Agenda

Eu e o Mundo

“Saiba,

Todo mundo foi neném

Einstein, Freud e Platão também

Hitler, Bush e Sadam Hussein

Quem tem grana e quem não tem

 Saiba:

Todo mundo teve infância

Maomé já foi criança

Arquimedes, Buda, Galileu

e também você e eu

Saiba,

Todo mundo teve medo

Mesmo que seja segredo

Nietzsche e Simone de Beauvoir

Fernandinho Beira-Mar

 Saiba,

Todo mundo vai morrer

Presidente, general ou rei

Anglo-saxão ou muçulmano

Todo e qualquer ser humano

 Saiba,

Todo mundo teve pai

Quem já foi e quem ainda vai

Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé

Ghandi, Mike Tyson, Salomé

 Saiba,

Todo mundo teve mãe

Índios, africanos e alemães

Nero, Che Guevara, Pinochet

e também eu e você”.

                                                         Saiba – Arnaldo Antunes

Estamos a todo momento, quer queiramos ou não, sendo mudados pelo mundo e provocando mudanças. Em um primeiro momento dessa reflexão, parece que o mundo nos muda mais, afinal é mais forte e avassalador. Mas quem é, afinal, o Mundo?

O Mundo são as pessoas que encontro todo dia e que me modificam. Diz Deleuse, que só pensamos em conjunto e é verdade! É no encontro com o outro e com tudo que me rodeia e penso que me torno novo, imprevisível e indefinível. Existem encontros que nos enchem de alegria e essas pessoas nos mostram o que temos de melhor. Nelas, nos eternizamos positivamente, já que nos afetam para melhor e vice-versa. Nas que nos incomodam ou nos despertam raiva, poderíamos aproveitar para procurar entender o que temos em comum com elas que preferimos não ver. No fim, todas nos fazem ir adiante em cada encontro, sempre novo na essência já que chegamos ali trazendo mudanças de outras pessoas e da vida.

Aliás, buscamos definir tudo e todos com objetivo de termos alguma segurança e previsibilidade. Medo da mente que a vida ri com desdém, trazendo surpresas a cada segundo, bastando olhar em volta. Mas não adianta, queremos definir, explicar e congelar os outros, seja em uma definição seja em uma explicação boba sobre os porquês de tudo, seja por nos empurrarem uma reverência sem sentido a deuses com pés de barro, como bem disse Nietzsche.

O Mundo é o clima, o acidente que aconteceu em algum lugar que a internet informou em tempo real para que imaginasse que poderia acontecer comigo. O Mundo é a angústia que dá assistindo um idiota sentado no trono dizendo que produzir é mais importante que o ar que respiramos. O Mundo também é um sorriso de indisfarçável alegria quando um touro mata o toureiro na Espanha e mostra que o torturador também encontra uma réstia de justiça em algum momento. E o mundo é, principalmente, aquelas pessoas que fazem você descobrir coisas a seu respeito que nem imagina que é ou sabe.

O Mundo me muda quando noto que tudo está sempre por um triz em um eterno jogo de coincidências bizarras que dá uma sensação de ignorância só de tentar entender algum nexo entre elas. O Mundo me muda em uma paisagem do final de tarde onde me permito parar e ver como a natureza funciona com perfeição em um belo quadro de cores, mas que ela também deve ter seus motivos para as enchentes e terremotos que podem me mudar e tirar a vida e sonhos de tantos sem que encontremos um motivo. Na verdade, tudo muda quando percebo que procurar os motivos de forças maiores que eu, é uma grande perda de tempo, aliás, pode nem ter mesmo algum motivo.

O mundo me muda quando a realidade mostra que as histórias que ouvi desde pequeno, contadas por pessoas queridas que tinham tanto medo desse desamparo, que podem ter feito mais mal do que bem, quando tiraram de mim a capacidade de mudar meus caminhos, sujeitando minhas decisões a alguma benção superior vindo de um lugar onde, pelo visto, não tem ninguém e se tiver, só assiste, não sei se rindo ou chorando.

O mundo me muda em pequenos gestos carinhosos, em olhares assustados e de pessoas que me criticam por tê-las de alguma forma, feito perder o encanto dos mundos de “faz de conta” que posso ter mostrado que nunca existiram.

E, no fim, é nisso que eu e você mudamos o Mundo. Sendo do jeito que somos, levando alegria e tristeza na forma em que os outros nos interpretam, apesar do mundo e suas forças gigantescas. Quando estamos no Mundo o mudamos, quer queiramos ou não, sejamos percebidos ou não, alteramos o destino do planeta e de muita gente todos os dias. Gente que conheço e nunca conhecerei, mas que será afetado por alguém que um dia me conheceu. Mas não esqueça, falo de mim e de você, que também tem essa força e pode, de alguma forma, escolher como quer afetar o mundo e ser afetado por ele. Escolha que tem pouco alcance sobre forças tão poderosas, mas afinal, fazer nossa parte é uma chance real de que aconteça o que desejo.

Mesmo quando em pequenos encontros, desencontros, acidentes e até mesmo em um “bom dia” podemos mudar a vida de quem nos viu e ouviu. Poderemos até em nosso último ato, quando alguns souberem que nos retiramos do mundo para ir morar em outro ou em nenhum, que lembrarão de nós com alegria ou tristeza e que, no segundo seguinte esse sentimento os fará fazer isso ou aquilo. Sem que percebam que estamos por trás dessa escolha e de tantas outras que virão, em um eco de eternidade.

O Mundo ou a vida é o resultado de todos que já viveram, vivem e de tudo que já aconteceu, acontece e até do que imaginamos que poderá acontecer. Aliás, imaginar muda mais o mundo do que a realidade, pois somos e sentimos não o que o mundo é, mas só o que imaginamos que o mundo seja.

E assim vamos mudando e sendo mudados a cada instante e fico pensando como alguém pode acreditar em destino com tantas coisas incontroláveis a nossa volta nos tornando um resultado cada vez mais improvável dessa química entre cada um de nós e o Mundo.

Nem percebo que posso escolher lembrar que tudo isso torna a vida algo sempre inédito. Afinal, se nem eu e mundo somos os mesmos por estarmos nos mudando o tempo todo, conseguir ver tudo como se fosse a primeira vez, e é, pode no fim dar a única explicação que a razão aceita.

Deve ser por isso que só as crianças e os loucos não têm medo, já que para eles passado e futuro simplesmente não existem, são alucinações dessa gente normal que afeta o mundo e o deixa desse jeito triste, que nos adoece só de pensar.

O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.

A velha TV

Nem todo mundo que faz sua caminhada cedo pela manhã, necessariamente acorda cedo. Eu, começo a despertar no final do primeiro quilômetro, lá pela terceira música que toca no celular com o volume bem baixo, para não irritar. Como nada é somente ruim, o automatismo das ações antes de sair e do mesmo trajeto, ajudam a fazer tudo isso sem precisar estar, necessariamente, acordado. Diria algum especialista em sono que este estado, nem lá nem cá, chama-se hipnopômpico.

Pois assim estava, “hipnopompicamente” caminhando quando me deparei com uma televisão jogada fora. Como hoje, somos todos fotógrafos e cinegrafistas, resolvi clicar, mas sem nem saber o motivo. A esperança é que quando acordasse aquilo faria algum sentido ou seria mais uma dessas ações que terminam em nada.

Alguns minutos depois, não sei se levado pela música que ouvia ou por falta do que pensar, a imagem da televisão na calçada me veio à mente e junto com ela algumas sensações e pensamentos. Somos movidos por tantos estímulos que nem nos damos conta que nossas escolhas e suposta liberdade, até mesmo de apenas pensar, sejam realmente nossas?

A televisão nem era tão antiga assim, pensei. Era do tempo do tubo de imagem, o que sempre exigia um espaço para que o aparelho “respirasse”, não podendo encostá-la na parede. Hoje, as televisões ultramodernas, pelo visto, dispensam o oxigênio. Lembro das primeiras, na minha infância com a parte de cima em madeira, antena longa e seletor de canais redondo, que girávamos como uma maçaneta. Naquela época, mudávamos pouco de canal, não só por termos poucas opções, mas precisávamos levantar e dava preguiça. Controle remoto só veio mais tarde, causando um assombro de tecnologia. Por ali fomos ficando mais preguiçosos, e logo em seguida, os carros tinham os vidros elétricos. Viramos reis, vontades atendidas em um toque!

Para os mais jovens, onde tudo é touch screem, isso é tão fora da realidade quanto um selo de carta, mas como diziam os antigos: Recordar é viver…

Como não era tão antiga assim? Foi um pensamento abrupto.

 Caí na realidade e percebi que ultimamente nada para mim é “tão antigo assim”. Depois de uma idade, precisamos encurtar o tempo, fazer de conta que os anos têm seis meses, ou que tudo é mais veloz do que realmente é. Mente e corpo vão se separando depois dos cinquenta. Um dói aqui e ali e o outro insiste em uma juventude onde tudo é mais fácil, sem joelhos, dores de coluna ou óculos que aumentam o grau a cada ano.

Hoje, onde tudo é Smart, essa velha senhora perdeu a validade. Tomara que tenha morrido, tenha sido largada na rua por não funcionar mais. Seria desrespeitoso pô-la fora ainda funcionando, apenas por não oferecer os recursos modernos. Mais ou menos como se faz com as pessoas no mercado de trabalho.

Por mais que ela não tenha sido brilhante, tenha só servido para novelas, os jornais de sempre e os imortais programas dominicais que, pasmem, já existiam antes dela e continuarão até os modelos que ainda nem imaginamos, ela conseguiu aumentar o tamanho do mundo de quem assistia.  Mas nem isso garantiu-lhe algum respeito. Não serve mais, ninguém quer e, se estava doente, não valia a pena pelo preço do conserto.

Triste fim.

Quem sabe, um dia não esteve conectada às primeiras parabólicas, tão grandes quanto a que a NASA usa para receber mensagens do espaço. Imagem limpa, mas nada como o HD de hoje em dia, onde as atrizes precisam de muito mais maquilagem para que eventuais espinhas e falhas na pele não as denunciem como mulheres iguais às que vemos nas ruas.

Um dia, essa televisão era o que tinha de mais moderno, mas o tempo, que torna tudo cada vez mais obsoleto rapidamente, a fez chegar a velhice sem sequer ter terminado de ser jovem.

Nós, da geração do seletor de canal, do celofane azul e amarelo para transformar o preto e branco em bicolor estamos passando como ela. Só o que permanece é a Maizena e o Sílvio Santos, holograma que ainda imaginamos vivo.

Na volta da caminhada ela não estava mais lá. Levada pelo caminhão do reciclável, reencarnará em algum plástico e nunca ninguém poderá imaginar sua vida passada, quando ver apenas uma torradeira ou um ventilador. Já o tubo de imagem, por onde assistíamos a emoção e a tragédia, esse não tem mais jeito. Precisará terminar, vida única, sem paraíso ou inferno.

Hoje também vamos para a reciclagem como doadores de órgãos, ato sublime de despedida, dando utilidade ao que temos de plástico. Mas nossas histórias, alegrias e tristezas não têm chance. Desaparecerão e terão algum eco na memória dos que ficam, cada um com seu jeito de lembrar de nós.

No fim, posso só ter usado essa televisão para ficar pensando, talvez imaginando tudo apenas para ocupar a cabeça.

 Mas afinal, isso não tem problema, fazemos isso o tempo todo com tudo e todos que estão a nossa volta.

A Vida

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A foto do menino correu o mundo. Virou símbolo da tristeza nacional e da dor que Chapecó transmitiu para todo planeta conectado. De Cristiano Ronaldo a Guns’n’Roses mensagens de apoio, com a oração do Papa e estádios e prédios pelo mundo em verde. Dessa vez, não simbolizava esperança.

Morreram jogadores do país do futebol, jornalistas, dirigentes e torcedores que estavam realizando o sonho de viajar com o time para sua disputa mais importante. Era hora de se tornar “grande” e a expectativa era imensa. Todos sentiram a tragédia, mesmo quem tentasse não pensar nela, escondendo-se nos afazeres diários. Há quem diga que existe uma “mente coletiva”, soma dos nossos pensamentos e foi isso que não nos deixou parar de doer. Nos colocamos no lugar dos torcedores que perderam seu time e os ídolos que poderiam se eternizar na conquista. Quem é pai ou mãe, nem se fala. Nos colocamos no lugar dos filhos, e não é difícil lembrar que um dos primeiros medos que temos consciência é de que a morte leve nossos pais, símbolo na nossa estabilidade e segurança, de quem chega em um mundo tão estranho.

Perdemos jogadores e jornalistas que não nos conheciam, mas que nós conhecíamos. Faziam parte da nossa vida com suas jogadas, entrevistas e comentários. Gente que entra na nossa vida pela televisão, celular e tablet, que passa a conviver conosco e que também explicam quem somos, seja por torcer, seja concordar ou não com suas opiniões.  Os mais velhos, derramaram lágrimas mais uma vez e descobriram que a dor é sempre nova. Dá um desânimo quando percebemos que nem a experiência do sofrimento torna a dor menos intensa. Choramos por que continuamos esperando que a vida tenha algum nexo. Quanto mais pensamos, nos damos conta  que as explicações não fecham e que se todos virássemos “estrelas” precisaríamos de mais um ou dois céus.

Não basta se colocar no lugar do outro, como nos mandam os princípios iniciais da ética dos limites e do respeito, mas há quem diga que o que conta é sentirmos o que o outro sente.

Esse menino sentado na arquibancada vazia, está velando sua esperança.

Ainda faz parte de sua vida as histórias onde os super-heróis sempre vencem o mal no último minuto, o “mocinho” conquista a donzela e encontram a felicidade eterna ou quando a justiça pune o malvado para mostrar que nesse mundo o bem sempre vence e o mal não prospera.

Imagino que ele esteja procurando colocar o que aconteceu com seus heróis de chuteiras nesse mundo que lhe venderam desde que nasceu, onde todos têm um anjo da guarda, penúltimo recurso diante das adversidades que têm por função nos salvar. Quando ele ainda não dá conta, sempre tem Deus, Pai Maior, que cuida e vigia a todos nós em nossos pensamentos e ações que, com certeza, luta o tempo todo contra as maldades e injustiças que podem nos vitimar.

O que nos choca é tentarmos colocar isso dentro dessa “lógica” de dois mil anos e fica faltando o mais importante; o por que?

As “linhas tortas”, parece, não chegam a lugar algum mas podem ser, quem sabe, uma consolação que não se entende nem tem muita lógica. Mas o que tem?

Esse é então, nos asseguram os contadores de histórias, o mundo do bem. Aqui ser correto abre todos os caminhos e agradecer todo dia por tanta proteção é a última das obrigações antes de dormir, assim como abençoar a comida que compramos, mas que nem é mérito nosso, parece.

O que falta nos países miseráveis onde milhares morrem de fome diariamente é o agradecimento, a oração ou anjos. Só pode!

Mais tarde nos damos conta que Papai Noel não existe (é apenas uma licença poética) e o professor de biologia nos dará a triste notícia que os coelhos não botam ovos. Vamos crescendo e percebendo que o mundo de verdade é que cria o mundo perfeito dos cinemas e das histórias, para fazer um contraponto. Quando os adultos choram nos filmes românticos, só pode ser por descobrirem que o amor de gente de verdade é bem mais difícil e pode acabar sem um final feliz.

Precisamos de um mundo idealizado para suportar a crueza da realidade.

Amadurecer é tomar consciência de uma fragilidade inescapável. Podemos morrer, pessoas que gostamos também e se vê na televisão que uma chuva ou vento destrói casas como a nossa. Nada há que possamos fazer para evitar e a insegurança cria as diversões e paixões da vida, momentos em que esquecemos que tudo pode mudar em um minuto.

Esquecer é, muitas vezes, a condição da alegria. E a felicidade só dura pouco, como diz a sabedoria popular, porque nos lembramos.

Mas isso tudo vai acontecendo, uma descoberta de cada vez e vamos nos acostumando, perdendo as ilusões e a graça em conta gotas.

Esse menino, perdeu tudo de uma só vez.

Fortuna, a verdadeira Deusa

         “Quando nos faltam os favores da Fortuna, com frequência pelos excessos

               da nossa conduta, culpamos de nossos desastres o sol, a lua, as estrelas;

               como se fossemos patifes por fatalidade, tolos por compulsão celeste, ve-

               lhacos, ladrões, traidores por predomínio esférico; bêbados, mentirosos,

               por forças da obediência a influências planetárias”.

                                                                Shakespeare, Rei Lear, Ato 1, Cena II

                “ Há momentos em que os homens são senhores de seu destino. O erro,

                   meu caro Brutus, não está nas estrelas, mas em nós mesmos”.

                                                                  Shakespeare. Júlio César, Ato 1 Cena II

                                                                                                                                                                    deusa-fortuna

Destino, sorte, azar, carma e “linhas tortas” são alguns dos nomes que usamos para entender a contingência, ou, em outras palavras, os acontecimentos aleatórios da vida a que todos estamos submetidos e para os quais uma explicação lógica nunca é encontrada.

Já disse em artigo anterior que chamamos de “providência divina” tudo aquilo que não encontra abrigo na lógica e na racionalidade. Se pensarmos bem, encontraremos aí uma pista da razão do nascimento e, porque não, da necessidade do homem  criar religiões. Toda superstição busca no final dar um sentido ao inexplicável e nos consolar diante da força do mundo pela nossa situação vulnerável. Pensadores como Freud e Jung, aceitos no ocidente, dizem que precisamos encontrar uma maneira de conviver com essa fragilidade diante de um mundo ou vida, onde estamos irremediavelmente sujeitos a doença, a morte e a perdas de toda ordem, sem que possamos nos proteger. Toda o sistema religioso busca isso: dar um sentido (explicação) e nos consolar diante do que não podemos controlar.

Foram os antigos romanos que melhor conseguiram encontrar uma metafísica para esse dilema quando dentre tantos deuses encontraram a deusa Fortuna. Ela é responsável por tudo que nos acontece, nossa sorte e azar, o que não esperamos seja de bom ou mal é tudo obra Dela. Fortuna é uma deusa mulher, com duas características, uma física e outra de caráter: a física é que é cega e a de caráter é sua inconstância. No seu famoso livro “Consolação da filosofia”, foi assim que ela se definiu a Boécio, para que ele pudesse entender a injustiça da sua condenação à morte, sem nada de errado ter cometido. Ela o fez ver que, junto com esse “azar”, toda sua vida abastada e a possibilidade de ter se tornado alguém muito culto em função da riqueza de sua família, foi também por presente seu.

Assim, essa mulher cega e temperamental distribui sorte a azar sem saber a quem. E é dessa forma que se encontrou uma maneira inteligente para colocar uma explicação para a vida ser assim, tão sem sentido, com absurdos ocorrendo por todos os lados. A sorte e o azar não respeitam o curriculum de ninguém e uma vida correta e ascética (como pedem algumas superstições para chegarmos as recompensas divinas) não garante nada a ninguém. A deusa Fortuna, desconfio eu, além de cega provavelmente também é surda. Só assim que chegaremos a uma consolação diante do caos e do motivo de sempre estarmos “por um fio” a cada minuto da vida, seja para continuar vivo, seja para sermos presentados ou privados sem nenhuma lógica ou motivo.

Sempre estaremos criando estórias de moral, onde bem sempre vence e os malvados são punidos pelas suas ações que só buscam a vantagem ilícita. Compramos os livros, vamos aos cinemas atrás de uma vida em que haja justiça. Mas isso só acontece e tem cada vez mais público porque a realidade não é assim. Nela, o mal se dá bem e vemos injustiças de todos os tipos, todos os dias. Páginas em branco e rolos de filmes virgens aceitam uma utopia que precisamos pensar possível, para nos manter na linha, sem que finalmente nos darmos conta de que pode não haver nenhuma recompensa por boas ações. Foi talvez pensando nisso que Kant nos trouxe seu “Imperativo categórico” onde diz que o bem deve ser feito por si mesmo, sem esperar nenhuma recompensa, seja de Deus, dos outros ou do próprio ego. Ele deve ter percebido que sempre estamos de alguma forma fazendo trocas ou negócios com quem achamos que controla a vida. Que as boas ações estão sempre esperando que a vida nunca nos puna por sermos bons. Mas a deusa Fortuna é temperamental e nada vê e ouve, portando, ela pode dar seus presentes a quem não merece e punir os bons. Essa mulher insana e desprovida de relações com a realidade é, no fim, ao que parece pelo que se observa, quem sempre esteve no comando. Ela não nos vê rezando nem ouve. E agora???

Boécio, quando se deu conta dessa triste realidade, resumiu sua frustração nesse belo poema, possível apenas em quem já desistiu de procurar outra explicação onde a justiça pudesse encontrar abrigo:

                    Quando, orgulhosa, ela muda o curso das coisas

                    E como Euripo tempestuoso ela gira seu fuso,

                    Rebaixa impiedosamente os reis outrora temíveis.

                    Enganosa, mostra a face do vencido arrastada no pó;

                    Não ouve o lamento dos infelizes ou não lhes dá atenção,

                   Até se ri, cruel, dos gemidos que provoca.

                   Assim ela brinca, assim ela dá provas de seu poder

                   E oferece aos seus súditos um grande espetáculo:

                   O de um homem que em uma hora passa da desgraça à glória.

 

 De uma forma menos dramática, Epicuro e Montaigne já nos aconselhavam a vivermos nossa vida sem nos preocuparmos com os Deuses. Suas explicações (já comentadas em artigos anteriores), eram que, por serem perfeitos, com ações perfeitas, os deuses não se manifestavam na imperfeição do nosso mundo, afinal, isso não tinha a ver com a realidade deles.

Entretanto, foi Espinosa que conseguiu encaixar essa Deusa difícil de se entender em um pensamento racional. Para ele, Deus é a própria natureza que é causa única de sua própria ação. Nós, seres finitos, não temos condições de perceber essa realidade como um “todo”, por estarmos pela falta dessa compreensão, isolados desse “todo”, indefesos, arrastados em direções contrárias e por falta de entendimento não somos a “causa” de nossa própria ação. Assim, tudo pode ser “por acidente” causa ou efeito de qualquer coisa. Não entendemos, vemos só uma parte dessa realidade, por isso sofremos.

Todas as superstições que criamos têm o sentido de explicar de alguma forma pouco crível à razão o motivo de vivermos essa nossa angustiante finitude, cercado por forças que não dominamos. Imaginamos, ou temos esperança, que segundo Espinosa equivale ao medo, pelos ritos das superstições (como rezas, oferendas e promessas) conseguir controlar essa insegurança, sem entender que somos arrastados pela nossa própria falta de compreensão.

Porém, Espinosa não se contenta em constatar, ele vai além e define o real motivo das nossas incertezas, pela imprevisibilidade dos caprichos da deusa Fortuna; nossa temporalidade imprevisível, a qualidade dos bens que desejamos onde projetamos a saída dos nossos medos e, por fim, a qualidade dos próprios desejos como a cobiça imoderada de bens incertos ou desejarmos o que não é possível; que nada nos aconteça e que nos faça sofrer. Como ele próprio diz na Ética: “ A potência humana é bastante limitada e infinitamente superada pela potência das causas externas. Assim, não temos um poder absoluto de adaptar para nosso uso as coisas que estão fora de nós…Tudo que podemos desejar resume-se nesses três objetos principais: conhecer as coisas pelas suas causas primeiras, moderar as paixões (desejos) e viver em segurança e com boa saúde”.

Para alcançar os dois primeiros não é tão difícil, já que faz parte da natureza humana, no sentido de ampliarmos nossa compreensão e autodomínio. Já para viver em segurança e com boa saúde, segundo Espinosa, dependemos de causas externas a nosso controle e a isso chamamos de Fortuna, já que ignoramos seus princípios pela nossa finita capacidade, como já dito anteriormente.

Nossa liberdade é não mais “ser parte” da natureza, mas “fazer parte” dela. Compreender a natureza da Fortuna não é render-se a ela, afinal isso não muda nada, mas aceitarmos essa limitação pode fazer da insegurança essencial do humano racional, avesso as superstições, encontrar sua paz pela aceitação de sua situação e passar a usar sua vida de forma ativa e inteligente, buscando sua realização, cônscio de que ela não tem tempo determinado e circunstâncias favoráveis sempre. Mais do que algo que traga medo, os caprichos da Fortuna podem ser vistos como o tempero que traz vibração a vida. Saber escolher como interpretar, como já escrevi várias vezes, é no fim a única liberdade que ninguém pode nos tirar.

Se as mulheres são imprevisíveis na sua subjetividade, o que poderemos esperar de uma deusa caprichosa cega e, pelo visto, também surda a qualquer tipo de pedido? Fortuna continuará distribuindo seus presentes e a tirar o que pensamos nossos como sempre fez e, pelos motivos acima, de nada adianta tentar falar com ela.

Nossa racionalidade servirá para entendermos seus caprichos e nossa impotência de controlar seus desejos sempre inesperados. Por isso, descansemos.

Nossa parte é fazer nossas ações conscientes e esperar seus resultados. Mesmo que a Fortuna possa destruir nossos planos ou nos dar graças inesperadas, nossos objetivos precisam de ação para serem concretizados. Tem tanta gente nesse mundo, que vai que ela não note sua presença. Enquanto isso, toque seus planos e tenha as atitudes para fazê-los acontecer, essa é sua parte e sem essa atitude, você precisará que Ela te encontre e esteja de bom humor. Se fosse você, não contaria.

Tudo termina em um grande paradoxo: por um lado fazemos sim nosso destino com nossas ações ou pela falta delas, mas nada pode ser certo em um processo de vida, já que o que define qualquer vida é sua instabilidade e a deusa fortuna representa o inesperado, para o bom e para o ruim.

Seja o que for para acontecer, o negócio é fazermos nossa parte para encontrar o que queremos e criarmos nossa realidade, como expressão finita da infinitude que tudo cria. Só acontecerá se assim agirmos e isso nos dá, pelo menos, alguma perspectiva.

Fora disso, é contar com os caprichos de uma deusa que não te vê nem ouve.

Sei que é muito mas fácil acreditar que temos um destino já traçado e que tudo faz parte desse plano “divino”, que tudo acabará em paraíso ou inferno. Assumir a responsabilidade sobre o destino é mais difícil, mas é o que se espera do único animal da natureza que pensa e cria.

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Para saber mais:

Consolação da Filosofia – Boécio

Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa – Marilena Chaui