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O ERRO

“Muitos de nós levam a vida presumindo que estão basicamente certos o tempo todo, sobre basicamente tudo…”

                                                     Kathryn Schulz

                                                                                                                                                        crenças

Lidamos mal com o erro, e penso que isso ocorra por não sabermos avaliar sua importância. Só o erro nos ensina e deveríamos ser mais gratos a ele. São justamente eles que nos mostram a melhor maneira de acertarmos e de entendermos o que está a nossa volta.

Mas é interessante o fato de pensarmos que, ao levarmos nossa vida cotidiana de forma natural, isso nos leva a pensar que estamos certos sobre quase todas as coisas. Partimos de pressupostos sobre quase todos os aspectos da vida, e são esses pressupostas que também chamamos de preconceitos, ou seja, temos conceitos que entendemos corretos e, a partir deles, tomamos nossas decisões.

Imagine, por exemplo, que você esteja fazendo uma viagem e não conheça o lugar onde esteja. Precisará pedir uma informação para chegar onde quer. Se muitas pessoas estiverem passando a sua volta, sua escolha sobre a quem pedirá a informação será totalmente baseada em preconceitos. Seja pelo tipo físico, roupa ou algum outro fator que será analisado em fração de segundo, sua escolha recairá sobre aquela pessoa que você pré conceba que poderá lhe dar a orientação correta.

O preconceito, portanto, é extremamente útil, mas ele é baseado em ideias que, na maioria das vezes, nem questionamos se são corretas para nós. Assim, nos dizemos contra os preconceitos raciais, por exemplo, mas vez por outra um ato ou outro pode deixar claro que isso ainda não está bem resolvido em nós. Isso porque os preconceitos agem inconscientemente em nós, o que quer dizer que são quase um movimento automático no nosso cérebro.

Mas, quando nos descobrimos errados, nos sentimos muito mal, e só nos “entregamos” quando não temos mais mesmo nenhuma saída. Até o último momento, lutamos pelo que acreditamos certo, dando justificativas que nos isentem de nos sentirmos mal por estarmos errados. Ao fim, antes de capitular, podemos dizer: tudo bem, estou errado, mas….

Para Kathryn Schulz, “em nossa imaginação coletiva, o erro não está associado apenas à vergonha e estupidez, mas também a ignorância, indolência, psicopatologia e degeneração moral. Longe de ser um sinal de inferioridade intelectual, a capacidade de errar é crucial para a cognição humana. Longe de ser um defeito moral, ele é indissociável de algumas de nossas qualidades mais humanas e honradas: empatia, otimismo, imaginação, convicção e coragem”.

Associamos nossa auto imagem a conceitos que acreditamos corretos e mudá-los não é mesmo fácil. Mas se o erro tem uma vantagem que devemos valorizar sempre é justamente permitir que nos atualizemos e possamos corrigir nossas ideias a respeito de tudo. Seria algum absurdo pensarmos que será sempre o erro que nos definirá mais verdadeiramente? Melhor que Descartes com seu “penso logo existo”, Santo Agostinho se saiu bem melhor com “fallor ergo sum”, ou seja: erro, logo existo!

O erro é sempre uma experiência própria, enquanto o preconceito será sempre uma experiência não adquirida por vivência, mas, normalmente, aprendida pela cultura ou educação que recebemos.

Poderemos passar pela ciência que é a que mais erra, sendo, portanto, a que mais busca o acerto. Seja em que ramo for, desde a terra ser o centro do universo às inúmeras vezes que o café fez mal e depois fez bem, quase todas as “verdades” científicas caíram por terra ao longo do tempo. Mas isso não tira o mérito da ciência, mas a eleva, na medida em que busca o acerto vendo que errou. Claro que isso não é tão simples, afinal, cientistas são pessoas e demoram a aceitar seus erros, que eram verdades para eles quando chegaram a suas descobertas.

Tendemos a associar todas as nossas crenças ao que entendemos moralmente certo, e por isso sempre será um ótimo exercício revermos nossos conceitos do que é certo. Isso é melhor do que somente reagirmos a situações e termos que nos desculpar depois, principalmente quando percebemos que erramos de forma nítida.  Mas pelo conceito estar arraigado em nosso inconsciente só percebemos depois.

Justamente por isso, o fato de errarmos é de grande importância; justamente por ser uma experiência. Como nos ensinou Sidarta Gautama, um dos Budas, a verdade só pode ser comprovada por termos vivido a experiência. De mais a mais, como seres tidos como imperfeitos podem acertar sempre?

Deveríamos aceitar melhor os nossos e os erros dos outros. Como psicoterapeuta, costumo dizer a meus clientes que o erro só é mesmo um problema quando não aprendemos nada com ele, e o pior, ainda repetiu e continuou a sofrer.

Podemos poeticamente dizer que quando estamos errados é como se tivéssemos uma verdade momentânea, que perdeu validade. Da mesma forma, como a evolução do homem tem mostrado em todos os campos, as verdades também são efêmeras.

De certa forma, todos estamos certos, pelo menos enquanto não somos “desmascarados” pela vida ou situações, e isso é uma boa maneira de pensar em como lidar com as pessoas que pensam diferente de nós. Tanto nós como o outro poderão a qualquer momento se perceber como errado, então por que se preocupar e pior; tentar impor aos outros nossas verdades transitórias?

Podemos ter a consciência socrática de que nada sabemos, e isso torna muito mais fácil  lidar com nossas crenças e com as dos demais. Para que discutir? Sendo o erro uma experiência individual, vai ser mesmo difícil convencer os demais do que achamos certo, não concorda? Lembre sempre que, para alguém tomar sua ideia como certa, ele terá que aceitar que a dele é errada e isso não é um exercício fácil, como já citei anteriormente.

A dúvida sobre tudo ou a certeza de nada saber, é um tipo de exercício extremamente evolutivo, afinal, para estar em dúvida e aberto a rever meus conceitos, preciso estar bem consciente e não estar muito preocupado em defender meu ego.

Nossos sentidos, que são nossa leitura de grande parte da realidade, nos enganam a todo o momento e isso é fácil de perceber. Mesmo nossa memória (ver artigo anterior sobre o assunto), já está mais do que provado que nos engana sempre, criando nossas lembranças, nos coloca diante do fato de errarmos como algo inerente a estarmos vivos.

Dizemos que gostamos e depois desgostamos, prometemos que nunca faremos algo e logo depois estamos com vontade de experimentar. Prometemos coisas que não conseguimos cumprir mesmo que na hora da promessa estejamos certos do que dizemos e assim por diante.

Aliás, penso que promessas e juramentos nada mais são que tentativas de permanecermos achando certo o que já descobriremos errado um dia, tornando o transitório definitivo.

Assim, sempre que ficamos surpresos ou espantados com algo é porque nossas expectativas e preconceitos estavam errados. Não é?

 

O presente texto teve como inspiração a leitura do livro:

Por que erramos? – Kathryn Schulz  ed. Larousse

Mentalidade doentia

“Mentes brilhantes provocam ações que causam sofrimento e dor. É preciso, também, educar os corações”.

                                               Dalai Lama, 1999

O ser humano ao longo da história tem sido educado (condicionado) pelo  paradigma da escassez. Quem de nós não ouviu o que nossos antepassados sempre disseram para seus filhos, que depois disseram para nós:

 hipocrisia

“Dinheiro não nasce em árvores!”

“Não acho dinheiro na rua”

“A vida não é fácil”

E tantas outras frases que impregnam nossa maneira de ver o mundo de forma limitante. Esse conceito de miséria traz sérias consequências, afinal, se manifesta na forma como vivemos, nos relacionamos, administramos o tempo e até mesmo como tratamos o planeta. Nossa exterioridade é reflexo do que pensamos.

Já que, dentro dessa mentalidade,  tudo é escasso, significa que vai faltar, então preciso cuidar primeiro de mim. Logo, pela mesma escassez, preciso competir, com isso, criam-se padrões de divisões sociais onde há vencedores e perdedores, ou seja, a exclusão. Também, se vai faltar, preciso acumular e isso leva ao consumo exacerbado, o que significa que vai sobrar para mim e faltar para o outro. Parece básico, mas na verdade o que está por trás da ambição é o medo da escassez.

Esse círculo vicioso da miséria tem como resultado o processo de violência instaurado hoje, não só entre países, mas também na porta de nossas casas. Com isso sempre desconfiamos das pessoas e precisamos de muita atenção para não sermos “passados para trás”, ou seja, alguém quer tirar vantagem e sairei perdendo. Será?

Pode ser conveniente lembrar a oração mais famosa do cristianismo que nos convida a pedir apenas o “pão que nos dai hoje”, sem a necessidade exagerada de ter tanto pão que nem conseguirei comer. Quero deixar claro que não sou contra qualquer tipo de poupança ou investimento, mas falo aqui de uma questão conceitual de como vive e pensa  a sociedade.

Precisamos mudar o paradigma da escassez que gera medo e sofrimento. Isso significa que preciso parar de pensar de forma pobre e medrosa. Se assim fosse, em muitas  áreas de atuação não poderiam formar novos profissionais, já que o mercado estaria esgotado. O que vemos é que quem é bom no que faz e tem talento sempre consegue um bom lugar ao sol e prospera. Portanto a escassez não existe!

Constam nos livros bíblicos, que Moisés levou quarenta anos para levar seu povo que era escravo no Egito para a terra prometida. Ocorre que se observamos em um mapa, temos um trecho de poucos quilômetros que poderiam ser percorridos em alguns dias apenas. Isso é a representação simbólica da mudança de mentalidade. Afinal, o povo que ele levava à terra prometida era composto de pessoas acostumadas à escravidão, ao sofrimento e escassez. Por isso esse tempo de quarenta anos (uma metáfora, já que o número quatro está ligado a uma mudança de ciclo), significou que nenhum dos que saiu do Egito chegou à terra prometida. Essa era a condição para ser entendido quando disse: “O Manah vem dos céus e não haverá escassez”. Precisava ser outra geração para sua mensagem poder ser não só absorvida, mas vivenciada. Já que os filhos dos escravos não tinham vivido a escravidão, não estava neles essa ideia de que sofrer e passar dificuldades fosse normal.

Em outro momento bíblico, quando Jesus fez a “multiplicação dos pães”, foi uma lição de divisão e solidariedade. Quando ele disse que haveria o suficiente para todos, que não se preocupassem, cada um pegou apenas o que necessitava, sem ganância nem egoísmo e a quantidade existente foi satisfatória.  Dessa forma, o verdadeiro milagre não foi “multiplicar” o alimento, foi a mudança de paradigma, da escassez para a abundância, ou se preferirem, de perder-se o medo de que faltaria alimento. Nunca me canso de repetir que a necessidade de acumulação sempre tem como motivação o medo, mas no fim o medo passa a ser outro: de perder o que se acumulou.

Uma mentalidade mais saudável pode nos levar  a uma sociedade pacífica, muito menos violenta e dividida, mas para isso será necessário mudar como pensamos o que seja, afinal, viver. Isso é possível? A resposta pode ser “sim” se for uma atitude individual, que pelo poder do exemplo pode multiplicar-se, mas será “não”, se esperarmos essa mudança de pensamento venha pelo status quo, afinal isso mudaria o sistema de competição que alimenta todo o mercado de produção e acumulação que experimentamos.

A cultura dominante, devido a essa mentalidade de escassez, se estrutura ao redor da vontade de dominação da natureza (riquezas), dos outros povos e do mercado. Essa é a lógica que criou a cultura do medo e da guerra, modelo antigo, que desenvolve cada mais tecnologia, separando o mundo em dois: os que podem usufruir e os excluídos e que precisam lutar, usando bons e maus métodos para continuar a sobreviver. Enquanto isso, temos armamentos de última geração que podem destruir o mundo centenas de vezes e cada vez mais pessoas vivendo em imensa miséria.

Leonardo Boff nos mostra com clareza essa situação quando diz: “A manutenção desse modelo nos levará em pouco tempo, a uma divisão cada vez mais abissal entre ricos e pobres, a quem tem acesso e não tem.  Surgirá então uma ruptura biológica na espécie humana, uns vivendo mais, com mais saúde física e inteligência e outra parcela, a maioria, vivendo menos, fisicamente debilitada e sem educação. O resultado será a tragédia moral da exclusão aceita, pelo sentimento de dessemelhança, que já conhecemos pelas discriminações raciais, só que agora, muito mais do que antes,  entre ricos e pobres. Os primeiros (ricos), livres para a violência do desprezo de usufruir riquezas e do avanço tecnológico sem solidariedade, e os outros, livres também, mas para se rebelarem sob todas as formas de violência, como já acontece hoje”.

Vemos um planeta que está se esgotando pela ganância e morreremos todos. É simplesmente inacreditável que o homem ainda se veja à parte do planeta, como um ente separado. A Terra (gaia) é um ser vivo e fazemos parte dela. Os rios e mares são o sangue, as florestas os pulmões e nós, seres “humanos” seu cérebro. Como nosso pensamento está doente estamos matando o corpo. As células de câncer querem crescer, mesmo que isso as leve a morte também, por isso são uma doença.

Dos mais de 3.000 anos de história da humanidade que podemos datar, praticamente em todos presenciamos povos em guerra. Se observarmos bem, veremos que todos os países em suas festas nacionais, a grande maioria de seus heróis e monumentos das praças são de heróis de guerra, ou seja, onde comemoramos conquistas territoriais, e, consequentemente, muitas mortes do “inimigo”.  Como bem diz Maurício Andrés Ribeiro: “Nessa cultura, o militar, o materialista o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. É evidente que nesses processos de socialização formal e informal, a cultura da violência não cria condições para uma cultura de paz”. Estamos há milhares de anos em conflito interno, mas é bem mais fácil projetá-lo no “outro” que vive diferente ou que tem um deus que não combina com o meu.

Ainda vivemos uma educação  patriarcal (masculina) que criou instituições assentadas sobre mecanismos de opressão como o Estado, o exército, a guerra e meios de produção vinculados à destruição da natureza. Um dos filósofos mais famosos da história, Francis Bacon em momento de rara infelicidade (ou porque não foi devidamente entendido), disse que deveríamos submeter a natureza ao nosso domínio. Hoje, nos invernos e verões rigorosos, no ar sem qualidade, na escassez de água, para não estender demais, são o pagamentos que todos, enquanto carma coletivo, estamos assumindo pela ignorância de “técnicos e especialistas” que esquecem a mais elementar verdade: não somos mais do que a natureza a ponto de dominá-la, mas parte dela e deveríamos nos esforçar para entende-la.

Pense que essa maneira doentia de viver não se aplica a nenhum lugar longínquo ou a uma profecia, mas já faz parte do dia a dia de todos nós. E o pior, vamos nos acostumando e, como tudo que se repete, vira “normal”.

 Afinal, como já nos ensinou Sua Santidade o Dalai Lama, a educação voltada somente para a mente ao longo da história da humanidade é um sistema que teve como resultado ações que significaram milhões de mortes, misérias, sofrimento, dor e depredação ambiental. Precisamos entender que educar a mente é  importante, mas  educar nossos corações é a única solução.

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Fragmentos de discursos de: Leonardo Boff, Dalai Lama, Maurício Andrés Ribeiro que constam do livro “ A paz como Caminho” tendo Dulce Magalhães como organizadora editado pela Qualitymark, com o patrocínio da Unipaz.

O funcionamento da Máquina (2a parte)

“Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória”.

José Saramago

memórias

Vamos continuar analisando algumas das experiências narradas por Leonard Mlodinow em seu livro “Subliminar”, dando sequência ao artigo anterior. Desta vez, vamos saber como que a ciência entende a “memória”, tendo como base os estudos do psicólogo alemão Hugo Münsterberg que datam do início do século XX.

“Em um dos casos estudados por Münsterberg, depois de uma palestra sobre criminologia em Berlin, um estudante lançou um desafio ao distinto palestrante, o professor Franz von Liszt (primo do compositor Franz Liszt). Outro estudante levantou-se para defender o professor e começou uma discussão. O primeiro estudante puxou uma arma. O outro engalfinhou-se com ele. Depois Von Liszt entrou na contenda. Em meio ao caos a arma disparou. A sala inteira virou um tumulto. Afinal Von Liszt gritou pedindo ordem no recinto, dizendo que era uma encenação e que os estudantes eram atores seguindo um roteiro.” Tudo era parte de um experimento que tinha o objetivo de verificar os poderes de observação e memória da plateia presente ao evento.

Depois a plateia foi dividida em quatro grupos; para um foi pedido que escrevessem de imediato o que tinham visto, para outros dois foi feita uma acareação e o outro grupo escreveu o que presenciou, só que mais tarde. O resultado foi que os testemunhos variavam de 26 a 80%, diferentes do que realmente ocorreu, sendo que foi atribuído aos atores atitudes que não tiveram, palavras nunca ditas e outras coisas que realmente aconteceram nem foram notadas.

A partir desse experimento que ganhou grande notoriedade na época, além de outros que foram feitos a partir desse, Münsterberg desenvolveu uma teoria que vem sendo comprovada pelos experimentos atuais. Ele acreditava que não conseguimos reter na memória todos os estímulos recebidos pelos nossos órgãos sensoriais (já citamos isso no artigo anterior), e que nossos erros de memória tem uma justificativa: nossa mente grava uma pequena parte (o ponto principal do evento) e todo o restante preenche com expectativas, nosso sistema de valores e em nossos conhecimentos prévios. Esse é o jeito de lidarmos com nossa capacidade limitada de armazenar dados.

Assim, hoje os pesquisadores que estudam a memória, dizem que ela  funciona da seguinte maneira: nos lembramos dos aspectos principais descartando os detalhes, depois criamos esses detalhes para voltar a ter a cena completa novamente. Estudos mostram que nossa capacidade de lembrar palavras ditas com precisão é de oito a dez segundos. Então, quando somos pressionados ou queremos lembrar, mesmo que tenhamos certeza(?) terminamos inventando esses detalhes e o pior de tudo: temos convicção que essa parte inventada é real! E, com o passar do tempo, conseguimos reter o significado principal, mas só lembramos com precisão da parte que “inventamos”.

Por isso já lhe dou uma sugestão: não jogue fora suas fotos e, se puder, invista na filmagem de eventos importantes e mesmo assim posso garantir de que depois de alguns dias, duas pessoas que estavam no mesmo lugar terão relatos diferentes desse acontecimento.

Mais adiante, outro estudioso chamado Frederic Bartlett se dedicou a estudar como o passar do tempo e as interações sociais entre as pessoas com diferentes recordações de eventos mudam a memória desses eventos. “Em uma de suas experiências leu uma história e pediu que os participantes lembrassem dela quinze minutos depois, e mais outras vezes em intervalos regulares, até após um período de semanas ou meses. Baseado na maneira como os sujeitos recontavam a história com o passar do tempo, pode constatar uma importante tendência na evolução da memória: não havia só memórias perdidas, havia também memórias acrescentadas. Ou seja, à medida que a leitura original da história esmaecia no passado (dias, semana ou meses), novos dados de memória eram produzidos, e essa produção seguia certos princípios gerais”. Assim como na experiência de Münsterberg, os sujeitos mantinham a ideia central, mas descartavam detalhes e acresciam outros, deixando a história mais curta e mais simples, dando um toque bem pessoal. Depois de anos de pesquisa Bartlett escreveu: “O processo de encaixar memórias é um processo ativo, depende do conhecimento prévio do sujeito e suas convicções a respeito do mundo…”. Quero só lembrar que as memórias que criamos, portanto falsas, não diferem em nada das baseadas na realidade.

Todos esses estudos podem nos ser muito úteis, afinal nossa memória é fator fundamental em muitas de nossas decisões, avaliações, relacionamentos, etc. Poderíamos buscar aprofundar esse estudo pensando da seguinte maneira; uma parte tem a ver de como nosso cérebro trabalha e isso esses estudos e tantos outros comprovam, mas, além disso, nós estamos sempre mudando, nos tornando pessoas novas por tudo que vamos vivendo e aprendendo. O que quero dizer é: as nossas memórias também mudam por que quem está lembrando-se de determinado evento já é uma “outra” pessoa, que pensa de forma diversa daquela que testemunhou determinada situação. Então, os detalhes que vamos acrescentando com o tempo tem a ver com nossas mudanças. Depois de algum tempo, quando lembramos de alguma coisa, o que é mesmo verdadeiro é uma pequena parte, e olhe lá!

Cada vez mais a ciência vai se encontrando com a sabedoria antiga, dos grandes Mestres que defendiam a ideia de que fora do “agora” tudo é a mais pura ilusão. Normalmente pensávamos que só o futuro poderia ser imaginado, afinal ainda não chegou, mas agora sabemos que também imaginamos o passado por duas vias distintas, a do mecanismo do cérebro e da mudança pessoal. É lícito pensarmos que mantermos conceitos e ideias antigas é quase uma sabotagem, afinal porque será mesmo que pensamos assim? Formamos uma série de conceitos sobre a vida, o que seja certo e errado baseados em experiências passadas (inventadas em grande parte) ou até pior; de outros! Completo absurdo!

Esses estudos mostram que nossa memória começa a distorcer o acontecido minutos depois. É como nossas expectativas e o que entendemos ou julgamos transforma o evento em uma mera interpretação. Quando, certa vez, Dalai Lama definiu o estado nirvânico como sendo “ver o que é real”, ou quando os místicos da consciência defendem que a realidade está acima da dualidade,  só podendo  ser percebida por um 3º olho, que está acima dos olhos físicos, podemos entender o que querem nos dizer.

Como diz o próprio autor, Leonard Mlodinow, “a disparidade entre o que vemos e o que registramos, e, portanto de que nos lembramos – mesmo num período de tempo muito curto -, pode ser drástica”.

No final, somos todos grandes escritores e poetas e nem nos percebemos disso. Toda a nossa história pessoal, como prova a ciência, nada mais é do que um quadro, onde uma pequena parte realmente aconteceu e todo o resto que está em torno, o que dá muitas vezes o sentido do acontecimento, vai sendo construído pela nossa imaginação ao longo do tempo.

 Em muitas técnicas terapêuticas, solicita-se que o cliente faça uma “ressignificação”, dar outro significado a seus eventos traumáticos e muitos dizem que isso é enganar-se. Será? O próprio evento traumático também é uma invenção de certa forma, qual o problema de inventar um novo roteiro, novos ângulos? Fazemos isso de qualquer jeito, só que tendemos a escolher detalhes mais sofridos, afinal como é bom ser vítima do passado! Minhas tragédias, que muitas vezes nem aconteceram do jeito que lembro hoje podem estar servindo como um belo e macio colchão onde acomodo minhas mudanças.

Estive pensando em uma frase para encerrar esse artigo e nenhuma fica tão bem quanto a que encerrou o anterior. Por isso vou usá-la novamente.

 Lembra qual foi?

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As partes em itálico são transcrições do livro. Para quem se interessa por estudos referentes ao comportamento e suas causas recomendo a leitura.

A TERAPIA

“Veio Darwin e nos ligou a um macaco; depois veio Pavlov e nos ligou a um cão; e, depois veio Freud e nos ligou a um falo. E, como os três mosqueteiros eram, na verdade quatro, quero dizer-lhes que, pelo menos um por cento do homem é Deus…”

Oriol Anguera

“Ser normal é a meta dos fracassados.”

Carl. G. Jung

terapia

A psicologia que hoje conhecemos é bastante recente, apesar de o ato terapêutico, enquanto escuta ou psicoterapia, ser tão antigo quanto a existência do homem. Na verdade, a psicologia propriamente dita originou-se da filosofia e eram os filósofos, através de seus questionamentos sobre a verdade, a alma, o universo e tudo que envolve esse mistério que é viver, que primeiro exerceram essa função de psicoterapeutas. Mas, imagino, que desde os tempos mais remotos, quando alguém em angústia se colocava ao lado de outra pessoa, que em silêncio, porque ainda não haviam as palavras, apenas fazia companhia com interesse ou solidariedade, a terapia já existia.

Na medida em que o tempo foi passando, o que hoje entendemos por psicologia, sempre esteve a serviço da cultura dominante em cada época, dando o veredito sobre a sanidade ou a loucura de uma pessoa. Hoje, em sua variação tecnológica, a psiquiatria dispõe de medicamentos cada vez mais poderosos para ajudar a pessoa a manter-se “nos trilhos” ou voltar para eles, sem prejuízo de sua capacidade produtiva, que, no mundo em que vivemos, é o que realmente importa e move todo o sistema de saúde.

O ser humano sempre padeceu de uma enfermidade primária que é a falta de autoconhecimento, já que sem esse saber essencial, as pessoas tornam-se facilmente manipuláveis e perdem sua liberdade. Assim, o que temos visto ao longo do tempo é a psicologia moderna estabelecer limites de normalidade para seres humanos que não tem ideia de quem sejam, ou seja, muito abaixo de suas possibilidades evolutivas. Salvo exceções como os transpessoalistas, Carl Jung e outros que acreditavam que a normalidade é viver a diferença que todos temos, todas as demais formas de psicologia procuram colocar pessoas, que são diferentes entre si, em um “molde” e ajustá-las a ele, sem sequer perceber que isso é a maior violência e insanidade que se possa cometer.

Já escrevi em tantos outros textos, em aulas, palestras e conversas que todas as pessoas que fizeram alguma diferença na história da humanidade eram consideradas loucas em suas épocas. Todos eles pagaram um preço por se recusarem a usar os “óculos” padronizados das massas e decidiram ver a realidade e a interpretarem por sua própria ótica. Apesar de todas as dificuldades, percalços e sofrimento que passaram essas pessoas, elas realmente viveram seu tempo lucidamente, enquanto todos os demais vagaram como zumbis pela sua existência sem nem sequer perceber que estavam realmente vivos.

Por isso que não estranho que em laboratórios de psicologia se façam experimentos com animais. Pavlov nos mostrou como somos condicionáveis com seus cachorros e os símios e ratos ainda são utilizados para que se possa entender como os seres humanos agem. Isso é bem mais do que uma piada de mau gosto. Mas, talvez, você que me lê, possa perguntar:

Mas esses testes realmente funcionam isso está mais do que provado!

Sim, é verdade, mas somente porque uma pessoa completamente inconsciente de si mesma e de seu potencial não difere em nada de um animal irracional, ou seja, que não usa seu potencial humano (superior). Os cachorros, macacos e ratos representam esse ser humano adormecido, condicionável, que vive baseado no medo. Tem dúvida sobre isso? Veja e pesquise sobre a venda de ansiolíticos e antidepressivos em nosso mundo globalizado, moderno e desenvolvido…

A verdadeira psicologia deveria trabalhar sobre o quanto uma pessoa pode se desenvolver e não procurar adaptá-la e acomodá-la a parâmetros de um mundo doente como esse que vivemos. Esse jeito de viver que conhecemos como “normal” é assim: violentam crianças, desrespeitam-se e agridem-se idosos, torna as pessoas compulsivamente consumistas, avalia uma pessoa pelos bens que ela agrega a sua identidade, privatiza a riqueza, globaliza a miséria, sexualiza o pensamento desde a infância e obriga as pessoas a se mutilarem com o intuito de vencer a passagem do tempo e outras tantas, realmente, loucuras.

Portanto cuidado; se você não for assim e não concordar com isso, logo estará se sentindo meio solitário e fora de contexto e precisará de uma “boa” terapia para se engajar novamente e sentir-se acolhido pelos demais.

Trabalhar o potencial de cada um é investir no que torna cada ser humano único. Se fossemos todos iguais, como prega a psicologia da acomodação, todos os DNA’s seriam idênticos. Muitos estudiosos e visionários da verdadeira medicina de almas sempre viram as crises, que hoje chamamos de doenças, como um grito do cachorro, macaco ou do rato que simbolizam essa perda de si mesmo, de querer tornar-se realmente humano! Mas o que se faz? Anestesia-se, acomoda-se, para aceitarmos de bom grado uma vida medíocre, uma angústia suportável pelos bens que compramos e que vão perdendo razão e utilidade cada vez mais rapidamente.

Os sofrimentos psíquicos e, logo adiante corporais, dão-se pelo conflito de quem realmente somos e aquilo que se espera que sejamos. Quando um ser humano coloca em ordem a ecologia do seu Ser, então o equilíbrio ou a cura pode acontecer e isso deveria ser todo o enfoque terapêutico, mas isso só se dá com a vivência de nossa individualidade.

Como nos ensinam os antigos terapeutas do deserto, da época de Jesus, quando nos curamos o universo também se cura. Dessa forma, podemos sim, pensar que a doença do planeta, da sua cultura, é a doença do ser humano, justamente por ela afastá-lo de sua essência.

Vivemos em um mundo que leva a existência muito a sério, tornamo-nos fanáticos pelo que transitório, abandonando nossa verdadeira identidade, aquilo que realmente somos, que nunca nos foi permitido  viver e descobrir, se não estiver dentro do que se considera “normal”.

O ser humano é a mistura da natureza com a aventura, como bem afirma  Jean Yves Leloup. A aventura é a nossa liberdade de interpretar o que nos acontece, dar um sentido novo ao que se passa conosco, à nossa existência, a possibilidade de mudar de vida e de buscar novos desejos e conhecer novas estradas. O terapeuta deveria, porque não, tornar-se um hermeneuta, e sua prática deveria envolver a arte da (re)interpretação, de  ver as situações com outros significados.

Penso que a maior função do terapeuta, talvez não seja a de explicar, mas de estimular a capacidade da pessoa de produzir um novo sentido para aquilo que lhe acontece. A verdadeira psicologia deveria se fundamentar no que cada um tem de mais saudável, mas o que vemos é estruturar-se sobre o aspecto doente e, a partir dai iniciar o que se chama de tratamento.

Nosso limite evolutivo precisa ser parametrizado “por cima”; porque não um Sidarta, Jesus, Sócrates, Mansoor, etc.? Esses até hoje ainda seriam considerados insanos, apesar de milhões se dizerem seus seguidores. Infelizmente o parâmetro do que se espera de uma pessoa é não ser ninguém de especial!

              Há quem diga que um louco perdeu tudo, menos a razão…

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Para saber mais: “Cuidar do Ser” Jean Yves Leloup – ed Vozes

                          Os Mutantes – Pierre Weil – ed Versus

Nem isso, nem aquilo

 

“Tocar o mal acarreta o grave perigo de sucumbir a ele, precisamos, portanto, deixar de sucumbir a qualquer coisa, inclusive ao bem. Um bem ao qual sucumbimos perde seu caráter ético. Qualquer forma de vício é nociva, quer se trate de álcool, narcóticos ou idealismo. Precisamos evitar em pensar o bem e o mal como opostos absolutos. O reconhecimento da realidade do mal, necessariamente torna relativo o bem – e também o mal – convertendo cada um deles na metade de um todo paradoxal.”

Carl G. Jung – O problema do mal no nosso tempo.

“Bem e mal são os preconceitos de Deus; dizia a serpente.”

Nietzsche

bem e mal

A filosofia sempre se debateu sobre essas questões básicas como o conceito de verdade, de moral e do que se considera o “bem”. Todo o julgamento que fizemos se dá, em meu entender, porque nossa mente sempre precisa de definições já que isso a deixa segura por, digamos, entender o que se passa e a de formar uma ideia a respeito seja do que for. Não é difícil de exemplificar: quem já não conheceu uma pessoa e só de vê-la (interpretá-la seria a palavra correta) fez todo um julgamento, simpatizando ou não. Passado algum tempo, convivendo, essa ideia inicial foi totalmente reformulada. A questão seria mais simples se esperássemos um tempo para depois dizer o que achamos dessa pessoa. Mas nossos julgamentos são automáticos e isso não podemos evitar, mas, não levar esse julgamento em consideração, sabendo que o tempo é mas sábio que a mente, isso sim já é uma evolução.

Quando estamos falando do que é o “bem” e o “mal” isso também acontece, só que nesse caso, foi à cultura que nos forneceu as bases desse entendimento automático da mente, e lá estamos nós julgando rapidamente, de novo!

Jung diz que o julgamento moral, pelos motivos acima, está sempre presente e isso também traz consequências psicológicas. De certa forma, ele poderia estar tratando do conceito de carma quando afirma: “Assim como no passado, também no futuro, o erro que cometemos, pensamos ou intencionamos, se vingará de nossa alma.”

Mas qual a certeza que temos que a base desses conceitos que nos foram introjetados por educação ou porque não dizer, por punição, são realmente corretos? Tudo é subjetivo e tem sofrido mudanças, dependendo da época ou necessidade. Isso quer simplesmente dizer que a base do conceito de “bem” e de “mal”, como todos os outros, é incerta e relativa, muito relativa.

Aprendemos que nenhum valor pode ser maior que vida humana, certo? Depende, já que se entrarmos em guerra contra outro país (isso ainda acontece, por mais incrível que pareça), se em uma determinada ação eu vier a tirar a vida de muitos “inimigos” serei condecorado, considerado herói e até terei no futuro uma estátua em alguma praça. Aliás, a maioria das figuras nessas praças são de heróis de guerra, que, dependendo do ponto de vista, poderia chamar de assassinos, ou não?

Todos amam seus animais de estimação, os tratam como pessoas, gastam fortunas com eles, mas daqui a algumas horas de voo, eles fazem parte do cardápio de restaurantes caros. Quando alguém aparece ou é denunciado por maltratar um cachorro, pode até ir preso, mas de outro lado não se importa muito com a rotina dos abatedouros, onde animais com o mesmo cérebro emocional (capacidade de sentir e sofrer) de seu amigo “que só falta falar” são trucidados diariamente, para nosso deleite gastronômico. Em outros lugares, esses mesmos animais são sagrados e arderemos no inferno se os maltratarmos. Diante de tantas incoerências, porque poderemos afirmar que alguma coisa ou ação é realmente boa ou má?

Torna-se necessária muita coragem para exercer a liberdade de evitar aquilo que é considerado “certo” e termos a ação de fazer o que se entende por “errado” se nossa decisão interior (poderemos chamar de ética pessoal) assim o entender. Conforme a filosofia hindu, neti neti (nem isso, nem aquilo). Penso tornar-se necessária uma elevada dose de confiança e autoconhecimento para fazer o mal, quando se sente necessário. A maioria das pessoas sucumbirá aos condicionamentos sociais e a opinião normótica sobre o tema.

Na verdade, quando a ação é consciente ela é sempre certa para quem age, a questão da avaliação moral dessa atitude fica por conta da cultura vigente e dos limites que essa cultura pode impor. Como a esmagadora maioria das pessoas é totalmente inconsciente (no que se refere aos “porquês” de suas atitudes), torna-se fundamental um manual de conduta ou código moral para nortear o que se pode ou não fazer, já que, como as ovelhas, precisamos de quem nos leve.

O grande problema é que vagamos pela vida com essa profunda inconsciência, destituídos de liberdade de pensamento, estamos sempre nos apoiando nessas velhas frases e não tomamos nossas decisões de forma lúcida e isso nos leva a projetá-las nos demais. Se todos temos uma sombra que nada mais é do que esses conteúdos não vivenciados e reprimidos, nós enquanto coletividade também os temos, e nos responsabilizamos pelas consequências da cultura que vivemos e que ajudamos a manter, seja pelo nosso conveniente silêncio ou total ignorância.

Nossa educação não se preocupa em formar pessoas que se conheçam e que, portanto, tenham recursos de encontrar suas decisões conscientes, mas apenas se preocupa em formar mão de obra e tornar todos incapazes de realmente saberem o que querem de si mesmos, transformando os diamantes individuais em pedras comuns, condicionáveis e manipuláveis. É uma alquimia às avessas.

A resposta para sabermos o que seria o “bem” ou o “mal” precisa que saibamos quem somos e isso, infelizmente, nunca será fornecido pelo Estado (leia-se “educação” que sempre trabalha pela ideologia que está no poder), seja de que lugar for. Não se formam pessoas livres, isso é perigoso demais!

Como já escrevi artigos anteriores, conhecer-se significa saber o bem que se é capaz de fazer e os crimes também. Aliás, o que seria da sociedade sem as leis e punições? A maioria das pessoas só quer ver como real o bem de que são capazes. Penso que ele só será mesmo real, quando a consciência das nossas “capacidades” para o mal estiverem bem visíveis, tanto quanto as qualidades. O crescimento se dá quando, por escolha, e não por imposição, decido não fazer o mal e não projetá-lo, fazendo o bem. Esse autoconhecimento é da maior importância, pois através dele nos aproximamos daquele extrato fundamental, ou âmago da natureza humana onde se situam os instintos, como diz Jung.

Se o conceito de Deus é de totalidade, sem divisões, seus filhos também deveriam ser assim e esse é nosso destino evolutivo, mas enquanto fracionados pelo “certo” e “errado” estaremos em constante sofrimento e assim não teremos como continuar a caminhar em busca dessa totalidade.

Assim e só assim, será fácil decidir que é verdade ou mentira, fora disso, continuaremos como crianças pequenas, perguntando com os olhos arregalados e esperando que nossos “educadores” nos digam o que posso ou não posso ser ou fazer, se sou “bom” ou “mal”.

Tudo tem um preço e ser inocente é um dos mais caros.