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Perguntas desnecessárias

…Ser moderado é a maior virtude. A sabedoria consiste em falar e agir na verdade,

    dando atenção a natureza das coisas. É sábio reconhecer que todas as coisas são

   uma só. A sabedoria é uma só – conhecer a inteligência pela qual todas as coisas

   são guiadas por todas as coisas.

   A sabedoria é uma e única; ela não está inclinada e, ainda assim, está inclinada a

  ser chamada pelo nome de Zeus”.

                                    Heráclito – Fragmentos

  “Nullas ex omnibus rebus, quae in protestade mea non sunt, pluris, quan cum Viris

   veritatem sincere amantibus foedus inire amicitiae”.*

                        Espinosa – citação de abertura da Éthica

perguntas

   Temos uma dificuldade em aceitar o mundo e a vida como um todo simplesmente como são. Nos sentimos inseguros diante da realidade e nos escondemos atrás de uma série de ideias pouco prováveis. É como se tivesse luz em demasia e só colocando uma lente escura pudéssemos viver confortavelmente. Ou, se preferir, já que a palavra “luz” pode ser interpretada de várias formas, fosse necessária uma lente com algum grau para distorcer minha visão para que pense que enxergo.

Qual, afinal, o problema de tudo ser simplesmente como é?

 Não conseguimos simplesmente viver a vida que temos; ansiosos, precisamos pensar na próxima, garantir-se nela com privilégios. Agimos baseados em condutas ditas corretas, não por uma iniciativa do bem pelo bem, mas como condição da obtenção de vantagens, seja para nossa vida aqui (proteção e saúde), como para estarmos de bem com quem cuida da nossa contabilidade divina. Mesmo religiões que não falam de nenhum deus, têm sempre seu julgador com quem acertamos as contas depois da morte e que nos encaminha para a próxima existência baseado em nosso saldo de boas ou más ações. Não valem as ações sinceras, só as pré determinadas como corretas, nunca esqueça!

Heráclito diz que a verdade está oculta pelas aparências. Não foi fácil para ele viver na mesma época que Aristóteles, que defendia que a verdade está aparente. O pai da lógica ocidental dizia que A e B são coisas diferentes, justamente por serem A e B. Já Heráclito dizia que A e B são apenas duas formas em que uma mesma coisa se manifesta. Osho afirma que se Heráclito tivesse nascido na Índia seria um dos Budas. E seria mesmo!

Nossas sofridas definições de “bem e mal”, “certo e errado” ou de “justo e injusto” entre outras, são oriundas de Aristóteles que não via, como Heráclito, que a impermanência, como regra básica da vida, deveria merecer nosso silêncio e simples observação. Quando fazemos julgamentos imediatos, significa que só conseguimos entender baseados nessa separação entre positivo e negativo, bom ou mal. Como já comentei em artigos anteriores, basta cada um observar sua própria vida para notar que acontecimentos foram sentidos de uma maneira no momento e de outra completamente diferente depois de algum tempo.

O problema é que Heráclito nos exige um esforço. Para não fazer o julgamento, que leva ao sofrimento, precisamos em primeiro lugar entender seu pensamento e depois estar muito consciente para que Aristóteles, que está impregnado em nosso subconsciente, não se manifeste de forma automática e mecânica.

Já Espinosa, afirma que a Alegria é o que aumenta nossa potência, ou força para viver. Só que, para ele, a Alegria é a condição para a liberdade, para podemos viver em potência. E o que é, afinal, essa Alegria?

 É o conhecimento das causas!

 Nas palavras do próprio Espinosa: “A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, na medida em que a essência dele é explicada ou definida pela essência de sua causa”. (Ética V – Axioma II). Podemos também optar pela Proposição III; “Uma afecção, que é paixão (aquilo que nos domina sem entendermos a causa – grifo meu), deixa de ser paixão no momento em que dela formamos uma ideia clara e distinta”. Ou seja, quando entendemos as causas, somos livres.

O problema é que buscamos essa liberdade, ou seja, conhecer as causas em crenças que trazem explicações quase que “sobrenaturais” para as questões que mais nos deixam inseguros.

A resposta mais óbvia e mais aceita pela nossa mente Aristotélica é que deve haver uma explicação para tudo ser do jeito que é. Pode ser que a explicação é que não tem explicação. Heráclito diria que estamos querendo revogar a lei da impermanência, congelando um acontecimento, evitando que ele se reverbere na pessoa que seremos logo ali à frente.  Para os amantes do futebol é como congelarmos a imagem antes do pênalti ser cobrado. Não sabemos se o gol será ou não feito e muito menos se o jogo não pode ser virado, logo ali à frente.

Já Espinosa nos diria que a causa primeira é que por não sabermos o motivo de Deus** para que aquilo ocorra, sofremos por ignorância.

No final, esses dois pensadores nos pediriam simplesmente para que vivamos a nossa vida por ela mesma. Como nunca saberemos as respostas sobre de onde e como viemos e para onde vamos (se vamos), sejamos mais livres e mais alegres, o que é quase a mesma coisa. Nos bons momentos não necessitamos de nenhuma ajuda externa ou divina, não temos pedidos a fazer e muito menos medo do que virá. A ideia de Deus que recebemos o torna indispensável no sofrimento, por não entendermos sua causa. Daí vem as explicações: devo merecer isso por algum motivo ou as famosas e fáceis “linhas tortas” e outras mais ou menos criativas quanto essas.

Todos os julgamentos são na verdade uma espécie de automatismo, onde usamos uma interpretação de segunda mão, vindo do meio onde estamos ou fomos criados. Ver sem julgar exige o conhecimento das causas ou assumir-se ignorante delas. “Não saber” também é um bom e leve jeito de entender que muitas vezes as causas estão além da minha capacidade, que existe uma aleatoriedade, ou seja, pode não ter a ver comigo, necessariamente. Lembrar que, minha percepção sobre o que for, mudará na medida em que mudo pela experiência de viver ajudará muito.

“Não saber” o que é a morte, se existe outra vida, se Deus é “alguém” ou alguma inteligência, se o Carma é mesmo uma lei ou outra grande Pergunta qualquer é entender, finalmente, que a única verdade realmente é aquela que vejo e que esteja acessível a minha razão. Nunca saberei essas respostas, já que elas estão no âmbito do “crer”.

Justamente por isso que o “buscador” é eterno. Ele nunca encontrará nada e sua diversão é a busca, simplesmente.

Para outros, viver é a única religião e a Alegria de Espinosa é a liberdade que pode ser alcançada. Mas tudo isso só funciona se estivermos alimentados, seguros e abrigados.

Porque nesse mundo de verdade, estar vivo e “viver” plenamente sempre vem em primeiro lugar e também é o que esquecemos primeiro quando as necessidades diminuem.

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O presente texto é um complemento não necessário (independente) do anterior “Para que(m) serve a verdade”

 *Nada estimo mais, entre todas as coisas que não estão em meu poder, do que contrair uma aliança de amizade com homens que amem, sinceramente, a verdade.

**Resumidamente, o Deus de Espinosa é imanente, ou seja, a Natureza como uma inteligência infinita.

Para saber mais:

Harmonia oculta  – Discursos sobre os fragmentos de Heráclito.  Osho, ed Cultrix.

Espinosa – Coleção “Os pensadores” ed Abril

A velha TV

Nem todo mundo que faz sua caminhada cedo pela manhã, necessariamente acorda cedo. Eu, começo a despertar no final do primeiro quilômetro, lá pela terceira música que toca no celular com o volume bem baixo, para não irritar. Como nada é somente ruim, o automatismo das ações antes de sair e do mesmo trajeto, ajudam a fazer tudo isso sem precisar estar, necessariamente, acordado. Diria algum especialista em sono que este estado, nem lá nem cá, chama-se hipnopômpico.

Pois assim estava, “hipnopompicamente” caminhando quando me deparei com uma televisão jogada fora. Como hoje, somos todos fotógrafos e cinegrafistas, resolvi clicar, mas sem nem saber o motivo. A esperança é que quando acordasse aquilo faria algum sentido ou seria mais uma dessas ações que terminam em nada.

Alguns minutos depois, não sei se levado pela música que ouvia ou por falta do que pensar, a imagem da televisão na calçada me veio à mente e junto com ela algumas sensações e pensamentos. Somos movidos por tantos estímulos que nem nos damos conta que nossas escolhas e suposta liberdade, até mesmo de apenas pensar, sejam realmente nossas?

A televisão nem era tão antiga assim, pensei. Era do tempo do tubo de imagem, o que sempre exigia um espaço para que o aparelho “respirasse”, não podendo encostá-la na parede. Hoje, as televisões ultramodernas, pelo visto, dispensam o oxigênio. Lembro das primeiras, na minha infância com a parte de cima em madeira, antena longa e seletor de canais redondo, que girávamos como uma maçaneta. Naquela época, mudávamos pouco de canal, não só por termos poucas opções, mas precisávamos levantar e dava preguiça. Controle remoto só veio mais tarde, causando um assombro de tecnologia. Por ali fomos ficando mais preguiçosos, e logo em seguida, os carros tinham os vidros elétricos. Viramos reis, vontades atendidas em um toque!

Para os mais jovens, onde tudo é touch screem, isso é tão fora da realidade quanto um selo de carta, mas como diziam os antigos: Recordar é viver…

Como não era tão antiga assim? Foi um pensamento abrupto.

 Caí na realidade e percebi que ultimamente nada para mim é “tão antigo assim”. Depois de uma idade, precisamos encurtar o tempo, fazer de conta que os anos têm seis meses, ou que tudo é mais veloz do que realmente é. Mente e corpo vão se separando depois dos cinquenta. Um dói aqui e ali e o outro insiste em uma juventude onde tudo é mais fácil, sem joelhos, dores de coluna ou óculos que aumentam o grau a cada ano.

Hoje, onde tudo é Smart, essa velha senhora perdeu a validade. Tomara que tenha morrido, tenha sido largada na rua por não funcionar mais. Seria desrespeitoso pô-la fora ainda funcionando, apenas por não oferecer os recursos modernos. Mais ou menos como se faz com as pessoas no mercado de trabalho.

Por mais que ela não tenha sido brilhante, tenha só servido para novelas, os jornais de sempre e os imortais programas dominicais que, pasmem, já existiam antes dela e continuarão até os modelos que ainda nem imaginamos, ela conseguiu aumentar o tamanho do mundo de quem assistia.  Mas nem isso garantiu-lhe algum respeito. Não serve mais, ninguém quer e, se estava doente, não valia a pena pelo preço do conserto.

Triste fim.

Quem sabe, um dia não esteve conectada às primeiras parabólicas, tão grandes quanto a que a NASA usa para receber mensagens do espaço. Imagem limpa, mas nada como o HD de hoje em dia, onde as atrizes precisam de muito mais maquilagem para que eventuais espinhas e falhas na pele não as denunciem como mulheres iguais às que vemos nas ruas.

Um dia, essa televisão era o que tinha de mais moderno, mas o tempo, que torna tudo cada vez mais obsoleto rapidamente, a fez chegar a velhice sem sequer ter terminado de ser jovem.

Nós, da geração do seletor de canal, do celofane azul e amarelo para transformar o preto e branco em bicolor estamos passando como ela. Só o que permanece é a Maizena e o Sílvio Santos, holograma que ainda imaginamos vivo.

Na volta da caminhada ela não estava mais lá. Levada pelo caminhão do reciclável, reencarnará em algum plástico e nunca ninguém poderá imaginar sua vida passada, quando ver apenas uma torradeira ou um ventilador. Já o tubo de imagem, por onde assistíamos a emoção e a tragédia, esse não tem mais jeito. Precisará terminar, vida única, sem paraíso ou inferno.

Hoje também vamos para a reciclagem como doadores de órgãos, ato sublime de despedida, dando utilidade ao que temos de plástico. Mas nossas histórias, alegrias e tristezas não têm chance. Desaparecerão e terão algum eco na memória dos que ficam, cada um com seu jeito de lembrar de nós.

No fim, posso só ter usado essa televisão para ficar pensando, talvez imaginando tudo apenas para ocupar a cabeça.

 Mas afinal, isso não tem problema, fazemos isso o tempo todo com tudo e todos que estão a nossa volta.

A Vida

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A foto do menino correu o mundo. Virou símbolo da tristeza nacional e da dor que Chapecó transmitiu para todo planeta conectado. De Cristiano Ronaldo a Guns’n’Roses mensagens de apoio, com a oração do Papa e estádios e prédios pelo mundo em verde. Dessa vez, não simbolizava esperança.

Morreram jogadores do país do futebol, jornalistas, dirigentes e torcedores que estavam realizando o sonho de viajar com o time para sua disputa mais importante. Era hora de se tornar “grande” e a expectativa era imensa. Todos sentiram a tragédia, mesmo quem tentasse não pensar nela, escondendo-se nos afazeres diários. Há quem diga que existe uma “mente coletiva”, soma dos nossos pensamentos e foi isso que não nos deixou parar de doer. Nos colocamos no lugar dos torcedores que perderam seu time e os ídolos que poderiam se eternizar na conquista. Quem é pai ou mãe, nem se fala. Nos colocamos no lugar dos filhos, e não é difícil lembrar que um dos primeiros medos que temos consciência é de que a morte leve nossos pais, símbolo na nossa estabilidade e segurança, de quem chega em um mundo tão estranho.

Perdemos jogadores e jornalistas que não nos conheciam, mas que nós conhecíamos. Faziam parte da nossa vida com suas jogadas, entrevistas e comentários. Gente que entra na nossa vida pela televisão, celular e tablet, que passa a conviver conosco e que também explicam quem somos, seja por torcer, seja concordar ou não com suas opiniões.  Os mais velhos, derramaram lágrimas mais uma vez e descobriram que a dor é sempre nova. Dá um desânimo quando percebemos que nem a experiência do sofrimento torna a dor menos intensa. Choramos por que continuamos esperando que a vida tenha algum nexo. Quanto mais pensamos, nos damos conta  que as explicações não fecham e que se todos virássemos “estrelas” precisaríamos de mais um ou dois céus.

Não basta se colocar no lugar do outro, como nos mandam os princípios iniciais da ética dos limites e do respeito, mas há quem diga que o que conta é sentirmos o que o outro sente.

Esse menino sentado na arquibancada vazia, está velando sua esperança.

Ainda faz parte de sua vida as histórias onde os super-heróis sempre vencem o mal no último minuto, o “mocinho” conquista a donzela e encontram a felicidade eterna ou quando a justiça pune o malvado para mostrar que nesse mundo o bem sempre vence e o mal não prospera.

Imagino que ele esteja procurando colocar o que aconteceu com seus heróis de chuteiras nesse mundo que lhe venderam desde que nasceu, onde todos têm um anjo da guarda, penúltimo recurso diante das adversidades que têm por função nos salvar. Quando ele ainda não dá conta, sempre tem Deus, Pai Maior, que cuida e vigia a todos nós em nossos pensamentos e ações que, com certeza, luta o tempo todo contra as maldades e injustiças que podem nos vitimar.

O que nos choca é tentarmos colocar isso dentro dessa “lógica” de dois mil anos e fica faltando o mais importante; o por que?

As “linhas tortas”, parece, não chegam a lugar algum mas podem ser, quem sabe, uma consolação que não se entende nem tem muita lógica. Mas o que tem?

Esse é então, nos asseguram os contadores de histórias, o mundo do bem. Aqui ser correto abre todos os caminhos e agradecer todo dia por tanta proteção é a última das obrigações antes de dormir, assim como abençoar a comida que compramos, mas que nem é mérito nosso, parece.

O que falta nos países miseráveis onde milhares morrem de fome diariamente é o agradecimento, a oração ou anjos. Só pode!

Mais tarde nos damos conta que Papai Noel não existe (é apenas uma licença poética) e o professor de biologia nos dará a triste notícia que os coelhos não botam ovos. Vamos crescendo e percebendo que o mundo de verdade é que cria o mundo perfeito dos cinemas e das histórias, para fazer um contraponto. Quando os adultos choram nos filmes românticos, só pode ser por descobrirem que o amor de gente de verdade é bem mais difícil e pode acabar sem um final feliz.

Precisamos de um mundo idealizado para suportar a crueza da realidade.

Amadurecer é tomar consciência de uma fragilidade inescapável. Podemos morrer, pessoas que gostamos também e se vê na televisão que uma chuva ou vento destrói casas como a nossa. Nada há que possamos fazer para evitar e a insegurança cria as diversões e paixões da vida, momentos em que esquecemos que tudo pode mudar em um minuto.

Esquecer é, muitas vezes, a condição da alegria. E a felicidade só dura pouco, como diz a sabedoria popular, porque nos lembramos.

Mas isso tudo vai acontecendo, uma descoberta de cada vez e vamos nos acostumando, perdendo as ilusões e a graça em conta gotas.

Esse menino, perdeu tudo de uma só vez.

Fortuna, a verdadeira Deusa

         “Quando nos faltam os favores da Fortuna, com frequência pelos excessos

               da nossa conduta, culpamos de nossos desastres o sol, a lua, as estrelas;

               como se fossemos patifes por fatalidade, tolos por compulsão celeste, ve-

               lhacos, ladrões, traidores por predomínio esférico; bêbados, mentirosos,

               por forças da obediência a influências planetárias”.

                                                                Shakespeare, Rei Lear, Ato 1, Cena II

                “ Há momentos em que os homens são senhores de seu destino. O erro,

                   meu caro Brutus, não está nas estrelas, mas em nós mesmos”.

                                                                  Shakespeare. Júlio César, Ato 1 Cena II

                                                                                                                                                                    deusa-fortuna

Destino, sorte, azar, carma e “linhas tortas” são alguns dos nomes que usamos para entender a contingência, ou, em outras palavras, os acontecimentos aleatórios da vida a que todos estamos submetidos e para os quais uma explicação lógica nunca é encontrada.

Já disse em artigo anterior que chamamos de “providência divina” tudo aquilo que não encontra abrigo na lógica e na racionalidade. Se pensarmos bem, encontraremos aí uma pista da razão do nascimento e, porque não, da necessidade do homem  criar religiões. Toda superstição busca no final dar um sentido ao inexplicável e nos consolar diante da força do mundo pela nossa situação vulnerável. Pensadores como Freud e Jung, aceitos no ocidente, dizem que precisamos encontrar uma maneira de conviver com essa fragilidade diante de um mundo ou vida, onde estamos irremediavelmente sujeitos a doença, a morte e a perdas de toda ordem, sem que possamos nos proteger. Toda o sistema religioso busca isso: dar um sentido (explicação) e nos consolar diante do que não podemos controlar.

Foram os antigos romanos que melhor conseguiram encontrar uma metafísica para esse dilema quando dentre tantos deuses encontraram a deusa Fortuna. Ela é responsável por tudo que nos acontece, nossa sorte e azar, o que não esperamos seja de bom ou mal é tudo obra Dela. Fortuna é uma deusa mulher, com duas características, uma física e outra de caráter: a física é que é cega e a de caráter é sua inconstância. No seu famoso livro “Consolação da filosofia”, foi assim que ela se definiu a Boécio, para que ele pudesse entender a injustiça da sua condenação à morte, sem nada de errado ter cometido. Ela o fez ver que, junto com esse “azar”, toda sua vida abastada e a possibilidade de ter se tornado alguém muito culto em função da riqueza de sua família, foi também por presente seu.

Assim, essa mulher cega e temperamental distribui sorte a azar sem saber a quem. E é dessa forma que se encontrou uma maneira inteligente para colocar uma explicação para a vida ser assim, tão sem sentido, com absurdos ocorrendo por todos os lados. A sorte e o azar não respeitam o curriculum de ninguém e uma vida correta e ascética (como pedem algumas superstições para chegarmos as recompensas divinas) não garante nada a ninguém. A deusa Fortuna, desconfio eu, além de cega provavelmente também é surda. Só assim que chegaremos a uma consolação diante do caos e do motivo de sempre estarmos “por um fio” a cada minuto da vida, seja para continuar vivo, seja para sermos presentados ou privados sem nenhuma lógica ou motivo.

Sempre estaremos criando estórias de moral, onde bem sempre vence e os malvados são punidos pelas suas ações que só buscam a vantagem ilícita. Compramos os livros, vamos aos cinemas atrás de uma vida em que haja justiça. Mas isso só acontece e tem cada vez mais público porque a realidade não é assim. Nela, o mal se dá bem e vemos injustiças de todos os tipos, todos os dias. Páginas em branco e rolos de filmes virgens aceitam uma utopia que precisamos pensar possível, para nos manter na linha, sem que finalmente nos darmos conta de que pode não haver nenhuma recompensa por boas ações. Foi talvez pensando nisso que Kant nos trouxe seu “Imperativo categórico” onde diz que o bem deve ser feito por si mesmo, sem esperar nenhuma recompensa, seja de Deus, dos outros ou do próprio ego. Ele deve ter percebido que sempre estamos de alguma forma fazendo trocas ou negócios com quem achamos que controla a vida. Que as boas ações estão sempre esperando que a vida nunca nos puna por sermos bons. Mas a deusa Fortuna é temperamental e nada vê e ouve, portando, ela pode dar seus presentes a quem não merece e punir os bons. Essa mulher insana e desprovida de relações com a realidade é, no fim, ao que parece pelo que se observa, quem sempre esteve no comando. Ela não nos vê rezando nem ouve. E agora???

Boécio, quando se deu conta dessa triste realidade, resumiu sua frustração nesse belo poema, possível apenas em quem já desistiu de procurar outra explicação onde a justiça pudesse encontrar abrigo:

                    Quando, orgulhosa, ela muda o curso das coisas

                    E como Euripo tempestuoso ela gira seu fuso,

                    Rebaixa impiedosamente os reis outrora temíveis.

                    Enganosa, mostra a face do vencido arrastada no pó;

                    Não ouve o lamento dos infelizes ou não lhes dá atenção,

                   Até se ri, cruel, dos gemidos que provoca.

                   Assim ela brinca, assim ela dá provas de seu poder

                   E oferece aos seus súditos um grande espetáculo:

                   O de um homem que em uma hora passa da desgraça à glória.

 

 De uma forma menos dramática, Epicuro e Montaigne já nos aconselhavam a vivermos nossa vida sem nos preocuparmos com os Deuses. Suas explicações (já comentadas em artigos anteriores), eram que, por serem perfeitos, com ações perfeitas, os deuses não se manifestavam na imperfeição do nosso mundo, afinal, isso não tinha a ver com a realidade deles.

Entretanto, foi Espinosa que conseguiu encaixar essa Deusa difícil de se entender em um pensamento racional. Para ele, Deus é a própria natureza que é causa única de sua própria ação. Nós, seres finitos, não temos condições de perceber essa realidade como um “todo”, por estarmos pela falta dessa compreensão, isolados desse “todo”, indefesos, arrastados em direções contrárias e por falta de entendimento não somos a “causa” de nossa própria ação. Assim, tudo pode ser “por acidente” causa ou efeito de qualquer coisa. Não entendemos, vemos só uma parte dessa realidade, por isso sofremos.

Todas as superstições que criamos têm o sentido de explicar de alguma forma pouco crível à razão o motivo de vivermos essa nossa angustiante finitude, cercado por forças que não dominamos. Imaginamos, ou temos esperança, que segundo Espinosa equivale ao medo, pelos ritos das superstições (como rezas, oferendas e promessas) conseguir controlar essa insegurança, sem entender que somos arrastados pela nossa própria falta de compreensão.

Porém, Espinosa não se contenta em constatar, ele vai além e define o real motivo das nossas incertezas, pela imprevisibilidade dos caprichos da deusa Fortuna; nossa temporalidade imprevisível, a qualidade dos bens que desejamos onde projetamos a saída dos nossos medos e, por fim, a qualidade dos próprios desejos como a cobiça imoderada de bens incertos ou desejarmos o que não é possível; que nada nos aconteça e que nos faça sofrer. Como ele próprio diz na Ética: “ A potência humana é bastante limitada e infinitamente superada pela potência das causas externas. Assim, não temos um poder absoluto de adaptar para nosso uso as coisas que estão fora de nós…Tudo que podemos desejar resume-se nesses três objetos principais: conhecer as coisas pelas suas causas primeiras, moderar as paixões (desejos) e viver em segurança e com boa saúde”.

Para alcançar os dois primeiros não é tão difícil, já que faz parte da natureza humana, no sentido de ampliarmos nossa compreensão e autodomínio. Já para viver em segurança e com boa saúde, segundo Espinosa, dependemos de causas externas a nosso controle e a isso chamamos de Fortuna, já que ignoramos seus princípios pela nossa finita capacidade, como já dito anteriormente.

Nossa liberdade é não mais “ser parte” da natureza, mas “fazer parte” dela. Compreender a natureza da Fortuna não é render-se a ela, afinal isso não muda nada, mas aceitarmos essa limitação pode fazer da insegurança essencial do humano racional, avesso as superstições, encontrar sua paz pela aceitação de sua situação e passar a usar sua vida de forma ativa e inteligente, buscando sua realização, cônscio de que ela não tem tempo determinado e circunstâncias favoráveis sempre. Mais do que algo que traga medo, os caprichos da Fortuna podem ser vistos como o tempero que traz vibração a vida. Saber escolher como interpretar, como já escrevi várias vezes, é no fim a única liberdade que ninguém pode nos tirar.

Se as mulheres são imprevisíveis na sua subjetividade, o que poderemos esperar de uma deusa caprichosa cega e, pelo visto, também surda a qualquer tipo de pedido? Fortuna continuará distribuindo seus presentes e a tirar o que pensamos nossos como sempre fez e, pelos motivos acima, de nada adianta tentar falar com ela.

Nossa racionalidade servirá para entendermos seus caprichos e nossa impotência de controlar seus desejos sempre inesperados. Por isso, descansemos.

Nossa parte é fazer nossas ações conscientes e esperar seus resultados. Mesmo que a Fortuna possa destruir nossos planos ou nos dar graças inesperadas, nossos objetivos precisam de ação para serem concretizados. Tem tanta gente nesse mundo, que vai que ela não note sua presença. Enquanto isso, toque seus planos e tenha as atitudes para fazê-los acontecer, essa é sua parte e sem essa atitude, você precisará que Ela te encontre e esteja de bom humor. Se fosse você, não contaria.

Tudo termina em um grande paradoxo: por um lado fazemos sim nosso destino com nossas ações ou pela falta delas, mas nada pode ser certo em um processo de vida, já que o que define qualquer vida é sua instabilidade e a deusa fortuna representa o inesperado, para o bom e para o ruim.

Seja o que for para acontecer, o negócio é fazermos nossa parte para encontrar o que queremos e criarmos nossa realidade, como expressão finita da infinitude que tudo cria. Só acontecerá se assim agirmos e isso nos dá, pelo menos, alguma perspectiva.

Fora disso, é contar com os caprichos de uma deusa que não te vê nem ouve.

Sei que é muito mas fácil acreditar que temos um destino já traçado e que tudo faz parte desse plano “divino”, que tudo acabará em paraíso ou inferno. Assumir a responsabilidade sobre o destino é mais difícil, mas é o que se espera do único animal da natureza que pensa e cria.

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Para saber mais:

Consolação da Filosofia – Boécio

Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa – Marilena Chaui

Um chá com Espinosa

Fazia frio naquela tarde onde o céu era límpido e o sol não conseguia ser mais do que uma leve sensação agradável. Enquanto caminhava pelas ruas, a temperatura ia mudando, na medida em que as marquises e os prédios altos faziam sombra. Já era meio da tarde e o vento gelado parecia fazer das roupas e cachecóis uma tímida defesa.

Quando chegou na casa de chá que frequentava, surpreendentemente não encontrou fila. Era uma casa antiga, da metade do século XX, que um extremo bom gosto fez de suas salas ambientes agradáveis e muito bem decorados. De todos esses pequenos espaços, o que mais gostava tinha na parede dezenas de pequenas luminárias que, mesmo acesas, deixavam uma leve penumbra. As mesas e cadeiras misturavam estilos e até os pequenos rasgos no tecido de um sofá estilo rococó faziam parte de um charme proposital. Em outra sala, malas antigas cortadas na metade eram colocadas na parede e a sensação que tinha era que elas vomitavam o tempo. Ao fundo, jazz instrumental.

A jovem e bela atendente de olhos verdes brilhantes trouxe o cardápio em uma mão e um tablet na outra, e o lembrou de apertar um pequeno botão na mesa quando tivesse escolhido. A tecnologia combina bem com o estilo antigo do ambiente, já que esse botão acionava uma luz no relógio do garçom avisando a mesa que estava chamando.

Estava sem pressa e o próprio clima do lugar ajudava. Parecia que lá dentro o tempo nada tinha a ver com a velocidade da grande cidade, onde milhões de pessoas correm atrás da sobrevivência, em uma luta que também envolve  insegurança e  violência. Nada mais comum a todo lugar onde a riqueza e a miséria são a condição da existência uma da outra.

Na mesa ao lado, um casal de enamorados tinha seu mundo dentro daquele ambiente. Mãos dadas descansando sobre a mesa e olhos nos olhos. Um dia, esse mundo será aumentado quando descobrirem que essa perfeição foi uma imaginação, uma expectativa. Como é bom pensarmos que tem coisas que, conosco, nunca acontecerão. Tudo que outros seres humanos passaram foi só com eles e a desilusão sempre será o resultado de uma expectativa exagerada, de nos tornarmos um pouco como todo mundo.

Diferente das outras vezes, trouxe consigo o livro que estava lendo. Não foi proposital, como um ato consciente, apenas ao sair de casa levou-o junto, sem motivo. Devia ser por estar pensativo sobre o que estava lendo. Sempre gostou de filosofia, mas de uns tempos para cá, que resolveu ir mais a fundo, talvez por buscar uma nova maneira de entender a vida. Na verdade, o fato dos humanos terem consciência de um dia morrer, os obriga a que suas vidas tenham um sentido, algo que os faça ter certeza que sua passagem não foi em vão. Certa vez, o grande Saramago disse em um de seus romances que as lápides são essa última tentativa de não sermos esquecidos, quando a vida foi comum e o desejo de criança de sermos algum tipo de herói não se realizou.

Suspirou para trazer a atenção de volta ao cardápio. Escolheu um chá de frutas e especiarias. Para acompanhar, um brioche levemente doce. Depois de fazer seu pedido olhou para o livro. A capa azul era um resumo da Ética de Espinosa, comentada por seus discípulos contemporâneos.

O livro o impressionara desde o início, com a primeira de suas proposições:

“Uma única substância para todos os atributos”.

Se fosse verdade, e parecia ser se pensarmos bem, tudo que aprendera desde a infância ruíra. Recebemos uma maneira de pensar e ver o mundo e nem sequer a questionamos. Espinosa mostra com clareza o erro de Platão ao nos oferecer sua dualidade primeira; o mundo dos sentidos e o mundo das ideias ou dentro e fora da sua famosa caverna. Foi justamente por aí que as religiões criaram seus paraísos, uma ótima forma de aceitarmos pouco dessa vida e dela desviarmos atenção. Claro que Platão pensava em um Universo finito e perfeito, coisa que Espinosa, quando filosofou, já sabia não ser verdade, lá por 1650. O caos que já naquela época percebíamos no espaço era uma das faces de uma inteligência criadora que Espinosa percebeu muito além de uma ideia de como controlar as pessoas pelo medo e pela culpa.

De qualquer forma, o Deus que ele mostra seria mais factível e menos improvável do que aprendemos a imaginar. Tudo nessa imanência que vivemos é uma emanação da transcendência eterna. Morremos para que Deus possa continuar Sendo, e apenas mudamos de forma. Nossa finitude é o atestado da eternidade de Deus, na ausência de tempo. Tempo que nossa mente cria para separar o nascimento da morte.

Incrível como um homem que viveu menos de cinquenta anos, teve tamanha percepção da vida, quase sem nenhuma tecnologia.

Quando o chá foi servido, sua atenção se voltou para o bule de porcelana pintado à mão. Impossível não lembrar da casa da sua avó. A xícara seguia o conjunto e a colher pesada só podia ser de prata. Para adoçar, um pequeno pote de mel. Deixou que o aroma do chá invadisse suas narinas. Uma delícia!

“Aumento de potência”, diria Espinosa, quando algo no mundo nos dá alegria. Claro que a tristeza, seu oposto, um dia no levará a morte, mas a vida longa, como um combustível é movida por trocas que nos tragam essa alegria. A cada encontro com o mundo, com pessoas e situações afetamos e somos afetados. Sabemos que o mundo é grande demais para nós e um dia não suportaremos, mas esses encontros alegres, a mudança que se dá em cada relação com a vida é o que conta em uma contabilidade em que o bem-estar precisa estar em vantagem.

Enquanto degustava o primeiro gole, sua mente martelava: “Um só mundo, tudo uma só coisa”. Espinosa trouxe o prazer de descobrir. Para ele, a essência da mente é o conhecimento (como Aristóteles, de certa forma, também dizia). Quanto mais se conhece, mais se realiza a grande virtude, ou, como ele mesmo diz: “quando a mente contempla a si própria e sua potência de agir, alegra-se”.

Deus tem misteriosos fins, dizia o Filósofo. Queremos compreende-Lo, e isso não é possível. Vontade divina é apenas o nome que a imaginação encontra para buscar entender o que não podemos, e o medo que temos diante do incompreensível. Tudo que existe possui causa determinada e necessária para existir tal como é, e os encontros com a vida é que serão por fim, nossa liberdade de alegria ou tristeza. Tudo é esse Deus; tudo que existe. Isso inclui sua dupla expressão: o bem e mal, que nada mais são do que maneiras de entendermos e darmos um rosto para o que acontece.

Pensou o quanto isso mudaria sua maneira de viver.

Encheu novamente a xícara. Percebeu que até hoje correu atrás de desejos e o que queria, na verdade, era só entender-se. Nos relacionamentos, mais do que desejar o outro, na verdade, queria ser o desejo do outro. Ah, os desejos…

Aristóteles dizia que parar de desejar era adoecer, já para os estoicos, desejar é estar doente. Vai entender…

Espinosa caminha por outra percepção. Desejo é força criadora, energia de vir a ser outro, novo e evoluído, enfim. Não percebemos isso e transferimos para os objetos, pessoas e ideias essa responsabilidade, da mesma forma que fizemos ao médico quando não conseguimos dormir. Mais do que buscar o motivo da angústia que leva à insônia, pedimos um remédio que nos devolva o sono e mantenha a tristeza que nos afeta intacta. Espinosa sacudiria a cabeça, com desânimo.

Comeu seu brioche com o último gole de chá. Espinosa evoluiu no pensamento rebelde e complexo de Nietzsche e, a partir do final dos anos sessenta com Deleuze e sua Esquizoanálise.

Agora pode entender o motivo de Espinosa e seus seguidores estarem à margem da cultura, afinal eles nos mostram uma maneira de ver a vida que nunca imaginamos. Quase um clamor para que vivamos intensamente o que temos, sem futuro, já que o futuro nos fará diferente do que somos e seremos outro, portanto.

Enquanto pagava sua conta, pensou o que Espinosa poderia dizer-lhe depois desse encontro. Talvez ele apenas diria:

-Alegre-se pelo que tens. Que bom que podes vir nesse belo lugar e poder tomar esse chá quente em um dia frio. Mais do que pensar no que te falta, veja o que a vida te proporciona e valorize! Seus desejos serão amenizados. Sempre haverá uma insatisfação, mas o que esperar de quem tem apenas um tempo para viver? Esse espaço em aberto que chamamos desejo, é por onde nasce a criatividade, que nos empurra avante, para sermos o que ainda não somos.

Quando voltou para a rua a noite já chegara. No inverno os dias são menores e uma golfada de vento gelado crispou seu rosto. Mas por dentro estava quente, não só pelo chá, mas por ter percebido que há um mistério chamado vida para ser vivido e descoberto, até que mudemos de forma, como afirma Espinosa.

Lembrou de ligar o celular e a internet lhe avisou de mais um atentado com mortes na Europa. Resolveu não deixar a tristeza diminuir sua potência de viver. São os que matam em nome de um deus que querem empurrar goela abaixo, ou simplesmente serem heróis de alguma coisa e dar sentido a vidas medíocres.

O que virá depois?

Não importa, pois enquanto pensar nisso, a vida “agora” não é vivida. Pensou que Nietzsche lhe daria um tapa na cara se estivesse diante dele.

Seria mais que merecido!