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A dor é amarela

              “Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. ”

                                                                         Rubem Alves

                                                                                                                                                                 cvv

Estamos em setembro, que é amarelo por uma inspiração primaveril ou porque as outras cores já foram usadas nos outros meses, dedicado a alguma causa. No caso, o foco é o suicídio e sua prevenção, que, pelos números que crescem geometricamente, precisará de mais meses do ano ou de termos um ano todo amarelo, de janeiro a dezembro.

Sobre o assunto do suicídio, já tratei diretamente em um dos capítulos de “Céu e Inferno”, bem como uma reflexão sobre a morte, em texto aqui do blog, quando usei as ideias do filósofo Montaigne como inspiração (Montaigne e a morte), escrito em setembro de 2016.

Meu intuito agora é comentar sobre a importância do trabalho, voluntário ou não, das pessoas que se dedicam a escuta e de como simplesmente ouvir pode fazer a diferença para quem está pensando em abreviar sua vida.

A angústia quando aperta nos encolhe (muitos ficam em posição fetal quando sofrem desesperadamente, buscando inconscientemente uma lembrança de quando se sentiam protegidos), e parece até que dá falta de ar em outros. Só quem já passou por isso pode avaliar e é aí que os problemas começam.

Todos, sempre com a finalidade de ajudar no sofrimento do outro, cometem alguns erros primários como, por exemplo, tentar diminuir o problema comparando com outros que, em tese, são mais graves. Quem está sofrendo, sofre seu problema que nunca pode ser comparado com outro. A dor da perda de um relacionamento é sentida psicologicamente como uma morte de alguém querido. Comparar dizendo que “tem coisas bem piores” além de ser uma bobagem é um desrespeito. Jamais pode-se partir do ponto de que as pessoas são iguais, sendo a comparação uma verdade válida para todos. A morte de um animal de estimação, a perda de um emprego, seja qual for o problema, tem o sentir único de quem o vivencia e qualquer comparação é absurda. Não tente consolar seu amigo (a), por exemplo, oferecendo suas experiências tristes esperando que ele melhore ficando com pena de você.

O sofrimento, normalmente é um não entendimento da dor e falar sobre isso sempre ajuda. Quando a pessoa sente confiança para expressar seu sentimento, suas ideias se organizam no ato de explicar o que está sentindo. Mas isso exige uma atitude de respeito à capacidade que cada um tem de resolver seus próprios problemas. Outro erro grave é querer oferecer saídas ou dar conselhos. Os profissionais da área da psicoterapia, que possuem toda uma preparação para lidar com o sofrimento alheio, têm por norma não aconselhar, justamente por procurarem oferecer condições de entendimento. Quando tudo fica claro, quando as causas são conhecidas pode ficar a dor, mas o sofrimento acaba. Portanto, não dê conselhos!

Quer ajudar?

Apenas ouça, não julgue, não critique e não aconselhe.

A não ser que você seja alguém realizado como um Buda, que atingiu o clímax do potencial humano, acolher já está ótimo!

Se todos nós temos nossos problemas e sofrimentos, só podemos ensinar o que sabemos por experiência. O que isso quer dizer? Que só podemos ensinar a ter problemas e sofrimentos.

O ato de falar sem se sentir julgado, comparado ou criticado abre infinitas possibilidades, mas seu maior efeito é a diminuição da dor emocional que, quando atinge um patamar elevado faz a pessoa querer acabar com isso rapidamente e é aí que entra a ideia do suicídio. Em níveis mais baixos, acabamos com nossa angústia com uma barra de chocolate ou um copo de qualquer coisa. Somos todos suicidas em potencial e o que nos falta é a dor extrema aliada a um momento de fragilidade. Nossa natureza é a busca da alegria e a fuga da dor. A alegria é imaginada e vivida intensamente em momentos, já a dor emocional é também física, sendo, portanto, mais propícia a saídas rápidas e impensadas. Como já detalhei no artigo sobre o suicídio, a angústia, seja de que nível for, sempre é tão passageira quanto a felicidade que “dura pouco”, mas com um agravante; parece ser eterna enquanto dura, parafraseando Vinícius de Morais.

Por isso, trabalhos de escuta como o que o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece gratuitamente é de inestimável valor para a sociedade e merece todo nosso apoio. São pessoas que doam seu tempo e que são treinadas para essa escuta respeitosa, de ajudar a pessoa que está sofrendo a falar tudo que sente, anonimamente, sem cobranças, consolos ou saídas milagrosas. A fala, muitas vezes o choro que se deixa chorar, alivia em muito a angústia e nessa hora é o que importa. É como um pronto-socorro que não tem a função de curar, somente de manter o paciente vivo para que ele possa procurar com calma e sem dor a saída de seu problema.

Como é importante nesses momentos não oferecer crenças ou explicações metafísicas. Até porque, são saídas baseadas em expectativas de que o mundo ou a vida sejam desse ou daquele jeito. Muitas vezes não funcionando nem para quem os sugere. Quando alguém enfrenta o desespero isso também acontece pelas suas crenças se mostrarem sem efeito diante do problema. Oferecer outra? Por favor, não!

Portanto, se você está sem tempo de ouvir, ou acha que o problema que a pessoa está enfrentando poderia ser pior, que está faltando coragem ou fé, não diga nada. Sugira que procure uma ajuda profissional, reconhecendo sua limitação (o que é um ato de extrema inteligência e grandeza) ou então dê o número do CVV*.

O mundo está nos entristecendo cada vez mais e isso diminui nossa força e vontade de viver. Estamos cada vez com mais medo de não conseguirmos nos manter em um mundo que está mudando muito mais rápido do que nossa capacidade de assimilação. Tudo perde valor e validade rapidamente e manter-se, seja no emprego, nos relacionamentos e até de atender nossas necessidades é um risco diário. O mundo e nossa civilização perdeu consistência, ou ficou “líquido” como bem descreve Zygmunt Bauman em seus livros. Parece que só globalizamos a miséria, a violência e o medo. Precisaríamos de uns trezentos ou quatrocentos anos para nos adaptarmos sadiamente ao que aconteceu nos último trinta.

Os números do suicídio são verticais, afetam todas as classes sociais e econômicas e a dor que não respeita nada pode nos atacar dentro de um ônibus indo para o trabalho ou em um iate nas costas do mar Egeu.

Se alguém me perguntasse que cor daria para setembro, certamente não escolheria o amarelo de “cuidado” como nos semáforos. Usaria e vermelho de “pare”!

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 * CVV disque 141

Arrume seus armários

   “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.”

                                                            Fernando Pessoa

mudança

Mudanças são difíceis e, na maioria das vezes, ocorrem sem nossa concordância; são necessidades impostas pela vida. Portanto, a famosa frase “resistir a mudança” tem sua lógica. Nosso instinto de sobrevivência quer a manutenção do que nos mantêm vivos, afinal, estar vivo é uma pré-condição da almejada felicidade poder ser alcançada.

Uma mudança, seja ela imposta ou escolhida sempre será um processo de alguma dor, ou como dizia Nietzsche, de “rasgar a alma”. Isso porque, saímos do terreno conhecido em direção a essa nova etapa que não controlamos (por ainda não termos vivido algum tempo nela), com o receio que nossa máquina corporal nos impõe sempre que estamos diante do que não conseguimos prever; o medo.

É justamente aí que reside a origem e a necessidade de todos os deuses e superstições: uma mão forte diante do medo do desconhecido e de um mundo repleto de acasos e variáveis que escapam à nossa lógica e compreensão.

Assim, diante de uma mudança necessária (as desnecessárias adiamos até se tornarem imperativas), ficamos à espera de uma força que nos anime para adentrar nessa selva desconhecida. Vale fazer uma promessa, beijar a medalhinha do santo protetor e confiar no apoio do Grande Pai, que sempre sabe o que faz e quer o nosso bem. Então, munidos dessa “força”, respiramos fundo e vamos adiante, seja para uma cidade nova, um relacionamento, um novo projeto profissional, um regime ou abandonar velhas rotinas que já não servem mais.

Nossa realidade externa sempre é reflexo do nosso interior, da ordem e desordem emocional que estamos vivendo. Esse conceito não é novo, frequenta a filosofia de autoajuda faz tempo e nos serve muito, quando estamos falando de processos de mudança.

Como já tive a oportunidade de escrever em outros textos, ansiamos por estarmos emocionalmente aptos a enfrentar esse processo de ir em direção a uma nova realidade. Queremos estar animados para o novo começo e isso não é possível, como expliquei acima. O máximo que se consegue, quando a mudança pode representar o fim de uma longa agonia é uma alegria misturada com tensão, que é esse medo diante do novo. Dizemos a nós mesmos: “Vai dar certo, eu sei !”

Não, não sabe. Se soubesse não precisaria estar repetindo segurando a medalhinha. Lembrando que “fé” é acreditar no que não sabemos.

Voltando ao começo desse texto, digo que a saída é a seguinte: se não tem como termos essa alegria/força/ânimo puro, diante do que nos espera, então, como fazer?

A resposta é simples, faça “por fora”, ou seja, mesmo a confiança e a certeza estando ausentes, tome as atitudes (ações) que representem que essa mudança já está em curso e sendo bem-sucedida. Mudando nossa realidade externa, nosso interior acompanhará essa mudança.

Tudo que esperamos que venha de dentro nunca é algo que sentiremos antes, mas somente depois. A “confiança”, qualidade aspirada por muitos, sempre é resultado de atitudes que deram certo. As primeiras, normalmente acompanhadas do medo. Por isso, não tem como se sentir confiante sem ter feito ainda. Parece óbvio, mas está longe de ser.

A “alegria” é sempre depois, nunca antes. É resultado de algo que aconteceu e ninguém fica alegre por algo que acontecerá, visto que isso está no futuro, sujeito a variáveis que podem não resultar no que se espera. Nesse caso, chamamos de “esperança”, sempre acompanhada do medo de não se concretizar.

Portanto, qualidades são depois, resultado de ações que tomamos sentindo receio e cheio de dúvidas. Em toda história de sucesso, sempre encontraremos no começo do relato o momento em que um grande risco foi corrido. O orgulho de quem conta a história nem é do resultado em si, mas de ter vencido a angústia diante da possibilidade de naufragar.

Dificilmente quem está em desordem interna, seja pelo que for, estará com suas coisas pessoais arrumadas. Nós e o mundo somos uma só coisa, indivisível. Justamente por isso, como já disse, o mundo precisa ser um caos. Temos oito bilhões de “mundos” convivendo e para que cada um possa Ser, nenhuma ordem deve estar pré-estabelecida.

Mudamos a mente pelo corpo e o corpo pela mente. A Yoga traz calma a mente, justamente por tirar a tensão dos músculos pelo alongamento, e uma criança é flexível  por não ter uma mente repleta de medos e crenças. Não há corpo saudável em uma mente desordenada e vice-versa.

Dificilmente atraímos para qualquer tipo de relacionamento alguém que seja oposto. Um mau momento pressupõe um mau encontro e escolhas idem.

Assim, mudar o externo é uma maneira mais rápida de mudar internamente mas, como tudo, precisa de compreensão. Quem age sabendo o motivo de estar fazendo tem um resultado mais sólido. De nada adianta repetir mil vezes que se é confiante, por exemplo, se não temos atitudes de confiança. Você poderá dizer que estaríamos mentindo a nós mesmos fazendo isso. Pode ser, no começo. Mas nunca esqueça que tudo que repetimos vira uma verdade pessoal. Mas isso só vale para atitudes, nunca para frases.

Observe como é difícil manter nossa vida financeira em ordem quando estamos em desequilíbrio, assim como nossos armários estão tão desarrumados quanto nossos pensamentos e emoções.

Tudo é resultado de ações ou da falta delas em nosso universo particular.

Outros mundos colidem com o nosso a todo momento e esse entrechocar de vontades e ânimos torna os resultados sempre imprevisíveis. Mas o que nos compete é fazer o que nos cabe para termos o que desejamos.

Quem toma uma ação nova já é “outro”, mesmo que seja com algum receio. O tornar-se outro, maior do que se era, seja por escolha ou imposição das circunstâncias precisa de uma alma maior. A antiga rasga por não se caber mais nela.

Portanto, pare de esperar que a confiança e todos os bons ventos se façam presentes para sua travessia. O bom marinheiro veleja com todo tipo de vento e só é bom porque sabe para onde vai.

Perguntas desnecessárias

…Ser moderado é a maior virtude. A sabedoria consiste em falar e agir na verdade,

    dando atenção a natureza das coisas. É sábio reconhecer que todas as coisas são

   uma só. A sabedoria é uma só – conhecer a inteligência pela qual todas as coisas

   são guiadas por todas as coisas.

   A sabedoria é uma e única; ela não está inclinada e, ainda assim, está inclinada a

  ser chamada pelo nome de Zeus”.

                                    Heráclito – Fragmentos

  “Nullas ex omnibus rebus, quae in protestade mea non sunt, pluris, quan cum Viris

   veritatem sincere amantibus foedus inire amicitiae”.*

                        Espinosa – citação de abertura da Éthica

perguntas

   Temos uma dificuldade em aceitar o mundo e a vida como um todo simplesmente como são. Nos sentimos inseguros diante da realidade e nos escondemos atrás de uma série de ideias pouco prováveis. É como se tivesse luz em demasia e só colocando uma lente escura pudéssemos viver confortavelmente. Ou, se preferir, já que a palavra “luz” pode ser interpretada de várias formas, fosse necessária uma lente com algum grau para distorcer minha visão para que pense que enxergo.

Qual, afinal, o problema de tudo ser simplesmente como é?

 Não conseguimos simplesmente viver a vida que temos; ansiosos, precisamos pensar na próxima, garantir-se nela com privilégios. Agimos baseados em condutas ditas corretas, não por uma iniciativa do bem pelo bem, mas como condição da obtenção de vantagens, seja para nossa vida aqui (proteção e saúde), como para estarmos de bem com quem cuida da nossa contabilidade divina. Mesmo religiões que não falam de nenhum deus, têm sempre seu julgador com quem acertamos as contas depois da morte e que nos encaminha para a próxima existência baseado em nosso saldo de boas ou más ações. Não valem as ações sinceras, só as pré determinadas como corretas, nunca esqueça!

Heráclito diz que a verdade está oculta pelas aparências. Não foi fácil para ele viver na mesma época que Aristóteles, que defendia que a verdade está aparente. O pai da lógica ocidental dizia que A e B são coisas diferentes, justamente por serem A e B. Já Heráclito dizia que A e B são apenas duas formas em que uma mesma coisa se manifesta. Osho afirma que se Heráclito tivesse nascido na Índia seria um dos Budas. E seria mesmo!

Nossas sofridas definições de “bem e mal”, “certo e errado” ou de “justo e injusto” entre outras, são oriundas de Aristóteles que não via, como Heráclito, que a impermanência, como regra básica da vida, deveria merecer nosso silêncio e simples observação. Quando fazemos julgamentos imediatos, significa que só conseguimos entender baseados nessa separação entre positivo e negativo, bom ou mal. Como já comentei em artigos anteriores, basta cada um observar sua própria vida para notar que acontecimentos foram sentidos de uma maneira no momento e de outra completamente diferente depois de algum tempo.

O problema é que Heráclito nos exige um esforço. Para não fazer o julgamento, que leva ao sofrimento, precisamos em primeiro lugar entender seu pensamento e depois estar muito consciente para que Aristóteles, que está impregnado em nosso subconsciente, não se manifeste de forma automática e mecânica.

Já Espinosa, afirma que a Alegria é o que aumenta nossa potência, ou força para viver. Só que, para ele, a Alegria é a condição para a liberdade, para podemos viver em potência. E o que é, afinal, essa Alegria?

 É o conhecimento das causas!

 Nas palavras do próprio Espinosa: “A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, na medida em que a essência dele é explicada ou definida pela essência de sua causa”. (Ética V – Axioma II). Podemos também optar pela Proposição III; “Uma afecção, que é paixão (aquilo que nos domina sem entendermos a causa – grifo meu), deixa de ser paixão no momento em que dela formamos uma ideia clara e distinta”. Ou seja, quando entendemos as causas, somos livres.

O problema é que buscamos essa liberdade, ou seja, conhecer as causas em crenças que trazem explicações quase que “sobrenaturais” para as questões que mais nos deixam inseguros.

A resposta mais óbvia e mais aceita pela nossa mente Aristotélica é que deve haver uma explicação para tudo ser do jeito que é. Pode ser que a explicação é que não tem explicação. Heráclito diria que estamos querendo revogar a lei da impermanência, congelando um acontecimento, evitando que ele se reverbere na pessoa que seremos logo ali à frente.  Para os amantes do futebol é como congelarmos a imagem antes do pênalti ser cobrado. Não sabemos se o gol será ou não feito e muito menos se o jogo não pode ser virado, logo ali à frente.

Já Espinosa nos diria que a causa primeira é que por não sabermos o motivo de Deus** para que aquilo ocorra, sofremos por ignorância.

No final, esses dois pensadores nos pediriam simplesmente para que vivamos a nossa vida por ela mesma. Como nunca saberemos as respostas sobre de onde e como viemos e para onde vamos (se vamos), sejamos mais livres e mais alegres, o que é quase a mesma coisa. Nos bons momentos não necessitamos de nenhuma ajuda externa ou divina, não temos pedidos a fazer e muito menos medo do que virá. A ideia de Deus que recebemos o torna indispensável no sofrimento, por não entendermos sua causa. Daí vem as explicações: devo merecer isso por algum motivo ou as famosas e fáceis “linhas tortas” e outras mais ou menos criativas quanto essas.

Todos os julgamentos são na verdade uma espécie de automatismo, onde usamos uma interpretação de segunda mão, vindo do meio onde estamos ou fomos criados. Ver sem julgar exige o conhecimento das causas ou assumir-se ignorante delas. “Não saber” também é um bom e leve jeito de entender que muitas vezes as causas estão além da minha capacidade, que existe uma aleatoriedade, ou seja, pode não ter a ver comigo, necessariamente. Lembrar que, minha percepção sobre o que for, mudará na medida em que mudo pela experiência de viver ajudará muito.

“Não saber” o que é a morte, se existe outra vida, se Deus é “alguém” ou alguma inteligência, se o Carma é mesmo uma lei ou outra grande Pergunta qualquer é entender, finalmente, que a única verdade realmente é aquela que vejo e que esteja acessível a minha razão. Nunca saberei essas respostas, já que elas estão no âmbito do “crer”.

Justamente por isso que o “buscador” é eterno. Ele nunca encontrará nada e sua diversão é a busca, simplesmente.

Para outros, viver é a única religião e a Alegria de Espinosa é a liberdade que pode ser alcançada. Mas tudo isso só funciona se estivermos alimentados, seguros e abrigados.

Porque nesse mundo de verdade, estar vivo e “viver” plenamente sempre vem em primeiro lugar e também é o que esquecemos primeiro quando as necessidades diminuem.

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O presente texto é um complemento não necessário (independente) do anterior “Para que(m) serve a verdade”

 *Nada estimo mais, entre todas as coisas que não estão em meu poder, do que contrair uma aliança de amizade com homens que amem, sinceramente, a verdade.

**Resumidamente, o Deus de Espinosa é imanente, ou seja, a Natureza como uma inteligência infinita.

Para saber mais:

Harmonia oculta  – Discursos sobre os fragmentos de Heráclito.  Osho, ed Cultrix.

Espinosa – Coleção “Os pensadores” ed Abril

A velha TV

Nem todo mundo que faz sua caminhada cedo pela manhã, necessariamente acorda cedo. Eu, começo a despertar no final do primeiro quilômetro, lá pela terceira música que toca no celular com o volume bem baixo, para não irritar. Como nada é somente ruim, o automatismo das ações antes de sair e do mesmo trajeto, ajudam a fazer tudo isso sem precisar estar, necessariamente, acordado. Diria algum especialista em sono que este estado, nem lá nem cá, chama-se hipnopômpico.

Pois assim estava, “hipnopompicamente” caminhando quando me deparei com uma televisão jogada fora. Como hoje, somos todos fotógrafos e cinegrafistas, resolvi clicar, mas sem nem saber o motivo. A esperança é que quando acordasse aquilo faria algum sentido ou seria mais uma dessas ações que terminam em nada.

Alguns minutos depois, não sei se levado pela música que ouvia ou por falta do que pensar, a imagem da televisão na calçada me veio à mente e junto com ela algumas sensações e pensamentos. Somos movidos por tantos estímulos que nem nos damos conta que nossas escolhas e suposta liberdade, até mesmo de apenas pensar, sejam realmente nossas?

A televisão nem era tão antiga assim, pensei. Era do tempo do tubo de imagem, o que sempre exigia um espaço para que o aparelho “respirasse”, não podendo encostá-la na parede. Hoje, as televisões ultramodernas, pelo visto, dispensam o oxigênio. Lembro das primeiras, na minha infância com a parte de cima em madeira, antena longa e seletor de canais redondo, que girávamos como uma maçaneta. Naquela época, mudávamos pouco de canal, não só por termos poucas opções, mas precisávamos levantar e dava preguiça. Controle remoto só veio mais tarde, causando um assombro de tecnologia. Por ali fomos ficando mais preguiçosos, e logo em seguida, os carros tinham os vidros elétricos. Viramos reis, vontades atendidas em um toque!

Para os mais jovens, onde tudo é touch screem, isso é tão fora da realidade quanto um selo de carta, mas como diziam os antigos: Recordar é viver…

Como não era tão antiga assim? Foi um pensamento abrupto.

 Caí na realidade e percebi que ultimamente nada para mim é “tão antigo assim”. Depois de uma idade, precisamos encurtar o tempo, fazer de conta que os anos têm seis meses, ou que tudo é mais veloz do que realmente é. Mente e corpo vão se separando depois dos cinquenta. Um dói aqui e ali e o outro insiste em uma juventude onde tudo é mais fácil, sem joelhos, dores de coluna ou óculos que aumentam o grau a cada ano.

Hoje, onde tudo é Smart, essa velha senhora perdeu a validade. Tomara que tenha morrido, tenha sido largada na rua por não funcionar mais. Seria desrespeitoso pô-la fora ainda funcionando, apenas por não oferecer os recursos modernos. Mais ou menos como se faz com as pessoas no mercado de trabalho.

Por mais que ela não tenha sido brilhante, tenha só servido para novelas, os jornais de sempre e os imortais programas dominicais que, pasmem, já existiam antes dela e continuarão até os modelos que ainda nem imaginamos, ela conseguiu aumentar o tamanho do mundo de quem assistia.  Mas nem isso garantiu-lhe algum respeito. Não serve mais, ninguém quer e, se estava doente, não valia a pena pelo preço do conserto.

Triste fim.

Quem sabe, um dia não esteve conectada às primeiras parabólicas, tão grandes quanto a que a NASA usa para receber mensagens do espaço. Imagem limpa, mas nada como o HD de hoje em dia, onde as atrizes precisam de muito mais maquilagem para que eventuais espinhas e falhas na pele não as denunciem como mulheres iguais às que vemos nas ruas.

Um dia, essa televisão era o que tinha de mais moderno, mas o tempo, que torna tudo cada vez mais obsoleto rapidamente, a fez chegar a velhice sem sequer ter terminado de ser jovem.

Nós, da geração do seletor de canal, do celofane azul e amarelo para transformar o preto e branco em bicolor estamos passando como ela. Só o que permanece é a Maizena e o Sílvio Santos, holograma que ainda imaginamos vivo.

Na volta da caminhada ela não estava mais lá. Levada pelo caminhão do reciclável, reencarnará em algum plástico e nunca ninguém poderá imaginar sua vida passada, quando ver apenas uma torradeira ou um ventilador. Já o tubo de imagem, por onde assistíamos a emoção e a tragédia, esse não tem mais jeito. Precisará terminar, vida única, sem paraíso ou inferno.

Hoje também vamos para a reciclagem como doadores de órgãos, ato sublime de despedida, dando utilidade ao que temos de plástico. Mas nossas histórias, alegrias e tristezas não têm chance. Desaparecerão e terão algum eco na memória dos que ficam, cada um com seu jeito de lembrar de nós.

No fim, posso só ter usado essa televisão para ficar pensando, talvez imaginando tudo apenas para ocupar a cabeça.

 Mas afinal, isso não tem problema, fazemos isso o tempo todo com tudo e todos que estão a nossa volta.

A Vida

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A foto do menino correu o mundo. Virou símbolo da tristeza nacional e da dor que Chapecó transmitiu para todo planeta conectado. De Cristiano Ronaldo a Guns’n’Roses mensagens de apoio, com a oração do Papa e estádios e prédios pelo mundo em verde. Dessa vez, não simbolizava esperança.

Morreram jogadores do país do futebol, jornalistas, dirigentes e torcedores que estavam realizando o sonho de viajar com o time para sua disputa mais importante. Era hora de se tornar “grande” e a expectativa era imensa. Todos sentiram a tragédia, mesmo quem tentasse não pensar nela, escondendo-se nos afazeres diários. Há quem diga que existe uma “mente coletiva”, soma dos nossos pensamentos e foi isso que não nos deixou parar de doer. Nos colocamos no lugar dos torcedores que perderam seu time e os ídolos que poderiam se eternizar na conquista. Quem é pai ou mãe, nem se fala. Nos colocamos no lugar dos filhos, e não é difícil lembrar que um dos primeiros medos que temos consciência é de que a morte leve nossos pais, símbolo na nossa estabilidade e segurança, de quem chega em um mundo tão estranho.

Perdemos jogadores e jornalistas que não nos conheciam, mas que nós conhecíamos. Faziam parte da nossa vida com suas jogadas, entrevistas e comentários. Gente que entra na nossa vida pela televisão, celular e tablet, que passa a conviver conosco e que também explicam quem somos, seja por torcer, seja concordar ou não com suas opiniões.  Os mais velhos, derramaram lágrimas mais uma vez e descobriram que a dor é sempre nova. Dá um desânimo quando percebemos que nem a experiência do sofrimento torna a dor menos intensa. Choramos por que continuamos esperando que a vida tenha algum nexo. Quanto mais pensamos, nos damos conta  que as explicações não fecham e que se todos virássemos “estrelas” precisaríamos de mais um ou dois céus.

Não basta se colocar no lugar do outro, como nos mandam os princípios iniciais da ética dos limites e do respeito, mas há quem diga que o que conta é sentirmos o que o outro sente.

Esse menino sentado na arquibancada vazia, está velando sua esperança.

Ainda faz parte de sua vida as histórias onde os super-heróis sempre vencem o mal no último minuto, o “mocinho” conquista a donzela e encontram a felicidade eterna ou quando a justiça pune o malvado para mostrar que nesse mundo o bem sempre vence e o mal não prospera.

Imagino que ele esteja procurando colocar o que aconteceu com seus heróis de chuteiras nesse mundo que lhe venderam desde que nasceu, onde todos têm um anjo da guarda, penúltimo recurso diante das adversidades que têm por função nos salvar. Quando ele ainda não dá conta, sempre tem Deus, Pai Maior, que cuida e vigia a todos nós em nossos pensamentos e ações que, com certeza, luta o tempo todo contra as maldades e injustiças que podem nos vitimar.

O que nos choca é tentarmos colocar isso dentro dessa “lógica” de dois mil anos e fica faltando o mais importante; o por que?

As “linhas tortas”, parece, não chegam a lugar algum mas podem ser, quem sabe, uma consolação que não se entende nem tem muita lógica. Mas o que tem?

Esse é então, nos asseguram os contadores de histórias, o mundo do bem. Aqui ser correto abre todos os caminhos e agradecer todo dia por tanta proteção é a última das obrigações antes de dormir, assim como abençoar a comida que compramos, mas que nem é mérito nosso, parece.

O que falta nos países miseráveis onde milhares morrem de fome diariamente é o agradecimento, a oração ou anjos. Só pode!

Mais tarde nos damos conta que Papai Noel não existe (é apenas uma licença poética) e o professor de biologia nos dará a triste notícia que os coelhos não botam ovos. Vamos crescendo e percebendo que o mundo de verdade é que cria o mundo perfeito dos cinemas e das histórias, para fazer um contraponto. Quando os adultos choram nos filmes românticos, só pode ser por descobrirem que o amor de gente de verdade é bem mais difícil e pode acabar sem um final feliz.

Precisamos de um mundo idealizado para suportar a crueza da realidade.

Amadurecer é tomar consciência de uma fragilidade inescapável. Podemos morrer, pessoas que gostamos também e se vê na televisão que uma chuva ou vento destrói casas como a nossa. Nada há que possamos fazer para evitar e a insegurança cria as diversões e paixões da vida, momentos em que esquecemos que tudo pode mudar em um minuto.

Esquecer é, muitas vezes, a condição da alegria. E a felicidade só dura pouco, como diz a sabedoria popular, porque nos lembramos.

Mas isso tudo vai acontecendo, uma descoberta de cada vez e vamos nos acostumando, perdendo as ilusões e a graça em conta gotas.

Esse menino, perdeu tudo de uma só vez.