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Um chá com Espinosa

Fazia frio naquela tarde onde o céu era límpido e o sol não conseguia ser mais do que uma leve sensação agradável. Enquanto caminhava pelas ruas, a temperatura ia mudando, na medida em que as marquises e os prédios altos faziam sombra. Já era meio da tarde e o vento gelado parecia fazer das roupas e cachecóis uma tímida defesa.

Quando chegou na casa de chá que frequentava, surpreendentemente não encontrou fila. Era uma casa antiga, da metade do século XX, que um extremo bom gosto fez de suas salas ambientes agradáveis e muito bem decorados. De todos esses pequenos espaços, o que mais gostava tinha na parede dezenas de pequenas luminárias que, mesmo acesas, deixavam uma leve penumbra. As mesas e cadeiras misturavam estilos e até os pequenos rasgos no tecido de um sofá estilo rococó faziam parte de um charme proposital. Em outra sala, malas antigas cortadas na metade eram colocadas na parede e a sensação que tinha era que elas vomitavam o tempo. Ao fundo, jazz instrumental.

A jovem e bela atendente de olhos verdes brilhantes trouxe o cardápio em uma mão e um tablet na outra, e o lembrou de apertar um pequeno botão na mesa quando tivesse escolhido. A tecnologia combina bem com o estilo antigo do ambiente, já que esse botão acionava uma luz no relógio do garçom avisando a mesa que estava chamando.

Estava sem pressa e o próprio clima do lugar ajudava. Parecia que lá dentro o tempo nada tinha a ver com a velocidade da grande cidade, onde milhões de pessoas correm atrás da sobrevivência, em uma luta que também envolve  insegurança e  violência. Nada mais comum a todo lugar onde a riqueza e a miséria são a condição da existência uma da outra.

Na mesa ao lado, um casal de enamorados tinha seu mundo dentro daquele ambiente. Mãos dadas descansando sobre a mesa e olhos nos olhos. Um dia, esse mundo será aumentado quando descobrirem que essa perfeição foi uma imaginação, uma expectativa. Como é bom pensarmos que tem coisas que, conosco, nunca acontecerão. Tudo que outros seres humanos passaram foi só com eles e a desilusão sempre será o resultado de uma expectativa exagerada, de nos tornarmos um pouco como todo mundo.

Diferente das outras vezes, trouxe consigo o livro que estava lendo. Não foi proposital, como um ato consciente, apenas ao sair de casa levou-o junto, sem motivo. Devia ser por estar pensativo sobre o que estava lendo. Sempre gostou de filosofia, mas de uns tempos para cá, que resolveu ir mais a fundo, talvez por buscar uma nova maneira de entender a vida. Na verdade, o fato dos humanos terem consciência de um dia morrer, os obriga a que suas vidas tenham um sentido, algo que os faça ter certeza que sua passagem não foi em vão. Certa vez, o grande Saramago disse em um de seus romances que as lápides são essa última tentativa de não sermos esquecidos, quando a vida foi comum e o desejo de criança de sermos algum tipo de herói não se realizou.

Suspirou para trazer a atenção de volta ao cardápio. Escolheu um chá de frutas e especiarias. Para acompanhar, um brioche levemente doce. Depois de fazer seu pedido olhou para o livro. A capa azul era um resumo da Ética de Espinosa, comentada por seus discípulos contemporâneos.

O livro o impressionara desde o início, com a primeira de suas proposições:

“Uma única substância para todos os atributos”.

Se fosse verdade, e parecia ser se pensarmos bem, tudo que aprendera desde a infância ruíra. Recebemos uma maneira de pensar e ver o mundo e nem sequer a questionamos. Espinosa mostra com clareza o erro de Platão ao nos oferecer sua dualidade primeira; o mundo dos sentidos e o mundo das ideias ou dentro e fora da sua famosa caverna. Foi justamente por aí que as religiões criaram seus paraísos, uma ótima forma de aceitarmos pouco dessa vida e dela desviarmos atenção. Claro que Platão pensava em um Universo finito e perfeito, coisa que Espinosa, quando filosofou, já sabia não ser verdade, lá por 1650. O caos que já naquela época percebíamos no espaço era uma das faces de uma inteligência criadora que Espinosa percebeu muito além de uma ideia de como controlar as pessoas pelo medo e pela culpa.

De qualquer forma, o Deus que ele mostra seria mais factível e menos improvável do que aprendemos a imaginar. Tudo nessa imanência que vivemos é uma emanação da transcendência eterna. Morremos para que Deus possa continuar Sendo, e apenas mudamos de forma. Nossa finitude é o atestado da eternidade de Deus, na ausência de tempo. Tempo que nossa mente cria para separar o nascimento da morte.

Incrível como um homem que viveu menos de cinquenta anos, teve tamanha percepção da vida, quase sem nenhuma tecnologia.

Quando o chá foi servido, sua atenção se voltou para o bule de porcelana pintado à mão. Impossível não lembrar da casa da sua avó. A xícara seguia o conjunto e a colher pesada só podia ser de prata. Para adoçar, um pequeno pote de mel. Deixou que o aroma do chá invadisse suas narinas. Uma delícia!

“Aumento de potência”, diria Espinosa, quando algo no mundo nos dá alegria. Claro que a tristeza, seu oposto, um dia no levará a morte, mas a vida longa, como um combustível é movida por trocas que nos tragam essa alegria. A cada encontro com o mundo, com pessoas e situações afetamos e somos afetados. Sabemos que o mundo é grande demais para nós e um dia não suportaremos, mas esses encontros alegres, a mudança que se dá em cada relação com a vida é o que conta em uma contabilidade em que o bem-estar precisa estar em vantagem.

Enquanto degustava o primeiro gole, sua mente martelava: “Um só mundo, tudo uma só coisa”. Espinosa trouxe o prazer de descobrir. Para ele, a essência da mente é o conhecimento (como Aristóteles, de certa forma, também dizia). Quanto mais se conhece, mais se realiza a grande virtude, ou, como ele mesmo diz: “quando a mente contempla a si própria e sua potência de agir, alegra-se”.

Deus tem misteriosos fins, dizia o Filósofo. Queremos compreende-Lo, e isso não é possível. Vontade divina é apenas o nome que a imaginação encontra para buscar entender o que não podemos, e o medo que temos diante do incompreensível. Tudo que existe possui causa determinada e necessária para existir tal como é, e os encontros com a vida é que serão por fim, nossa liberdade de alegria ou tristeza. Tudo é esse Deus; tudo que existe. Isso inclui sua dupla expressão: o bem e mal, que nada mais são do que maneiras de entendermos e darmos um rosto para o que acontece.

Pensou o quanto isso mudaria sua maneira de viver.

Encheu novamente a xícara. Percebeu que até hoje correu atrás de desejos e o que queria, na verdade, era só entender-se. Nos relacionamentos, mais do que desejar o outro, na verdade, queria ser o desejo do outro. Ah, os desejos…

Aristóteles dizia que parar de desejar era adoecer, já para os estoicos, desejar é estar doente. Vai entender…

Espinosa caminha por outra percepção. Desejo é força criadora, energia de vir a ser outro, novo e evoluído, enfim. Não percebemos isso e transferimos para os objetos, pessoas e ideias essa responsabilidade, da mesma forma que fizemos ao médico quando não conseguimos dormir. Mais do que buscar o motivo da angústia que leva à insônia, pedimos um remédio que nos devolva o sono e mantenha a tristeza que nos afeta intacta. Espinosa sacudiria a cabeça, com desânimo.

Comeu seu brioche com o último gole de chá. Espinosa evoluiu no pensamento rebelde e complexo de Nietzsche e, a partir do final dos anos sessenta com Deleuze e sua Esquizoanálise.

Agora pode entender o motivo de Espinosa e seus seguidores estarem à margem da cultura, afinal eles nos mostram uma maneira de ver a vida que nunca imaginamos. Quase um clamor para que vivamos intensamente o que temos, sem futuro, já que o futuro nos fará diferente do que somos e seremos outro, portanto.

Enquanto pagava sua conta, pensou o que Espinosa poderia dizer-lhe depois desse encontro. Talvez ele apenas diria:

-Alegre-se pelo que tens. Que bom que podes vir nesse belo lugar e poder tomar esse chá quente em um dia frio. Mais do que pensar no que te falta, veja o que a vida te proporciona e valorize! Seus desejos serão amenizados. Sempre haverá uma insatisfação, mas o que esperar de quem tem apenas um tempo para viver? Esse espaço em aberto que chamamos desejo, é por onde nasce a criatividade, que nos empurra avante, para sermos o que ainda não somos.

Quando voltou para a rua a noite já chegara. No inverno os dias são menores e uma golfada de vento gelado crispou seu rosto. Mas por dentro estava quente, não só pelo chá, mas por ter percebido que há um mistério chamado vida para ser vivido e descoberto, até que mudemos de forma, como afirma Espinosa.

Lembrou de ligar o celular e a internet lhe avisou de mais um atentado com mortes na Europa. Resolveu não deixar a tristeza diminuir sua potência de viver. São os que matam em nome de um deus que querem empurrar goela abaixo, ou simplesmente serem heróis de alguma coisa e dar sentido a vidas medíocres.

O que virá depois?

Não importa, pois enquanto pensar nisso, a vida “agora” não é vivida. Pensou que Nietzsche lhe daria um tapa na cara se estivesse diante dele.

Seria mais que merecido!

Cinderela

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes os aflitos, porque serão consolados.

 Felizes os mansos, porque possuirão a terra.

 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

 Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.

 Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.

 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de Mim.

 Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.

                                                                                     Matheus 5, 3-12 Bíblia Pastoral

“ O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência”.

                                                                                 Friedrich Nietzsche

“Os poderes estabelecidos tem necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos”

                                                                                            Gilles Deleuze

cinderela

Essa é a história, resumidamente:

Era uma vez uma família feliz! Papai, mamãe e a filha viviam felizes em um lugar maravilhoso, onde, parece, apenas dias de sol aconteciam, nunca chovia ou fazia frio. A menina era adorada pelos serviçais e até, diziam, conversava com os animais. Obviamente, todos eram lindos, com olhos azuis e tudo mais.

Um dia a mãe de Cinderela adoece e, antes de morrer pede para filha que, aconteça o que acontecer, que ela nunca deve deixar de ser gentil. Claro que ela morre e o pai que era uma espécie de caixeiro viajante, em uma de suas andanças comerciais, conheceu uma viúva que tinha duas filhas. Como alguém deveria ser feio (fora os serviçais) as duas filhas eram feias e egoístas. A mãe até que tinha lá seus encantos, afinal até o mal precisa de alguma beleza, vez por outra.

O Pai então decide casar-se com a dita viúva e a leva, com as filhas, para morar junto dele e da filha, que agora está crescida e deslumbrantemente linda. Mas, como a nova esposa e suas filhas aumentam o custo, o pai sai em viagens mais frequentes e, em uma delas, contrai uma doença e morre. Ao saber da morte do seu segundo esposo, a agora madrasta de Cinderela põe as manguinhas de fora e assume de vez o comando. Coloca a menina sempre sorridente e gentil para dormir no sótão, um lugar sujo, escuro e com ratos (isso não é problema, afinal ela conversa com eles, não esqueça!), passando para suas filhas invejosas e cruéis o quarto que era de Cinderela.

O tempo passa e, como o dinheiro parou de entrar com a morte do pai, a terrível madrasta dispensa os empregados e adivinhem quem assumiu todas as tarefas da casa, trabalhando de manhã a noite, sem descanso?

Isso mesmo, a sorridente e gentil Cinderela!

Mesmo as agruras do trabalho doméstico não a desanimam e ela continua sempre gentil (ela prometeu) e cada vez mais bonita, mesmo dormindo pouco, alimentando-se com sobras e estar sempre com a roupa suja e, levemente escabelada.

Um dia, cansada de tanta humilhação, mas deixando o almoço na mesa, ela pega um cavalo e sai pelo bosque, agora sim chorando, mas sorrindo ao mesmo tempo. Nesse exato instante o “destino” faz com que ela se encontre com um príncipe que, obviamente, fica encantado com tamanha beleza e pureza. Mas ela volta aos afazeres e nosso príncipe não consegue parar de pensar nela e, para encontrá-la, promove uma festa/baile, onde, por estar com o pai adoentado e a beira da morte, encontrará, dentre as presentes sua futura esposa e rainha.

Já naquela época não era fácil um casamento com um “partidão” rico, bondoso, bonito e justo acima de tudo. Todas as mulheres do reino começam os preparativos e ajustes para o grande dia, assim como a madrasta que manda fazer belos vestidos para suas filhas.

Cinderela (dependendo da versão não sabe que o rapaz é príncipe), sonha em ir ao baile. Costura um vestido antigo de sua falecida mãe e quando desce as escadas, deixa as suas “irmãs” no chinelo de tão deslumbrante que estava. A Madrasta não admitirá essa concorrência e rasga o vestido de Cinderela e a deixa em casa, proibindo-a de ir ao baile.

Tanto sofrimento e injustiça…..

Cinderela confidencia sua dor aos animais do jardim (um ganso, duas lagartixas, dentre outros), se perguntando o motivo de passar por isso. Daqui a pouco, surge uma fada que transforma uma abóbora em carruagem, o ganso em cocheiro e as lagartixas em lacaios, além, é claro, de dar para Cinderela um vestido maravilhoso e sapatos de cristal. Como as mulheres não mudaram, o que mais encanta Cinderela são os sapatos. Avisa que ela deve sair do baile à meia noite quando o feitiço se desfará.

Claro que você já sabe o resto: Ela chega no baile, é disparado a mais bonita, o príncipe fica extasiado rejeitando uma princesa de um reino vizinho que era a melhor indicação política para ele e dança só com ela a noite toda. Esqueci: Cinderela dança maravilhosamente bem, mesmo sendo esse seu primeiro baile na vida.

Daí, o sino começa as doze badalas, ela sai correndo e perde um sapato (dizem que foi de propósito para ter motivas para voltar). A Madrasta desconfia dela e a prende no sótão, onde para espantar a dor ela canta, com sua também bela voz.

Daí o príncipe sai de sapatinho na mão de casa em casa e a de Cinderela é a última do reino. Todas experimentaram e o sapato não coube em nenhuma. Nesse ponto a história tem um problema, pois tudo se desfez a meia noite, até o vestido, mas os sapatos não…

Deixando de lado esse pequeno detalhe, quando ia desistir, os animais do sótão se juntam para abrir a janela, coisa que Cinderela não pensou em fazer para pedir socorro, ela só cantava….

O príncipe ouviu aquela voz meiga, suave e encantadora, colocou o sapato no pé, viu que serviu e finalmente achou sua esposa. Antes de deixar a casa e ir para o palácio, Cinderela olha com doçura para sua madrasta e a perdoa, de coração.

Claro que viveram felizes para sempre, tiveram muitos filhos e nunca brigaram.

O Livro ou filme termina, você seca as lágrimas e diz: No fim, o bem sempre vence!

 

Claro que não é assim na vida real.

A verdadeira mensagem dessa história não é a vitória do bem sobre o mal. A mensagem é outra:

Aceite a exploração com um sorriso, trate bem quem te subjuga e aceite o sofrimento com gentileza. Um dia, tudo será recompensado!

Não sei…

 Histórias como essa existem para transmitir para nosso inconsciente essa ideia de que o que é bom fica para o final, ou quem sabe, depois do final em uma outra vida ou paraíso. Essa mensagem é obra que quem explora, afinal a riqueza acumulada vive sempre de muitos e muitos pobres.

Vamos passando essa mensagem subliminar de geração em geração e o sofrimento que nos é imposto, em uma vida sem graça e sem atrativos para a esmagadora maioria é aceita com alegria, afinal, o céu será a recompensa de tanto sofrimento e abstinências.

Estarão lá todos os sofredores e explorados, além dos camelos que vão ocupar o lugar dos ricos, passando pelo buraco da agulha, lembram?

Nossa cultura, faz do divertimento algo supérfluo.  A “boa” conduta é abrir mão de tudo que a vida tem de melhor em nome dessa purificação ou passaporte para o sonho de Marx, que só existe no “outro mundo”: uma sociedade onde somos todos iguais, desfrutamos os bens do paraíso em igualdade, não precisamos nos preocupar com comida, dinheiro ou moradia, não faz frio nem calor (temperaturas altas só no inferno), trabalho para todos(se houver) e não teremos mais dor ou velhice, já que espíritos não tem corpo. É ou não é a utopia comunista?

O grande problema é que essa outra vida ou paraíso “all inclusive” não tem garantia de que realmente exista e que será desse jeito. Terminamos abrindo mão de um outro conselho da cultura popular que diz: “Não troque o certo pelo duvidoso”.

Todo sistema de moral vigente, com suas proibições e definições de certo, errado e pecado tem uma só finalidade: tornar iguais pessoas diferentes. Essa diferença ou individualidade comprovada pela biologia não pode ser expressa em termos de vida na medida em que pessoas essencialmente diferentes precisam apresentar comportamentos iguais. Isso, é claro, facilita o controle, com o estabelecimento das diversas penalizações para quem sai ou desobedece em busca de viver essa singularidade: A lei, a punição divina ou a fofoca como meio de controle social.

O único mecanismo de escape socialmente aceito é a expressão artística ou comportamental. Mas como o sistema é sábio, mesmo os “transgressores” são engolidos. Isso acontece quando esse padrão comportamental rebelde vira moda e para isso se criam roupas, músicas e acessórios que, ao serem comercializados, trazem ganhos financeiros para seus idealizadores. Assim, tudo vira moda, que, por ser moda, seja usada por todos como outra maneira de tirar proveito até da crítica.

O termo felicidade é muito subjetivo, como tudo que se refere a pessoas diferentes. Assim, ao existir um padrão do que seja “ser feliz”, anulamos a possibilidade de cada um encontrar a sua, para buscar o que é reconhecido por todos. O modelo de perfeição que a religião institucionalizou nada mais é do que oferecer um padrão único do que será aceito no futuro mundo ou reino. Está aí, anulada, toda a possibilidade da diferença ser aceita como forma de expressão. Sobra só a busca pela saída do exagero, por símbolos de poder (diferenciação) ou pela química que relaxa o espírito e o corpo da pressão de sua anulação.

Essa espécie de ascetismo pregado como sendo a conduta do santo, só pode existir se nos sentimos culpados pelo jeito que somos e a privação da vida vivida plenamente vira a purificação devida. Somos um corpo com todas as suas possibilidades e negá-lo também é negar a própria vida. Em nome de quê?

Essa vida aqui é certa, comprovável e tem muitas coisas para nos alegrar. É feita de encontros, desencontros e a eterna novidade de sermos seres mutantes, outra particularidade que define tudo que é vivo. Aqui também se celebra, compartilha e dá para se divertir muito, até com bem pouco dessa coisa que nos ensinaram suja (nunca esqueça: lave suas mãos se mexeu com ele) que nos impede de acessar o paraíso: dinheiro!

Cinderela não é parâmetro, já que sua beleza não é comum e não temos muito príncipes solteiros muito menos muitas fadas disponíveis. A nossa heroína com sangue de barata, meio “boca mole” tirou em uma mega sena sem comprar bilhete. Se deixou oprimir, explorar e humilhar e foi salva pela única coisa realmente dela: sua beleza. Mesmo a própria história, não conseguiu anular algo de individual.

O que existe, infelizmente, são muitas e muitas vidas (maioria) que começam e terminam mal. Olhe em volta e veja o que o sofrimento, a penúria e a miséria trazem? Só mais do mesmo. Mas essa passividade só existe pela recompensa, pelo sofrimento trazer algo de bom. Será no paraíso que os anulados e oprimidos se vingarão, lá eles serão reconhecidos e os ricos e exploradores sofrerão para sempre. Será?

Não faça desse tipo de história algo que te console, mas que, de preferência, leve a uma saudável e inteligente revolta, à desobediência dessa vida de contrição, tristeza e sofrimento. Pode comer mais uma fatia de bolo, sentir raiva é humano, pensar em sexo é normal nesse corpo que habitamos, etc. Qual o problema?

Todas essas histórias e livros sagrados foram escritos por gente como eu e você, movidos por desejos de poder e expectativas. Olhe em volta e veja como todos têm problemas, sejam ricos ou pobres. Viver é assim, uma eterna novidade e surpresa.

A vida é como na sua rua, cidade e país. Maldades e coisas legais acontecem a todo momento e é isso que temos. Se teremos outra vida, algum paraíso ou inferno só saberemos(?) depois. O que é real é seu dia de hoje, família, trabalho, amigos, amores e, é claro, problemas.

Não se deixe mais enganar com promessas de reinos futuros e cuide em como vai contar essa história para alguma criança. Diga simplesmente para ela no final:

-Deu sorte essa Cinderela, mas se acontecer com você de ser explorado, não aceite, não permita que anulem sua individualidade! Não conte com nenhuma ajuda acima de suas forças.

As fadas pararam de fazer milagres faz tempo. Uma vida boa é responsabilidade só sua, de mais ninguém!

 

O combustível da vida

              “A felicidade é a compreensão lógica do mundo e da vida. ”

             “O homem livre não pensa em nada a não ser na morte; e a sua sabedoria é    uma meditação                      não sobre a morte, mas sobre a vida. ”

                                                                                     Spinoza

                                                                                                                        alegria

Baruch Spinoza foi, sem dúvida, um dos grandes filósofos da história e seu trabalho para quem procura entender melhor a si e ao mundo está mais atual que nunca. Mesmo tendo vivido pouco mais de quarenta anos, seu pensamento atingiu uma clareza impressionante. Incrivelmente, seu trabalho em relação a ética foi seu maior sucesso, mas sua visão do que é a vida, em meu entender, é superior. Seu “pecado” nesse aspecto é ter discordado da essência do pensamento de Platão, que ainda vigora como a visão “correta”, como se isso fosse possível em um mundo de pessoas diferentes. Talvez tenha começado aí, essa história de que existe um jeito “certo” de se viver, pensar e agir no mundo.

Spinoza era um pensador monista, isso quer significar que, para ele, só existe um mundo sensível e inteligível e que o homem é também um só, ou seja, o corpo que sente é o corpo que pensa. Platão diria que somos dois, um que sente e um “outro” que pensa. Assim, já podemos começar a entender, por exemplo, o motivo de termos pensamentos que não queremos ter. São pensamentos do corpo, como já citei em artigo anterior. Pensamos movidos pelos sentimentos e necessidades do nosso corpo, e ele dizia que “só podemos pensar o que somos a cada momento”. Mais tarde Nietzsche dirá uma de suas frases fortes: “Algo pensa em mim”.

 Dessa forma, Spinoza nos alerta que não temos muito controle sobre o que pensamos e poderemos, por que não, nos desculparmos por isso. Sabemos que viver em uma sociedade é abrir mão de desejos que não podemos ter e fazemos isso em troca de segurança. Mas nossos pensamentos buscam apenas nossa felicidade naquele instante. Assim, os pensamentos têm um problema em sua execução na busca de alegria; que isso seja permitido pelo mundo que vivemos.

Para ele, a vida é um conjunto de relações do corpo com os outros corpos e com o mundo, obviamente! Mas essa palavra “relação” precisa ser entendida em seu pensamento. Para nós relação tem mais a ver com trocas e negociações, mas ele dizia que relacionar-se é afetar e ser afetado, seja por alguém ou pelo mundo. Essa é uma visão mais complexa e que está vinculada a uma conclusão: Somos afetados pelo mundo e afetamos o mundo a todo momento e, essa troca, precisa trazer um resultado para que nos sintamos bem: alegria!

Spinoza diz que a alegria é como o combustível da vida. Quanto mais alegres somos, mais temos o que ele chama de “potência” e que, anos depois Freud chamou de “Libido”. No ramo da auto ajuda essa palavra chama-se “motivação” e por ser vista desse modo sempre tem um efeito curto. Estar motivado é estar alegre e é na relação com as pessoas e o mundo que essa alegria ou combustível vem, não o contrário. Por mais espetacular que seja uma palestra motivacional e fizer você rir e se imaginar capaz de tudo, será sempre uma dose de curta duração, pois a alegria que o manterá com potência ou força de viver vem dessa troca com o mundo e não de algo que alguém te dirá, sem uma compreensão profunda e uma mudança da visão da vida individual. Nada serve para todos, isso é partir do pressuposto que somos todos iguais e nos relacionamos de igual forma com o mundo e as pessoas.

Sua filosofia nos ensina, em outras palavras, que quanto mais alegria mais vivemos e a tristeza nos leva a morte. Dessa forma se nossas relações nos trazem alegria, vamos em frente com vigor, mas quando elas nos trazem mais tristezas e frustrações a vida se aproxima do fim.

Eu e você sabemos que essa é uma batalha perdida. Mesmo aqueles de nós que chegarem a uma idade avançada, pelas limitações do corpo e por tudo que teremos que parar de fazer, seja pela condição física, seja das restrições dos prazeres (que sempre fazem mal ou engordam), nossa alegria de viver vai diminuindo e a morte é sempre o fim. O próprio Spinoza, seguido depois por Freud, disseram a mesma frase:

 Morremos de tristeza.

Como se diz em postagens do facebook, “fato”!

Por isso a alegria é a maior resistência contra esse mundo agressor e opressor que vivemos, sempre nos dizendo “não” aos pensamentos que querem nos trazer alegria. Mas onde encontrar essa alegria?

Ela pode vir de relações, de objetivos, sonhos e de sabermos que estamos modificando o mundo para melhor. Essa modificação vem do nosso trabalho, do contato com outras pessoas e termos uma autoestima de sermos bons no que fazemos e somos, representando algo útil nesse mundo, ou como diria Aristóteles: Fazendo o que o universo espera que façamos.

Mas aí tem um problema que é cultural ou institucional, como queira. O mundo que vivemos nos aprisiona, nos rotulando e nos cobrando uma previsibilidade que, para Spinoza, não é possível. O motivo é simples; nunca nos repetimos, estamos sempre mudando e o mundo também, é claro! Tudo é inédito e não tem como querer, mesmo que você prometa ou faça mil juramentos que o que te dá alegria hoje, dará no futuro. Como saber, por exemplo, se tanto você como outra pessoa e a própria vida se modificam sem parar, que qualquer tipo de relacionamento pode ser para sempre motivo de alegria?

Dessa forma, mesmo que um dia a batalha seja vencida pela tristeza, por não termos mais forças para a luta, nosso compromisso é sempre entendermos essa mudança constante e buscarmos alegria no que fazemos. Cuidar dos relacionamentos, para que a rotina não tire aquela alegria do começo, que sempre ilusoriamente achamos que durará para sempre, e comece a trazer mais tristeza que o levará à morte. Mudar junto, aceitar que o mundo não se molda a nós e nem se importa conosco pode tirar o romantismo da vida, mas para isso sempre temos um bom filme para assistir.

No fim, nossa inteligência pode nos ajudar a encontrar outras maneiras de ver e lidar com as coisas. Com opções, fica mais fácil buscar uma visão mais alegre. Isso nos manterá, segundo Spinoza, com combustível suficiente para enfrentarmos aquelas situações inevitáveis que nos deixam tristes ou frustrados e que diminuem nossa potência de viver.

Se Spinoza influenciou Nietzsche, Freud e tantos outros podem também ser útil para você, afinal a filosofia só tem serventia se for aplicável a vida no seu dia a dia. A conta é simples: que a coluna da alegria nunca seja menor que a da tristeza e isso, depende de escolhas e um pouco de coragem.

Como já disse, um dia pereceremos nessa batalha, mas podemos tombar orgulhosos de termos vivido uma vida boa. Estamos aqui para isso (alegria). Sofrer e achar que isso é bom, só para os ignorantes, manipulados e explorados a séculos.

 

O cavalo e a carroça

“A felicidade é inacreditável. Parece que o homem não pode ser feliz. Se você fala da sua depressão, tristeza, amargura, todo mundo acredita, parece natural. Se você fala da sua felicidade ninguém acredita, parece antinatural”.

                                                                      Osho – O Homem que amava as gaivotas

A religião é comparável a uma neurose da infância”.

                                                                     Freud

“ Conhecimento sempre nos expulsa de algum paraíso”.

                                                                     Melaine Klein

                                                                                                                                                                                         carroça e bois

Freud é considerado o pai da psicologia moderna, note que falei “moderna”. A psicologia existe desde que alguém teve um pensamento. Evoluiu quando esse pensamento foi compartilhado. Portando, a psicologia existe a milhões de anos. Você pode argumentar que a ciência fala de 30 ou 40 mil anos do Homo sapiens, mas alguns estudos de paleoantropologia (sim, isso existe) datam artefatos descobertos que exigiram inteligência para serem feitos há, pelo menos, dois milhões de anos.

Antes de Freud a filosofia acumulou a função de psicologia nas reflexões dos gregos de 600 anos AC ou dos textos védicos, muito mais antigos ainda. Essa pequena introdução serve para dizer que o homem pensa sobre si e a vida faz tempo, e pelo visto ainda sem um resultado concreto.

O que está faltando ou estamos fazendo de forma errada?

Vivemos em um mundo tecnológico, praticamente sem fronteiras físicas e o que vemos é a humanidade cada vez mais angustiada e doente.

 Depois de mais de quarenta anos de pesquisa, Freud chegou à conclusão de que o homem não consegue ou não seria da sua natureza a felicidade. Chegou a dizer que: “A nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”.

Nosso medo da morte pela sua falta de sentido e de uma explicação que nos conforte, criou as religiões. Desde daí, passamos a aceitar o sofrimento como algo inerente a vida e que a felicidade é uma utopia, ou feita de raros momentos, que “duram pouco” como diz a cultura popular. Já o sofrimento pode ser diário e é encarado como fazendo parte da vida.

Incrivelmente, muitas pessoas tem até vergonha de dizer que estão bem ou felizes. Parece que é um “peixe fora d’água”, e traz até constrangimento diante de tanta infelicidade e sofrimento por todos os lados.

Ninguém que está feliz precisa de uma religião, ou sente a necessidade de buscar algum deus, apesar de sempre dizer que seu estado positivo é “graças a Deus”. Pensando assim, a única coisa que podemos conseguir por nosso próprio esforço é estar mal, o bem vem de uma graça ou dádiva divina.

As religiões que conhecemos vivem dos nossos medos e angústias, principalmente no ocidente. Uma criança, que vive plenamente não precisa acreditar em deus ou em algum anjo da guarda de plantão e vê-las correndo e brincando nas igrejas nos deveria fazer pensar. Pedimos para que elas se calem, falem baixo ou se comportem diante da introspecção e melancolia que se respira dentro de um templo. Igrejas são feitas para ritos de pecados, culpas, dores e muita tristeza.

A tristeza precisa de um templo, a felicidade faz da vida como um todo seu templo. Você já viu alguém feliz entrar em uma igreja e ficar orando, pedindo um milagre ou intervenção divina?

Enquanto continuarmos ignorantes em relação a nós mesmos e nossas possibilidades, viveremos como crianças, pedindo proteção aqui e ali nesse grande supermercado que virou a fé hoje em dia. Aliás, a fé possível é a que cada um carrega em si, acreditando e confiando nas suas capacidades de realizar seus sonhos apesar das dificuldades. Pedimos o que já temos, afinal somos humanos e deveríamos ser mais conscientes de como somos, funcionamos e, portanto, entendendo de onde vem nossas limitações e dos potenciais criativos que dispomos, naturalmente.

Se pararmos para refletir, veremos que os momentos de felicidade que experimentamos, ou de uma gostosa gargalhada que relaxa todo corpo tem em si apenas uma coisa em comum: o não pensamento!

Pensar é angustiar-se com as perspectivas de um futuro sombrio ou de lembranças de um passado de sofrimento. Não conseguimos lembrar de bons momentos e trazer de volta a alegria, mas das tristezas que passamos, choramos novamente e a dor é como se estivesse acontecendo agora. Isso é a mente funcionando e a falta de autoconhecimento faz pensar que só somos nossa mente. Qualquer libertação parte do pressuposto da percepção que se está preso.

O homem é o único animal que pensa e isso deveria nos fazer o único ser desse planeta a ser plenamente feliz, pois temos a possibilidade de termos consciência do fenômeno da vida e de apreciá-la. Mas ficamos somente com a parte do pensamento que é automática, negativa. Ser automático não tem a ver com inteligência, mas o contrário.

 Estar consciente é um esforço que nos afasta do lado sombrio e pode nos fazer sentir a felicidade, que só é possível se dissociando ou se afastando da nossa parte animal, que busca apenas sobreviver. Nos preocupamos em saber de onde viemos, o que acontecerá depois da morte, se temos algum “carma” de vidas passadas a cumprir, se quando fomos concebidos nossos pais se amavam ou estavam brigando e algumas outras bobagens que nos mantêm em constante tensão.

Quem está consciente no “aqui e agora” não tem nenhum carma para pagar e sai dessa roda de inconsciência, onde um sofrimento leva a outro como a sombra segue o corpo. Não há futuro, afinal nada sabemos sobre o que virá, já que a vida é constante movimento e imprevisibilidade. Passado também não existe, já que mudamos e nunca realmente passamos pelo  que a pessoa que já fomos  fez.  Até nossa memória, já está comprovado pela ciência, é composta de coisas que imaginamos, muito mais do que realmente aconteceu. Só pode mesmo ser assim, afinal, como disse anteriormente, não fomos nós.

Portanto, me permitam a ousadia, quero dizer que não existe “carma”, já que não é a mesma pessoa que cometeu algum ato no passado. São conceitos que sustentam religiões, muitas que se acobertam com o nome de filosofia, que nos mantêm eternamente culpados e com medo da punição divina de algum deus que nem se sabe se existe. Isso sem falar que pode alguma entidade estar perseguindo-o por algo que, uma pessoa que você hipoteticamente foi e nem lembra, ter cometido algum ato bárbaro na idade média. Por favor!

Todas essas crenças são possibilidades e existem tantas que deveríamos, pelo menos, usando a razão, duvidar de todas. Enquanto isso deixamos a vida real se esvair enquanto “viajamos” o tempo todo nas nossas preocupações.

Temos um potencial de felicidade inesgotável, mas nosso subconsciente foi programado por pessoas que também foram vítimas dessas bobagens e não há tecnologia que nos salve desse desconforto existencial. Isso sem falar na cultura, que inclui o senso comum e as religiões que só faz nos sentirmos em dívida. Ouço pessoas que me perguntam se o mal que lhes está acometendo tem a ver com alguma punição divina ou cármica por eventuais erros do passado. Isso não existe! Se existisse, seríamos marionetes e o livre arbítrio não teria nenhuma razão.

As melhores crenças que conheço (e respeito todas), são aquelas que conseguem resistir a, pelo menos, cinco minutos de análise racional.

Quem está consciente de si e se compreende de forma ampla já pagou os seus “pecados”. O maior sofrimento é a inconsciência e estar vivendo sob condicionamentos e medos que foram passados por pessoas também inconscientes. Devemos avaliar se quem nos educou ou ensinou é alguém que atingiu um bom patamar de desenvolvimento. Se não foi, desconsidere e esqueça tudo!

Só podemos ensinar o que sabemos e vivenciamos. Quem leva uma vida de tristeza e sofrimento só pode ensinar isso, mais nada. Não posso ensinar raiz quadrada se nem somar direito sei. Isso vale para tudo. Fico pensando no valor de algum conselho sobre relacionamentos, por exemplo, de quem nunca teve um ou conviveu com alguém tempo suficiente para saber, pelo menos um pouco do que está falando.

Estar consciente é a única forma de atingirmos essa felicidade, afinal só assim temos escolha, que até pode ser de sentir-me mal. Na inconsciência só a infelicidade é possível, já que a mente nunca nos presenteará com algum bom pensamento e existem muitos textos nesse blog falando e explicando isso.

Muitas pessoas procuram a meditação, por exemplo. Isso só acontece por estarem infelizes e procurando um remédio não farmacológico para seu problema. Osho diz que meditação e medicina tem a mesma raiz e isso é muito interessante. A meditação é, de certa forma, um remédio que se busca para uma mente agitada que já está trazendo doenças para o corpo.

Não é necessário meditar quando estamos bem, pois estar bem requer consciência e é isso que a meditação busca trazer. Estar em paz com você e com a vida, com toda sua loucura, já o torna alguém meditativo, não precisa fazer mais nada, apenas viver e isso inclui tudo: trabalho, aprendizados novos e das experiências que tivemos e até pensar no futuro como uma possibilidade, afinal, quem sabe? Mas ficar tenso ou sofrendo quando nada realmente está acontecendo nos coloca abaixo de onde deveríamos estar na hierarquia desse planeta pouco importante e até mesmo no nosso discreto sistema solar.

Muitos comentam que não sabem o que querem fazer nas suas vidas, que nunca se encontraram. O motivo é simples: estão vivendo a vida e fazendo as escolhas que lhe mandaram fazer, nunca as suas. Fazer as próprias escolhas é ser desobediente às vezes, é fazer o que se quer, sendo o que se é. Se somos cópias, como descobriremos quem somos? E o pior; na maioria das vezes, cópia de pessoas infelizes.

Não existe nenhum paraíso ou inferno para ir, afinal a vida é aqui e não em algum outro lugar. Estamos querendo garantir uma próxima vida ou um lugar em algum paraíso e abrimos mão de viver o que temos hoje. Isso supera qualquer tipo de insanidade.

Pode ser que não haja outra vida. E se não houver ou for de outro jeito que ninguém descobriu ainda? Essas respostas nada mais são que crenças que visam trazer algum sentido o nos dar alguma perspectiva, mas isso ninguém pode afirmar.

Quem está apostando no futuro para viver melhor,  em outra encarnação ou viver em alguma nuvem tocando harpa está esperando, evolutivamente, que uma carroça colocada na frente de um cavalo vá sair do lugar.

Se for, é só para ir para trás.

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Para saber mais:

O Homem que amava as gaivotas – Osho ed. Versus

A história secreta da raça humana – Thompson, Richard L, Cremo Michael – ed. Aleph

O Futuro de uma Ilusão – Freud S. –  ed. L&PM pocket

O reencontro

Crônica publicada no Folha SC em 05 de Janeiro de 2016.

O cinema estava lotado. Eram os antigos e os novos participantes da saga Star Wars, que depois de alguns anos voltou com alguns dos heróis dos primeiros episódios que datam do começo dos anos 80.

 Ouviram-se murmúrios quando Han Solo entrou em cena, eram os pais contando para seus filhos que Harrison Ford estava no episódio lá detrás e que o tempo passa para todos. Da mesma forma, a  princesa mostrou que lá nas galáxias distantes, apesar de muita tecnologia,  as mulheres envelhecem e não tem mesmo jeito.

No mais é a boa e velha luta do bem contra o mal, mas isso não importa. O legal era nos reencontrarmos como quando éramos há décadas e o filme soube explorar isso muito bem. Já no começo as letras que situam os mais novos sobre toda história, afinal os antigos nunca esqueceram, começam a correr pela tela como nos velhos tempos e isso trouxe a sensação que estávamos em casa.

As naves, como se esperava, eram grandiosas e as lutas no espaço eram com as mesmas pequenas e ágeis dos episódios antigos, com pilotos heroicos e imortais. Só morrem os desconhecidos e imagino que os que assistiram em 3D aproveitaram cada tiro e explosão.

Nossa heroína se mostra mais homem e corajosa do que os protagonistas que servem de escada para sua astúcia e inteligência. O primeiro episódio da nova série em tempos de igualdade e fim de preconceitos deixa em aberto seu romance com um sub-herói negro e penso que a reação do público (afinal isso é um negócio), deverá decidir se vai ser namoro ou amizade.

Tudo que deu certo nos episódios anteriores foi preservado e talvez o maior mérito do diretor tenha sido de não abusar da tecnologia.  Parece que tudo foi gravado nos anos 80 e só os personagens antigos envelheceram. Como não poderia deixar de ser, o famoso bar com figuras estranhas e uma banda muito engraçada fazendo o fundo musical não poderia faltar. Talvez ninguém tenha pensado nisso, mas as cenas desse bar, onde habitantes de todas as galáxias se encontram para um happy hour, tenha sido o primeiro manifesto a favor da diversidade no cinema.

As espadas luminosas são as mesmas e a novidade é que o mal agora usa uma luz vermelha e o novo Darth Vader oscila entre o bem o mal com pinta de galã, mas perde em convencimento se comparado ao original, mais elegantemente cruel.

As críticas oscilaram do “cansativo” ao “adorei”, mostrando a clara diferença entre os antigos que encontraram exatamente o que queriam e os outros, que só foram assistir  a um filme como qualquer outro e nesse caso não tem como chegar a um acordo.

Imagino que, quem não tenha uma ligação afetiva com a história não deve ter achado nada demais, afinal temos filmes de dez anos atrás com mais efeitos especiais, mas isso só faz sentido para quem estava no cinema nos anos 80.  Um casal sentado uma ou duas poltronas ao lado, ficou falando das lembranças de quando assistiram os episódios na época do começo do namoro. Para eles se a história é boa ou não, está longe de ser o mais importante.

Para os jovens que não entraram no clima, posso assegurar que um dia os vampiros da saga Crepúsculo aparecerão com seus netos lobinhos e com certeza, arrancarão os mesmo momentos de nostalgia.  Mas para isso, precisa ser cinquentão e ter um passado para lembrar.

O setor do entretenimento já percebeu esse filão faz tempo e quantos remakes já tivemos? Os “lá de trás” já tem sua vida feita e não vão se preocupar em pagar o que for para reviver emoções e pensamentos que a vida já os fez esquecer. Basta ver as grandes bandas que nunca conseguem se aposentar, pois seus fãs simplesmente não deixam, lotando seus shows e usando camisetas pretas desbotadas ou de um tamanho bem menor que a barriguinha que a prosperidade trouxe consegue esconder.

Claro que tem muita coisa legal hoje em dia, mas para nós ninguém vai se comparar aos Rolling Stones, AC/DC, Pink Floyd, Led Zepellin e tantos outros. Os músicos já estão na casa dos setenta, que somado a “vida louca” os fazem quase verdadeiras aparições. Mas o que importa é que seja nos filmes ou na guitarra de quem teve uma cabeleira e hoje usa mega hair para não decepcionar os fãs, a grande viagem é podermos nos sentir jovens com a vida toda pela frente novamente.

Se você está na casa dos 20 a 30 anos, um dia vai me entender, é questão de tempo.

Mas a vida segue e os bons sempre voltam. Já soube que em janeiro volta o inigualável “Arquivo X”, e seja como for, não estou muito preocupado se a “verdade” virá à tona. O que quero é ver a cara de tédio do agente Mulder e o charme misterioso da Scully.

Já estou na expectativa!