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A dor é amarela

              “Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. ”

                                                                         Rubem Alves

                                                                                                                                                                 cvv

Estamos em setembro, que é amarelo por uma inspiração primaveril ou porque as outras cores já foram usadas nos outros meses, dedicado a alguma causa. No caso, o foco é o suicídio e sua prevenção, que, pelos números que crescem geometricamente, precisará de mais meses do ano ou de termos um ano todo amarelo, de janeiro a dezembro.

Sobre o assunto do suicídio, já tratei diretamente em um dos capítulos de “Céu e Inferno”, bem como uma reflexão sobre a morte, em texto aqui do blog, quando usei as ideias do filósofo Montaigne como inspiração (Montaigne e a morte), escrito em setembro de 2016.

Meu intuito agora é comentar sobre a importância do trabalho, voluntário ou não, das pessoas que se dedicam a escuta e de como simplesmente ouvir pode fazer a diferença para quem está pensando em abreviar sua vida.

A angústia quando aperta nos encolhe (muitos ficam em posição fetal quando sofrem desesperadamente, buscando inconscientemente uma lembrança de quando se sentiam protegidos), e parece até que dá falta de ar em outros. Só quem já passou por isso pode avaliar e é aí que os problemas começam.

Todos, sempre com a finalidade de ajudar no sofrimento do outro, cometem alguns erros primários como, por exemplo, tentar diminuir o problema comparando com outros que, em tese, são mais graves. Quem está sofrendo, sofre seu problema que nunca pode ser comparado com outro. A dor da perda de um relacionamento é sentida psicologicamente como uma morte de alguém querido. Comparar dizendo que “tem coisas bem piores” além de ser uma bobagem é um desrespeito. Jamais pode-se partir do ponto de que as pessoas são iguais, sendo a comparação uma verdade válida para todos. A morte de um animal de estimação, a perda de um emprego, seja qual for o problema, tem o sentir único de quem o vivencia e qualquer comparação é absurda. Não tente consolar seu amigo (a), por exemplo, oferecendo suas experiências tristes esperando que ele melhore ficando com pena de você.

O sofrimento, normalmente é um não entendimento da dor e falar sobre isso sempre ajuda. Quando a pessoa sente confiança para expressar seu sentimento, suas ideias se organizam no ato de explicar o que está sentindo. Mas isso exige uma atitude de respeito à capacidade que cada um tem de resolver seus próprios problemas. Outro erro grave é querer oferecer saídas ou dar conselhos. Os profissionais da área da psicoterapia, que possuem toda uma preparação para lidar com o sofrimento alheio, têm por norma não aconselhar, justamente por procurarem oferecer condições de entendimento. Quando tudo fica claro, quando as causas são conhecidas pode ficar a dor, mas o sofrimento acaba. Portanto, não dê conselhos!

Quer ajudar?

Apenas ouça, não julgue, não critique e não aconselhe.

A não ser que você seja alguém realizado como um Buda, que atingiu o clímax do potencial humano, acolher já está ótimo!

Se todos nós temos nossos problemas e sofrimentos, só podemos ensinar o que sabemos por experiência. O que isso quer dizer? Que só podemos ensinar a ter problemas e sofrimentos.

O ato de falar sem se sentir julgado, comparado ou criticado abre infinitas possibilidades, mas seu maior efeito é a diminuição da dor emocional que, quando atinge um patamar elevado faz a pessoa querer acabar com isso rapidamente e é aí que entra a ideia do suicídio. Em níveis mais baixos, acabamos com nossa angústia com uma barra de chocolate ou um copo de qualquer coisa. Somos todos suicidas em potencial e o que nos falta é a dor extrema aliada a um momento de fragilidade. Nossa natureza é a busca da alegria e a fuga da dor. A alegria é imaginada e vivida intensamente em momentos, já a dor emocional é também física, sendo, portanto, mais propícia a saídas rápidas e impensadas. Como já detalhei no artigo sobre o suicídio, a angústia, seja de que nível for, sempre é tão passageira quanto a felicidade que “dura pouco”, mas com um agravante; parece ser eterna enquanto dura, parafraseando Vinícius de Morais.

Por isso, trabalhos de escuta como o que o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece gratuitamente é de inestimável valor para a sociedade e merece todo nosso apoio. São pessoas que doam seu tempo e que são treinadas para essa escuta respeitosa, de ajudar a pessoa que está sofrendo a falar tudo que sente, anonimamente, sem cobranças, consolos ou saídas milagrosas. A fala, muitas vezes o choro que se deixa chorar, alivia em muito a angústia e nessa hora é o que importa. É como um pronto-socorro que não tem a função de curar, somente de manter o paciente vivo para que ele possa procurar com calma e sem dor a saída de seu problema.

Como é importante nesses momentos não oferecer crenças ou explicações metafísicas. Até porque, são saídas baseadas em expectativas de que o mundo ou a vida sejam desse ou daquele jeito. Muitas vezes não funcionando nem para quem os sugere. Quando alguém enfrenta o desespero isso também acontece pelas suas crenças se mostrarem sem efeito diante do problema. Oferecer outra? Por favor, não!

Portanto, se você está sem tempo de ouvir, ou acha que o problema que a pessoa está enfrentando poderia ser pior, que está faltando coragem ou fé, não diga nada. Sugira que procure uma ajuda profissional, reconhecendo sua limitação (o que é um ato de extrema inteligência e grandeza) ou então dê o número do CVV*.

O mundo está nos entristecendo cada vez mais e isso diminui nossa força e vontade de viver. Estamos cada vez com mais medo de não conseguirmos nos manter em um mundo que está mudando muito mais rápido do que nossa capacidade de assimilação. Tudo perde valor e validade rapidamente e manter-se, seja no emprego, nos relacionamentos e até de atender nossas necessidades é um risco diário. O mundo e nossa civilização perdeu consistência, ou ficou “líquido” como bem descreve Zygmunt Bauman em seus livros. Parece que só globalizamos a miséria, a violência e o medo. Precisaríamos de uns trezentos ou quatrocentos anos para nos adaptarmos sadiamente ao que aconteceu nos último trinta.

Os números do suicídio são verticais, afetam todas as classes sociais e econômicas e a dor que não respeita nada pode nos atacar dentro de um ônibus indo para o trabalho ou em um iate nas costas do mar Egeu.

Se alguém me perguntasse que cor daria para setembro, certamente não escolheria o amarelo de “cuidado” como nos semáforos. Usaria e vermelho de “pare”!

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 * CVV disque 141

Aceitação

“Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da aceitação. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceita-lo.”

Eckhart Tolle – O despertar de uma nova consciência

 

“ O sofrimento é a não compreensão da dor.”

Dulce Magalhães

aceitação

Qual o limite do sofrimento?

Essa resposta é difícil e por isso penso que seja interessante refletirmos sobre ela. Muitas vezes, o sofrimento termina por irmos até o seu final, esgotá-lo. Para isso o corpo tem seus mecanismos. Noto na prática da psicoterapia que a pessoa experimenta uma melhora súbita depois de um sofrimento intenso, normalmente passado alguns dias. Isso ocorre justamente por irmos tão fundo nele que não há como prosseguir, já que nosso próprio sistema tem uma limitação, afinal, precisamos continuar vivos.

Essa também é uma espécie de técnica terapêutica defendida por alguns que tem o objetivo de viver o sentimento intensamente por um tempo curto com esse fim; de esgotá-lo o mais rapidamente possível. Do jeito como somos, preferimos sofrer longamente, pois isso nos dá, inconscientemente, essa sensação de justificá-lo.

O âmbito do sofrimento normalmente está abaixo da nossa racionalidade, justamente porque, na maioria das vezes, seu simples entendimento poderia dirimi-lo. Mas como na nossa cultura sofrer é algo que entendemos que nos purifica ou nos faz evoluir a via longa parece ser a escolhida.

Vamos analisar algo extremo: a perda (morte) de uma pessoa muito querida.

É inevitável e muito normal sentir uma dor profunda. Mesmo os adeptos do reencarnacionismo não estão isentos a ela, afinal, essa pessoa sairá de nossa convivência e não a veremos mais, nem teremos a possibilidade de estar com ela pelo restante de nossa vida.

Aqui, entra o ditado popular: “ A dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional”.

Mas como colocar isso em prática? É muito difícil e precisamos entender o porquê.

Em primeiro lugar, o que acontece é que aprendemos que uma forma de demonstrar amor é pelo sofrimento. Esse conceito é levado muito a sério nos relacionamentos afetivos, por exemplo, onde tendemos a avaliar o quanto gostamos de alguém pelo sofrimento que essa pessoa é capaz de nos trazer. É como fossemos cobrados em sofrer para demonstrar o quanto gostamos da pessoa que partiu.

Sejamos racionais: A morte é definitiva para o corpo e, seja por uma doença, acidente ou qualquer outro motivo, não tem como voltar atrás. O sofrimento muitas vezes vem de procurarmos respostas para perguntas como:

Por que aconteceu com ele(a)?

Não merecia, pois era uma ótima pessoa.

Por que agora e dessa forma?

Por que alguém merece passar por isso?

Essas perguntas nunca serão respondidas, já que para isso a vida precisaria ter uma lógica, um sentido que não tem. Em artigos anteriores já discutimos esse assunto. Dessa forma, ficamos procurando um sentido onde não há e isso mantém o sofrimento por longo tempo, até que a pessoa chegue à conclusão que não terá essas respostas e vai recolocando sua vida nos trilhos. Essa forma, digamos, natural, demora muito. No caso de uma morte, por exemplo, é aceito que a pessoa enlutada tenha prejuízo na sua vida por até um ano depois da perda. Somente após desse período é que se considera a necessidade de procurar alguma espécie de tratamento.

O que podemos questionar é se precisa esperar tanto tempo, se esse sofrimento não poderia ser dirimido pela simples aceitação da infalibilidade da morte. Muitos procuram em si alguma responsabilidade, se poderiam ou deixaram de fazer alguma coisa que evitaria o ocorrido.

Nesse caso, já entramos em mais um aspecto, onde o sofrimento se encontra com a culpa. Sentir-se culpado ou ficar remoendo pensamentos de que algo poderia ter sido feito, nada mais é do que encontrar finalmente uma resposta para entender essa perda: Eu fui culpado, pois poderia ter percebido ou feito isso ou aquilo.

Se, por um lado a pessoa simplifica a situação ao se culpar, por outro essa solução traz o outro problema. Já que a culpa existe, é porque algo errado foi feito e isso exige uma punição. Para isso, não precisa de nenhum juiz ou tribunal; nós mesmos nos impomos algum tipo de pena. Mais tempo passa onde essa punição é cumprida para expiarmos nosso “erro”.

Quando não é uma morte, necessariamente, mas uma perda material onde precisaremos retroceder socialmente ou abrindo mão de algum conforto, sempre vem junto um abatimento do ego que, tem sua autoimagem afetada. Quantos já foram ao limite do suicídio por terem ficado repentinamente pobres e não suportaram lidar com essa nova realidade?

Em outros casos, algum segredo vem à tona e essa descoberta afeta a imagem que a pessoa luta por defender. Daí, acontece de pensar que a morte a eximirá de passar pela responsabilização do seu ato e da mudança que provocará em seu círculo de amizades com a perda do reconhecimento que viria.

Seja qual for o caso, e poderia citar outros tantos, a simples racionalização pura e simples já teria, em tese, a força de tornar o sofrimento sem sentido ou diminuí-lo. Seja para prestar contas à sociedade do nosso amor, seja para defender uma posição ou conceito que temos de nós mesmos, as perdas em geral nos remetem a um longo período de abatimento que pode nos levar a abandonarmos caminhos ou fazermos escolhas que mudarão nosso futuro.

É claro que a dor, seja pela perda que for, até mesmo de um emprego que gostamos e que jamais imaginaríamos que fossemos nos afastar, causa um baque inicial que devemos aceitar. Mas compreender e usar a racionalização poderá ajudar a diminuir o tempo do sofrimento.

Quem sofre pouco, pode parecer aos olhos comuns como alguém insensível, que não se importa ou que não gostava tanto assim da pessoa falecida, que não dava importância ao relacionamento, etc.

Será?

Pode ser simplesmente que essa pessoa tenha optado por não sofrer, desistiu de ficar procurando respostas lógicas para perguntas que nasceram para não serem respondidas.

Seja a perda que for, não tem como não doer, e isso é normal, faz parte e como diz  Eckhart Tolle pode ajudar a transcender, ou seja,  ir além do sofrimento.  Só que isso só será possível se simplesmente aceitarmos que, por exemplo, nada nunca está sólido, seguro ou garantido em qualquer aspecto da vida.

Isso, por um lado pode gerar angústia, por outro é justamente o oposto; se é assim, que seja;  já que sofrer não vai tornar nada mais seguro ou evitar que o inesperado aconteça.

O animal que somos necessita se sentir seguro, por isso lidamos mal com as mudanças, principalmente as inesperadas ou incompreensíveis, como sabemos. Mas entender o sofrimento e ir além nunca foi coisa de bicho.

Temos um cérebro emocional e é dele que vem tudo isso. Mas nunca é demais lembrar que desenvolvemos uma nova parte, chamada Néo Cortex, que nos permite entender, racionalizar e colocar uma compreensão mais profunda.

Só que esse novo cérebro precisa de consciência para ser utilizado e precisaremos ir além do nosso emocional, muito automático, reativo e programado desde o dia do nosso nascimento.

No final, aceitação é muito mais do que dobrar os joelhos diante do desconhecido, pode ser simplesmente aceitarmos que tem coisas que, simplesmente, não devemos saber.

Destino escolhido

“O colonialismo visível te mutila sem disfarce: te proíbe de dizer, te proíbe de fazer, te proíbe de ser.

 O colonialismo invisível, por sua vez, te convence de que a servidão é um destino, e a impotência a tua natureza: te convence de que não se pode dizer, não se pode fazer, não se pode ser”.

                                                   Eduardo Galeano – O livro dos abraços

                                                                                                                                                                              homem robo

Lutar contra o colonialismo visível é fácil, ele é escrachado e reprime com a força das armas, na maioria das vezes. Já vivemos isso aqui no Brasil e os com mais de 50 perceberam e os mais velhos sentiram na pele. A ordem é  concordar e discordar é ser do contra, não amar, e não querer o bem. Criticar nem pensar e pessoas assim merecem morrer. Recentemente na Coréia do Norte, alguns foram executados por terem sido descobertos vendo novela, coisa que o ditador de plantão não gosta e não acha que seja bom, já que “aliena” as pessoas.

Sempre temos grandes inteligências, doentes é claro, que dizem saber o que é bom para todas as pessoas. São eles que, ao longo dos tempos foram responsáveis pelo nosso super desenvolvimento tecnológico e um quase inexistente desenvolvimento da consciência. Pessoas que elevam sua percepção atingem uma liberdade impossível de ser tirada por quem quer que seja e morrer para um homem livre é mero detalhe, como nos mostra a biografia de Sócrates e Mansoor. Poderíamos falar de tantos outros que fizeram da sua liberdade de pensar, querer e Ser sua vida, atingindo assim a eternidade possível. Dos outros, dos que aprisionam, as lembranças são só as do mal que fizeram e se tornam exemplos do que de pior um ser humano pode fazer com sua inteligência e sensibilidade às avessas.

Mas o colonialismo moderno, fora essas bizarras exceções é mais sutil e, portanto, eficiente. Ele vem pela cultura, pela mídia e pelos olhares de reprovação dos condicionados que não suportam ver o livre ou aspirante à liberdade. Existe uma força terrível que nos impulsiona para voltar ao cativeiro da inconsciência, criticando e fazendo “do que os outros vão pensar” uma chantagem tão grave como se faz com as crianças, quando dizemos que se elas não fizerem o que é “certo” nos farão chorar ou entristecer.

Basta um mínimo de percepção para sentir-se um peixe fora d’agua em meio ao pensamento comum, das metas iguais e das avaliações rasas sobre quem é bom, certo ou referência. Vivemos uma época da vitimização, seja do governo, do destino ou de deus e isso é tão fácil de entender; as pessoas cumprem seu script cultural e esperam, é claro, os resultados. Essa recompensa é sentir-se bem, respeitado e admirado pelos outros, nem que seja por ter um corpo perfeito à custa de privações e mutilações ou alguns bens de consumo, cada vez mais perecíveis pela moda, que são a prova de uma vida de sucesso.

Essa cultura sempre leva aos extremos, onde o sofrimento é inevitável. Negar parte de qualquer coisa é percebê-la pela metade e com a vida esse conceito é mais válido ainda. O “caminho” é do meio, composto por tudo sem nada excluir.

Talvez esses bilhões de dólares investidos por homens e mulheres para manterem sua juventude, criando seres caricatos, pois nada é mais estranho do que uma pessoa de 40  parecendo-se como uma de 20, pode ser uma metáfora de se ganhar mais algum tempo para que a vida faça sentido.

O colonialismo invisível tem feito vítimas em progressão geométrica e a verdadeira epidemia de doenças emocionais como a depressão e a ansiedade é a prova mais cabal disso. Assim, comer, beber, drogar-se e consumir vira o anestésico possível para se continuar no dia a dia absurdo e sem conteúdo. Somos convidados, pelo pensamento dominante, a buscarmos uma resposta externa à evolução interna e é por isso que a angústia coletiva aumenta como a temperatura de uma chaleira no fogo. A ebulição que estamos vivendo está nas estatísticas de cada vez mais casos de doenças originadas desses “escapes” citados acima.

Ninguém se importa, afinal o importante é gerar riqueza, comprar e buscar ser visto como alguém bem-sucedido. Na contra mão dessa maneira de pensar(?), as pessoas percebendo que os remédios, as roupas, músculos, carros, eletrônicos e viagens apenas as anestesiam, começam a buscar alternativas. O problema é que essa busca não é movida pelo amadurecimento de sua percepção, mas pelo aumento do sofrimento e angústia mental que nada faz parar. E quando isso acontece é o de sempre: uma pequena melhora para poder voltar a ser o que era, como se o problema fosse a pessoa e não o contexto onde ela está inserida.

Era melhor que tivéssemos tanques na rua ou uma vigilância nos moldes de Orwell no ótimo “1984”. Nesses momentos, pelo menos aqui no Brasil, tivemos Chico Buarque, Caetano Veloso  e Elis Regina (para citar poucos) a cantar os poemas que nos convidavam a reagir contra a prisão de pensar e ser. O modo “invisível” é tão mais eficiente, pois se traveste de liberdade e o que temos para ouvir na grande massa é o tipo de arte sexualizada que nos retrocede à adolescência e aos prazeres menos sofisticados ou inteligentes.

Ouça, por exemplo, as “dez mais” da parada de sucessos e analise as letras para entender o nível onde estamos. Ir para frente não é automático. Natural e sem esforço é retroceder.

A alienação hoje é muito mais grave, já que é o resultado do que somos, por regressão, diferente do que é claramente imposto goela abaixo.

No final, é como sempre; precisamos chegar ao fundo do poço para percebermos que isso não funciona. Mas como se sabe, as massas têm na ignorância sua natureza e são apenas individualidades, lá e cá, que se elevam acima do comum. Mas assim que isso acontece, vem o medo da solidão e a força que traz para baixo, questionando se a pessoa está sã por pensar diferente.

A revolução que se pede hoje contra a ditadura do status quo, não pede armas ou guerrilhas, mas uma atitude nova de resistência lúcida e manter-se firme contra a correnteza.

Pense e se repense. Avalie para onde o caminho que está sendo trilhado pode levar e qual o final que cada um de nós está escrevendo para sua história.

Não há como alegar a ignorância da lei. Evolutivamente pagamos pelo que fizemos e não fizemos.

Nada está escrito, mas sendo escrito.

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Voltamos em Janeiro. Um ótimo período de descanso e aproveite para ler os textos e comentá-los à vontade, bem como as crônicas que escrevo na Folha SC.

Palestra sobre ANSIEDADE

Aqui, em vídeo, a palestra sobre Ansiedade que ministrei dia 1 de agosto em Blumenau encerrando a semana de jornada espiritual da FLV. A vantagem com a edição é a presença dos slides que normalmente não aparecem nas gravações. Parabéns ao Nassau pelo trabalho! A palestra dura 100 minutos. É que o assunto assim exige. Pode ser vista com pipoca ou não…

 

Imagem de Amostra do You Tube

A Educação essencial

“A faculdade de redirecionar reiteradamente e por vontade própria uma atenção dispersiva é a verdadeira raiz do discernimento, do caráter e da vontade. Ninguém é senhor de si se não a possuir. Uma educação que tivesse de aperfeiçoar essa faculdade seria a educação por excelência.”

                                 Willian James – Principles of psychology 

                                                                                                                                      planta

Sempre que estou falando, seja em uma aula ou palestra sobre a questão do sofrimento, é comum as pessoas me olharem com certa incredulidade quando lhes digo que, se aumentarem seu tempo de atenção ao presente em dez minutos por dia suas vidas mudarão em alguns meses.

Mas isso não é difícil de entender enquanto conceito teórico, o complicado é acreditar que algo tão simples (mas difícil de executar) possa fazer tanta diferença. Por isso é importante entendermos que, ao nascermos, está impressa uma individualidade que poderemos chamar de “eu”. Esse “eu” é tão único quanto o DNA e inclui talentos naturais, tendências comportamentais etc.

Com o tempo e a educação que recebemos vamos formando sobre esse “eu” uma crosta, que tem a finalidade de nos adaptarmos ao meio e sermos queridos e reconhecidos como bons. Além disso, e, principalmente, nos garante que seremos amados por pessoas importantes para nós, afinal somos o que elas esperam. A essa crosta, damos o nome de “ego”.

Como o ego é então formado por repetição, punição e outros artifícios, com o tempo vamos pensando que somos esse ego e normalmente nem lembramos, até porque isso não é interessante para quem condiciona, que temos um “outro” jeito de ser que nem chegou, coitado, a desabrochar.

Então a vida vai sendo vivida, se é possível que o falso realmente viva, e em determinado momento de crise pessoal ou época, quando nos damos conta que alguma coisa precisa estar errada, entramos em processo de mudança. Linhas mais antigas de psicologia irão procurar na sua infância essas causas, normalmente na boa ou má relação com os pais e outras circunstâncias. Pessoalmente acredito que o problema esteja mesmo lá na sua origem, mas não do modo que é normalmente tratado.

Simplesmente acredito que o verdadeiro problema é que esse “eu” verdadeiro clama por poder viver e se expressar. Se estiver certo, penso que perdemos tempo demais na infância, ou caso não seja suficiente, até em vidas passadas. Tudo para encontrarmos uma explicação para a infelicidade e frustração. Só que isso só fortalece a ideia de que o ego é o verdadeiro centro desse ser. Não dará certo porque não há como tornar um boneco de cera uma pessoa, mesmo que seja muito parecido.

Nada expressa melhor o ego que a mente. Essa loucura de estar o tempo todo pensando, seja no passado ou no futuro, nada mais é do que uma nova versão das preocupações de quem nos condicionou adaptada ao tempo e a tecnologia.

Assim, sair da mente e para isso basta apenas essa conexão com o agora, naturalmente fará com que o verdadeiro “eu” possa emergir. Com ele virá a nossa verdade pessoal e o que acompanho com alguns clientes no consultório são novas formas de ver a vida, gostos, pensamentos inéditos sobre temas antigos e o desejo de seguir caminhos nunca antes imaginados.

Confio bastante na teoria que diz que os sintomas e, consequentemente, doenças sejam um clamor desse verdadeiro centro para se manifestar. Mas como sofrer faz parte do nosso programa como algo bom (incrível), precisamos de bastante sofrimento para correr o risco da mudança. O mais maluco de tudo isso é que se demora muito tempo para isso, já que só um grande martírio que nos dá a justificativa para a mudança.

Então, se conseguirmos sair da mente – e só se conectando ao presente isso é possível – vai criando as condições para esse desabrochar de nossa existência. Infelizmente, a maioria das pessoas morre sem sequer terem nascido.

A grande dificuldade desse, digamos, despertar, é justamente ser um processo extremamente evolutivo, o que determina a necessidade de uma grande vontade e coragem. Só que isso não é possível sem conhecimento ou autoconhecimento.

A medida em que vamos ampliando o tempo que nos abstemos de pensar o que nos mandaram e isso é automático (mente), vamos pensando o que realmente é nosso jeito e posso garantir que é uma grande descoberta.

Para mim é isso que podemos chamar de RESSUSCITAR!

Sem entendermos que a mente é um processo subjetivo e que não é nossa última instância, não nos daremos conta da existência da consciência, essa sim, nossa verdade mais essencial. É justamente a consciência que discute com a mente quando estamos pensando ou falando sozinhos.

Quando por exemplo, você sente uma necessidade de mudança e claramente sabe como isso fará com que se sinta melhor, a mente vem e diz um sonoro “não”. Essa negativa vem dos condicionamentos que estão impressos pela educação. Dá até para perceber quem colocou na sua cabeça a frase: Não se troca o certo pelo duvidoso….

Eu digo: Sempre se troca a infelicidade certa pela possibilidade da felicidade!

Aceite bem sua agonia, a angústia que aperta seu peito. É uma maneira de seu verdadeiro “eu”, centro do seu ser, que lhe clama por deixa-lo viver. Claro que as mudanças sempre geram algumas perdas e arranhões, mas afinal não se cresce impunemente.

Só não caia na asneira de pensar que sua evolução virá sem que nenhuma atitude seja tomada. A época dos milagres já terminou e quem os fez nem teve um bom final.

Quando explico o funcionamento da mente, meus alunos perguntam por que isso não é ensinado nas escolas, onde uma criança de doze anos poderia entender perfeitamente como tudo funciona. A resposta é simples:

Quem atinge seu verdadeiro EU é uma pessoa livre, não manipulável, e isso obviamente não interessa. O que seria, por exemplo, da moda, dos carros, eletrônicos, etc. Até mesmo a indústria da saúde tenderia a falência, já que pessoas de bem consigo e a vida tem poucas chances de adoecer.

O que aprendemos na escola nos prepara para termos onde trabalhar e isso não é educar, é formar mão de obra.

Se educar é ajudar a transbordar a essência como diz Osho, concordo com Willian James; para ensinar a viver não precisa mais do que isso mesmo.

A foto que ilustra esse post foi tirada na minha casa. Ao ver essa planta lutar pela vida no meio do concreto, pensei em escrever o presente texto. Que ela nos inspire.