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A utilidade da Morte

morte

“Lembra-te do teu Criador nos dias da mocidade, antes que venham os dias da desgraça e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho mais prazer. Antes que o pó volte à terra de onde veio e o sopro a Deus que o concedeu.”

Eclesiastes, 2ª parte, capítulo 12, 1-7 , Bíblia de Jerusalém.

Falar sobre a morte é sempre difícil e dizer que ela pode ser útil, talvez seja uma ousadia. Não é o tipo de assunto que se esgote em um artigo, mas de qualquer forma, quero abordá-lo sob um ângulo em especial.

A morte, ou uma das perguntas sem resposta, “para onde vamos” é um dos enigmas insondáveis do homem e essa questão nunca será esclarecida e o modo que lidamos com ela é, sem dúvida, muito estranho. Sabemos (em tese, já que não agimos assim), que a morte pode chegar a qualquer momento, sem nenhum respeito a qualquer ordem específica; crianças, adultos, velhos, ninguém tem nenhum controle sobre ela. Alguns pensadores, dizem até que passamos nossa vida inteira fugindo dela ou nos preparando para tentar vencê-la. Para isso, servem os “planos” para a velhice, poupança para os momentos de necessidade e, é claro, os planos de saúde, que na verdade são de doença, para termos os hospitais e médicos aptos e não deixarem que ela chegue.

Apesar de todos dizerem que a morte é certa, nossas atitudes demonstram que a ignoramos completamente, uns por medo, outros por negá-la. Digo isso, porque temos em nossa vida uma série de adiamentos de toda a ordem como se tivéssemos a certeza de que não morreremos. Não há nada de errado em fazermos planos, mas alguns deles, contam com tantos anos de espera, que chega até ser uma desculpa para não fazermos esse ato. Desde uma simples viagem, até algum reencontro ou mesmo alguma experiência pessoal, tudo pode esperar o famoso “momento certo”.

Como a questão do que é morrer está nos domínios da fé, ou seja, acreditamos em alguma teoria, mas não temos nenhuma comprovação, penso ser importante que toda pessoa tenha a sua teoria, que pode ser de alguma religião, filosofia, ou mesmo a sua própria, inédita ou uma mistura de várias outras. Tanto faz, o que realmente importa é termos uma ação na vida baseada no que entendemos da morte. Só assim ela pode nos ser útil.

Pouco importa se você vai para algum julgamento e depois sentar-se à direita (ou será esquerda) do seu deus, se irá para algum umbral ou mesmo passar quarenta e nove dias avaliando suas boas e más ações para depois nascer de novo, o que precisamos é entender que, de alguma forma, essa vida terminará. Assim devemos fazer dela algo útil, divertido e, mesmo os momentos de tristeza devem ser relevados, afinal tudo vai mesmo passar de alguma forma.

Certa vez uma mestre Zen disse que, para acabar com o sofrimento é preciso entrar em contato com o mundo do não-nascimento e da não-morte. Indagado pelo seu discípulo onde seria esse mundo do não-nascimento e da não-morte, ele respondeu: Ele está bem aqui no mundo do nascimento e da morte. Isso quer dizer que é possível ingressar no mundo do não-nascimento e da não-morte através da prática de viver conscientemente a cada momento da vida. Para isso é fundamental levarmos em consideração o fato de que poderemos morrer a qualquer momento!

Para monge e escritor Thich Nhat Hanh, o bom teólogo é aquele que não diz nada sobre Deus, embora a palavra teologia signifique “discurso sobre Deus”. Como escrevemos no artigo anterior, não se deve falar muito o sobre o que não se sabe e acredito que deve se tratar da morte da mesma forma. É simplesmente um evento, que faz parte da vida, sobre o qual nada se sabe.  Muito do desespero que se tem nas perdas, advém não só da ideia de que não se verá mais essa pessoa, mas por também não sabermos o que é isso, que pode a qualquer momento retirar do nosso convívio, seja do jeito que for, pessoas queridas. A falta desse entendimento é a base do medo e do desespero diante da morte.

É sempre bom pensarmos até que ponto estamos, direta ou indiretamente, pautando nossa vida pela morte. Chega-se até a querer relacionamentos para, caso nos “aconteça alguma coisa”, tenhamos alguém para nos socorrer!

Não seria lícito pensarmos o seguinte: a melhor forma de enfrentarmos e até de vencermos a morte é vivermos uma boa vida! Independente de recursos financeiros questione-se sobre isso: Os frutos do seu trabalho estão esperando pela morte, ou estão à disposição da vida? Lembre que o futuro pode até ser planejado, mas ele na realidade não existe, já que são tantos fatores aleatórios e que operam além de nós que devemos saber que tudo pode ser de outro jeito e, quase sempre é assim.

Uma das melhores definições da morte e que faz parte da minha teoria é do filósofo grego Epícuro. Dizia ele: Não temo a morte, afinal quando estou ela não está e quando ela estiver, eu não estarei mais.

Nem eu nem você sabemos o que vai acontecer depois e isso na verdade não importa. Na hora certa saberemos se continuaremos vivos de alguma forma ou se tudo será uma profunda escuridão. Até que essa pergunta seja respondida pela sua própria experiência, lembre-se de cumprir essa etapa que faz parte da eternidade da melhor maneira que puder. Nada contra ser previdente, desde que, procure evitar seus adiamentos. A vida é agora, e a morte é depois.

Faça, portanto, do fato de você e todos que você conhece morrerem em algum momento, algo extremamente útil para que se viva melhor, muito melhor nesse exato instante!

Até onde chegamos?

neandertal espelho

         “ Só os santos são realmente humanos”

Abraham Maslow

É curioso pensarmos que, apesar de toda a “tecnologia” que dispomos nos lugares onde temos os melhores recursos médicos, ainda não conseguimos dobrar a expectativa de vida nesses dois mil e doze anos depois do nascimento de Cristo.

Quando lembramos a lenda de Sara, esposa de Abraão, que achou graça quando ouviu que ficaria grávida poderemos entender melhor isso. Disse ela ser impossível, afinal já era uma mulher velha. Importante lembrar que naquela época, poucos passavam dos quarenta anos. Passado todo esse tempo a medicina evoluiu tanto que não temos nem como colocar parâmetro de comparação com a época de Sara. Por outro lado, estudos são praticamente unânimes em afirmar que poderíamos viver bem até, pelo menos, 110 anos…

O que acontece para ainda estarmos longe dessa expectativa?

Penso que a maneira como vivemos ainda está longe de acompanhar os recursos tecnológicos. Na verdade, pouca coisa mudou para melhor e outras ainda pioraram. Ainda estamos em guerra de alguma forma. Da época de Cristo até hoje, não tivemos um dia sequer de paz no mundo. Em algum lugar, seja pelo motivo que for: conquistar territórios com algum tipo de riqueza, motivos religiosos (pasmem!), de ideologia política (essa é ainda mais primitiva e tão absurda quanto a religiosa); os “seres humanos” continuam se matando de forma bárbara. Nenhum animal irracional que habita esse planeta mata sem que sua sobrevivência esteja em jogo ou destrói o lugar onde vive, afinal o fato de ser irracional não quer dizer que seja burro.

Apesar de toda a abundância, continuamos vivendo e educando nossos filhos pelo paradigma da escassez e do medo e nem sequer pensamos em questionar tamanho absurdo. Fomos criados e criamos as futuras gerações com medo, seja de passar necessidades, de ficar só, de não ser reconhecido, etc. Dentro desse modo de pensar, não há corpo que aguente tanta pressão e chegamos ao ponto de termos na ansiedade o mal de século XXI, e nem poderia ser diferente.

O fim das fronteiras econômicas foi fácil de ser conseguido, já que se baseia em um dos nossos mais básicos instintos que é a ambição, ajudou a dissolver da cultura mundial, alguns oásis de bom senso no que se refere à maneira de viver. A ansiedade e suas consequências como problemas cardíacos, por exemplo, sempre foi uma prerrogativa do ocidente, onde o materialismo é sua principal religião. Como toda a religião se caracteriza pela prática de seus ensinamentos na vida diária, o materialismo pode e deve ser mesmo considerado um jeito religioso de se viver. De nada adianta frequentar qualquer templo uma vez por semana ou fazer orações diárias se o paradigma não for mudado e colocado em prática nos nossos atos.

Continuamos também a prática de nos alimentarmos de violência e destruição. Já foi necessário nos tempos das cavernas onde a gordura animal era necessária para enfrentar o frio e obter proteína, mas continua inalterado, como se não houvesse evolução nisso. Hoje temos formas bem mais elegantes e ecológicas, mas nisso ainda não passamos da aurora da humanidade. Temos tecnologia por todos os lados, demonstrando uma absurda diferença entre as eras, mas nesses aspectos quase não saímos do lugar.

Hoje “evoluímos” para o crescimento “sustentável” como se isso fosse possível! Nenhuma destruição da natureza pode ser sustentável, basta só pensar alguns segundos. O correto é dizermos que hoje nos preocupamos em causar menores danos, desde que isso não impeça o crescimento econômico, é claro. Estamos nos sufocando e programando o dia em que uma garrafa d’agua será comprada em uma joalheria, sendo consumida com toda a ritualística que temos hoje com aquele vinho caro de uma safra única.

De alguns anos para cá, essa perspectiva se tornou tão clara que foi necessário colocar na escola, na formação das novas gerações, esse pensamento preservacionista, já que os pais estão irremediavelmente perdidos e pensam como Sara, ou seja, é impossível mudar esse jeito de pensar e viver.

Alcoolismo, depressão, ansiedade, obesidade e drogas não estão no “topo das paradas” por acaso. É resultado de um pensamento que não evolui. De nada adianta  toda a eletrônica, os programas e confortos que tornam nossa vida mais fácil e confortável. A humanidade está doente. É como se uma pessoa de 40 anos estivesse apresentando o comportamento de uma criança.

Viver com medo mantém minha percepção sempre no futuro e projetando de forma sombria a vida, transformando minha realidade (cada um tem a sua baseada na sua imaginação) em um angustiante dia-a-dia, esperando que chegue o momento em que  alguma fortuna me traga paz e possa então descansar. Enquanto esse dia não chega, vou me anestesiando, perdendo os milagres diários da vida, pensando em fugir da morte. Temos a natureza e, principalmente as crianças para observar e aprender como devemos viver, e mantemos modelos falidos e ultrapassados pelo tempo. Sentimo-nos superiores aos animais e vivemos piores do que eles, ainda sem conseguir atingir a expectativa de vida que nos foi ofertada pela criação.

Passados centenas de milhares de anos, continuamos esperando que algum deus apareça ou envie algum mensageiro para nos dizer o que fazer e eliminar nosso sofrimento. Essa dificuldade em assumir o próprio destino mostra que a humanidade ainda é infantil, contando que o “papai” protetor aparecerá no final da história para nos salvar e perdoar nossos equívocos.

A violência e barbárie desse mundo primitivo que vivemos está banalizada pelas imagens diárias dos seriados e da internet. Paul MacCartney disse certa vez que as crianças precisavam visitar os abatedouros para tomarem suas próprias decisões. Nesse dia ele estava tão inspirado quanto em suas melhores melodias. Convivemos com lugares do planeta em que gente como nós morre de fome e de doenças simples que afronta e mostra nosso egoísmo. O mesmo que punimos em nossos filhos quando eles não dividem o brinquedo com o amiguinho.

Não aprendemos ainda, com aqueles que sempre existiram em harmonia, e que fizemos questão de matar e depreciar, que o planeta é um organismo vivo, que como tudo, precisa de cuidado e respeito. Os antigos adoravam o Sol como o grande Deus. E não é? Afinal, sem ele morreríamos todos! Essa constatação não precisa de fé, é fato!

Precisamos de deuses novos com esse enfoque, quem sabe assim nos salvamos de uma morte lenta e agonizante de falta de ar e sede, confortavelmente instalados em camas de alta tecnologia e ar condicionado. Os deuses de sempre, infelizmente, não deram resultado, como podemos facilmente observar.

A Possível Leveza do Ser

“Eu já me dei ao poder que rege meu destino.

 Eu não me prendo a nada para não ter nada a defender…

 Eu não tenho pensamentos para assim poder ver.

 Eu não receio nada para assim poder me lembrar de mim mesmo.

 Desprendido e natural…”

                                 Carlos Castañeda

                                                                                                                                

As palavras do Mestre Castañeda, famoso por suas aventuras com seu Xamã Don Juan, fez história na década de 70 com seus livros e hoje é cult, principalmente para quem já ultrapassou a barreira dos cinquenta. Seus versos acima podem nos convidar a uma reflexão mais detalhada para procurarmos mais a fundo sua mensagem. Vejo grande significado nessas palavras, e convido o leitor a nos debruçarmos sobre elas, com atenção.

                Eu já me dei ao poder que rege meu destino…

Existe mesmo uma força ou inteligência que nos conduz? Penso que não. Se assim fosse, seríamos marionetes e nosso livre arbítrio não existiria. Nossa realidade é sempre resultado de ações, pensamentos e atitudes anteriores e nada na natureza acontece sem uma razão. É um fatalismo cômodo aceitarmos o “destino”. Se, por exemplo, o destino quis que seu pneu furasse, isso significaria que deveria ficar sentado a beira da estrada pelo resto da vida?

O poder ou “lei” que rege toda a existência é baseado em uma só palavra: Liberdade! Somos livres para tomar nossas decisões e arcar com suas consequências, sejam elas boas ou más. É incrível, mas tudo que pedimos ganhamos! Se não pedimos (atitudes) não ganhamos nada e esse é o limite que separa quem faz seu destino e quem reza pelas dádivas divinas. A confiança é a qualidade de termos certeza de que somos capazes de alguma coisa e nunca conheci ninguém confiante que, em algum momento, não tivesse arriscado e apostado em si. Confiança é resultado de atitude e não vem de graça para ninguém.

                   Eu  não me prendo a nada para não ter nada a defender

Isso me lembra uma das mais perigosas armadilhas que armamos para nós mesmos; nossas coerências! Ser coerente é, antes de tudo, um compromisso com o passado, ou seja, com uma pessoa que não existe mais. Sabemos que mudamos constantemente por tudo que vivemos, vimos, lemos, aprendemos, etc., e não é lógico mantermos compromissos assim. A coerência é contra a maior qualidade dos sábios que é mudar de ideia, respeitando a pessoa que somos hoje. A palavra correta é “congruência”, isso significa que minha opinião ou ação está sempre atualizada, respeitando todas as mudanças que passei. Nos cobram a coerência ao invés da congruência, isso me cheira a poeira. Como disse certa vez o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Nada é mais velho que o jornal de ontem”.

                          Eu não tenho pensamentos para assim poder ver

Que são os pensamentos? Na maioria das vezes são condicionamentos que recebemos e nos impõe definições de maneira de ver. Nossas “avaliações” de tudo que nos acontece sempre vêm de segunda mão. Fomos domesticados, desde criança e nos impuseram os conceitos que são a base de nosso pensamento. Todos, por exemplo, querem não ter preconceitos, afinal sabemos que eles são a maior ignorância possível a algum ser humano, mas precisamos “pensar” nossos pensamentos preconceituosos para conseguirmos uma atitude mais igualitária. Como vemos tudo com olhos velhos dos avós, pais, professores, cultura e religiões não conseguimos enxergar a verdade. São tantos véus nos nossos olhos, como diria madame Blavastsky, que precisamos dos desprender deles para podermos realmente enxergar. Talvez Castañeda tenha lido Fernando Pessoa quando, em de seus melhores poemas, nos disse: “se quer ver não pense…porque pensar é estar doente dos olhos.” Perdemos situações e pessoas demais em nossa vida, justamente porque “pensamos” quando as vemos. Não pense, não julgue e veja!

                   Eu não receio nada para assim poder lembrar de mim mesmo

E estamos aqui, diante de nosso maior amigo e inimigo que é o medo. Ter receio é ter medo, e isso sempre nos diz que estamos diante de alguma mudança. Ainda não conseguimos entender que só evoluímos e crescemos diante do enfrentamento do medo, que é simplesmente um mecanismo de defesa que nos avisa que estamos rumando para o desconhecido. Sem medo poderemos “lembrar de nós mesmos” justamente porque poderemos rumar para nossa missão na vida que é colocar em prática nossos talentos. A única jornada a que viemos percorrer na vida é do nosso autoconhecimento, nenhuma outra! E nada dá mais medo do que vencermos tudo que encobre nosso verdadeiro Eu, já que temos “medo” de nos afastarmos do conhecido, das rotinas, relações que receamos perder nessa busca. Muitas pessoas passam pela vida sem terem vivido um segundo sequer, justamente porque nunca se encontraram. O tempo vai passando e esquecer parece inevitável, mesmo que seja de si mesmo!

                                         Desprendido e natural….

Naturalmente Ser…

A caminhada fica leve, justamente porque não temos bagagem para carregar. Como viver fica um êxtase quando estamos congruentes, não julgamos ninguém, não tentamos mudar as pessoas e fazemos do que somos nosso trabalho. Evidentemente que nesse estágio estamos saudavelmente desapegados, entrando no fluxo natural da existência, afinal entendemos o medo e ele vira sempre uma motivação para seguirmos adiante estrada a fora. A tensão não faz mais parte do nosso dia-a-dia e aproveitamos tudo ao máximo, fazendo de cada situação um aprendizado, simplificando as coisas.

Isso não é utopia, mas perfeitamente possível, mas para isso precisamos enfrentar nossos medos e buscar o autoconhecimento incessantemente e relaxar. Não tenha medo de você mesmo! Nelson Mandela disse certa vez que temos medo de assumir toda a nossa grandeza.

Difícil discordar, não acha?

A Alegria

diversão

“Deveríamos estar sempre embriagados.

Tudo depende disso é a única questão.

Para não sentirdes o terrível fardo do tempo, que vos abate e empurra para o chão, embriagai-vos incessantemente.

Mas com que?

Com vinho, com poesia, com virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos!”

                                                                                            Charles Baudelaire

Esse trecho que ilustra a abertura desse artigo foi escrito em 1857 e fazia parte do livro “As flores do mal” e causou um escândalo na época. Poetas são assim mesmo; eles conseguem ver além da realidade, e, normalmente, só são mesmo entendidos muito tempo depois. Portanto, se você achou que nosso poeta estava pregando a embriaguez pura e simples é um engano. Na verdade ele nos clama a trazermos alegria a nossa vida, já que sem ela, tudo fica realmente muito chato!

Hoje a ciência pode comprovar isso desde que passou a estudar o funcionamento do cérebro. Cada vez que sentimos prazer, e isso vai desde uma boa comida, um banho relaxante, sexo, etc, esses estímulos obedecem aos mesmos mecanismos de funcionamento, e são os mesmo circuitos cerebrais que estão em funcionamento, independente de onde eles vem, seja de um prazer gustativo, táctil, uma leitura, troca de afeto ou qualquer outro. O que realmente importa, é que ao chegarem ao cérebro esses estímulos produzem uma sensação de bem estar.

Além do relaxamento, tão importante para o descanso dos músculos e sistema nervoso as sensações prazerosas trazem o grande benefício de nos conectarem ao “agora” nos tirando das preocupações que não param de nos afligir, principalmente em relação ao futuro e que mantém nosso sistema orgânico em constante tensão. Estamos formando novas conexões cerebrais a todo o momento e criando novas. Tudo que repetimos reforçam as já existentes e, quando estamos tensos demais, vamos fazendo disso nosso jeito de ser, já que nossas percepções são sentidas pelas nossas conexões mais fortes.

Momentos de alegria e diversão podem ser encarados como verdadeiros remédios naturais que nos mantém saudáveis, então não fica difícil nós estabelecermos uma relação muito curiosa: nos desgastamos, trabalhando muito, nos preocupamos demasiadamente para chegarmos ao ponto de nos permitirmos esses momentos com mais frequência, de termos essa alegria, só que para isso, muitas vezes não nos damos o direito desse relaxamento, de simplesmente fazermos aquilo que nos dá prazer até que cheguemos a esse ponto. Estabelecemos que para podermos “relaxar” precisamos alguns números expressivos em nossa conta. A pergunta que fica é se mesmo quando esse valor estiver lá, finalmente descansaremos um pouco, nos permitindo “viver”, ou continuaremos com medo?

Hoje já sabemos que essas substâncias produzidas pelo cérebro durante os momentos de alegria (endorfinas e encefalinas) são as que nos permitem ver as “cores” da existência. Sem elas tudo seria cinza, exatamente como as pessoas com depressão definem como sentem a vida. Não existem remédios para isso, já que os antidepressivos apenas atenuam os sintomas mais graves desse processo e só mesmo uma mudança de atitude e novas maneiras de se encarar o dia-a-dia podem trazer uma cura, se assim podemos chamar.

Infelizmente buscamos essa alegria em atalhos que nos levam para lugares piores, como álcool, drogas e excesso de comida. O cérebro tem a plena capacidade de produzir essas substâncias agradáveis de forma natural, para isso basta apenas que nos permitamos, e para começar, respeitar nossos tempos internos também ajuda. Nossa cultura diz que todos temos que acordar cedo e trabalhar até o entardecer, mas já sabemos há tempos que cada pessoa tem um horário do dia em que é mais produtiva, também nos dizem quando devemos comer, dormir e qual o dia certo para descansar. Assim realmente fica difícil e não é a toa que a Organização Mundial de Saúde afirma que até 2020 a depressão será a doença que mais incapacitará as pessoas para o trabalho.

Sei que as coisas são como são e não estou dizendo que devemos abandonar tudo e viver de prazeres sem fim. O que estou dizendo, baseado nos estudos da neurociência, é que temos a obrigação, de em prol de nossa saúde, nos proporcionarmos bons momentos. Se você estiver esperando que alguém faça isso por você, esqueça!

O prazer indica que estamos bem! Tudo na sua hora, sem stress. No calor, uma sombra, na fome se permita comer o que realmente tiver vontade, mesmo que de vez em quando. Transgredir normas, pequenas, médias ou grandes, de vez em quando, não antecipará sua morte muito menos assegurará uma passagem sem volta para o inferno. Essa ideia de que devemos sofrer para nos purificar faz parte do conjunto de bobagens ainda não discutidas que vigoram por séculos.

Sempre que puder, aproveite de suas portas (cinco sentidos) e se beneficie de alegria e prazer. Faça das coisas inevitáveis que nos cansam, mas das quais não podemos nos livrar, aquilo que aumentará ainda mais sua sensação de alegria depois. Pesquisas mostram que a quinta-feira é o dia que as pessoas mais se sentem bem, afinal, o final de semana está chegando, já as segundas-feiras são recordistas em acidentes cardiovasculares, já que começa mais uma semana de tensão e problemas… Certa vez ouvi uma propaganda no rádio que dizia que, para o otimista, para cada cinco dias de trabalho tem dois de férias! Esse é um exemplo de reinterpretarmos as coisas, tornando-as mais leves. Como já escrevi anteriormente, só as pessoas realmente livres tem a capacidade de dar novos significados às situações.

Ninguém nasceu para sofrer, ou só para trabalhar de sol a sol. Nos fizeram acreditar nisso e olha como estamos. Veja uma criança e lembre que uma época você não precisava de quase nada para rir e estar bem! Nesse aspecto, é interessante observar que as pessoas dizem que a infância é uma ótima fase não porque se brinca, mas porque “não nos preocupávamos”!

 Nascemos para Ser, e isso inclui muita alegria, divertimento, trabalho, compromissos e prazer. Aliás, já reparou que tudo que é bom é pecado ou engorda?

Você pode estar dizendo que já sabe tudo isso, que já refletiu sobre o assunto ou leu em algum outro lugar. Só que se isso ainda não se transformou em atitude, significa que você não sabe nada!

Somos nossas atitudes, o resto é informação que se consegue até de graça, como nesse artigo, por exemplo…

Para saber mais: “A fórmula da Felicidade” Stefan Klein ed. Sextante

ANSIEDADE – 2a Parte

      “A segurança é acima de tudo uma superstição. Ela não existe

       na natureza…. E tampouco os seres humanos a vivenciam.”

                                                                Helen Keller

Como observamos em nosso artigo anterior, a ansiedade provoca sofrimento; afinal ela se caracteriza como uma resposta interna a um perigo simbólico ou imaginário, ou seja, sentir-se inquieto, apreensivo ou preocupado sobre o que pode acontecer. No fundo ela representa uma busca desesperada por segurança, estabilidade e não estar em risco. Isso vale para tudo.

Assim, quem está ansioso precisa de algo que elimine no seu corpo e pensamento esse sofrimento. Então nos cabe a pergunta: Qual o antídoto para o sofrimento? O que o ser humano precisa fazer para estancar essa angústia?

A resposta é só uma: PRAZER!!

Só um prazer acalma o sofrimento, dessa forma a ansiedade pode ser vista como participante de diversos vícios e compulsões, já que eles ajudam a fornecer uma carga rápida de satisfação e isso traz alívio. Pensemos nas principais formas de atenuar a ansiedade, evidentemente que não estamos falando das crises graves, onde a medicação e, muitas vezes, a internação são necessários.

Todo o comportamento humano tem uma finalidade positiva a cumprir como nos ensina a PNL (programação neurolinguística) e é mantido enquanto traz resultado. Dessa forma é preciso entender porque precisamos desse comportamento e se não podemos atingir seu objetivo de forma mais saudável.

Podemos começar pela comida. Desde que nascemos, quando choramos (não sabemos nos comunicar de outro jeito) recebemos comida em troca. Assim, criamos um certo condicionamento de que comendo as coisas melhoram, então os sofrimentos são resolvidos com comida. Mas como precisamos de um prazer, o que buscamos para acalmar nossa ansiedade precisa ser gostoso e isso normalmente nos remete a alimentos calóricos. Não conheci ninguém ainda que durante um processo ansioso tenha ingerido uma grande quantidade de chuchu, por exemplo, ou talvez, aquela mulher vivendo uma ansiedade amorosa tenha trocado os chocolates por vários pés de alface. Assim a ansiedade está diretamente ligada a ganho de peso. Importante lembrar que as fórmulas “mágicas” produzem o efeito sanfona, já que os inibidores de apetite podem conter por um tempo, mas quando o “tratamento” termina o peso volta, já que o foco da ansiedade não foi tratado. Quando se come demais ou fora de hora, estamos, na maioria das vezes, buscando anestesiar um sofrimento que, mesmo que estejamos apenas imaginando, para nosso corpo será sempre realidade. Portanto se não buscarmos uma consciência clara de porque estamos ansiosos, nada vai mudar. Além disso, a comida é mais acessível do que as demais formas tradicionais de amenizar a ansiedade que falaremos a seguir.

A bebida alcóolica relaxa, diminui nossos filtros de segurança e nos permite sermos o que queremos ser. Uma pessoa começa bebendo para se livrar de determinadas frustrações e medos e vai formando um círculo vicioso que pode terminar em dependência química. No caso da bebida o maior problema é o período que chamamos de “ressaca”, onde a pessoa se percebe cada vez mais triste e vai necessitando de mais e mais para buscar algum bem estar. O álcool, por ser socialmente aceito e incentivado, é o que muitos buscam para aquietar seu pensamento que está negativado e ajuda a não pensar sobre o que tememos que o futuro nos reserva. A mídia diz apenas que você não deve dirigir quando bebe. Também deveria dizer para não se comunicar, tomar decisões e agir. A pessoa que está alcoolizada (a medicina já provou que não precisa muito para alterar o equilíbrio) não está de posse coerente de si mesmo.

A questão do álcool é complexa, já que associamos muitos prazeres a ele, inclusive o de sentir-se mais relaxado, o que é o oposto de estar ansioso. Não podemos esquecer que lugares ou reuniões sociais estão sempre associados à bebida e acreditamos que isso nos proporciona benefícios emocionais, ajuda a aproximar as pessoas trazendo momentos de felicidade. Não dá para discordar que estar relaxado e momentaneamente feliz faz bem a nível fisiológico. A pergunta é: não dá para se sentir bem de outro jeito? Para encerrar sobre o álcool, não posso deixar de citar o famoso psicólogo Carl Jung que disse: “Álcool em latim é spiritus, a mesma palavra tanto para a mais elevada experiência religiosa quanto para o veneno mais depravado.”

Outra maneira de lidar com a ansiedade é com o uso de drogas de diversos tipos e os motivos são quase os mesmos que embasam o uso do álcool. Só que as drogas, trazem uma grande liberação de hormônios ligados ao prazer, bem como tem a capacidade de desconectar a pessoa da realidade com sua ação sobre o sistema nervoso. Essas “viagens” buscam também aliviar a carga negativa do pensamento ansioso provocando um descanso no sofrimento. Não é a toa que as medicinas mais antigas como a chinesa e a indiana entendem o uso de drogas como uma compensação para a falta de alegria na vida. No caso das drogas, bem como do álcool, é sempre importante lembrar que ninguém tem a intenção de tornar-se viciado, até porque nem todos que experimentam drogas passam a ser dependentes. O grande problema, no entanto, é que a pessoa superestima seu poder de autocontrole e subestima sua força de dependência.

Já quando falamos do cigarro é importante lembrar que a nicotina é uma das, aproximadamente, 4000 substâncias químicas que fazem parte. A nicotina tem como principal característica, no que se refere à ansiedade, a capacidade de trazer conforto e relaxamento. Justamente por isso que os fumantes sempre aliam a presença do cigarro após atividades prazerosas que vão do cigarro após a refeição até depois do sexo… Mesmo que resumidamente e até como curiosidade, importante saber que depois de cada tragada a nicotina vai para os pulmões e daí para o sangue, carregada pelas artérias, e chega ao cérebro em 8 segundos. O tempo de duração da sensação boa não passa de 20 minutos, e quando o nível de nicotina começa a baixar o desejo por outro cigarro cresce e daí já sabemos como funciona.

Para encerrar os mais comuns meios de anestesia da ansiedade temos a compulsão por compras. Como sabemos comprar é um prazer porque nos dá a sensação de “poder”. Normalmente as pessoas acometidas desse mal, compram coisas que nunca chegam a usar e, como em toda a ressaca, se arrependem logo depois do ato. Comprar dá prazer e isso é cultural, ou você já viu em algum comercial alguém chorando por ter comprado alguma coisa? Nesse como em qualquer dos tópicos acima, existe um grande prejuízo para pessoa, sua família, trabalho e amigos. Mesmo o cigarro já pode ser considerado também, já que fumar hoje pode ser decisivo para conseguir um emprego ou mesmo um relacionamento afetivo.

Mas e quando a pessoa não busca uma compensação de prazer diretamente? Nesse caso surge a depressão! Digo isso pelo simples fato de os últimos estudos demonstraram que a ansiedade esta presente em 80% dos casos de depressão. É quando a negatividade constante e crescente do pensamento vai abatendo a pessoa, trazendo uma certeza (sempre imaginária) de que, seja o que for, dará errado. Evidentemente que não é só a ansiedade que provoca depressão, mas a grande maioria das pessoas deprimidas se dizem ansiosas. Portando essa relação de ansiedade com depressão é obrigatória. Como dissemos em nosso artigo sobre depressão, existe a “certeza” de que a tristeza nunca terá fim e o prejuízo à qualidade de vida é inevitável, assim como o uso de medicamentos. Todavia, se a pessoa não buscar entender seu processo e fazer mudanças nunca nada mudará, apenas se manterá de pé movido pelas substâncias químicas. Nessa hora também é importante lembrar a ligação da depressão com dependência química em geral, tendo sempre a ansiedade como pano de fundo.

A ansiedade é a causa das fobias que nada mais são do que a certeza  de que determinada coisa vá acontecer. Quem tem fobia de lugares fechados tem “certeza” de que ocorrerá algum problema e a morte por sufocamento ou sendo pisoteada será inevitável. Assim como quem tem medo de altura não tem dúvida que cairá e morrerá e assim por diante. A fobia é portanto uma reação presente a algum acontecimento doloroso que a pessoa imagina que ocorrerá. Mas todo o problema, como já sabemos, é que nosso corpo responde 100% ao que imaginamos e é por isso que diante do evento fóbico a pessoa fica paralisada, com o terror expresso no olhar.

Da mesma forma, muitas formas de transtornos obsessivos compulsivos são pura ansiedade, só que descarregada na limpeza, organização, verificação (sempre conferir se fechou a porta, por exemplo), sentir-se sujo (certeza de que se contaminará) e assim por diante.

Outra forma de ansiedade aparece nas pessoas controladoras e centralizadoras em excesso, seja profissional ou afetivamente. Essa necessidade de controlar tudo está ligada a uma forte insegurança (medo) de que se tudo não sair ou ser como ela quer perderá o relacionamento, o emprego, o comando, etc..

Seriam necessários muitos artigos para falarmos da ansiedade e suas consequências, mas penso que os tópicos principais foram aqui abordados, desde sua base teórica, no artigo anterior, bem como isso se transforma em problemas na vida prática no presente texto.

Fique com a frase que abre esse artigo como lembrança! Ela toca na raiz de todo o processo ansioso que hoje afeta o mundo inteiro. Entenda e aceite definitivamente que nada pode estar seguro, a não ser que esteja morto. O processo de tudo que é vivo é baseado na constante transformação e querer manter tudo controlado ou seguro é uma impossibilidade. Não há controle sobre o futuro e isso é fantástico!! Como é chato ver um filme que já se sabe como acaba, não acha?

O remédio?

Mantenha-se no presente, consciente de seus atos e lembre que se tem alguma coisa que pode influenciar o futuro é o hoje. Não deixe que a ilusão da negatividade natural do pensamento seja seu guia. Entenda como isso funciona a assuma o comando da sua vida e termine com essa doença de pensar que tudo vai dar errado se perder e todas essas coisas que simplesmente você imagina, destruindo seu corpo de tanta tensão.

Como não há controle sobre nada mesmo, relaxe……