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Montaigne e a morte

                   “Se eu fosse um fabricante de livros, faria um registro comentado das diversas mortes. Quem ensinasse os homens a morrer, ensiná-los-ia a viver. “

montaigne

Montaigne nasceu em 1533 e morreu em 1592, na França. É presença obrigatória em qualquer coletânea sobre filosofia e sua principal obra são os “Ensaios”, que manteve em constante revisão durante sua vida.

Dos considerados “Clássicos” seus escritos estão entre os mais acessíveis para o leitor. Sua linguagem é simples, direta e sem floreios gramaticais, comuns aqueles que querem fazer da filosofia um assunto somente para os “eleitos”. Montaigne fala sobre uma infinidade de assuntos, até alguns que poderão parecer estranhos para um filósofo famoso. Muitos temas se repetem aqui e ali durante seus textos, já que escreve de forma aberta, como se fosse uma conversa. Foi considerado o criador do gênero “ensaio”, que é uma escrita mais descomprometida com a rigidez, dando mais ênfase ao conteúdo do que a forma (a apresentação da obra). Não vou falar aqui sobre sua vida, mas sobre um dos muitos assuntos que fazem parte dos “Ensaios”: a morte. Se você se interessou em saber mais sobre esse cara simpático, que parece que bate um papo enquanto filosofa, no final tem um link para a primeira parte de um vídeo que fala sobre a sua trajetória. São três vídeos de menos de 10 minutos cada, onde sua vida e escolhas (algumas curiosas) poderão ser conhecidas.

Montaigne trata da morte em alguns textos que fazem parte dos “Ensaios”, principalmente: “Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou infelizes em vida”, “De como filosofar é aprender a morrer” e “De como julgar a morte”.

Quando cita Cícero afirma: “Filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e constitui como um aprendizado a vista dela. Ou então é porque de toda sabedoria e inteligência resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer”.  O interessante é que ao falar da importância de não termos medo de morrer, Montaigne na verdade fala da importância de viver. Como se, quanto mais você se torna inteligente existencialmente, mais viverá bem. Quem vive uma vida boa, não tem medo de morrer. Difícil é se perceber saindo da vida sem tê-la curtido. É como se fosse convidado a uma grande festa, tivesse pegado no sono e acordasse na hora de ir embora.

A vida sem a morte não teria sentido e tudo que somos e podemos ser deve-se a morte e da nossa duração efêmera. Um tempo médio de 75 anos, por exemplo, nos empurra para ações, buscas e realizações que precisam de pressa para que possamos delas usufruir. Nossa percepção de mundo está ligada a morte como acontecimento inevitável e até esperado a partir da velhice. Não nos assusta a morte de um idoso, mas nos choca e enche de angústia a morte de um jovem ou criança, não pela aparente injustiça de algo assim ocorrer, mas, principalmente, por nos lembrar de que essa falta de regra ou ordem para morte pode nos alijar a qualquer momento dos nossos sonhos e do contato com quem apreciamos estar. Afinal, tudo se baseia na fragilidade da vida, e, ao referir-se a isso Montaigne afirma: “ a instabilidade das coisas humanas que um pormenor basta para mudar inteiramente”. Tudo está sempre por um fio, nada está garantido ou certo. Um pouco de pressa, de lembrar que pode ser hoje o último dia, não fará mal a nenhum de nós.

Assim como Epicuro, que aconselhava a não nos preocuparmos com a morte, Montaigne nos aconselha a desprezá-la, mas nunca esquecendo que ela pode chegar a qualquer momento. Quando afirma: “O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. Mas quanta estupidez precisa para tal cegueira”. Desprezá-la para que não tenhamos medo, mas não esquecer que existe.  O bom e sempre saudável “meio termo”. De outro lado, mostra que a morte também tem sua utilidade, já que pode pôr fim a nossos males e sofrimentos, sendo, portanto, positiva e um atributo de Deus.

Ao citar Sêneca, lembra que “nenhum homem é mais frágil que outro e nenhum tem assegurado o dia seguinte”, fica o aviso que nada que possamos fazer ou ter garante-nos mais um dia de vida. Temos aqui, uma visão fatalista, que defende a ideia que temos um dia pré-determinado para morrer, onde nada podemos fazer para impedir. Isso se encaixa bem com o pensamento de Montaigne, que pede que façamos a vida ter valido à pena ser vivida a cada momento.

Também percebe a importância das sensações corporais e do nosso humor na nossa relação com o pensamento, a vida e a morte. Quando diz: “Quando não me sinto bem, as alegrias da vida me parecem menos valiosas, tanto mais quanto não estou em condições de usufruí-las a morte se me afigura menos temível”.

Essa importante reflexão mostra o quanto somos vulneráveis a muitas situações que podem nos fazer até pensar na morte como uma solução, como já dito anteriormente. Na verdade, não gostamos de sofrer, seja física ou emocionalmente; queremos fugir, terminar com o que nos angustia. O pensamento da morte como solução que acompanha o estado depressivo, tão comum em nossa época, já tinha sido percebido pelo filósofo. Montaigne pode ter tido um insight que mais tarde foi trabalhado por Espinosa; que nosso corpo “pensa” tanto quanto o que chamamos consciência, sendo, no fim, tudo uma só coisa. Se o caro leitor tem alguma dúvida, lembre-se da sua última gripe, por exemplo, e veja se com o corpo dolorido, a dor de cabeça e a coriza, dava para ser otimista e ver a vida com alegria…

Montaigne fala da vida como algo “neutro”, ou seja, nem bom nem mal em si. Sua filosofia nos remete a liberdade, a escolha livre de como viver. A liberdade é inseparável da responsabilidade para todo aquele que pensa racionalmente. Sua afirmação é contundente: “A vida em si não é um bem ou um mal. Torna-se bem ou mal segundo o que dela fazeis”.

Pode parecer uma incoerência com a visão fatalista já citada, mas não é. Afinal, podemos depreender que, independente de termos um dia certo para morrer, até esse momento, é nossa liberdade fazer da vida algo bom, que tenha valido à pena!

Essa responsabilidade sempre será um problema para quem acha que sua vida é conduzida por “alguém”. Nesse quesito, Montaigne disparou uma de suas máximas: “O homem não é capaz de criar sequer um verme, mas já inventou milhares de deuses”. É essa facilidade de criar deuses e seus atributos que estão no cerne dessa mania que temos de achar que tudo está traçado. Uma boa ideia para quem pensa que se deixar levar é ter fé.

Pedimos, equivocadamente, mais tempo de vida quando lamentamos os poucos anos disponíveis. Montaigne nos convida a imaginar como seria uma vida sem fim, nos fazendo pensar que tudo perderia a graça e que até nossos sofrimentos jamais acabariam. A morte é, sem dúvida, o tempero da vida e ao que a ela traz brilho; a intensidade das convivências agradáveis, as situações inéditas, ao entendimento do fim de qualquer mal, pela própria brevidade da vida. Saber que algo bom terminará aumenta sua intensidade e se Nietzsche leu os “Ensaios”, poderá ter ali se inspirado para o conceito do “eterno retorno”.

Os filósofos modernos têm por hábito tratar um tipo de literatura denominada de “autoajuda” com certo desdém, enfatizando sua falta de conteúdo e reflexão. Pode ser verdade para algumas e até, posso concordar, para a maioria. Todavia, muitos livros assim chamados são ótimos em meu entender. Se Montaigne estivesse vivo, certamente seus escritos seriam catalogados como uma “auto ajuda” de qualidade. Isso tiraria seu valor filosófico ou reflexivo? A citação que encerra esse texto mostra bem que existem “ajudas” que se forem aceitas e tornarem-se ações de vida são muito úteis:

“Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração ou no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante”.

A importância de Montaigne para a filosofia é inequívoca. Suas reflexões, não só sobre a morte, sobre a riqueza, a maneira de tratar as pessoas, de aceitarmos como somos e tantos outros conceitos são aplicáveis a um grande número de demandas que chegam aos consultórios de psicoterapia. Muitos o consideram o filósofo da “autoestima”, pela sua capacidade de relativizar e mostrar que de reis a plebeus a diferença não é tão grande assim.

Valeu muito para todos nós os anos que ele dedicou a meditar e escrever na torre de seu castelo, olhando para o teto lendo suas frases prediletas e observando a vida, seja em reclusão ou no seu tempo como magistrado. Com sabedoria, nivelou os principais problemas humanos tornando-os o que são; pequenos, diante de todas as possibilidades da vida pode oferecer.

Não há dúvida que a vida de Montaigne valeu a pena ser vivida e seus “Ensaios”, mais de cinco séculos depois são atuais, tendo lugar de destaque em qualquer biblioteca.

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Quer saber mais:

MONTAIGNE, M. Ensaios. Tradução Sergio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 1987, vol 1 (Os Pensadores).

Primeira Parte do vídeo sobre Montaige. Os outros dois estão no mesmo canal no You Tube:

Imagem de Amostra do You Tube

Cinderela

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes os aflitos, porque serão consolados.

 Felizes os mansos, porque possuirão a terra.

 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

 Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.

 Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.

 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de Mim.

 Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.

                                                                                     Matheus 5, 3-12 Bíblia Pastoral

“ O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência”.

                                                                                 Friedrich Nietzsche

“Os poderes estabelecidos tem necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos”

                                                                                            Gilles Deleuze

cinderela

Essa é a história, resumidamente:

Era uma vez uma família feliz! Papai, mamãe e a filha viviam felizes em um lugar maravilhoso, onde, parece, apenas dias de sol aconteciam, nunca chovia ou fazia frio. A menina era adorada pelos serviçais e até, diziam, conversava com os animais. Obviamente, todos eram lindos, com olhos azuis e tudo mais.

Um dia a mãe de Cinderela adoece e, antes de morrer pede para filha que, aconteça o que acontecer, que ela nunca deve deixar de ser gentil. Claro que ela morre e o pai que era uma espécie de caixeiro viajante, em uma de suas andanças comerciais, conheceu uma viúva que tinha duas filhas. Como alguém deveria ser feio (fora os serviçais) as duas filhas eram feias e egoístas. A mãe até que tinha lá seus encantos, afinal até o mal precisa de alguma beleza, vez por outra.

O Pai então decide casar-se com a dita viúva e a leva, com as filhas, para morar junto dele e da filha, que agora está crescida e deslumbrantemente linda. Mas, como a nova esposa e suas filhas aumentam o custo, o pai sai em viagens mais frequentes e, em uma delas, contrai uma doença e morre. Ao saber da morte do seu segundo esposo, a agora madrasta de Cinderela põe as manguinhas de fora e assume de vez o comando. Coloca a menina sempre sorridente e gentil para dormir no sótão, um lugar sujo, escuro e com ratos (isso não é problema, afinal ela conversa com eles, não esqueça!), passando para suas filhas invejosas e cruéis o quarto que era de Cinderela.

O tempo passa e, como o dinheiro parou de entrar com a morte do pai, a terrível madrasta dispensa os empregados e adivinhem quem assumiu todas as tarefas da casa, trabalhando de manhã a noite, sem descanso?

Isso mesmo, a sorridente e gentil Cinderela!

Mesmo as agruras do trabalho doméstico não a desanimam e ela continua sempre gentil (ela prometeu) e cada vez mais bonita, mesmo dormindo pouco, alimentando-se com sobras e estar sempre com a roupa suja e, levemente escabelada.

Um dia, cansada de tanta humilhação, mas deixando o almoço na mesa, ela pega um cavalo e sai pelo bosque, agora sim chorando, mas sorrindo ao mesmo tempo. Nesse exato instante o “destino” faz com que ela se encontre com um príncipe que, obviamente, fica encantado com tamanha beleza e pureza. Mas ela volta aos afazeres e nosso príncipe não consegue parar de pensar nela e, para encontrá-la, promove uma festa/baile, onde, por estar com o pai adoentado e a beira da morte, encontrará, dentre as presentes sua futura esposa e rainha.

Já naquela época não era fácil um casamento com um “partidão” rico, bondoso, bonito e justo acima de tudo. Todas as mulheres do reino começam os preparativos e ajustes para o grande dia, assim como a madrasta que manda fazer belos vestidos para suas filhas.

Cinderela (dependendo da versão não sabe que o rapaz é príncipe), sonha em ir ao baile. Costura um vestido antigo de sua falecida mãe e quando desce as escadas, deixa as suas “irmãs” no chinelo de tão deslumbrante que estava. A Madrasta não admitirá essa concorrência e rasga o vestido de Cinderela e a deixa em casa, proibindo-a de ir ao baile.

Tanto sofrimento e injustiça…..

Cinderela confidencia sua dor aos animais do jardim (um ganso, duas lagartixas, dentre outros), se perguntando o motivo de passar por isso. Daqui a pouco, surge uma fada que transforma uma abóbora em carruagem, o ganso em cocheiro e as lagartixas em lacaios, além, é claro, de dar para Cinderela um vestido maravilhoso e sapatos de cristal. Como as mulheres não mudaram, o que mais encanta Cinderela são os sapatos. Avisa que ela deve sair do baile à meia noite quando o feitiço se desfará.

Claro que você já sabe o resto: Ela chega no baile, é disparado a mais bonita, o príncipe fica extasiado rejeitando uma princesa de um reino vizinho que era a melhor indicação política para ele e dança só com ela a noite toda. Esqueci: Cinderela dança maravilhosamente bem, mesmo sendo esse seu primeiro baile na vida.

Daí, o sino começa as doze badalas, ela sai correndo e perde um sapato (dizem que foi de propósito para ter motivas para voltar). A Madrasta desconfia dela e a prende no sótão, onde para espantar a dor ela canta, com sua também bela voz.

Daí o príncipe sai de sapatinho na mão de casa em casa e a de Cinderela é a última do reino. Todas experimentaram e o sapato não coube em nenhuma. Nesse ponto a história tem um problema, pois tudo se desfez a meia noite, até o vestido, mas os sapatos não…

Deixando de lado esse pequeno detalhe, quando ia desistir, os animais do sótão se juntam para abrir a janela, coisa que Cinderela não pensou em fazer para pedir socorro, ela só cantava….

O príncipe ouviu aquela voz meiga, suave e encantadora, colocou o sapato no pé, viu que serviu e finalmente achou sua esposa. Antes de deixar a casa e ir para o palácio, Cinderela olha com doçura para sua madrasta e a perdoa, de coração.

Claro que viveram felizes para sempre, tiveram muitos filhos e nunca brigaram.

O Livro ou filme termina, você seca as lágrimas e diz: No fim, o bem sempre vence!

 

Claro que não é assim na vida real.

A verdadeira mensagem dessa história não é a vitória do bem sobre o mal. A mensagem é outra:

Aceite a exploração com um sorriso, trate bem quem te subjuga e aceite o sofrimento com gentileza. Um dia, tudo será recompensado!

Não sei…

 Histórias como essa existem para transmitir para nosso inconsciente essa ideia de que o que é bom fica para o final, ou quem sabe, depois do final em uma outra vida ou paraíso. Essa mensagem é obra que quem explora, afinal a riqueza acumulada vive sempre de muitos e muitos pobres.

Vamos passando essa mensagem subliminar de geração em geração e o sofrimento que nos é imposto, em uma vida sem graça e sem atrativos para a esmagadora maioria é aceita com alegria, afinal, o céu será a recompensa de tanto sofrimento e abstinências.

Estarão lá todos os sofredores e explorados, além dos camelos que vão ocupar o lugar dos ricos, passando pelo buraco da agulha, lembram?

Nossa cultura, faz do divertimento algo supérfluo.  A “boa” conduta é abrir mão de tudo que a vida tem de melhor em nome dessa purificação ou passaporte para o sonho de Marx, que só existe no “outro mundo”: uma sociedade onde somos todos iguais, desfrutamos os bens do paraíso em igualdade, não precisamos nos preocupar com comida, dinheiro ou moradia, não faz frio nem calor (temperaturas altas só no inferno), trabalho para todos(se houver) e não teremos mais dor ou velhice, já que espíritos não tem corpo. É ou não é a utopia comunista?

O grande problema é que essa outra vida ou paraíso “all inclusive” não tem garantia de que realmente exista e que será desse jeito. Terminamos abrindo mão de um outro conselho da cultura popular que diz: “Não troque o certo pelo duvidoso”.

Todo sistema de moral vigente, com suas proibições e definições de certo, errado e pecado tem uma só finalidade: tornar iguais pessoas diferentes. Essa diferença ou individualidade comprovada pela biologia não pode ser expressa em termos de vida na medida em que pessoas essencialmente diferentes precisam apresentar comportamentos iguais. Isso, é claro, facilita o controle, com o estabelecimento das diversas penalizações para quem sai ou desobedece em busca de viver essa singularidade: A lei, a punição divina ou a fofoca como meio de controle social.

O único mecanismo de escape socialmente aceito é a expressão artística ou comportamental. Mas como o sistema é sábio, mesmo os “transgressores” são engolidos. Isso acontece quando esse padrão comportamental rebelde vira moda e para isso se criam roupas, músicas e acessórios que, ao serem comercializados, trazem ganhos financeiros para seus idealizadores. Assim, tudo vira moda, que, por ser moda, seja usada por todos como outra maneira de tirar proveito até da crítica.

O termo felicidade é muito subjetivo, como tudo que se refere a pessoas diferentes. Assim, ao existir um padrão do que seja “ser feliz”, anulamos a possibilidade de cada um encontrar a sua, para buscar o que é reconhecido por todos. O modelo de perfeição que a religião institucionalizou nada mais é do que oferecer um padrão único do que será aceito no futuro mundo ou reino. Está aí, anulada, toda a possibilidade da diferença ser aceita como forma de expressão. Sobra só a busca pela saída do exagero, por símbolos de poder (diferenciação) ou pela química que relaxa o espírito e o corpo da pressão de sua anulação.

Essa espécie de ascetismo pregado como sendo a conduta do santo, só pode existir se nos sentimos culpados pelo jeito que somos e a privação da vida vivida plenamente vira a purificação devida. Somos um corpo com todas as suas possibilidades e negá-lo também é negar a própria vida. Em nome de quê?

Essa vida aqui é certa, comprovável e tem muitas coisas para nos alegrar. É feita de encontros, desencontros e a eterna novidade de sermos seres mutantes, outra particularidade que define tudo que é vivo. Aqui também se celebra, compartilha e dá para se divertir muito, até com bem pouco dessa coisa que nos ensinaram suja (nunca esqueça: lave suas mãos se mexeu com ele) que nos impede de acessar o paraíso: dinheiro!

Cinderela não é parâmetro, já que sua beleza não é comum e não temos muito príncipes solteiros muito menos muitas fadas disponíveis. A nossa heroína com sangue de barata, meio “boca mole” tirou em uma mega sena sem comprar bilhete. Se deixou oprimir, explorar e humilhar e foi salva pela única coisa realmente dela: sua beleza. Mesmo a própria história, não conseguiu anular algo de individual.

O que existe, infelizmente, são muitas e muitas vidas (maioria) que começam e terminam mal. Olhe em volta e veja o que o sofrimento, a penúria e a miséria trazem? Só mais do mesmo. Mas essa passividade só existe pela recompensa, pelo sofrimento trazer algo de bom. Será no paraíso que os anulados e oprimidos se vingarão, lá eles serão reconhecidos e os ricos e exploradores sofrerão para sempre. Será?

Não faça desse tipo de história algo que te console, mas que, de preferência, leve a uma saudável e inteligente revolta, à desobediência dessa vida de contrição, tristeza e sofrimento. Pode comer mais uma fatia de bolo, sentir raiva é humano, pensar em sexo é normal nesse corpo que habitamos, etc. Qual o problema?

Todas essas histórias e livros sagrados foram escritos por gente como eu e você, movidos por desejos de poder e expectativas. Olhe em volta e veja como todos têm problemas, sejam ricos ou pobres. Viver é assim, uma eterna novidade e surpresa.

A vida é como na sua rua, cidade e país. Maldades e coisas legais acontecem a todo momento e é isso que temos. Se teremos outra vida, algum paraíso ou inferno só saberemos(?) depois. O que é real é seu dia de hoje, família, trabalho, amigos, amores e, é claro, problemas.

Não se deixe mais enganar com promessas de reinos futuros e cuide em como vai contar essa história para alguma criança. Diga simplesmente para ela no final:

-Deu sorte essa Cinderela, mas se acontecer com você de ser explorado, não aceite, não permita que anulem sua individualidade! Não conte com nenhuma ajuda acima de suas forças.

As fadas pararam de fazer milagres faz tempo. Uma vida boa é responsabilidade só sua, de mais ninguém!

 

Cortina de fumaça

“É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.”   

                                                                  Clarice Lispector  –  Outros escritos

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber.”

                                                         Markus Zusak – A menina que roubava livros

 inconsciente

É comum dentro do processo da psicoterapia a pessoa conseguir resolver rapidamente o problema que a levou a procurar ajuda. Claro que isso não acontece sempre, afinal nada é mais imprevisível do que uma terapia, onde duas pessoas estão sempre em transformação (cliente e terapeuta). Existem obviamente situações que demandam mais tempo, mas quero me referir aqui a esse aspecto em particular.

A própria pessoa reconhece que o problema não é tão grave ou difícil (lembrando que todo problema é importante), mas tem dificuldade em entender o motivo de não conseguir resolvê-lo, ou conclui que a questão pode ser mais complexa e esse seja o motivo da demora.

Minha percepção mostra que essa “dificuldade” nada mais é que o problema em questão está sendo mantido ativo por atender a uma necessidade que está inconsciente (na maioria das vezes). Mas, afinal, qual o motivo de mantermos problemas que reconhecemos como simples no catálogo dos insolúveis em nossa vida?

A resposta é simples: os mantemos assim para não precisarmos enfrentar o verdadeiro problema, esse sim, mais difícil de resolver por sua solução, normalmente, afetar vários campos que estão estáveis na vida da pessoa e ser antevisto como muito sofrido.

Como diz o título desse artigo, é uma “cortina de fumaça” que esconde ou ajuda a nos entretermos com algo bem menos perigoso, enquanto esperamos duas coisas pouco prováveis de acontecer:

A primeira, é o dito problema se resolver sozinho, sem que seja necessário mover as montanhas que imaginamos que existem para sua solução, ou não precisemos sujar nossas mãos de sangue (é uma metáfora). Quando digo isso é por termos a ideia que nossa ação na mudança pretendida vai trazer sofrimento a outras pessoas e nos tirar alguns confortos. Além disso, sempre tem o medo da nova situação ser pior que a atual e que a mudança não teria sido um bom lance no jogo da vida. Como já frisei em outras oportunidades, dificilmente o que está ruim pode melhorar por si, enquanto a mudança traz a possibilidade de um quadro muito melhor no futuro.

Tudo que é vivo se caracteriza por ser instável, imprevisível e estar em risco, mas nossa mente detesta aventuras. Nunca esqueça que ela só gosta do “de sempre”, mesmo que esteja ruim ou esteja nos fazendo sofrer. O que se pensa nesse caso vem do ditado popular, que, como outros, estão no nosso subconsciente, como leis em nossa vida: “não se troca o certo pelo duvidoso”. Particularmente penso que se o que chamamos de “certo” é ruim, o “duvidoso”, pelo menos, abre algumas possibilidades.

Quando o caso é relacionamento tem o não menos famoso “ruim sem ele(a), pior sem”. Esse ditado afeta mais as mulheres, que na nossa cultura, infelizmente, só se explicam se estiverem acompanhadas. Parece que estar com alguém é um atestado de competência feminina, e esse “alguém” pode não ser tão bom assim. Se você é mulher e está me lendo, quero deixar claro que isso não a inclui, sei que isso não acontece com você e nem é assim que pensa, estou falando das outras…

Já no caso dos homens a palavra que comanda é a acomodação. Os homens, na sua maioria, lidam com o regular como sendo bom e mudar dá trabalho, despesas e um recomeço que, se o sofrimento não for insuportável, pode esperar uma outra oportunidade (que normalmente nunca chega).

A segunda maneira de não enfrentar diretamente o problema é uma pequena variação “mística” da primeira, só que mais absurda: entregar para “Deus” ou para o “Universo” a solução do imbróglio. Nesse modelo a situação fica risível, já que tudo fica resolvido de um jeito ou de outro.  Afinal, se a situação não muda (claro que não vai) é porque Deus não quer, e isso é um “sinal” de que se precisa continuar como está. Com certeza, tem a ver com “vidas passada” ou “carma” a ser resolvido e o sofrimento é uma purificação ou acerto de contas com a vida. Assim, meu sofrimento se torna algo útil que vai tornar minha próxima vida melhor, ou me encaminhar ao paraíso. Olha que inteligente: minha dor fica sendo uma maneira de me tornar uma pessoa melhor!

Você pode me perguntar: de que ditado vem essa abordagem confortável e de entregar para nosso deus a solução?

“Deus sabe o que faz”, ou, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mas, você pode preferir o inigualável: “Todo sofrimento é enviado por Deus para nos purificar e expiar nossas culpas”. Sofrer fica bom, traz vantagens e não preciso fazer nada para mudar!

Nossa inteligência não tem mesmo limites e a criatividade pode nos levar a lugares, realmente, inimagináveis!

Por isso, caso esteja acontecendo de você estar com um problema antigo, que você mesmo não consegue entender o motivo de persistir por tanto tempo, investigue se ele não está servindo para distrai-lo do que realmente seja o motivo da sua tristeza.

Isso é muito mais comum do que se possa imaginar e ninguém faz por mal ou covardia. Lembre que nossa mente não lida bem com nada que nos faça sofrer e isso sempre a deixa em estado de alerta. Nessa hora, mudar o foco e ficar olhando para “outro lado” é uma saída saudável do ponto de vista da mente.

Quando isso acontece no consultório, a pessoa sempre diz que não entende porque resolveu tão rápido essa questão que a incomodava a tanto tempo e tende a dar todo o mérito ao terapeuta. Por isso, sempre digo a meus alunos e futuros colegas que nem toda vitória da terapia é um mérito exclusivo do terapeuta, aliás,  nunca é.

Assim, uma solução rápida muito mais do que um resultado surpreendente pode ser apenas um aviso que o realmente importante e decisivo esteja por vir. O problema anterior foi removido e agora ficar-se-á cara a cara com o verdadeiro inimigo.

Como frisei, não é sempre assim e não são todos os casos, mas os consultórios, comumente, sempre tem um habitual cheiro de fumaça.

O Ponto Certo

“Um homem foi procurar um Mestre Zen e perguntou:

– Como você fez para chegar a esse ponto?

O Mestre Zen respondeu:

– Como quando tenho fome. Não como quando não tenho fome. Falo quando tenho algo a dizer e nada falo quando não tenho algo a dizer. Assim para tudo.

O Homem disse:

– Mas isso todos fazem, é o caminho comum.

Ao que o Mestre responde:

– Você não faz isso. Se fizesse, não tinha vindo a mim.”

Caminho do meio

O equilíbrio e bem estar tem uma receita simples. Precisamos pensar porque ela é tão difícil de ser conseguida, afinal todos poderíamos fazer isso. Pessoas que frequentam o “caminho do meio” encontraram o que se pode chamar de felicidade, palavra tão falada e muito pouco definível.

Mas como tudo em nosso mundo é dual, poderemos dizer sem esforço que não sofrer é estar feliz, concorda?

Todo problema é que a mente funciona baseada em extremos, trabalha sempre com a pior e mais sofrida possibilidade. Imediatamente esse pensamento se manifesta em reações físicas de tensão que precisam ser amenizadas e esse é o caminho dos excessos; a busca de rápido fim para o sofrimento.

O que vejo é as pessoas indo de um extremo a outro e nunca conseguem sucesso porque a oscilação do pêndulo é constante. Se estiverem, por exemplo, acima do peso, entram em uma dieta agressiva abrindo totalmente mão das coisas que gostam e isso gera sofrimento. Depois de atingirem seu objetivo na balança, voltam a seus prazeres (isso é normal) e o peso volta. Sempre os extremos.

Se a pessoa gosta de fumar, por exemplo. Não fuma uma ou mais carteiras em um dia porque gosta, mas porque precisa da nicotina para abrandar sua ansiedade. Para de fumar, e aumenta de peso, já que o problema continua e só foi trocado de escape. Sofre anos de saudade do “cigarrinho”. Extremo.

A pessoa é um apreciador de cerveja. Quando bebe todos os dias “um pouco” e muito aos finais de semana ou em alguma festa não está presente o apreciador, o degustador, mas o alcoólatra. Ele precisa de algo que o relaxe da tensão física advinda dos seus pensamentos angustiantes e de lembra-lo dos problemas que não consegue resolver.

Poderia citar ainda os usuários de drogar ilegais (a maioria é usuário das drogas patrocinadas pelo Estado), as compulsões por compras e jogos. Mas penso ter sido compreendido na essência do problema.

Assim as pessoas vão sempre de um extremo a outro o tempo todo e isso sempre é sofrimento, seja pelo excesso ou pela ausência do que gosta.

Não conheço nenhum apreciador de bebidas, seja qual for, que tenha  se tornado alcoólatra. O alcoolismo é excesso ou necessidade. Dá na mesma. Nunca vi ninguém se tornar dependente químico tomando algumas doses por semana. A questão é sempre de CONSCIÊNCIA. Se a pessoa aprecia, percebe as nuances, ela nunca consegue ficar bêbada, simplesmente porque o estado de embriaguez é resultado de inconsciência, ou seja, bebo os meus pensamentos e angústias e não a bebida em si. O tratamento mais popular do alcoolismo (quero deixar claro que não sou contra) é baseado no medo. Assim, a pessoa que está há, por exemplo, dez anos sem beber se diz um alcoólatra. Isso é no mínimo uma mentira, afinal como que alguém que não bebe é alcoólatra. A pessoa se mantém longe pelo medo de voltar a beber do jeito que bebia e pelo sofrimento que isso trazia a ela e sua família, mas de novo foi de um extremo a outro, e se está em um extremos, sofre!

Vamos para o caso da alimentação que é o mais comum. A pessoa não ganha peso pelo que come, mas pela quantidade que come. Quem come o que precisa nunca engorda, afinal o corpo tem uma inteligência e não quer morrer. Agora, quando a caloria e o doce viram anestésico emocional, a quantidade precisa ser grande e o aumento de peso é questão de matemática e tempo. Nunca vi quem come uma “fileira” de pequenos quadradinhos de chocolate virar chocólatra ou engordar mesmo que faça isso com frequência. Quem gosta, aprecia, conscientemente sente o gosto e a qualidade e recebe o sinal de satisfação no mesmo tempo de quem está angustiado. A diferença é a seguinte: um apreciou um pedaço conscientemente (lentamente), o outro comeu a barra toda, inconsciente e rapidamente e nem importa que marca seja. Estava sofrendo e queria algum prazer. Isso também vale para as comidas calóricas.

Já em relação ao fumo eu pergunto: O leitor (a) já conheceu alguém que teve problemas de tabagismo por ser fumante exclusivo de cachimbo?

Imagino que a resposta seja “não” e é simples de entender. O cachimbo exige um certo ritual e dá algum trabalho fazer aquele artefato funcionar. Os bons fumos custam caro, o que faz o fumante apreciar seu investimento e isso é estar consciente. Seja pelo trabalho de fazer tudo de novo, mas tenho certeza que pela consciência de ter apreciado, depois de utilizá-lo uma vez o cachimbo é limpo e guardado. Ninguém terá enfisema pulmonar assim ou problemas cardíacos advindos do fumo. Agora, quem está ansioso, tenso e sofrendo precisará de inúmeros cigarros para ter os vinte minutos de paz que a nicotina fornece por peça. O fumante inveterado nem percebe que acendeu o cigarro de tão inconsciente que está mergulhado em seu sofrimento mental.

Assim, toda  a série de doenças advindas dos excessos alimentares, álcool e tabagismo que estão matando cada vez mais e serão responsáveis pelo aumento geométrico nos casos de câncer nos próximos anos, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) advém da falta de equilíbrio. O uso desses recursos para suprir problemas emocionais e não por cada uma das  substâncias em si.

Não sou usuário nem defendo o uso de entorpecentes, mas faça uma pesquisa e veja se a maconha não mata muito, mas muito menos que o álcool e o cigarro, por exemplo, no mundo. Muitos países já descriminalizaram seu uso por saberem que, como os demais entorpecentes legais, o que faz mal é a quantidade.

O Mestre Zen de nossa história, mostrou que tudo que é feito conscientemente não leva ao desequilíbrio, pelo contrário. A questão toda sempre termina no mesmo lugar: se estamos conscientes ou não do que fazemos. Nos extremos sempre está a ausência do outro polo e o pêndulo está ganhando força para voltar. Assim a oscilação nunca termina e o sofrimento é certo.

Como já escrevi anteriormente o caminho do meio contempla os dois e porque não termos o que se gosta? Seja um bom fumo, uma bebida de qualidade ou apreciar uma iguaria calórica nada vai lhe fazer mal desde que você saiba (esteja consciente) do que faz.

Já tive o privilégio de profissionalmente conhecer pessoas que encontraram seu “ponto certo” a partir de um vício ou compulsão. No começo, precisaram se afastar do excesso para encontrar o equilíbrio. Hoje, porém, voltaram a poder usufruir do que gostam, mas não precisam mais disso para se acalmarem. Isso é mais do que se chama de cura pelo afastamento, é evolução!

A natureza vive dando os seus sinais e só vê quem tem olhos, como diria Jesus a seus cegos seguidores. Assim, observe ou pesquise no Google quais os animais que tem a vida mais longa. Dê uma olhada na lista e veja se lá tem algum rápido ou que faça tudo velozmente. A receita é a lentidão ou seja consciência. Não estou dizendo que uma tartaruga marinha seja um sábio ou um molusco* que vive quatrocentos anos tenha a receita da iluminação.

Apenas digo que se você estiver consciente poderá ter tudo, mas sem excesso e isso contempla os dois extremos  do sofrimento que é ter e não ter.

Certa vez, Sidarta Gautama resumiu isso como só um Iluminado poderia:

“Tudo existe, é um dos extremos.

Nada existe é o outro extremo.

Afasta-te dos extremos.”

Só isso.

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* O molusco Arctica islandica vive em média 400 anos. Há registro de um com 410 anos.

 

 

 

 

O terceiro fator

           “Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe”

Oscar Wilde

 

  “ Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma.

     Vivo em uma dualidade dilacerante.

     Eu tenho   uma aparente liberdade,  mas  estou presa dentro de mim.

      Clarice Lispector

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Muito se fala desse mundo de dualidade, do bem e do mal, da saúde e da doença, alegria e tristeza, etc. Todos já cansamos de ouvir que o caminho do meio é a solução para o sofrimento desse paradoxo. Sempre que estamos fixos em um dos polos estamos sofrendo, justamente por excluir o outro. Assim, por exemplo, sofremos se estamos doentes, mas também sofremos quando estamos saudáveis pelo medo da doença chegar. Isso vale para tudo.

A sabedoria do caminho do meio é inclusiva, nada despreza e atende o equilíbrio pela interação dos opostos. Ainda alguns pensam que estar “bem” é estar livre de problemas, pura ilusão! Estar “bem” é lidar com os problemas de forma evolutiva e pouco sofrida. Ansiamos por um dia em que nada nos preocupe. Se esse dia chegar (peça para o Papai Noel), estaremos preocupados pensando que preocupação teremos em seguida e qual será.

Mas existe ainda a, talvez, mais profunda e enigmática dualidade: entre a mente e o espírito (Self, ou qualquer outro nome que designe o imaterial ou eterno em nós). Qual seria então o caminho do “meio” entre esses antagônicos?

Em numerologia dizemos que o Três é o número perfeito, já que traz em si a completude ou a expressão da ideia. Assim os cristãos dizem “Pai, Filho e Espírito Santo”, os egípcios “Isis, Osíris e Hórus”, os Indus “Shiva, Brahma e Vishnu”. Fora da religião, temos o dia que se manifesta no amanhecer, entardecer e anoitecer. Da mesma forma temos o alto e médio e o baixo, o quente o morno e o frio e assim por diante.

Falta então para o entendimento da dualidade seu terceiro elemento, que  abrange e elimina o contraditório pela síntese.

Como sabemos, a mente se caracteriza pelo medo com objetivo da manutenção da vida. Isso explica sua função de nos manter constantemente negativos e apreensivos, mesmo nos melhores momentos. De outro lado, temos aquela “voz” interior que nos pede o novo, o arriscado, ou em outras palavras, a evolução. Para a mente o conhecido, para o espírito o desconhecido, afinal como crescer sem avançar? Avançar é ir além e buscar mais, vencer desafios e correr riscos, como consequência óbvia.

Nossa vida sempre é resultado dessa fricção entre os opostos e o destino é o outro nome que damos as nossas decisões. Poderia então haver algo mais do que a mente e o espiritual? Haveria esse meio termo que abarcasse ambos e nos aliviasse do sofrimento?

Se formos  pelos conselhos da nossa mente, ficaremos sempre na mesma. Ela precisa do conhecido e quer nos manter vivos, independente da qualidade dessa vida ou se estamos crescendo ou não. Mudança, só na necessidade quando não tem mais jeito.

Já o espírito, eterno e  “imagem e semelhança” da criação, não está muito aí para os cálculos e receios e quer mais que vivamos intensamente, pedindo novidades, que o leve para novos caminhos e descobertas, seja qual for.

Assim, imagine-se como um empresário que tem dois assessores, um extremamente conservador e cuidadoso e outro completamente “louco” que só pensa em arriscar e inovar. Todas as decisões desse empresário passam por ouvir seus dois assessores e ele sempre busca a melhor escolha.

Se os dois assessores são a mente e o espírito, quem será o empresário, aquele que dá a palavra final?

Precisa ser alguém que não seja nem um nem o outro, ou os dois ao mesmo tempo, buscando o acordo.

Esse grande chefe chama-se, para mim, nossa Consciência, o terceiro elemento que completa o Humano.

Tenho certeza que já foram muitos momentos em que todos  internamente já ouvimos nossos “assessores” discutindo sobre nossa vida, se deveríamos ou não fazer isso ou aquilo. Quanto mais a discussão fica acirrada, mais vamos achando que vamos enlouquecer ou que entramos em um beco sem saída. Cabe lembrar que eles nunca chegarão a um acordo. Isso não é possível pela total oposição, deixando o entendimento entre ambos, impossível.

Atualmente com um alto nível de decepção com as religiões e seus resultados, e aqui cabe afirmar que elas não têm culpa, o problema é a expectativa ou essa transferência que fazemos para “alguém” resolver nossas questões, experimentamos um mundo cada vez mais ansioso. Essa ansiedade e suas consequências, como aumento das compulsões alimentares, álcool e drogas e tudo mais se dá para os que só ouvem a mente, procurando estancar o sofrimento, está adoecendo a humanidade. O medo advindo dos pensamentos negativos sem fim bloqueia o processo criativo e evolutivo, já que ficamos acuados por medo de que as mudanças que ansiamos não deem certo e viemos a passar necessidades ou privações. Quem tem na mente sua única maneira de viver, trata os pedidos do espírito com desdém, chamando-os de “viagem”, bobagens e outros nomes pejorativos.

Para os que só ouvem o espírito, muitas vezes as decisões são pouco trabalhadas, baixa persistência e mudanças constantes que também têm suas consequências, como por exemplo, a perda da capacidade de se ir até o final dos processos e correr riscos desnecessários. Tudo atrás das constantes mudanças imaginando cada uma como o que falta para atingirmos essa felicidade. Para eles, as precauções que a mente solicita são consideradas como covardia ou receios, a quem  não se deve dar ouvidos.

Assim, cabe ao grande gestor interno, a Consciência, saber avaliar e escolher o melhor caminho, dando razão ora a um, ora a outro e às vezes contemplando ambos.

Porém isso só é possível se entendermos ou soubermos qual assessor está falando e qual é a sua natureza. Lembre que um nunca trará pensamentos do outro. Esse exercício de observação não é difícil de ser feito, mas exige atenção a si mesmo e, principalmente, tomar essa posição de neutralidade e observação.

Nossa ligação com o corpo que habitamos nos empurra de forma natural e instintiva para a mente, afinal ela nos mantém vivos e isso é muito importante. Pode-se começar prestando mais atenção aos pedidos de novidade do espírito, permitindo que se manifestem livremente. Não os julgue, apenas observe a mensagem até o final. Nunca exclua pensamentos ou intuições que fazem seu coração vibrar de emoção e imaginar a sensação de realização. Aliás, sentir-se realizado é outro nome para a coragem de ter vencido as precauções da mente.

Depois, procure conciliar levando em consideração a natureza dos conselhos e encontre esse caminho do meio que nos recomenda Lao Tse.  Busque seu crescimento sem desprezar ou analisar as circunstâncias e tome a decisão como um juiz ou o empresário. Como essa sentença (escolha) afetará a sua vida, responsabilize-se por ela e não se lamente pelo que não fez.

 Mudança sempre dá medo, mas é sempre necessário avançar. Tudo que chega ao seu limite inicia o processo de estagnação e é questão de tempo para começar o protesto da nossa parte que precisa avançar se mostrando em angústia e um vazio interior que nenhuma recompensa material consegue suprir. Nos alimentamos espiritualmente de sonhos e conquistas que nos façam melhores que somos. O que não quer dizer não refletir, ponderar e saber, vez por outra, esperar.

Lembre que tudo que está em processo de mudança cresce e está vivo, mas esse mundo material que vivemos exige ponderação misturada com coragem. Pratique e quando isso for uma experiência verá que na verdade não existem opostos, mas uma coisa só que se manifesta de duas formas.

Essa percepção da unidade só se dará pelo olhar do terceiro e decisivo elemento, a consciência.

Ao findar esse texto, é lícito pensar que tínhamos um problema quando começamos a leitura que era dar fim a essa divisão e agora o problema pode parecer maior, já que um novo integrante precisa ser ouvido. Não é isso.

A consciência não precisa ser ouvida, é ela que ouve!