele, as pessoas têm a necessidade de uma identidade sólida para sentirem-se seguras. Diante disso, nota-se que pertencer a uma família católica, ser “crente” ou “espírita”, por exemplo, tem implicações de identidade de longo espectro. Essas marcas de identidade podem ser vistas em adesivos em carros, camisetas, slogans, e demarcam não só identidades mas territórios e também rivalidades, por que não.

Assim a conclusão desse campo de estudo mostra que indivíduos mais rígidos, ansiosos e tensos tendem a buscar uma religião mais convencional e fundamentalista, que os guie e diga o que pode e não pode, o que é certo e errado. Enquanto isso, pessoas mais “abertas” buscam mais a religiosidade e espiritualidade do tipo intrínseco, sendo portanto, mais tolerantes, sem uma relação de medo e culpa, sem orientações externas de como conduzir suas vidas. A importância da religião mais tradicional está tanto em fornecer interpretações aceitáveis para vida e a morte (culpa e salvação), mas, sobretudo de identidade, principalmente para indivíduos menos favorecidos e grupos excluídos socialmente.

Cabe aqui, a importante questão para refletirmos: o que leva alguém a escolher uma prática do tipo intrínseca ou extrínseca? Seriam apenas fatores culturais, familiares ou como um condicionamento que recebemos desde a infância e portanto não o questionamos? Seria o “meio ambiente”o fator determinante para decidirmos como será nossa relação com Deus? Evidentemente que, na maioria dos casos, a resposta seria que sim! Mas e as pessoas que pertencem a famílias inseridas em religiões do tipo extrínseca que fizeram outras escolhas? Terá relação com algum tipo de “evolução” o fato de, mesmo nascendo e sendo criadas em um tipo, simplesmente não ser influenciada e escolher outro? E aquelas pessoas que vem de um meio mais intrínseco e preferem, depois mesmo de adultas uma escolha mais convencional? É provável que não tenhamos respostas definitivas, o que não impede que dêem suas opiniões…

O que observamos nas religiões mais tradicionais em suas doutrinas é sua estruturação em cima de fatores de grande influência psicológica como a culpa e o medo. Dessa forma, se a pessoa não consegue seguir suas diretrizes do que seu deus permite ou não, é reforçada a culpa por não ser “obediente, ou um bom(a) filho(a) ” de deus e, como consequência, o medo da punição pela falha. Já os que fazem a escolha oposta, sempre preferem fazer das dificuldades algum tipo de aprendizado e, normalmente, não acreditam em um destino traçado de forma definitiva.

 

Oportunamente continuaremos…

 

 


Além do NORMAL (2a parte)

Você não existe para se tornar um robô e não existe para se tornar igual a mais ninguém. Você tem que se tornar você mesmo! Essa é a maior coragem do mundo, porque a sociedade inteira tenta forçá-lo a se tornar outra pessoa.

OSHO – O cipreste no jardim

 

 

Continuarei nessa semana o artigo anterior de mesmo nome, com o intuito de aumentar a abrangência do assunto. Por isso, caso não tenha sido lido, recomendo que o faça (está logo abaixo), para ter o entendimento amplo sobre o tema.

Se realmente acreditamos que todo o ser humano tem potenciais inexplorados, talentos não utilizados e que essa vivência é fundamental para sua saúde, no sentido mais amplo do termo, e se concordamos que o meio social tem cumprido a função de impedir o florescimento desses talentos, o que fazer?

Penso que uma educação que tivesse essa finalidade seria a saída. O que sempre acompanhamos é o sistema educacional servir a ideologia dominante. Hoje, a escola se dedica a formar mão de obra para o capital, apenas isso. Freud disse certa vez, com acerto, que só a arte seria capaz de libertar o ser humano da angústia existencial. Evidente que Freud não contemplava aspectos mais transcendentes da existência em sua teoria, mas é inegável que quando estamos praticando alguma forma de arte, o bem que isso traz é inquestionável! Mas hoje, a aula de educação artística é relegada e tratada de forma pouco séria. Entendo que a arte, para uma criança é muito mais importante para o seu desenvolvimento do que ensinamentos de matemática, geografia ou ciências que poderiam esperar uma idade mais favorável. Mas como a idéia não é libertar, mas “domesticar”, a educação é tratada da forma que é.

Mais uma vez citando Maslow, ele defendia a idéia de que esse desenvolvimento poderia se dar mais facilmente em um ambiente “eupsíquico”, que seria um meio favorável a essa prática. Isso significaria a convivência com pessoas que valorizam o desenvolvimento da consciência (transpessoal), o que permitiria uma facilitação do processo, na medida em que, em uma atmosfera segura podemos abandonar nossas defesas e medos e nos dedicarmos a experimentação. Hoje isso acontece em cursos e workshops que, felizmente, tem sido cada vez mais ofertados.

Esse estado de desenvolvimento, que revoga os condicionamentos e levam a verdadeira liberdade, já que não mais existe o medo e o apego é chamado pelas Tradições religiosas de diversas formas a saber:

Ele e ele tornaram-se uma só entidade. (Abuláfia, Judaísmo)

O Reino dos Céus está dentro de vós. (Cristianismo)

Atman (consciência individual) e Brahman (consciência universal) são um só. (Hinduísmo)

Da compreensão do Eu decorre a compreensão de todo este universo. ( Upanixades)

Aquele que conhece a si mesmo conhece seu Senhor. ( Islamismo)

O céu, a terra e o homem formam um só corpo. ( Neoconfucionismo)

 

Nesse momento entra em questionamento a meditação como meio de se atingir essa compreensão mais ampla da realidade. Penso que a meditação, seja pela técnica que for, por si só talvez não seja suficiente e não para todos. De alguma forma, noto que as pessoas que tem usufruído mais dos seus benefícios já tem algum tempo de “caminhada”, ou seja, conhecimentos teóricos, mudanças pessoais já realizadas que fazem da meditação algo que se encaixa dentro de um contexto. Aqueles que ainda não atingiram esses pré requisitos sempre tem pouca persistência no processo e não conseguem resultados, nem os mais iniciais como uma tranqüilidade maior, mais tolerância e uma percepção consciente das agitações da mente.

Diz a tradição, que depois que a consciência é transformada e ganha uma estabilização não se chegou ainda ao final da jornada. Depois que as questões mais profundas são resolvidas, uma paz interior é alcançada, existe um direcionamento para o sofrimento humano de forma geral, conduzindo a um sentimento que só quem chega nesse estágio pode descrevê-lo que é a compaixão. Isso quer significar que a pessoa se volta para o “outro”, com a intenção de levar essa luz encontrada às demais pessoas. Esse é o estágio que Campbell chamaria do “retorno do herói” que na verdade é o que aconteceu com todos aqueles que contribuíram para a humanidade.

Maslow e outros transpessoalistas defendem a idéia que essa evolução é tão essencial quanto o abrigo e a alimentação e que quando isso não é atingido desenvolvem-se doenças de toda a ordem que nos seus sintomas iniciais nunca são detectados pelos exames, já que é uma espécie de mal estar existencial que se somatiza no corpo de alguma forma. O que vemos é a tentativa de sanar essa angústia com compensações de toda ordem; alimentação exagerada, compras, drogas,  e outras formas de agregar alguma coisa ao meu “Eu” que me faça sentir melhor, diminuindo o sofrimento.

Na verdade, só uma consciência ampliada pode me dizer quem realmente sou, o que realmente quero. Ao final desses dois artigos fica a idéia de que tudo começa, que toda a busca se inicia pelo auto conhecimento, da descoberta de quem sou, para só assim iniciar uma caminhada que possa me levar de “volta para casa”…

 


A LOUCURA

Se o homem persistisse na sua loucura, tornar-se-ia sábio.

Willian Blake


Afinal, o que é loucura? Segundo a Wikipédia a definição é a seguinte:                                                Quem melhor do que Salvador Dali para exemplificar a arte como manifestação da loucura interior?

“A loucura ou insânia é, segundo a psicologia, uma condição da mente humana caracterizada por pensamentos considerados “anormais” pela sociedade. É resultado de doença mental, quando não é classificada como a própria doença. A verdadeira constatação da insanidade mental de um indivíduo só pode ser feita por especialistas em psicopatologia.

Algumas visões sobre loucura defendem que o sujeito não está doente da mente, mas pode simplesmente ser uma maneira diferente de ser julgado pela sociedade.”


Os sublinhados são meus.

 

Todos nós, normais (se é que isso seja possível), temos um Louco dentro de nós. Aquela parte sempre condenada pela mente consciente que, cheia de dogmas de certo e errado, como deve e não deve ser, nos empurra para uma vida de repetições que anula, muitas vezes, o que temos de melhor. Nosso Louco interior nos convida para a verdadeira vida que realmente queremos ter, sempre bloqueada pela mente reflexiva sempre muito cautelosa e cheia de medo.

A natureza mais profunda desse Louco é muito movida por instintos que nunca se bloqueiam por conceitos culturais. Podemos até dizer que ele é inocente e amoral, na medida em que simplesmente deseja e quer independente de ser “certo ou errado”. Assim, esse Louco faz essa ligação entre o nosso mais profundo Eu (caótico) e o Eu consciente, ordenado pelas regras e leis.

Essa natureza é muitas vezes cristalizada nas obras de arte, da música, poesia, etc., onde o artista se permite, sem bloqueios, fazer essa transposição do impossível para o mundo “real”.

Antigamente todas as famílias abastadas e a realeza tinham dentro de casa um “louco” ou “bobo” que se encarregava de, simbolicamente, manter por perto essa nossa parte que somos obrigados a negar para sermos aceitos e reconhecidos como “normais”. Para Sallie Nichols, a crença de que “manter um louco na corte afastava o mau olhado” não é uma superstição antiquada, mas representa uma verdade psicológica de grande valor.

Atualmente, nos permitimos dar vida a nosso Louco no carnaval e outras ocasiões, onde a própria sociedade cria datas para que demos vazão a essa loucura e, depois, voltemos à vida normal, com as regras de sempre.

Se nos permitirmos ouvir nosso Louco, talvez ele possa nos ensinar a voar e nos ofereça uma espécie de salvo conduto para viagens semelhantes, desde que o mantenhamos arrumados, sem perder a sua inocência. Interessante lembrar que, sempre que de alguma forma estamos cometendo alguma transgressão (de qualquer tipo), de acordo com o que é estabelecido como certo ou errado, nos sentimos muito vivos, e sempre dizemos: “estou fazendo uma loucura…”.

Porém é normal que nosso Louco seja posto de lado, afinal a insanidade é considerada algo muito grave hoje em dia, já que nos tira do controle, ou do controlável. Por isso, não é de se estranhar que cada vez mais se use álcool e outras drogas para podermos nos permitir uma loucura que, de “cara limpa”, seria impensada e mais do que proibida. Ou seja, quanto mais a sociedade for impiedosa com o considerado fora do normal, mais os recursos químicos serão necessários para substituir uma coragem de ser diferente.

Dito isso, penso que devemos dar mais ouvidos ao nosso Louco interior e reconhecermos nossa loucura e  sempre lembrar que muitas coisas e comportamentos hoje considerados normais, eram loucura há algum tempo atrás. Ria de si mesmo quando seu Louco se manifestar, e lembre que ele pode ser sua parte mais saudável, afinal se o mundo que vivemos está doente, não seria a loucura solução?