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Aceitação

“Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da aceitação. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceita-lo.”

Eckhart Tolle – O despertar de uma nova consciência

 

“ O sofrimento é a não compreensão da dor.”

Dulce Magalhães

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Qual o limite do sofrimento?

Essa resposta é difícil e por isso penso que seja interessante refletirmos sobre ela. Muitas vezes, o sofrimento termina por irmos até o seu final, esgotá-lo. Para isso o corpo tem seus mecanismos. Noto na prática da psicoterapia que a pessoa experimenta uma melhora súbita depois de um sofrimento intenso, normalmente passado alguns dias. Isso ocorre justamente por irmos tão fundo nele que não há como prosseguir, já que nosso próprio sistema tem uma limitação, afinal, precisamos continuar vivos.

Essa também é uma espécie de técnica terapêutica defendida por alguns que tem o objetivo de viver o sentimento intensamente por um tempo curto com esse fim; de esgotá-lo o mais rapidamente possível. Do jeito como somos, preferimos sofrer longamente, pois isso nos dá, inconscientemente, essa sensação de justificá-lo.

O âmbito do sofrimento normalmente está abaixo da nossa racionalidade, justamente porque, na maioria das vezes, seu simples entendimento poderia dirimi-lo. Mas como na nossa cultura sofrer é algo que entendemos que nos purifica ou nos faz evoluir a via longa parece ser a escolhida.

Vamos analisar algo extremo: a perda (morte) de uma pessoa muito querida.

É inevitável e muito normal sentir uma dor profunda. Mesmo os adeptos do reencarnacionismo não estão isentos a ela, afinal, essa pessoa sairá de nossa convivência e não a veremos mais, nem teremos a possibilidade de estar com ela pelo restante de nossa vida.

Aqui, entra o ditado popular: “ A dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional”.

Mas como colocar isso em prática? É muito difícil e precisamos entender o porquê.

Em primeiro lugar, o que acontece é que aprendemos que uma forma de demonstrar amor é pelo sofrimento. Esse conceito é levado muito a sério nos relacionamentos afetivos, por exemplo, onde tendemos a avaliar o quanto gostamos de alguém pelo sofrimento que essa pessoa é capaz de nos trazer. É como fossemos cobrados em sofrer para demonstrar o quanto gostamos da pessoa que partiu.

Sejamos racionais: A morte é definitiva para o corpo e, seja por uma doença, acidente ou qualquer outro motivo, não tem como voltar atrás. O sofrimento muitas vezes vem de procurarmos respostas para perguntas como:

Por que aconteceu com ele(a)?

Não merecia, pois era uma ótima pessoa.

Por que agora e dessa forma?

Por que alguém merece passar por isso?

Essas perguntas nunca serão respondidas, já que para isso a vida precisaria ter uma lógica, um sentido que não tem. Em artigos anteriores já discutimos esse assunto. Dessa forma, ficamos procurando um sentido onde não há e isso mantém o sofrimento por longo tempo, até que a pessoa chegue à conclusão que não terá essas respostas e vai recolocando sua vida nos trilhos. Essa forma, digamos, natural, demora muito. No caso de uma morte, por exemplo, é aceito que a pessoa enlutada tenha prejuízo na sua vida por até um ano depois da perda. Somente após desse período é que se considera a necessidade de procurar alguma espécie de tratamento.

O que podemos questionar é se precisa esperar tanto tempo, se esse sofrimento não poderia ser dirimido pela simples aceitação da infalibilidade da morte. Muitos procuram em si alguma responsabilidade, se poderiam ou deixaram de fazer alguma coisa que evitaria o ocorrido.

Nesse caso, já entramos em mais um aspecto, onde o sofrimento se encontra com a culpa. Sentir-se culpado ou ficar remoendo pensamentos de que algo poderia ter sido feito, nada mais é do que encontrar finalmente uma resposta para entender essa perda: Eu fui culpado, pois poderia ter percebido ou feito isso ou aquilo.

Se, por um lado a pessoa simplifica a situação ao se culpar, por outro essa solução traz o outro problema. Já que a culpa existe, é porque algo errado foi feito e isso exige uma punição. Para isso, não precisa de nenhum juiz ou tribunal; nós mesmos nos impomos algum tipo de pena. Mais tempo passa onde essa punição é cumprida para expiarmos nosso “erro”.

Quando não é uma morte, necessariamente, mas uma perda material onde precisaremos retroceder socialmente ou abrindo mão de algum conforto, sempre vem junto um abatimento do ego que, tem sua autoimagem afetada. Quantos já foram ao limite do suicídio por terem ficado repentinamente pobres e não suportaram lidar com essa nova realidade?

Em outros casos, algum segredo vem à tona e essa descoberta afeta a imagem que a pessoa luta por defender. Daí, acontece de pensar que a morte a eximirá de passar pela responsabilização do seu ato e da mudança que provocará em seu círculo de amizades com a perda do reconhecimento que viria.

Seja qual for o caso, e poderia citar outros tantos, a simples racionalização pura e simples já teria, em tese, a força de tornar o sofrimento sem sentido ou diminuí-lo. Seja para prestar contas à sociedade do nosso amor, seja para defender uma posição ou conceito que temos de nós mesmos, as perdas em geral nos remetem a um longo período de abatimento que pode nos levar a abandonarmos caminhos ou fazermos escolhas que mudarão nosso futuro.

É claro que a dor, seja pela perda que for, até mesmo de um emprego que gostamos e que jamais imaginaríamos que fossemos nos afastar, causa um baque inicial que devemos aceitar. Mas compreender e usar a racionalização poderá ajudar a diminuir o tempo do sofrimento.

Quem sofre pouco, pode parecer aos olhos comuns como alguém insensível, que não se importa ou que não gostava tanto assim da pessoa falecida, que não dava importância ao relacionamento, etc.

Será?

Pode ser simplesmente que essa pessoa tenha optado por não sofrer, desistiu de ficar procurando respostas lógicas para perguntas que nasceram para não serem respondidas.

Seja a perda que for, não tem como não doer, e isso é normal, faz parte e como diz  Eckhart Tolle pode ajudar a transcender, ou seja,  ir além do sofrimento.  Só que isso só será possível se simplesmente aceitarmos que, por exemplo, nada nunca está sólido, seguro ou garantido em qualquer aspecto da vida.

Isso, por um lado pode gerar angústia, por outro é justamente o oposto; se é assim, que seja;  já que sofrer não vai tornar nada mais seguro ou evitar que o inesperado aconteça.

O animal que somos necessita se sentir seguro, por isso lidamos mal com as mudanças, principalmente as inesperadas ou incompreensíveis, como sabemos. Mas entender o sofrimento e ir além nunca foi coisa de bicho.

Temos um cérebro emocional e é dele que vem tudo isso. Mas nunca é demais lembrar que desenvolvemos uma nova parte, chamada Néo Cortex, que nos permite entender, racionalizar e colocar uma compreensão mais profunda.

Só que esse novo cérebro precisa de consciência para ser utilizado e precisaremos ir além do nosso emocional, muito automático, reativo e programado desde o dia do nosso nascimento.

No final, aceitação é muito mais do que dobrar os joelhos diante do desconhecido, pode ser simplesmente aceitarmos que tem coisas que, simplesmente, não devemos saber.

Destino escolhido

“O colonialismo visível te mutila sem disfarce: te proíbe de dizer, te proíbe de fazer, te proíbe de ser.

 O colonialismo invisível, por sua vez, te convence de que a servidão é um destino, e a impotência a tua natureza: te convence de que não se pode dizer, não se pode fazer, não se pode ser”.

                                                   Eduardo Galeano – O livro dos abraços

                                                                                                                                                                              homem robo

Lutar contra o colonialismo visível é fácil, ele é escrachado e reprime com a força das armas, na maioria das vezes. Já vivemos isso aqui no Brasil e os com mais de 50 perceberam e os mais velhos sentiram na pele. A ordem é  concordar e discordar é ser do contra, não amar, e não querer o bem. Criticar nem pensar e pessoas assim merecem morrer. Recentemente na Coréia do Norte, alguns foram executados por terem sido descobertos vendo novela, coisa que o ditador de plantão não gosta e não acha que seja bom, já que “aliena” as pessoas.

Sempre temos grandes inteligências, doentes é claro, que dizem saber o que é bom para todas as pessoas. São eles que, ao longo dos tempos foram responsáveis pelo nosso super desenvolvimento tecnológico e um quase inexistente desenvolvimento da consciência. Pessoas que elevam sua percepção atingem uma liberdade impossível de ser tirada por quem quer que seja e morrer para um homem livre é mero detalhe, como nos mostra a biografia de Sócrates e Mansoor. Poderíamos falar de tantos outros que fizeram da sua liberdade de pensar, querer e Ser sua vida, atingindo assim a eternidade possível. Dos outros, dos que aprisionam, as lembranças são só as do mal que fizeram e se tornam exemplos do que de pior um ser humano pode fazer com sua inteligência e sensibilidade às avessas.

Mas o colonialismo moderno, fora essas bizarras exceções é mais sutil e, portanto, eficiente. Ele vem pela cultura, pela mídia e pelos olhares de reprovação dos condicionados que não suportam ver o livre ou aspirante à liberdade. Existe uma força terrível que nos impulsiona para voltar ao cativeiro da inconsciência, criticando e fazendo “do que os outros vão pensar” uma chantagem tão grave como se faz com as crianças, quando dizemos que se elas não fizerem o que é “certo” nos farão chorar ou entristecer.

Basta um mínimo de percepção para sentir-se um peixe fora d’agua em meio ao pensamento comum, das metas iguais e das avaliações rasas sobre quem é bom, certo ou referência. Vivemos uma época da vitimização, seja do governo, do destino ou de deus e isso é tão fácil de entender; as pessoas cumprem seu script cultural e esperam, é claro, os resultados. Essa recompensa é sentir-se bem, respeitado e admirado pelos outros, nem que seja por ter um corpo perfeito à custa de privações e mutilações ou alguns bens de consumo, cada vez mais perecíveis pela moda, que são a prova de uma vida de sucesso.

Essa cultura sempre leva aos extremos, onde o sofrimento é inevitável. Negar parte de qualquer coisa é percebê-la pela metade e com a vida esse conceito é mais válido ainda. O “caminho” é do meio, composto por tudo sem nada excluir.

Talvez esses bilhões de dólares investidos por homens e mulheres para manterem sua juventude, criando seres caricatos, pois nada é mais estranho do que uma pessoa de 40  parecendo-se como uma de 20, pode ser uma metáfora de se ganhar mais algum tempo para que a vida faça sentido.

O colonialismo invisível tem feito vítimas em progressão geométrica e a verdadeira epidemia de doenças emocionais como a depressão e a ansiedade é a prova mais cabal disso. Assim, comer, beber, drogar-se e consumir vira o anestésico possível para se continuar no dia a dia absurdo e sem conteúdo. Somos convidados, pelo pensamento dominante, a buscarmos uma resposta externa à evolução interna e é por isso que a angústia coletiva aumenta como a temperatura de uma chaleira no fogo. A ebulição que estamos vivendo está nas estatísticas de cada vez mais casos de doenças originadas desses “escapes” citados acima.

Ninguém se importa, afinal o importante é gerar riqueza, comprar e buscar ser visto como alguém bem-sucedido. Na contra mão dessa maneira de pensar(?), as pessoas percebendo que os remédios, as roupas, músculos, carros, eletrônicos e viagens apenas as anestesiam, começam a buscar alternativas. O problema é que essa busca não é movida pelo amadurecimento de sua percepção, mas pelo aumento do sofrimento e angústia mental que nada faz parar. E quando isso acontece é o de sempre: uma pequena melhora para poder voltar a ser o que era, como se o problema fosse a pessoa e não o contexto onde ela está inserida.

Era melhor que tivéssemos tanques na rua ou uma vigilância nos moldes de Orwell no ótimo “1984”. Nesses momentos, pelo menos aqui no Brasil, tivemos Chico Buarque, Caetano Veloso  e Elis Regina (para citar poucos) a cantar os poemas que nos convidavam a reagir contra a prisão de pensar e ser. O modo “invisível” é tão mais eficiente, pois se traveste de liberdade e o que temos para ouvir na grande massa é o tipo de arte sexualizada que nos retrocede à adolescência e aos prazeres menos sofisticados ou inteligentes.

Ouça, por exemplo, as “dez mais” da parada de sucessos e analise as letras para entender o nível onde estamos. Ir para frente não é automático. Natural e sem esforço é retroceder.

A alienação hoje é muito mais grave, já que é o resultado do que somos, por regressão, diferente do que é claramente imposto goela abaixo.

No final, é como sempre; precisamos chegar ao fundo do poço para percebermos que isso não funciona. Mas como se sabe, as massas têm na ignorância sua natureza e são apenas individualidades, lá e cá, que se elevam acima do comum. Mas assim que isso acontece, vem o medo da solidão e a força que traz para baixo, questionando se a pessoa está sã por pensar diferente.

A revolução que se pede hoje contra a ditadura do status quo, não pede armas ou guerrilhas, mas uma atitude nova de resistência lúcida e manter-se firme contra a correnteza.

Pense e se repense. Avalie para onde o caminho que está sendo trilhado pode levar e qual o final que cada um de nós está escrevendo para sua história.

Não há como alegar a ignorância da lei. Evolutivamente pagamos pelo que fizemos e não fizemos.

Nada está escrito, mas sendo escrito.

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Voltamos em Janeiro. Um ótimo período de descanso e aproveite para ler os textos e comentá-los à vontade, bem como as crônicas que escrevo na Folha SC.

Palestra sobre ANSIEDADE

Aqui, em vídeo, a palestra sobre Ansiedade que ministrei dia 1 de agosto em Blumenau encerrando a semana de jornada espiritual da FLV. A vantagem com a edição é a presença dos slides que normalmente não aparecem nas gravações. Parabéns ao Nassau pelo trabalho! A palestra dura 100 minutos. É que o assunto assim exige. Pode ser vista com pipoca ou não…

 

Imagem de Amostra do You Tube

A Educação essencial

“A faculdade de redirecionar reiteradamente e por vontade própria uma atenção dispersiva é a verdadeira raiz do discernimento, do caráter e da vontade. Ninguém é senhor de si se não a possuir. Uma educação que tivesse de aperfeiçoar essa faculdade seria a educação por excelência.”

                                 Willian James – Principles of psychology 

                                                                                                                                      planta

Sempre que estou falando, seja em uma aula ou palestra sobre a questão do sofrimento, é comum as pessoas me olharem com certa incredulidade quando lhes digo que, se aumentarem seu tempo de atenção ao presente em dez minutos por dia suas vidas mudarão em alguns meses.

Mas isso não é difícil de entender enquanto conceito teórico, o complicado é acreditar que algo tão simples (mas difícil de executar) possa fazer tanta diferença. Por isso é importante entendermos que, ao nascermos, está impressa uma individualidade que poderemos chamar de “eu”. Esse “eu” é tão único quanto o DNA e inclui talentos naturais, tendências comportamentais etc.

Com o tempo e a educação que recebemos vamos formando sobre esse “eu” uma crosta, que tem a finalidade de nos adaptarmos ao meio e sermos queridos e reconhecidos como bons. Além disso, e, principalmente, nos garante que seremos amados por pessoas importantes para nós, afinal somos o que elas esperam. A essa crosta, damos o nome de “ego”.

Como o ego é então formado por repetição, punição e outros artifícios, com o tempo vamos pensando que somos esse ego e normalmente nem lembramos, até porque isso não é interessante para quem condiciona, que temos um “outro” jeito de ser que nem chegou, coitado, a desabrochar.

Então a vida vai sendo vivida, se é possível que o falso realmente viva, e em determinado momento de crise pessoal ou época, quando nos damos conta que alguma coisa precisa estar errada, entramos em processo de mudança. Linhas mais antigas de psicologia irão procurar na sua infância essas causas, normalmente na boa ou má relação com os pais e outras circunstâncias. Pessoalmente acredito que o problema esteja mesmo lá na sua origem, mas não do modo que é normalmente tratado.

Simplesmente acredito que o verdadeiro problema é que esse “eu” verdadeiro clama por poder viver e se expressar. Se estiver certo, penso que perdemos tempo demais na infância, ou caso não seja suficiente, até em vidas passadas. Tudo para encontrarmos uma explicação para a infelicidade e frustração. Só que isso só fortalece a ideia de que o ego é o verdadeiro centro desse ser. Não dará certo porque não há como tornar um boneco de cera uma pessoa, mesmo que seja muito parecido.

Nada expressa melhor o ego que a mente. Essa loucura de estar o tempo todo pensando, seja no passado ou no futuro, nada mais é do que uma nova versão das preocupações de quem nos condicionou adaptada ao tempo e a tecnologia.

Assim, sair da mente e para isso basta apenas essa conexão com o agora, naturalmente fará com que o verdadeiro “eu” possa emergir. Com ele virá a nossa verdade pessoal e o que acompanho com alguns clientes no consultório são novas formas de ver a vida, gostos, pensamentos inéditos sobre temas antigos e o desejo de seguir caminhos nunca antes imaginados.

Confio bastante na teoria que diz que os sintomas e, consequentemente, doenças sejam um clamor desse verdadeiro centro para se manifestar. Mas como sofrer faz parte do nosso programa como algo bom (incrível), precisamos de bastante sofrimento para correr o risco da mudança. O mais maluco de tudo isso é que se demora muito tempo para isso, já que só um grande martírio que nos dá a justificativa para a mudança.

Então, se conseguirmos sair da mente – e só se conectando ao presente isso é possível – vai criando as condições para esse desabrochar de nossa existência. Infelizmente, a maioria das pessoas morre sem sequer terem nascido.

A grande dificuldade desse, digamos, despertar, é justamente ser um processo extremamente evolutivo, o que determina a necessidade de uma grande vontade e coragem. Só que isso não é possível sem conhecimento ou autoconhecimento.

A medida em que vamos ampliando o tempo que nos abstemos de pensar o que nos mandaram e isso é automático (mente), vamos pensando o que realmente é nosso jeito e posso garantir que é uma grande descoberta.

Para mim é isso que podemos chamar de RESSUSCITAR!

Sem entendermos que a mente é um processo subjetivo e que não é nossa última instância, não nos daremos conta da existência da consciência, essa sim, nossa verdade mais essencial. É justamente a consciência que discute com a mente quando estamos pensando ou falando sozinhos.

Quando por exemplo, você sente uma necessidade de mudança e claramente sabe como isso fará com que se sinta melhor, a mente vem e diz um sonoro “não”. Essa negativa vem dos condicionamentos que estão impressos pela educação. Dá até para perceber quem colocou na sua cabeça a frase: Não se troca o certo pelo duvidoso….

Eu digo: Sempre se troca a infelicidade certa pela possibilidade da felicidade!

Aceite bem sua agonia, a angústia que aperta seu peito. É uma maneira de seu verdadeiro “eu”, centro do seu ser, que lhe clama por deixa-lo viver. Claro que as mudanças sempre geram algumas perdas e arranhões, mas afinal não se cresce impunemente.

Só não caia na asneira de pensar que sua evolução virá sem que nenhuma atitude seja tomada. A época dos milagres já terminou e quem os fez nem teve um bom final.

Quando explico o funcionamento da mente, meus alunos perguntam por que isso não é ensinado nas escolas, onde uma criança de doze anos poderia entender perfeitamente como tudo funciona. A resposta é simples:

Quem atinge seu verdadeiro EU é uma pessoa livre, não manipulável, e isso obviamente não interessa. O que seria, por exemplo, da moda, dos carros, eletrônicos, etc. Até mesmo a indústria da saúde tenderia a falência, já que pessoas de bem consigo e a vida tem poucas chances de adoecer.

O que aprendemos na escola nos prepara para termos onde trabalhar e isso não é educar, é formar mão de obra.

Se educar é ajudar a transbordar a essência como diz Osho, concordo com Willian James; para ensinar a viver não precisa mais do que isso mesmo.

A foto que ilustra esse post foi tirada na minha casa. Ao ver essa planta lutar pela vida no meio do concreto, pensei em escrever o presente texto. Que ela nos inspire.

O Sétimo dia

      “ E Deus descansa e abençoa o sétimo dia…”

                                              Gênesis

“Tudo está fechado

Tudo está fechado

Domingo é sempre assim

E quem não está acostumado?

É dia de descanso

Nem precisava tanto

É dia de descanso

Programa Sílvio santos

E antes que eu confunda todo mundo

Antes que eu confunda o domingo

O domingo com a segunda

Domingo eu quero ver o domingo passar

Domingo eu quero ver o domingo acabar

Domingo eu quero ver o domingo passar

Domingo eu quero ver o domingo acabar

Até o próximo, até o próximo, até o próximo domingo

Até o próximo, até o próximo, até o próximo domingo”

Titãs – Domingo

triste

De todos os dias da semana, existe um que talvez seja aquele que, se nele acordássemos de um estado de coma de muitos anos, saberíamos identificar sem muitas dificuldades. O domingo se caracteriza por manter suas trilhas sonoras, cheiros e jeitos de se acordar, almoçar, jantar e rotinas até de pensamentos, imagino, desde tempos imemoriais, tamanha a dificuldade de nos libertarmos dessa verdadeira condenação.

Se Deus realmente criou o mundo e começou na segunda-feira, teria muita curiosidade de saber como ele se sentiu na tarde de seu dia de descanso.

Existe uma certa aura facilmente reconhecível e até já se fala de um termo que se não fosse sério, poderia ser uma maneira de expressá-lo chamado “depressão de domingo”. Parece que esse estado de tristeza e ansiedade tem até uma hora para começar, lá pelas 17 horas, quando o dia se encaminha para o entardecer e a sombra da segunda feira começa a atormentar com o pensamento do início de mais uma semana de trabalho, compromissos, e tudo que envolve essa maneira de encarar a vida como se fosse uma batalha feita de sacrifícios.

De alguma forma, poderemos comparar com o que acontece com muitas pessoas nos feriados de final de ano (se ainda não leu, sugiro a leitura do artigo “Depressão de natal”), claro que de forma mais reduzida, mas com grande semelhança no conteúdo emocional.

Mesmo para aqueles que fazem de seu dia de descanso algo prazeroso, o início da noite traz consigo uma melancolia que se pode quase respirar. A televisão mantém programas há décadas, com alguns personagens que parecem imortais, mantidos por uma audiência hipnotizada que entra em transe nos mesmos horários sempre que tocam as músicas de abertura, que, apesar de alguma variação nos arranjos, vez por outra, nos chamam para os pensamentos de sempre e soam como se fossem alarmes que nos despertam para uma sensação de cansaço do que só começará amanhã.

As crianças vão aprendendo com seus pais a se sentirem tristes e ansiosas quando os veem se preparando desde cedo para esse dia que parece tão importante que decreta o início da semana, sem entender o que acontece de tão especial. Tenho a impressão que nesses horários nos lembramos dos sonhos que não se realizaram, dos amores que se perderam e da vida que se escoa cada vez mais rapidamente. Metaforicamente ou não dormimos na segunda feira pela manhã, acordamos no sábado e tudo está passando tão depressa porque percebemos apenas dois dias dos sete de cada semana.

O domingo torna a segunda feira tão pesada que não deve ser mesmo fácil começar nesse dia aquele regime há tanto adiado, os exercícios físicos ou um novo enfoque nos estudos ou trabalho. Isso pode explicar as estatísticas que mostram a manhã de segunda feira com a maior incidência de infartos e suicídios.

E se mudássemos o nome dos dias, trocar o nome pode dar um novo sentido, por que não? Hoje a quinta feira, por exemplo, ganhou o status do dia preferido da semana, afinal trabalhar na sexta feira fica mais leve sabendo-se que depois vêm os dois dias de descanso para a maioria das pessoas. Na quinta, as pessoas saem à noite e se preparam pouco para sexta, afinal chegam tarde em casa da diversão. Só que isso não incomoda tanto quanto dormir tarde no domingo. Ali precisamos ver os melodramas dos programas do final de tarde e da noite, mas é claro que quando nosso time vence isso traz um certo consolo, mas quando perde…

Mergulhamos nas rotinas para não pensarmos em tudo que nos angustia, para fugirmos das dúvidas do futuro, afinal nossas desculpas para tudo que abandonamos, seja por medo ou falta de persistência, já não nos convencem mais.  As horas que antecedem mais uma semana, nos confrontam com uma espécie de realidade cinza e da nossa falibilidade. No domingo, a morte é uma certeza e se isso acontecer rapidamente deixaremos para trás muito do que daria sentido a vida que sonhávamos na época que éramos imortais.

Se você, caro leitor, é vítima dessa depressão de domingo, sugiro que tome medidas urgentes para mudar essa situação. Esperar que a televisão, por exemplo, tire esses programas do ar para que algo mude, pode esquecer!  Comece por agendar para esse dia atividades agradáveis, principalmente para à tardinha e a noite. Que diferença faz se amanhã é segunda feira ou sexta? Se tiver que trabalhar igual no outro dia, quebre esse paradigma e corte mais isso da sua lista de sofrimentos. Alguns podem argumentar que o fato de estarem sós agrava o problema. Afirmo que não, já que posso dizer que é um condicionamento coletivo que atinge os solitários e os acompanhados, afinal temos os momentos que não podemos fugir de nós mesmos e o domingo para isso chega ser perfeito.

Porque não um bom cinema no domingo à noite? Aquela pizza com os amigos, ou mesmo a caminhada que se faz durante a semana a noite, pode transformar o limão em limonada. Só de saber que terá algo que goste para fazer no final do dia, isso já trará certa leveza para o dia todo.

Vá almoçar na casa da sua sogra no sábado, pelo menos vez por outra, e quebre essa rotina que mais parece um encantamento da bruxa má. Lembre que  atitudes novas, resultados novos!

Conta a lenda que  Jesus ressuscitou em um domingo, faça isso com você também!