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Uma dúvida chamada DEUS

Você não foi feito para viver igual às bestas, mas para buscar a virtude e o conhecimento.”

                    Ulisses – O inferno de Dante

“Não é menos respeitável ser um macaco modificado em vez de barro modificado.”

                    Thomas Huxley

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A existência de Deus tem sido um tema que, ao longo dos séculos, tem colocado a ciência e a religião em campos opostos e penso ser útil refletirmos sobre isso.

 Os cientistas são pessoas que, como todos, são influenciados pelo contexto social em que vivem e realizam suas experiências. Sempre foi assim, e nos dias de hoje, poderíamos acrescentar que seus interesses caminham junto com os que detêm os recursos, sem os quais o trabalho de pesquisa não pode existir. Porém, não há como negar que ainda é o melhor jeito que se tem de se explicar o mundo natural e predizer seu comportamento, justamente por estudá-lo.

No entanto, até bem pouco tempo a ciência tinha se excluído de penetrar no mundo das religiões (temos dois artigos no blog sobre o assunto que foram baseados em pesquisas recentes), que é fascinante, já que lida com o oposto da ciência; a aceitação de fatos e ideias inexplicáveis e que não podem ser comprovadas.

Em 1916, o psicólogo James Leuba fez uma pesquisa com 1000 cientistas americanos baseado em um pressuposto que defendia de que, quanto mais culta fosse uma pessoa, menos ela tenderia a acreditar na existência de Deus, e esse foi o motivo de ter escolhido cientistas, afinal, eles tendem a ter uma escolarização elevada e muito tempo em estudos complexos. Recentemente, pesquisas mostram que nos países mais cultos (onde as pessoas estudam por mais tempo em média) tem aumentando muito o número de ateus, ou seja, pessoas que não acreditam na existência de um Ser superior que ordene e comande a existência e a natureza. Esse, aliás, foi o vaticínio de Leuba, que disse que, com o aumento da cultura da população mundial, esse fenômeno aconteceria. As pesquisas mostram que ele acertou! Na sua época os resultados foram que, diante da pergunta na crença de um deus pessoal, 27,7%  dos cientistas diziam acreditar, 52,7% não acreditavam e 19,4% tinham dúvidas ou se declararam agnósticos*.

Em 1997, Edward Larson (professor de história da ciência da Universidade de Geórgia) e Larry Witham (repórter do Washington Times) procuraram repetir a pesquisa de Leuba com o objetivo de saber se a comunidade científica tinha mudado de ideia em relação a Deus ou mantinha a posição de 80 anos antes. Foram respeitadas as diferenças de épocas e de cientistas ouvidos, afinal Leuba ouviu 20% dos cientistas registrados na sua época nos EUA e, em 1997, esse mesmo número representaria apenas 3%, o que poderia de alguma forma falsear a pesquisa, então adaptações precisaram ser feitas. O que se pode ver é que os cientistas não mudaram de opinião, pelo contrário, já que o número de “crentes” diminuiu. Os resultados foram: 7% acreditavam em Deus, 72,2% não acreditavam e os quase mesmos 20,8% tinham dúvidas ou se declararam agnósticos.

Mas afinal, porque pessoas instruídas como cientistas, com uma forma sistematizada de pensar e pesquisar não acreditam na existência de Deus? Pelo mesmo motivo que atualmente a maioria das pessoas dos países mais cultos, também não: esse deus oferecido pela cultura, principalmente cristã, é mesmo “inacreditável”, justamente por ser humano demais, a saber: fica bravo, pune e condena quem não o obedece….isso dito, é claro, pelos seus “representantes legais” das várias ramificações, sejam elas do lado mais light  ou mais conservadora.

Penso que tanto os descrentes quanto os crentes estão em lados opostos e radicais, o que tende a afastá-los do ponto central. Sabemos todos que a verdade, seja ela qual for, nunca está nos extremos de lugar nenhum. Alguns cientistas, por exemplo, fazem o seguinte raciocínio: se deus interage em grau maior ou menor com o mundo físico, significa que deus é algo como uma parte do universo físico. Sendo assim, a existência de deus é uma questão que pertence ao domínio da investigação científica!

Por esse raciocínio, posso concordar com o autor que inspira esse artigo**, Massimo Pigliucci, que diz que os ateus poderiam ser convertidos facilmente, desde que lhes dessem argumentos sólidos da existência de deus. Acho muita graça, afinal querer reduzir o Inexplicável a uma explicação não é mesmo possível! Por outro lado a ciência se complica, já que também não pode provar a não existência de deus, na medida em que ainda temos uma infinidade de fenômenos ditos sobrenaturais, ou seja, acima da natureza explicável. Nesse ponto, os descrentes poderiam também alegar que os crentes também não podem provar a existência de deus. Ora, a fé se caracteriza justamente por se acreditar em algo que não se sabe. Se Deus pudesse ser provado ninguém precisaria acreditar, saberíamos de sua existência.

Na verdade, o que acontece, em minha opinião, é que, principalmente no ocidente, temos esse deus pouco provável, que não resiste à análise de um cérebro bem formado, como um ente, que tem até uma figura na mente das pessoas, com cabelos e barbas brancas assim como o personagem Gandalf do filme “O senhor dos anéis” que luta de branco contra a força negativa, trajada de negro. Essa dualidade é o mais distante que pode haver de Deus, já que ele se caracteriza por “não ser”. Todas as pessoas que tiveram suas consciências ampliadas (chamados de grandes místicos) que seriam catalogados por, no mínimo esquizofrênicos e psicóticos por essa mesma ciência, sempre definem Deus por termos como: Não Nascido, Imorredouro, Imutável, Imóvel, Não manifesto, Imensurável, Invisível, Intangível, Infinito. Como a ciência poderia descrevê-Lo?

Nessa hora, não posso me esquecer quando o famoso mitólogo Joseph Campbell foi acusado de ser ateu. Ele realmente era, se estivéssemos falando desse deus limitado ou dessa igreja que ainda defende a tese criacionista (adão e eva) e insiste em dizer que o mundo tem 6000 anos de idade, negando todas as descobertas científicas que qualquer criança sabe, de culturas que foram descobertas e estudadas, esqueletos de animais e pessoas com muitas centenas de milhares de anos mais antigos. Para quem o leu e ouviu suas entrevistas, chama-lo assim é assumir uma ignorância oceânica. O que até não é de se estranhar, pois só mesmo uma percepção limitada pode negar tamanhas evidências que tornam a tese criacionista mais voltada para desenho animado do que qualquer outra coisa que possa ser encarada seriamente.

Hoje, mais do que nunca, a ciência, filosofia e religião podem se aproximar e foi a própria ciência, através da física quântica, que fez esse convite. Pode mesmo ter uma inteligência por trás do big bang e uma ironia inteligente em sermos tão parecidos geneticamente com os macacos, por exemplo. Isso poderia muito bem explicar nossas irracionalidades, não acham?

Falta para todos o deus que os agnósticos procuram, que os orientais já encontraram, um Deus que seja uma inteligência e não alguém. Caso contrário, a frase de Thomas Huxley que abre esse artigo tem todo o sentido e é mesmo uma angústia, justamente pelo absurdo que as duas possibilidades contemplam.

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*Agnóstico é aquele que considera os fenômenos sobrenaturais inacessíveis à compreensão humana. A palavra deriva do termo grego “agnostos” que significa “desconhecido”, “não cognoscível”. Num sentido religioso, agnóstico é aquele que não acredita na existência de Deus, porém não nega essa possibilidade, por se encontrar num patamar racionalmente inacessível. (http://www.significados.com.br/agnostico/).

**O Processo contra Deus. Massimo Pigliucci, tradução Sérgio Luiz Mansur. Fonte: Skeptic Magazine Articles Archives.

Quando o NADA é TUDO

     “A desgraça do ser humano é nunca estar em casa”

Pascal

“Quando a mente cessa, Deus começa”

Yogananda

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Nossa cultura, baseada na produção, materialismo e racionalismo é toda alicerçada em ter no material a identidade que faz uma pessoa ser ou não respeitada, ter ou não poder. Assim, desde os primeiros anos de escola, somos ensinados para “sermos” alguma coisa um dia. Mesmo nossos pais, que foram educados por pessoas que também sofriam desse mal, nos perguntam: o que você vai ser quando crescer?

Quanto mais crescemos, aprendemos a mesma teoria mentirosa de que o mundo é escasso e que devemos estar aptos a disputar nosso espaço e, para termos essa tal riqueza que nos trará admiração dos demais, precisaremos ser competitivos, fortes e hábeis para chegarmos à frente dos concorrentes (que aos domingos em Igrejas e Templos são chamados de irmãos). Até hoje as escolas se preocupavam em preparar seus alunos para o vestibular (competição) e nunca se preocuparam em seus currículos em fazer dessa criança alguém que se conheça, que domine algum tipo de arte (que sempre é um dos remédios para a angústia, por acalmar e superar a mente) e assim possa compreender a existência, encontrando sua paz sem depender de nada que tenha alguma marca.

Precisamos, incansavelmente, “ser” alguém na vida e estarmos sempre em atividade “fazendo” alguma coisa, ou seja, produzindo. Assim, essa cultura criou a ansiedade que é o medo de chegarmos ao final da vida sem termos “sido” ou “feito” algo importante que nos traga a riqueza material e o respeito dos demais, que ficaram para trás na corrida e na luta pela sobrevivência. Por fim, apenas “sobrevivemos” baseados no fazer e no ser. Mas o que é esse “ser”? Refiro-me às identidades e personagens que criamos para nos adaptarmos ao meio e conseguirmos sobreviver e sermos aceitos pelos demais. Isso é sobrevivência, até mesmo uma simples bactéria ou inseto também sobrevive sem tanto sofrimento. Evidente que sobreviver é importante, mas isso nos traz alguma realização interior? Se assim fosse, o mundo seria o que é hoje?

Mas o que está por trás e na essência de quem “faz” e “é” alguém?

Um vazio!

Na simbologia numérica o algarismo “zero” tem um profundo significado. Nada começa pelo “um”, afinal para que ele possa existir, precisará não ter tido existência anterior, onde só havia o “zero” que representa o vazio. Não é à toa, que os antigos herméticos simbolizavam Deus por um “zero”, ou vazio.

É justamente nesse vazio que tudo se origina, é o terreno fértil da criação e nossa cultura nos exilou de nossa verdadeira natureza vazia, por onde surgiu nosso “eu” ou Ego, que é representado pela nossa metade que “é” e “faz” alguma coisa. Ficamos mancos existencialmente como se só houvesse o Ego. O resultado disso é a ignorância existencial e o medo. Esse Ego, que nasceu do vazio, um dia morrerá, justamente por ter nascido, mas o vazio é o eterno que sempre fomos e esquecemos quando aprendemos com outros esquecidos que só existe um Eu, material (corpo) que vive em um mundo de aparência material, sendo transitório e efêmero tanto quanto nossa beleza ou feiúra.

Para recuperarmos nossa outra perna e termos o equilíbrio precisaremos dessa reconexão com nossa natureza que é destituída de Ego. Ninguém nos ensina a tirarmos, pelo menos, algum tempo por dia para nos despirmos de nosso Ego e não sermos “ninguém” e não fazermos “nada”.

É fundamental dedicarmos um tempo para nos voltarmos para dentro, sair do “um” e voltarmos ao “zero” que o originou. Não ser ninguém, não ter nome, profissão, família, amigos, religião, time de futebol, partido político, etc. Simplesmente não ser e não saber nada! Tornar-se um santo ignorante, que por nada saber não sofre, não deseja e não tem medo ou angústia, características do que passa, não sendo portanto verdadeiro. Apenas “não ser” sem passado e sem futuro que são puras alucinações, coisas que a eternidade desconhece, justamente por viver sempre no presente.

É um exercício simples, feche seus olhos por dez ou quinze minutos por dia, respire natural e calmamente e abra as brechas que Yogananda nos sugere para que o “milagre” de realmente Ser aconteça.

Nesse final de semana, tive a oportunidade de participar de um seminário em Florianópolis, onde Roberto Crema fez um interessante raciocínio. Disse que a palavra “aposentar” significa voltar aos aposentos e que as pessoas tem dificuldade de se aposentar porque não podem voltar a algum lugar onde nunca estiveram. Na hora fiz essa analogia com nossa natureza vazia e a frase de Pascal também se tornou obrigatória para abrir esse artigo.

Nosso medo de morrer, que em muitas tradições é chamado de “volta para casa”, só causa tanto medo e tanto desespero quando pensamos que vamos morrer ou quando alguém querido morre, justamente por não conhecermos essa “casa”, de onde saímos para essa aventura existencial habitando um corpo transitório. Falta-nos, durante essa passagem, nos re-conectarmos com nossa “casa” e lembrarmo-nos de nossa eternidade. Sem isso, continuaremos presos e receosos de tudo, buscando certezas e seguranças que só existem no que não mais evolui, no que está morto!

Alguém que por seu mérito se “recorda”, perde o medo e torna-se livre! Livre para fazer da vida o que ela realmente é: uma aventura, com ganhos, perdas, risos e lágrimas em constante mudança e contradição.

Tire um tempo para você, feche seus olhos e por alguns poucos minutos se livre dos seus personagens, títulos, planos e mesmo do seu nome. Simplesmente não seja, não faça e se preencha do vazio! Procure o silêncio interior (com o tempo você conseguirá), deixando sua mente (ego) se debater por não ter sua atenção e ela irá se cansando e abrindo espaços entre seus pensamentos.

O poeta Fernando Pessoa disse que Deus era um intervalo, um vazio que está escondido atrás da mente que, evolutivamente, nos cabe afastar. Agora espero que você tenha entendido a metáfora da expulsão do paraíso e porque fomos punidos a ganhar nosso “pão” com o suor do nosso rosto, fazendo e fazendo. Estamos pagando o preço de termos esquecidos de nós mesmos.

Nosso mundo exige o ser e o fazer e não há nada de errado nisso, desde que também  possamos não ser e não fazer, encontrando a síntese entre as necessidades do corpo e de quem nele habita.

Depois de algum tempo, essa prática desse retorno às origens, um amigo poderá encontrá-lo e percebe-lo mais sereno, tranquilo e perguntar o que você tem feito para estar assim. Seja sincero e simplesmente responda: Nada!

Agora, se não houver no seu dia alguns minutos para isso, porque você tem muitas coisas para fazer, lamento informar que passarás pela vida apenas sobrevivendo, mesmo que rico materialmente ou não, e nisso não há nenhum mérito e nem precisa ser humano para essa façanha tão pequena.

O Intermediário

 

   “O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso:  é-lhe indiferente.”

Carl Sagan

Uma leitura um pouco mais atenta do Gênesis poderá aguçar nossa curiosidade sobre um ponto sobre qual tratará nosso artigo dessa semana. Diz o livro que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, e que, em cada dia algo foi feito. Resumidamente foi assim:

No princípio Deus criou o céu e a terra, mas como a terra estava sem forma e em trevas, primeiro criou a luz e ficou satisfeito (algumas bíblias trocam por “e viu que era bom”). E assim terminou o primeiro dia.

No segundo dia, Deus separou a terra das águas e ficou satisfeito…

E assim, foram passando os dias onde foram criados os animais, as plantas e, ao final de cada, dia lá estava Deus se dizendo satisfeito com sua criação.

Pois, chegamos ao sexto dia, onde Deus criou o homem e a mulher a sua imagem e semelhança, abençoando-os, pedindo para se multiplicarem e dominarem as criaturas da terra, do mar e as ervas e plantas. Mas, por algum motivo, depois da criação do homem e da mulher, Deus não externou sua satisfação. Por quê? Esqueceu? Tinha outra coisa para criar em outro lugar? Afinal seria muita pretensão nos acharmos a última e melhor criação de Deus, tenho certeza que depois da terra outros milhares, se não bilhões de planetas e galáxias foram criados, maiores que nosso minúsculo planeta.

Se observarmos bem, veremos que de todas as criações de Deus, talvez o homem seja a única que não esteja completa em si mesma. O mar é o mar e isso não muda, assim como nenhuma planta fica diferente de sua natureza. Uma semente de rosa não nos trará um girassol quando florescer, muito menos algum animal excederá sua natureza. Assim, um cachorro, cavalo ou qualquer outro animal nunca será diferente do seu potencial inicial. Existe até um princípio na Cabala que diz que o potencial inicial de qualquer coisa é sempre inversamente proporcional no seu desenvolvimento. Se, por exemplo, observarmos qualquer animal recém-nascido em comparação a um bebê, esse animal parecerá muito mais desenvolvido, já que em poucos dias estará se movendo, comendo sozinho etc. Enquanto isso, o bebê humano se não for cuidado morrerá em poucos dias ou horas, já que nessa fase inicial não tem nenhuma autonomia e é totalmente dependente.

Por outro lado, assim como nenhum animal se supera, o ser humano pode tornar-se desde uma pessoa cruel até mesmo um santo ou iluminado, como foram Buda, Cristo, Mahavir, Maomé entre tantos outros.

Recentemente ao ler uma palestra de Osho, me chamou a atenção ele dizer que o ser humano é um ser “transitório” que não tem as limitações do animal, mas em sua grande maioria não consegue atingir, quase nunca, o último estágio evolutivo possível. Foi nessa hora que me lembrei dessa curiosidade da não manifestação de satisfação de Deus quando da criação do homem. Ele não disse que ficou satisfeito, justamente porque não estava “pronto” ou “acabado” como os animais e as plantas, por exemplo.

Podemos nos tornar tudo que quisermos, desde alguém mal e cruel como nenhum animal é, até mesmo alguém que se dedica a humanidade de corpo e alma como muitas pessoas ditas “santas”, os grandes cientistas e pensadores e como os Mestres espirituais cultuados pela história.

Concordo plenamente com essa ideia e nem precisa ir tão longe; é só observar a história de muitas pessoas consideradas comuns, que fizeram revoluções em suas vidas, só não mudando o nome e a identidade, mas se transformando em pessoas completamente diferentes do que eram antes. Isso demonstra realmente que não estamos prontos, mas em constante aperfeiçoamento, conforme a teoria do bom e velho Darwin, mas também com o potencial inesgotável como “semelhante” ao Criador. Não existe outra maneira de juntarmos a ciência (a teoria evolutiva já provou ser verdadeira, afinal nosso DNA é 98,5% igual ao dos macacos), e a religião pela nossa capacidade de darmos saltos gigantescos sobre nós mesmo a qualquer momento da vida realizando verdadeiros milagres evolutivos.

Deus que, segundo consta, é perfeito em si mesmo não poderia gerar algo imperfeito como o homem, e seu silêncio sobre sua satisfação significa esse potencial que todos temos de nos transformarmos no que quisermos desde que tenhamos a vontade e a ousadia necessária  que as grandes obras necessitam (recomendo aqui a leitura do artigo intitulado “Os quatro pilares da realização”).

Mas, como humanos que somos, habitando um corpo que perecerá, inevitavelmente temos sempre medo de mudarmos pela insegurança que isso traz. E isso é característica de animais e não de deuses que tem a plena consciência de sua eternidade. Estamos sempre transitando entre os opostos, ora com medo, ora, arriscando tudo pela busca de felicidade e da realização. Não dá para discordar que realmente somos algo transitório entre o inferior e o superior.

Justamente por isso, temos épocas ou fases em que nos sentimos sem futuro, apenas sobrevivendo como os animais e, em outros momentos, sonhando e criando como Deuses. Somos os dois, dependendo de onde está nossa consciência: se ligada ao corpo com seus medos ou a eternidade onde todas as possibilidades são possíveis. Nessa hora sempre lembro que as pessoas têm uma mania de se permitirem sofrer até onde não aguentam mais, para só assim, se lançarem em busca de seus sonhos e criarem seus próprios mundos e universos. Não precisa esperar tanto, precisa?

A mitologia, que nos ensina tanta coisa, mostra que heróis como Hércules, Perseu e tantos outros sempre foram filhos de deuses com humanos. Já quando nos fala de sermos dominados pelos instintos, assim como os seres considerados inferiores, as figuras que os simbolizam são sempre uma mescla de homens com animais, como o deus Pan por exemplo, que é metade homem, metade bode.

Acredito ser interessante refletirmos sobre essa essência ambivalente que temos e por onde sempre estamos oscilando, ora para o inferior, ora para o superior. Talvez seja essa nossa grande tarefa a empreender nesse mundo; assumir qual dos dois queremos ser.

Hércules

Deus Pan

Somos todos UM

 

Nesse domingo de “folga” dos artigos, ofereço um documentário muito interessante. Apesar de já ter sido lançado há muitos anos está longe de perder a validade. Os produtores saíram mundo afora com uma câmara de vídeo amador para conversar com pessoas, muitas famosas, outras nem tanto, sobre Deus, espiritualidade, etc. Vale a pena assistir ou baixar em seu computador para ver quando estiver inspirado.

Até semana que vem!!

 

 

Imagem de Amostra do You Tube

Manifesto e Imanifesto

ceu azul

 

 

 “É verdadeiro, sem falsidade, certo e muito verdadeiro

           que àquilo que está em cima é igual àquilo que está embaixo

           e que àquilo que está embaixo é igual àquilo que está em cima,

 para realizar os milagres de uma única coisa.

  E da mesma forma que todas as coisas foram e vieram do Um,

 assim todas as coisas nasceram desta coisa única por simples ato de adaptação…”

Tábua de esmeraldas (trecho) de Hermes Trimesgistro

 

 

                                                                                                                                                             

Tudo que é manifesto no mundo provém de outro mundo: o imanifesto.

Dizem os cabalistas que a parte grosseira, entenda-se o corpo físico com seus cinco sentidos, foi a última coisa criada por D-us. Não se assuste, não escrevi errado, é assim que muitos escrevem seu nome, afinal se ele não é conhecido, não pode ser expresso.

Isso quer dizer, que fomos criados de “dentro para fora”, ou seja, daquilo que não se pode ver nem sentir (divindade), para o que pode ser visto e sentido (materialidade). Assim nos dividimos na dualidade que nos faz oscilar tanto. Isso justifica a frase atribuída a Cristo de que o “reino dos céus” está dentro de cada um. Justamente por isso que a Cabala nos mostra que não há nada a ser procurado externamente. É como se nosso corpo físico fosse um véu que oculta nossa natureza divina (essa é minha interpretação), justamente por ser limitado no espaço e no tempo. Atrás de nossa consciência ordinária está o ilimitado e a eternidade. É por isso que se diz impunemente, já que é um absurdo, que em algum dia começará a vida eterna. Já estamos nela, só que nossa percepção não consegue atingi-la. É o que Helena Blavastsky chamava dos “véus de Ísis”. Esse é o estado de consciência aspirado pelos místicos (misturar-se a Deus) e meditadores. Isso é realmente fascinante: encoberta pelo que nasce e morre, está a criação que sempre É.

Essa “tese” baseia-se no seguinte: tudo que existe no mundo material, antes habitou o imanifesto, ou seja, o mundo das ideias. Desde uma simples cadeira, até o mais sofisticado aparelho antes de ser fabricado foi imaginado por alguém. Assim, tudo que nos acontece, a vida que vivemos está sendo materializada pelo que antes imaginamos que fosse. Da mesma forma, imagine uma rosa, por exemplo, ela não nasce, simplesmente está imanifesta até surgir. Justamente por isso ela não morre, simplesmente o que ela era, se transforma em outras substâncias que se dissolvem na terra, se manifestando de outras formas em ciclos de vida intermináveis. Somos assim também, com nosso corpo que se dissolve e nossa consciência que se transforma.

Nosso corpo nasceu e um dia morrerá e isso faz parte, mas nosso imanifesto existe desde antes do universo, ou seja, é emanação divina. Todo nosso sofrimento está baseado na nossa percepção que está somente atrelada ao corpo que, por nascer, precisa morrer. Isso torna a vida realmente angustiante e, se pensarmos bem, até sem sentido. Já diante do eterno, as cores mudam, a evolução é constante até voltarmos, por mérito (nada é gratuito, tudo é causa e efeito) à nossa origem divina que hoje se encontra imanifesta em nós.

Toda a doença da civilização é baseada nessa pressa de atingir a felicidade, já que a morte é certa, não há tempo a perder. Quando somos levados a ter plena e total consciência de nossa verdadeira natureza, nos igualamos ao que os místicos chamam de “estado” crístico ou a consciência de Buda. Nesse estágio, o homem e a natureza são uma só coisa, inseparáveis (divinus), e assim fica fácil de entender porque as pessoas que experimentam esse estágio conseguem inferir na natureza como um todo, provocando os “milagres”, impossíveis para aqueles que habitam o limitado, o que perece, estado de percepção baseado exclusivamente no medo de morrer.

Nesse momento, você que me lê, pode querer perguntar o que fazer, qual a “técnica” ou dica para, definitivamente, nos encontrarmos com o que realmente somos?

Dependendo da linha filosófica, mística ou religiosa cada uma terá seu método, mas o que posso sugerir, de imediato, é a simples e dificílima prática da mente alerta. Isso mesmo, simplesmente mantenha-se atento, inteiro em tudo que faz. Comece por respirar conscientemente. Sempre que lembrar, observe sua respiração, isso já é um exercício poderoso! Essa prática nos leva a, pouco a pouco, a uma diminuição do nível de sofrimento, já que no instante presente estou livre do medo que sempre está ligado ao futuro, onde a morte nos espera. Perceba que a angústia e sofrimento nunca estão acontecendo no presente, mas nas culpas do passado e na incerteza (somos pessimistas por natureza) do porvir.

Uma das importantes atitudes a tomar, lembrando que somos nossos pensamentos, é buscar uma percepção clara do que entra pela nossa boca, olhos e ouvidos. Nossas ações muito se baseiam no que entram pelos nossos sentidos todos os dias, precisamos higienizar, comendo corretamente, e sendo muito criteriosos com o que vemos e ouvimos todos os dias, seja de pessoas e meios de comunicação. Observe como a humanidade pensa e age e veja se isso não está condizente com o que pregam as mais diversas mídias, por exemplo.

Aliás essa natureza negativa do nosso pensamento, faz parte da formação do nosso corpo físico, afinal quanto mais medo tiver, por exemplo, mas tenho tendência de manter a vida.

Assim, precisamos trabalhar constantemente nosso pensamento (imanifesto) para que possa ter um melhor resultado no plano concreto da existência. Mas esse trabalho só terá resultado se buscarmos uma parte de nossa consciência que está escondida dentro de nós, onde só uma prática direcionada como a meditação, além do estudo correto, pode nos levar.

Aprofunde cada vez mais sua auto-observação, avalie seus pensamentos e sentimentos constantemente. O budismo nos oferece o método da análise profunda das emoções como uma maneira de nos compreendermos melhor e aos outros também. Mas tudo isso necessita de determinação de querer mudar, e sair dessa maneira de pensar que só aumenta a ansiedade. Será sempre questão de tempo para que esse pensamento constantemente negativo se materialize em nossa vida.

Conforme os artigos que recomendo a (re)leitura no final, ande conscientemente, coma com atenção, esteja atento e pare de ficar “viajando” na agonia, que o sofrimento diminui e muito.

Quanto mais tempo no presente, menos sofrimento, mais saúde e alegria. Acredite ou não, é simples assim!

Se os cabalistas estiverem certos, busque entender como as coisas funcionam e positive seu imanifesto, projetando seu dia e futuro com confiança. Só não esqueça, é claro, de agir e tomar as atitudes necessárias para que se realize o que seu pensamento está criando.

Estou escrevendo esse artigo em meio à natureza e, diante de mim, estão montanhas de milhares e milhares de anos, cobertas de vida que mudam constantemente, com uma serenidade que só mesmo Deus possa experimentar. Isso também sou eu e é você também, afinal, somos em essência unos com o Todo.

Nossa tarefa então é “lembrar” do que realmente somos e de onde viemos, essa é a resposta que falta. Viva hoje sua eternidade, ficando conectado a cada momento e desfrute de uma vida sem agonia. Respeite e cuide do seu corpo para que ele viva bem, já você, que nunca nasceu e nunca morrerá, pense como seria sua vida se sua consciência habitasse o eterno?

*Caso não tenha lido, recomento a leitura dos artigos: “A prisão que nunca existiu”, “Zen Budismo” e a “A prática do Relaxamento” como aprofundamento do presente texto.